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História Last Train To Heaven - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo II


Aquele “nada mau, miúdo” martelava-me na mente por dois motivos: primeiro porque ele tinha gostado de me ouvir e segundo porque há uma ironia tremenda ao chamar-me de miúdo quando as nossas idades não divergem tanto assim. Não me incomodo, no entanto, porque se olhar para o espelho não passo disso mesmo, de um miúdo: a cara pálida, a face despida de barba, o cabelo bem penteado para o lado, com um ar insosso, como se as coisas meticulosamente bem feitas me trouxessem esse ar ordinário.

Depois do seu elogio, Oliver deixou-se estar relaxado na cadeira sem dizer nada. Não me sentia, surpreendentemente, incomodado com o silêncio que se instalou, mas precisava de ir embora. Porém, quando me ia a levantar, Oliver, como se me adivinhasse a fuga, despertou do seu momento de calma e pegou na guitarra. Dedilhou-a sem nenhum padrão a seguir. Parou e ao fitar-me comentou que havia ficado com a música que tocara em primeiro lugar na cabeça. Sorriu deixando-me com uma sensação de calma muito boa, um afago quase indireto à alma. Depois deixou relaxar-se novamente na cadeira e respirou fundo. Comentou que estava um início de noite muito agradável. Posteriormente, sem mais nada a acrescentar e sem forma de Oliver adiar a minha ida, levantei-me e despedi-me. Agradeci o jantar e o convívio, a mãe acenou-me ao longe ao ver-me sair portão com Oliver que me levou a casa. Admitiu, pelo meio, que tinha gostado de me conhecer, que seria bom encontrarmo-nos novamente, mas não trocamos números de telemóvel nem nada que nos fizesse manter contacto. Simplesmente, ao chegarmos ao meu destino, Oliver apertou-me novamente a mão. Havia uma formalidade e, ao mesmo tempo, um à vontade tão grande que o contraste chocava um no outro. Percebia, ou queria antes pensar, que o aperto de mão significava, entre nós dois, um futuro amigável, uma passagem para nos conhecermos mais num futuro próximo, num dia qualquer, um encontro inesperado ou não. Talvez não tenhamos dito nada ou não tenhamos feito para nos encontrarmos um dia destes porque sabíamos que eventualmente nos iríamos cruzar outra vez. Talvez fizéssemos por isso, talvez andássemos pela rua à procura da cara de um do outro. Talvez, sem dizer a ninguém, tivéssemos a certeza do nosso reencontro por sermos amigos de Andrew. Talvez tudo isto fosse uma questão de probabilidades, de sorte, do acaso.

Oliver tinha razão. Quando, depois de nos despedirmos num clima incerto de reencontros e após sair do seu carro, senti o ar quente do verão a bater-me na cara em força, a primeira coisa que quis fazer foi ir até à praia. Seríamos parecidos assim? Gostávamos de música, da praia, do calor de Darwin. Quem sabe ele também goste das florestas e da natureza que cá nos rodeiam, talvez seja como eu. Parece tranquilo e eu, embora o medo se instale muitas vezes em mim, tento, juro que tento, parecer calmo. Há, então, um turbilhão dentro de mim, em várias situações, que são camufladas com um rosto neutro, a tentativa de um olhar tranquilo. Talvez ele também fosse assim. Porém, seja como for, Oliver é tranquilo mas tem uma pontada de extroversão, de graça, de carisma. Eu só gosto de estar no meu canto, de o observar a ser assim, como se isso me completasse e como se pudesse absorver essas qualidades. Quiçá, eu também o complete, embora me pareça estranho, com parte da minha timidez.

Entrar em casa e ser recebido pelo silêncio podia ser bem mais aterrorizante do que ouvir o barulho de quem já não suporta a companhia um do outro. Talvez só não estivessem em casa. Engano-me ao vê-los na cozinha, tendo a minha entrada despertado a atenção breve do meu pai. Nada diz.

— Chegaste tarde, Jack. Podias ter-nos avisado. — A voz da minha mãe soa para quebrar o silêncio. Tenta ser calma apesar de a preocupação se mostrar evidente. A preocupação alheia faz-me contrair o corpo e o peito. Coisas tão simples eram capazes de me fazer desabar que o medo sem motivo se fazia enorme.

— Desculpem, devia ter avisado. — Reconheço o hábito que me falhou. — Conheci um amigo do Andrew e acabei por estar com ele.

— Sentiste-te à vontade? — O sorriso da minha mãe acolhe-me por um pouco.

— Estranhamente, sim. — Lanço um sorriso. Sento-me na cadeira, suspiro por uma incompreensível tensão.

 — Já sabes o que penso… — O meu pai comenta finalmente, sempre sem me olhar. Não te apegues demasiado, filho. — Acaba por dizer. Enquanto isso, tira os óculos e pousa-os em cima da mesa, esfregando os olhos como se sentisse tremendamente cansado.

 — Está tudo bem. — Falo baixo, não me apetece falar disto.

— Já é difícil saíres e arriscares, quem dirá quando te apegas a algo... — Continua. —… és o único da tua idade que ainda não conheceu nada cá fora e que não sente a urgência de o fazer.

 — Já chega, pai, por favor. Não sou assim tão emocionalmente dependente. Gosto de cá viver, gosto dos meus amigos, gosto da minha vida aqui. Nada demais. — Tenho a voz arrastada, não quero mesmo falar sobre isto, dói-me a cabeça.

 — Está bem, então. — Penso que vai desistir do assunto mas continua.— Podias ser mais… sei lá... — Encolhe os ombros. — Podias arriscar mais! Se te apegares a tudo isto não quererás conhecer vidas novas. Sabes que esta cidade não te vai salvar a vida. Há tantos sítios para conheceres, tantas oportunidades… não será aqui que vais singrar na música.

— Eu nunca disse que quero singrar na música. Por favor, hoje não, agora não. — E saio sem grande alarido, apenas suspiro cansado já habituado a esta conversa.

A caminho para o meu quarto ouço-o ainda a conversar sobre a minha falta de coragem e sobre a minha acomodação e enerva-me a forma como ele acha interpretar o que quer que fosse vindo de mim. A verdade, ou aquela que eu insistia em colocar na minha mente, é a que eu não tinha que querer ser como os outros. Não queria ter que sair da cidade, conhecer nova gente noutros contextos quaisquer só porque todos os outros o faziam. Eu estava bem aqui. Interiorizava-o para que não me esquecesse disso. Porém, quando me deito na cama e fecho os olhos, sinto uma vontade enorme de chorar, porque se por um lado há algo que me faz crer fielmente que me sinto bem aqui, por outro lado há também algo que me sussurra que na verdade adoraria sair daqui por uns tempos e conhecer novas realidades mas que só não o fazia porque me faltava a coragem, fosse lá pelo que fosse.

Não cheguei a chorar. Acumulei tudo dentro de mim o que me deixou com um peso enorme, uma dor sufocante. Mas eu só queria esquecer isto então tentei manter-me distraído no dia seguinte. Os meus pais não tocaram mais no assunto do dia anterior. Perguntaram apenas como tinha sido o concerto e de onde tinha conhecido Oliver. Expliquei-lhes o dia de ontem, fiz-lhes um retrato físico de Oliver daquilo que me lembrava, o que me foi difícil porque os pormenores me falham. Eles ouviram-me, talvez com um pensamento sempre presente de "ele vai ficar emocionalmente apegado a Oliver", mas não me interromperam e tentaram mostrar que estavam interessados naquilo que dizia. Sentia-me como quem acabara de ser atropelado, mas não tanto fisicamente. Sentia-me mesmo angustiado e precisava de sair. Tentei acreditar que a cidade me daria consolo. Não deu. Fui até à praia, então, porque sabia que aí era inevitável não me sentir bem. Quando me sentei na areia e senti o meu corpo a amolecer, tudo estava bem e eu conhecia-me. Estou aqui, gosto de aqui estar, não há problemas. Ainda olhei ao redor na esperança remota e sem sentido de encontrar Oliver, mas sem sucesso. Não me chateou porque faria com que as coisas não me incomodassem, porque o mar perante mim me acalmava. Nada me aborreceria agora, nem mesmo o toque do telemóvel causado pela chamada de Andrew.

— Jack? Estás ocupado? Precisava da tua ajuda aqui no estúdio, será que podias vir?

Sorri. Eu sentia-me completo nesta cidade e, por momentos, senti-me estúpido por querer ser como os demais e sair daqui. Podia sentir-me realizado aqui mesmo. Hoje, acreditava mesmo nisso.

— Não te preocupes, vou já para aí.


Notas Finais


Obrigada pela leitura :)


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