História Learn to Fly - Capítulo 4


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Comédia, Drama (Tragédia), Hentai, LGBT, Poesias, Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Eita.
Depois de uns seis meses em pisar aqui, já não sei mais nem o que dizer.
Primeiramente, mil desculpas pelo desaparecimento, meninas! Com o fim de Lanterna dos Afogados, tentei ao máximo escrever logo todo o plot desse final alternativo e ainda estou trabalhando direitinho nisso, mas esse não foi o motivo do meu sumiço. Foi a faculdade.
Eu não tinha mais tempo e sanidade nem pra ver um episódio de série, gente. HUAHAUAHAUHAUA ~rindo de nervoso~ e passei por muita dificuldade, então o bloqueio de escrita logo veio. Conto melhor nas notas finais.
Como não posso deixar de dizer: FORA TEMER
Segundamente, vou explicar como essa bagaça vai funcionar antes de deixar a cabeça de vocês confusas. Foi difícil arranjar toda essa linha do tempo para os acontecimentos e tal, então vamos lá.
Esse final começa com o fim do capítulo 99 de L.A, onde a Amélia se encontra naquela dualidade logo após saber que Jay fugiu da cadeia. Ou seja, vocês verão a versão alternativa desse capítulo. Todos os acontecimentos depois do 99 em Lanterna dos Afogados não aconteceram aqui, então, literalmente, é um fim totalmente alternativo mesmo.
Escrevo com muito carinho, para vocês, minhas queridas, que estão até aqui comigo. Posso chamar essa história de 'grupinho de amigas', porque realmente é xD

Espero que gostem! xD

"Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim
Um grande amor não se acaba assim
Feito espumas ao vento
Não é coisa de momento, raiva passageira
Mania que dá e passa, feito brincadeira
O amor deixa marcas que não dá pra apagar
[...]
E de uma coisa fique certa, amor
A porta vai estar sempre aberta, amor
O meu olhar vai dar uma festa, amor
Na hora que você chegar" Fagner - Espumas ao Vento.

Capítulo 4 - Espumas ao Vento


Fanfic / Fanfiction Learn to Fly - Capítulo 4 - Espumas ao Vento

Março de 2016

 

Seja binária. 0 ou 1, sim ou não, apenas aja.

Repeti o mantra de Illya em minha cabeça, encorajando-me a enfrentar o que o destino traçara para mim. Já não havia mais para onde fugir, não existiam mais argumentos para embasar meu medo e nem mesmo minha livre escolha para fazê-lo. Eu tinha a obrigação como mentalmente instável de prosseguir com a interrupção e evitar um desastre. Dra. Vivian surgiu com meu casaco, ajudando-me a vestir enquanto engolia em seco todo o medo e culpa que me assolavam.

— Respire fundo, querida. Prometo que não será tão ruim como sua imaginação diz ser.

— Eu sei. -sussurrei.

— Você está pronta?

— Não. Mas eu nunca estaria. -ofeguei.

Minha psiquiatra afagou meus ombros. Juntas, rumamos à porta em passos lentos, porém decididos. Ao girar a maçaneta, tropecei em uma caixa envolta em papel pardo sobre o tapete de entrada. Engolindo duramente, agachei-me e a peguei com receio velado em curiosidade. A apalpei cuidadosamente, à procura de alguma identificação, mas não havia remetente, selos, muito menos quaisquer indícios de quem a enviara.

— O que é isso? -minha psiquiatra inquiriu de cenho franzido.

— Não faço a mínima ideia. -meu coração disparou em nervosismo, obrigando-me a rasgar sua proteção com as unhas. À medida que adentrava o pacote, minha garganta se fechara em aperto e já era-me possível sentir o suor frio se unir à tremedeira causada pela ânsia. — Ah, caralho! Eu não acredito!

Um bonequinho de ação do Rick Sanchez estava preso por uma correntinha de prata, atado a um exemplar de ‘O Inverno de Frank Machine’, um dos gêneros policiais favoritos de Jaime. Eu nunca o havia lido, mas sabia que envolvia a máfia.  Isso é um aviso, eu sei que é um aviso. Ao abrir o exemplar, deparei-me com uma ponta de papel marcando o penúltimo capítulo. Fui até ele e, contendo um grito, visualizei uma passagem de ônibus já destacada, denunciando uso. Apesar de procurar o destino do ticket, ele parecia ter sido borrado propositalmente. Logo acima, meus olhos se chocaram com o nome do passageiro.

Rafael Bertinelli.

— Ele escapou! Jay escapou! -gritei, rindo embargada, levando a mão à boca.

— O quê? -replicou ela, descrente. — Como você sabe que é ele?

— Rick, o livro, o nome! Rafael! Ele recebeu minha carta! -a inquietação açoitou-me com tanta força que tive de me apoiar na parede. A visão turva de lágrimas não antecipou o abraço de Dra. Vivian, acompanhando-me num choro de alívio.

Com o livro em minhas mãos, sequer me foi preciso esforçar para sentir o perfume amadeirado com um sutil toque mentalizado e lascivo demarcando suas páginas com tanta posse; aquela fragrância única que ninguém mais a usava, além de Jay. Um frio na barriga se instaurou, açoitando-me com uma sensação próxima a de uma pré-síncope. O boneco de Rick ainda sorria torto, acorrentado na capa. Então notei um pequeno pingente abaixo da figura de ação, balançando junto ao livro. Aquela corrente era a do colar que ele me presenteara anos atrás, simbolizando nossa relação no BDSM. As pequenas asas ao sacudir de minha mão trêmula denunciavam o pingente e o significado que a joia carregava desde a primeira vez que a vira. A liberdade de poder ser quem éramos, a possibilidade de voar.

Eu odeio você, seu cretino de merda.

Por que você faz isso comigo?

Por que...

— Você se sente melhor em seguir em frente agora, querida? -Vivian indagou em timbre gentil, tão carregado de empatia que somente me sobrou fitar seus olhos e notar que todas as muralhas de força que construíra em prol de seguir em frente subitamente haviam caído.

Meu peito doía ao respirar profunda e intensamente, beirando à falta de fôlego de um ataque de ansiedade. Não soube encontrar palavras para explicar o turbilhão que tomara conta de mim, nem mesmo conseguia permanecer encarando o par de íris de minha psiquiatra. O conforto que ela lutara para me repassar parecia não se fazer presente na singular passagem de tempo entre o meu ato de apanhar o pacote na porta e compreender o recado de Jay.

Por que você ainda causa tanta reviravolta em mim?

Desviei a atenção para os pertences que ele me deixara, observando minhas mãos trêmulas; Vivian balbuciava longinquamente, porém minha mente se negava a dedicar algum tempo para decifrar e ouvir corretamente. Pare de dar ouvidos à dualidade de seus sentimentos. É a porra do seu transtorno falando. É o seu desequilíbrio emocional.

Solavanquei em susto ao sentir o toque firme de Dra. Vivian em meu ombro, dedicando-me uma expressão de dubiedade.

— Amélia, você está me escutando? Estamos atrasadas para a clínica. -notificou, entretanto, mais uma vez, as palavras não chegavam em um consenso em minha percepção.

Engoli em seco, assustando-me com minha inconstância. Em ato involuntário, apertei minha barriga em tempo que um soluço rasgava minha garganta e um choro copioso reivindicava controle de mim. Era como o estopim de uma guerra que eu adiava há muito tempo. A última explosão que conseguira atrasar, mas, como toda fatalidade, trazia consigo o peso de uma responsabilidade que acabara deixando sobre as mãos alheias.

— Eu não posso fazer isso. -gaguejei, procurando-a com desemparo. — Eu... eu não posso...

— O que está sentindo, Amélia? -a doutora buscou afagar minhas costas e trazer-me sutilmente à clareza, entretanto, embora quisesse respondê-la de modo inteligível, já não conseguia mais colocar meus pensamentos em ordem.

— Eu não sei o que fazer! -exclamei. — Essa agonia nunca acaba! Estava tentando me acostumar com a ideia de nunca mais ver Jay, mas agora ele está livre e... a muralha que eu tentei construir para me proteger da falta dele acabou de desmoronar!

— Do que está se referindo? -inquiriu confusa.

— Eu estou sozinha, Vivian. Tom sequer ligou para mim. Você está vendo o que eu estou fazendo? Tentando melhorar para ele? Desistindo e abrindo mão de tanta coisa... -busquei ar, ciente do quão ambígua soava.

— Você está em dúvidas quanto a esse relacionamento?

— Que relacionamento? Nós sequer nos falamos. -sorri infeliz.

— Respire fundo. Vamos conversar direito. -indicou-me o sofá.

Desconheci a força que me fizera alcançar o estofado. Esfreguei os olhos para livrar-me das lágrimas, mas em ato instantâneo elas retornaram assim que visualizei a curva de minha barriga sobre o vestido. Quase imperceptível, apenas um pequenino volume que se enfatizava quando sentava.

— Eu nunca vou ser boa o suficiente ou normal para ele. -murmurei, torcendo o pescoço para fitá-la. — Não é depreciação, apenas a realidade. Mesmo se eu fosse capaz de fingir normalidade, nunca me sentiria livre com meus transtornos ao lado dele. Desde que o conheci eu ocultei minha loucura, ocultei toda a escuridão que havia em mim e tentei mostrar um lado bom para ele. Um lado que nem eu conhecia. Mas eu estou cansada, porra. Tudo o que eu fiz desde que fui sequestrada foi me manter forte, tentar não sucumbir a toda a dor que venho carregando e abdiquei do meu direito de apenas... cair.

— O que cair significa para você nesse contexto? -replicou.

— Ser eu mesma. Fazer as merdas que eu faço quando estou em crise, chorar, não levantar da cama, praguejar contra a vida, ignorar tudo e aceitar o quão fodida eu sou. -titubeei. — Tentei ser forte e Tom lidou com isso como se eu não confiasse que ele pudesse me ajudar, mesmo que eu tenha o feito para protegê-lo de tudo o que eu sou. Tudo o que eu fiz desde que o conheci foi... impedi-lo de ver minhas rachaduras. E dessa vez não há conserto. Eu quebrei. E ele quebrou junto de mim.

— E por que está trazendo tudo isso à tona agora, querida? -indagou em preocupação.

Abaixei as pupilas, fixando novamente em meu ventre.

— Porque estou prestes a desistir de uma vida. -oscilei, apertando o pingente de Jay entre os dedos. — Essa responsabilidade não é só minha.

— Isso quer dizer que você quer ir atrás dele?

A hesitação me impedira de formular uma resposta palpável. Velejando em um mar de incertezas e pensamentos conflituosos, deparei-me com todos os debates que se perpetuavam desde que descobrira a gestação. Encontrei-me com as diversas versões de mim mesma, cada uma em representação a uma certeza passageira que cultivava, mas não ousava considerar. A Amélia desequilibrada e selvagem encarava com culpa a Amélia que se tornara, sem querer, mãe. E as duas, inertes em suas contraposições, percebiam que nada que uma pudesse contar a outra mudaria o fato que, no fim, eram a mesma pessoa.

— Eu só quero salvar o meu filho. -assumi entrecortada, descrendo em minha própria voz.

Aguardei pela réplica da psiquiatra, porém, somente um silêncio sepulcral se fez entre nós. Busquei a plenitude do semblante que sempre me resgatava do caos, mas ela parecia tão perdida quanto eu. Vivian nunca ficara muda em nossas sessões. Nem mesmo nas mais pesadas delas.

O que eu acabei de falar?

— Essa eu não esperava. -murmurou, limpando discretamente a garganta. — Há quanto tempo sente isso?

— Eu não sei. -trepidei, friccionando as mangas de minha roupa para livrar-me do choro que se negava a cessar. — Eu tenho tanto medo de ser mãe, Vivian. Tudo me assusta. Entro em pânico com o fato de ter um ser vivo dentro de mim, sofro por imaginar como ele é, mesmo sabendo que nunca o conhecerei. Mas o pior é ter certeza que não sou capaz de tê-lo.

— Por que não me contou sobre sua dualidade, Amélia? -interpelou, sobrepondo sua mão cálida em meu pulso.

— Porque me dói todo pensamento que tenho! Me contive com a minha realidade de merda, sei que interromper a gravidez é a única saída e que essa criança sofreria ainda mais se nascesse! Mas eu não consigo desistir dela! -a angústia do impasse causava-me uma sensação torturante de inutilidade.

Dra. Vivian inspirou pesadamente e permaneceu estática numa feição ilegível. E não a culpei. Aquilo ia muito além de sua profissão como psiquiatra. Era até mesmo considerado antiético se afeiçoar tanto a um paciente da forma como ela o fazia. Por outro lado, a consideraria sem escrúpulos se conseguisse se tornar distante de tantos que a consideravam como a única fonte de aceitação que tiveram na vida. Compreendia que eu a colocava em situações onde seu dever clínico entrava em conflito; era esse um dos motivos pelo qual nunca conseguira permanecer com um psiquiatra por muito tempo. Manter uma parede fina na relação médico-paciente eram parte de seu código, mas, para alguém com Transtorno de Personalidade Limítrofe, era necessário haver a existência de laços para que pudéssemos sentir-nos seguros a nos abrir.

Vivian era a única que se dispunha a tratar-me como algo além de um objeto de análise e intervenção. Ela era a minha figura materna desde Saint Henry e confiava muito mais em suas meias palavras do que no discurso completo de qualquer outro.

— O que você ainda sente pelo pai dessa criança? -perguntou suavemente, com timbre engenhoso. Era a última questão que me passaria pela cabeça.

— O que quer dizer?

— Corrija-me se eu estiver enganada, mas seu desabafo me faz acreditar que você está tentando não apenas salvar essa criança, mas como também deseja salvar o que sobrou de Jaime e você.

Arfei, grunhindo em altercação mental.

— Você sabe o que eu sinto por ele. -sibilei.

— Mas você sabe? -retrucou. — Ou você ainda precisa ocultar isso dentro de si para que não invalide o amor que sente por Tom?

A inquisição em suas órbitas brincou com a incerteza das minhas, de forma que fez-me imaginar se, ao fundo, ela previa que eu entraria em divergência com minha dualidade quanto aos dois homens mesmo após uma suposta conclusão que a prisão trouxera.

— E não invalida?

— Acredito que você já tenha aceitado o fato de amar duas pessoas. -pausou, erguendo uma das sobrancelhas. — A não ser que você saiba que seu coração pertence a um deles, mas receie dizer em voz alta por ter esperado uma resposta diferente.

— Eu não faço a mínima ideia do que você quer dizer com isso. -hesitei.

— Há dez minutos atrás você estava indo para a clínica. Agora, está aqui sentada comigo com planos de ir atrás do Martini e admitiu que quer ter essa criança. -pontuou. — O que você analisa disso?

Engoli duramente, forçando minha traqueia apertada. Repensei em minhas ações, porém, sequer me era necessário aprofundar-me em minhas engrenagens mentais para entender o que ela desejava que eu enxergasse.

— Que desde o sequestro eu tenho esperado Jay dar alguma notícia positiva para que então eu possa largar tudo e ir atrás dele. -fui direta, golpeando a mim mesma com a consistência por trás de minhas ações inconscientes.

— E o que você acha que serviu como estopim final para concretizar isso? -prosseguiu.

— A briga com Tom.

— Por que acredita nisso? -replicou, virando parcialmente seu corpo para que então dedicasse sua inteira atenção a mim.

— Porque eu descobri que não importa o quanto tentamos nos enganar, nunca chegaremos a acreditar realmente que iremos funcionar. Ele acha que eu sempre estarei ao lado de Jay e eu sempre acho que estou fodendo a vida dele. -proferi, saboreando a contragosto o amargor em minha boca.

— E por que isso a incomoda tanto?

— Porque é verdade. A minha verdade. -gaguejei, assustando-me com a rapidez que as resoluções se encaminhavam para a ponta de minha língua. — Sei que não sou um fardo para o Tom, mas eu me sinto como um, pois sei o quão pesado é para um neurotípico lidar comigo. Isso não é culpa dele, nem minha. Nós dois fomos vítimas das casualidades. Sei que mesmo que entrássemos em um consenso, jamais poderia ser eu mesma junto dele e ele jamais poderia ser quem é comigo. A vida dele não é conciliável com a minha.

Dra. Vivian piscou sequencialmente, maneando a cabeça em interesse a meu monólogo.

— E a outra parte é verdade? A que você sempre estará com Jay? -rebateu.

Expirei de dentes crispados, dando evasão ao ar preso que minha ansiedade alimentava. Era a maldita questão que rondava minha existência desde os dezesseis anos. Uma pergunta sem resposta, pois éramos mais complexos do que um amontoado de palavras e análises. Nosso relacionamento sempre estivera à mercê das jogadas do destino; não tínhamos o controle de nos mantermos juntos, pois alguma incidência sempre ocorria e nos separava. E quando permanecíamos juntos, a explosão era tamanha que nós mesmo nos afastávamos. Combustão espontânea.

Óleo e óleo. Água e água. Dois iguais que da mesma forma que se uniam, se repeliam. Vivíamos das tentativas, da teimosia, da insistência. Às vezes nem mesmo acreditávamos que podíamos ir em frente, uma vez que representávamos forças iguais em direções opostas e, assim como a física, nossa luta se tornava nula. Jamais saíamos do lugar. Nossa relação nunca mudara desde Saint Henry. Continuávamos as duas incógnitas de uma equação confusa; dois reagentes cujo produto não conhecíamos e tínhamos medo de causar. Matávamos e morríamos um pelo outro, porém, isso também implicava em perdas e ganhos. No nosso caso, mais perdas do que ganhos.

Afinal de contas, quando nós havíamos experimentado o gosto da vitória?

Nunca.

Representávamos o caos, a loucura e o descontrole. A anarquia. A oposição.

Nascemos diferentes e quebrados demais para nos encaixarmos em qualquer molde que a sociedade pudesse reconhecer como saudável e aceitável. Portanto, nossa forma era livre, inconsistente, impossível de detalhar e estranha demais até para nós mesmos entendermos.

— Eu nunca deixei de amá-lo. -arfei contra a relutância. — Mas em toda essa confusão, já não sei mais identificar meus sentimentos. Amar é me tornar irresponsável? É me atirar na frente de uma arma para protegê-lo?

— Por que você escolheu essa perspectiva em especial? -retrucou.

— Porque me parece errado. Parece tóxico.

— E você não faria o mesmo para salvar, por exemplo, Tom?

Pisquei sequencialmente, libertando uma lufada pela boca.

— Sim.

— Então os dois relacionamentos são tóxicos pra você?

— Aparenta ser.

Dra. Vivian coletou ar numa quebra de postura momentânea.

— Acho que você tem medo da sua própria dualidade e está começando a enxergá-la como algo tóxico para se desfazer dela. -arrebatou. — Você precisa se situar nessa encruzilhada se quiser sair dela, Amélia.

Engoli duramente.

— Como eu faço isso? Eu não controlo essa merda de amor líquido!

— Seu amor é tudo, menos líquido. Às vezes temo que seja sólido demais.

Cocei a nuca, extasiada pela complexidade que se prosseguia e presumivelmente não chegaria ao fim.

— O que eu faço? -a garganta apertada fez com que meu timbre saísse sôfrego.

— Você sabe que eu não posso te dar essa resposta, querida. Apenas ajudá-la a encontrá-la.

— Não seja minha psiquiatra. Seja minha mãe. Tudo o que eu quero é ouvir um conselho materno que me faça enxergar minha situação e seguir em frente.

Vivian entortou os lábios num pequeno sorriso.

— Foque no que você considera de maior importância. Qual problema você quer resolver com urgência? -indagou.

— Fugir dessa imposição de interromper minha gravidez.

— Certo. -assentiu, fitando-me com desconfiança. — Você realmente quer ser mãe, Amélia? Uma criança não é algo que você pode se livrar quando sentir que não aguentará mais.

— Ele sobreviveu até agora, não? Pode aguentar esse desastre que eu sou. -gaguejei. — O que você acha?

— Que mesmo que se sinta no limite, você jamais fará mal algum a esse bebê. Seu transtorno não a transforma em um monstro. -pausou, desviando suas pupilas à minha barriga. — E você tem alguma ideia se Jaime aceitará?

— Não, não tenho. Mas preciso confirmar isso de uma vez por todas, pois ele é o pai dessa criança e não é justo que decidam isso por nós. É nossa responsabilidade. E se ele quiser, seguimos em frente. Se não quiser, pelo menos saberei que devo seguir sozinha.

— Você está disposta a isso?

— Estou. Eu não sei o que acontecerá, nem mesmo se o futuro será bom ou continuará uma maré de tragédias, entretanto, não vou apenas desistir sem tentar. Eu posso estar soando como uma maluca, porém, quais eram as chances de eu engravidar? Quais eram as chances desse bebê continuar aqui mesmo após tudo o que eu passei? Ele é um sobrevivente. É como se estivesse me pedindo para continuar aqui. -ofeguei perante às lágrimas que retornaram aos meus olhos, congestionando minha traqueia.

— Você precisa sair do país hoje à noite, antes que percebam sua decisão e comecem a planejar a ida desse bebê para a adoção quando nascer. -Vivian informou, pegando-me de surpresa. Procurei seu rosto, repleta de incerteza do que ouvira.

— O quê?

— Sou incapaz de deixá-la passar por isso sozinha. -ergueu-se obstinada, oferecendo-me sua mão como auxílio para pôr-me de pé. — Ainda não sabemos o paradeiro dele, mas creio que você possa ir para o apartamento em Roma por enquanto.

Aquiesci desacreditada.

— Obrigada. -arfei.

Ela devolveu-me uma expressão de acalento.

— Agradeça-me se você encontrá-lo, querida. Mas precisamos te tirar daqui hoje.


 


 


 


 


 


 


 


 

Meu corpo inteiro tremulava em plena ansiedade acumulada; as mãos gélidas de suor dobravam impacientemente poucas peças de roupas e jogavam na velha mochila preta e desgastada. A voz da suposta sanidade retumbava dentro de minha mente, inquirindo-me se a ideia de fugir do país e embarcar numa busca a um cara que conseguia enganar até mesmo a Interpol era uma loucura de amor ou apenas loucura. A dificuldade de respirar se intensificara com a série de pensamentos e as hipóteses de tudo dar errado e, no fim, voltava sempre ao medo de não encontrá-lo. Ou pior. De encontrá-lo, mas ter que ouvi-lo dizer que não queria a criança.

Eu preciso dar uma chance para essa criança. Com Jay ou sem ele.

Amarrei os cadarços de minhas botas, enfim caminhando até a cozinha para pegar meus coquetéis e a receita que Dra. Vivian havia renovado para a nova etapa. Uma que podia dar conta da minha montanha-russa de humores e não agredir tão rudemente o bebê. Fui ao quarto cobrir as estantes de livros com um plástico protetor e fiz o mesmo com a sala; não sabia se algum dia retornaria à aquele pequeno apartamento, porém, algo em minha intuição me fazia acreditar que não.

Era uma despedida.

O ranger de um abrir abrupto da porta me fez torcer o pescoço, fazendo-me encarar a silhueta de Trícia. As lágrimas ameaçaram retornar aos meus olhos apenas em vê-la e sequer precisei abrir a boca para explicar o que fazia. A ruiva correu em minha direção e circundou os braços em meu corpo, abraçando-me num ato sem palavras, mas tão repleto de compreensão que apenas solucei na curva de seus ombros. Apertei-a, inspirei seu perfume e deixei-me desabar.

— Me desculpe… -gaguejei.

— Shh… Vivian me contou o que você vai fazer. -havia vestígios de choro em sua voz sempre tão sucinta. — E eu te julgaria se não fizesse isso, garota.

Distanciei-me apenas para fitá-la com atenção.

— Eu prometo manter contato. -jurei.

— Eu sei que vai. Ou terei que te procurar e te dar uma surra, garota. -sorriu, enfatizando suas bochechas vermelhas. — Mas você sabe onde ele está?

— Não, mas não vou descansar enquanto não encontrá-lo. O universo sempre achou uma maneira de nos fazer esbarrar um no outro e eu tenho que acreditar que isso vai acontecer mais uma vez. Só preciso de mais uma vez. -murmurei de forma que pudesse me convencer.

Trícia suspirou.

— Seja corajosa, como sempre foi. E quando a poeira abaixar, diga-me onde está e vou visitá-la.

— Sim, senhora.

Nos entreolhamos, em um silêncio carregado de emoções que palavras não seriam capazes de expor no breve momento que compartilhávamos. Havia tanto para dizê-la, mas tão pouco tempo e capacidade para contá-la. E antes que eu pudesse arriscar as chances de encontrar tais palavras, a portuguesa pousou as mãos em minha barriga e fitou-me com as orbes marejadas.

— Eu vou ser madrinha dessa criatura. -disse firmemente. Sorri.

— Vocês todas serão. Diga a Lúcia e Dri que eu as amo muito e que sinto muito por partir sem avisar. Mas acho que elas também não esperariam nada diferente de mim.

— Não se preocupe. -assentiu. Engoli em seco.

— Deixei uma carta de demissão na mesa da sala. Pode levar à editora? -pedi.

— Vá tranquila, Amélia.

Aquiesci, apanhando as chaves do apartamento e do Mustang em meu bolso. Estendi sobre sua mão, recebendo uma expressão de espanto.

— Fique com eles. Sei que meu apartamento é pequeno, mas ao menos você não vai precisar pagar o aluguel.

Seu cenho se franziu.

— Eu não posso aceitar. -negou.

— Pode e vai. Quem mais cuidará dos meus livros ou dará uma vida de aventuras pro meu carro? -gracejei, sorvendo ar para os pulmões numa lufada repleta de tensão.

Trícia mordeu os lábios, balançando enfim a cabeça em concordância. Em súbito, puxou-me para outro abraço, porém, dessa vez, rápido.

— Seja feliz, verdadeiramente feliz, Amélia. E diga olá ao filho da puta italiano por mim. -sussurrou.

— Felicidade é utópico. Eu só quero liberdade.

Recolhi a mochila do chão, alinhando as alças para não afetar minha coluna.

— Transferi algumas libras para sua conta. Considere sua vida acadêmica paga. -pisquei com travessura, porém repleta de felicidade por deixá-la com um pouco de conforto.

Foi como incendiar uma fogueira de protestos.

— Amélia, você sabe que eu não posso aceitar. Você vai precisar desse dinheiro para o seu filho!

— Eu fiz o mesmo com a Lúcia e a Dri. Jay me mandou gastar um pouco do dinheiro que deixou para mim, então o fiz. -justifiquei.

— “Um pouco”. -replicou.

— Para minhas melhores amigas, sim, é pouco. Vocês merecem o mundo. E se Martini me deixou com a conta bancária de uma burguesa safada, vou dividir com vocês assim como o Senhor me ensinou.

— O Senhor? -zombou.

— Karl Marx. “Trabalhadores do mundo, uni-vos, vós não tendes nada a perder a não ser vossos grilhões!”

Trícia sorriu, assistindo-me rumar à porta aina com lágrimas incessantes na face. Eu, da mesma forma, tive que limpar os olhos e fingir firmeza.

— Tu és uma louca de merda, mas amo-te! -exclamou com seu sotaque português, induzindo-me a rir.

— Eu mais ainda, ruiva!

Mastiguei e obriguei-me a digerir o choro enquanto despedia-me do velho prédio onde passara todos os meus bons e maus momentos em Londres, carregando comigo todo o peso das memórias e da saudade que já me assolava. Observei o fantasma daqueles corredores no passado, onde subira tantas vezes às pressas com Jay ao meu lado, com seus beijos afoitos e conversas aleatórias. Permiti-me soluçar uma última vez, lembrando-me das vezes que Tom vinha me visitar e da forma como tinha que se abaixar para não bater a cabeça na porta do elevador.

Doía como um inferno. Doía mais ainda por saber que ele não ia me ligar e mil vezes a mais por ter que acatar seu último pedido em nossa briga.

Quando você se encontrar e por algum motivo decidir partir, não me avise. Eu não suportaria vê-la ir embora”.


 


 


 


 


 


 

Esgueirei-me entre as paredes do ambiente parcialmente iluminado do clube de BDSM, ignorando as cenas obscenas que se formavam em meu campo de visão. Levemente enjoada com a fragrância sensual dispersado pelo local e a mistura de perfumes de seus frequentadores, apenas segui em frente pelo caminho que me fora permitido passar após me identificar ao segurança particular que me escoltava até o escritório de Aleksander Fagervik. A bela e curvilínea moça que me atendera semanas atrás sorrira cortês para mim dessa vez, cumprimentando-me formalmente enquanto balançava suas longas pernas torneadas sobre saltos Scarpin.

Ao contrário da ansiedade que se instaurara em mim em nosso primeiro encontro a sós, dessa vez, munida por coragem e decidida a focar minha atenção em meu objetivo, encarei os olhos azuis muito escuros do dono do clube e engoli em seco discretamente ao perceber que ele acabara de repousar um chicote de couro trançado sobre sua mesa.

— Srta. Novak. Vejo que retornou mais rápido do que eu imaginava. -gesticulou para seus funcionários partirem. Notei que suas íris se voltaram contra o lado oposto do cômodo, fazendo-me deparar com uma moça trajada com uma lingerie de renda encostada à cruz de Santo André. — Você pode se vestir e se sentar no saguão, Emilly.

A mulher mordeu os lábios e assentiu em silêncio, buscando um vestido preto ao chão. Não me era necessário analisar por muito tempo para compreender a quantidade de faixas vermelhas demarcadas em sua pele bronzeada.

— Teimosa ou resistente? -inquiri a ele.

— Ambos. -ofereceu-me um lugar para sentar. Desamarrei o casaco, afrouxando minha cintura para acomodar-me. As pupilas ágeis de Aleksander traçaram caminho à minha barriga, seguido de um leve arquear de sobrancelhas e uma feição e curiosidade. — Devo prever que sua vinda aqui não tem relação com prazer?

— Eu preciso saber onde está seu irmão.

Ele piscou em indiferença.

— Não tenho contato com Ezekiel, srta. Novak.

Arfei.

— Não tem nem mesmo um número de telefone? -insisti.

— Nós evitamos nos falar. -informou enquanto estreitava as íris. — Por que o súbito interesse nele?

— Ele é o único que esteve com Martini após a fuga. Preciso encontrá-lo. -revelei.

— Já perguntou para o Yuri?

— A última vez que o vi foi no mesmo dia que você me chamou até aqui. E, acredite em mim, eu gostaria de ter um número para telefoná-lo.

— Todos querem. Mas ele não usa métodos convencionais de comunicação. -inclinou-se elegantemente sobre a mesa, cruzando os braços. — Quantos meses?

— O quê? -gaguejei.

— Sua barriga.

Limpei a garganta, encarando-a involuntariamente.

— Três.

— É por causa disso que você está em busca do Martini? O filho é dele? -perguntou.

— Sim.

— Um pouco atrasado, não acha? -um brilho de interesse passeava em sua expressão sólida.

— Longa história. -soprei. — Espere… você falou o nome verdadeiro do Yuri.

Aleksander tamborilou os dedos na superfície de madeira polida.

— Cruzei o caminho dele anos atrás, antes de Martini contratá-lo. Sujeito peculiar. Mas letal. -voltou a se encostar em sua cadeira, mirando-me com atenção silenciosa. — Parece que todas as suas fontes de informações dele estão secas, srta. Novak. Com exceção de uma.

Remexi-me em imediato.

— Qual? -sussurrei em ânsia.

— Preciso realizar um trabalho para ele em abril em Florença. Se desejar, posso levá-la comigo até a cidade, entretanto, tenho que informá-la que não é um encontro amigável.

Uma reviravolta estomacal prendeu-me tão forte no assento que imaginei que a qualquer momento iria vomitar em descontrole emocional.

— Que trabalho?

— Sequestrar Alero da Interpol e levá-lo para Martini completar seu plano de limpeza.

Fechei os olhos em repugno ao ouvir novamente o nome do pai de Jay. Porém, antes que meu desequilíbrio psicológico me fizesse portar como uma desvairada, procurei vestir minha máscara de normalidade diante da informação.

— Tenho que ir à Roma em uma hora. Não posso ficar aqui por mais tempo, ou corro um risco de ter que assinar papéis para enviar meu filho à adoção quando nascer.

— O conheço o suficiente para saber que ele sempre visita o túmulo da irmã em Roma quando está na Itália. Posso informá-la do dia e o local do cemitério.

Um sorriso guerreou contra meus nervos endurecidos, anunciando-se em conjunto a um ímpeto de gritar em alegria com a hipótese de vê-lo novamente.

— Qual o preço da sua informação? -retomei à postura, buscando o timbre menos embargado para falar.

— Digamos que eu tenho uma dívida a ser paga com ele e que isso nos quita. -ergueu-se, direcionando-se a um baú de madeira entalhada. Observei-o apanhar uma pilha de documentos envolvidos de uma liga de borracha e, com a proximidade, identifiquei-os como passaportes e papéis oficiais para identidades. — Está ciente que vai precisar abandonar sua vida para ir atrás de um criminoso, não está?

Engoli duramente, assentindo hesitante. A vontade de questioná-lo como havia um baú repleto de materiais e passaportes em branco se engatou em minha garganta.

— O que eu preciso fazer? -proferi trêmula.

Aleksander encostou-se na beirada da mesa, da mesma forma que fizera em nosso último encontro, quando tocara meu rosto e perguntara se tinha interesse em ser sua submissa. E, novamente, sua feição junto aos seus olhos invasivos me encararam com profundidade, de forma que sentia que ele podia ler meus pensamentos.

— Escolha um nome.

Umedeci os lábios, assustando-me com a rapidez que um nome viera em minha memória.

— Beatrice Ofélia Bertinelli.


Notas Finais


NÃO É SEMPRE QUE VOCÊ GANHA AS DISPUTAS, TOM HIDDLESTON!

Amélia sempre ficou em dúvidas sobre o futuro da gravidez e todos os caminhos que ela levava, doeram pra caralho. Mas nesse, ela abraça sua anarquia e... escolhe o filho. Sem certezas, sem garantias, apenas vai.

E aqui coloco uns avisos pra vocês:
Esse fim alternativo vai ser grandinho. Há muita história e pontas soltas para se fechar aqui, já que o cargo das tretas fica sempre do lado do Jay. E se quiserem, posso me aprofundar no assunto xD
Aqui a bagaceira é livre, fiquem à vontade.

Não sei quando postarei o próximo capítulo, mas prometo agilizar!
E me desculpem pela demora de novo!

E um agradecimento muito especial á @MDriih que me aguentou durante tantos meses com essa crise de escrita, que é praticamente co-autora da segunda parte desse fim alternativo e que não me deixou esquecer dos personagens na fila do pão <3 Lindíssima, quebrou a matrix toda.

E as que vão acompanhar essa história, meus eternos agradecimentos! Fiquem à vontade para falarem, criticarem, elogiarem, perguntarem...
BEJO!


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