História Lei do Destino - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Bugalha


Cirilla

As águas frias e turvas do fundo do lago me engoliam, me abraçavam, expelindo o ar dos meus pulmões. Eu gritava, ou ao menos tentava, pois meu desespero se transformava em bolhas que eram levadas à superfície.

Não sabia exatamente quanto tempo havia se passado naquele infindável abismo, mas quando ele enfim me puxou pelos braços, meu corpo parecia pertencer ao lago. Eu me lembrava do medo, da dor aguda no peito, e de sentir meu espírito deixando minha carne, lutando para se desprender de meus ossos, no entanto, quando ele encostou seus lábios nos meus, me preencheu de vida novamente. O ar me invadiu com força, me causando náuseas, e eu tive o ímpeto de gritar, chamar o seu nome, e quando enfim o fiz, o grito se desfez, como se meus dentes fossem uma barreira que o impedisse de sair de meus lábios.

E então acordei. Tão depressa que era como se eu tivesse voltado da morte. Meu corpo tremia, como se ondas elétricas corressem em minhas veias e substituíssem meu sangue. Eu sentia que ainda me afogava, pois continuava com dificuldades para respirar, e na tentativa de fazer com que o oxigênio voltasse aos meus pulmões eu me agarrava aos lençóis com força o suficiente para fazer com que os nós dos meus dedos ficassem brancos. O gosto da água do lago permanecia em minha língua.

Há noites eu andava tendo sonhos estranhos, e em todos eles aquela figura estava presente. Um homem, ou ao menos eu achava que era visto que nunca conseguia ver o seu rosto, se espreitava pelas sombras, parecendo me vigiar, e por todo lugar que eu fosse, para onde quer que eu corresse, ele sempre me encontrava. Neles eu parecia saber o seu nome, como se o conhecesse, contudo, toda vez que tentava chamá-lo eu ficava muda. Meu cérebro parecia desconhecer tais palavras.

Tratei logo de me acalmar.

-São apenas sonhos, Ciri. - sussurrei para mim mesma, tentando demonstrar convicção para uma plateia imaginária.

Chutei os lençóis, afastando-os do contato com a minha pele, e me levantei. Caminhei até a janela e afastei as cortinas, deixando que os raios de sol entrassem no quarto e trassassem desenhos geométricos pelo chão e pelas paredes.

Uma das criadas entrou e notou que eu já estava acordada, mas não demonstrou espanto ou surpresa já que faziam alguns dias que eu despertava mais cedo por conta dos sonhos com o homem misterioso.

- Continua tendo os pesadelos, princesa? - a mulher indagou enquanto me despia. Ela era baixa como eu, com exceção de que devia ter em torno de cinquenta anos, e eu acabava de fazer dezoito. - Feliz aniversário, Princesa Cirilla.

- Muito obrigada, Serafina. - agradeci, suspirando em seguida. Eu havia me esquecido do meu próprio aniversário. Que grande rainha serei. - Não são pesadelos. - completei, respondendo a pergunta.

Eu sequer sabia o que eram aquelas visões.

-Eu só... não sei o que eles significam. - confessei.

A mais velha me lançou um sorriso terno, como se eu fosse uma criança que não entendia o mundo.

-Pode ter certeza de que se for o seu destino, você irá descobrir.

Destino. Que palavra romântica e surreal. Eu nunca havia parado para pensar se eu acreditava nele, pois as vezes sentia que as pessoas o usavam para se esquivar das consequências das próprias escolhas. Pois para mim, o o destino era isso: uma sequencia de reações criadas por nós mesmos.

- Minha avó já acordou? - questionei, me esquivando do assunto anterior.

-Há muito tempo, princesa. Devo levá-la até ela?

-Não! - eu conhecia muito bem a Rainha Calanthe, a rígida, impetuosa, a temida Rainha Calanthe, e sabia que por ser o meu aniversário ela devia estar preparando uma grande comemoração, e a ultima coisa que eu queria era atrapalhá-la. - Eu vou estar na biblioteca... estudando.

A verdade era que eu não gostava das festividades que vinham junto com o meu título de Princesa, e gostaria de fazer o possível para adiar a festa em questão. Eu queria aproveitar o dia enquanto podia, antes de ter que me sentar atrás de uma mesa e exibir um sorriso engessado para pessoas bêbadas que pareciam estar se divertindo mais do que eu.

- A senhorita é muito esperar, Princesa Cirilla. Queria ter uma filha como a senhorita. - Serafina deu um sorriso amarelo, virando de costas e dobrando alguns lençóis. Seu olhar se perdia na paisagem por trás das janelas.

-Aposto que sua filha é ótima. - disse simpaticamente, mordendo um pedaço de pão e sorvendo um gole do chá quente de ervas, mas quando a criada disse que nunca tinha conseguido ter filhos foi que eu percebi meu erro. -Sinto muito. - respondi, abaixando os olhos com tamanha vergonha.

-Ó não, não sinta. - ela tratou de me consolar, tocando a ponta do meu nariz com seu dedo indicador. - Agora termine seu desjejum.

Aquiesci, mastigando o último pedaço de pão e depositando a xícara vazia na bandeja.

Assim que a mulher saiu do quarto, mudei minhas roupas, substituindo o vestido que ela havia colocado em mim por calças e camisa. Prendi meu cabelo da melhor forma que pude e os escondi debaixo de um chapéu. Me olhei no espelho, satisfeita com o resultado.

Como não me conheciam, eu podia facilmente me passar por um garoto.

Abri a porta com cuidado, espiei dos dois lados e constatei que não haviam guardas no corredor. Me esgueirei pelas curvas, colando meu corpo na parede todas as vezes que ouvia algum barulho similar a passos.

Consegui chegar até a cozinha sem ser vista e usei a entrada e saída dos empregados para enfim alcançar a rua.

As pessoas iam e vinham carregando sacolas com frutas e legumes, focadas demais em seus problemas. Ninguém me notava, ninguém sequer olhava para mim. Eu era apenas um "menino" no meio de tantos outros que viviam na rua.

Avistei o trio há alguns metros dali, sentados com suas roupas imundas no chão poeirento. Hector, o garoto mais novo, jogava um dos saquinhos para cima enquanto tentava pegar o mais rápido possível outros dois em sua frente.

Na bugalha você precisava ser ágil para pegar todas as peças antes da que foi jogada para cima cair. Aquele era o passatempo que eu mais gostava, e desde mais nova eu me vestia de menino para poder brincar com as outras crianças. Aquilo fazia eu me sentir normal, me afastava de toda a burocracia da vida Real.

Hector deixou os saquinhos caírem quando me viu e instantaneamente os outros garotos, Jasper e Elliot, dirigiram o olhar para mim. Seus olhos se arregalaram e de forma atrapalhada, pegaram as peças do jogo e se levantaram, tropeçando em seus próprios pés.

-Hoje não vai dar, Adrien. - Elliot gritou, me chamando pelo nome que eu usava quando me disfarçava.

- A gente se vê.

Não entendi o porque eles saíram correndo tão depressa quando me viram. Aquilo geralmente acontecia quando os cavaleiros da guarda Real me encontravam para me levar de volta para o castelo. Será que eu havia me descuidado? Virei o pescoço rapidamente, procurando pelos guardas de armaduras reluzentes, mas o que eu vi não foram os homens da Rainha.

Estremeci quando vi um único homem caminhar com passos firmes em minha direção. Ele mantinha o semblante sério e fechado e parecia focado, como se tivesse um objetivo a cumprir. Dei um passo para trás, estava assustada e ao mesmo tempo imaginava que podia não ser a mim que ele estava se dirigindo, mas bastou um piscar de olhos para que ele estivesse perto o suficiente para eu sentir medo.

- Você precisa vir comigo. - sua voz era áspera, autoritária e totalmente desprovida de emoções.

-Acho que você me confundiu com outra pessoa. - respondi rapidamente, me virando para a direção oposta e começando a caminhar de cabeça baixa, no entanto, mal dei dois passos quando senti sua mão envolvendo meu pulso.

-Eu preciso te levar de volta. - insistiu, me puxando pelo braço, me forçando a olhar para ele.

Pela proximidade pude observar alguns detalhes daquela pessoa misteriosa. Ele era absurdamente alto, tinha os ombros largos e aparentava ter o corpo musculoso escondido nas grossas roupas de couro que usava. Seus cabelos eram brancos-acinzentados, mais ou menos na altura dos ombros e estavam presos pela metade. Seus olhos eram amarelos e sobrenaturais, dando a ele uma fisionomia incrivelmente bela e não humana. Aquele homem era extremamente bonito, mas me causava arrepios pois eu sabia que ele era o tipo de pessoa que eu devia temer.

- Eu não vou com você! - bati o pé, tentando me desvencilhar de seus braços. Tentei lutar e me debater, mas ele era obviamente mais forte e envolveu meu corpo com facilidade.

O sujeito me ergueu do chão com tanta rapidez que quando me dei conta já estava em seu ombros como se eu fosse um simples saco de batatas.

O que era aquilo? Um sequestro? Um resgate? Estaria eu sendo salva ou levada ao abatedouro? Sempre fui instruída a usar um nome falso caso estivesse sozinha fora do castelo. Aquela precaução servia para evitar que inimigos do reino me usassem para atentar contra a Rainha, e mesmo que naquele momento eu quisesse gritar que eu era a Princesa Cirilla, neta da Rainha Calanthe, aos olhos de todos que passavam, eu era apenas um garoto sendo levado por um homem. 


Notas Finais


Finalmente consegui terminar o primeiro capítulo. Confesso que assim como vocês, eu estava ansiosa para enfim começar.

Espero que gostem o suficiente para deixar a estrelinha. Isso vai me incentivar a escrever o próximo capítulo mais rápido.

Obrigada por estarem acompanhando.

Kissus,

Até a próxima <3 


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