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História Lar é onde o coração está - Capítulo 1


Escrita por: e DearLaLa


Notas do Autor


Da Bahia vamos direto para o Rio do futuro, que é um dos destinos desse novo ciclo maravilhoso. Confesso que estou beeeem nervosa, pois é a primeira fanfic que escrevo em muito tempo e acho que estou um tanto enferrujada (digamos que as coisas estão bem corridas do lado de cá). Escrevê-la, entretanto, só me fez lembrar do quanto me sinto bem, tão satisfeita, em estar criando histórias, inventando universos e diálogos para vocês. Então, sem mais delongas, apertem o cinto, que a viagem rumo a nossa sétima maravilha já vai começar!

Meus agradecimentos vão para @wonhoutboy pela capa maravilhosa e para @morphoria pela betagem magnífica. Muito obrigada! <3

Capítulo 1 - O lugar em que seu coração fazia morada


O pequeno garoto que tinha o brilho das estrelas grudado em seus olhos renasceu ali, perdido em pensamentos enquanto observava o fulgor dos astros passando rapidamente, como se corressem em direção contrária a dos astronautas que habitavam há meses aquela nave.

A expectativa e o encantamento eram os mesmos que sentiu há anos, quando fez o caminho inverso do que hoje faz. Na mente do pequeno Yunho, aqueles pontos pequeninos e brilhantes o lembravam das luzes de Natal, e o olhar endereçado a  eles era idêntico à mirada embasbacada que lançava para as árvores natalinas enfeitadas de ponta a ponta. 

“Ah… a saudade”, pensou baixinho, rememorando os poucos anos que o pequeno Yunho passou na Terra, mesmo que suas memórias não passassem de uma série de borrões desconexos o suficiente para nunca formarem boas imagens.

O pequeno Yunho, todavia, não deixou, em nenhum momento, que o medo lhe fizesse morada, enquanto o Yunho do presente achava aquilo tudo muito estranho. Parecia que, da sua versão do passado, havia sobrado apenas o brilho no olhar, pois o medo aparentava correr em cada uma de suas veias, assombrado pelas mais diversas possibilidades, quando, na realidade, sequer sabia o que esperar. 

Por isso, quase afogando em meio à angústia desse mar de possibilidades tão grandes quanto o próprio universo, respirou fundo algumas vezes e fechou os olhos, recostando sua cabeça no assento no qual estava sentado há horas. 

Expirava e inspirava numa velocidade constante, como se tentasse avisar seus neurotransmissores que a única forma de fazer tudo aquilo ser possível era através da mais profunda calma. A ansiedade não podia comandar seu corpo e sua mente. Não naquele momento em que apenas possibilidades catastróficas passavam por sua cabeça. 

Ao abrir os olhos, algumas dezenas de segundos depois, decidiu não fixar seu olhar melancólico no brilho das estrelas que pareciam viajar consigo. Pelo contrário, olhou para o pequeno globo de neve com um Cristo Redentor de braços abertos, que enfeitava a lateral do painel de controle da nave comandada por ele. Lembrou-se que, para o pequeno Yunho, aqueles eram os braços mais acolhedores que já vira na vida. 

A Terra que o pequeno Yunho conheceu, uma Terra do passado, foi assolada pela seca que matava de fome, pelo aumento da temperatura que destruía tudo o que um dia havia ficado em pé, e pelo aumento do nível do mar que deixava a todos sem chão para tocar os pés. Naturalmente, o planeta azul foi deixado pelos seus últimos sobreviventes para criarem colônia num planeta mais habitável e de nome complicado, com uma série de números longa demais para ser lembrada facilmente e que fora carinhosamente apelidado pelo pequeno Yunho como Planeta Safira, já que seus gelados mares, tão parecidos com os da Terra, brilhavam sempre naquele tom.

Estava em seus últimos minutos naquela terra entristecida, quase morta e com seu temido clima pós-apocalíptico, quando viu, num pequeno monte de areia, o pequeno globo de neve onde depositaria todas as suas esperanças de um dia voltar ao seu lar. 

Aquele pequeno souvenir, perdido, empoeirado e sem dono, foi a única coisa que o pequeno Yunho conseguiu levar em suas pequeninas mãos quando a última nave saiu rumo ao que, para ele, era completamente desconhecido. 

O Cristo de braços abertos, como até hoje chamava a pequena imagem do homem cinza, que lembrava concreto, envolta naquela diminuta e frágil esfera de vidro, era a única coisa que ligava não só o pequeno Yunho, mas também o Yunho do presente, à terra que um dia já chamou de lar. O lugar ao qual pertencia. O lugar em que seu coração fazia morada.    

Aquele pequeno objeto, para ele, representava a impressionante história da cidade que ficou submersa, e apenas seu principal e mais icônico monumento escapou da fúria implacável da natureza. Ele dava inúmeras interpretações àquele fato e tornou-se obcecado pela história da cidade que já não existia mais e da estátua que por tanto tempo a olhou imponente. Infelizmente, Yunho nunca pôde conhecê-la e, por toda sua breve vida, alimentou a vontade quase fantasiosa de voltar à Terra para conhecer o monumento que ele apenas via em miniatura pelo vidro fino daquele globo. 

Percebeu, porém, que havia perdido tempo demais em seus pensamentos, revivendo seu passado e suas memórias ligadas ao pequeno globo, quando ouviu a voz afoita do seu companheiro soar num dos fones que usava por dentro do capacete de sua roupa futurista de astronauta. 

— Capitão, estamos a 5 minutos de atravessar a atmosfera. Preparar para impacto. — A voz de San vibrava em expectativa, mas ele mantinha a seriedade que o momento pedia. Aquele chamado foi o suficiente para que Yunho tirasse o olhar do pequeno globo e passasse a encarar o planeta, quase todo pintado de azul — o suficiente para entristecer Yunho numa velocidade tão grande quanto o piscar da sua pálpebra —, que já se estendia imponente a sua frente. 

— Estamos chegando… — A voz de Hongjoong, que soou como um sopro nos fones de ouvido dos colegas, denunciava um cansaço que habitava na espera de um viagem de quase seis meses.

Os minutos seguintes foram reservados unicamente para que o impacto causado pelo choque com a atmosfera fossem minimizados e para que a aterrissagem ocorresse sem problemas no lugar estabelecido há anos, quando a ideia de uma viagem exploratória à Terra era apenas embrionária: Yunho queria ver o Cristo e conseguiu convencer todo o alto escalão de que aquele seria um bom lugar para iniciar a exploração que deveria se prolongar por algumas semanas.

Aquela era prova de que o pequeno Yunho era parte quase integral do Yunho de agora e do Yunho que viria a ser: com aquele pequeno globo em mãos, entrou na nave que o levaria embora dizendo que um dia voltaria para ver, em tamanho real, a escultura majestosa do Cristo acolhedor, de braços abertos, muito diferente do globinho que ele cuidou durante anos como se fosse seu único tesouro. Era, de fato, seu único de tesouro, já que acreditava que tal imagem irradiava esperança, sendo essa a única coisa que tinha naquele momento, especialmente quando afirmava que o Cristo nunca seria engolido pelo mar que avançava ferozmente terra adentro.

Não. Aquela não era uma possibilidade.

Por isso, com a expectativa tão latente ao ponto de querer levar suas unhas até os dentes, contava mentalmente os segundos que faltavam para a aterrissagem, num ponto alto da cidade que levava quase o mesmo nome que a sua missão: Rio 2197, fazendo também alusão ao ano em que estavam.

Não esperava, porém, que o impacto de tocar seus pés novamente naquela terra fosse ser tão forte, tão vividamente potente. Sentiu-se nas nuvens, e realmente estava, pois uma névoa densa cobria tudo o que poderia ser visto para além de três metros  à frente ou atrás de si. 

Havia chegado. Havia, enfim, realizado o sonho que colocara o esforço de uma vida inteira.    

Por isso, tirou o capacete que protegia sua cabeça e lhe conferia oxigênio durante a viagem, e chorou. Chorou tudo o que podia. As lágrimas caíam quase que teimosamente enquanto Yunho era amparado pelos colegas, que, exaustos e contentes pelo êxito da viagem, também choravam como nunca haviam chorado antes.

Os abraços acolhedores e a comemoração por terem finalizado aquela etapa da jornada os distraíram da imagem que pouco a pouco aparecia com a dissipação da névoa, que, em instantes anteriores, tomava quase completamente suas visões.

O silêncio quase absoluto, se não pelo barulho forte do vento e de alguns pássaros que voavam distantes, anunciava que não havia ninguém ali além deles mesmos. A ausência de barulho, para Yunho, tornou aquela cena ainda mais memorável, pois agora podia ver os raios de sol iluminando o mar. Os montes que antes eram gigantescos, agora não passavam de pequenas ilhotas no meio de um mar ainda mais imenso. A natureza que podia ser vista ainda era exuberante. O verde era tão vívido quanto o amarelado do sol que já assolava sua costas, mesmo que seu traje espacial protegesse sua pele.

Os breves momentos de contemplação e de uma calma inexplicável que tomou conta do seu íntimo foram rapidamente substituídos por uma expectativa gigantesca, como se de súbito se lembrasse do que o havia levado até aquele lugar. 

Começou, então, a olhar em todas as direções, como se sua vida dependesse de ver a imagem que tanto almejava. 

Direita, esquerda. Nada. Onde estava? Havia sido engolido pelo mar como metade do planeta? Não. Ele não podia ter feito aquela jornada até ali para nada, mesmo que houvesse realizado um trabalho interno para que a decepção ao não ver o que tanto queria não o destruísse.

O simples chamado “Capitão, olha!” que San o endereçara, com o braço apontado para um canto qualquer que a sua visão ainda não tinha alcançado, fez com que um fio de esperança o abraçasse por inteiro.

— O Cristo de braços abertos ainda vive. — Foi a única coisa que saiu da boca de Yunho, que preferiu entregar-se ao silêncio para contemplar a vista que fizera parte do seu imaginário por tantos e tantos anos, transcendendo o tempo e o espaço. Mesmo distante, o homem gigante de concreto era majestoso e se erguia imponente sobre um mar tão azul que já estava a alguns metros de tocar seus pés. 

Tateou seu bolso e tirou de lá o pequeno globo de neve. Deixou o objeto na altura dos seus olhos e o balançou por alguns segundos, o suficiente para ver os pequenos floquinhos de neve artificial dançarem ao redor do Cristo pequenino, que era o centro daquele souvenir.

Yunho, todavia, não pôde deixar de sorrir abertamente, deixando seus olhos bem apertados e fazendo suas bochechas rosadas pelo calor ficarem ainda mais sobressalentes. O medo de outrora fora substituído por uma felicidade que nem ele sabia explicar de onde vinha. Ele estava preparado para tudo, menos para sentir a mais leve e insustentável satisfação. 

— Eu cresci acreditando que podia nevar no Rio — a pequena observação fez os seus dois colegas de missão rirem com ele. — Mas, apesar de tudo, acho que zerei a vida, rapazes — virou-se para os colegas ainda estampando o mesmo sorriso que indicava a mais pura leveza.

Yunho não encontrou uma Terra curada. Seu lar continuava sofrendo as consequências da devastação causada por sua própria espécie, e ele sabia que apenas 30 anos sem homens a lhe talhar a vida não seria o suficiente para recuperar séculos de destruição. O silêncio sendo interrompido apenas pelo canto dos pássaros, pelo vento que soprava forte e pelo barulho do mar tão próximo de si indicava, porém, o que ele já sabia: que a Terra estava melhor daquele jeito, mesmo que ainda sofresse as consequência de um passado não muito distante.

Por isso, apenas se aproveitava daquele momento de contemplação para agradecer ao Cristo de braços abertos por lhe conceber a esperança necessária para uma dia voltar a pisar os pés onde, de fato, era seu lar. Naquele momento, podia se lembrar quase que perfeitamente, sem borrões estranhos afetando sua memória, do pequeno Yunho observando a Terra já distante da nave que o levara embora, dizendo baixinho para si mesmo que lar é onde o coração está, e o coração dele, de fato, estava ali, naquele pequeno e pálido ponto azul.



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