História Lápis-Lazúli - Capítulo 2


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Adolescente, Colegial, Drama, H2o, Magia, Romance, Sereia, Shounen, Tragedia, Tritão
Visualizações 15
Palavras 1.568
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Homossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Espero que gostem =3
Desde já, boa leitura! :-}

Capítulo 2 - Boas-Vindas à Superfície!


A história é, lamentavelmente e tal quais suas irmãs, uma ciência branca — escrita, maculada e difundida pelo homem europeu. Esquece-se ao tempo, portanto, certas ‘’vezes’’; vezes que, por diferentes causas, jamais receberão parágrafos num livro acadêmico. Vezes sequer dignas de introduzir o folclórico ''Era uma vez...'' às futuras gerações mirins. Vezes fadadas ao anonimato perpétuo.

 

Meu Cardume vive no mar da cidade de Santa Mônica, próximo às ilhas Santa Glória, um pequeno aglomerado de terra em meio à imensidão azul. Elas são desertas, parecem vazias na mesma medida em que são extraordinárias. Para muitos, não passa de um bom ponto-de-pesca ou área-de-mergulho, mas para o Cardume é muito, muito mais do que isso. É um lugar fantástico, onde a Lua alcança seu zênite e banha as águas com seu esplendor.

As Sereias Anciãs — Zafrina, Taqualah e Aqilah — convocaram a mim e a sereia com quem me dou pior, a mais preconceituosa delas — por eu ser um tritão —, que se chama Talassah. Ela tem dezoito luas e eu apenas dezesseis, tendo ela duas luas a mais do que eu. Nós emergimos da água, deixando apenas a cabeça de fora, e o Conselho das Sereias já estava preparado. Taqualah é a mais poderosa do Cardume, sua magia é tão intensa que seus olhos brilham em dourado. É nossa líder e sempre tem a palavra final, embora as outras duas não fiquem para trás. Tudo ficou em silêncio por alguns segundos, com apenas o som das ondas quebrando aos nossos ouvidos.

— Vocês chegaram a tempo — começou Zafrina. — Como sabem, uma vez a cada geração duas de nós são enviadas para Terra Firme, para conviver com os mortais por determinado tempo. Isso objetiva que o nosso segredo jamais seja descoberto.

— As escolhidas devem viver no mundo humano e garantir que nenhum deles está perto de descobrir sobre nós — completou Aqilah. —  Sobre nenhum Cardume.

— Felicitações, meus pequenos peixinhos — por fim, disse Taqualah. — Vocês são os escolhidos.

Meu coração batia tão rápido que tive a sensação de que estava tentando dar cambalhotas no meu peito.

— Pequeno Órion, sei que ainda não concluiu seu treinamento… seus poderes ainda são imaturos e você não tem um Anel-da-Lua. Por isso, decidimos escolher uma sereia que possa arcar com… suas necessidades. — Taqualah falou, serena como as águas após a tempestade. Ela lançou um olhar para Talassah, que estava com sua expressão totalmente fechada - dura, severa, como sempre quando tinha que trocar meia dúzia de palavras comigo.

Assim que tive a certeza de que a Anciã tinha terminado de falar, eu rodopiei ao redor de mim mesmo, mais animado do que eu posso descrever. A água espirrou para todos os lados, bem no rosto das quatro sereias ali presentes.

— ISSO! — exclamei, com um enorme sorriso no rosto.  — É o que eu sempre quis!

Todas as quatro olharam para mim como se eu fosse um tubarão-martelo. Eu limpei a garganta com um pigarro e acresci:

— Quero dizer… obrigado a todas por confiarem em mim.

— Estão liberados. — Zafrina olhava bondosamente para mim e para Talassah.

Com um sorriso imenso desenhado em meus lábios, mergulhei. Agitei a cauda e fui para perto da ilha. A paisagem submergida estava, como sempre, deslumbrante. Peixes de várias cores nadavam por ali, assim como pequeninos tubarões. Corais das mais diversas cores, anêmonas e algas marinhas. A areia era alva como a mais pura das neves, intacta, como todo o ecossistema marítimo da região protegida pelo Cardume. Nós, os seres da água, somos discretíssimos; mas isto não anula o fato de que estamos sempre por perto defendendo os nossos.

Quando me aproximei das redondezas das ilhas de Santa Glória, vi um pequeno barquinho de pesca ancorado à areia. Como sempre, coloquei apenas a cabeça de fora e tirei meus cabelos cacheados da frente dos olhos. Dois rapazes conversavam, rindo, tão desinibidos quanto uma gaivota a cantar. Com toda certeza, eles estavam lá para pescar. Isso só foi confirmado quando o mais alto, de cabeleira cor-de-cobre, arremessou uma isca na água.

Por que não ajudá-los?, pensei.

Submergi novamente e nadei até a isca. Os peixes sequer pareciam ligar para ela. Comprimi meus lábios um contra o outro, contendo um sorriso travesso que insistia em aparecer. Puxei bem forte a rede e pude perceber a agitação através da água. Dentro dela, todos os meus sentidos são muito mais apurados. Os garotos, com certeza, estavam bastante animados.

Soltei a rede.

O barco tremeu pela força que o garoto fazia até eu soltar, furtando-lhe o equilíbrio.

Tudo bem, de verdade agora. Me desculpa, senhor peixe. Mas é por uma boa causa.

Desenhei um risco com o dedo indicador na água e atraí a atenção de um peixe — e que peixe! Ele era bem grandão! — e apontei para a isca. Hipnotizado, ele se prendeu no anzol e, através de uma disputa de forças, foi puxado.

Acenei por debaixo da água, despedindo-me. Eles não poderiam me ver, mas eu senti que tinha feito minha parte. Além disso, ajudar marinheiros a pegar peixes impede que eles passem mais tempo próximos à ilha e, portanto, reduz as chances de verem alguém do Cardume — pelo menos, eu penso assim; fazer o que eu fiz é contra as regras. O barco não levou muito tempo até ter sua âncora puxada e deslanchar em direção à civilização.

Nadei até a superfície e coloquei a cabeça para fora d’água, assistindo conforme o veículo aquático se afastava.

Minha felicidade, porém, não durou por muito tempo.

Atrás de mim, alguém emergiu. Arrisquei olhar por cima do ombro e pedir para a Lua que não fosse Talassah. Mas acho que a Lua me odeia, porque era exatamente a senhorita chatice que vinha bem atrás de mim.

— O que pensa que está fazendo?!

— Bem… eu… hummm…
As palavras pareceram sumir.

— Não importa. Isso é contra as regras. Você deveria saber disso.

Como sempre, Talassah sendo insuportavelmente insuportável. Sério, ela tem o dom de fazer com que até as coisas legais fiquem chatas.

— Eu só queria ajudar. E, além disso, é só uma regrinha boba. Não foi nada demais.

— Que isso não se repita — ela disse, sem dar oportunidades para uma resposta defensiva. — Venha logo, estamos de partida.

— Puxa vida! — eu falei, animado, quase esquecendo do fato de que Talassah era chata demais às vezes (ou na maioria do tempo). — Sério?!

— É.

— Onde é que a transfiguração vai acontecer? Eu vou ter pés de verdade? Tipo… pés mesmo? De humanos? A transfiguração dói?

Talassah revirou os olhos, não ocultando seu desprazer ao falar comigo. Decidi me calar e só seguir o que ela dizia, embora não fosse tããão legal assim deixar alguém tão chato no comando. Ela mergulhou novamente e eu fui atrás.

A primeira das três ilhas que compunham Santa Glória estava deserta. Minha cauda azul se arrastou pela areia, com a ajuda dos meus braços, até que alcancei, pela primeira vez em minha vida, areia seca, exceto pelo rastro do meu corpo molhado para trás. A sensação era esquisita. Foi como tocar em… em… não sei dizer. Mas areia seca era muito diferente do que eu imaginava.

Talassah, porém, não pareceu se importar. Ela já tinha seu Anel-da-Lua, o que significava que ela passara por um rigoroso treinamento para recebê-lo e, assim, conhecia tudo sobre nossa história e a história dos homens. Tudo estava bem, até a mais velha apontar seu Anel para mim. Por um segundo mínimo — mínimo o suficiente para não existir — pensei que ela fosse me desintegrar com o poder do Anel. Ele é, tipo, um canalizador da força da lua cheia redirecionado a um pequeno objeto. Com isso, todos os poderes de uma sereia são ampliados como se ela estivesse sob a lua cheia.

Um feixe de luz irrompeu da pequena pedra cintilante no anel. Ela era tão poderosa que poderia ter me cegado por horas se eu estivesse olhando diretamente para ela. Senti meu corpo inteiro formigar e a ansiedade disparar. Eu estava completamente absorto nos pensamentos do mundo novo que me aguardava.

A transformação levou menos de três segundos. Quando meu corpo parou de formigar, eu estava de pé — e quando eu digo de pé, é sobre duas pernas. Sem cauda. Olhei para baixo e vi os meus pés. Eles eram exatamente como eu imaginava! Tão bonitos, assim como a minha cauda era. Eu trajava roupas humanas e, apesar de não saber o nome na época, vestia um shorts branco e uma camiseta verde-água. Por algum motivo, me estabilizar de pé era difícil. Minhas pernas não paravam de tremer em momento algum. Equilibrar era mais complicado do que eu imaginava.

— Talassah — eu falei, em um ar de súplica. — É assim mesmo? Eu não… não sei se vou conseguir ficar de pé por muit--! — E caí na areia, sujando todo meu rosto com os seus granulados. Até que não doeu. Tanto.

— Você é ruim em tudo que faz assim mesmo? — questionou ela, não se esforçando para ocultar o desprazer em suas palavras.

Quando virei-me na areia para encará-la, estava perfeitamente de pé. Usava um longo vestido azul que esvoaçava com o vento, os cabelos caiam pelos ombros como uma cachoeira castanha. Ela sabia perfeitamente o que estava fazendo, e sua expressão de superioridade demonstrava isso. Eu rolei na areia e virei para o outro lado, sentindo meu rosto esquentar. Se humanos ficam vermelhos, eu com certeza estava. Limpei os restos de areia do rosto e tentei me levantar mais uma vez.

E caí… de novo.

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...