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História Legacy Of The Devil, Interativa - Capítulo 8



Notas do Autor


((☽.˚‧₊❝)) — Eu diria que é um prazer estar de volta, mas foi a quarentena quem me trouxe de volta com um capítulo de dezessete mil palavras quentinho para vocês, então não é lá um prazer grande. Dessa vez temos vários anúncios legais, mas prefiro começar pelo ruim:
((☽.˚‧₊❝)) — COMENTEM. Matei um personagem nesse capítulo pelo(a) criador(a) ter largado os personagens na fanfic e não ter comentado há três capítulos. Não sou benevolente. Tenho mais de trinta personagens, sinceramente, no ponto em que eu cheguei matar um não faz falta. Então comentem, ou eu vou matar os seus persnagens de uma forma muito merda igual à do capítulo anterior (a personagem morta foi eletrocutada, a curiosidade matou a gata ashauhsua). Vai ser lei eu ter que matar algum personagem em todo capítulo, é isso mesmo? KKK
((☽.˚‧₊❝)) — Okay, agora vem os anúncios legais. Primeiro, precisamos agradecer às betas @SkyWriter e a @Space_Off por terem, mais uma vez, feito um trabalho maravilhoso na betagem, elas arrasam demais. Segundo, o nosso banner feito pela @zawey é digno de estar em um museu de tão perfeito, não? Nasci para endeusar as três citadas anteriormente! São deusas, isso sim. E terceiro, queremos dar as boas vindas à nova co-autora de legacy, a @SkyWriter agora estará nos ajudando não somente com a betagem como com a escrita, esperamos conseguir voltar a postar mensalmente (talvez de duas em duas semanas, quem sabe?) a partir de hoje.
((☽.˚‧₊❝)) — Sem mais delongas, aproveitem o capítulo. <3

Capítulo 8 - 07. Ir contra a maré


Fanfic / Fanfiction Legacy Of The Devil, Interativa - Capítulo 8 - 07. Ir contra a maré

 

Estressados. Essa era a única palavra que definia o estado de todos os alunos de Legacy Of The Devil.

Como se não bastasse alguns terem que ter pago pelos danos materiais à casa de Evelyn na festa de duas semanas atrás, os treinos pareciam estar sendo cada vez mais rígidos e a quantidade de dever de casa e provas se aproximando eram tantas que nem mesmo a partida de futebol americano contra outra escola em uma semana conseguira animá-los.

Todos estavam com uma péssima aparência, andando pelo edifício como zumbis a procura de um cérebro para se alimentarem. Mas o fato é que na adolescência, uma hora ou outra, todos descobrem que se a sua vida está horrível e você diz em voz alta que não pode piorar, você está totalmente enganado e o universo faz questão de mostrar isso a você.

— Por isso, a primeira Lei de Murphy diz que: "Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”. — Com o final da sua frase, também veio o toque que anunciava o final daquela aula cansativa onde vários alunos já tinham desistido de fazer suas anotações habituais para simplesmente repousar a cabeça na mesa e dormir. — Dispensados. E lembrem-se de entregar o trabalho sobre as oito leis de Murphy e seus fundamentos até sexta-feira. 

— Tem trabalho para sexta!? — Questionou Kai, guardando seu material na mochila enquanto checava as mensagens no celular para ver se o treinador ou seus colegas avisaram algo novo sobre o jogo.

— É o que a professora acabou de dizer, gênio. — Nicholas falou, recolhendo os livros que estavam em sua mesa e colocando-os dentro da bolsa com a ajuda de Maniac, que andava alfinetando Kai desde que soubera as aventuras do Thurman na festa de Eve, e com certeza o simbionte não perderia a chance de lançar mais uma alfinetada, então logo virou-se para Kai, dizendo:

— O que foi, o futebol americano está ocupando todo o seu pequeno cérebro? 

— Não enche. — Resmungou Kai, achando que era Nick que estava falando consigo já que não havia percebido o simbionte no recinto até o momento. — O treinador parece ter incorporado o capeta depois que um dos melhores jogadores fraturou a perna no treino de vôo e o outro ficou incapacitado por causa de um feitiço.

— Isso ou ele soube que o favoritinho dele fez muita merda na festa, mas você não deve lembrar já que desmaiou depois de ter apanhado. — Novamente Maniac alfinetou-o, escutando Nicholas o xingar e foi só então que Kai se virou para encarar Nick, pronto para reclamar mais, mas ao perceber que era somente o simbionte, ele só pode apressar-se a guardar seus materiais, dizendo em seguida:

— Cala a boca, vômito preto, eu não perguntei nada para você, caralho.

— Não fale assim com ele só porque você está frustrado com a rejeição da Júpiter. — Nicholas falou, pegando os seus fones sem fio e colocando em apenas um dos seus ouvidos, caminhando em direção à porta.

Não era como se Nicholas odiasse Kai ao ponto de querer saber demasiado sobre a vida do Thurman, mas ele tinha um ódio à matança sem necessidade do time Murder Inc no qual o citado anteriormente era integrante, tinha mais ódio ainda da forma como Kai tratou Júpiter na festa, a forma como deu em cima descaradamente de Natasha em sua frente e acima de tudo, tinha ódio de qualquer pessoa que falasse daquela forma com Maniac.

Por isso, uma chancezinha sequer para lembrar ao colega de classe que ele não tinha direito nenhum de ficar irritadinho por causa de um fora era como se fosse motivo de festa para Nick.

Antes de sair da sala, parou entre a porta e novamente retornou a falar com Kai:

— Sabe, a escola inteira já sabe do bolo que você levou dela, se eu fosse você tentava abaixar a masculinidade frágil e afetada por um tempo e parar de achar que ela é fácil ao nível de dormir com você só porque você quer.

E Nicholas teria saído sem problemas nenhum da sala, se não fosse Kai tê-lo parado e empurrado na parede, pronto para socar a cara de Nick pelas alfinetadas, por causa do próprio estresse e pelo sorriso sacana dele.

— Escuta aqui, seu merda. — Kai começou a falar, cerrando o punho. — Um fora não é nada comparado a todas as outras noites que eu vou ter com ela.

— Nos seus sonhos? — Nicholas soltou uma risada, empurrando Kai de volta para que saísse da parede, colocando a mão no ombro do Thurman. — Engraçado, pois a única coisa que você vai conseguir fazer é bater uma olhando o instagram dela.

Sentiu vontade de deixar claro que já dormiu com a garota também, mas não queria que aquele fato se tornasse motivo de espalhar aos quatro ventos como se fosse um troféu, afinal Júpiter era sua amiga também.

Kai preparou o punho na direção do rosto de Nicholas, e o Hardy-Price por sua vez, preparou-se para desviar o golpe e socar o seu oponente na barriga, mas nenhuma das duas ações aconteceram devido à Circe ter chegado no exato momento que seu amigo começou a briga, usando a sua magia para fazer ambos parar a pouco centímetros de distância um do outro, suspendendo-os no ar.

— Vocês ficaram loucos? — Perguntou a garota, mais preocupada com o seu amigo do que com qualquer outra coisa. — O monitor acabou de passar por aqui! Pensei que estivessem na aula de trigonometria e não de porradaria desnecessária.

Liberou-os da magia, fazendo com que caíssem no chão, Kai por cima de uma das mesas e Nicholas perto da parede, mas nem mesmo a queda tirou seu sorriso sacana — que só havia aumentado ao perceber a presença de uma certa Morningstar atrás de Circe.

Júpiter soltou uma risada ao ver a cena, jogando uma mecha do cabelo para trás e cruzando os braços e mordendo o lábio inferior. Havia escutado boa parte da conversa, mas decidiu não intervir em nada, tinha fé que seu amigo sairia ileso da situação, só não sabia como Kai sairia, e pela cara de cachorro abandonado que ela o viu fazer, já se sentiu mais feliz.

— Que patético. — Murmurou, passando por Circe sem sequer olhar ela, indo em direção ao seu amigo e lhe estendendo a mão. — Vamos, Hardy. Natasha está atrás de você.

Nicholas levantou-se com a ajuda da garota, arrumando a mochila em suas costas e andando para fora da sala, não sem antes Maniac olhar para trás e gritar em alto e bom som:

— Na próxima a gente enche ele de porrada.

A risada de Júpiter foi grande e quando todos perceberam, a garota já estava atrás de Nicholas, rindo com ele pela cena patética e desnecessária que presenciaram e Kai teria desejado estar rindo com Circe da mesma forma, mas a sua situação era totalmente diferente: a garota estava brigando por causa das ações dele e o arrastando para fora da sala, torcendo para que ele não tivesse quebrado a mesa nem nada do tipo.

Os sermões da feiticeira entravam por um ouvido e saiam por outro pois os pensamentos de Kai estavam em Júpiter. Não conseguira tirar os olhos dela quando ela mordeu o lábio e nem quando a garota saiu andando de uma forma que Kai jurou ser provocação, já não conseguia se controlar nos treinos de futebol americano enquanto a Morningstar praticava com as outras líderes de torcida — em sua opinião, ela ficava perfeita na roupa de cheerleader —, ele também estava se questionando como conseguiria fazê-la gostar dele se aparentemente, a cada palavra que saia da sua boca todos viam como se fosse radioatividade.

Talvez Kai seguisse o conselho de um dos colegas no time de futebol americano, que sugeriu que o Thurman deixasse Júpiter insegura, assim seria mais fácil levar ela para a cama, e até disse várias formas de fazer isso, porém ambos concordaram que Júpiter Morningstar tinha uma confiança tão inabalável que seria impossível deixá-la insegura.

— Eu estou falando com você! — Circe beliscou o braço do amigo, fazendo-o soltar um gemido de dor e finalmente prestar atenção no que ela estava falando.

Sabrine, que tinha acabado de sair da sua sala e estava acompanhando-os, embora sua mente estivesse repleta de pensamentos sobre a festa de duas semanas atrás, ela se pronunciou:

— Você está estressado desde a festa da Evelyn. — Sabrine também tinha coisas que queria esquecer daquela noite, mas o seu irmão parecia estar em uma montanha russa de estresse e pressão com o primeiro jogo oficial do time chegando e com as preocupações por causa do que falavam sobre ele nos corredores.

— Não me lembre daquela merda de festa.

— Idem. — Circe falou, revirando os olhos em seguida e apertando o livro de desenho de capa preta que estava carregando, tinha sido o pior dia do mês para ela.

Todos próximos a ela haviam notado que a garota andava mais calada, um pouco chorosa e se xingando com mais frequência desde a festa, mas ninguém ousou perguntar sobre até o momento.

— Bebeth, ainda não disse porque odiou a festa.

O silêncio entre eles durou tempo o suficiente para que todos finalmente chegassem no refeitório e tudo isso porque Circe estava passando as cenas tortuosas da noite na sua cabeça, tentando achar uma resposta que não entregasse toda a humilhação que passara no dia.

— O príncipe virou sapo. — Foi a única coisa que disse, e tanto Kai quanto Sabrine entenderam que Circe realmente não desejava falar sobre a festa.

Tinha sorte de ter saído de lá antes que desabasse em mais choro e o restante da noite após a festa não tinha sido agradável também.

Fora trocada de quarto repentinamente, chantageada por Ayla Quick que havia de alguma forma conseguido fotografar Circe na festa e ameaçou contar para Morgana, pedindo favores a todo instante para a Le Fay agora, as provas estavam consumindo seus pensamentos, sem contar que Mikael estava mandando mensagens e ligando para ela sem parar, mas que culpa Circe tinha, se não conseguia sequer respondê-lo sem desabar em choro?

Precisou bloqueá-lo por um tempo e não teve sequer coragem de ler as mensagens que ele mandara, sabia que no fundo, o garoto estava preocupado com ela e só cogitar em ler cada mensagem que ele mandou desesperado por respostas a machucava também.

Um coração quebrado é a única coisa que tem esse efeito devastador, e ela odiou sentir-se péssima durante todo o tempo que lembrava de Mike com Lucy. Sentia-se mais péssima ainda em saber que seu suporte, Maxine, havia faltado nas últimas duas semanas depois de ter surtado por causa da festa e entrado em mais um dos períodos difíceis da sua bipolaridade.

Para Circe, tudo parecia estar em um completo caos sem fim.

— Você não parece muito bem.

— Ah. Eu tenho essa cara de lixo todos os dias. — Forçou uma breve risada, mas estava claro que aquela frase não foi dita para ser brincadeira e Sabrine percebeu isso, encarando Circe tentando descobrir como ajudá-la. — Por que acha isso? Eu estou bem.

— Circe, você verifica sempre sobre o produto que vai consumir e hoje sequer olhou na cara do seu mini-suflê direito. — Falou, apontando para a refeição da garota e a encarando novamente, até mesmo Sabrine notou que o estado da sua amiga não andava nada bom. — Aconteceu alguma coisa?

— Uh, eu…

Circe até pensou em desabafar com Sabrine, mas sabia que não se sentiria totalmente confortável. Sempre recorria a Maxine ou a Bea, e foi somente aí que ela percebeu que não tinha lembrado de Beatrice até o momento, como pôde esquecer da garota? Com certeza sua amiga iria lhe ajudar.

— Eu já volto. — Kai falou, a interrompendo antes mesmo que Circe respondesse algo para Sabrine, e no fundo a Le Fay agradeceu por isso.

Deixando a sua refeição para trás, o Thurman mais velho levantou-se rapidamente e saiu da mesa onde estavam sentados, indo em direção aos seus colegas do time Murder Inc, que pareciam agitados além do normal, supôs que alguma coisa os deixou tão inquietos então decidiu ir ao encontro deles.

— Dá para acreditar? Esse garoto mal anda conosco nas últimas semanas, tudo isso por ter levado alguns foras. — Circe falou, esquecendo-se do assunto anterior e acompanhando com os olhos o trajeto dele até os seus companheiros. — Eu nunca vi Kai Morgan Thurman ficar tão abatido com uma rejeição, isso é um milagre. Será que devemos nos preocupar?

— Não sei ao certo. — Sabrine falou, encarando o seu meio-irmão e suspirando. Virou-se para Circe, um tanto nervosa com o anúncio que estava prestes a fazer, mas necessitava contar para alguém e Vênus estava ocupada demais sabe-se lá com o quê para escutar sua amiga. — Eu preciso contar algo, quero aproveitar que meu irmão não está aqui.

— Hm?

A feiticeira encarou-a confusa, Sabrine geralmente era bastante aberta com seu irmão e só o fato de estar querendo confiar-lhe um segredo a ela e não a Kai era surpreendente para si.

— Na festa, eu acabei parando na sala de dança da casa da Eve, e como não tinha ninguém lá, eu só coloquei uma música no meu celular e dancei. — Falou, com uma leve ponta de raiva na voz por ter sido tão descuidada. — Uma garota, do terceiro ano eu acho, me filmou e depois mostrou para alguns professores.

— Que garota? — Circe precisou perguntar de antemão, para saber se a causa do seu estresse era a mesma que a de Sabrine.

— Eu não sei direito o nome. Acho que é Ayla, mas isso não importa agora.

Circe mostrou nojo ao nome ser citado na mesma hora, em sua mente, Ayla só sabia criar confusão e isso a irritava muito, mas antes que ela pudesse dar a sua opinião super sincera sobre o quão sem noção e filha da puta achava que Ayla era, Sabrine continuou sua fala:

— Eles disseram que estão precisam de mais uma bailarina para o balé que exibirão em algumas semanas na escola… — Fez uma pausa, apertando com força a barra do vestido que vestia devido ao nervosismo, sentia suas mãos soando também só de pensar na idéia de aceitar o papel que lhe ofereceram. — E eles falaram que eu tenho muito talento para estar lá com as outras estudantes da Legacy, mas como um corifeu. — Olhou a cara de confusão de Circe e precisou explicar o que ela faria: — É tipo o líder do coro, entendeu?

— Bine?! Isso é incrível!

Em poucos segundos Circe esqueceu-se completamente dos seus problemas, agora só conseguia ficar feliz pela amiga. Sabrine sempre foi uma dançarina invejável, e finalmente seus esforços estavam sendo reconhecidos, isso a deixava extremamente alegre.

Abraçou lateralmente a garota, precisando se conter para não dar gritinhos de alegria ali mesmo no refeitório, mas ao notar que Sabrine não estava com uma cara muito boa com a notícia, ela desfez o sorriso e perguntou:

— Espera, você não parece nada feliz. Por quê?

— Ela vai me usar! Eu odeio que as pessoas me usem, posso ser nova mas não sou burra e já deu para perceber que Ayla não é uma boa pessoa. — Disse, apertando com mais força ainda o vestido, suspirando para tentar se acalmar. — Eu não quero que o meu possível sucesso no primeiro balé que vou participar seja por causa dela! E os meus esforços?

Circe não pôde deixar de sorrir, Sabrine tinha muita coisa em comum com ela, principalmente o fato de odiar Ayla e de não querer ser manipulada, mas se a Thurman conseguisse sair das garras da Thawne, por que Circe não poderia? Orgulhou-se ao ver Sabrine ali, irritada por uma possível manipulação de Ayla e querendo tomar conta da própria vida, sem sequer conseguir imaginar na idéia de conseguir alcançar seus objetos sem mérito próprio.

— Você tem um rostinho lindo e um talento gigante que vai encantar todos, não deveria se importar com a Ayla. Se você conseguir o papel de corifeu é totalmente devido ao seu talento. Não se deixe abalar por ela, você ama dançar! — Colocou uma mexa do cabelo de Sabrine atrás da orelha dela, encarando suas orbes azuis e dando o seu melhor sorriso, tentando se recordar da frase que leu em algum lugar. — “Os grandes bailarinos não são ótimos por causa de sua técnica, eles são excelentes por causa de sua paixão”, é uma citação. Martha Graham. Se uma mulher poderosa disse isso, então com certeza é verdade.

Sorriu, passando a mão pela bochecha dela, Sabrine já sentia-se mais contente com todo o apoio vindo de Circe, ficou triste por não conseguir dar o mesmo apoio para a garota, mas sabia que a Le Fay a procuraria quando necessário, agora, Sabrine só poderia estar ansiosa para a sua possível aparição em um balé, ainda mais sendo o corifeu.

Nem em seus sonhos mais malucos pôde imaginar tal coisa. Não. Na verdade ela imaginou sim, mas agora que todos os seus objetivos pareciam estar tão alcançáveis ela se sentia ansiosa pelo próximo dia, não conseguindo descrever o misto de emoções entre o nervosismo e a felicidade que tomaram conta dela.

Não quis contar para Kai por ter incerteza se conseguiria o papel no balé, não desejava alimentar esperanças no seu irmão para depois quebrá-las completamente, embora ela mesma estivesse alimentando-as muito.

E, se Kai soubesse que perderia esse grande anúncio não teria saído da mesa e ido de encontro aos seus colegas de time. Assim que aproximou-se deles e notou um Theodore totalmente irritado e perplexo, ele quis ter voltado para a mesa com Circe e Sabrine só para comer em paz, sem nenhum problema.

— Olha essa merda! — Theodore praticamente gritou, totalmente incrédulo com as coisas que estavam escritas no jornal, balançando a folha na cara dos seus amigos. — KAI! OLHA ISSO! — Gritou novamente, puxando-o para perto e mostrando a folha, estava agitando o papel em suas mãos toda hora então não foi possível o Thurman sequer ler o que estava escrito.

Logo Electra, com o seu mal-humor costumeiro encarou Théo, totalmente irritada pelos gritos histéricos que o garoto estava dando há quinze minutos sem parar.

— Eu vou meter a porrada nele, ‘tô zoando não.

— O que deu nele? — Perguntou Kai, ignorando o humor maravilhoso e com certeza invejável da sua companheira.

Para Theo, aquele time era a coisa mais importante do mundo pois significava a aprovação do seu avô e uma forma de se provar digno do voto de confiança que Ra’s lhe deu, então ao ler o jornal da escola naquela manhã, ele só pode se irritar.

Se soubesse que postariam aquelas barbaridades no jornal, teria intervido, afinal, ele fazia parte do grupo de jornalismo mas recebeu uma “folga” do presidente do clube já que a festa deveria ser para os membros do Murder Inc, e por sorte ou não, Theodore era um dos membros.

— Eu li essa merda pelo celular, não precisa passar o jornal na minha cara. — Resmungou Electra, mostrando o aparelho aberto na página privada da escola. — E daí?

— O nosso time vai ser ridicularizado por isso!

— Não é o Galen que deveria estar surtando? — Kai perguntou, ainda não havia lido o jornal pois sabia que as coisas escritas sobre ele eram horríveis já que recebera olhares enojados e risadinhas durante todo o dia.

— OLHA ISSO! — Gritou novamente Theodore após ler mais uma parte do jornal.

— Eu vou explodir a cara desse pirralho, não ‘tô brincando. — Electra falou, tirando as mãos dos ouvidos para escutá-lo.

— ‘Um dos membros alegou ter dito que a sua inscrição para os testes só teve um único motivo: tédio. O time que tanto foi exaltado durante as últimas semanas aparenta estar perdendo a moral cada vez mais…’ — Leu Théo em voz alta, revirando os olhos no final da sua frase. — Ninguém falaria isso! É total burrice, eles inventaram isso com certeza.

— Ué, mas eu isso sim. — Lo se pronunciou, ganhando a atenção de todos na mesma hora por estar vestindo um traje que se parecia com uma armadura medieval. — Eu estava em casa, sábado a noite, tomando cerveja, olhei para a página da escola com o anúncio do teste para o time e pensei “por que não?” aí me inscrevi.

— Acho que todos queremos saber a mesma coisa. — Théo falou, cruzando os braços e olhando Lo e tanto Kai quanto Electra concordaram com a sua afirmação.

— Por que você disse isso para o jornal?

— Por que você está vestindo esse treco?

Electra e Theodore se entreolharam pois haviam dito coisas totalmente diferentes na mesma hora.

— Depois de várias garrafas de hidromel e vodka, eu falaria até mesmo que tenho poder de tempestade. — Lo virou-se para Electra com um sorriso em seu rosto. — Não me julguem, bebês.

— OLHA A AUDÁCIA DESSE… — Antes de concluir a sua frase, Théo precisou fazer uma pausa e deixar sua irritação de lado: — Desculpe, como quer que eu te chame?

— Ela.

— OLHA A AUDÁCIA DESSA GAROTA.

Louhi simplesmente amava o modo como Theodore, mesmo em momento de pura fúria, conseguia ser educado o suficiente para se importar em como deveria chamá-la. De certa forma, isso a alegrava bastante.

Sorriu, feliz por alguém ter notado que ela estava usando a armadura — não que fosse difícil notar esse fato, pelo contrário, é que a maioria das pessoas não queriam saber sequer o motivo daquilo — então virou-se para Electra, pronta para explicar cada detalhe da peça.

— Eu estava em um ensaio da peça que o clube de teatro vai exibir daqui a duas semanas, inclusive, vocês vão me assistir nela. — E antes que Electra pudesse protestar sobre o aviso, Louhi continuou: — Não é um pedido. — E olhou Electra revirar os olhos com raiva, mas por sorte ela não tentou reclamar novamente. — Eu sou uma uma cavaleira real, com certeza a melhor atriz entre todos aqueles coadjuvantes, mas de qualquer forma, eu estou vestindo isso porque não consegui tirar a fantasia depois do ensaio, será que foi o hambúrguer que eu comi?

Théo animou-se com a idéia de assistir uma peça de Lo, mas notou algo estranho demais na fala da sua amiga.

— Mas eu te vi passeando pela escola na hora em que você deveria estar no clube.

— Ah, fomos liberados mais cedo. — Suspirou, tinha sido difícil entrar na fantasia de cavaleira e foi tudo atoa pois precisaram parar o ensaio bem antes da sua aparição na peça. — Na cena de esfaqueamento, virou realmente um esfaqueamento. Alguém trocou os objetos de apoio falsos por objetos reais, o Nýx vai resolver depois.

— E todo mundo tá bem?! — Perguntou Théo, totalmente assustado com a informação. Não conseguia entender porque alguém trocaria os objetos falsos por reais, isso sim era algo perturbador perto das notícias do jornal da escola.

— Eu ‘tô ué. — Respondeu-lhes na maior tranquilidade do mundo, ele realmente estava bem, somente o pobre coitado que foi esfaqueado que não estava. — Não sujaram minha armadura mesmo, então eu estou bem.

— Mas e a pessoa que foi esfaqueada?

Louhi não conseguia entender propósito naquelas perguntas,

— ‘Tá esfaqueada ainda na enfermaria. — Disse, como se fosse óbvio, mas acabou notando algo mais estranho do que o esfaqueamento. — Como você me viu perambulando pela escola se você tem aula no mesmo horário? 

Electra, que já sabia da resposta porque infelizmente presenciara a cena indecente entre Théo e o seu namorado, decidiu encobrir o “crime” dos dois e tentou desconversar:

— E alguém gravou?

Enquanto Louhi era lotada de perguntas sobre o acontecimento terrível no ensaio — foi uma pena apenas que Lo não pôde testar no ensaio se a sua própria espada era falsa ou não — sequer havia notado que o líder do time Murder Inc se aproximou deles.

— Perdi alguma coisa? — Perguntou Galen, que até então não tinha lido o jornal da escola, fofocas adolescentes não eram a coisa mais interessante do mundo para ele. Na verdade, depois de mais de três horas em uma reunião com os outros professores, nem se a notícia fosse sobre a morte de Thanos ele escutaria.

— Onde você estava que não leu essa barbaridade?!

Novamente Theodore ficou balançando o jornal no ar, esquecendo-se do incidente com os objetos de apoio do clube de teatro facilmente, ainda estava totalmente ofendido com cada palavra escrita naquela matéria.

— Estava em uma reunião com o novo professor que vou acompanhar. — Explicou-se, suspirando só de lembrar que teria que se adaptar novamente a outra pessoa só porque o conselho da escola fez merda. — Eles demitiram a Mulher-Gato.

— ‘Tá vendo? Uns filhos da puta desses gostam mais de escrever uma matéria difamando o nosso time do que fazer uma sobre a professora que foi demitida. — Theodore berrou, o garoto parecia determinado a não perdoar nunca o clube de jornalismo pelos insultos do jornal, e parando para olhar ao seu redor, várias pessoas deveriam estar planejando matar o editor-chefe e todo o clube naquele instante mesmo por terem exposto vários alunos.

A frase de Galen despertou mais interesse em Electra do que o surto de Théo, então ela havia começado a fazer perguntas sobre o ocorrido já que Mulher-Gato era uma ótima professora e saber que ela iria lecionar pela última vez naquele dia a deixava levemente triste.

A atenção de Kai, por outro lado, estava mais no seu celular já que ele estava lendo sobre as notícias relacionadas a si, e era uma pior que a outra com certeza. Não estava sequer aguentando ficar ali sabendo que as pessoas provavelmente estavam querendo matá-lo naquele exato momento.

Sentiu-se, por um momento, mal por ter feito tantas bobagens em uma única festa, mas nunca foi do tipo de pessoa que se importava com os comentários alheios de gente babaca, em suas próprias palavras. Talvez o que estivesse mais lhe ferindo seria que Raphael acabou brigando com ele e que ambos não estavam se falando nas últimas duas semanas, e ainda por cima tinha aquele sentimento estranho vindo da garota que constantemente o desprezava, pensou que talvez estava entendendo as coisas erradas e que toda a provocação que achava que Júpiter estava fazendo para ele era um engano.

Balançou a cabeça negativamente e guardou o celular no bolso da calça, se continuasse pensando em tudo que aconteceu acabaria explodindo de tanto estresse e tinha um grande jogo chegando.

— Eu vou me atrasar para o treino. Vejo vocês depois.

E assim, tão rápido quanto se juntou ao grupo, Kai andou apressadamente para longe dos seus companheiros de time, fazendo a maioria dos integrantes se questionar o porquê da estranheza tanto no tom de voz do rapaz quando nas suas ações nas últimas semanas.

Na opinião mais sincera de Théo, ele sempre viu Kai como o personagem de um anime que ele assistia chamado Mineta, e agora estava mais para o gelo que Todoroki emanava. Por isso, ele foi o primeiro a comentar sobre isso, já que todos pareciam estar ignorando o fato de que Kai andava mais estranho que o normal.

— Ele não parece estranho para vocês?

— Claro, depois daquela festa eu não teria nem saído de casa de tanta vergonha que esse garoto passou.

Electra deixou de conversar com Galen sobre a Mulher-Gato ao escutar a frase de Louhi, não conseguindo acreditar nas palavras proferidas da boca de elu.

— Você teria sim, não tem um pingo de vergonha na porra da cara mesmo.

— Jura, amorzinho?

O sarcasmo no seu tom de voz era iminente, ela virou o rosto com um olhar de quem não se ofende nem um pouco em não ter vergonha na cara, pois ela realmente não tinha, então para quê se estressar com a sinceridade de Electra se ela não estava errada?

Começou a olhar os estudantes e percebeu um dos seus colegas de quarto caminhando para fora do refeitório, provavelmente indo para alguma sala de aula já que faltava poucos minutos para o intervalo acabar.

Lembrou-se então que Rhaegar — cujo nome descobriu recentemente ser na verdade Yondu — andava o evitando desde o dia da festa. Ela pensou na possibilidade de ter dormido com o garoto, achando que talvez esse fosse o motivo da estranheza entre ambos, mas achou que o nível de bebida que consumiu na festa só lhe proporcionou dor de cabeça e enjoo, e não uma bela noite justamente com seu colega de quarto.

Andava tentando perguntar para Rhaegar sobre o que aconteceu naquele dia, já que ela acordou na banheira no outro dia, com suas peças de roupa espalhadas em cima da cama de Yondu e ao redor do beliche, mas sempre que tentava descobrir se algo tinha acontecido entre os dois, o neto de Thanos a evitava, mudava de assunto ou lembrava de algum compromisso — mesmo sendo, por exemplo, quatro da manhã.

Assim que Rhaegar percebeu o olhar um tanto maníaco de Louhi em cima de si, seu corpo inteiro tremeu e ele só teve uma reação: dar meia volta, esquecer que tinha que ir para a sala do seu clube e sair correndo disfarçadamente.

— Não me evita não! — Berrou Lo, no meio do refeitório, apontando para Rhaegar com a espada e automaticamente, fazendo com que todos os alunos ao redor olhassem-o também, alguns pensaram ser somente um ensaio ao ar livre do clube de teatro, enquanto outros já estavam com os celulares gravando. — Seu neto do Thanos do caralho! Volta aqui!

Lo saiu atrás do garoto, tentando correr assim como ele, mas o seu traje não permitia muitos movimentos e isso o impediu de ter se jogado em cima do garoto como em uma cena de filme americano, exatamente como ela queria.

— RHAEGAR! NÃO ME IGNORA, SEU BOSTA CHIFRUDO.

Rhaegar olhava para trás de vez em quando para ver se ela ainda estava o seguindo, mas sempre que fazia isso, Lo se estressar mais e começava a gritar mais alto xingamentos que o Quill nunca escutou até o momento.

O fato é que Yondu andava evitando Lo desde que aconteceu a festa do Murder Inc, onde ele decidiu visitar seus pais e não festejar como os outros fizeram já que uma chance sem Maxine na sua cola já era como entrar no paraíso sem nem merecer. Ele voltou totalmente animado da casa dos seus pais mesmo odiando despedidas, mas o que aconteceu em seu dormitório dormitório fez ele querer voltar para a casa dos seus pais.

Yondu estava dormindo com um enorme sorriso depois da noite agradável que teve quando foi acordado, e para a sua surpresa o motivo foi Louhi em seu ápice de embriaguez, se jogando por cima dele somente com suas roupas íntimas. Ele se desesperou de imediato, pensando se deveria fazer algum esforço para colocá-la em sua cama, mas achou que tocá-la naquele estado seria um enorme desrespeito, e por Deus, Louhi pesava em ambos os gêneros.

A noite de Yondu não foi nada agradável naquele dia e quando ele conseguiu dormir, acordou horas depois por causa do pé de Louhi que estava causando desconforto em seu rosto. Por sorte, Yondu conseguiu sair do quarto cedo e desde então estava evitando Lo.

Talvez fosse o nervosismo de encontrar Louhi novamente ou a vergonha de lembrar da noite em que Lo dormiu por cima dele — totalmente seminua — que fez Yondu rrer para a direção oposta da sua própria sala de aula assim que escutou seu nome ser chamado, agindo como se nada estivesse acontecendo e como se não estivesse escutando os gritos esganiçados de Lo atrás de si.

Precisou sair até mesmo da escola, indo para o prédio dos dormitórios. Seu plano? Fazer Lo desistir de subir as escadas do dormitório pois ele sabia que era a coisa que a pessoa que o perseguia mais odiava no prédio dos dormitórios. As escadas e Lo definitivamente não conseguiam se dar bem.

— Me dá atenção. — Pedia Louhi atrás dele, sentindo-se completamente idiota por ter decidido ficar com a fantasia da peça depois do ensaio, já que agora seu corpo pesava devido ao material que o traje era feito, e isso a fez se cansar na metade do caminho. 

Simplesmente odiava todo aquele suor e culpava também o calor infernal que Basin City tinha.  Se já sentia vontade de morrer em dias quentes, ali então, subindo apressadamente os degraus da escada enquanto berrava o nome de Rhaegar, era como se já estivesse a beira da morte.

Louhi então, decidiu usar uma tática melhor para chamar Rhaegar. Sentou em um dos degraus, colocando a mão em cima do tornozelo para simular que caiu das escadas, gritando logo em seguida, e por um momento pensou que Rhaegar fosse simplesmente ignorá-la ali nas escadas, mas logo o rapaz deu meia volta para ajudar.

— Você está bem? — Perguntou, sabendo que ajudar Lo foi a pior decisão que fez na sua vida inteira.

Agachou-se para olhar no rosto de elu, pensando que o tornozelo de Lo torceu ou algo do tipo, mas estava completamente errado e desejou do fundo da sua alma que Louhi tivesse realmente se machucado, pois quando ela levantou a cabeça e tirou a mão do tornozelo, segurando o pulso de Yondu com um olhar que na mais sincera opinião do Quill, estava dando a entender que um assassinato seria cometido naquele recinto mesmo.

E olhando um pouco mais, percebeu que Lo tinha uma espada consigo.

Primeiro, o pensamento de que morreria justo nas escadarias lhe veio em mente, e depois Yondu só sabia pensar em o que diabos Louhi estava fazendo com uma armadura?! Será que ela preparou-se para cometer um homicídio mesmo?

— Por que você está me evitando e ignorando, filho da puta? — Perguntou, na maior cara de pau, demonstrando uma calma surpreendente que assustou ainda mais o Quill.

Pensou também que a única resposta para sair daquela situação era somente uma:

— O que é ignorar?

— Não se faz de tonto não, neto do Thanos desgraçado.

Lo colocou a mão livre na espada falsa que o clube de teatro produziu, era totalmente inofensiva, a menos que alguém tivesse trocado por uma real, mas ela sequer pensou nisso quando sua mão foi em direção cabo da espada, segurando-a com firmeza e batendo-a consecutivamente na cabeça de Rhaegar — que por um momento, pensou que a espada iria em direção ao seu coração e que aquele seria mesmo o seu fim.

— Para de me bater com isso! — Pediu, totalmente choroso enquanto tentava se afastar da sua agressora.

Louhi, surpreendentemente, parou de bater ele e fitou seus olhos verdes por um bom tempo, deveria ser a única pessoa que tinha coragem o suficiente para isso já que Rhaegar e sua irmã sequer eram olhados na maioria das vezes devido ao fato de serem netos do Thanos e terem uma fama péssima.

Às vezes, Rhaegar admirava muito essa característica em especial de Lo sempre o olhar sem medo, mas também reconhecia que no dia em que alguém fizer sua companheira de quarto evitar contato visual, será outra pessoa possuindo o corpo de Lo.

— Vai ficar só me olhando ou vai responder? Eu sei que estou linda nessa armadura, mas não é pra tanto. 

— Desculpa. — Disse, continuando a olhar Louhi. — Eu não estou te ignorando.

— Está sim, desde a festa. — Louhi saiu de perto do rapaz e sentou em um dos degraus da escada, encostando-se na parede. — O que eu fiz? Ou melhor, o que você fez?

— Por que você acha que eu fiz alguma coisa?

Perguntou, levemente ofendido pela suposição e sentando em frente a Louhi, olhando para o final da escada onde sua mochila estava caída, juntamente à espada de Lo — perguntaria depois o porquê dessa armadura.

— Sei lá, você tem mais chance de fazer merda do que eu.

— Isso é mentira. — Respondeu-lhe na mesma hora, fazendo Lo concordar com a cabeça. Não tinha um manual para ensinar Rhaegar a falar que estava constrangido por Louhi ter dormido seminua em cima dele, tampouco uma forma adequada de falar aquilo. — Na noite da festa...tipo, eu tava dormindo.

— Comigo?

Perguntou tranquilamente, já tinha imaginado nessa hipótese mas descartou-a um tempo atrás pois mesmo bêbada ela deveria ser muito boa na cama então não teria motivo para Rhaegar a evitar.

— Quê? Não, não. — Rhaegar parou para pensar um pouco sobre a ordem dos fatos sobre a festa, então completou: — Não ainda, ao menos.

— Filha da puta, se abusou de mim.

— Não calma, deixa eu terminar de falar. — Disse, colocando a mão na parede ao lado dela para impedir Louhi quando ela fez menção de levantar, definitivamente não queria que ela pegasse a espada no final da escada e retornasse a bater ele com o objeto.

— Continue. — Voltou a sentar, cruzando as pernas e os braços. — Darei meu veredito final quando você acabar e verei se você merece ter a cabeça cortada pela minha espada, que agora eu sei que é falsa.

As últimas palavras de Louhi fizeram Rhaegar ficar confuso, porém ele não ousou perguntar nada mais para ela.

— Eu estava dormindo… — Antes que pudesse imaginar Lo levantando e pegando a espada, ele concluiu rapidamente: — SOZINHO, eu estava dormindo SOZINHO, e daí você apareceu no quarto. Você...você t-tirou a roupa e…ficou seminua, eu ignorei, virei, e pensei em dormir, mas aí…

— Tu vê uma mulher seminua e volta a dormir? — Demonstrou uma leve tristeza quando interrompeu a fala dele, nunca pensou que alguém teria tal ação mas aparentemente, com Rhaegar dormir é muito mais importante que olhar uma garota seminua. — Assim eu me sinto ofendida.

— Desculpe. Quero dizer, não, não me desculpa, eu estava com sono, queria dormir. — Suspirou, parando de enrolar e indo direto ao ponto, sentiu suas bochechas esquentarem só de pensar novamente na cena. — Você se jogou em cima de mim e dormiu ali, tipo, em cima de mim. Justo em cima de mim. A sua cama é a de cima e você decidiu dormir na minha, EM CIMA DE MIM.

— É só por isso? — Soltou uma risada, arrumando as madeixas loiras e olhando ele.

— Eu não sabia o que fazer, você dormiu com o pé na minha cara e não parava de se mexer a noite inteira, eu pensei que fosse me matar se soubesse disso então nem ousei tocar em você para te tirar de cima de mim.

— Ué então como eu saí da sua cama? — Louhi se lembrava vagamente do dia seguinte após a festa, mas lembrou que de alguma maneira acordou três horas da tarde dentro da banheira do dormitório.

— Você acordou, foi para o banheiro e agiu como se nada tivesse acontecido e eu fui atrás da minha irmã para contar o que aconteceu.

— Isso é bem a minha cara, eu estava com sono mesmo. Isso foi tão patético. — Novamente soltou uma risada, mas dessa vez foi acompanhada por Rhaegar que saiu de perto dela e voltou a se sentar em frente a ela na escada. — Eu saí correndo atrás de você e gritando seu nome no intervalo. — Falou, causando mais risos em ambos por lembrarem da cena que tinha acontecido a vinte minutos atrás. — Eu te chamei de bosta chifrudo na frente da escola inteira, eu te bati com a espada falsa-quase-real e tudo isso porque eu dormi seminua em cima de você e você ficou com vergonha. Isso é mesmo sério?

— Você me chamou de neto do Thanos.

— Hey, isso é quase um xingamento. — Disse, apontando com o dedo indicador para ele e voltando a rir. — Não precisava de tudo isso, eu não me importaria em dormir em cima de você outra vez.

Por um momento, Rhaegar voltou a ficar vermelho só de imaginar na cena novamente e isso foi motivo de riso para Louhi, que o achou extremamente fofo daquela maneira.

A garota levantou do chão com dificuldade por causa da armadura pesada, questionando-se mentalmente como aquilo era falso e mesmo assim tão pesado. Se fosse para uma guerra, com certeza usaria aquele traje.

— Por favor, se importe sim, não foi bom dormir com seu pé no meu rosto. — Brincou de volta, vendo-a descer os degraus e pegar a sua espada. — Qual é a da fantasia?

— Eu faço teatro, lembra? — Estava, mais uma vez naquele dia, ofendida em como as pessoas não lembravam desse fato, ela era a estrela principal daquele clube e quase ninguém se lembrava da sua participação. — Nós vamos apresentar uma peça daqui a duas semanas, depois daquele jogo contra a escola riquinha com nome estranho… Eu sou a estrela principal e isso é sinônimo de uma grande peça. Espero te ver lá.

— Eu vou tentar ir.

Louhi apenas concordou a cabeça, virando para encarar ele antes de ir embora de vez.

— Inclusive, eu realmente não me importaria em dormir em cima de você de novo, mas se eu dormir e você ficar com frescura eu vou trazer uma espada real para te matar.

— Você é assustadora.

— Eu sei.

E assim, foi embora. Yondu respirou fundo, tentando digerir tudo que tinha acontecido ali em tão pouco tempo. Que porra de situação estranha foi aquela? Pensando bem, era patético ter ficado tão nervoso por causa de uma coisa que Louhi julgou tão boba.

Soltou uma risada ao pensar que todo o seu leve estresse por causa da situação tinha acabado ali mesmo, de uma forma um tanto cômica.

— Eu notei isso.

 Em um dia somente, Rhaegar sentiu que esteve à beira da morte tantas vezes, que ao tomar um enorme susto com a voz acima de si — não era Deus, ele verificou — se não estivesse blindado contra a morte ele teria finalmente morrido.

— Malcolm! — Gritou, colocando a mão no coração para tentar se acalmar e olhando o garoto no topo da escadaria, olhando-o com um sorriso ladino. — O que você está fazendo aí em cima?

— Eu com certeza não estava parado em silêncio notando a tensão entre você e a Louhi. — Respondeu, descendo as escadas e segurando a risada pela cara de constrangimento e confusão que Rhaegar tinha feito.

— Tensão? Você ficou louco? — Levantou-se rapidamente, descendo as escadas nervoso e pegando a sua mochila que havia caído enquanto Louhi o batia com a espada.

— Você gosta do Lo.

Afirmou sem medo algum, tinha parado para olhar eles somente naquela cena das escadas, mas sabia fazer muito bem uma leitura corporal e pelos gestos de Rhaegar, pode afirmar que ele estava interessado pelo seu companheiro de quarto embora não notasse ainda.

— Eu sou hétero.

A resposta de Rhaegar não agradava nada a Malcolm, constantemente as pessoas estavam fazendo descobertas sobre si mesmas, e se ele na verdade gostasse de homens também? Sem contar o fato de que quando se trata de Lo, a única coisa que te impede de ficar com elu é a vontade de ambos e não a sexualidade.

— Ele é genderbend, alterna de gênero então isso não é desculpa. — Cruzou os braços, fazendo sinal para Rhaegar o seguir para que ambos voltassem às aulas o mais depressa possível devido a estarem bastante atrasados.

— Eu teria que ser bissexual para ficar com ele, é desculpa sim.

— Não, acho que não. — Parou de andar, pensando que essa realmente era uma questão a se debater depois já que era meio confuso, mas logo voltou a fazer o seu caminho. — Elu alterna entre dois gêneros, se você gosta só de mulheres tudo bem, elu pode ser uma mulher. Gosta de homens? Elu pode ser também. Gosta de ambos? Perfeito, vai amar os dois lados delu.

— Isso é confuso.

— A única coisa confusa são seus sentimentos por elu.

Rhaegar ficou calado por um tempo assim como Malcolm, o Quill precisava pensar a respeito da bomba que Mack jogou na sua cara na maior tranquilidade do mundo. Depois de um tempo, voltou à mesma conclusão; definitivamente não gostava do seu colega de quarto, ele sentia apenas uma admiração por Lo e realmente gostava do tempo que passava com elu, mas somente isso.

— Eu não gosto dele. Como você chegou a essa conclusão precipitada?

— Os olhares, você todo tímido, seus gestos.

Malcolm parou em frente á sala do Clube de Dança, olhando através do vidro seus companheiros já ensaiando e fazendo sinal para ele entrar logo também já que justo Malcolm que era tão pontual tinha se atrasado mais de meia hora — não tinha culpa se a conversa de Lo e Rhaegar estava interessante demais.

Voltou a sua atenção à Rhaegar ao escutá-lo falar:

— Eu estava constrangido por causa da…

— Delu ter dormido em cima de você? — Embora sua feição fosse séria, estava com um tom zombeteiro já que era bastante cômico ter escutado toda a conversa deles. — Esquece isso, eu acho que posso ter errado, de qualquer forma. Preciso ir para o ensaio ou vão me matar, até depois.

— Você não pode falar essas coisas e pedir para que eu esqueça. — Disse, vendo Malcolm abrir a porta da sala, suspirou e começou a andar em direção à sua própria sala de aula.

Antes de entrar finalmente na sala do seu clube, Malcolm lembrou-se de dizer algo:

— E ah, Rhaegar. — Chamou-o, vendo o garoto virar para olhar ele. — Toda manhã lembre de perguntar como Lo quer ser chamado, isso é importante.

E então entrou na sala, deixando a sua mochila deslizar pelo seu braço para ficar com as outras no chão, indo até os seus colegas que estavam reclamando bastante pelo seu atraso, já que geralmente era Malcolm quem os guiava na maioria das coreografias.

— Por que se atrasou?

— Conto depois. — sussurrou, olhando Júpiter furiosa com algumas das cheerleaders por motivos os quais ele realmente não estava querendo descobrir no momento. Malcolm deixou-a sozinha e foi até a sua bolsa, onde deixou a jaqueta guardada, notando que seu celular exibia uma nova notificação.

Sem pensar muito se receberia xingamentos da capitã irritada por ele estar usando o aparelho durante o treino, abriu a mensagem e percebeu que era seu ficante mais novo pedindo desculpas novamente pelo incidente na festa de Evelyn, o garoto tinha um temperamento difícil, isso era fato. Sorriu apenas em ler a mensagem, embora não fosse algo nada fofo ou especial, mas só o fato de que ele lhe mandara mensagem deixava Malcolm extremamente contente. Digitou rapidamente uma resposta: “não se preocupe, já te disse que gosto de desafios, principalmente se o desafio for você. Te vejo às 17h no sábado, não se atrase ;)” e enviou, retornando a atenção para o treino com um enorme sorriso.

Ser líder de torcida não era nada fácil, principalmente quando Júpiter acordava irritada com alguma das garotas e dificilmente parava de brigar até a semana seguinte, então ele tentou distrair ela de sua irritação ao vê-la indo para cima das meninas novamente, fazendo uma pergunta:

— Por que estamos ensaiando aqui ao invés de ensaiar no campo de futebol americano?

— Porque aqueles animais sedentos não pararam de olhar o corpo de todas nos treinos. De verdade, nenhuma de nós nos sentimos felizes com isso, não é meninas? — perguntou, escutando somente algumas respostas positivas e isso fez Júpiter se irritar verdadeiramente pela atitude das suas líderes de torcida.

Todos sabiam muito bem que Kai — na verdade, o problema era metade do time de futebol americano — era o maior problema para as líderes de torcida, já que ele tinha dormido com metade delas e a outra metade ainda queria ficar com ele ou com algum outro jogador de futebol americano, causando brigas entre elas que quebravam o elo que todas deveriam ter.

— PAREM DE ABRIR AS PERNAS PARA O KAI, PORRA!

O grito agudo da garota deve ter ressoado até mesmo nos corredores devido à porta da sala de dança estar entreaberta, fazendo com que alguns alunos se assustasse e tivessem pena pelas pobres vidas que seriam tiradas pela Morningstar naquela sala.

— Eu não abri nada. — disse Malcolm, levantando a mão para quebrar o clima tenso que se formou no ar já que nenhuma das garotas ousou dizer uma palavra sequer, e estavam na razão pois as encaradas da Morningstar faziam qualquer pessoa perder a fala.

— Você também quer, Júpiter. Não pode falar isso para elas.

Júpiter olhou incrédula para o ser inferior que teve a ousadia de lhe afrontar na frente do seu time e ainda dizer tais barbaridades. Percebeu então que era Evelyn, alguém que constantemente estava trocando farpas com Júpiter desde a festa. A Morningstar ainda se questionava em como Eve conseguia ter falta de noção o suficiente para achar que um dia iria brilhar mais que ela.

— Me tirem como capitã das líderes de torcidas no dia em que eu dormir com aquele chernobyl ambulante e deixar com que ele quebre a minha relação com vocês. — cruzou os braços, olhando diretamente para Eve. — Posso ter quem eu quiser na minha cama e é por isso que não vou chegar ao ponto de dormir justo com ele, já você, parece que perdeu a cabeça depois que levou um chute da Maxine e está desesperada por um pau, não é?

Evelyn soltou uma risada, completamente incrédula pela garota ter tocado justo no assunto da ex-namorada dela. Começou a bater palmas, preparando-se para responder Júpiter com a dose de deboche certa que corria em suas veias, mas por sorte Marzena interviu, suspirando e passando a mão no rosto ao se aproximar de ambas.

— A relação está se quebrando agora, Júpiter. — disse Marzena, apontando para todas as garotas ao redor que estavam amedrontadas ou desconcertadas com toda aquela briga. — Gritar não ajuda em nada, muito menos discutir.

— Ao invés de estar discutindo comigo deveria se importar em perder alguns quilos, já já não entra nem na roupa de cheerleader, se é que vai entrar daqui a duas semanas. — olhou com desgosto para a barriga de Marz. — Fecha a boca para as porcarias que você anda comendo e as pernas também para a grande lista de garotos que disseram ter te comido.

Para Marzena, a chave entre estar bem naquele grupo e estar mal virou e se já estava cansada antes de receber aquele comentário, agora sua disposição havia esgotado completamente. Sempre teve noção de que sua alimentação era totalmente estranha e desregulada, mas até então as comidas que ela ingeria não preocupavam-a, não muito, ao menos. Marzena apenas forçou um sorriso, desejando do fundo da sua alma mandar Júpiter para o inferno, mas sempre se lembrava que a Morningstar iria morar lá mesmo.

— Júpiter, você não acha que está pegando pesado demais com ela? — Malcolm perguntou, aproximando-se da capitã ao ver que Marzena não estava nada bem com o comentário feito por Júpiter e tampouco as outras garotas, que começaram a se autoavaliar.

— Pegando pesado? Pelo contrário. — girou os calcanhares, encarando todas as outras garotas. — Em duas semanas todas essas vadias vão estar representando a nossa escola na partida contra a escolinha elitista da outra cidade, mas ao invés de treinar elas só querem saber de comer e de brigar por homem. Se nós perdemos para as cheerleaders mimadas da outra escola, eu juro que todas vocês vão direto para o inferno.  — ameaçou-às, indo para a sua posição na formação. — Voltem para o ensaio da base dupla. — ao ver que nenhuma das garotas tinham se movido um centímetro sequer, Júpiter retornou a gritar. — AGORA!

— Para ter direito de reclamar que um homem quebrou o nosso elo, deveria parar de chamar as garotas de “vadias”, está dando o direito para que eles também nos chamem assim. No final, quem quebra o nosso elo é você, não eles. — Evelyn a olhou de cima à baixo com desdém. — A sua hipocrisia é bem grande, não é?

— A loira falsificada quer me dar sugestões de como liderar, por acaso? — soltou uma risada, jogando as suas próprias madeixas loiras para trás e colocando as mãos na cintura. — Quando você for capitã a gente conversa, por enquanto volta para a sua posição e retorna a ensaiar porque você está longe de estar boa o suficiente.

— A forma como você precisa constantemente menosprezar as pessoas ao seu redor para se sentir bem só reforça toda a insegurança que você mesma tem, notou isso?

Conseguiu ver uma das suas colegas dando play na música, parte só para acatar a ordem de Júpiter e outra porque não queria sequer imaginar a briga que ocorreria se Eve e a Capitã começassem a se estapear ali.

Em pouco tempo todos tinham se posicionado conforme a coreografia feita por Júpiter para a apresentação que ocorreria em duas semanas. Não tinha dado sequer cinco minutos e Júpiter conseguiu ver através do espelho que estava na frente de todas que uma das garotas estava nervosa tentando segurar Marzena, no minuto seguinte só conseguiu escutar o barulho do corpo da Flyer batendo contra o chão.

— Se ela tiver quebrado alguma coisa, eu vou matar vocês.

Malcolm sem dúvida gostava daquela atividade, sempre foi uma pessoa que admirava muito pisar na cara do machismo quanto a homens fazerem atividades de mulheres e vice-versa, mas se tinha algo que irritava ele eram as brigas internas. Naquele momento estava acontecendo uma discussão para saber quem foi que danificou a flyer — como se Marzena fosse somente um objeto ali — enquanto Mack ajudava a garota a se recompor do tombo. E ele até poderia não gostar de todas as brigas, porém quem não era líder de torcida e presenciava tais cenas, aplaudiam por toda a gritaria e encaradas envolvidas e Arthur era uma das pessoas que fazia isso.

Do lado de fora da sala do Clube de Dança, ele e Arya dividiam um chocolate, tentando entender o porquê de toda a gritaria e fazendo breves comentários sobre a coreografia das líderes de torcida, alguns maldosos, outros muito bons. No momento em que Marzena caiu ambos fizeram uma careta, pensando em apostar se ela tinha quebrado algum osso, mas acharam que isso seria passar dos limites demais… e mesmo assim apostaram.

— Eu o admiro, sabe. — falou Arthur, sem tirar os olhos de Malcolm que dançava sem problema algum, segurando a Flyer em seguida. Sabendo que o silêncio de Arya significava que ela não entendeu suas palavras, ele completou. — O Malcolm.

— Ah, sim. Por qual motivo? — questionou, mordendo mais uma parte da sua barra de chocolate.

— Ele está fazendo algo que todos dizem que não é adequado para ele e faz isso sorrindo, precisa ter uma força gigante para ir contra a maré de padrões e preconceitos. Ele não tem medo de dançar, literalmente está fazendo algo que as pessoas julgam feminino demais para um garoto e sempre deixa parecer ser tudo tão… fácil. — suspirou, olhando para o outro lado do corredor.

— E não é?

— Óbvio que não. — respondeu rapidamente, olhando-a, incrédulo pela pergunta sem sentido da sua amiga.

— Até eu consigo rebolar para lá e pra cá, sabia? — questionou em tom brincalhão para animar Arthur, ele andava extremamente estranho há alguns dias e Arya só desejava ajudá-lo, nem mesmo Mildred conseguiu deixar ele sorridente.

— Não é isso. — forçou uma breve risada, sem saber como explicar o seu pensamento sem se expor demais. — Algumas pessoas não tem coragem o suficiente para enfrentar os malditos preconceitos da sociedade com tanta garra.

— Você parece saber bem disso.

— É. Talvez, sei lá. — pegou a barra de chocolate da mão dela, terminando de comê-la rapidamente e reunindo forças para fazer uma pergunta que desejava a um bom tempo, mas nunca achou o momento perfeito ou conseguiu juntar a coragem adequada.

Começou a andar, indo em direção às salas de aula e elaborando mentalmente a frase que deveria dizer, mas até Arya estava nervosa já que Arthur nunca ficava muito tempo calado, tampouco tão pensativo, então ele disse logo de uma vez para cortar todo o nervosismo de ambos:

— Stark, você quer conhecer meus pais? — Arthur perguntou, virando-se para a amiga esperando, ou melhor, suplicando, para que a resposta fosse sim.

Nem em seus melhores sonhos Arya imaginaria que Arthur pediria para que ela tirasse a roupa em um mês e no outro que conhecesse os seus pais.

— Você está bêbado? — perguntou, totalmente desconfiada com o seu pedido.

— Não, é que… — hesitou. Família para ele sempre foi um assunto extremamente delicado e Arya nunca tentou falar sobre seus familiares por saber, através de Frank, que Arthur era sensível quanto a esse assunto. — Os diretores querem que eu vá atrás do meu pai.

Arthur começou a olhar para os próprios tênis all-star rosa que combinavam com seu casaco costumeiro com a frase “Nas terças nós usamos rosa”, colocando as mãos no bolso do mesmo. Pensou, por um instante, que teria que trocar suas roupas ao visitar Constantine.

— Por que?

— Ele é meio que… um macumbeiro? — parou para pensar como refazer a própria frase e definir Constantine, corrigindo-se em seguida. — Não, imagine uma versão dos bruxos de Hogwarts, porém caçando demônios.

— E daí?

— Ele era um professor aqui, antes do incêndio, sabe? Nem para ter morrido queimado junto com os outros alunos ele serviu. — sua frase claramente foi digna de deixar Arya horrorizada pelo ódio que Arthur sentia por seu pai ao ponto de querer vê-lo morto. — Mas, de qualquer forma, os diretores querem a magia dele para ajudar em mais alguma merda que estão fazendo para “trazer aquele-que-não-deve-ser-nomeado de volta”.

Ficou pensando alguns instantes se deveria concordar em ir com o seu amigo só para garantir que Arthur não acabaria matando o próprio pai e também para descobrir mais sobre a família do rapaz, ou se só deveria recusar porque o Zatara já era louco demais sozinho, imagine como deveria ser o seu pai?

Arya estava pronta para recusar o pedido de Arthur, mas assim que olhou para ele ela pode perceber o quão perdido o garoto estava naquele momento só com seu olhar e com a sua feição desanimada. Talvez fosse uma ponta de tristeza que tinha percebido? Não sabia ao certo, mas seria uma péssima amiga se não aceitasse ir com ele.

— Tudo bem, eu vou.

Arthur queria pular de alegria ao escutar ela respondendo-lhe positivamente e começou a sorrir, cantando vitória baixinho, a cena foi digna dos risos de Arya, mas ela também impôs uma condição.

— Mas você vai ter que me dar chocolate por uma semana inteira. — disse, soando totalmente séria como se aquele acordo fosse de vida ou morte.

— Que abusada.

Foi somente isso que Arthur falou antes de escutar o toque da sirene da escola, suspirando ao lembrar que teria que visitar a psicóloga naquele horário, então despediu-se da sua amiga e foi direto para o covil da bruxa — como ele mesmo nomeou.

Passou por vários alunos que corriam com seus livros e mochilas para cima e para baixo, tentando não chegar atrasados na próxima aula, conseguiu ver Theodore e sorriu com o rosto familiar, mas toda a breve alegria que ele sentiu foi desmanchada ao perceber que o namorado do rapaz o acompanhava. Deveria ser castigo por todos os seus erros cometidos, mas Arthur nunca se sentiu tão mal em sua vida como se sentia no tempo em que Patrick estava no dormitório com Théo.

Arthur já não conseguia mais controlar as próprias crises e chegou ao ponto de precisar ir para a enfermaria toda vez que se descontrolava. Desejava nunca ter ido àquele maldito torneio de natação cinco anos atrás porque agora, mesmo que tentasse se dar bem com o namorado de Theodore, as lembranças do que ele lhe fez simplesmente não saiam da sua cabeça e isso causava tanto desconforto em si que Arthur já não falava mais com Théo, ignorava ele e até tinha começado a cogitar trocar de quarto.

Algumas cicatrizes são tão profundas que o tempo só as faz doer mais, Arthur estava ciente disso agora. Culpou-se momentaneamente por ter se apaixonado pela pessoa errada, por tentar ter sido correspondido, por ter se assumido e principalmente, por não ter conseguido defender a si mesmo quando…

— EITA PORRA!

Seus pensamentos foram tirados de si quando ele passou pela sala de combate e escutou várias pessoas gritando lá dentro, eufóricas com alguma coisa que estava acontecendo. Decidiu que não iria sequer ver o que os loucos do terceiro ano estavam fazendo na sala, não estava nada animado nem mesmo para ver algum idiota apanhar e desejou também nunca participar de uma aula de combate com a Mulher-Gato ou sairia totalmente quebrado.

Talvez, naquele instante ele estivesse perdendo a cena mais épica do mundo naquela semana.

Brigas na Legacy eram comuns, objetos eram quebrados, ossos, até mesmo corações, mas ninguém nunca imaginou que em menos de cinco minutos veriam uma reputação ser quebrada diante de seus olhos, e até agradeceram por estarem presenciando tal feito.

Sem dúvidas, a Mulher-Gato era uma professora admirável para todos os alunos naquela escola, e se não era antes, agora havia passado a ser porque foi graças ao teste de revisão dela, que exigiria lutas entre seus alunos para ver seus desempenhos e progresso no combate, que todos tiveram o privilégio de ver o quarterback do time de futebol americano levar uma surra do prodígio da Legacy.

Todos ainda queriam saber como a luta tinha chegado naquele ponto “vou tentar não te machucar, princesa”, mas sabiam muito bem que Kai tinha a péssima mania de não controlar a língua mesmo em frente à uma oponente formidável como a própria Lucy, “jura?” o sorriso debochado dela durante todo o pequeno diálogo que eles tiveram era digno de ser meme — e Natasha garantiu que se tornaria um meme horas depois com a hashtag “#SóNaLegacy” —, ela não sabia onde seu oponente enfiou a noção e o senso “cuidado para não se machucar, gatinha”, sem dúvidas, seu maior erro foi ter subestimado ela.

Eles gostariam de ter gravado a luta no início, quando Kai começou a chamar Lucy de “princesa”, “gatinha” e “linda”, sorrindo para os seus amigos quando a viu sorrir, só soube que o seu sorriso não era um sinal bom quando ela, inesperadamente, se aproximou dele, levantando a sua perna e acertando-o em cheio na barriga com o seu joelho, sorrindo inocentemente em seguida. Não deu tempo para ele se recuperar. Kai só fez cambalear um pouco para trás, com a mão na barriga, e a garota já aproveitou a chance segurando a cabeça dele e novamente acertou o joelho com força em seu rosto.

Se afastou de Kai, escutando as pessoas fazendo sons de “uh” ou “ah” ao ver o estado dele.

— Se machucou, lindo? — colocou a mão na boca, simulando estar apavorada ao vê-lo sangrar. — Ops. 

Kai passou a mão em seu rosto ao sentir gotas de sangue saindo do seu nariz. Sorriu, no entanto, não mostraria fraqueza naquela luta e talvez errou ao subestimá-la. Lucy fingiu se aproximar dele para golpeá-lo novamente e Kai recuou na hora, fazendo com que ela e todos presentes soltasse uma risada.

— O gatinho se assustou? — questionou, colocando a mão em cima do peito e fingindo estar comovida com a cena.

— Ha-ha-ha. — forçou uma risada, se preparando para revidar o golpe dela. — Não vou pegar leve desta vez, princesa.

E, dito isso, aproximou-se rapidamente de Lucy, tentando golpear seu rosto em vão pois os bons reflexos dela fizeram com que conseguisse desviar a tempo, segurando o pulso do rapaz e usando o peso do seu corpo para girar, colocar as pernas em volta do pescoço dele e girar no ar, o fazendo cair no chão.

Kai sentiu o ar faltando em seus pulmões. Lucy apertava a perna em torno do pescoço dele com força e segurava seu braço ao mesmo tempo, impossibilitando-o de ter movimentos e de respirar.

Para Kai a sala em que estavam parecia estar girando. Sua cabeça estava tão pesada que parecia que todo o mar do mundo estava dentro dela, revirando, mexendo. Aos poucos, ele já não conseguia escutar muita coisa. E então respirou. Respirou com todo o ar possível em seus pulmões, tossindo várias vezes antes de seus sentidos voltarem a funcionar bem.

Kai olhou ao redor e conseguiu ver celulares apontados para ele, risos e aplausos ecoando por toda a sala. Tudo parecia estar impulsionando-o a explodir ali mesmo. Olhou para o seu lado, vendo a sua oponente em pé com o maior sorriso do mundo.

Não escutou o comentário da professora sobre o seu desempenho, tampouco as críticas. Escutou o sinal que anunciava o final da aula, indo direção à sua mochila e a pegando. Saiu da sala tão rápido quanto entrou e seguiu andando para longe daquele local.

Como se não bastasse ter perdido em menos de cinco minutos, perdera para uma garota que parecia uma boneca de porcelana comparada à ele. Como pôde ser tão burro e baixar a guarda?

Martirizava-se a todo o instante, descendo as escadas com rapidez e ignorando todos os amigos que paravam para cumprimentá-lo, estranhando sua ação. Empurrou Theodore para o lado quando o garoto veio animado para ele, falando sem parar, sua cabeça simplesmente iria explodir e Kai não aguentava a voz do Al Ghul, não naquele momento.

Escutou Théo reclamar de sua ação e logo desceu as escadas, sendo parado somente ao ver Nicholas no final da escadaria, encarando-o com seu típico e irritante sorriso cínico, olhando para a tela do próprio celular ao subir as escadas devagar, rindo brevemente de algo que estava vendo.

Kai decidiu passar por ele sem nenhum conflito. Ele queria ter feito isso. Ele desejou ter feito isso. Mas não fez. No momento em que Nicholas passou ao seu lado segurando o celular, ele escutou parte de uma frase dita por ele minutos antes: “Não vou pegar leve dessa vez, princesa”.

Sua próxima ação provavelmente foi impulsiva, tomada em uma hora de pura raiva pelo seu desempenho na aula e por estar sendo ridicularizado por perder para uma garota.

Segurou o braço de Nicholas com uma mão, o forçando a virar para trás. Conseguiu ver o celular dele cair no chão quando lhe puxou o braço, escutou Nick soltar um palavrão e estava prestes a reclamar da ação, contudo Kai foi mais rápido. Levantou o punho e o levou em direção ao rosto do Hardy, socando-o e fazendo com que Nicholas caísse na escadaria, sem entender o que estava acontecendo.

— Mas que merda foi essa?! — gritou, quando finalmente percebeu tudo que tinha acontecido ali, passando a mão pelo lábio que sangrava.

Kai virou-se, passando a mão pelo cabelo, totalmente nervoso e irritado com tudo. Sentia vontade de socar sem parar a parede ou qualquer um que estivesse em sua frente e Nick percebeu isso.

— Ficou louco depois de ter apanhado da Lucy, por acaso? — questionou o Hardy, sentando na escada e secando o sangue que escorria do seu lábio.

— Cala a boca, gosma preta! — gritou, realmente socando a parede e fazendo com que o único pensando de Nicholas fosse “mas que porra está acontecendo aqui?”.

— Não foi ele que falou. — disse, irritando-se por Kai ter chamado seu simbionte de gosma preta, era um privilégio que apenas Nick tinha. — Mas se fosse ele, por acaso ele está errado? Você realmente enlouqueceu depois de alguns chutes na bunda, e alguns de forma literal.

Kai descontrolou-se, indo para cima do merdinha que tinha a coragem de continuar alfinetando-o. Primeiro de manhã, e agora na escada? Já era demais para o Thurman. Segurou Nicholas pela gola da camisa, socando o seu rosto diversas vezes, causando ferimentos em Nick.

Quando decidiu parar, sua respiração estava desregulada, olhou para o seu oponente e viu o maldito sorriso cínico dele estampado em sua face.

Nicholas tinha que admitir, Kai era forte com os socos, mas ele não tinha um simbionte. E foi exatamente graças à ter um simbionte que Nicholas regenerou-se rapidamente, o único dano real foi à sua roupa que estava suja de sangue.

Ao vê-lo completamente bem e debochando com o sorriso, Kai levantou o punho, pronto para bater Nicholas novamente se não fosse pelo seu oponente ter chutado-o na barriga, fazendo Kai cair das escadas.

Nick levantou, arrumando a própria roupa e soltou um suspiro sôfrego ao ver o seu celular quebrado perto de Kai no final das escadas. Foi até ele, subindo em cima de Kai e deferindo diversos socos em seu rosto, enquanto Kai apalpava o chão atrás de algum material que pudesse usar para se transformar.

Quando tocou algo metálico que julgou ser o celular quebrado de Nick, a sua pele inteira transformou-se em um mineral forte e resistente, ele já não sentia mais os ataques de Nicholas e foi por isso que inverteu as posições, ficando por cima do Hardy-Price e deferindo diversos socos em seu rosto.

Por outro lado, Nick deixou com que Maniac tomasse o controle da situação. A habilidade de força sobre-humana do simbionte foi realmente admirável quando ele segurou o punho metálico de Kai, torceu-o da forma que quis, soltando uma risada ao fazer Kai sair de cima de si e ficar no chão. Se aproximou dele, segurando o corpo de Kai e jogando-o contra a parede. Com certeza fez um grande barulho e as pessoas que estavam perto já iam ver o que estava acontecendo.

Kai não se destransformou, pelo contrário, achou outro objeto e mudou novamente a sua forma, passando a ser algo que julgou ser um pouco mais resistente. Levantou e correu em direção a Maniac, indo de encontro á parede devido aos reflexos perfeitos do simbionte.

Enquanto ele soltava uma risada do estado de Kai, preparando-se para atacá-lo novamente, o professor de educação física interviu a briga, entrando no meio dos dois.

— O QUE PORRA VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! FICARAM LOUCOS? — questionou Eddie Brock, mais conhecido como Venom. — Coloca o moleque no controle de volta. — mandou, olhando para o corpo do simbionte.

— Eu vou quebrar tu na porrada na próxima, seu merda filho da puta surtado. — xingou o simbionte, totalmente desgostoso quanto a deixar Nicholas voltar ao controle do seu corpo, mas mesmo assim acatando o pedido.

— Você. — olhou para Kai caído perto da parede irritado. — Enfermaria. Agora. — Ao ver que o garoto não tinha mexido um músculo sequer, só tinha continuado a fitar o Hardy-Price com raiva. — VOCÊ ‘TÁ SURDO, SEU MERDA?! EU FALEI PARA IR AGORA.

Só bastou esse grito para que Kai levantasse, pegasse sua mochila que havia caído em meio ao combate e passado por Nicholas, sem não antes esbarrar com ele propositalmente, causando uma risada em Nick.

— Diretoria, agora. — Eddie novamente falou, apontando para Nick. Depois virou-se para o topo da escada onde diversos estudantes encontravam-se. — VÃO ESTUDAR VOCÊS TAMBÉM. Cadê o Flash Reverso nessas horas?!

Nicholas foi acompanhado até a diretoria, onde explicou toda a situação detalhadamente para o diretor, sem medo algum de omitir cada fato que aconteceu, desde ele estar subindo às escadas até o momento em que foi agredido por Kai e só revidou.

Contudo, mesmo sendo totalmente sincero quanto aos fatos e com certeza fazendo o diretor acreditar em sua palavra, Lex explicou que soaria mal para a escola perder o quarterback por uma simples briga tola justamente quando faltava apenas duas semanas para o jogo de futebol americano contra a escola inimiga.

E como se aquela situação não estivesse mais ridícula e injusta, Kai não recebeu advertência, observações na ficha nem nada do tipo, enquanto Nicholas seria expulso da Legacy Of The Devil permanentemente somente por causa da briga. Mas não foi. Graças à sua incrível lábia e aos esforços do professor Eddie Brock, saiu da sala dos diretores apenas com uma suspensão de duas semanas, perderia os jogos e as provas e tudo isso porque Lex disse que ele não era confiável o suficiente para sair daquela sala com a informação de que limparam a ficha de Kai somente para o próprio bem da escola.

Estava tudo indo perfeitamente bem agora.

Saiu irritado do lugar, simplesmente odiava injustiças como aquela, mas se orgulhou da lábia capaz de convencer até mesmo Lex Luthor. Estava decidido a só ir para o seu dormitório tomar um banho e tentar relaxar, mas Eddie tinha outra idéia, o parou no meio do caminho, querendo conversar com ele.

— Você está bem? — e o prêmio de pergunta mais estúpida do mundo vai para Eddie Brock.

— Claro, estou bem depois de ter sido suspenso injustamente por aparentemente “ser inconfiável”. — disse ironicamente, retirando a mão de Eddie do seu ombro. — Vem cá, por que você me ajudou lá dentro?

— Porque nós somos como uma família, entendeu? Precisamos nos ajudar.

— Família por ligação simbionte, só se for isso não é? — revirou os olhos, escutando Eddie soltar uma risada com a frase.

— Precisamos nos ajudar pelos simbiontes, algo assim.

— Ele não precisa de ajuda, nem eu. — Maniac se pronunciou, irritadíssimo por sua briga, seu momento de brilhar e de dar uma surra em Kai, ter sido atrapalhado pelo professor. — Se tu tivesse deixado eu tinha estrangulado aquele pedaço de carne radioativo, era isso que ele merecia.

— E ‘tá errado? — perguntou Nick para o seu simbionte.

— Todo mundo precisa de alguma proteção, garoto.

— Não o meu filho. — uma mulher disse atrás de Nicholas, fazendo-o virar e dar de cara com a sua mãe atrás de si. — Eu criei ele bem.

— Mãe? O que você está fazendo aqui? — questionou, aproximando-se da sua mãe ao vê-la ali mesmo, em carne e osso, abraçando-a brevemente.

— Eu vim dar aula, e dar uma surra em quem te fez isso. — apontou para o sangue no rosto e roupas dele, totalmente curiosa para saber a bunda de quem teria que chutar durante a aula de combate. — Fui contratada como nova professora de combate.

Felícia não agradeceu à Eddie nem nada do tipo, só colocou o braço nos ombros do seu filho e andou com ele para longe, fazendo várias perguntas sobre a suposta briga na qual Nick se meteu e jurando por todos os maravilhosos clientes que eles tinham que aquela história não acabou por ali.

E bem que Nicholas queria que tivesse acabado já que no resto do dia não se falava outra coisa a não ser de uma suposta briga onde Nick perdeu. Como se Nicholas tivesse perdido para o babaca que o atacou. Kai Morgan Thurman definitivamente estava fodido com ele após aquele dia, e sua moral não poderia estar mais baixa.

Embora aquela semana tivesse sido péssima para alguns alunos como Nicholas, para outros o final de semana parecia ser uma salvação no final do túnel. Os finais de semana eram a única chance de sair dos confinamentos da escola — conhecida também como chernobyl para os íntimos — e se divertir em alguma festa, torcendo para não ser assaltado repentinamente, ou para que assaltassem alguém — era cômico para alguns quando eles assaltavam uns aos outros sem perceber que a vítima e o criminoso faziam parte da Legacy, proporcionando belas risadas depois.

Dentre tantos que estavam indo a festas, fazendo atividades em seus clubes, saindo para visitar suas famílias e estudando para as provas, Mildred estava sentada em sua cama no dormitório, pensando seriamente onde tinha errado para não estar indo para a sua casa juntamente à Arthur naquele dia, para assistir séries com seu melhor-l amigo e acariciar a sua cobra de estimação.

Talvez fosse pelo fato de que Arthur não estava presente naquela semana, segundo ele, tinha ido visitar o seu pai em uma missão importantíssima que com certeza não envolvia chutar a bunda de Constantine. Ou só pelo fato da irmã de Brandon ter sido extremamente agradável com o convite para ver a peça dela que Meera aceitou sair com Bran e sua irmã mais nova.

Deveria pagar todos os seus pecados — e eram muitos, diga-se de passagem — naquela noite, já não suportava Brandon normalmente, quem dirá saindo com ele?

Mas Meera não poderia ter recusado o pedido da irmã dele. Na semana anterior (trocar pelo nome da menina) tinha sido levada à Legacy por Lex Luthor, ela estava levemente doente e queria passar um tempo com Brandon — Lex advertiu-o que não poderia sair da escola sem antes acabar suas atividades, então ele não poderia ir até ela, pedindo para que trouxessem-a até ele —, sem Heidi para cuidar da garotinha Lena estava um pouco perdida.

Brandon estava discutindo com Mildred por ela aparentemente ter esbarrado nele, ambos estavam em uma briga seríssima com direito a xingamentos em outros idiomas e empurrões, mas tudo isso acabou quando Lara finalmente o achou na escola e foi até ele.

Meera poderia estar louca talvez, mas assim que a garota apareceu no corredor foi como se o mal-humor e arrogância de Brandon tivessem desmanchado-se subitamente. Ele parou de brigar com Mildred e até mesmo a ignorou só para dar atenção à irmã e na opinião mais sincera da garota, Lara era um docinho comparada ao hurensohn* do irmão mais velho dela.

Enquanto era ignorada, Lara acabou por perceber ela no local, havia visto toda a cena e não gostou de ver seu irmão brigando com uma garota tão bonita — tinha que admitir, ele precisava de uma namorada e ela de uma nova amiga —, a menininha se desculpou pelo irmão, que ficou incrédulo atrás dela tentando descobrir porque ele tinha que pedir desculpas para um ser tão inferior como Mildred — e ele fazia questão de dizer isso em voz alta.

Lara acabou elogiando a cor platinada das mechas do cabelo de Meera e convidando-a para ver ela em sua apresentação no teatro naquela semana, assim Brandon poderia pedir desculpas da maneira certa se ela conseguisse o convencer ao decorrer da semana, Meera sequer conseguiu tratá-la de má forma e apenas concordou com o convite, parecendo um tanto alegre em ter visto a cara de irritação de Brandon pela resposta dela.

E assim Mildred estava em seu quarto, olhando o horário do celular parecer passar cada vez mais devagar. Ela poderia conseguir muitas informações sobre Brandon, ele a irritava de uma forma peculiar, somente a sua existência já era motivo de incômodo da parte dela, e Meera nunca que perderia uma chance de descobrir o que tem por trás da faceta de bad boy que ele sustentava.

Sentia raiva somente de pensar nele, como ele ousava a desafiar constantemente e olhar como se ela fosse inferior a ele? Brandon definitivamente era uma praga, e naquela noite seria Meera a provocar ele e alfinetar, afinal, perto de Lara ele ficava inofensivo.

Mildred sentiu seu celular vibrar ao seu lado, virando-se de bruços na cama e abrindo a notificação, era mais uma mensagem de Brandon:

“[06:28] Hurensohn*: Desce logo caralho, mais dois minutos e eu te deixo ir à pé.”

— Tão delicado. — disse para si mesma em tom irônico, mordendo o seu lábio inferior para evitar de rir do nome do contato que ela salvou para ele.

Levantou da cama, pegando um de seus remédios que a ajudavam a controlar a bipolaridade, tomando-o junto com um copo de água que tinha deixado na escrivaninha. Suspirou, guardou o celular na bolsa e desceu as escadas do dormitório, indo para o estacionamento da escola, onde Brandon estava.

Encostado em sua moto, ele parecia irritado enquanto digitava rapidamente para alguém. Novamente, ela sentiu seu celular vibrar, tirando-o da sua bolsa e vendo mais uma mensagem dele:

“[06:34] Hurensohn: Indo embora.”

Ela conteve uma risada ao olhar ele ainda parado em frente à moto, imóvel. Ele tinha mesmo recorrido para um blefe? Era patético.

— Não, você não está indo embora. — disse, levantando o celular quando ele lhe encarou irritado.

— Vem logo, garota

— Para alguém que ficou esperando quinze minutos só por uma “garota” você a trata muito mal. — alfinetou-o, pegando o capacete em da mão dele e o colocando.

— Eu poderia ter ido embora.

Bufou, pegando o segundo capacete e colocando em si mesmo ao subir na moto, encarando-a ainda em pé no estacionamento. Aquela garota acabaria sendo o motivo da sua internação em um manicômio por deixá-lo tão louco de raiva. — Você vai ficar mesmo parada aí?!

— Talvez. — respondeu, subindo na moto do garoto antes que ele retornasse a falar mais alguma merda como de costume. — E você não foi embora porque não quis.

Brandon ficou alguns instantes calado, nunca foi de gostar de enrolações, se quisesse, responderia qualquer pergunta embora não precisasse dar respostas à meros mortais como Meera.

Deu partida na moto, olhando minimamente para trás quando Mildred colocou as mãos em torno da sua cintura, sabendo que o garoto provavelmente não se importaria se ela caísse no meio do percurso devido à alta velocidade com que ele dirigia.

— Eu poderia. — decidiu respondê-la. — Mas Lara não gostaria se eu não levasse você comigo, então fica quietinha e aproveita a minha boa vontade, garota.

Mildred gostaria de ter soltado uma boa risada ao ver a desculpa que ele usou. Durante o caminho até a escola de Lara, ficou se questionando sobre seu estado mental para ter aceitado ir a uma escola cheia de crianças birrentas e barulhentas. Ao menos irritaria não somente a ela, como a Brandon, coisa que ela presenciou algum tempo depois que chegaram quando eles sentaram em uma das fileiras e os outros pais e convidados com suas crianças começaram a chegar.

Brandon parecia estar a um passo de surtar e sair dali quando uma das crianças sentou-se ao lado dele, passando a mão suja de algum doce na sua jaqueta de couro. Normalmente ele simplesmente amava criança, mas mexer com uma coisa tão preciosa quanto sua jaqueta estava fora dos limites.

Mildred pensou que o veria lançar um dos seus típicos olhares amedrontadores para o pirralho que sujou-o, mas pelo contrário,  Brandon só saiu sem aviso nenhum e ela presumiu que ele estivesse indo limpar a jaqueta.

Gostaria de ter conseguido barganhar cinco dólares para a criança repetir a ação, mas Lara acabou por ver Meera dentre a plateia e foi ao encontro da garota antes que a peça teatral começasse.

— Você viu o meu irmão? — questionou, sentando-se na cadeira que antes era ocupada por Brandon. Precisou fazer um esforço já que a fantasia, que Meera não conseguiu julgar do que era, atrapalhou-a um pouco.

— Ele foi ao banheiro.

— Entendi. — respondeu Lara, passando a mão pelo cabelo loiro e o arrumando. — Ele é legal, sabia?

— Uh?

— Meu irmão. Ele é legal. — repetiu, sorrindo para a garota. — Ele tem cara de malvado mas tem o coração de, amm, deixa eu pensar… Já sei! De uma princesa da disney. 

Mildred soltou uma risada pela comparação de Lara e, pensando bem, seria ótimo ver Brandon com um vestido de princesa.

— É sério! Tipo, semana passada a gente precisou tomar uma vacina do Lex, e ele parecia um bebezão de tão medroso quando viu a injeção. Quero dizer, eu também fiquei com medo, mas um homem daquele tamanho? — ela cruzou os braços, balançando a cabeça negativamente e rindo depois, sendo acompanhado por Mildred, que imaginou perfeitamente a cena de Bran com medo de uma simples injeção, homens… — Ele é bonzinho, eu juro. Eu sempre falo que ele precisa parar de ficar tanto tempo jogando videogames. Quero dizer, eu amo meu irmão e amo quando ele vem no meu quarto a qualquer momento para ver filmes da disney comigo, mas ele deveria ter mais alguém. Eu fiquei feliz quando você veio. A propósito, meu nome é Lara, e o seu?

— Ela não tem nome. — respondeu Brandon, que tinha chegado recentemente e não quis interromper a sua irmã, tampouco Meera quis pois as feições indignadas que ele fazia a cada frase da irmã menor estavam sendo cômicas.

Lara assustou-se com Brandon, colocando a mão sob o peito e virando rapidamente para ele.

— Você não pode matar a protagonista da peça! Eu quase morri de susto aqui! — disse, fechando os olhos e respirando fundo. — E todo mundo tem um nome ué.

— Você não deveria estar ensaiando ao invés de contar sobre a minha vida, senhorita?

— Eu não tenho culpa se você precisa de mim para socializar. — ela cruzou os braços, a discussão entre os dois estava sendo divertida para Meera. — Você não concorda que ele deveria socializar mais?

Lara virou-se rapidamente para Mildred, a encarando esperançosa por um apoio ali e como Meera poderia recusar? As íris azuis claras da garotinha convenciam qualquer um.

— Concordo plenamente.

— Você não tem o que concordar, caralho.

— Ei! — repreendeu Lara, colocando as mãos nos ouvidos. — Mais cinco dólares para o pote de palavrões.

— Você quer me falir, por acaso?

— Eu vou aumentar para seis dólares. — disse, mostrando seis dedos. Escutou chamarem seu nome e rapidamente levantou do assento, dando somente um “tchauzinho” antes de correr.

Brandon desejou-lhe boa sorte enquanto a olhava sair correndo e então sentou ao lado de Meera com pressa.

— O que ela falou? Desembucha.

— Nada demais. — fisse, dando os ombros e revirando os olhos com a pergunta dele.

— Porra, quem você pensa que é? Seja direta.

— Mais cinco dólares para o pote de palavrões. — repetiu em tom debochado e ao olhar para ele, Brandon estava a um passo de explodir ali mesmo. — Ops, é seis agora não é?

— Sua filha da p…

Meera o interrompeu, colocando o dedo indicador no lábio dele.

— Se eu fosse você, não falava mais nenhum palavrão ou realmente vai falir, garoto.

Brandon irritou-se mais ainda, segurando o seu pulso e tirando a mão dela de perto do rosto.

— Você deve estar amando essa merda.

— A peça? Irei amar. A sua companhia? Nem fodendo. Alfinetar você? Isso sim eu estou amando, die*.

Ela soltou uma risada, cruzando os braços e procurando uma posição mais confortável no assento, olhando de relance e vendo um Brandon irritadíssimo ao seu lado. As luzes se apagaram e a do palco acendeu, dando vista somente para a peça que estava prestes a começar. Meera esticou-se um pouco e respondeu a pergunta feita por Bran.

— Ela disse que você é bonzinho, mesmo tendo cara de malvado tem o coração de uma linda e frágil princesa. — teve a certeza de que se não estivessem acompanhados por diversos pais e crianças, Brandon teria soltado um palavrão sem medo algum pela cara que ele fez. — Deveria sair dos jogos e socializar.

Para o desprazer de Brandon, que estava pronto para revidar cada alfinetada que Meera lhe deu, aproveitando que sua irmã não estava ali, a peça começou e Lara logo apareceu juntamente a outras crianças, mas todos perceberam que a pequena mesmo tendo somente dez anos encantava a plateia inteira e era o foco.

Depois de algumas horas assistindo à peça, vários momentos de risadas e alfinetadas de Meera e Brandon, o show acabou, todos se despediram e foram se trocar para sair. Lara parecia animada com tudo, não parava de falar sobre os momentos em que ela teve que improvisar ou sobre cenas em que ela participou. Dava pulinhos de alegria enquanto eles caminhavam pela calçada até o estacionamento, com Lara segurando a mão dos dois, totalmente eufórica.

Para a infelicidade de todos, Lex havia mandado um carro para pegar Lara e a levar para casa então a garota precisou ir sem eles, conversando um pouco com o motorista antes de voltar para Mildred, com as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Como ela pode ser um doce e você um monstrinho? — questionou Mildred baixo o suficiente para que apenas Brandon a escutasse, passando as mãos nos braços em uma tentativa de se aquecer.

Brandon ficou ao lado dela, vendo o carro que levaria Lara dar partida e ir embora rapidamente.

— Me pergunto a mesma coisa.

Mildred olhou para ele com desconfiança, esperaria outra alfinetada, mas ele não fez isso.

— Ela roubou a cena na peça. — elogiou Lara depois de um tempo em silêncio com Brandon, colocando uma das suas madeixas curtas atrás da orelha.

— A minha irmã é uma verdadeira estrela, está no sangue.

— Você é uma estrela bem apagada então.

— E você é um planeta anão. — Brandon a olhou de cima a baixo, tentando dar a entender que eles tinham quase dez centímetros de diferença e não soube se tinha a irritado, na verdade, ele nunca conseguia saber isso devido à expressão sempre serena e controlada de Meera e isso o irritava, de certa forma.

— Isso é tudo que você tinha? Sério? Você pode até tentar, mas não vai conseguir me irritar, pirralho.

— “Pirralho”?! Você é impossível. — Brandon mordeu o lábio inferior, notando que Meera estava em uma tentativa falha de se esquentar há algum tempo e retirando a própria jaqueta. — Pega, não quero ser acusado de te matar se você morrer aí.

— Então era verdade. — disse, pegando a jaqueta da mão dele com desconfiança e vestindo-a, surpreendendo-se no quão bem havia ficado com a peça de roupa e no fato de que realmente se sentia mais aquecida.

— O que?

— Que você tinha o coração de uma princesa da Disney.

Brandon parecia estar a um ponto de usar a visão de raio laser em Mildred pela cara de raiva que ele fez, aquela garota não conseguia nem aproveitar do bom humor dele?!

Fick dich*. — respondeu-a, mostrando o dedo do meio.

— Que feio. Essa não é uma ação de uma princesa. Os estúdios Walt Disney vão te demitir se continuar assim. — o sarcasmo em sua voz era evidente. — E ainda rouba meu vocabulário. Você por acaso sabe o que isso significa?

— Claro que eu sei. Tive que descobrir o que significavam as palavras que você dizia, não posso ser xingado sem nem saber do que estou sendo xingado. — revirou os olhos, surpreso com a maturidade de Meera. — Se me chamar de princesa novamente vai ficar cinco centímetros mais baixa, e então vou ter que te chamar de smurf.

— Primeiro, você disse “me foda”. — mentiu, vendo a cara de surpresa de Brandon ao notar que a sua pesquisa estava errada. — E segundo, eu nunca vou parar de te chamar de princesa depois partir de hoje, agora seja bonzinho e pare de falar para me levar para casa logo.

— Abusada. — resmungou, entregando o capacete para ela.

Mildred definitivamente não esperava que a noite tivesse sido tão agradável, talvez pela presença de Lara na maior parte do tempo ela conseguiu ver um lado menos frio — embora continue desagradável — de Brandon, e também deixou-se levar pela alegria e otimismo da garota para não ser sequer cinquenta por cento debochada, sarcástica e fria.

Em resumo, ter aceitado aquele convite não foi totalmente ruim.

Quando Bradon deixou-a em casa sequer se despediu, só foi embora sem mais nem menos, esboçando irritação no olhar. Mildred suspirou, murmurando um “e voltou a ser babaca” antes de pegar as chaves de casa e entrar em sua residência.

Ao contrário dela que tinha aproveitado bastante cada segundo para alfinetar Brandon e se divertir com a raiva dele, horas antes alguém que também estava pronta para sair em um encontro — se é que Meera pode chamar a sua noite de encontro — não estava nada preparada, na verdade, Circe Le Fay surtava em seu quarto, as horas passavam em um piscar de olhos e faltava pouco tempo para ela encontrar o seu melhor amigo virtual. Muito pouco tempo. Deveria ter se arrumado antes, deveria ter se preparado mais…

Se amaldiçoava no momento em que decidiu, dois dias antes, abrir as mensagens de Mike. Seu coração simplesmente partiu quando ela leu suas mensagens preocupadas, escutou os áudios surtando pelo sumiço da garota e também uma pergunta vinda de Mike “você está em Basin City?” seguida de uma foto onde Circe estava no fundo, com Bea mais a frente tirando uma selfie com alguma alguma amiga loira.

O choro pareceu vir de imediato, ela estava nervosa, surtando, sem saber como responder, nunca quis se machucar daquela forma nem machucar Mike ou até mesmo à Bea — que também questionou-a sobre a foto —, mas o fato é que ela não desejava mais mentir para os seus amigos, lotar eles de mais mentiras sobre sua vida.

Aquilo não era saudável, não era uma boa amizade. Enquanto eles sempre foram sinceros, ela só sabia mentir sobre si mesma, e mesmo assim estava no chão do seu quarto, chorando por só querer um abraço de Mikael ou de Beatrice ali.

Queria vê-los. Precisava ver eles.

E foi com esse pensamento e horas refletindo que ela decidiu mentir novamente, dizendo que a sua mãe arrumou um emprego como diretora de uma escola local e que elas tinham se mudado a pouco tempo então Circe foi para aquela festa somente para socializar com os alunos da escola na qual Morgana seria diretora. 

A mentira caiu bem. Mikael ficou feliz principalmente por ter recebido uma mensagem de Circe, e foi aí que ele combinou de se encontrar com ela no final de semana quando estava livre da própria escola e poderia pegar um trem para ir até Basin City.

Agora, Circe olhava para a própria roupa diversas vezes, olhava o celular, andava de um lado para o outro e falava sozinha em seu dormitório. Até mesmo Kai foi fazer uma visita a ela para dar conselhos e ultimatos sobre toques indecentes com Mike.

Circe escutava seu amigo falando diversas vezes a palavra “encontro”. Já estava nervosa pensando que seria uma reunião casual com seu amigo, quem dirá agora que a idéia de encontro foi colocada em sua cabeça?

— Não é um encontro. — repetia Circe para Kai, acariciando Adam em sua cama como forma de se distrair.

— Mas ele te chamou para sair... — Kai disse novamente, divertindo-se com todo o nervosismo e ansiedade de sua melhor amiga em seu primeiro encontro.

— Depois que descobriu que eu estava em Basin City por causa de uma foto. — falou ao mesmo tempo que ele, acariciando ainda mais Adam.

— Você se arrumou toda. — a olhou de cima a baixo, cruzando os braços.

— Eu sempre me arrumo para sair da escola.

— Você está nervosa só para sair da escola então? — dessa vez Kai não conteve a risada.

— Você também estaria se fosse a primeira vez que vê a sua paixão virtual, paixão essa que inclusive já até seguiu em frente.

Circe acariciava sem parar o pelo de Adam, que estava em seu colo a olhando com desaprovação pela certa brutalidade em seus toques.

— A senhorita apaixonadinha quer me soltar por obséquio? — perguntou Adam ainda no colo de Circe, e só então ela percebeu que estava o segurando com força demais. — Um gato deve receber carinho com calma.

Circe murmurou um pedido de desculpas, soltando o felino na cama e vendo-o sair irritadíssimo até a própria cama, deitando virado de costas para ela. Teria que pedir desculpas para o seu gato, cuja personalidade era extremamente peculiar, mas agora, olhando para o seu celular, ela percebeu que não teria tempo para fazer nada. Já era cinco horas. Não tinha mais tempo para conversar, tinha que ir andando ao encontro de Mike.

Seu estômago parecia ter revirado tanto que pensou estar com uma montanha russa dentro de si. Seu nervosismo era aparente, ela começou a respirar fundo várias vezes em uma forma de acalmar-se, olhou mais uma vez no espelho para ver se a sua roupa estava boa — talvez devesse trocar, mas os tons pretos lhe caíram tão bem…

— Bebeth! — berrou Kai, revirando os olhos e indo até ela. Não conseguia entender como um simples nerd babaca conseguiu fazer uma feiticeira tão poderosa ficar nervosa com uma simples mensagem marcando um encontro. Teria que conhecê-lo depois, talvez ainda naquele dia, mas, como um bom amigo, só precisava dar apoio a ela.

Pegou o celular da mão da amiga e a bolsa dela na cama, guardando-o lá dentro e entregando para Circe. Beijou a bochecha dela e praticamente a arrastou até fora do quarto, passando pelos corredores apressadamente antes que ela fosse desistir da idéia.

— Kai, espera. Eu acho que esqueci a chave do…

— Seu dormitório? Está na bolsa, eu verifiquei. — disse, interrompendo-a. Circe Elizabeth Le Fay não iria amarelar por causa de um garoto, o que diabos estava acontecendo no mundo para ter chegado a esse nível?

— Mas e se…

Circe tentava dar várias desculpas para não ir àquele encontro, não sabia se o pior era encontrar ele e ter que encarar o amor da sua vida que já tinha seguido em frente, ou se era ficar em casa sabendo que ele estaria esperando-a.

— Não existe “e se” no seu vocabulário. Não essa noite.

Kai abriu a porta do prédio do dormitório, ainda segurando a mão da amiga e passando por diversos estudantes. Circe o admirava, de certa forma, Kai andava com tanta segurança e confiança que todos saiam do seu caminho enquanto eles passavam.

Ela desejava ter aquela segurança também, mas sempre soube que isso era impossível, pois, embora tivesse breves momentos de pura confiança em si mesma, no final do dia ela era apenas Circe, a garota que é manipulada por uma típica garota malvada dos filmes americanos, aquela que só usa preto, que é péssima em combate e nunca soube como se defender da própria mãe.

Circe parou de andar subitamente, fazendo Kai voltar para trás quando estavam a poucos passos da sua moto.

Olhou para ela, totalmente irritado pela insegurança da amiga, notando que Circe olhava para os próprios pés, como uma criança assustada que claramente precisava de cinco minutos para se acalmar e então iria decidir o que faria a seguir.

— O que foi?

— E se… — começou, apertando levemente a mão de Kai. — E se e-eu não for o que ele esperava?

Kai olhou para ela totalmente incrédulo pelas palavras dela. Só se deu conta das inseguranças que a sua melhor amiga — e provavelmente outras diversas garotas — poderiam ter naquela hora. Mesmo sendo incríveis, persistem a duvidar do próprio talento e valor e isso era o que lhes machucava.

Soltou a mão de Circe para colocar ambas as mãos nos ombros dela, olhando no fundo dos seus olhos azuis-esverdeados, notando algumas lágrimas se formando.

— Circe, entenda de uma vez por todas: você é uma mulher incrível e qualquer um que não ache isso é um babaca filho da puta, ou cego. — levou uma das suas mãos até o rosto dela, secando as lágrimas que ameaçavam cair. — Você é linda, corajosa, super inteligente, uma das melhores na escola. — colocou uma mecha das madeixas castanhas dela atrás da sua orelha, sorrindo. — E também é super poderosa. Se ele não ver isso, o que eu acho extremamente difícil, você chuta com força o pau dele e diz que é uma mulher incrível que não merece ter seu tempo desperdiçado por um merdinha do car…

— Okay, eu já entendi. — interrompeu-o, antes que Kai começasse a dizer todos os xingamentos e palavrões possíveis para se referir à sua paixonite. Circe queria ter conseguido acreditar nas palavras do seu amigo, mas depois de um tempo, elogios e tentativas de elevar a sua auto-estima já não faziam mais efeito.

Abraçou-o com força, respirando fundo ao separar o abraço e ir em direção à moto dele.

— O que eu faria sem você? — perguntou, colocando o capacete que Kai lhe entregara e subindo na moto juntamente a ele.

— Iria ao seu encontro a pé.

Dito isso, ambos soltaram uma risada e ele deu partida.

A mente de Circe parecia ter se fragmentado em vários momento a partir daí. Ela conseguia ver alguns carros e prédios, o Sol se pondo mais uma vez em Basin City, conseguiu sentir o vento em seu cabelo, depois já estava descendo da moto do seu amigo, não conseguiu escutar os avisos dele sobre socar partes sensíveis de Mike caso ele tentasse alguma “gracinha”.

Lembrou-se de sentir seu coração disparado ao esperar em frente o local combinado, tinha chegado dez minutos antes. Viu várias pessoas andando apressadamente para as suas casas, algumas passeando com seus cachorros, outras só roubando, mas então tudo pareceu ter congelado quando ela escutou alguém a chamar.

— Bruxinha?

Circe poderia identificar de quem era aquela voz em qualquer ocasião. Ele estava ali, bem atrás dela e só de pensar nisso seu coração pareceu querer sair do peito. Jurou para si mesma que não teria esse tipo de sentimento após a festa de Evelyn, não por ele, mas sempre que escutasse-o pronunciando o apelido que era somente deles, seu coração iria acelerar como se fosse a primeira vez que escutava aquele nome.

Virou-se lentamente, sorrindo para o seu melhor amigo, agora não mais virtual.

— Você está fantástica.


Notas Finais


((☽.˚‧₊❝)) — Primeiro asterisco, Hurensohn significa "filho da puta" e o segundo asterisco (fick dich) significa "vai se foder".
((☽.˚‧₊❝)) — Para animar ainda mais essa quarentena, irei dar um spoiler talvez muito importante, mas, lembrem-se de votar em quem vocês acham que irá morrer pois nesse capítulo alguém que saiu em um encontro morreu, eis sabem quem agora. O link deve estar em um dos capítulos anteriores, eu já me perdi aqui, auge.
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