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História Last Piece - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Sexto Capítulo


As crianças voltam a se apertar contra Jackson, os ombros trêmulos protegidos pelos braços fortes do cirurgião. Os rostos cansados e assustados descansam contra o peito do pai e o chinês pode escutar o suspiro pesado que deixa seus lábios a cada novo passo rude que Jinyoung da na pequena sala, o sapato caro e brilhante se chocando contra o chão de maneira estridente. Youngjae é o que parece mais perto de desabar, os lábios pequenos e avermelhados tremulando a cada nova caminhada do coreano, os olhos cheios de uma vermelhidão característica de choro. O médico sabe que o filho mais velho também está assustado, mas ele cumpri a promessa feita dias antes, de ser o melhor irmão mais velho do mundo, sua mãozinha pequena seguindo em direção aos cabelos do mais novo, deixando ali um afago, tentando lhe transmitir algum tipo de conforto. 

Estão sentados no escritório de Mark na delegacia do centro da cidade e Jackson sequer é capaz de lembrar a última vez que precisou estar ali dentro. Nos breves segundos onde não está ocupado tentando apaziguar a agonia das crianças em seus braços, ele deixa que seus olhos corram livres pelas paredes de cor cinzenta. Observa os certificados do marido, o diploma, as menções honrosas. A quantidade gigantesca de papéis e documentos sobre sua mesa, a caixinha com suas canetas preferidas, todos os porta-retratos onde aparecem juntos como uma verdadeira família… Jaebeom está encostado contra a porta pesada, o rosto fechado em uma expressão taciturna. Os olhos pequenos acompanham cada pequeno movimento de Jinyoung dentro do cômodo e Jackson consegue notar pela forma como suas sobrancelhas escuras se franzem que ele também está perdendo a paciência. 

- Jinyoung… - ele o chama, a voz soando muito mais baixa que o habitual, mas é completamente ignorado. O coreano parece surdo diante de suas súplicas, ele completa mais uma volta inteira ao redor da mesa de madeira escura, segue reto em direção a parede oposta, a palma da mão se chocando contra o cimento frio. - Querido! - o chinês tenta mais uma vez, a urgência fazendo sua voz tremular. Os olhos castanhos se abrem de completo pavor e descrença quando nota as mãos de Jinyoung se fecharem em punhos apertados. Sabe bem o que ele está prestes a fazer, já viu o coreano cometer esse tipo de burrice, sua típica crise de raiva adolescente e enfadonha. Haviam tido muitas dificuldades diante disso no começo do relacionamento. - Park Jinyoung! - o primeiro soco encontra a superfície dura, descascando a tintura cinza e sem graça e Jackson está à beira do desespero total, o chamado deixando seus lábios quase como um grito de repreensão. É só aí que o policial decide agir, um suspiro irado escapando por entre seus dentes cerrados. 

Jaebeom caminha decidido em direção ao amigo, os punhos cerrados de forma apertada balançando ao lado do corpo. O maxilar marcado salta imediatamente e assim fica fácil notar que suas próximas ações não serão nada delicadas ou agradáveis, por isso Jackson se remexe contra o sofá desconfortável, apertando ainda mais as crianças contra sim, suas mãos cobrindo os olhos curiosos de maneira protetora. Jinyoung não pode evitar o contato brusco dos dedos de Jaebeom contra sua nuca, é lento demais, está sufocando na própria ira e desespero, sendo assim fica preso facilmente nas garras do outro. O Lim aumenta ainda mais a pressão contra a área fazendo o promotor girar lentamente sobre os próprios calcanhares, virando na direção do coreano de olhos pequenos e afastando-se completamente da parede meio deformada por seu surto de raiva. 

- Lá fora agora Park! Está assustando as crianças. - Jinyoung pragueja em voz baixa, o rosto se contorcendo em uma careta de dor a cada segundo que a mão do policial parece pesar contra sua nuca. Ele vira o rosto minimamente na direção de Jackson e o cirurgião é rápido em sacudir a cabeça de forma positiva, o incentivando a obedecer. As mãos fortes do promotor encontram o peito de Jaebeom com brusquidão e ele empurra o amigo, livrando-se de seu aperto e caminhando apressadamente para fora da sala. O Lim apenas suspira, as mãos ágeis rapidamente se livrando do amassado mínimo em sua camisa social e segue logo atrás do Park. 

Ele fecha a porta atrás de si com delicadeza logo após um sacudir lento de cabeça em direção a Jackson, o breve momento onde seus olhos se encontram é marcado por uma promessa muda de que tudo ficará bem. Então o cirurgião é deixado sozinho com os filhos e as centenas de pensamentos assustadores que rodeiam sua cabeça. Ele vê, através das divisórias de vidro, quando os dois lá foram passam como um furacão, Jaebeom estapeando os ombros de Jinyoung e o empurrando para seguir em frente todas as vezes que o promotor tenta virar o rosto em sua direção, e o médico jura que poderia até rir se a situação não fosse tão completamente caótica. 

Lá fora, os dois amigos se encaram, os rostos franzidos em caretas de desagrado. Estão finalmente longe o suficiente do escritório de Mark onde deixaram Jackson e as crianças. Estão longe também do burburinho contínuo da delegacia e de pelo menos uma centena de olhares curiosos, parados em frente a carros populares no estacionamento reservado para possíveis vítimas ou testemunhas convocadas para depoimento. O local não passa de um cubículo minúsculo, mal ventilado e extremamente decrépito na parte de trás da imponente construção de aço e vidro que é o departamento da Polícia metropolitana de Seul. É o local onde os oficiais vão para fumar depois de horas estressantes de expediente. Também é onde intimidam certos suspeitos que encontram mais dificuldade de abrir o bico. Um local abandonado e esquecido, pouco utilizado e cheio de privacidade… é assim que Jinyoung sabe que está prestes a ouvir Jaebeom falar. Realmente falar! Coisas duras e sinceras ao ponto de serem cortantes. 

- Você sabe que está completamente fora de controle, não é? - ele finalmente começa, as mãos na cintura e as sobrancelhas franzidas completando sua aparência de "policial mal". Mark geralmente era o policial bom nesse tipo de encenação. Os dois conseguiam muita coisa com esse truque velho e idiota. Mas agora Mark não estava ali pra lhe defender. 

- Tudo bem, me desculpe senhor delegado. - Jinyoung responde com uma meia risada, o escárnio pingando em sua voz. 

- Delegado? Foda-se a porra desse distintivo Park! Estou falando como seu amigo. E você vai me escutar, porque já estive calado por tempo demais. Se eu pudesse… Se eu apenas tivesse aberto a droga dessa minha boca grande todas as vezes em que realmente quis dizer algo, talvez Jackson nem tivesse saído de casa. Talvez vocês não estivessem trabalhando como condenados, idiotas e egocêntricos que só pensam nas próprias carreiras e esquecem que tem uma família. E talvez se vocês não fossem tão estúpidos, se eu tivesse falado algo, vocês não estivessem na porra daquele carro as três da manhã e agora Mark não estaria na cama de um hospital e você não estaria aqui agindo como um filho da puta! - o policial caminha de maneira agitada de um lado para o outro enquanto o turbilhão de palavras escapa por seus lábios pequenos. Todas essas revelações e a dor explícita do amigo fazem o coração de Jinyoung se apertar, ele passa gradativamente de chateado para completamente triste e odeia admitir que isso tem acontecido com uma frequência assustadora. 

- Jae… - ele resmunga na esperança de fazê-lo parar, mas o dedo em riste do Lim contra seu rosto deixa claro que ele apenas começou. 

- Cala a boca! Quer dizer… Agora você anda socando paredes quando está frustrado? E pior ainda,  xingando médicos em hospitais? Qual é cara, quem tem coragem de gritar com o Namjoon? Você esqueceu que esse cara chorou na sua festa de casamento? E no batizado dos seus filhos? E na festa de um ano? Na verdade ele chora com bastante frequência, mas isso não muda o fato de que você foi um babaca completo. E tudo bem se você quer fuder com seu casamento, com sua reputação ou até com a porra das suas mãos, mas eu não vou deixar você ferrar a cabeça daquelas crianças! Eu fui claro? - mais uma vez o promotor deixa que um muxoxo escape por seus lábios, as palavras ficando presas na garganta assim que seus olhos percebem o que Jaebeom realmente quer. O policial não está procurando respostas verbais. Provavelmente não está nenhum pouco afim de ouvir a voz de Jinyoung ou as desculpas que é capaz de criar para suas atitudes impensadas. Então ele desiste, balança a cabeça de forma positiva, demonstrando que entendeu, encolhendo os ombros como uma criança amuada. - Ótimo! Agora vá falar com o pessoal do retrato falado, aqueles filhos da puta precisam de todo detalhe possível para poder fazer um trabalho decente. Deus, você me irrita tanto que eu acabo parecendo um adolescente de boca suja… - o policial abandona Jinyoung no estacionamento decrépito, segue pelos corredores estreitos ainda resmungando como um velho meio caduco e muito amargo. Grita uma porção de ordens para a metade dos funcionários incompetentes que tem e então se tranca em sua sala por dez minutos inteiros para se recuperar antes de encarar o amigo médico mais uma vez. 

Assim que a porta se fecha com um baque bem as suas costas, ele sente os olhos arderem de uma maneira conhecida. Demora menos que um segundo para as lágrimas intrometidas molharem suas bochechas levemente salientadas e nem mesmo suas mãos fechadas em punhos ou a força com que morde seu lábio inferior pode refreá-las. Ele se arrasta até a cadeira mais próxima e desaba ali, sentindo-se pesado como um saco de chumbo. A tensão sobre seus ombros é pesada e o tempo parece correr cada vez mais rápido, sua incompetência e incapacidade de prender esse homem misterioso colocando as pessoas que ama em perigo vezes seguidas. Ele sabe que reclamou sobre a fúria infantil de Jinyoung, mas compartilha dessa frustração desgraçada que o aperta por dentro e o faz querer gritar. Por isso, em um ataque súbito de fúria e dor ele volta a ficar em pé, chutando a cadeira horrorosa a sua frente até que ela se torne apenas um amontoado de madeira inútil. 

Seu peito sobe e desce de maneira intensa, o pulmão gritando por um pouco de ar puro depois de um esforço tão excessivo. Exausto, o Lim se joga contra o tapete meio puído da sala, os ombros largos contra a porta de madeira, fingindo não ouvir os chamados assustados de sua secretária do lado de fora. Mais uma vez ele tenta se livrar das lágrimas em seu rosto de forma agressiva, as palmas suadas encontrando as bochechas apressadamente, tentando impedir aquele turbilhão de sentimentos que irrompe de seu peito. Mas não consegue. É difícil simplesmente ignorar tudo que viveu ao lado dos amigos. A forma como conheceu Mark, todos os anos que passaram juntos na academia de polícia, a quantidade incontável de noites que saíram juntos para beber e desabafar. Não pode ignorar a forma como viu o amigo amadurecer e formar uma família, a forma como o americano esteve ao seu lado enquanto passava gradativamente de um policial encrenqueiro para o chefe do departamento. Haviam enfrentado juntos noites insones em meio a cassadas de psicopatas pervertidos, dividido a glória por prisões bem feitas e mais um milhão de feitos importantes. Não havia uma vida onde Jaebeom poderia simplesmente não estar ao lado do Tuan. Eram parceiros! E não poder protegê-lo estava o matando, pois sabia que talvez se fosse o Tuan no seu lugar tudo já estivesse resolvido. Ele e aquele cérebro gigantesco dele, suas teorias e a mania filha da puta que tinha de pegar tudo no ar. 

Agora estava especialmente irritado com aquele criminoso. Estava farto de perder noites de sono, sentia saudade de seu apartamento no centro da cidade, de seus gatos e de poder viver uma vida longe de cobranças tão ferrenhas. Os superiores estavam em seu cangote, o bafo podre soprando contra sua nuca. Queriam que ele terminasse com tudo logo, não por amor a sociedade ou porquê tinham o desejo que os cidadãos coreanos fossem dormir mais tranquilos a noite. Estavam pensando apenas em seus próprios cargos, suas reputações, estavam tentando se livrar de seus próprios chefes, de suas obrigações. Eles queriam um culpado, e poderia ser qualquer um, contanto que pudessem exibi-lo em rede nacional para todos os urubus da imprensa. Duas semanas atrás, Jaebeom já se sentia no seu limite, os ombros doendo com o peso da enorme responsabilidade que tinha. Agora estava completamente transtornado de raiva e dor. Era seu o rosto que aparecia todos os dias na TV. Era sua voz monótona e cansada que repassava as notícias enfadonhas sobre estarem dando duro e estarem chegando perto, mesmo que não fosse realmente verdade. Por que ele tinha que ir atrás de Mark? E Jackson? Crianças? Não era o estilo daquele desgraçado. Ele parecia preferir mulheres indefesas e cheias de grana. Se ele soubesse, se pudesse ver o fogo aceso nos olhos do oficial, o demônio vingativo surgindo de dentro de seu peito, será que correria para longe? Jaebeom poderia apenas esperar que não fosse assim tão covarde, iria gargalhar no dia de sua condenação. Ele finalmente se põe de pé, abre a porta para dar de cara com o rosto cheio de preocupação da querida senhorita Chon, deixa um afago leve em seu ombro, tentando transmitir a pouca calma que tem e então caminha até o espaço meio vazio no centro do departamento, todos os olhos voltados para si. 

Podem me chamar de filho da puta se vocês quiserem, acho que já fazem isso pelas minhas costas de um jeito ou de outro, mas todos aqui terão horas extras aplicadas até que esse cara esteja atrás das grades. - por incrível que pareça não há exclamações de desaprovação, todos apenas balançam a cabeça de forma resignada, um ou outro tem uma expressão dura no rosto, algo que demonstra determinação. Mark não havia tocado apenas o seu coração afinal. - Não temos mais o cérebro grande do Tuan por um tempo, então dêem o máximo. Tenho certeza que ele deve ter ensinado alguma coisa a vocês. Vamos ao trabalho! - o Lim despensa toda a atenção que recebe com um aceno leve de cabeça e logo todos estão ocupados com seus trabalhos novamente. De onde está ele consegue ver o cabelo brilhante de gel de Jinyoung através das divisórias de vidro, os olhos focados do promotor no desenho que estão tentando montar e então com um suspiro ele caminha até Jackson mais uma vez. 

- Você não bateu nele, né? - é a primeira coisa que o médico pergunta quando o policial atravessa o batente do escritório do amigo. Um sorriso surge em seu rosto, talvez o primeiro do dia e ele é rápido em balançar a cabeça de forma negativa. 

- Não dessa vez! - ele vê quando os ombros do chinês sobe e desce, uma respiração profunda deixando seus lábios e então ele também se permite sorrir um pouco. Ao seu lado as crianças parecem meio adormecidas, deitadas sobre o sofá escuro, uma jaqueta sobre seus corpos diminutos. - Venha, vou te levar para casa. 

- Não sei se vou conseguir ficar lá sem ele. - Jackson segreda, a voz deixando seus lábios de forma sussurrada enquanto seus olhos muito grandes e muito amáveis se perdem na nos fios distorcidos do tapete. Ele parece ter envelhecido 20 anos em quatro dias e ainda tinha tanto para acontecer… Jaebeom chega ainda mais próximo, sua mão pesada sobre o ombro do outro, é todo carinho que consegue dar. 

- As crianças estão cansadas e você também. Precisa de um banho e um bom prato de comida. Quem sabe uma cerveja. - os dois sorriem. - Vem, eu fico com você até ele chegar, não vai demorar muito. - o médico não oferece nenhuma resistência após isso. Apenas agarra e acomoda da melhor forma que pode o filho mais velho, enquanto Jaebeom se ocupa com o corpo gordinho e pequeno de Youngjae, seguindo em direção ao carro. 

Há uma parada rápida na recepção para que o coreano consiga pedir aos funcionários que avisem Jinyoung para ir com a viatura quando acabar o retrato. Eles seguem viagem no carro do promotor, arrumando as crianças rapidamente em suas respectivas cadeirinhas e sentando-se em seus bancos com suspiros cansados. Jackson se nega a permanecer atrás do volante, oferecendo a direção para o policial com um aceno mínimo de cabeça. Sempre gostou de dirigir. A brisa leva de uma tarde quente bagunçando os fios de seu cabelo ou até mesmo as chuvas grossas de uma tempestade forte molhando seu rosto. Sentia-se livre e relaxado. Tinha também essa fantasia idiota e infantil sobre entrar em um carro e seguir em frente, sem saber exatamente o rumo ou quando voltar. E as vezes, quando tomava o caminho da enorme e fantasmagórica avenida em direção a casa que os três dividiam, era quase como se estivesse realmente realizando seus sonhos. Mas hoje estava esgotado. Não tinha ânimo para admirar brisas ou chuvas. Apenas se sentia cansado até os ossos. 

- O que está realmente acontecendo Beom? - Jackson pergunta subitamente. - Quem é esse cara e porque de repente a vida da minha família está de cabeça para baixo? - ele fixa seus olhos de maneira firme no policial, não o dando nenhuma possibilidade de se recusar a responder. Jaebeom suspira, os dedos batucando uma canção indefinida contra o volante, olhos fixos na estrada. 

- Isso começou mais ou menos a uns três, quatro meses e como é de praxe, no começo achamos que não seria nada demais. Era quase fim de expediente quando recebemos a primeira ligação sobre uma menina desaparecida na região de Itawon. Ela tinha por volta de 24, 25 anos, estava em uma balada com os amigos da faculdade e tinha simplesmente desaparecido. E todos nós, policiais idiotas e preocupados com protocolos, pensamos que ela era adulta demais para simplesmente desaparecer. Qual é, ela poderia ter encontrado um cara ou uma menina legal. Poderia estar muito bem curtindo a jacuzzi de um motel. No máximo a achamos muito babaca de não ter avisado a ninguém. Mas aí o telefone tocou de novo e era uma amiga da menina, que tinha sumido junto com ela. Ela estava trêmula, chorosa e desesperada. A achamos no meio do nada, machucada e traumatizada, sentada no meio de uma estrada de terra ao lado do corpo da amiga de infância. 25 facadas. Isso tinha matado ela. E o desgraçado também tinha levado seus olhos. - Jaebeom ver o momento exato em que Jackson estremece, estarrecido, enojado, virando o rosto rapidamente em outra direção para disfarçar o incômodo. - Duas semanas depois, aconteceu de novo. Duas amigas. Uma viva e traumatizada. A outra torturada, esfaqueada, morta e sem olhos. Sozinhas no meio de uma estrada vazia. Apenas um telefone meio quebrado e o pavor como companhia. Então parecia que esse depravado filho da puta estava por aí em baladas de alto nível, sequestrando meninas ricas, uma para matar, outra para assistir. E a pior parte de tudo isso é que não tínhamos nada. Nenhuma imagem, câmera de segurança, DNA. Só a cabeça confusa das sobreviventes. Ele fez isso mais três vezes. No último mês Mark quis que nós pudéssemos dar ao imbecil um pouco mais de palco. Holofotes. O que todo doente sem coração como ele parece querer. Foi só aí que começamos a noticiar publicamente, quase todos os dias, as atualizações que tínhamos sobre o caso. Estou surpreso que não saiba nada sobre. 

- Tenho trabalhado demais nos últimos meses. Por causa do… você sabe. - Jaebeom sabia. Havia lidado com um Mark recém separado e completamente focado no trabalho nos últimos três meses. Era como se o amigo tivesse virado um zumbi devorador de papeladas e litros e litros de café. Era doloroso de assistir. 

- Bom… Ele se tornou um pouco desleixado nas últimas semanas. Ainda que não existam evidências visuais de sua aparência ou o modelo do carro, ele deixou mais de uma das meninas vivas da última vez. Abriram a porta e pularam fora juntas. Elas foram e ainda são de muita ajuda. Isso nos fez chegar perto, muito mais perto do que em qualquer momento de antes. Tudo isso graças a Mark, é claro. Estávamos esperando retaliação, mas não achei que seria assim. Não achei que ele iria atrás de vocês… - o policial morde o lábio inferior de maneira nervosa e vira o rosto em direção a Jackson durante um sinal de vermelho. - Jack eu quero que saiba, sinceramente, se eu soubesse… se eu sequer imaginasse… você sabe, eu jamais permitiria que ele participasse disso. Vocês são a única família que tenho. Vocês e talvez um punhado de amigos no gabinete de Polícia. Nunca foi minha intenção machucar vocês de qualquer forma. Vocês… 

- Ei, calma! Jamais culparia você por algo assim. - o médico deixa que sua mão cubra a do amigo sobre a marcha e lhe oferece um sorriso pequeno e sincero. - Mark sempre soube o tipo de perigo onde esse trabalho poderia levá-lo. Muitas vezes sentamos juntos na varanda de nosso quarto e eu ouvi falar sobre desistir de tudo, pelas crianças, por mim… Mas nunca foi isso que eu quis, sempre insisti que vivesse seu sonho, mesmo que isso me deixasse amargurado e sozinho. Talvez eu tenha errado em não falar, talvez eu pudesse só ter pedido, “querido, vá um pouco devagar”... É, agora eu sei. Ele teria feito isso por nós. - ele suspira, voltando a se recostar contra o banco, os olhos de volta a estrada passando ligeira do lado de fora da janela. - Agora tudo que podemos fazer é viver o presente e torcer pelo melhor. 

-  Eu não vou descansar ou ficar satisfeito até ter certeza de que estão em segurança. Pode contar comigo. - o chines revira os olhos de forma cômica, mais uma vez um sorriso enchendo seu rosto, cheio de cinismo. 

- Nada de bancar o herói Lim. Se eu souber que anda desmaiando de fome por ai, juro por Deus que vou lhe dar uma surra. Já fiz isso antes, posso fazer de novo. - o coreano gargalha, vira o volante suavemente e logo estão se aproximando da garagem espaçosa do casarão. 

- Aquilo foi diferente, eu estava bêbado e despreparado. 

- Você só é ruim de briga, admita Lim. - Jackson bate despretensiosamente o cotovelo nas costelas do amigo que franze o cenho devido a dor leve e então os dois deixam o carro, suspiros cansados escapando pelos lábios mais uma vez. 

Enquanto Jaebeom se ocupa em acordar os pequenos, Jackson se afasta lentamente da garagem, as sobrancelhas franzidas devido a claridade excessiva do dia, estava sol demais para uma tarde de outono. Ele observa já do meio do jardim a casa que costumava chamar de sua. Todas as janelas de vidro que com o tempo eles precisaram cobrir de telas escuras para evitar acidentes. Nota saudoso o pequeno play graud abandonado na parte de trás, uma casinha de madeira triste, um balanço decrépito voando ao vento sozinho. Mesmo dessa distância consegue escutar o arranhar familiar de Milo contra a porta pesada da entrada, farejando no ar o cheiro gostoso de criança travessa de volta ao lar. Ele nota que os arbustos estão mais cheios do que deveriam, o gramado meio amarelado e feio. Há uma quantidade significativa de caixas de pizza e garrafas de cerveja no lixo, e os móveis, mesmo as cadeiras dispostas na varanda ou as pequenas mesas para possíveis tardes de churrasco, estão empoeirados. A piscina permanece vedada, intocada e provavelmente suja. Sequer parece que alguém viveu ali pelos últimos dias… O cirurgião se vira em direção a estrada  embalado pelo som familiar das risadas dos filhos, os gritos altos de felicidade ao reencontrar seu querido cachorrinho. Ele observa em silêncio os carros passarem lá em cima, a pequena e estreita estrada de terra até a porta da garagem. Nota a falta de vizinhança, a casa grande demais para tão pouca gente e de repente sente-se desprotegido e minúsculo, como em um filme de terror. 

Como em um filme de terror… Era exatamente o que tinha dito a Mark no dia que o americano havia lhe mostrado a casa. Lembrava dos três espremidos no carro popular que tinham na época. Jinyoung havia acabado de ganhar sua tão sonhada promoção e se tornado um dos promotores mais bem pagos de Seul. Jackson estava bem no novo hospital, era requisitado enquanto cirurgião, seus dias como um interno sem dinheiro no bolso haviam finalmente ficado para trás. Era hora de começar algo novo, ter uma vida mais confortável, um carro e uma casa melhor. Um pouco de luxo. Sim, definitivamente um pouco de luxo, uma recompensa por todas as outras coisas das quais precisaram abrir mão por tanto tempo. E então Mark parecia ter se apaixonado por aquela construção quase histórica no meio da rodovia. Não havia nada além de uma quantidade gigantesca de mata intocada aos arredores. Jackson lembra de ficar surpreso, nem sabia que ainda existia tanta natureza em uma cidade como aquela. O vizinho mais próximo ficava a mais ou menos 2 quilômetros de distância. O lugar era meio escuro, estava bem sujo, alguns pontos do chão de madeira corroído por cupins. A maior parte dos móveis planejados para o local estavam completamente inutilizáveis. A distância, a mata, a estrada de terra arenosa e cheia de cascalho, estreita o suficiente para acomodar apenas um carro de vez, tudo era assustador demais, dava calafrios. O cirurgião tinha evitado o máximo possível permanecer no local sozinho durante a reforma e em qualquer momento depois disso. Ainda era estranho o ranger nos degraus da escada, as portas que batiam repentinamente devido ao vento forte, os galhos agitados das árvores, mas Jackson fazia quase tudo para mimar Mark. E ele amava aquele lugar. 

Ele então caminha em direção a casa, afastando-se do sentimento estranho e correndo em direção aos filhos que o chamam sem parar. É difícil convencê-los a se separar de Milo para que possam tomar um banho, mas assim que consegue o banheiro se enche de novas brincadeiras, espuma e uma quantidade enorme de risadas. Mais uma vez ali, perdido em tarefas cotidianas, ele se esquece de todos os problemas e as responsabilidades gigantescas que o aguardam lá fora. Quando terminam, os pequenos estão tão cansados que sequer conseguem esperar pelo jantar. E como é sexta-feira, Jackson não vê problemas em deixá-los tirar um cochilo e acordar mais tarde para ver desenhos e comer porcarias. Opta por deixá-los no quarto do térreo, o menos decorado e com camas mais duras. Mesmo sob as reclamações constantes, ele sente que ali estão mais próximos, é fácil correr da cozinha até aquele lugar caso precise de ajuda. Enquanto fecha a porta para seguir em direção a sala de jantar, o médico faz uma prece silenciosa para que não precise correr, para que não haja perigo. O cheiro forte de comida boa comanda seus próximos passos e o chinês se aproxima da cozinha apenas para ver Jaebeom debruçado sobre algumas panelas. Os cabelos meio grandes estão molhados e ele parece ter trocado de roupa. Há também duas cervejas abertas sobre o balcão de granito escuro. 

- Se o gosto estiver tão bom quanto o cheiro, você será promovido de amigo do peito para meu segundo marido. - o polícia gargalha ao ouvi-lo, os olhos já pequenos demais sumindo completamente. Ele empurra delicadamente uma das cervejas geladas ao extremo em direção ao médico e volta a se ocupar de suas panelas.

- Desculpa, sou um cara monogâmico e nada homossexual. - desta vez é Jackson quem ri, sua cabeça se enchendo de memórias bem vividas de momentos bem homossexuais de Jaebeom durante a faculdade. 

- Monogâmico, ok. Heteros não são aceitos aqui. - é Jinyoung que responde, surgindo pela sala de estar com um sorriso pequeno no rosto. Ele se aproxima a passos lentos, os ombros encolhidos e os outros dois notam que é um pedido de desculpas silencioso. Jackson precisa saltar do banco onde está sentado para alcançar o chão de madeira gelado, então ele caminha em direção ao marido, se jogando contra seus braços e sentindo o cheiro que se desprende de suas roupas sociais. Perfume caro e forte, desgastado após o dia longo. - Desculpe por mais cedo. Eu… fiquei apavorado. 

- Tudo bem. Só não faça de novo. - o chinês murmura, o rosto ainda enfiado contra o peito de Jinyoung. Jaebeom os observa com um pequeno sorriso orgulhoso nos lábios enquanto leva as comidas prontas em direção a mesa. 

Eles ficam ali ao redor da mesa que é realmente muito maior do que precisam, comendo e apreciando o gosto meio amargo da cerveja, tentando fingir que a ausência de Mark não está os incomodando, que isso não é uma grande mágoa em seus corações. Eles sorriem ao relembrar das conversas que costumavam ter com o americano, a quantidade incontável de vezes que se meteram em problemas devido ao gênio forte do rapaz. Falam sobre as festas, sobre a faculdade, o casamento, o cigarro fedido que Mark costumava fumar. Fofocam sobre as crianças, a forma como tem crescido rápido demais, os colegas de trabalho e tudo que os aconteceu nos meses que passaram sem ter aquele tipo de reunião. Até que a melancolia conhecida que sempre nos atinge após uma refeição deliciosa os alcança e os três se encaram, os corações ainda cheios de medo, receosos pelo que os aguarda no futuro. 

- Jinyoung… - o policial pigarreia, chamando a atenção do amigo. - Será que poderíamos conversar no seu escritório? 

- De jeito nenhum! - Jackson se intromete. - Não vão ficar falando sobre esse caso horroroso e me deixar de fora. 

- Você é um civil! - Jaebeom aponta de forma óbvia vendo o amigo de cabelos claros revirar os olhos imediatamente. 

- Não ligo. É minha vida que está em risco também, eu tenho direito de saber. - os coreanos se encaram por algum tempo em silêncio e pela centésima vez no dia, um respirar fundo escapa por entre seus lábios. 

- Então… como foi com o pessoal do retrato falado? - Jaebeom pergunta, ainda meio desconfortável de ter essa conversa na mesa de jantar de seu melhor amigo. 

- Não sei bem… estava escuro, eu estava cansado. Mas se a ideia de Mark era que se tratava de um estrangeiro, acho que ele estava certo. Era loiro. Tipo, ridiculamente loiro,  não havia nada de asiático em sua fisionomia. 

- Não imaginamos que seria alguém de tão distante. Mark apostou que seria alguém de países vizinhos…. E você. - ele vira na direção de Jackson que os observa atentamente. - Lembra de algo? - o chinês suspira. 

- Apenas de um carro gigantesco vindo rapidamente na minha direção e dos meus filhos. Não me atentei a detalhes depois disso. Mas, se ele é estrangeiro em idade escolar…. Bom, não sei como funciona hoje em dia, mas as faculdades costumam ter programas específicos para esse tipo de estudante. Sei disso por causa da minha situação e da de Mark, são programas restritos e bem acompanhados. Se pisamos um passo para fora da linha, nos mandam para casa. Faz sentido ele ser tão incrivelmente cuidadoso se esse for o caso. 

- Não sei. Se ele passou os últimos anos do ensino médio na Coreia não precisaria de programas específicos para entrar na faculdade… - Jinyoung analisa. 

- Mas não faria sentido, a família dele está distante. Se estivesse aqui durante o ensino médio sua família estaria junto. - Jaebeom aponta. 

- Isso é só uma suposição. - o promotor insiste, mas já sabe o que o amigo vai dizer. 

- Bom, é melhor começar de algum lugar, não é? Vou fazer algumas ligações. - antes mesmo que o policial se afaste dos demais para apontar os novos caminhos na investigação para seus subordinados, o aparelho pequeno em suas mãos estremece. Ele franze o cenho, estranhando a coincidência, um arrepio agourento tomando conta de seus corpo. Era algo ruim, sabia disso. - Alô? Você tá brincando, não é? Por que ele ainda esta sozinho no hospital? Estamos sob ameaça caralho! Porra… Eu já tô chegando. - Jackson e Jinyoung estão em pé segundos depois, acompanhando atordoados Jaebeom até a porta. 

- O que aconteceu? - o médico é o primeiro a perguntar. 

- Ainda não sei direito. Vou ao hospital ver Mark e passo a situação para vocês. 

- Vou com você! - Jinyoung se prontifica imediatamente. Mas Jaebeom trava na porta, a mão pesada contra o peito do amigo, o empurrando de volta para dentro da casa. 

- O único policial aqui sou eu. Se acalmem e fiquem aqui! Aqui! Ouviram? - os dois apenas balançam a cabeça de forma positiva, o vendo sumir minutos depois pela estrada de terra. 

   [...]

Jaebeom mal pode acreditar na cena diante de seus olhos. Seu coração a muito acostumado com situações similares, acelera de forma louca. Parece seu primeiro caso, está a um passo de tremer, suar e chorar. Ele se obrigada a respirar fundo, vê pelo canto do olho o momento que afastam a maca com o corpo franzino de um Mark adormecido para outro quarto. Todas as outras pessoas no cômodo são polícias. Vestidos da cabeça aos pés com roupas paramentadas, colhendo qualquer mínima evidência. Sua mão coberta por uma luva analisa o pequeno saco de presente vermelho chamativo. Ali dentro, o glóbulo branco de um olho arrancado de seu dono e um bilhete escrito de forma sangrenta. 

" Você é duro na queda, oficial. Devo admitir. Mas espero que fique fora do meu caminho agora que virou essa coisa inútil. O castanho dos olhos de Jackson é a única cor que não tenho em minha coleção…"


Notas Finais


Desculpa a demora, é mais dificil escrever esse tipo de historia do que vocês imaginam. Me digam se esta fazendo sentido e obrigada por acompanhar!!!!!


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