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História Learn to Fly - Capítulo 36


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Notas do Autor


INHAIR!
Com fé nos deuses da escrita, estou conseguindo manter a periodicidade e não atrasar tanto. Não sei quantos ainda leem, principalmente em tempos tão confusos e terríveis, mas aos que estão aqui, muitíssimo obrigada <3
E torço que estejam bem, na medida do possível.

Bem, o capítulo de hoje dá início a uma nova fase (ou novo começo, como o título e a música nos diz) e algumas relações, configurações e rolês serão explicados. Mas deixarei esses detalhes para as notas finais.
Boa leitura!

"Que esse fim não traga dor
Pois é apenas um novo começo
Dois são um agora
Guarde as tardes de sol no seu coração
[...]
Veja, agora ando só
Sabe, eu tô tentando descobrir
Tentando desatar os nós
Me livrar das amarras
Difícil chegar aqui
Esqueça a dor e leve o beijo
E o gosto da nossa história
Mas saiba que daqui por diante
O eterno contigo, com tudo eu quero dividir" Chimarruts - Novo Começo.

Capítulo 36 - Novo Começo


Fanfic / Fanfiction Learn to Fly - Capítulo 36 - Novo Começo

Roma, Itália, maio de 2016.

Numa loja não muito grande, vaguei com uma lista de enxoval retirada da internet e um marca-texto amarelo-fosco como um lembrete impossível de se ignorar de que eu teria que finalizar aquela tarefa. Era agora ou nunca. Dra. Heloísa me intimara com repouso até o parto, mas liberara duas horas do dia para realizar os preparados de nossa mudança. Assim, como prioridade, tomei meu coquetel, passei alguns minutos ouvindo a agradável música animada nos becos de Roma e parti, junto de Jay, àquilo que adiávamos desde que havíamos nos entrado.

A coerção era a melhor amiga de um procrastinador ansioso.

Diferentemente da primeira e falha vez que adentramos no centro da cidade, nossa dinâmica seguia com eficiência. Talvez fosse a sutil prévia que comprar materiais básicos para Viktor ou até mesmo a maior familiaridade com a gestação e o bebê, mas sentia-me imensamente menos nervosa. Procurei ignorar o falatório das muitas mulheres grávidas que zanzavam rente a mim com um infinito palavreado de coisas que não entendia, mas que definitivamente era referente ao universo dos recém-nascidos. Alguns termos nem mesmo Martini soubera traduzir para mim.

— Pode ser algum objeto de tortura ou algum tipo de mamadeira especial, as possibilidades são enormes. -murmurou ele, enfadonho e ainda de ressaca social da viagem e dos longos diálogos que era desacostumado, empurrando o carrinho de compras que, aparentemente, já pesara em seus braços.

Alguma moça sorriu torto em sua direção, com nítido desejo em seus olhos. Ergui a sobrancelha, desgostosamente recordando-me que as pessoas da Itália eram tão diretivos quanto os brasileiros em flertes e secadas.

— O que diabos é um ‘mijão’? -grunhi, encarando outro termo infeliz da lista que, em português, era-me impossível perguntar a qualquer indivíduo ao redor.

— Eu sei o significado literal, mas espero que não seja isso. -soprou.

Grunhi, riscando o item da lista.

— Seja o que for, vou pesquisar quando chegarmos no apartamento. E se não tivermos comprado sem saber, vou pedir online.

O outro desgosto do universo infantil era a incrível norma de gênero que separava roupas em cores de rosa ao azul, masculino e feminino, como se as crianças soubessem que merda aquilo significava. Mesmo se soubesse o sexo do pirralho, seria de muito mal gosto enfiá-lo roupas de uma cor só dos pés à cabeça, como um maldito pincel. Fora extremamente dificultoso conseguir peças em paletas fora dessa dualidade e, ao fitar os itens escolhidos por nós, via a soberania de verde, roxo, cinza, branco e preto, embora a última cor fosse escassa para nossos padrões. A ideia de visitar a loja de camisas de bandas de rock passou por minha mente, mas não queria estragar a surpresa da roupinha do Foo Fighters que comprara.

— Único departamento que não soa como um pesadelo. -Rafael estendeu a atenção para a ala de higiene e cuidados pessoais. Ele segurava outra parte da lista, a qual elencava materiais de uso mais prático.

— Minha avó usava sabão de coco… -assoviei, rindo nervosamente com a interminável quantidade de prateleiras.

Ele seguira, estreitando as pálpebras por trás do aro de seus óculos e atirando sem qualquer sutileza os produtos listados dentro do carro. Era nítido como nós dois odiávamos cada segundo daquilo, mesmo que, socialmente dito, aquela tarefa era para ser a mais engajadora para pais de primeira viagem. Muitos sorrisinhos eram ouvidos pelos cantos do estabelecimento, porém, também notara a disparidade de quem frequentava o local. De maioria, mulheres acompanhadas por outras, e a divergência de idade passava-me a noção de que muitas eram amigas e outras, mães e avós. Poderia contar nos dedos a quantidade de homens presentes. Procurei animar-me com a teoria de maioria eram casais homoafetivos, mas sabia muito bem que era somente o mal e velho patriarcado.

— Eu duvido muito que isso dê conta do que sai de dentro de um pestinha desses. -resmungou Jay, observando uma caixa de lenços umedecidos com desconfiança. — A vida deles não é uma diarreia infinita?

Franzi o cenho, apavorada com a imagem.

— Você lida com sangue e tripas, o trabalho vai ser todo seu. -bati em seu antebraço, repassando a responsabilidade.

— Alcançou o nível das piadas com a máfia, Novak? -sibilou num timbre discreto, causando-me um pigarreio. Havia certo humor em suas íris azuis.

— Estratégia de enfrentamento. Fraldas cheias me assustam mais que o Sebastian numa sala fechada. -retruquei em admissão.

Ele soltou um grunhido quase debochado com meu pavor.

— É por isso que eu gosto de gatos. Desde filhotes já sabem ir para a caixa de areia. -comentou.

— Você deve fazer parte dos 1% de homens que preferem gatos do que cachorros. -sorri. — Adicione Sebastian a lista, também. É coisa do mundo do crime? -sussurrei em português, mantendo nossa privacidade dos ouvidos alheios.

— Não. É coisa de gente introvertida e velha. -depreciou. — E eu gosto de cães, mas nunca pude ter um. Gatos perdidos que vagavam pelo terreno da casa foi o mais próximo de animais de estimação que tive. Acabei me afeiçoando aos felinos, compartilhamos da mesma personalidade dificilmente domável.

A imagem mental de um Jay criança acarinhando gatos de rua me fizera sorrir ao relento.

— Eu vou te dar um filhote de presente de aniversário. -murmurei em motejo.

Ele me olhou de esguelha.

— Outro? -fixou em minha barriga.

Estapeei seu ombro em falsa indignação e seguimos percurso no corredor assim que riscara em sua lista todos os itens recolhidos; ao retornar a minha, soltei um silvo de frustração.

— Mas que porra é um ‘pagão’?! -exprimi.

— O Ezekiel. -indicou, e embora adorasse seus raros momentos de bom humor às minhas custas, quis rasgar o papel em minhas mãos. — Deveria ter pegado uma lista em italiano.

— Eu desisto desses nomes. -risquei-o.

— O que ainda falta?

— Roupas de cama, mantas, panos, toalhas, cortinas, meias e sapatos. -sequenciei, sentindo-me ligeiramente menos irritadiça com os artigos que compreendia bem.

— Próxima ala. -indicou, lendo as placas informativas atadas ao alto teto.

Suspirei.

— Preciso de uma loja brasileira para comprar uma rede. -desejei. — Nada acalma um bebê melhor que o balançar de uma rede.

— Deixe anotado e vamos tentar encontrar. -assegurou.

Andejamos até o lado oposto, seguindo uma trilha enfaticamente enfeitada por alguns bichos de pelúcia e felpudos tapetes, indicando o que provavelmente consideravam um quarto ideal. Involuntariamente torci o nariz, imaginando a quantidade de poeira que aqueles adornos acumulariam. Fidedigna a paleta de cores das vestimentas, apanhei alguns lençóis e edredons com esses tons de fundo; a ideia de acariciar os edredons trouxe-me certo prazer com a maciez. Optei por estampas claras, onde sua maioria trazia animais, planetas, estrelas, plantas, padrões coloridos e, para minha sorte de principiante, um cobertor com pequenas guitarras.

Ao virar-me em direção do carrinho, percebi que Martini estava de costas, um pouco distante, diante de uma prateleira com sapatos. Ignorei sua ação, agradecendo mentalmente ele se dispuser de escolher aquela categoria, porque meu gosto para pisantes era tão cruel quanto o de uma gótica dos anos noventa. Simultaneamente, questionei-me se existiam sapatinhos que fugissem à regra da dicotomia de rosa e azul. Mesmo que eu adore a possibilidade de colocar calçados rosa com flores nos pés de um menino que pareça o Jay. Desvincilhando-me dos pensamentos do futuro, segui em frente a tarefa e risquei mais itens enquanto colocava-os no carrinho; quando enfim a lista acabara, libertei uma enorme baforada de alívio.

Então, uma seção de brinquedos me chamara atenção.

Abandonando o carrinho por breves momentos, calcorreei até os chamativos objetos e alcancei um enorme urso de pelúcia cor de caramelo quase do meu tamanho. Sorri idiotamente, ciente que ansiara aquilo mais para mim do que para o bebê, mas enlacei-o debaixo do braço e continuei. Equilibrei uma caixinha contendo dois patinhos de borracha, alguns chocalhos e, respeitando a indicação de idade, alguns jogos lúdicos que prometiam estimular a cognição das crianças. Quando enfim retrocedi ao corredor que empacara, aparentava-me como a porra de um papai Noel; meu rosto desaparecera atrás das caixas e do ursão e suprimia uma risada com o fato de conseguir apoiar um dos brinquedos sobre a barriga.

— Você parece Sísifo erguendo a pedra na montanha. -o timbre de Jay replicou com leve censura por meu esforço e ajudou-me a dispô-los no carrinho. — Não é muito cedo para jogos educativos?

— Seja qual for o perturbado que orquestrou esses jogos, diz que é para menores de um ano. -explicitei. Jay reorganizara as caixas de sapatos sobre os brinquedos, causando-me curiosidade. — O que você conseguiu?

Com uma feição de travessura, ele revelou um par minúsculo de all-star preto e uma bandana vermelha.

— Essa é a primeira coisa com personalidade que vi nesse buraco. -expôs com evidente orgulho seu achado. Sorri, admirando o calçado e cônscia que arranjaria mais.

— Uma jaqueta e já tenho o seu clone. -falei, sentindo uma estranha animação em formular a imagem mentalmente.

— Bem lembrado. Jaqueta de couro. -virou-se e perdeu-se mais uma vez no apinhado de corredores.

Não pude camuflar um riso idiota de contentamento ao tê-lo tão engajado, tornando, para mim, aquela tarefa aterrorizante em um passeio com até mesmo certa leveza. Aquela era mais uma forma dele transmitir confiança, embora nós dois estivéssemos a beira de um ataque de pânico e sem nenhuma noção do que fazer. Com certa audácia, podia até arriscar que ele começara a se atrair pela ideia de que algo intrínseco seu viria ao mundo.

 

[...]

Reggio Calabria, Calábria, Itália, junho de 2016.

 

Após a promessa de alguns dias de descanso em Roma para ajeitarmos os últimos detalhes de nossa mudança e para que Jay reorganizasse seus novos planos, assim como a privacidade suficiente para trabalharmos nossos pequenos surtos, partimos. Era raro eu afirmar que os dias haviam se passado rápido, pois cada um deles costumava durar uma eternidade em minha concepção; no entanto, em meio a dobrar as roupas e colocar nas malas, lidar com a ansiedade que parecia crescer junto a minha barriga e às doses de progesterona aliadas ao repouso compulsório, sequer vira o mês passar.

Junho aportara com novas promessas e uma incrível lufada de esperança de recomeço, apesar de meu pessimismo tentar fazer-me acreditar que não.

Fechei os olhos diante da claridade e calor do sol que, mesmo já próximo ao fim de tarde, brilhava escandalosamente nos céus da Calábria. Sorri com o beijo da brisa marítima em minha face, trazendo um frescor e lembranças de minha casa há milhares de quilômetros no outro continente. No rádio que insistira em ligar para nos acompanhar na travessia até a ponta da bota da Itália, tocava o refrão de um hit do Sanremo daquele ano, do artista Rocco Hunt, de nome Wake Up. Era uma espécie de pop com hip hop e batidas eletrônicas, um daqueles sons que é impossível desanimar ao ouvir. Julgava ser a terceira vez que ela se repetia na estação.

Martini estivera tão atento a estrada, visivelmente tenso após ultrapassarmos a fronteira para o território da ‘Ndranghetta que sequer reclamara do estilo musical. Já fazia alguns longos minutos desde que havíamos saído do centro da Calábria, esgueirando-nos agora ao litoral, Reggio, mas ele permanecia em sua feição de impassividade e dedos esbranquecidos por conta da força que aplicava ao volante. O carro, aquecido pela velocidade questionável que percorria as rodovias em tempo recorde, denunciava as modificações em seu motor feitas nos dias que anteciparam a viagem. Entre nós, uma alavanca discreta e vermelha indicava a interligação do nitro que proporcionava mais força e velocidade ao veículo e, diferente do que se via nos filmes de corrida, quando bem administrado, durava horas.

Se não fosse tão perigoso, sugeriria a ele trocar o kickboxing por corridas.

Inspirei profundamente, deleitando-me com o característico aroma da maresia. Alguns achavam desconfortável, talvez os fizessem lembrar de peixes frescos ou qualquer outra coisa, porém, para mim, era o perfume de casa. Crescera com aquele constante bater de vento nos cabelos, armando-os como ninhos, a umidade do ar, a poeira nos olhos e o calor que ameaça queimar a pele. Ali, debruçada na janela do Audi, sorrindo como um cachorro em um passeio, entendi a razão de Martini insistir que eu ficasse em lugares como aquele. Meu humor mudava inconscientemente. Ao redor, alguns ciclistas perambulavam, corredores exercitavam-se na orla pavimentada, muito ao horizonte, além do estreito oceânico, podia enxergar a silhueta de montanhas sombreadas. Após sete horas de jornada, a arquitetura e a ambientação mudara bruscamente. Não mais arrodeados pelo espírito acadêmico renascentista que Roma e Florença tinham, a Calábria era um porto de férias e assemelhava-se a uma cidade antiga de alma jovem.

Mesmo assim, deparara-me com algumas estruturas ainda mais envelhecidas entre um ou outro prédio novo.

— Você está excessivamente quieto. -quebrei o silêncio, virando-me para si.

Seu cenho se franziu ligeiramente e, por trás dos óculos escuros, adornou-lhe com certo charme.

— Você se mal acostumou com meus falatórios, Novak. -corrigiu, fazendo-me soprar um riso.

— Ouvir sua voz sexy nunca é o suficiente. -pisquei. — O que me faz lembrar que sinto falta de ouvi-lo cantar.

— Devo ter perdido essa habilidade após anos sem prática.

— Não é o que eu lembro do dia que você cantou na minha cozinha em Londres. -pontuei.

— Era a maconha.

Apanhei a garrafa térmica com água, mantendo-me hidratada. Ao olhar para o banco de trás, um silvo de estranhamento me atingiu ao visualizar o enorme urso de pelúcia e o enxoval embrulhado em sacolas e bolsas, provavelmente contrastando com algumas armas escondidas no porta-malas. Em tempos anteriores, aquele espaço estaria tomado por um enorme isopor de bebidas, um baú com algemas e chicotes e, com muita sorte, algum kit de primeiros socorros.

— Temos que comprar uma cadeirinha. -evoquei em súbito.

— Sim, e montar um quarto inteiro. -enfatizou, induzindo-me a questionar a prioridade das coisas.

Tínhamos dedicado um caderno para os tópicos do bebê a serem resolvidos e, sempre que concluíamos uma, três problemas surgiam como um paradoxo destinado a zombar de nossa pouca aptidão como pais.

— Tenho certeza que mais itens surgirão quando começarmos as aulas que a Dra. Heloísa indicou. -previ, tornando a apoiar meus pés no painel do carro. Com o assento inclinado para evitar a pressão que faria em meu colo do útero se me sentasse, as pernas teimavam em permanecer dormentes na maior parte do percurso. — Preciso mijar.

Mesmo com as lentes escuras, pude visualizar seus olhos azuis desacreditados.

— De novo?

Fizemos três paradas eventuais desde Roma para abastecer, comermos e especialmente eu esvaziar a bexiga. A última ação surgia a cada trinta minutos, mas minhas idas para as trilhas de árvore de beira de estrada agarrada aos braços de Jay para me agachar não eram contabilizadas.

— Prometo não molhar seus sapatos dessa vez. -cruzei os dedos, lutando para não cair numa gargalhada. — Tem uns quiosques ali, vou perguntar se tem um banheiro. Aproveite para se alongar.

Ele desacelerou, estacionando numa fileira próximo ao calçadão.

— Tem certeza que consegue ir sozinha? -precaveu.

— É mais fácil do que abaixar no mato. -debochei, saindo do carro. Do outro lado, ele ergueu os braços para o sangue circular melhor após a longa permanência numa posição só e torceu o pescoço. A visão daquele homem de camisa social entreaberta, mangas dobradas e óculos era covardemente atraente. — Tente não ser atacado por alguma mulher enquanto eu estiver fora.

Ele murmurou uma risada torta e se encostou no capô.

— Esses hormônios estão te deixando possessiva. -comentou.

— Eu sei que você acha isso excitante. -provoquei, girando os calcanhares rumo aos estabelecimentos.

A movimentação naquela parte da costa era estranhamente pacífica, e atribuí isso a falta de rotas para a areia; na realidade, mal conseguia vê-la. Estávamos numa parte elevada, em meio a uma avenida arborizada e de aparência central, não tão destinada ao turismo praiano. Ao forçar um pouco a visão para os próximos quilômetros, era-me capaz de enxergar um brilho perolado característico de areia sob o sol rodeando o azul-escuro das águas, trazendo-me a certeza que ainda não alcançáramos o destino final. Com sorte, conseguira acesso rápido ao banheiro de um pequeno restaurante e, na saída, comprara um coco gelado para refrescar-me melhor.

Ao voltar para o veículo, notara como algumas moças passavam em direção a pista de corrida e davam-no olhadelas curiosas, e mesmo que aquilo inquietasse meus nervos, divertia-me com a enorme diferença de comportamento dos britânicos sempre tão fechados com os italianos calorosos. Tenho que dar um jeito nesses malditos hormônios. Estão me transformando em uma ciumenta. Ser louca é uma coisa, ciumenta já é demais.

— Daqui a dez minutos você vai pedir para mijar novamente. -ele fitou o coco em minhas mãos com certo humor.

— Eu senti tanta falta disso. -grunhi em prazer. — Não é tão bom quanto os do Ceará, mas dá pro gasto.

— Não seja tão rude com seu país anfitrião. Estamos nos esforçando. -satirizou, abrindo a porta para mim. Antes que pudesse me sentar, em um lépido movimento ele mordeu o canudo e degustou da água, formalizando uma expressão de aparente satisfação.

— Se do seu estado for melhor que isso, me mudarei sem hesitar.

— Então comece a treinar seu cearês. -ri.

O regresso a estrada se tornou mais confortável sem a bexiga a me incomodar, entretanto, a insistente melancolia por meu quadro de saúde impedir minha diversão completa começara a me desgastar. Piorara ao visualizar alguns surfistas arriscando manobras à distância, como pontinhos perdidos entre as ondas. Era a segunda vez que visitara uma praia naquele ano, e, em nenhuma das ocasiões, pudera festejar como ansiava e saudava. Desvincilhando da paisagem das janelas, encarei Rafael.

— Qual a história dessa cidade? -perguntei curiosa e em tentativa de fuga.

— Surgiu em 2 mil anos antes de Cristo, e era uma colônia grega no século VIII. Fazia parte do Reino das Duas Sicílias antes da Unificação Italiana. -informou num resumo, atraindo meu interesse a menção da Sicília.

— Então foi parte da Cosa Nostra. -observei.

— Sim.

— Nunca tentaram recuperá-la?

Ele negou num maneio de cabeça.

— Não era um local muito pacífico para longas missões antigamente. Em 1908 ocorreu um terremoto junto a um maremoto, que destruiu boa parte da costa. Depois, na Segunda Guerra Mundial, foi bombardeada pra caralho. Na década de 70, houve rebeliões entre os civis, protestos, por conta da escolha de Catanzaro ser a escolhida para sediar a capital da Calábria. Isso iniciou uma espécie de guerra civil. -explanou os ocorridos, espantando-me. — Reggio era bem maior que Catanzaro, no entanto, menos industrializada e atrativa. Na época, houve uma morte e mais de 190 feridos; confronto policial, conflito com a máfia, greve geral até mesmo o exército intercedeu.

— Puta que pariu. -sorri nervosamente. — Quem iniciou esse conflito?

— É um pouco complicado explicar esse período histórico. Inicialmente, parte da esquerda apoiou o protesto, quando era somente sobre direitos trabalhistas e relacionado aos civis. Depois, o Movimento Social Italiano-Direita Nacional, um partido neofascista, cunhou um levante que levou a tragédia da polícia e do exército.

Grunhi a contragosto.

— Brasil, 2016. -comparei desanimada. — Por que escolheu esse lugar, além do fato de Sebastian se reunir aqui anualmente?

— Por estar próximo a Sicília, território oficial da minha família e que será dado a ele em minha iniciação. Apesar de ser comandado pela ‘Ndrangheta, tem um teor menos fechado que Roma e Florença. É relativamente seguro e as praias sugerem campo aberto para possíveis fugas, inclusive para a Sicília. -sublinhou a possibilidade. — Reggio é apenas um condado da Calábria, a Ndrangheta prefere a capital e as cidades grandes. E você gosta de praia.

— Você pensa em tudo. -retruquei surpresa, uma vez que não estivera presente quando ele articulara a análise de nossa nova moradia. — Por que não vamos a Sicília? Parece ser mais seguro.

— Porque se eu assumir, vão me considerar o novo capo.

— Você é. -assoviei.

— Não vai ser meu rosto a comandar. -recordou-me o acordo com della Rovere. — Mas se precisarmos ir até lá para nos proteger, é próximo. Pelo mar, ninguém nos procurará.

Suspirei.

— Vamos ter que comprar um barco. -brinquei.

Jay ergueu as sobrancelhas.

— Você me ofende ao achar que não tenho um. -murmurou.

— O quê?!

— E um helicóptero, também. -adicionou, e, antes que eu pudesse lhe rebater em questionamento se era verdade ou uma brincadeira sua, ele diminuíra a velocidade do automóvel e parara diante de uma grade de proteção. O cenário me obrigara a engolir as palavras. — Essa é Lungomere Falcomatà.

Sem nada dizer, caminhei até encostar-me num banco de ferro próximo.

O que se estendia diante de mim era como uma colagem de monumentos e atrações turísticas num plano de imagem só; o que parecia ser apenas um extenso calçadão de praia, era uma rua extensa, de piso cor de giz e cercada por parapeitos à orla do mar. Alguns bancos enfeitavam a passagem que ligavam construções chamativas e jardins, no entanto, toda a minha atenção se fora capturada por uma espécie de anfiteatro ao ar livre. As fileiras de assentos da arquibancada se dispunham em formato de meia lua, contornando o centro circular do espaço assemelhando-se a uma versão compacta do Coliseu; do ponto central em direção ao oceano, um monumento em forma de arco retangular guardava a estátua de uma guerreira.

— É Atena? -questionei a única coisa que conseguia, sentindo a presença de Martini atrás de mim.

— Sim. E essa construção é a Arena dello Stretto.

— É tão lindo. -deslumbrei, pois jamais imaginara a possibilidade de se construir uma estrutura tipicamente grega a beira-mar. Sentar-se nas últimas fileiras e observar o fim do dia naquela posição privilegiada certamente seria minha nova atividade favorita. — Eu adoro como a Itália adora brincar com o muito antigo e o novo.

— Após os incidentes da década de 70, Reggio passou por uma reconstrução fervorosa. Essa rua inteira foi remodelada para se tornar uma das atrações principais, a identidade da cidade. -revelou. — Atualmente esse lugar anda por alguns problemas políticos, corrupção, crise, entre outros. Maioria da dificuldade é por conta da ação da ‘Ndrangheta, apesar de, comparado ao resto da Calábria, ser pequeno.

A nova informação me causou um leve engasgo.

— E você ainda quer ficar aqui?

— Teorizo que Sebastian queira trabalhar com essa desordem. Ele não segue as tradições dos antigos Santistas, então, se permanece a fazer os ritos de iniciação aqui, é por estratégia. -articulou. — Tenho certeza que ele quer tomar o território deles.

— Sicília, Roma e Calábria… -assoviei, compreendendo o possível interesse geográfico. — É uma rota que interliga toda Itália e deslancha diretamente em Florença. Você sabia disso quando ofereceu os lugares da sua família.

— Obviamente. -os lábios flertaram num sorriso torto.

Desacreditada em sua sagacidade, apenas pude balançar a cabeça nervosamente.

— Você deveria ser político. -resmunguei.

— E brigar com sapatos no parlamento? Não, obrigado. -debochou. — Encontrarei menos criminosos dentro da máfia do que naquele prédio. Prefiro ser a mão que os enforca por trás das cortinas.

Embora aquilo me apavorasse um pouco, tinha certeza que ele colecionava experiência nessa prática a julgar a atuação das organizações no país. No Brasil não é diferente. Dessa vez, entretanto, direcionariam aquele jogo de gato e rato para algo que retornasse aos injustiçados.

— Aqui é bom pra dançar quadrilha. -idealizei ao fitar o espaço.

— Una os brasileiros desse lugar e coloque em prática. -encorajou.

— Não me tente. -sorri. — Quase consigo imaginar nosso pirralho correndo aí.

— Joelhos ralados, braços quebrados, bicicleta pendurada no parapeito de proteção…

Estapeei seu ombro, mesmo que a imagem fosse tão possível quanto nítida para mim.

— Não agoure!

— Você realmente acredita que algo vindo de nós vai ser quieto? Estou me preparando para criar um ser diabólico. -riu com humor, contagiando-me com suas fantasias irresponsáveis. Senti seus dedos passarem suavemente por minha coluna. — A cantora italiana favorita de Catarina nasceu aqui.

— Quem? -sorri.

— Loredana Bertè. Ela foi uma revolução feminina no rock italiano, fez muito sucesso nos anos oitenta, principalmente por inovar o cenário musical daqui ao misturar vários gêneros e por se vestir de forma chamativa. Em 1985, ela fez um álbum chamado "Carioca" em homenagem ao Djavan.

— O Djavan do Brasil? -repliquei incrédula e ele assentiu. — O nome dela não me é estranho.

— Ela é a irmã mais nova da Mia Martini. -revelou, ressuscitando o nome de uma falecida artista italiana que eu adorava e que conhecera por causa do sobrenome em comum ao dele.

— Como eu queria ter conhecido Catarina. -desejei, suspirando em frustração.

Rafael apertou os lábios numa sombra de sorriso.

— Também gostaria que vocês tivessem se conhecido. -resvalou a mão de minha cintura ao ombro esquerdo, apertando-o. — Vamos, precisamos dar uma última parada antes do hotel.

— O que você está aprontando? -hesitei.

— Suas boas vindas à Calábria. -circundou meu pulso, guiando-me de volta ao veículo.

 

 

 

Com as mãos sobre meus olhos e guiando-me às cegas, Jay se negava a dar-me uma dica de onde estávamos. No entanto, os grãos macios de areia adentrando minhas sandálias e o vento ríspido com o característico cheiro de mar me denunciava que havíamos alcançado a costa praiana. Distantemente, uma música animada tocava entre timbres de vozes em conversas espalhafatosas como italianos eram acostumados a se comunicar; alguns assovios de gaivotas flertavam com meus ouvidos, em minhas narinas o perfume de mariscos frescos e azeite, peixe assado e os aperitivos ainda mais elaborados abriam meu paladar.

— Eu já sei que estamos na praia. -falei, tentando desvencilhar de seu enlaço.

— Não é uma praia qualquer. -resistiu, mantendo-me presa a ele.

A ansiedade crescente me obrigou a grunhir, no entanto, permiti-me divertir com a apuração de meus sentidos a medida que vagávamos. Após alguns poucos minutos de caminhada que de forma benéfica aqueceu minhas articulações travadas depois da longa viagem, Martini postou-se atrás de mim e retirou as mãos de meu rosto. Com a visão ainda embaçada, visualizei uma espécie de colina repleta de luzes douradas, as quais, assim que recuperara a nitidez, identifiquei como pequenas casas. A imagem era de tirar o fôlego. Na costa da praia, um conjunto de residências tomavam espaço numa montanha pouco íngreme, logo ao lado de um rochedo no qual uma enorme construção de pedras jazia no topo. Aparentava ligeiramente com San Marino, mas adquiria características pitorescas de uma arquitetura essencialmente natural. Algumas dessas casas tinham as calçadas como porto para pequenos barcos, numa espécie de misto de vila ribeirinha com cenário turístico. Quaisquer adjetivos que tentasse pensar para descrever aquela beleza soava insuficiente.

— Essa é Chianalea di Scilla. -indicou ele.

Mordi os lábios em êxtase.

— Aquele é o mar Tirreno? -perguntei, apontando para além do enorme rochedo, reconhecendo-o de nossa antiga viagem anos atrás onde nadamos nus na madrugada.

— Bom saber que ainda se lembra. -confirmou travesso. — Daquela vez estávamos no lado oposto dessa praia, mais próximo a Sardenha.

— Quem diria que pararíamos aqui anos depois. -contemplei.

As pessoas que andejavam em direção aos estabelecimentos muitos metros a frente adicionavam mais movimentação ao local; dessa vez, quase sorri com a forma indiscreta que fitaram Rafael com suas roupas sociais. Mesmo que estivesse descalço e com as barras da calça dobradas, ainda aparentava como um modelo.

Ele me olhou de esguelha.

— Vai ficar de vestido? -questionou.

— Não me sinto confortável com esse corpo ainda. -apesar do clima aprazível me convidar a desfazer-me das vestimentas, limitei-me a sentir a areia molhada sob meus pés. Ocultei um pequeno arfo de espanto pela disforia que sentia da última vez que pisara numa praia, na Austrália. O minúsculo biquíni dera lugar a panturrilhas ligeiramente inchadas e uma barriga volumosa repleta de estrias teimosas. — Mas fique à vontade para se despir. Há uma pequena plateia.

— Tudo bem. -deu de ombros e começou a desabotoar a camisa e desfazer-se das calças. A cueca boxer preta extremamente atrativa em seu traseiro adicionou olhares em nossa direção.

— Eu tava brincando, cacete! -gritei, rindo.

Um par de senhoras o fitaram por cima dos óculos.

— Eu, não. -piscou e agarrou-me em seu colo. Soquei-o, ciente do que ele pretendia.

— Não ouse! -bati em seus ombros.

— Dra. Heloísa recomendou exercícios na água. -relembrou cinicamente, rumando até o mar. Remexi as pernas na esperança que meu peso o fizesse ceder, porém sua força era covardemente maior que a minha; àquele ponto, sequer sabia se achava aquilo sexy ou frustrante.

Numa batida firme, a água gélida nos cumprimentou. Tremulei quando a onda nos abraçou e tateei seu pescoço, mas senti-me extremamente segura em seus braços que circundavam-me contra seu corpo.

— Filho da puta! -reclamei, cuspindo o sal que desgastara minha garganta e rindo ao mesmo tempo.

Estapeei seu rosto em gracejo, notando que ele se divertia com meu desespero atrapalhado. Num gesto, travou meu pulso e puxou-me para beijá-lo; os lábios molhados e salgados antecederam sua língua, e erroneamente senti prazer naquilo. Afastei seu cabelo para trás e dedilhei a cicatriz em sua têmpora, entregando-me a seu toque e relaxando com a sensação de leveza que a pouca gravidade da água me trazia. As oscilações moviam minha roupa, suscitando a flutuação da saia do vestido ao meu redor como uma boia; o choque térmico da pele quente de Rafael e a brisa fria vindoura da maresia fizera-me arrepiar por completo. Quando enfim rompemos as bocas, pisquei sequencialmente com os olhos ardendo pela salinidade. Ele retirou meus cachos do rosto e ergueu meu queixo. A princípio, imaginei que fosse para eu recuperar o fôlego, contudo, ao atentar para a paisagem, deparei-me com o pôr do sol.

— O fim de tarde do sul da Itália é a melhor obra de arte que você verá aqui. -murmurou, visivelmente orgulhoso de seu país.

Porra, era impossível não se gabar daquilo.

O céu rompia em uma paleta alaranjada, como pinceladas de um Van Gogh feliz. Os contornos azulados do início de noite adornavam junto as nuvens pálidas que abriam espaço para o brilho ainda opaco das estrelas; sombras de pássaros voltando aos ninhos zarpavam rapidamente ao horizonte, alguns em conjunto, como uma acrobacia aérea. Na costa, a areia perolada e algumas pedrinhas enfeitavam o encontro do mar com o porto, as luzes das residências na encosta traziam a sensação de acolhimento humano e, de alguma forma, a certeza de que definitivamente ali era um local especial.

— Tem cara de casa. -confessei, encantada.

— Fortaleza? -indagou.

— Também. -o encarei, percebendo o quão bonitas suas íris azuis ficavam naquela iluminação. Ainda mais claras, coloridas, profundas. — Casa, em geral. Algo nosso. Ainda é estranho dizer isso.

— Eu te alertei sobre você combinar com lugares litorâneos. -mencionou, sagaz.

Acariciei seu maxilar, sorrindo com sua prepotência. Ele raramente se enganava sobre mim. Respirei fundo, admirando aquele pequeno paraíso sem ainda acreditar que moraríamos diante de uma vista tão inimaginável e próxima da natureza como aquela. Dava-me um frio no estômago quase aterrorizante elencar que não era apenas uma viagem ou visita, mas nosso destino final onde teríamos nossa criança, iniciaríamos uma família, passaríamos por nossos maiores medos e mudanças.

Entretanto, mesmo apavorada com todas essas promessas de futuro, aquelas águas tranquilas traziam-me uma calmaria quase hipnótica. Talvez fosse realmente Morgana, a feiticeira das lendas calabresas.

— Como eu queria poder sair correndo por essa praia e sumir entre alguma onda. -cobicei, visualizando-me numa prancha.

— Terá tempo para isso. -reiterou. — Levarei você à Costa Amalfitana algum dia.

Sorri.

— Cobrarei essa promessa. -ameacei.

— E eu nunca quebro uma. -firmou os antebraços em minhas coxas, direcionando-me às suas costas. Posicionei minhas pernas ao redor de sua cintura, acomodando-me como um filhote de macaco em tempo que ele nos levava de volta a segurança da praia. — Vamos para o hotel, Leonardo está nos aguardando.

— Ele veio até aqui? -surpreendi-me.

— Você sabe que ele estava responsável por encontrar uma casa para nós. -comentou.

Engoli em seco, padecendo sobre a tarefa ignorada em meio a tantas tensões.

— Nunca o falamos se queríamos visitar ou se ele deveria escolher uma.

— Ele trouxe fotos das quais selecionou. A escolha final será nossa. -abaixou-se para apanhar suas roupas e, quando fiz menção a descer, ele estapeou meu traseiro. — Não desça daí.

— Eu posso ir andando… -sugeri, assistindo-o recolocar a calça como se meu peso não existisse.

— Você está de repouso. -disse impassível.

— Vai me carregar por aí? Isso é estranhamente sensual. -gracejei.

— O hotel é logo ali, então, sim. -confirmou.

Restou-me tentar me estabelecer de modo mais confortável sobre ele, porém a lembrança daquilo ser uma brincadeira infantil e não uma necessidade médica fez-me rir por vários metros seguintes. A última vez que ele me carregara fora há tantos anos que, mesmo sem querer, acabei transportando-me para nossa adolescência conturbada nas fugas da clínica, as noites solitárias nas estradas de Lincolnshire, as muretas de proteção que tínhamos de pular para correr dos enfermeiros e seguranças. Involuntariamente, as lágrimas nostálgicas balançaram em meus olhos ao constatar a desmedida diferença de futuro que tivemos. Ainda éramos fugitivos – da porra da polícia internacional – mas estávamos tão livres quanto possível. Não mais numa beira de caminho, fracos e confusos de tantos dias presos numa instituição, mas em uma praia, com ninguém mais a nos dizer o que fazer.

No lugar que seria nosso lar.

Um familiar ritmar agitado me retirou em súbito do devaneio, obrigando-me a estreitar a atenção para um pequeno grupo de pessoas diante de uma das entradas para as escadarias de acesso a cidadezinha portuária; era alta, acompanhada de percussão, triângulo e uma voz ligeiramente embriagada de um cantor que se equilibrava num palco improvisado. Bandeirinhas brasileiras tremiam com o vento, adornando a puxadinha de um pequeno bar. Como se tudo aquilo não fosse o bastante para me fazer gritar em êxtase, reconheci a silhueta inconfundível de Lúcia ao horizonte, acenando para nós.

— Puta que pariu! Você só pode estar brincando! -exclamei, agitando-me como um gato em suas costas.

— Eu raramente faço isso. -seu rosto virou para mim, sustentando um riso torto nos lábios.

— Cretino! -berrei, ressuscitando o choro que me fiz engolir minutos atrás. — São elas mesmo?! Como?!

— Pode ser difícil de acreditar, mas é bem mais fácil transportar garotas sem ficha criminal. -ironizou, flexionando os joelhos para que eu pudesse descer. Percebi que o choque me deixara trêmula e a emoção me paralisou parcialmente, bastando que a visão embaçada entre lágrimas tentasse distinguir as figuras femininas vindo em minha direção.

Mesmo sem enxergá-las direito, poderia discerni-las até mesmo em uma crise psicótica.

— Améliaaaaaa! -foi tudo o que ouvi antes dos pares de braços molhados e sujos de areia me rodearem num abraço conjunto.

— Peguem leve, ela está grávida! -Martini reclamou.

— É nossa vez agora, sai fora! -Dri rebateu, esgueirando-se para segurar meus ombros e deu-me um selinho de cumprimento.

Antes que pudesse devolver, Trícia envolveu minha barriga com as mãos e gargalhou.

— Você está tão fofinha! -exprimiu. — Ei, catarrento! Sou eu, sua madrinha!

— Todas nós somos! -Lúcia circundou minha cintura, depositando um beijo estalado em minha bochecha que, no segundo seguinte, transformou-se em outro abraço.

As três me tinham em seu centro, como se me guardassem numa muralha temendo que eu sumisse; naquele ponto, entendia-as bem demais para reclamar. Mesmo se eu quisesse escapar, minhas pernas tremiam, o choro me enclausurara e só tive reação para jogar os braços sobre elas e apertar mais ainda aquele abraço conjunto. A saudade me corroía, a ponto de não conseguir desistir de soltar nenhuma delas para me dedicar a uma de cada vez.

— Como vocês…? -gaguejei, procurando fôlego.

— Martini nos convidou a vir visitá-la após falarmos no fórum naquele dia. -Lúcia antecedeu, limpando o choro enquanto ria. — Bem, na verdade ele perguntou se éramos loucas o suficiente para ignorar a universidade e o trabalho no final de semana e atravessar o continente.

— E é claro que vocês vieram. -adicionei.

— Ele disse que arranjaria um atestado médico para nós. -respondeu. — Nós viríamos vê-la mesmo se tivéssemos que trazer algum professor sequestrado!

— Ezekiel nos trouxe no jatinho. Ele tem um jatinho. Isso nem é o mais estranho. -Dri revelou. — Senti sua falta, caralho!

— Eu também! -devolvi. — Vocês nem falaram nada!

— Era surpresa, cacete! -Trícia enfatizou.

— Obrigada por virem… -sibilei embargada.

— Pelo amor de Deus, mulher, não faz a gente chorar mais! -Lúcia reclamou humorada, abrindo espaço para que pudéssemos sair do meio da praia e rumar até o barzinho.

— Vou arranjar uma espreguiçadeira para você. -Jay disse, assistindo nosso reencontro com uma das sobrancelhas arqueadas e visivelmente incomodado à distância com os muitos toques físicos e afetuosos entre nós, como se aqueles abraços claustrofóbicos fossem nele. — Tiveram uma boa viagem?

— Ótima. Nunca tinha entrado num jato na minha vida. -a mulher de tranças retrucou. — E tinha uísque…

— Então suponho que vocês não tenham visto o trajeto. -Rafael previu.

— De jeito nenhum. -Trícia riu. — E eu só alcancei o voo de Londres pra cá, que é perto… elas já estavam desacordadas.

— Seu jeito de organizar as coisas é muito estranho. -Dri observou. — O crime organizado, digo.

Martini soprou em sarcasmo.

— Está condenando seu namorado ao julgamento também. -replicou ele.

— Tenho certeza que ele não é como você. E ele não é meu namorado. -defendeu ela.

Ela vai odiá-lo pelo resto da vida.

— Onde ele está, afinal de contas? Se afogou? -perguntou Jay, ignorando seu pouco apreço.

— Ele foi levar nossas malas para o hotel. Quando vimos a praia, ficamos por aqui, mesmo. -Trícia riu, apontando para um belíssimo edifício um pouco mais acima, na beira da colina da vila.

— Farei o mesmo. -avisou, esticando a espreguiçadeira para mim. — Você vai ficar bem?

— Melhor impossível. -me apoiei em seu antebraço, deitando-me e esticando os pés. Segurei seu rosto, rindo. — Obrigada pela surpresa. Foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido.

Ele beijou os nós de meus dedos.

— Você precisa mais delas do que de mim. -proferiu sobriamente, porém gentil. — Vou trazer roupas secas pra você.

Assenti, vendo-o desaparecer a passos ágeis escadaria acima. Minhas amigas me encararam após vários segundos secando suas costas largas e, sabia eu, o traseiro. Por alguns momentos, até mesmo eu o olhei como se fosse uma novidade. Até de costas era irresistível.

— Nossa, ele fica tão mais bonito na terra dele… -Lúcia analisou-o enquanto subia os degraus. — Encorpado, né? Esse cabelo grande também… digo, ele parece bem humorado.

— O cabelo… -Trícia riu, concordando. — É como um deus grego em um show de metal.

Romano. -Lúcia corrigiu.

— É. É isso aí. -a portuguesa confirmou. — O perfume dele ainda está aqui.

— É, até que é bonitinho. -Adrielle resmungou revirando os olhos, tomando lugar numa cadeira ao meu lado. — Falta um pouco de cor e caráter, mas ninguém é perfeito.

Sorri com sua língua venenosa, embora fosse acostumada com seus comentários. Mesmo na universidade quando a contara sobre meu passado, Martini nunca a cativara muito; após a descoberta da máfia, seu apreço diminuíra drasticamente.

— Não é mais branco que o Tom, pelo menos. -Lúcia comentou e me fitou em imediato, como se tivesse falado besteira. — Desculpa! Esqueci que vocês…

— Tudo bem. -apaziguei. — É até bom falar dele com vocês.

Trícia revirou as órbitas de forma quase imperceptível, trazendo-me a certeza que algo acontecera. No entanto, antes que pudesse questioná-la, Dri retornou.

— Você está bem? Você não é de deitar… -pontuou.

— Estou de repouso. -admiti. — Colo do útero curto. A minha médica libera apenas alguns minutos de caminhada por dia. -expliquei. As demais se sentaram ao meu redor, Lúcia na toalha estendida no chão e Trícia numa espreguiçadeira semelhante. — Bem, pelo menos é só isso. Depois do tiro, achei que essa gravidez seria ainda pior.

— Como você se sente? -a portuguesa questionou.

— Na maior parte do tempo, exausta. Mas estou bem.

— A Itália parece te fazer bem, mesmo depois de tudo. -Lúcia adicionou.

— Não diferencia muito do Brasil, acho que vocês já perceberam. Pelo menos no clima, e no jeito mais ativo das pessoas… -coletei fôlego, apreciando a paisagem que, agora adornada com as faces de minhas garotas, tudo parecia fazer sentido. — É tão diferente da apatia de Londres.

— Você está realmente bem? -Adrielle pigarreou, induzindo-me a fitá-la. — Você foi sequestrada, engravidou, teve que fugir e abandonar tudo. Digo, não é porque eu sou sua ex-namorada ou muito desconfiada, mas é meio difícil lidar com tudo isso sem se perguntar se você está realmente nas suas faculdades mentais, sabe?

Arfei, aquiescendo.

— Acredite, eu não sei como responder isso. Vendo pelo ponto de vista de vocês, é realmente complicado imaginar que eu esteja sã. -pisquei sequencialmente imaginando todas as concepções errôneas que poderiam brotar ao analisar minha jornada até ali. — Essas últimas semanas têm sido pesadas, mas são as que direcionarão meu futuro. Futuro esse que não é somente meu. E entre infernos e surtos, eu me sinto segura pela primeira vez em muito tempo.

— Realmente espero que esteja. -a ex-namorada enfatizou ceticamente. — Se você estiver aqui obrigada, balance a cabeça duas vezes e nós te tiramos daqui mesmo que sejamos mortas no processo.

— Não estou! -prometi. — Eu que fugi atrás dele, não lembra?

— Você já fez coisa pior em suas crises. -sinalizou.

É verdade.

— Se não confia em mim, tente ver pela ótica do Ezekiel. Eles são amigos desde Oxford. -sugeri.

— Às vezes eu desconfio do que ele faz, também. -franziu o cenho. — Ele tem um jatinho. Sabe quem tem jatinho? O crime organizado.

— Você não vai superar esse jatinho, né? -gracejei.

— Martini tem um? -retrucou.

— Não que eu saiba. Mas o Ezekiel é o mais rico desse grupo. -limpei a garganta, relembrando de seus exageros. — Acredite em mim, ele é o menos estranho do nosso círculo de amizades. Ele só transporta obras de arte e coisas do tipo, já o irmão dele, por outro lado...

— Eu nem quero saber. -desdenhou.

— Sei que você tem suas ressalvas quanto ao Jay, e você está certa. Ele não é um cara inocente, nem tem um passado bom e é complicado acreditar que ele seja diferente dos outros desse submundo, mas ele me coloca em prioridade em tudo. Posso te garantir isso com toda certeza do mundo. -segurei suas mãos. — Se você ignorar a parte da máfia, ele é só um professor de história com transtorno mental e manias estranhas.

— Bonito pra caramba. -Lúcia frisou, gracejando para quebrar a tensão e induzindo-nos a olhá-la. — Pelo amor de Deus, meninas…

— A gente já entendeu. -Adrielle rebateu. — Bem, desculpe se eu não lido tranquilamente com isso, eu já vi muita mina se dando mal ao se envolver com homens assim. E você foi sequestrada pela família dele. Você entende que eu estou apavorada, né?

Confirmei, sentindo-me péssima por colocá-la em tal posição. Em seu lugar, provavelmente reagiria ainda pior. Ao contrário de Lúcia e Trícia que conheciam Jay desde que o reencontrara, Dri não tinha nenhum tipo de convivência ou conhecimento sobre ele além das coisas que eu a dissera; no dia que finalmente trocaram palavras um com o outro, em meu aniversário, fui sequestrada. Qualquer oportunidade que pudera existir para que eles tivessem um relacionamento amigável fora completamente destruído por isso.

— Eu realmente espero que vocês possam se conhecer melhor. -desejei com sinceridade, apertando seus dedos entre os meus.

A mineira balançou a cabeça em concordância.

— Pelo menos estou conseguindo te ver com mais frequência agora. -disse.

— Aos amigos ricos. -Trícia ergueu uma lata de cerveja, pegando para si a responsabilidade de amenizar o clima. — Olha, eu também já tive meus problemas com ele. O cara é estranho, ninguém sabe o que se passa naquela cabeça e ele assusta pra caralho quando quer. Mas em quatro anos que o conheço, uma coisa eu sei: ele sempre cuidou da Amélia.

Lúcia abriu um isopor e deu-me uma caixinha de suco de laranja. Dri derramou um pouco da cerveja, oferecendo aos santos.

— Ele cuidou do meu surto alcoólico no clube quando tentei atacar a Jane. Não tenho orgulho do que eu fiz, mas eu estava passando por várias merdas e ela foi um gatilho. Eu vi a forma como ela me olhava no Pub, quando eu trabalhava lá. E se tem uma coisa que eu aprendi em Londres depois de sofrer racismo, xenofobia e outras desgraças é revidar. Já fui muito passiva na vida. -declarou, espantando-me com as novas informações.

Felizmente, não chegara a trocar muitas palavras com a loira, mas a julgar as palavras que ela se referiu a mim, jamais colocaria a mão no fogo por ela. E Lúcia raramente se irritava por causas sem sentido.

— Sinto muito por isso. -lamentei.

— Com sorte não voltaremos a pisar em Londres tão cedo. -postergou. — Bem, nós só temos esse fim de semana aqui. Então não vamos gastá-lo falando sobre tragédias. Sou brasileira, mas tenho uma cota de desgraça diária.

Sorri, aquiescendo.

— Eu juro que queria ter metade da tranquilidade de vocês para lidar com essas coisas. -a mineira retrucou, bebericando a cerveja.

— Amélia é cearense, eu sou piauiense, a gente sobrevive na base da autodepreciação em forma de piada. Nordestino não leva desaforo pra casa, mas também tenta deixar os problemas na calçada. -proferiu, apanhando uma garrafa de vodca para si. — Mas não estou reclamando. Viajar com minhas meninas para visitar minha garota favorita, numa praia paradisíaca na Itália… quero dizer, quem reclamaria?

Minha ex-namorada balançou os ombros, aparentando enfim permitir-se relaxar um pouco.

— Latinas farreando na Itália sem ter que se matar para trabalhar para pagar… essa é a reparação histórica que esses colonizadores nos deviam. -Adrielle brindou. — Sem ofensas, Trícia.

— Vou brindar a isso, também. Bebida grátis, amo. -a portuguesa divertiu-se.

Gargalhei.

— Vou comemorar em ver vocês novamente. -as observei, uma a uma. Meu coração ameaçava explodir de felicidade. Era uma sensação tão rara que sequer era-me capaz de descrever.

De tão incomum, minha ansiedade começara a me importunar com ideias de como aquilo poderia ser facilmente destruído.


 


Notas Finais


Martini com ressaca social representa bastante a minha existência nessa pandemia. Felizmente, ele é muito bom com surpresas e trouxe boas companhias para Amélia para suprir o coraçãozinho cheio de saudade dela hahahaha
E o que falar sobre esses dois atrapalhados do caralho sem saber seguir uma simples lista de compras para o bebê? É aquele ditado: conseguem entender literatura clássica, filosofia, mas não sabem o que é um "mijão".
(Também não sei).

Explicando um tiquinho melhor o que coloquei nas notas iniciais, daqui para frente os capítulos serão um pouco mais dinâmicos, haverão alguns pulos temporais e eles ficarão mais frequentes com o passar dos acontecimentos. Acredito que agora alguns pontos serão colocados sobre a mesa, como a postura das amigas da Amélia quanto a essa nova vida... e Reggio Calabria pode ser igualmente linda e perigosa.

Se tudo seguir certinho o cronograma que estou montando, acho que consigo finalizar essa história esse ano hahahaha
Mas se depender da minha universidade, vou me formar e essa criança ainda não nasce... tá pior que a gravidez da policial de La Casa de Papel, deus amado...

Os cenários maravilhosos de Reggio Calabria estão aqui: https://bylovebug.blogspot.com/2021/04/capitulo-35.html

E, novamente, muito obrigada por dedicarem um tempinho pra ler e comentar <3
BEIJOS! Se cuidem!


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