1. Spirit Fanfics >
  2. Left Hand Free >
  3. Moiras

História Left Hand Free - Capítulo 7


Escrita por:


Notas do Autor


Aqui estamos, capítulo 7. Esse mês teremos o comeback do BTS chamado 7, então eu quis fazer esse capítulo "especial". Desde que comecei a escrever essa fanfic eu quis usar o assunto que usei aqui, então quero saber o que vocês acharam, está bem?
Me sigam no twitter (@wintaebearz) e boa leitura, gente. Stream em Ego.

Capítulo 7 - Moiras


Observou o quadro à sua frente, intrigado. À primeira vista, realmente apenas se parecia com uma mulher sentada numa poltrona enquanto dormia profundamente. Depois de olhar um pouco mais, mesmo Taehyung que não entendia muito de arte, notou o toque nada sutil de obscenidade naquela pintura. Tossiu constrangido e olhou para trás, se certificando de que estava só. Embaixo da obra, reparou que havia um pequeno bloco dourado com palavras gravadas na cor preta.

"O Sonho, 1932"

–Olha só, Pablo Picasso. – Jeongguk disse ao se aproximar de onde o Kim estava, pegando-o desprevenido.

–É impressão minha, ou...

–Não é impressão – o garoto riu. –Essa pintura realmente tem um conteúdo... hum, erótico. Dizem que essa mulher era a amante dele.

–Uau. Romântico. – Taehyung ironizou.

–É, muito romântico. Eu nem vou comentar sobre todos os aspectos depravados que dá pra encontrar nesse quadro. – Jeongguk tinha um tom avermelhado no rosto enquanto sorria, fazendo Taehyung sorrir também.

–Você nem precisa dizer para que eu perceba. 

Juntos, andaram um pouco mais no imenso museu que Jeongguk havia imaginado para trazê-lo naquele sonho de domingo. Não sabia se ficava encantado pelas obras, ou pela capacidade que o Jeon teve de imaginar um lugar como aquele que, além de enorme, estava preenchido por pinturas de artistas surrealistas. O garoto realmente tinha um grande apreço pela arte, e aquilo era certamente apaixonante. 

–Ah, gosto desse quadro! – Jeongguk disse, exibindo o brilho nos olhos de sempre.

Taehyung chegou mais perto para que pudesse ler o bloquinho dourado com as informações da obra. 

"Os Mistérios do Horizonte, 1955"

Era um quadro muito bonito, de fato. Haviam três homens usando um chapéu coco. Acima de cada um, havia uma lua minguante. Os homens apresentavam-se virados para direções diferentes, mas todos aparentavam ser uma pessoa só.

–É um quadro de Renè Magritte. Sempre me deixou muito encantado. 

–Eu gostei bastante, mas não entendo o que quer dizer. - Taehyung respondeu, sincero. 

–Bem, você deve ter percebido que os três homens são, na verdade, a mesma pessoa. – Jeongguk olhou para Taehyung antes de continuar. –O mais intrigante é que, apesar de parecerem dividir o mesmo espaço, os três existem em realidade diferentes. 

–Nossa. Nunca teria pensado nisso sozinho.

–Eu li em um livro. Olha, os três encaram direções que, apesar de diferentes, estão no mesmo espaço. São três universos distintos. Bem, eu gosto bastante do surrealismo, você já deve ter percebido. 

Taehyung acenou positivamente com a cabeça enquanto olhava em volta. Todos aqueles quadros eram uma confirmação do que Jeongguk havia acabado de dizer.

Andaram um pouco mais, mas o Kim teve que parar umas quatro vezes para escutar tudo o que o outro garoto sabia sobre alguma determinada obra. Ao passar por um dos vários corredores, parou subitamente ao reparar em uma obra que o intrigou mais do que qualquer outra naquele lugar. Ao se aproximar do quadro, soube que já havia visto aquilo antes. 

Gravado no bloco dourado, "A Persistência da Memória, 1931"

–E esse aqui, Jeongguk? 

–Ah, esse é bem conhecido. É de Salvador Dalí. 

–Você sabe o que significa? – Taehyung perguntou, intrigado. 

–Ah, sim. Mas é complicado. São muitos elementos para serem analisados aí. – Jeongguk olhou com mais atenção para a pintura. –Bom, Dalí quis representar de maneira onírica as diferentes percepções do tempo. Há três relógios derretidos que contam o tempo de maneira distorcida.

–E esse relógio normal, porém repleto de formigas?

–Bem, o pintor não gostava muito de formigas. Os insetos representam a putrefação deste relógio comum. Ele despreza esse objeto. – Respirou fundo e moveu o olhar para outra parte do quadro. –Está vendo aqui embaixo? Há uma caricatura do artista dormindo embaixo de um dos relógios derretidos. Em sonhos também vemos o tempo passar de uma forma diferente, não é?

Taehyung observou com cuidado. Agora se lembrava. Havia visto a obra ao pesquisar sobre as diferentes formas que artistas encontravam para retratar os próprios sonhos. Era muito estranho pensar que, em 1931, alguém retratara o próprio sonho daquela forma. Basicamente uma perfeita descrição do que Taehyung estava passando. Seus sonhos tinham uma maneira muito abstrata de marcar o tempo. Era como uma prisão na qual nada fazia sentido, especialmente as horas. Nem mesmo se surpreendia mais com o relógio que estava sempre na companhia deles, este que agora marcava as 10:22.

–Tae, olha. Está vendo essa paisagem ao fundo da obra? 

–Sim. 

–Ela é a única parte que não apresenta uma aparência distorcida. É o que resta de real no meio de toda essa loucura – Jeongguk olhou para si com um sorriso pequeno no rosto. 

–É a estrada do real. – Taehyung lembrou do que um dia havia lido.

–Sim, a estrada do real. 

Os dois se encararam por um breve momento, mas Jeongguk nem mesmo teve tempo de abrir a boca para explicar outra obra de arte. Taehyung já havia puxado sua cintura para mais perto, colando o corpo dos dois. 

–Você é o que resta de real pra mim – disse enquanto olhava os olhos do Jeon de perto. 

–Kim Taehyung. – Jeongguk disse num tom quase inaudível.

–Pode dizer.

–Hum. 

Taehyung deu um sorrisinho ao perceber que o garoto estava surpreso com a ação repentina. Aproximou o rosto e selou um beijo na testa de Jeongguk, que fechou os olhos em resposta. O Kim apenas observou o rosto delicado do outro, sentindo-se completo por poder a obra de arte mais bonita daquele museu. Desta vez, deixou um beijo demorado nos lábios do garoto. Agora os dois tinham uma coisa em comum: um sorriso bobo no rosto.

Taehyung sentiu uma grande responsabilidade ao perceber que não poderia, em hipótese alguma, perder aquela pessoa em sua frente. Nunca.

(...)

Acordou muito bem, é claro. Estava tendo as noite mais tranquilas da sua vida inteira. Ao levantar, viu algumas das suas anotações em cima da escrivaninha. Todas as ideias que andou tendo para o ensaio fotográfico que faria em breve resumidas em poucas páginas de um caderno. Queria fazer um trabalho impecável e provar para si mesmo que não foi um erro se transferir para a faculdade de fotografia, que ali teria algum futuro. Se sentou em frente ao seu caderno e bocejou enquanto olhava para as coisas ali escritas. Não sabia se era um bocejo consequente do sono de ter acabado de acordar ou pelo fato de que suas ideias eram, na verdade, medíocres. 

Droga. 

Pegou uma caneta e passou a riscar diversas partes das anotações. Ontem elas pareciam ótimas, hoje pareciam demasiadamente simples. Precisava de alguma nova inspiração, apenas não sabia onde buscá-la. Pegou o celular e viu que haviam algumas mensagens de Jimin.


[06:38] Jiminnie:

Bom dia a todos os românticos não-online.

Não falou comigo ontem. 

Preciso de atualizações sobre a sua vida amorosa kkkkk


Deixou o celular de lado, responderia a Jimin pessoalmente. Decidiu deixar suas anotações para depois também. Não era todo dia que teria a oportunidade de desfrutar de um bom humor matinal. Desceu as escadas e foi até a cozinha vazia, vendo o céu pela janela da cozinha. 

Que dia bonito. Nem mesmo parecia que já era segunda.

Tomou banho e escovou os dentes antes de voltar à cozinha para que pudesse comer alguma coisa. Parada em frente ao fogão e de costas para si, estava sua mãe. Aérea e pensativa, não movia nenhum mísero músculo naquele momento. Queria ter o poder de ler mentes para saber o que se passava naquela cabeça.

–Mãe?

A mulher virou-se num sobressalto, apertando a mão contra o peito. 

–Kim Taehyung, você quer me matar? – respondeu, assustada. 

–Hum... desculpe. Aconteceu alguma coisa?

-Não, nada. Estava apenas pensando. Venha, sente-se aqui e coma alguma coisa.

Ambos puxaram uma cadeira para que pudessem se sentar à mesa. A Sra. Kim prontamente pegou uma xícara, colocando um pouco de leite para Taehyung. Apesar da mãe ser uma mulher prestativa, a atitude fez com que o jovem olhasse desconfiado para ela. Parecia especialmente estranha naquela manhã.

–Mãe, por que você está assim? 

–Assim como? – disse sem olhar para o garoto, passando manteiga em uma das várias torradas que estavam na frente do filho. –Coma, Taehyung. Você está muito magro, parece até que não tem comida em casa. 

Com as sobrancelhas franzidas e um confuso bico no rosto, Taehyung observou a cena. Talvez estivesse enganado, mas havia alguma coisa errada. Sabia que não adiantaria perguntar naquele momento, então os dois comeram em silêncio, ainda mantendo um clima diferente no ar. Ao terminar, Taehyung deu um beijo na testa da mãe, pegou sua mochila e saiu pela porta da cozinha.

Mais um dia na faculdade. Talvez realmente precisasse ocupar a cabeça com outras coisas naquele momento. 

Taehyung estava quase saindo do seu quintal quando notou a presença de sua velha bicicleta jogada no gramado. Haviam algumas semanas desde que havia decidido ir à pé para a faculdade. Sorriu e se lembrou do seu primeiro dia indo para aquele lugar. Não que agora as coisas fossem muito diferente, mas a sensação de estar em um novo ambiente era revigorante. Levantou a bicicleta e, sem mesmo saber o porquê, sorriu. Não antes de botar os fones de ouvido e dar play em alguma música da sua playlist, começou a pedalar na direção oposta à sua casa. Enquanto sentia o vento bater em seu rosto, teve uma sensação estranha. Como...

Um presságio.

Sentiu que alguma coisa fora do comum estava chegando. Não que as coisas que acontecessem na vida de Taehyung fossem normais. Estava acostumado com o incomum, na verdade. 

(...)

–Museu? Uau. – Jimin dizia enquanto ouvia à história que Taehyung contava para ele e para Yoongi no refeitório. –Isso é tão romântico. 

–Então o garoto gosta de arte? – Yoongi perguntou com um pequeno sorriso no rosto. 

–E como gosta! Ele também gosta de fotografia – Taehyung se lembrou das vezes em que Jeongguk falou sobre suas fotos e sobre as inspirações que tinha. –Seria um excelente calouro para você, com certeza.

–Eu não duvido. 

Taehyung havia resolvido de uma vez: não mencionaria o nome de Jeongguk com mais nenhum conhecido. A reação de Hoseok no sábado havia o deixado extremamente paranóico. Se fosse descobrir alguma coisa, queria descobrir por si só. Odiava criar expectativas em relação a Jeongguk. Era possível, sim, que morassem na mesma cidade. Mas e se estivessem todos falando de um Jeongguk diferente, ou... bem, tanto faz.

Mas e se o Jeon fosse daquela faculdade? Já teriam passado um pelo outro alguma vez? Teria alguma possibilidade? As perguntas persistiam na cabeça do Kim.

De qualquer forma, Taehyung não queria ficar triste com o resultado de uma desilusão. Estava tão feliz com o simples fato de conseguir finalmente expressar os seus sentimentos pelo garoto. Tão feliz por poder beijá-lo... mesmo que apenas em sonhos. 

Taehyung não era um covarde, se é o que está pensando. Apenas não se acostumou com a ideia de que alguém realmente possa gostar dele. Precisava agir com cautela, ir com calma.

–Taehyung, você precisa apresentar ele para mim – Jimin disse decidido. –Sou seu melhor amigo e nunca vi você namorando!

–Não estou namorando. 

–Pois deveria. Vocês não se gostam?

–É complicado, Jiminnie. 

–Ora...

Jimin daria mil argumentos pelos quais Taehyung deveria pedir Jeongguk em namoro, e os daria ali naquele instante se Namjoon não tivesse chegado com um sorriso no rosto, cumprimentando os presentes na mesa. 

–Namjoon, tudo bem? –Taehyung perguntou, feliz por ver o amigo.

–Tae, posso conversar com você? 

–Claro. Já volto – disse para Yoongi e Jimin ao se levantar da mesa e começar a seguir o mais velho. 

Começaram a andar para fora do campus, numa área coberta por um jardim grande e agradável. Haviam também alguns bancos, todos ocupados por alunos aproveitando o tempo livre. 

–Hyung, aconteceu alguma coisa? 

–Ah, não. Apenas preciso de ajuda em uma coisa, e como você é o cara de fotografia com quem tenho alguma proximidade, preferi falar com você. 

–Pode falar. 

–Soube que vai ter uma exposição de fotografias aqui, é verdade?

–Sim! Bem, mais ou menos. É o nosso trabalho principal do semestre, mas decidiram que os melhores trabalhos seriam expostos na parte externa do campus. 

Taehyung observou Namjoon enquanto ele olhava para os próprios pés. Parecia muito incerto, decidindo as palavras adequadas.

–Tenho algumas fotografias comigo e... queria que elas fizessem parte da exposição.

–Fotos suas? – Taehyung franziu as sobrancelhas, confuso. Não era todo dia que os alunos de ciências contábeis tinham interesse em expor fotografias. –Bem, não sei se teria como, já que você não faz parte do curso, mas eu posso tentar conversar com os professores. Se as fotos forem boas...

–São – apressou-se em dizer. –Bem, as fotografia não foram feitas por mim, mas são muito boas. De verdade. 

–Hum... bem, posso vê-las?

–Não estão aqui comigo, queria ter certeza antes de trazer para cá. 

–Eu irei tentar, está bem? Mas vou precisar ver as fotos antes de te dar certeza absoluta.

–Certo – Namjoon respondeu com um sorriso no rosto, exibindo as suas características covinhas. –Você é o melhor, Taehyung. Obrigado!

–Por nada!

Observou o outro se afastar em direção ao bloco onde teria suas aulas. Respirou fundo e rumou de volta ao refeitório. Ainda precisava terminar de contar a história da sua noite para os amigos – que não faziam ideia de que tudo aquilo não se passava em um sonho. 

(...)

Chegando em casa, Taehyung percebeu uma movimentação um pouco fora do comum. Três dos seus vizinhos estavam em frente à sua casa, aparentemente tendo uma conversa fervorosa. Nunca havia entrado em contato com eles antes, mas sempre os ouvia cochichando sobre a vida de alguém.

Foram dispersados em direções diferentes quando viram Taehyung. Cada um foi para a própria casa e agiram como se nada estivesse acontecendo ali. Mesmo achando aquilo estranho, o Kim decidiu não pensar muito nisso.

Ao invés de entrar pelo lugar que estava acostumado, decidiu entrar pela porta da frente. Deixou a bicicleta do lado de sua janela e entrou diretamente na sala de estar. Além da escuridão, tudo parecia normal mas, ao mesmo tempo, diferente. Ainda havia aquela sensação de que tinha algo de incomum no ar, conseguia sentir no seu coração.

–Mãe? Cheguei. 

Andou em direção ao sofá e colocou sua mochila. Estranhou não ouvir nenhuma resposta da sua mãe, mas talvez a mulher ainda nem houvesse chegado do trabalho. Ligou a luz da sala, esta que estava iluminada apenas pelas luzes da rua que entravam pela janela. Tomou um susto ao perceber que a mãe estava ali, parada em frente à porta que levava à cozinha. A mulher olhava para os próprios pés, sem coragem de olhar para o filho.

–Que susto. O que aconteceu? 

Sua mãe não respondeu. Naturalmente, a Sra. Kim não sabia que palavras deveria usar naquele momento. Então apenas olhou para Taehyung enquanto mordia os lábios e tentava manter-se calma. 

–Mãe? Fala comigo – aproximou-se, tocando o ombro da mulher e a olhando nos olhos. Desviando o olhar para o lado, percebeu uma figura sentada na mesa de jantar. O homem olhou para a porta e levantou as sobrancelhas, como se esperasse alguma resposta do Kim. 

Quando percebeu que não receberia o que esperava, riu secamente.

–Por Deus, vocês não sabem conversar não? – o pai de Taehyung perguntou, com uma carranca no rosto. 

–Mãe, o que ele está fazendo aqui? 

–Ora, Taehyung. Eu sou o seu pai, posso aparecer a hora que eu quiser. 

–Não, você não pode. Poderia ter feito isso antes, ao invés de ter nos deixado sozinhos em Daegu. – Disse procurando não se descontrolar, procurando alguma força restante no corpo.

–Vocês querem um chá? Temos alguns biscoitos, eu acho – a Sra. Kim disse, se apressando para pegar a chaleira no armário. 

–Por favor – o Sr. Kim disse enquanto arrumava sua gravata. –Taehyung, onde estava? 

O garoto apenas olhou para o homem, completamente paralisado. Estava em choque e era visível.

–Na f-faculdade...

–Pare de gaguejar, você é um homem. – O Kim disse, mostrando-se irritado. –Faculdade de quê? Você não teve vergonha de largar a faculdade em Daegu do jeito que fez? 

–Estou fazendo fotografia. 

–Fotografia?! Que absurdo. Soobin, como pôde deixar isso acontecer? O nosso filho largou engenharia para cursar fotografia!

–B-bem, ele quis, e...

–Não se pode ter tudo o que quer. Você mima muito esse garoto, não?

–Não que você tenha feito muito por mim, não é? - Taehyung disse, impulsivamente. 

–Só estive fora por dois anos garoto, não comece. Tive meus motivos para sair daquela casa.

–Quais? Ter arranjado outra mulher? 

Taehyung se arrependeu no exato momento em que disse isso. Não por ter medo de provocar o seu pai, apesar de realmente ter. Mas toda a sua atenção naquele momento se voltou para sua mãe, que deixou o chá de lado no fogão apenas para olhar para o filho com uma expressão triste. Era como uma súplica. Era como se ela dissesse "Pare com isso, por favor." 

–Não ouse falar assim comigo, garoto. Estou sim com outra mulher, uma que me respeita de verdade. E, quem sabe, um dia teremos um filho que me trará orgulho. 

Taehyung sentiu suas pernas fraquejarem. Lembrou dos momentos bons que já teve com o seu pai quando criança. O homem já fora um herói para si. Era possível que alguém mudasse tanto com o passar dos anos? Era justo que um adolescente de 17 anos tivesse que ver sua mãe apanhando para um homem que agora não se passava de um desconhecido?

Em silêncio e contendo as lágrimas, andou em direção à mesa e se sentou. Não aguentaria muito tempo em pé. Se sentiu muito enjoado com aquela situação. Queria estar dormindo, queria estar com Jeongguk. Ou com Jimin, bebendo em algum restaurante de Kimchi. Talvez com Yoongi, vendo fotografias de festas que os veteranos fizeram no passado. Ou até mesmo sozinho, andando sem rumo nenhum. Qualquer coisa era melhor do que estar ali, vendo sua mãe colocando chá para o homem que os abandonou sem pudor. Olhando para os biscoitos na sua frente, mas sem vontade alguma de comer devido ao imenso caroço que havia se formado em sua garganta. 

–Então, criança, quando começará a trabalhar? Posso te encontrar algum serviço na empresa. Pelo menos não será um desempregado. 

–Não, obrigado. Minha faculdade é integral. 

–Integral? – debochou enquanto ria. –E tem tanto assunto pra ensinar numa faculdade de fotografia?

–Mais do que você tem capacidade de imaginar.

–Ah, Soobin. Erramos na criação deste garoto. 

A mulher manteve-se calada, enquanto olhava para as próprias mãos em cima da mesa. Parecia estar completamente contida de medo, como esteve desde a adolescência de Taehyung. 

–Não fala assim com ela. – Taehyung disse num fio de voz, ainda tentando se segurar para não explodir. 

–Eu falo como eu quiser. 

O homem se levantou, deixando a xícara de chá completamente cheia, e um prato de biscoitos que nem teve a decência de tocar. 

–Você sabe por que eu tenho o direito de falar como eu quiser? – continuou. –Por que eu sustentei vocês dois por muitos anos, dois pesos mortos. Uma mulher que não serve pra nada e um filho que um dia cheguei a acreditar que seria o meu orgulho. Você acabou sendo o quê?

–Pai... – sentiu as lágrimas rolando no rosto. 

–Acabou sendo um desempregado inútil que faz faculdade de... – riu. – Faculdade de fotografia. Isso nem deveria existir, por Deus. 

–Acho que você deveria ir, Dohyun. – Kim Soobin finalmente disse. 

–Claro que eu vou, mulher insolente. Estar no mesmo cômodo que vocês não faz bem para ninguém...

–Então vá!

–Como fui casar com uma mulher que...

–Cala a boca! - Taehyung gritou.

Um silêncio ensurdecedor se manifestou por breves segundos.

–O quê? – Dohyun perguntou, desacreditado. 

–Cala a sua boca. Você que é inútil. Você não sustentava minha mãe, ela sempre trabalhou por conta própria – cuspiu as palavras impulsivamente. Levantou-se com ódio e se pôs na frente do homem. –Você não trouxe nada pra essa família além de tristeza.

–Kim Taehyung... – começou, mas logo foi interrompido novamente. 

–Sim, eu faço faculdade de fotografia. Faço porque gosto, porque sou bom nisso. É o que me faz feliz. Claro que você não entenderia o conceito do que é ser feliz. Você destrói a vida de todo mundo, absolutamente todo mundo. – gritou o suficiente para que a vizinhança inteira escutasse. –Nem mesmo no momento em que estava fugindo de casa você deixou de causar problemas. 

–Do que está falando? 

–Do acidente, é claro - Taehyung nem mesmo se lembrava dos detalhes desse dia, tudo que podia se lembrar era do desespero e da gritaria. Dos inúmeros pedidos que fizera para que o seu pai não fosse embora. Do homem acelerando, sem controle algum. –Como você pôde cometer uma atrocidade daquelas e simplesmente ir embora? 

–Garoto, a culpa daquilo é sua!

–Minha? – gritou, cheio de indignação.

–Eu estava indo embora de Daegu como já planejava há meses, se você não estivesse correndo e batendo na janela que nem um imbecil, talvez nada daquilo tivesse acontecido. 

–Não venha me culpar – defendeu-se. –A culpa é sua. Você é um verme e eu nunca poderia considerar você como o meu pai. Você só veio aqui pra fazer a gente se sentir mal!

–Você é um garoto egoísta e dissimulado. Assuma sua culpa.

–Foi você, foi tudo você! – disse aos prantos.

–Escuta aqui...

–Escuta aqui, você – disse a Sra. Kim, cansada de escutar aquilo. –Você já conseguiu o que queria, agora saia de uma vez daqui. Saia da minha casa e nunca mais volte, nunca mais mexa com o meu filho.

–Nosso...

–Meu! Meu filho. – reforçou. 

Taehyung apenas observava a mãe enquanto as lágrimas teimavam em descer pelo seu rosto. O homem não se deu o trabalho de dizer mais, apenas ajeitou sua gravata e abriu a maçaneta da porta para que pudesse sair. Taehyung não sabia se aquilo era um adeus, mas desejou do fundo do coração que fosse. Estava se sentindo quebrado por dentro, tudo o que havia em si eram cacos do seu coração, dos seus sentimentos. Cacos de alguém que antes tinha inseguranças que agora haviam sidas confirmadas pelo homem que deveria ser o seu pai.

Sua mãe, que não parecia estar melhor que Taehyung, acolheu o menino num abraço demorado. Chorou nos ombros da mulher por longos minutos, mas aos poucos sentiu que conseguiria finalmente se acalmar. 

–Taehyung, você foi muito corajoso. – Soobin disse, num sussurro. –Vá dormir, amanhã conversamos melhor. 

Sem dizer mais nenhuma palavra, o garoto subiu para o seu quarto e se jogou na cama. Se sentiu um pouco melhor ao poder afundar o seu rosto no travesseiro e chorar em silêncio. Não achava que conseguiria dormir tão cedo naquele dia, e estava certo. Chorou por horas, e quando não estava chorando, estava remoendo o acontecimento em sua cabeça. De certa forma, era boa a sensação de ter dito tudo que estava preso em sua garganta para o pai, mas não esqueceria nenhuma palavra que escutara naquela infeliz noite.

Levantou-se e pegou o celular em cima da escrivaninha. Procurou o contato do pai e bloqueou todas as chamadas daquele número. Não queria mais ter nenhum tipo de contato com aquele homem, mas sabia que ele poderia acabar voltando. Deitou-se novamente na cama e tentou respirar fundo. Já estava mais calmo, é claro, mas a situação era muito para digerir. Nunca havia se sentido daquela forma.

"Egoísta e dissimulado"

Ligou o celular novamente, mas desta vez para procurar alguma música calma. Colocou num volume baixo e pôs o celular do lado do travesseiro. Respirou fundo e tentou prestar atenção na letra. Talvez... talvez pudesse focar numa coisa que não tivesse a ver com sua vida. Talvez pudesse fingir que ele era alguém diferente, com problemas diferentes e um pai diferente.

Talvez Taehyung pudesse fingir ser alguém que conseguiu o que sempre quis na vida: paz. Ou, quem sabe, sua imaginação não fosse tão fértil assim.

~

Caminhou pela grama que se estendia por baixo dos seus pés e terminava na beira de um grande lago. O sol beijava sua pele ternamente, a natureza estava em perfeita harmonia. Mas isso não foi suficiente para animar Taehyung. Na verdade, ver aquele lugar o deixou triste. Pela primeira vez em muito tempo desejou que não tivesse esses sonhos vívidos à noite. Era como se não pudesse ter paz em sua mente, já que ela nunca parava de funcionar, nunca parava para um descanso. Estava no sonho de alguém, um belo sonho com belas flores, e um belo céu azul que refletia de forma quase poética no lago. E, no meio disso tudo, havia... Taehyung. Nem se surpreenderia se as plantas começassem a morrer no momento em que ele passasse por elas. Seu humor era tragicamente a parte mais deprimente daquela paisagem. 

Viu Jeongguk vindo em sua direção, com um grande sorriso no rosto. Todo empolgado, o garoto envolveu Taehyung num abraço. 

–Você demorou hoje! – Jeongguk disse, ignorando a reação apática que o Kim apresentou. 

–Sim. 

–Tá tudo bem? Eu tava ansioso para te ver!

–Tudo, sim. 

Jeongguk, um pouco nervoso, segurou a mão de Taehyung, conduzindo-o até a beira do lago. Sentou-se e puxou o Kim para que o garoto fizesse o mesmo. Sentou mesmo sem vontade alguma, logo depois desvincilhando sua mão das de Jeongguk, que foi aos poucos diminuindo o sorriso em seu rosto. 

–Hum... você tá triste, né? – o Jeon perguntou aflito. –Não se preocupe, eu vou pensar em algo que possa deixá-lo melhor. 

Taehyung não se deu o trabalho de responder. Tudo que havia acontecido naquela noite tinha o deixado em choque demais, não tinha ânimo nem mesmo para olhar para o outro garoto, decidindo olhar apenas para as árvores distantes sendo agitadas pelo vento.

–Ah, eu tenho uma coisa para contar. – Jeongguk começou. –Então, eu estou trabalhando num projeto incrível, acho que você iria adorar. Eu estou planejando viajar mais algumas vezes para concluí-lo, mas...

Parou de prestar atenção.

O que fazia Jeongguk acreditar que uma história sobre um projeto de faculdade poderia deixá-lo melhor?

"Admirável prepotência." Pensou.

Aproveitando do azar que tinha em saber que sua mente não se esvaziava por um único segundo, devagou em diversos pensamentos em sua cabeça. A tristeza era capaz de deixá-lo mais aéreo do que já naturalmente era

Sempre tentava atrelar algum conhecimento que tinha aos seus sonhos para poder entendê-los melhor, mas agora apenas vinham coisas que o deixavam pior. Pensou em Carl Gustav Jung e todos os arquétipos que poderiam se manifestar em um sonho. É claro, Jeongguk seria como seu animus, a imagem masculina da sua psique. Havia o ego também. Ora, esta parte se trata justamente do "Eu". A parte consciente de um sonho. Taehyung sempre relacionava o ego a si mesmo, é claro. Afinal, o que ele seria além da sua própria consciência?

–Tae? Você está me ouvindo? 

–Sim – respondeu, saindo de suas divagações.

–Então, o que você acha? Vai ficar legal, não é? Todas as fotografias já estão planejadas, eu apenas preciso de um lugar bonito. Imagina se eu conseguisse...

–Jeongguk. 

–...sim?

–Eu não me importo. Eu não tenho cabeça pra isso agora, por que você é tão egoísta ao ponto de não conseguir enxergar isso? 

–D-desculpe, eu... estava tentando te distrair. 

–Obrigado, mas consigo me distrair bastante sem a sua ajuda. 

Jeongguk tinha no rosto uma expressão desolada e confusa. Não sabia o que dizer e tinha medo de acabar piorando as coisas. 

–Eu sei que você está triste – tentou. –Não precisa descontar em mim, está bem? Olha, você pode me contar o que aconteceu e eu...

–E você o quê? – interrompeu mais uma vez. –Vai me ajudar? Como? Vivendo a sua vida incrível enquanto eu passo pelo inferno e não tenho nem um minuto de paz quando deito pra dormir? 

–Minuto de paz? Eu estou sempre tentando fazer você se sentir bem. 

-Eu não me sinto bem agora, Jeongguk. Está tudo errado. 

–O que eu fiz?

–É exaustivo. – Taehyung falou, desta vez num tom de voz um pouco alterado. –É exaustivo pra caramba estar todo dia me preocupando com um desconhecido por causa de um relógio que eu não faço ideia do que significa. É exaustivo ficar a maior parte dos meus dias pensando em alguém que eu nem sei onde mora, esquecendo que eu tenho a minha própria vida. E não tá tudo bem comigo. Não tá. Você pensa nisso?

Jeongguk apenas permaneceu quieto. Soltou uma risada seca e desacreditada, tentando ignorar que os seus olhos estavam agora marejados. Se levantou de súbito e andou sem rumo nenhum, consideravelmente rápido. Antes que ficasse longe o suficiente para que Taehyung não pudesse mais escutá-lo, virou-se.

–Escuta, Taehyung. Eu não entendi o motivo pelo qual você cuspiu essas palavras em mim. Sinto muito se você passou por alguma situação ruim, sinto mesmo, mas acho que o egoísta aqui não sou eu.

–Você não estava sentindo que ia sumir a qualquer momento, Jeongguk? – Taehyung perguntou, ainda sentado e sem forças para olhar em direção ao Jeon. 

–Eu... sim, estava. 

–Então por que você não aproveita e some logo? – disse, impulsivamente. 

Depois de um longo silêncio, que desta vez parecia ter levado consigo o som do mar e do vento, Taehyung finalmente olhou para Jeongguk, um pouco longe de si. Ele segurava o velho relógio em suas mãos, quebrado devido ao pesadelo de alguns dias atrás. O Jeon focava toda a sua atenção no relógio. Parecia sem forças, nem mesmo teve como conter as lágrimas em seus olhos.

–Dez e quarenta – falou com a voz embargada. –Como o tempo corre. 

–É. 

–Talvez eu suma. 

–Certo – respondeu, incerto em relação aos seus sentimentos naquele momento.

–Isso te faria feliz, Taehyung?

–Não conheço um mago ou algum truque que possa me fazer feliz nesse mundo. 

–Achei que eu fosse suficiente. 

–Você quer ser suficiente pra alguém que você conheceu durante os seus sonhos. – Taehyung ironizou. –Talvez o que você precise é simplesmente acordar. 

–Entendi. – O Jeon respondeu, desta vez pondo um fim naquela conversa. Longos minutos se passaram até que Taehyung finalmente estivesse acordado, no meio da madrugada.

Por curiosidade, outro arquétipo importante que se manifesta em sonhos é a sombra. Bem, ela se trata da parte renegada da personalidade humana. Aquele pedaço de você que você simplesmente decidiu pôr de lado, fingir que não existe. Seu lado sombrio. Aquela parte que, apesar de todo o seu esforço, vai estar com você onde quer que vá.

Geralmente esse arquétipo assume a forma do vilão em sonhos. 

Como Taehyung poderia achar que ele era o ego, quando na verdade ele era puramente uma sombra? Era o vilão do próprio sonho. Sabia que era impulsivo e que não conseguia pensar muito bem quando estava triste, mas todas aquelas coisas que disse para Jeongguk... saíram. Vieram à tona sem nem mesmo pedir permissão. 

Não sabia o que fazer. Apenas se culpou e, dessa forma, deixou que a culpa tomasse conta do seu corpo inteiro. 

Sentindo-se sem ar e tentando conter a tremedeira em suas mãos, se levantou. Sua boca estava seca e o seu coração disparado. Se pôs em frente ao espelho que havia perto da cama e olhou a figura em sua frente. Apesar da pouca iluminação – esta sendo provida apenas pela lua – viu ali o que mais temia. 

Seu próprio reflexo. O reflexo de alguém responsável pela própria miséria. Alguém que estava provando ser tudo o que seu inconveniente pai havia dito. Desacreditado, levou as trêmulas mãos ao próprio rosto. Viu-se em ruínas.

Tomado pelo próprio ego, esqueceu de manter o que era importante para si.


Notas Finais


...

that's my ego.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...