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História Learn to Fly - Capítulo 21


Escrita por:


Notas do Autor


OLAR MARAVILHOSAS!
Tudo bão? Espero que estejam bem na medida do possível.
Continuo mofando em casa, mas me esforçando para adiantar vários capítulos para que sirva como entretenimento pra vocês (único presentinho que uma pobre autora pode dar, afinal de contas). O capítulo de hoje, como eu disse no anterior, vai ter em seu conteúdo muitas coisas sensíveis a respeito da vida de Amélia e Kimberly, e, em sua grande parte, é sobre mulheres.
Mas nos falamos melhor nas notas finais hahaha
Boa leitura!

"Sou corajoso o suficiente?
Sou forte o suficiente?
Para seguir o desejo
Que queima de dentro
Para afastar meu medo
Para ficar de pé onde eu tenho medo
Eu vou terminar com isso
Porque eu sou mais do que isso
Eu prometo a mim mesmo
Para mim e mais ninguém
Minha chama está se ascendendo" Halestorm - I am the Fire.

Capítulo 21 - I am the Fire


Fanfic / Fanfiction Learn to Fly - Capítulo 21 - I am the Fire

À noite, empoleirada na varanda do apartamento, atentei ao brilho colorido da área comercial da baía de Clarke Quay, usufruindo da paisagem para amenizar a ansiedade que me assolava. Algo naquela vista marítima trazia memórias indesejáveis da minha ida à Austrália, para o aniversário de Tom. Meu peito, apertado, tentava extinguir sua presença arrebatadora à força, porém sem muito sucesso; embora tentasse dizer a mim mesma que jamais tornaria a vê-lo, temia que a possibilidade fosse real. Afinal, éramos padrinhos de Freddie e, alguma vez, caso minha vida voltasse ao normal no futuro, teríamos que nos compelir em algum lugar. Não sabia como reagiria, se choraria, fugiria ou simplesmente lidasse de forma amena com o contexto. De tanto camuflar que a saudade dele me torturava e que o esforço extremo que fazia ao evitar pesquisar sobre ele na internet, percebi o quão exausta o exercício de esquiva de Tom Hiddleston me deixava.

Ele vinha como aquele pensamento que tentava reprimir com medo de deixá-lo mais intenso. Algumas vezes, sonhava com ele. Eram rápidos, mas não menos fatais.

— Saudade de casa? -a voz de Kimberly me retirou da imersão.

— De um lar que jamais foi meu. -enxuguei as bochechas úmidas de um choro que sequer notara e forcei uma expressão vívida. — Onde estão os rapazes?

— Viktor dormiu e Yuri está no quarto desde que nos deixou a sós. -sentou-se no chão, em minha frente. — Mas já o falei que vou manter o garoto comigo.

— Ele pareceu aliviado?

— Algo do tipo. -cruzou os braços, torcendo o foco para o mesmo ponto que me perdera momentos atrás. — É bonito, não é?

— Sim. A forma como as luzes refletem na água. -apontei, contornando o rio com o dedo.

— Pena que não há estrelas. -olhou para o céu.

A poluição luminária ocultava os corpos celestes de um modo ainda mais agressivo que em Londres. Acima de nós, apenas uma cúpula enevoada, num cinzento característico de uma cidade movimentada, dando a lépida impressão de aprisionamento. No entanto, a brisa refrescante cortava os ares, tocando em minha pele com um aroma de portuário, enfatizando que estávamos a beira-mar, e, por alguns segundos, senti-me abraçada pela lembrança de Fortaleza.

— Eu não sabia que aqui era quente. -sibilei.

— Foi uma surpresa para mim, também. Espero que o menino se acostume. -ansiou.

— Com você, é bem possível. -elogiei-a. Ela, rindo, aquiesceu.

— Alguma dica para mim? -perguntou.

— Ele gosta de música, banhos longos de banheira e assistir desenhos. -listei o que coletara dos últimos dias. — E, coloque fraldas quando ele for dormir, porque ele faz xixi na cama quando tem pesadelos.

— Tadinho. -lamentou.

— Mas ele é um bom garoto. Não sei se ele é assim por medo que nós o repreendamos ou age de forma automática, no entanto, creio que ele seja mais independente com o tempo.

Ajeitei-me, puxando a barra da camisa para baixo. Tirara a calça, num ato desesperado de calor. Com o movimento, a ruiva soltara um murmúrio significativo.

— Quanto tempo?-olhou o volume abaixo do tecido.

Tive que contar nos dedos.

— Indo para a 19º semana.

— Como é…? -interrogou.

— A gestação? -retruquei e ela concordou. — É… como um balão enchendo. Ainda não o senti se mexer, então, não tenho muito o que contar. Você pretende ser mãe algum dia?

— Viktor vai ser minha única experiência. -seu timbre saiu pesaroso. — As pessoas que me raptaram se certificaram que eu não engravidasse de algum cliente.

O embrulho estomacal e o calafrio na espinha me açoitaram novamente, mas, dessa vez, mal consegui barrar o ímpeto de imaginar quantas violações de direito ela sofrera. Nas poucas horas que nos conhecíamos, ela repassara uma aparência forte, muito mais do que eu sonharia em ser. Respeitando esse aspecto, censurei minhas emoções voláteis.

— Sinto muito. -lastimei.

— Se algum dia a ciência avançar e eu tiver dinheiro o suficiente, quem sabe eu consiga me reverter o que me fizeram. -falou confiante.

Com exceção da laqueadura, não entendia sobre métodos de esterilização feminina. A primeira, busquei fazer no início dos meus vinte anos, mas, era-me obrigatório ter tido um filho ou que a porra de um homem consentisse, porque meu relato de abuso sexual, meu transtorno ou a merda da minha vontade não era o suficiente para os malditos. E agora, grávida, tentaram me tirar o bebê.

— Posso ajudar em algo? -indaguei, não me importando em gastar parte do dinheiro que Jay erroneamente colocara em minha jurisdição.

— No futuro. -maneou a cabeça. — Quem sabe a medicina me permita ter um bebê antes dos meus cinquenta anos.

— Provavelmente será antes. -expectei.

— Olhe só quem está otimista. -pontuou.

— Sou um poço de esperança para os outros. -pisquei. Ainda incomodada com a dúvida que me permeava sobre tudo acontecera para ela chegar onde estava, limpei a garganta, numa tentativa falha de formular uma indagação não intrometida, mas, naquela altura, já estava curiosa sobre toda a sua vida. — Se me permite perguntar, e, não se sinta compelida a responder… como o Romanov conseguiu te tirar das mãos dos yakuza?

— Ah. -ela se encostou na grade de proteção, cruzando os joelhos. — Terei que ocultar algumas partes, porque ele não curte muito a primeira ocasião que nos encontramos. Mas eu o conheci em 2014, enquanto trabalhava numa boate no centro de Tóquio frequentada por eles. Ele me chamou atenção, porque… bem, é diferente. Os outros me enxergavam como carne de açougue, mas ele não. Sempre foi muito distante, desinteressado. Acho que por isso o colocaram como nosso segurança. -pausou, coletando um pouco de ar. — Ao contrário de outras garotas, não fui a Tóquio em busca de uma carreira. Fui sequestrada na Escócia quando era adolescente. Vivi em muitos lugares, à mercê de homens ruins, já passei por muita merda, e, se eu tivesse me abatido, talvez tivesse morrido antes dos dezoito. Minha família tem mulheres fortes, sabe? A honra escocesa, e tal. Meu único sonho era voltar para eles. Depois de alguns anos de uso, nós somos descartadas, e eu tinha a esperança de retornar para minha casa quando isso acontecesse.

O modo objetificador no qual ela referia a si e as suas companheiras de cárcere me causara um desalento veemente, junto a uma raiva extrema de toda aquela situação que ela sofrera.

— Você conseguiu encontrá-los depois de fugir? -questionei.

— Sim, mas… eu não queria aparecer assim, entende? -retrucou e, de alguma forma, eu compreendi. Era a culpabilização da vítima. — Entre as meninas que convivi, sempre fui a animada, fazia papel de mãe, tentando impedir que elas quebrassem. Assisti elas irem e não voltarem, indo para homens ricos que as compravam como amantes, objetos, até esposas. A ironia disso me irrita. A sociedade que nos vende e faz com que mulheres e sexo sejam mercadorias, é a mesma que aponta em nossa cara e diz que nos prostituímos por escolha. Muitas de nós somos sequestradas, como eu. As outras, se vendem porque precisam sobreviver. Não é uma escolha, nunca é. Pobres não têm escolha de nada.

— Mulheres muito menos.

— Eu conheci alguns movimentos feministas quando cheguei aqui. Eu sou estranha por nunca ter me enxergado em algum deles? -sua pergunta parecia sincera.

— Por que não? -devolvi.

— Eu não sei. É como se fossem feitos para mulheres em uma realidade que não é a minha. Digo, eu não fui para faculdade, é claro. Não finalizei meus estudos, porque fui sequestrada. Hoje em dia, sou sustentada por um homem. Muito dos discursos que ouço delas repudiam esse fato, como se todas as mulheres tivessem as mesmas chances de serem independentes. Uma vez, falei que fui prostituta e elas começaram a falar que o mercado do sexo deveria ser proibido, me acolheram, obviamente, mas a indignação era maior. E, porra, é claro que todas nós somos contra o mercado sexual. Ninguém vai pra esse mundo por vontade própria. Mas quando eu perguntei o que nós poderíamos fazer para permitir que essas mulheres tivessem seus meios de sustento caso algum dia conseguíssemos destruir a exploração sexual, elas desconversaram. É como se eu tivesse perguntado algo que não as viesse à mente, ainda. A cada encontro que ia, tinha a sensação que todas descrevem os problemas, mas, ficam apenas nisso. Até citam quem não tem dinheiro, mas, só como estatística. A resolução delas é para as mulheres da própria classe.

Grunhi, imediatamente lembrando-me das conversas estressantes que tivera na universidade.

— Minha ex-namorada, que é socióloga, diz que nossas lutas são refém do liberalismo econômico. Não há espaço para uma luta mais… cirúrgica, que vai na raiz do problema, porque seríamos consideradas extremistas. E eu não digo sair por aí matando homens, até porque isso não adiantaria muita coisa. Porque, como sabe, mulheres ricas exploram mulheres pobres. Mulheres brancas têm privilégio acima de mulheres negras, europeias e norte americanas brancas têm sobre latinas e asiáticas. Enquanto alguns grupos têm suas pautas em nível mais avançado, outros estão nos pés do primeiro degrau. -mesmo nascida em família com poder aquisitivo, ao conviver com meus avós paternos, que eram humildes e viviam no interior do Ceará ou até mesmo na escola pública que estudei, enxergava esses disparates. No Brasil, era impossível não perceber.

— E o que ela trouxe como possível resposta a isso? -inquiriu.

— Uma mudança drástica de sistema econômico, porque, não há exploração se não houver o sistema que nos enxerga como objetos. -recitei, com o sotaque mineiro reverberando ao fundo de minhas memórias. — Então, outra mulher, de outra visão política da coisa, começou a discutir com ela e eu me perdi na explicação. Veja bem, nós não nos entendemos nem em prol de algo que seria benéfico para todas. E é exatamente isso que o mundo quer.

— Em Singapura, não encontrarei um grupo que me encaixe. Olhe para esse lugar. -estendeu as mãos. — Estão tão focados em ‘subir na vida’ que outros debates são inexistentes. E, bem, eu sou a gata borralheira em um castelo de princesa, sendo protegida pela porra de um dragão da máfia que está me incentivando a voltar a estudar, mas eu tenho medo da forma avançada que esses asiáticos ensinam e aprendem. Desculpe, eu falo demais. É por isso que nunca se interessaram por mim, porque sou…

— Imbatível. -completei involuntariamente.

Seu rosto se iluminou em surpresa.

— Obrigada.

— Yuri que usou esse termo. Vejo que é verdade.

Sua face se avermelhou. Ah, mulher, não me diga que você gosta dele

— Não consigo abaixar a cabeça, não. Minha família é matriarcal. Não fui criada como as outras garotas, seguíamos um culto às deusas e sofri bullying por isso. Olhavam para mim e viam o combo: ruiva, muitas mulheres na casa e logo pensavam em bruxas. -apontou para o cabelo. — Acho que isso me deu forças para continuar viva.

— Ser considerada uma bruxa?

— Metaforicamente.

A complexidade de como funcionava sua linha de raciocínio era inebriante, e, simultaneamente, melancólico. O fato dela ter crescido em meio a uma configuração de fortes figuras femininas, distante do cristianismo que enraizava que quaisquer maus-tratos que sofríamos era divinamente justificável pelo pecado original chocava-se diretamente como a forma com qual ela fora tratada e teve de lidar no mundo afora. Ser subjugada, usada e agredida por homens, que se achavam no controle do poder era como um pesadelo irônico e desumano.

— Eu não consigo… conceber o quão agonizante foi. -nem mesmo o adjetivo fazia jus ao horror.

— É por isso que eu tento não pensar demais nisso. Bem… eu dei alguns prejuízos ao meu ‘dono’. Trabalhar para os yakuza foi uma forma de pagar essa dívida, mas, como sabem, não há como quitar. Não nós. -firmou, aflita, mas, logo ergueu a cabeça para mim. — Certa noite, Yuri me procurou para perguntar algumas coisas e eu imaginei que tivesse em busca de informações para o chefe. Bem, nós… conversamos. Acabei contando minha história pra ele depois de beber demais e, por algum motivo, ele prometeu que ia me tirar de lá. Pensei que era um blefe. Quando soube, o dono do clube havia sido brutalmente assassinado, junto aos membros que guardavam o local. Nos trancaram no sótão, porque éramos propriedades preciosas. Ele abriu o lugar, algumas conseguiram fugir antes que eu pudesse conversar com elas e... ele arrastou o cadáver do cara que me comprara do sequestrador, jogou-o aos meus pés e disse que ninguém mais me tocaria sem permissão.

Imaginar a cena, invés de me trazer asco, trouxe-me um contentamento vingativo.

— Espero que ele tenha torturado o filho da puta. -desejei.

— A julgar o estado do corpo… -sibilou. — A princípio, não entendi. Ele arriscou a permanência dele na organização ao matar o dono do clube e me tirar de lá. Soube depois que ele ajudou algumas das outras garotas a passarem a conseguirem outras identidades. Porém, tento deduzir que, mesmo se soubessem que foi ele, não o expulsariam, porque ele tem certa fama no submundo de Tóquio.

— Fama? -interessei-me.

— Você pertence à máfia italiana, certo?

— Não pertenço a nada. Eu caí de paraquedas nesse mundo. -neguei bruscamente.

Ela montou uma cara de perplexidade que me fez repensar se havia falado algo errado.

— Eu imaginei que seu namorado fosse da Cosa Nostra.

— Ele… -mordi a parte interior da bochecha, sem saber se poderia explicar o que acontecera. — Na época que você o conheceu ele era, mas por conta da família. Não foi uma escolha. Jay conseguiu sair disso tudo depois de acabar com o pai dele, que era subchefe da organização.

Kim arregalou os olhos.

— Certo. Faz sentido, ele era muito educado para ser um verme. -limpou a garganta, induzindo em mim uma inquietação com sua naturalidade no assunto.

Ela está nesse mundo desde adolescente, Amélia, se manca. Viu e vivenciou mais merda que você pode conceber.

— Você conhece pessoas fora dos yakuza? -gaguejei ao perguntar.

— Ah, sim. Italianos, alemães, eslovacos, noruegueses, suecos, mexicanos, colombianos, onde quer que você pense que possa existir algum criminoso organizado, já nos jogaram lá. Sabe quando você está assistindo um desses filmes de estadunidenses onde mostram o luxo que esses homens têm? É verdade. Nós éramos a diversão da festa. -sua expressão era puramente indiferente. — Antes de me aprisionarem no Japão, o infeliz que me raptou era mandante de um esquema de tráfico disfarçado de turismo sexual.

Tive de travar as sobrancelhas para não exprimir meu susto de uma forma indesejada.

— Você citou que deu prejuízo a esse sujeito e te venderam para os yakuza para pagar por isso? -relembrei.

Ela afirmou.

— Havia essa garota, Aysha, da Palestina, que foi capturada durante um dos confrontos com Israel e me contava sobre o inferno que acontecia em seu país. Ela era muito jovem e… eu não sei como contar isso a você sem te causar um choque dolorido.

— Eu imagino o que você queira me contar. -minhas mãos, gélidas, produto da queda de pressão por sua narrativa era um dos muitos indícios de como aquilo foderia minha pouca sanidade futuramente. Em sua breve fala sobre a menina, haviam muitas décadas de opressão política e racial causada pelo colonialismo israelense, patrocinada pelo império britânico e pela tradição sionista. Mulheres eram frequentemente abusadas nesses territórios de guerra.

Kimberly, pela primeira vez, apresentou apatia em sua face. Num embargo quase imperceptível, respirou fundo e continuou.

— Ela preferia morrer do que passar por aquele pesadelo. E eu nunca a julguei. -batucou os dedos sobre os joelhos. — Aysha era muito mais forte do que eu, porque não tinha medo de morrer. Em uma das festas, ela me pediu para roubar algumas drogas de um cliente e entregá-la, e, mesmo negando, porque sabia o que ela queria fazer, eu acabei obedecendo. É difícil negar esse tipo de coisa quando se está num ambiente em que estar viva é pior do que qualquer outra coisa.

Assenti em silêncio, porque minhas palavras tinham sido esmagadas junto a garganta e inundadas por um choro que queimava meus olhos, mas, obrigava-me a não derramar. Entendi, então, que a dívida pelo qual Kim pagava nas mãos dos yakuza era pela “mercadoria” perdida de seu ex-sequestrador.

— Não se julgue por isso. Era a forma que ela conseguiu de não sentir mais tudo aquilo. -tentei confortá-la. — Nunca queremos morrer, só queremos que todo aquele pesadelo pare. E como você disse, é um mundo sem saída.

— Poucas coisas são tão terríveis quanto se conformar com a morte de uma amiga e ao mesmo tempo… desejar que ela tenha encontrado paz de uma forma tão... -arfou. — Ela nunca teve paz, já nasceu em território de guerra civil. Queria poder ter feito algo por ela.

— Você sabe se… o homem que as raptou ainda está vivo? -balbuciei, compelindo minha voz acima do aperto na traqueia.

— Não sei. Provavelmente está. -franziu a testa. — Por quê?

Com minhas costelas machucadas e doloridas, endireitei a postura e culpei a má respiração, ciente que era o esforço para não expurgar minhas emoções na conversa.

— Você se sentiu justiçada quando Yuri matou quem te manteve no Japão? -era uma questão de caráter dúbio e pessoal. A ideia de morte do abusador, no meu caso, raramente me trazia algum conforto. Parecia rápido demais e as vítimas continuariam sofrendo pelos atos, porém, sabia separar minhas concepções das demais mulheres. Talvez esse tipo de justiça a servisse.

— Por completo, não. Mas me trouxe paz e um pouco de liberdade. -sincera, desvelou. — Respiro melhor sabendo que minhas colegas também conseguiram fugir.

— Você se sentiria assim se o teu sequestrador morresse? -fui direta.

Ela mordeu os lábios.

— O mundo ficaria melhor sem ele, com certeza.

— E quanto a você?

— Eu quero que ele sofra como nós, se é que isso é possível. -desejou. — Essa é uma pergunta a título de curiosidade ou algo seu?

Grunhi.

— Ambos. O meu estuprador ainda está solto, vivendo uma vida normal, repleta de regalias enquanto eu já fui internada numa clínica e sofro todos os dias as consequências da dor que ele me trouxe. Não tive direito de justiça, denúncia ou mesmo credibilidade. -revelei irritadiça. — Eu negligenciei essa merda, porque no meu país raramente homens ricos vão presos. Ultimamente, penso se sangue é a única saída. Quero fazer algo a respeito.

— Algo sangrento ou algo jurídico? -devolveu.

— Meu coração quer um juiz, minha raiva e dor querem um carrasco. O que você escolheria?

A ruiva respirou longinquamente.

— As leis dizem que temos direitos iguais, mas, o mundo me excluiu e me usou. Quem me salvou disso não foi um tribunal formado de pessoas formadas para combater a injustiça, foi a porra de um mercenário. Então, eu não sou um bom exemplo para você pedir opinião. -um pequeno sorriso escapou de sua boca, mas, nada nela remetia a felicidade.

— Carrasco, então. -sibilei.

— É o que sobrou para nós. O que você está pensando, Amélia?

— Meu companheiro diz que para combater injustiças, é preciso conhecer quem retira esses direitos. É necessário alguém dentro do mecanismo para quebrá-lo. E eu, infelizmente, tenho a alma romântica, apesar dela estar quebrada. Prefiro panos limpos, não tiros na minha porta. Mas, como você diz, é o que sobrou para nós. -aproximei-me dela, enlaçando sua mão e fitando-a seriamente. — Eu não sei o que acontecerá no futuro, mas, assim que ele tiver poder o suficiente para isso, vou pedi-lo para perseguir o monstro que te sequestrou até o fim do mundo.

A escocesa piscou, estática, com alguns sinais de umidade nos cantos dos olhos.

— E quanto ao seu monstro? -entre todas as coisas que ela poderia dizer, cutucou certeiramente em minha ferida.

— Prometo não fugir mais disso. -jurei, mais para mim mesma do que para ela. — O que você pode me dizer desse filho da puta?

— O nome é Stanley White. Britânico, sem organização, uma carta coringa. Alto, bronzeado, cabelos ralos e usa uma bengala, porque levou um tiro quando servia o exército. -descreveu e, atenciosamente, gravei em mente. — E se encontrá-lo, por favor, me deixem arrancar os dentes dele com essa bengala.

— O julgamento será seu.

— Você estava assustada com o que eu te contei da minha história e agora é você quem está me dando arrepios. Mulher indignada é uma obra de arte, não acha? -gracejou, em meio a sobriedade do assunto.

Suspirei, desistindo a muralha que criara para impedi-la de acessar meu emocional. Completamente inútil, como suspeitara.

— Tenho Transtorno de Personalidade Limítrofe. Saio da passiva para agressiva várias vezes durante o dia.

— Ou você é apenas uma mulher que reage normalmente a merda desse mundo. Eu faço piada diante de coisas sérias, então… -sacudiu os ombros. — Que Scathach te dê coragem e Lilith te abençoe. Se for ateia, apenas leve como um desejo de boa sorte.

— Acredito em mulheres. -não pude conter a fagulha de orgulho na voz.

— Mulheres. -repetiu, virando a palma da mão para fechar o cumprimento. — E eu me perdi no que eu estava falando sobre o Yuri.

Sorri, desacreditando em sua facilidade em saltar entre os tópicos sem uma crise de humor ferrenha.

— Você falava sobre uma ‘fama’ que ele tem em Tóquio. -recobrei. — No entanto, o que sei sobre ele, é que é um fantasma. Então, por isso fiquei duvidosa.

— Não é uma fama pública, é mais sobre suas habilidades. Como um boato, sabe? Eu meio que me apego a isso e tento pensar que, mesmo se os yakuza descobrirem o que ele fez para me proteger, não irão matá-lo, porque ele é útil vivo do que morto. E eu acho que ninguém quer assumir o papel dele na organização.

Entre o vendaval de sensações que castigavam-me, trazendo-me a impressão que nada mais naquele diálogo elevasse minha ansiedade, me encontrei nervosa, mais uma vez.

— Que papel? -incerta, questionei.

— Como japoneses, eles veem honra em luta, algo herdado dos samurais. Então, quando algum soldado yakuza faz merda, eles o dão uma segunda chance, colocando-os em uma jaula para lutar contra o melhor lutador do clã, escolhido pelo chefe. Se vencerem, são perdoados.

— ‘Se’ vencerem. -observei.

— Aí está a ironia da situação. Nenhum vence, porque quem está na jaula é o Romanov. -revelou. — Ele é o executor, então não o matariam. Talvez perdesse um dedo? Matariam alguém que ele ama, se é que existe alguém na vida dele? É um contrato vitalício, sem saída, sem escolhas. É matar ou morrer. E eles veem honra nisso.

Algo imaginário entalou em minha garganta, cortando minha respiração momentaneamente, atingindo-me com maus pressentimentos.

Ele disse que não tinha escolha de estar na organização e mesmo assim tem alguma liberdade para agir fora dela. Talvez usem a irmã dele como barganha?

— Você conhece a irmã dele?

— Não. Como eu disse, ele não fala muito sobre nada. O que sei é o que alguém que tinha contato com a organização sabe. Sobre a família… ele só me contou porque teve que falar para me fazer confiar nele para fugir do país.

Irrequieta, assenti. A despeito de saber que ele era um mercenário, a ideia de eliminar indivíduos com uma arma soava menos bárbaro que uma briga com inflição de dor, ossos partidos, sangue e todos os elementos de um combate corpóreo. Fazê-lo para proteger sua irmã soava como uma motivação forte o bastante para não fazê-lo se rebelar.

Apesar dele ter me dito em Roma, quando acordei do coma, que não se abalava com o que fazia. Mas, ao mesmo tempo, ele foi treinado desde criança para isso. Podia ser seu instinto. Foi o que o fez sobreviver até agora.

— Estou começando a me arrepender de ter entrado nesse mundo. -falei pela segunda vez, num estresse aparente.

— Tarde demais para isso, principessa. -a voz rouca de Romanov reverberou, fazendo-nos dar um grito de susto.

— Puta que pariu, Yuri! Para de aparecer do nada, porra! -Kimberly atirou-lhe as sandálias.

— Não me chame assim! É perturbador! -reclamei com o apelido de Jay em sua boca perigosa. De pé, como uma maldita montanha, ele nos encarava com uma maçã em mãos e um semblante ilegível.

— O que Kim lhe disse para se assustar assim? -questionou.

— Nada que ela não saberia. -esclareceu ela. — Que você mata pessoas numa jaula.

— Chamá-los de pessoas é um pouco descomedido. -perguntou ele. — Nenhum yakuza vale o ar que respira, Kim, e você sabe disso.

— Você é um deles. -acusou, mas, em aparente provocação.

— E eu os mato. O que isso diz sobre mim? -enfrentou, andejando próximo a mim para se sentar na grade de proteção, sem quaisquer receios de despencar andares abaixo.

— Podemos parar de falar sobre morte e assassinato? -pedi.

Ele mordeu a fruta, grunhindo em concordância. A escocesa perpetuou o olhar sobre ele, sem titubear, e ele ergueu a sobrancelha.

— O que você vai fazer para encontrar os pais do Viktor? -ela requisitou, portando-se como se o que debatíamos anteriormente sobre nossos abusadores não houvesse ocorrido, quase como se lesse minha mente. Limpei a garganta, fingindo normalidade.

— Verificar se alguém denunciou o desaparecimento de um garoto na região da Crimeia, averiguar hospitais e cemitérios em busca de casais com aparência semelhante a dele e ocasionalmente ter que me camuflar como um maldito fascista para adentrar aquele território sem chamar atenção. -havia desprezo em sua voz barítona.

— E se não encontrar? -perguntei, temerosa.

Ele mastigou a fruta, formulando uma expressão inquisitiva.

— Então, receio que Kimberly e eu teremos que bancar os pais adotivos do moleque. -disse.

A ruiva se remexeu.

— Como se você tivesse sensibilidade o suficiente para isso. -debochou.

— Você se prontificou em cuidá-lo, e, em uma escala piramidal, eu sou o responsável por você. Portanto, não é como se eu tivesse escolha. -justificou.

Camuflei uma risada com a simples ideia dos dois compartilhando a guarda de uma criança.

— Terá que aparecer mais vezes, então. -Kim devolveu.

— Estou ciente. -retrucou.

— Vamos brincar de casinha, mercenário? -provocativa, ela gracejou.

Eu adoro a ousadia dessa mulher.

— Uma perturbada e um assassino de aluguel. O que pode dar errado? -replicou ele, indiferente, fazendo-me apertar os lábios para não rir.

— Eu sou o melhor que você poderia arranjar na sua vida com essa atitude, amorzinho. -mirou-o com julgamento.

— Obrigado pela caridade. -agradeceu falsamente e virou-se para mim. — Amélia, sugiro que tente dormir. Partiremos amanhã.

Diante do cansaço exorbitante que a viagem me dera e da reviravolta emocional recente, sequer apresentei resistência. Levantei-me, agarrando-me nas pernas de Yuri como apoio, mesmo que me postar diante dele não fosse aprazível após o que descobrira sobre seus ofícios.

— Eu realmente preciso disso.

— Há um quarto no fim do corredor. Ignore minhas coisas.

— Certo. Obrigada. -limpei os joelhos. — Tudo bem, Kim?

Nos entreolhamos, com tamanho significado em nosso pequeno gesto.

— Sinta-se à vontade. Obrigada pelo papo.

— Eu que agradeço.

Yuri estreitou as pálpebras sobre nós, desconfiado, mas nada comentou.

Bocejando com a mera menção a derradeiramente descansar, arrastei os pés. Em meio ao caminho, distrai-me com a decoração do apartamento, descobrindo outros espaços, retirando o palpite que tinha da residência ser pequena. Contabilizei três quartos, um pequeno escritório e um banheiro espaçoso, ladrilhado de azulejos logo atrás da cozinha. Ao adentrar no cômodo indicado, a grande bolsa preta de Yuri estava jogada num canto, assim como seus problemáticos armamentos sobre uma escrivaninha, que, para minha surpresa, havia alguns exemplares de mangás conhecidos. Com um marcador, a capa de Berserk brilhava contra a luz externa da cidade, invadindo pela fresta da janela de vidro. Então ele costuma visitá-la, mesmo. Bom saber. Na parede, a katana embainhada jazia pendurada num gancho, assim como um violino cor de caramelo e seu arco. Ele toca isso?!

Sentindo-me estranhamente intrusa, deitei-me no colchão e o perfume mentalizado pairou em minhas narinas, denunciando que ele dormia naquela cama.

— Isso é tão errado. -falei sozinha e automaticamente busquei por vestígios de cheiro metálico, como um vampiro paranoico atrás de sangue. Porém, ao debruçar-me para o lado, encontrei uma corrente grossa e amarrada aos pés de metal, com dois cintos de couro em suas extremidades. Conhecia-o como imobilizadores, mas, tinha certeza que Yuri não fazia o mesmo uso que a comunidade de BDSM.

Pisquei, deparando-me com o teto relativamente alto. Em minha cabeça, os diálogos que tivera eram repassados, junto a teorias, inquietação, aflição e mais dúvidas sobre o universo e as pessoas na qual me rodeavam nessa nova vida. Impedindo uma enorme vontade de avaliar seus pertences, à procura de qualquer indício de um pouco mais sobre ele, agarrei meus braços e me convenci de que minha curiosidade não se sobrepunha a privacidade dele. Podia ser louca, mas, jamais invasiva. Contudo, o instrumento musical ainda atraía minha atenção, de tão deslocado no ambiente tão rústico. Mas, se ele o deixava ali, distante de sua vida no Japão, era sinal de proteção.

E não era minha função tentar desvendar aquilo.


 


 


 


 


 


 


 

No amanhecer, um sol entusiasmado aqueceu meu rosto e preencheu o ambiente de uma iluminação alaranjada, despertando-me como se houvesse saído de um coma. Meu corpo, dolorido e exausto, não dava indícios de ter adormecido, embora a sujeira nos cantos de meus olhos provasse que sim. Espreguicei-me, pegando minha mochila e tropecei até o banheiro, livrando-me da fadiga com uma ducha gelada e lavando meus cabelos; fiz uma higiene matinal e arrumei-me, pronta para enfrentar mais 15h de viagem de volta. Ao aportar na sala, deparei-me com a inusitada cena de Romanov entregando uma tigela de cereais para o pequeno Viktor, que distraia-se com o desenho animado na televisão.

— Ele teve pesadelo? -perguntei preocupada ao agachar-me para beijar seu rostinho. Ele me fitou.

— Dei um jeito. -esclareceu.

— Quando você fala isso, soa como se tivesse entrado na cabeça dele e esmagado o sonho ruim. -brinquei, com uma pitada de veracidade. Na cozinha, Kimberly coçava as pálpebras, visivelmente exausta. — Bom dia.

— Dia. -apontou para uma jarra de suco e um pequeno bolo. — Se alimente bem antes de ir. Você não jantou.

— Eu esqueço refeições. -repreendi-me. — Você dormiu?

— Bastante. Falar com você me relaxou como nunca antes. -repousou os cotovelos na bancada. Sorri. — E você?

— Mais do que o habitual. - levantei-me em sua direção e enchi um copo do líquido cítrico com uma fatia do doce. Verifiquei o relógio acima da geladeira. — Quando iremos? -perguntei a Yuri.

— Em uma hora. -indicou.

Aquiesci, sentindo um leve aperto em meu peito com a ideia de me despedir do loirinho. Como se lesse meus pensamentos, Kimberly apanhou um guardanapo e uma caneta, anotando uma sequência de números.

— Mande mensagem sempre que precisar saber dele. Videochamadas, ligações, fotos, estarei aqui. -entregou-me o papel.

— Obrigada. -agradeci repleta de lisonja.

Me alimentei, de olhos fixos no garotinho que abocanhava as colheradas sem teimosia, certificando-me de que nutria uma calmaria quase incoerente ao lado do russo. Atribuí sua confiança para com seu resgate, embora o homem não lhe fosse tão afetuoso quanto Kim e eu. Parte de mim libertou um riso pequeno, numa sensação de conforto ao saber que ao menos ele se esforçava, mesmo desajeitado, corresponder a atenção de Viktor. A outra parte tentou ignorar as imagens que se instalavam em minha mente dele quebrando alguma coluna dentro da jaula dos yakuza.

Com pesar e o coração ameaçando se estilhaçar, o horário de partida bateu à porta e me ajoelhei diante do menino no qual me ensinara diversas coisas em tão pouco tempo. Ocultei uma comoção maior, para que ele não percebesse uma despedida iminente; segurei suas mãozinhas e beijei-as, desejando boa sorte para seu futuro. Seus olhos azuis me encararam, já tão familiarizados. Inconscientemente, percebi que desejava ficar com ele, vê-lo crescer ao seu lado, ouvi-lo reaprender se comunicar, acompanhar cada dia de sua vida.

— Te vejo logo. -prometi, encostando meus lábios em sua testa. Ele agarrou meu pescoço num abraço inesperado, e, forçando-me ao máximo, engoli as lágrimas que queimaram minha traqueia. Se eu fosse menos complicada, você seria meu, para sempre. Mas Kim é melhor para você. — Você encontrou um bom lar, pirralho. Espero que um dia Yuri encontre seus pais.

Ele não compreendia, no entanto, roguei que as palavras fizessem alguma diferença na ordem do universo, como meus avós paternos costumavam contar. Esfreguei os olhos, limpando o choro compulsivo e fingindo rir.

— Ele vai ficar bem. -a escocesa se aproximou. Antecipando minha extensão de braço para cumprimentá-la, ela me enlaçou afetuosamente, como se o pouco tempo ao seu lado já me conceituasse no âmbito de colega. Devolvi o carinho, escondendo meus prantos. — Prometo que cuidarei bem dele.

— Eu sei que vai. -assenti, rindo constrangida. — Obrigada por tudo.

— Obrigada você. -me olhou, passando os polegares em minhas bochechas. — Dê um beijo no gato, por mim.

— Pode deixar. -afirmei.

— E não desista dessa jornada. -enfatizou, num sussurro.

— Não irei.

Com um silêncio significativo e um aceno de partida, mantive minhas pupilas focadas no garotinho sobre o sofá, que me encarava curioso. Quando a porta enfim se fechou, solavanquei num choro discreto e, em imediato, senti o olhar de Yuri sobre mim.

— Só foram sete dias… -sibilou.

Se você soubesse a quantidade de coisas que me fazem chorar…

— Estou grávida, respeite meu sofrimento. -apertei a alça da mochila, irrompendo em sua frente. — Eu espero que apareça com notícias frequentes dele.

— Iremos. -ele pegou a bandana amarrada ao braço de sua jaqueta, entregando-me num gesto gentil. Agradeci, enxugando minha face.

Limpei a garganta, mirando-o de esguelha em tempo que rumávamos ao carro estacionado. Quando enfim retornamos às ruas movimentadas da cidade tecnológica, a brisa cálida do porto marítimo tocou minha face, obrigando-me a buscar fôlego e pacificar meus pensamentos. Remoí em silêncio o momento enriquecedor e mórbido que tivera com Kimberly na noite anterior, involuntariamente caindo de volta em sua história trágica e na sua inconsistência para com o mundo que a cercava. Eram raros os momentos em que minha vida parecia ser menos difícil do que de outro alguém. Junto dessa percepção, o choque da realidade sanguinária, não em termos literais, mas, em uma exploração sistêmica contra as mulheres, batia à minha porta, obrigando-me a notar o quão privilegiada eu era em muitos aspectos. E, ainda assim, ela era milhares de vezes mais leve do que eu. Como uma rocha, firme, negando-se a rolar por pressão alheia. Seguia seus moldes, respeitando a si própria entre suas falas poderosas e repletas de ímpeto revolucionário. Imbatível era o adjetivo que a cabia, por inteiro.

Jamais pararia de me surpreender e admirar a existência calejada das mulheres. Era o que nos sobrava, afinal.

— Ela não é o que você esperava. -Yuri murmurou, atraindo minha atenção volátil.

— Não. É melhor. -confessei. — Sempre estou à espreita de pessoas como eu, que se isolam numa bolha de tristeza e apatia. Saber que há pessoas como ela, que seguem de cabeça erguida, me faz sentir igualmente fraca e encantada.

— Para quem nunca conheceu a paz, viver no caos se torna comum e nada mais os afetam. -sibilou. Assenti, engolindo dificultosamente suas palavras.

— Dessensibilização sistemática. -o termo me veio à cabeça. — Ela se parece com você.

Ele apertou as sobrancelhas.

— Por quê?

— Vocês parecem inabaláveis. -explanei, nutrindo uma inveja com vestígios de contemplação.

— As asas de Ícaro derreteram quando mais alto e próximo do sol voou. -mencionou, acelerando enquanto cortava caminho entre o tráfego. — Quanto mais alto, maior a queda.

— Então, espero que nenhum de vocês caiam. -desejei, apreensiva.

— Nós iremos, ocasionalmente. Todos nós iremos. -fitou-me rapidamente. — Somos poeira de estrela na farofa fodida da entropia de um universo que tende ao caos. Então, valorize a forma como seu cérebro enfrenta os problemas. Não se pode despencar se já estiver no chão.

— Você é péssimo. -balbuciei, rindo em frustração.

— Você ri com meu humor depreciativo. -gabou-se.

A quietude se instalou no veículo, com apenas as notas sonoras da brisa em oposição a nós. Ponderei ligar o rádio, no entanto, lembrei-me que não entendia a língua local. Afundei o dedo na opção das músicas armazenadas nas playlists disponíveis, deparando-me com a curiosa disposição de instrumentais clássicos entre as bandas de metal. Recordei-me do violino pendurado no quarto do apartamento, trazendo a dúvida que me assolou.

— Você toca violino? -perguntei.

Yuri vagou os olhos sobre a lista de canções, como se quisesse me repreender por fuçar em seu carro e que aquele detalhe musical era especialmente confidencial.

— Não sou um Neandertal. Sei apreciar uma melodia. -censurou.

— Eu sei. Não estou julgando, apenas curiosa. -encarei-o.

— Sim, eu toco. É uma forma de manter uma parte não corrompida de mim. -proferiu, num timbre de ligeiro sarcasmo. Entretanto, ao perceber que continuava interessada em naquela pequena parte de si, retornou à feição endurecida de sempre. — Minha mãe tocava. Como não acredito que haja um além da vida, aprendi algo que ela sabia para enganar minha mente para senti-la próxima de mim.

Balancei a cabeça, sorrindo em comoção. Limpei a garganta, impedindo que o embargo dos malditos hormônios fosse notável, colocando-me numa situação ainda mais desconfortável com ele. Com o pouco que conhecia dele, estava ciente que ele odiava demonstrações sentimentalistas, portanto, não resguardei-me em não adicionar mais profundidade ao tópico, mesmo que cada pedaço de meu ser sofresse por desbravar mais de sua vida. No entanto, em suas entrelinhas, obtive a certeza que Viktor era o seu Freddie. Era a história de um órfão que se enxergou em outro órfão.

Mesmo o mais duro dos seres não escapa da merda da transferência.

— E sua irmã? Você fala com ela? -arrisquei.

Ele endureceu o maxilar e, por alguns segundos, temi que ele enfiasse uma faca em meu pescoço pela dúvida. Antes que pudesse me desculpar pelo assunto, ele capturou fôlego e fez um movimento negativo com a cabeça.

— Ainda estou procurando por ela. Os militares nos separaram.

E tudo começa a se encaixar tragicamente.

— Martini vai me matar por dizer isso, mas… se precisar de auxílio nisso, pode nos contatar. -falei com sinceridade.

— Encontrá-la é a parte fácil. Dizer a ela quem eu sou, não. E acho que colocar outro criminoso nessa história não vai ajudar.

— Eu não sou uma criminosa. -pisquei.

— Você já está atolada em merda, Amélia. -me olhou de esguelha. — Eu que deveria perguntar se você quer ajuda.

— Gosto de me afogar em problemas alheios para esquecer os meus. Dra. Vivian não está aqui para me dar um tapa na cara com a realidade, me mandar criar vergonha e enfrentar minhas demandas. -fiz minha autocrítica.

— Não vou te dar mais água para se afundar.

— Tudo bem. -desisti. — Sua mãe era ruiva?

— Por que seria? -retrucou atônito.

— Você tem uma coisa com ruivas, não é? Trícia, Kim… -motejei numa tentativa de esquecer a lamúria e dissipar o clima invasivo que lhe proporcionei.

— Eu vou ignorar que você teorizou o Complexo de Édipo comigo. -censurou, no entanto, um pequeno arco surgiu no canto de seus lábios.

— Você riu. -denunciei, devolvendo sua frase.

Repleta de uma saudade inexplicável do garoto, não me deleitei com a paisagem inacreditável de Singapura na jornada de volta ao aeroporto. Nem mesmo sua arquitetura inimaginável foi capaz de quebrar o fluxo de meus pensamentos; meu corpo seguia o caminho em modo automático, acompanhando os passos de Yuri entre as pessoas, trespassando seções e rumando às salas de espera privadas. Inconscientemente, apalpei minha barriga, questionando-me se aquele sentimentalismo era algo intrínseco aos hormônios ou se, como futura mãe, acabara adicionando mais drama na despedida do que o habitual. À procura de um estímulo tátil para concorrer com o caos mental, acomodei-me numa poltrona de massagem e, em silêncio, o russo sentou-se em um sofá paralelo, ocultando quaisquer traços de expressão em sua máscara estoica.

O assisti segurar uma taça de champanhe com estranheza, apesar de seus dedos longos ao redor do corpo fino de vidro aludindo a uma elegância perdida em baixo de sua carcaça violenta. Em roupas limpas de sangue, o cabelo escondido e vestido casualmente, percebia um resíduo de realeza em sua postura, como uma espécie de príncipe quebrado. Não o homem que Jay contratara para me proteger meses atrás, mas, alguém que considerava um colega. Naquele momento, não mais mirava suas mãos e imaginava-o matar alguém, mas, apenas as mãos de um violinista. Era como enganar-se, apreciando um lobo selvagem em pele de cão doméstico.

— Você não deveria pensar muito sobre mim. Vai evitar dor de cabeça. -censurou, induzindo-me a questionar a quanto tempo o visualizava.

— Tarde demais. -fui sincera. — Yuri.

— Hm?

— Você me considera sua amiga? -interroguei. Sua testa se franziu.

— Eu não tenho amigos para ter uma ideia do que isso seja.

— Kim parece ser. -mencionei.

— Pobre dela. -murmurou.

— Ah, foda-se. Você nunca abaixa sua guarda. -sorri nervosamente.

— Para alguém que se fodeu a vida toda, você busca muito o bom nas pessoas. -rebateu cirurgicamente.

— Das pessoas, não. De pessoas como nós, sim. -reformulei.

— Pessoas como nós? -as íris extremamente verdes me açoitaram.

— Que foram fodidas e tomaram muito no rabo enquanto cresciam e, na idade adulta, se fecham em cascos e não permitem aproximação. -prossegui, enxergando o rosto de Jay e o meu involuntariamente.

— Martini matou por vingança, eu mato por dinheiro. Você quer ser próxima de alguém assim?

— Eu não acredito que vou defender um mercenário… -arfei.

— Não defenda.

— Você usou o favor que Jay estava te devendo para salvar uma criança, quando poderia ter qualquer outra coisa. -expus. — E salvou a Kimberly, mesmo que arriscasse sua posição na organização.

— Não confunda isso com misericórdia. -alertou.

— Jay e você conseguem se autodepreciar mais do que eu. -frustrei-me.

— Lembre-se do que eu disse sobre usarem o laços contra você. Minha vida é mais simples sem esses sentimentos e a sua será mais segura. -aconselhou.

— Não quero segurança em troca de uma vida vazia. -grunhi, fechando os olhos no desígnio de buscar relaxamento, mas, um bip na chamada do voo retirou-me de meu vão manto de falsa tranquilidade.

— Deveria dizer isso ao Martini antes que ele monte essa organização. -ergueu-se, e, castigada pela ânsia, concordei.

— Você é irritantemente sagaz.


Notas Finais


Mulheres são seres extraordinários, não são?
Estou particularmente feliz com esse capítulo e com o fato de finalmente poder abordar os conflitos morais da Amélia após o sequestro. Kimberly como direcionadora de todos esses sentimentos para fora, com a possibilidade de falar sobre com alguém que realmente entenda pelo o que ela passou é uma coisa que ela precisava. Falar é catártico.
Entramos agora no que vai nortear boa parte da jornada da Amélia até o fim da história. Ela não mais correrá daquilo que a amedronta e assim como Jay, estará enfrentando de frente aquilo que tentou fugir a vida inteira.
E uma vez que ela está metida nesse mundo, vai fazer algo bom a respeito.
O conteúdo da conversa delas e do passado da Kimberly foi bem dificultoso para escrever, porque é triste e pesado, e, acima de tudo, tão real no mundo. De seu sequestro a realidade de mulheres em países invadidos, das dores internas e das coisas que sobreviveu, o difícil é saber que existem tantas mulheres nessa situação.

Prometo que capítulos mais leves virão no futuro. É necessário passar pela tempestade antes do sol... e enquanto Tom trazia o sol, agora eles estão por conta própria em seu mundo não tão glamoroso como a mídia retrata hahaha

Como eu disse... Viktor foi o catalizador de muita mudança, externa e interna para esse pessoal...

Espero que tenham gostado! hahahahaha
Obrigada @iarapereira e @Lola_m pelos comentários que sempre me incentivam a seguir nessas rédeas difíceis. E a todos os outros que leem caladinhos, um muito obrigado também hahahaha espero que estejam gostando.

BEIJOS!


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