História Leituratura - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Tags Amor, Histórias, Revelaçoes, Romance
Visualizações 134
Palavras 5.118
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Shoujo (Romântico)
Avisos: Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Quando ele aparece


Fanfic / Fanfiction Leituratura - Capítulo 1 - Quando ele aparece

         Quando criança os meus colegas de classe me apelidaram de branca de neve, por causa da minha pele branca, meus cabelos lisos e negros. Ah e claro, dos meus óculos de graus e os aparelhos nos dentes. O dentista dizia que era necessário para manter a minha boca saudável no futuro. Muito tímida, não era popularmente conhecida pelas minhas escolhas. Agora ainda mais com o casamento de Julie e Mário. Eles se conheceram na escola quando ela tinha 6 e ele; 7 anos. Esse momento foi muito embaraçoso porque eles estudaram juntos e um nunca havia percebido a presença do outro até pouco tempo. Foi engraçado como ocorreu num dos acampamentos indesejados que o pai de Julie insistia em organizar. Lá, ela se encantou por Mário, um rapaz bem-apanhado e de excelente humor, impossível não ser notado por alguém. Como uma bela história de romance. Além de todas as qualidades, ele gozava de uma beleza admirável. Seus olhos esverdeados correspondem aos inúmeros suspiros. O suficiente para provocar desejos de garotas de qualquer idade, especialmente de Julie. E respectivamente ele por ela. A partir daí eles nunca mais se desgrudaram. Assim que terminamos o ensino médio resolveram se casar, inclusive, fui a madrinha. Acredita? Eu madrinha. Demorei a me acostumar a ser o centro das atenções. Antes com populares e será um deles em breve.  

         Não demorou muito para que minha mãe e eu nos mudássemos da nossa casinha no interior de São Paulo para o Rio de Janeiro. Não gostei da ideia no início, mas tinha que me acostumar que tempos difíceis nos obrigou a seguir rumos diferentes em outra. Trocar a vidinha pacata por um lugar que apenas vi por fotos e televisão. Eu temia por isso, não gosto de mudanças, principalmente bruscas. Mas a mudança era necessária. Minha mãe, enfim, conseguiu voltar ao emprego que ela teve quando era jovem. As economias que nos mantínhamos ainda em São Paulo estava acabando. Minha mãe retornaria à casa que trabalhara quando tinha a minha idade, um retrocesso. O trabalho nos mesmos trajes de antes, empregada na residência de uma família rica e no Rio de Janeiro. Ahhhhhhhhhhh... Eu queria gritar. A história mais uma vez se repete, só que em tempo distintos.

         Durante a viagem até o Rio, minha opinião ia mudando a cada minuto, fiquei admirada com a maravilhosa cidade. Pela janela do ônibus acompanhei os holofotes, os pedestres, as ruas, o passeio das pessoas pela movimentada Copacabana. Isso definitivamente me chamava atenção e me encantava com aquele mundo artificial e deliciosamente deslumbrante.

         Angatuba, cidade onde morávamos existiam apenas 15 mil habitantes. Hectares de árvores e uma comunidade que poderia ser chamada de Centro. Não tinha muito que fazer por lá. Eu também nunca saia. As festas rolavam sempre na casa das pessoas, não tinha boates ou casa noturna, muito menos barzinho. O único lugar parecido com um barzinho era uma churrascaria que abria aos sábados, porém, fechava às 10 horas, justamente no horário em que jovens da minha idade se divertiam.

         Para dizer que nunca fui a uma dessas festas, fui uma vez, para nunca mais. Senti vontade de voltar. Marcos conhece muitos desses ricaços que organizavam eventos particulares. Julie teve a singela ideia de comparecer a uma delas. E como sempre, me arrastou até a festa.

         Bebidas e copos percorriam um caminho singular até a piscina e a cozinha da casa repleta de jovens completamente alcoolizados. Uma mistura terrível de vegetação e lixo exalava mau cheiro por toda a casa. Foi a única vez em que fui a uma festa, se àquele ambiente poderia ser chamado de festa.

         Para chegar ao Rio de Janeiro passamos mais de dez horas no ônibus. Eu estava cansada e não via a hora de descansar.

         - Maria? Falta muito? – indaguei. Eu acabara de completar 18 anos e estava no auge da minha juventude, e isso quer dizer ansiedade.

         - Não muito Alice – finalizou.

         Quando chegamos à casa da família Wilson logo nos deparamos com aquela branca e enorme mansão moldada em arquitetura contemporânea, com um extenso gramado verde e jardins no caminho e no entorno da residência. O cheiro floral dominava o ambiente da varanda coberta por rosas brancas até o início da entrada. Os funcionaram reconheceram minha mãe do portão e trataram de destrancá-lo. Fui bem acomodada, atrás da casa, ou melhor, da mansão.

         Na lateral da casa um portão, pouco perceptível, dava espaço a um corredor com acesso direto aos pequenos cômodos. Ali foi o local que um dos 11 funcionários nos indicou quando entramos.

         Todos eles nos cumprimentaram e, em especial, João. Pelo jeito ele aparentava o mais experiente e respeitado da casa. A seu lado estava um jovem moreno que se apresentou como Benício, o filho que o ajudara a cuidar do entorno da residência. João e Benício moram sozinhos, como eu e minha mãe. Na verdade, não tínhamos parentes, era só eu e ela. Meu pai morreu antes que eu pudesse lembrar-se dele. Eu ainda era muito pequena.

         Desde muito pequena selamos a parceria de permanecemos sempre juntas, fiel uma a outra. Embora Maria fosse prestativa e bastante atenciosa comigo.

         Quando sentia vontade de me abrir com alguém, certamente essa função era encarregada exclusivamente a Julie. Mas agora tão distante, não tinha como contar a ela o que se passa comigo. Sentia falta dela, nunca havíamos nos separados para tão longe. Uma amizade que nós acompanhamos desde o jardim de infância. Minhas lembranças me afagam na distância.   

         Na mansão acomodaram-nos todos em uma espécie de edícula, atrás da casa, com uma visão extraordinária, capaz de causar admiração a todos. Pássaros, jardim e ar puro.        Mesmo estando numa metrópole, o ar urbano refugiava entre o extenso caminho de flores, dando espaço ao solo e incansável gosto de natureza nas finas e grandes árvores plantadas no entorno da mansão. No instante em que pisei na mansão descobri meu passatempo predileto, caminhar pelas várias plantações. Nunca imaginei em encontrar diferentes espécies de plantas imersas no só mesmo lugar. 

          Assim que nos acomodamos, minha mãe me puxou para eu conhecer o Sr. Eduardo Wilson, médico e dono da casa. Ele parecia ser uma boa pessoa. Minha mãe quando o via ficava sem jeito, como se ele a perturbasse. Apresentamos-nos na cozinha porque era lá que Maria ia trabalhar.  O cheiro dos alimentos cozidos imediatamente despertou minha fome e o interesse por conhecer outros cômodos da grande mansão. A cozinha de azulejos brancos foi o primeiro lugar que conheci. O Sr. Wilson, assim que todos o chamavam, tinha uma aparência saudável. Sua gentileza despertou em mim um bem-estar que era difícil de entender.  

        - Olá minha cara, seja bem-vinda - disse o Sr. Wilson em bom e alto som.

        - Ah, obrigada - respondi encantada pela maneira que me tratara. Olhei em direção a Maria e ela estava me olhando com os olhos grandes. Eu queria impressioná-la e mostrar que embora aquilo não fosse minha vontade, eu estava por ela e que faria de tudo para que desse certo. Quando ficamos apenas os empregados na cozinha, Maria murmurou ao meu ouvido:

         - Vá descansar – piscou – eu me viro aqui. Depois levo alguma coisa para você comer.  

         Acenei enquanto ela colocava o avental para começar a trabalhar na casa. Ainda perdida com o caminho, fui conduzida por um funcionário até a minha nova casa. Não era uma casa, mas também não era um quarto. Eram cômodos que ficavam no fundo da casa. Quem chegasse pela frente não veria a construção. Eu estava muito cansada para prestar mais atenção aos detalhes.  

           Ao entrar no meu novo lar me deparei com um pequeno e duas camas de solteiro, uma cozinha e um quarto. Não tão luxuoso como a casa, mas com acabamentos de primeira linha. Era uma kitnet totalmente mobiliada.

         Fui direto para a cama e desmaiei. Ouvi um som de cachorro e ao levantar desnorteada já tinha anoitecido. Acordei às 18 horas. No primeiro momento estranhei o quarto, bem diferente de onde morávamos antes de chegarmos à mansão. De lá eu só trouxe apenas roupas e lembranças. Os imóveis foram vendidos para pagarmos as passagens. Embora Maria gostasse dos Wilsons, eu ainda me sentia desconfortável. Não tinha nada a ver com isso, mas eu tinha de apoiá-la.

       No caminho de lá até o Rio fizemos planos. O sonho dela era que eu fizesse enfermagem, mas na realidade eu sempre gostei de artes plásticas. Nunca disse isso a ela, pois sabia que as nossas condições financeiras não permitiam tanto luxo, sem falar que o curso é extremamente caro. Ela ganhava um salário e não conseguiria, nunquinha, pagar um curso. Se bem que eu poderia trabalhar, e mesmo assim, o dinheiro não seria o suficiente. Vi alguns folhetos de faculdade pela internet e tive a certeza que não iria conseguir fazer artes plásticas. Ia ter que me contentar com os desenhos no meu caderno. Sempre gostei de pintar paisagens.

      Quando acordei, fui até a cozinha saber se minha mãe precisava de ajuda. Embora tivéssemos chegado nessa tarde, ela já estava trabalhando como nunca. O jantar da família do Wilson’s estava quase pronto e aroma era delicioso. Tinha dedo da dona Maria, ela era fantástica na cozinha. Nunca fez curso, mas se participasse de cursos de culinária ganharia de olhos fechados. Azar o meu não ter puxado seus dotes culinários. Eu gostava mesmo é de desenhar e ler. Sou apaixonada por meus romances. Adoro Nicolas Sparkes. Estou com alguns livros que peguei da Julie para ler enquanto não sei o que fazer aqui.

               Uma mulher ruiva, cabelos curtos e lisos com idade entre 50 e 55 anos entrou na cozinha. Com um olhar expressivo e assustador, olhou-me de cima a baixo. Seus olhos miraram minha mãe que estava desconfortável com sua presença.

              - Então...Como estão as coisas por aqui? - rosnou a mulher com um tom irônico.

             - Sim, a comida já está pronta. Falta apenas colocá-la na mesa - respondeu Maria um tanto nervosa. Praguejei com a falta de respeito e soberba que teve sobre ela.

             Assim que a mulher de aparência rude desapareceu entre os corredores, saí em busca de respostas:

     - Mãe, quem é? – perguntei encabulada.

         - A mulher do Sr. Wilson - fingiu não dar atenção, enquanto movimentava as panelas do fogão. Ela estava visivelmente abalada, mas não dava o braço a torcer.

         - Você já conhecia esta mulher?

         - Sim. Quando eu fui embora ela era noiva do senhor Wilson.

        É estranho que ela nunca tenha comentado quando viemos de Angatuba até o Rio de Janeiro, nunca citou sobre a tal ruiva.

        De longe vi os empregados servirem à imensa e gloriosa mesa. Permaneci na cozinha encostada a parede, esperando Maria parecer para podermos voltar à casa dos fundos onde estávamos instaladas, junto aos demais funcionário. Assim que o serviço terminou, comemos com os funcionários na cozinha. Na mesa, os funcionários, inclusive, João e o filho que aparentava ter a mesma idade que a minha.

         - Então. Você é a Alice? – perguntou João diante da mesa. Acenei com a cabeça. Eu estava tímida com a circunstância. O menino que tinha seus traços não parava de me observar. Tinha olhos escuros, pele morena e sobrancelhas grossas.

         - Nossa, te vi quando você era muito pequena. Eu era amigo do seu pai.

         Meu olhar atenuou ao lado para o homem envelhecido pelas marcas que o tempo tratou surrar. Suas mãos estavam ainda mais calamocadas, sinais de quem fez o mesmo trabalho por muito anos ou até mesmo a vida toda.

         - Mesmo? – sorri alento – Não me lembro dele quando criança. Morreu quando eu ainda era um bebê.

         Ele olhou para minha mãe e ela não disse nada, apenas sorriu sem graça. Um sinal para não prorrogar a conversa. Estava entrando em uma seara desconhecida. Eu queria estender a conversa, mas percebi a insegurança da minha mãe de tocar no assunto. João também percebeu porque em seguida levantou o prato e deixou em cima da pia. Deu-nos boa à noite e seguiu com o filho para a porta dos fundos que davam acesso às edículas, quase que puxadinho da casa, em que só os empregados tinham acesso.

 

     A manhã do dia seguinte estava quente e azul. Acordei tão bem que nem mesmo acreditei. Fui até a cozinha da mansão bebericar alguma coisa. Chegando lá me deparei com a mesma mulher da noite anterior sentada à mesa. Ela me olhou com certo entojo:

        - Aqui, definitivamente não é um bom lugar para você comer mocinha. Seu lugar é lá atrás – disse ela ao indicar com a ponta dos dedos o mesmo corredor que acabara de atravessar e virou as costas, andando em direção à grande sala – com os outros – a voz hostil encerrou a frase.

        Senti o estomago revirar como se tivesse levado um soco. E, minhas pernas amolecerem tanto que corri até o quarto choramingando. Segurei as lágrimas para que nenhum funcionário percebesse minha angustia. Eu não queria ficar aqui, estava me sentindo um peixe fora d’água. Esse não é meu lugar gritei com as mãos sobre os olhos. Isto tudo não fazia sentido. Voltei para o quarto e dormi por algumas horas. Acordei o sol já está se pondo. Meus olhos inchados levantaram minha cabeça ainda tonta, seguindo o mesmo ritmo lento com os olhos. Não me demoro a estar de pé.

        Do Jardim ouvi gritos, ou melhor, risadas vindas de fora, distante. Ouço também o latido do cachorro, o mesmo do dia anterior. Aproximo-me aos poucos do portão, que divide a mansão da casa.  

        Do longe gramado que ainda distancia a edícula da casa dos patrões, caminho até o portão. Um rapaz sorridente brinca com o cachorro de pelos marrons. Encosto-me e admiro a simplicidade com que brinca com o cão que parece bem à vontade, frenético, na verdade. Cabelos negros, olhos azuis como céu desta manhã. Uauuu... O sorriso era desenhado e extremamente sexy. Rosto com traços firmes e atraentes. Uauuu ele é lindo mesmo... Fechei os olhos com força para acorda-me do sonho. Eu estava me deparando com pessoas muito bonitas, como em um seriado. Não consigo acreditar no que acabo de pensar.

        Minha respiração fraqueja, minhas mãos esquentam e minha barriga congela. Uma montanha-russa. Escondi-me nos arbustos próximo ao murro que divide as ruas realidades. Ele não poderia me ver, pelo menos tentei ser cuidado para não reparar meus gemidos. Virei os olhos em sinal de desaprovação. Era simplesmente ridículo. Virei-me para voltar quando ouvi um chamado. Não precisa ser muito esperta para saber de onde vinha. Congelei e virei-me como um robô, gelada e dura. As maçãs que há pouco estava branca, agora estavam vermelhas como um pimentão.

         Fala oi, fala oi. Falaaaaaaaaaaa. Gritei em minha cabeça, ela estava aos prantos, mas o meu corpo era teimoso e não reagia aos meus comandos. Filha... da mãeeee.

         - Oi – sorriu – você a filha da Maria, certo?  - sorriu com os olhos fixados em mim.

         Se olhar de novo vou agarrar seu pescoço. Sai pensamento de uma figa. Eu estava completamente sem juízo. Fiz cara de paisagem e respondi à sua pergunta:

         - Isso – balbuciei. Nossa, nem consegui falar o meu nome. Santo Deus que idiota. Fala algo inteligente, sua.... você é melhor que isso.

         Ele olhou para o lado e se aproximou mais, estendeu a mão, mas antes que tocasse minha pele fomos interrompidos pela minha mãe.

         - Piter... Como você está grande. Quando saí daqui você ainda era uma criança, e agora está um rapaz. Está estudando? – gritou ao se aproximar. Acho que eu não sou a única boba. Minha mãe estava tão admirada quanto eu.

     - Sou residente do nosso hospital no Leblon – seu entusiasmo por reencontrá-la estava transcendente - Nossa, mas que saudade, quanto tempo hein? Não sabia que você ia voltar. Fez muita falta aqui – ele riu ao abraçá-lo.

  Abraça-me, por favor, deste jeito. Ri com o pensamento de uma tarada que eu acabara de descobrir em mim. A tarada em mim estava a bailar.

- Ele se chama Pitter – disse Maria ao olhar para mim. Ela estava nos braços dele feliz da vida. Tinha carinho em ambos os olhares. Ele aproveitara para abraçar ainda mais Maria. Não consegui segurar o sorriso. Sorri bobamente para o meu eu que eu acabara de descobrir. Vários eu.

  

 

 No piscar

 

         O sono não vem. Ai que angustia. Viro de um lado para o outro da cama e a sonolência não chega. Bufo com a sua ausência. Um pensamento cercar é uma imagem exuberante vem à mente, que idiota. Tento me distrair com um dos livros da cabeceira e nada. Pernas e braços torneados e cabelo sobre os olhos azuis, pareciam ensaiados para uma sessão de fotos. Mesmo sem perceber estou sorrindo sozinha, consigo imaginar que conquistar mulheres não é definitivamente o seu problema. E eu, claro, não estou no cardápio. Oii? Cardápio...eu por acaso sou comida? Acho que o calor cozinhava meus neurônios eu mais parecia Julia quando era solteira. Questiono meu glossário.

         Na manhã faço minha rotina como de costume, desde quando começamos a morar no Rio. No primeiro horário ajudo minha mãe nos serviços domésticos. O dia passa rápido, principalmente quando a casa está vazia e eu aproveito para xeretar os quartos. Eles são lindos, nunca, nunquinha imaginei-os, mesmo em filmes. Olhei pela janela e o vi chegar na BMW X4 preta. Uauuu... Corri as escadas antes que suas mãos alcançassem a maçaneta. Joguei-me na cozinha como um guarda-costas faz para salvar a vida de seu cliente. Neste caso, eu me jogava para me salvar. Ouço passos pertos, bem pertos. Não entre na cozinha, não entre, não entre... rezo para mim. Atrás da porta, eu consigo vê-lo de roupas brancas. Embora não estivesse de frente para mim, pude nota a sua ansiedade por estar de volta, para casa. Sorri ao encontrar ‘Fred’, seu cachorro de estimação. Não consigo me conter, então rio junto com ele. Na mesma hora me contenho, sorte a minha ele não ter percebido minha presença.

         À noite os empregados não costumavam frequentar à mansão dos Wilson’s. Só em eventos quando ajudam a servir.

         Então, aquele seria o único horário do dia que eu podia vê-lo. Não sabia nada de sua vida, apenas que estudava medicina. Tinha receio de perguntar a minha mãe e ela desconfiar. De alguma forma eu tinha de descobrir. Mesmo que tivesse que esmiuçar cada informação com cada funcionário da mansão.

         Pela manhã fiz a mesma rotina do dia anterior. Em especial, hoje estava decida em esperá-lo, claro, escondida, sempre, forever. Eu só queria olhá-lo de longe ou perto. Ele nunca notaria a minha presença, sou um fantasma quando quero ser.          

         Arrumo-me para esperá-lo, mesmo que ele nunca saiba que estou ali, à sua espera.  As horas passam e ele demora a chegar, minha curiosidade insiste em se manter firme com o plano. Permaneço empedrada frente ao portão, sorte a minha Maria não perceber minha ausência. Coloquei um vestido que Julia me deu, é bonito e deixa o meu corpo, um corpão, mesmo que de mentirinha.   

         Cada minuto era um atormento a minha consciência. Estou insegura e com medo, merda. Detesto me sentir assim, uma perfeita tonta. O que acha que estou fazendo? Esperando o príncipe? Nossa, que ridícula. Quando me viro para entrar, vejo um carro entrar na mansão.

Vermelho era a cor, não reconheci, mas vi quem estava nele. É ele ao lado do motorista. Minhas pernas titubearam. Não consigo me segurar, tenho de me esconder entre os arbustos. O carro para em frente à mansão. Vejo que hoje não está dirigindo, mas está acompanhado de uma mulher. Parece uma modelo, seus cabelos longos e loiros, rosto fino e olhos que combinam com os dele. Aproximo, então, vejo o beijo que ela o dá e ele corresponde.

         Meu estomago revira de novo mais intenso que antes. Tenho que me esconder da minha mãe. Ela não pode sequer desconfiar o porquê de eu estar deste jeito.  Ao invés de entrar em casa, corro em direção ao jardim.

         Sinto-me como uma adolescente idiota. Sempre repudiei essa atitude, mas sou vítima dos meus preconceitos. Tenho que esquecer essa história. Ouvi um barulho vindo do campo e parei de repetir as palavras, no entanto, as lágrimas escorriam. A vontade era mais forte que eu.

         - Tente ficar em silêncio para ninguém te perceber - repeti para mim mesma. Se alguém me visse, eu teria que mentir.

         A mesma movimentação chega e vejo das sombras um rapaz que ainda não consigo identificar. Ao se aproximar vejo as curvas e reconheço os longos ombros e definidos braços. É Benício. Ao meu lado, surpreso, tentando entender. Tentei disfarçar, mas meu rosto estava muito inchado e vermelho para esconder. Suas mãos me trazem para o seu colo, sem dizer nada enlaçou seus braços entorno do meu e me consolou. Ficamos no jardim praticamente a noite toda. Não dei uma palavra sobre o assunto, Benício não perguntou. Ele me abraçou como um amigo de anos. Senti-me protegida. Esperei minha mãe dormi, para voltar. Benício me trouxe na porta de casa sem dizer nada. O silêncio foi nosso aliado. Minha cabeça não parava de latejar. Fui para casa, então deitei. Mas não consegui dormi de tristeza.

         O dia amanheceu e eu já estava de pé. Acordei mais cedo do que minha mãe. Queria começar cedo para acabar cedo. Quanto antes começar terminaria. Ainda estava muito cedo e minha mãe demoraria um tempo até se levantar. Lavar a louça foi o que fiz primeiro. Por um instante sinto o aroma que nunca me esqueceria. Meus pés começam a tremer e me viro para saber o que ei já sabia. Então o vejo, mais belo do que no dia anterior. Ele estava à minha frente, olhando-me como nunca. Sua voz era doce e aveludada:

         - Oi - cumprimentou.

         O copo na minha mão espatifou no chão, estourando cacos de vidro para todo canto da cozinha. Sem pensar, abaixo-me rapidamente para recolher pedaços. Ele acompanha meu ritmo e se agachou para me ajudar a recolher. Olho desnorteada para frente e seus olhos azuis me seguem. Eu nunca havia percebido, pois sempre o via de longe e essa era a única vez de perto. Não consigo encará-lo. 

         - Não vai falar comigo? – diz mais uma vez

         Minha reação me surpreende:

         - Oi... Vou sim – forcei um sorriso.

         - Você é filha da Maria, não é? - indaga.

         - É, sou sim - ainda me sinto insegura ao conversar.

         - Está gostando da Cidade? – insiste enquanto recolho os cacos de vidro. Ele continua atrás de mim, mas agora encostado na geladeira. Viro como se sua presença não me incomodasse.  Finjo não interesse:

         - Sim... Precisa de alguma coisa? - pergunto seca.

         Com essas palavras me pus no meu lugar, que é ser a filha da empregada, mais nada.

         Ouço o motor do carro e me acalmo. Ele se foi. É mais fácil trabalhar quando ele não estava. Mas isso seria provisório porque logo, logo eu estaria na universidade. Não via a hora.

         Meu dia passa rápido demais, quando me dou conta já está a noite. Olho no relógio e vejo que está quase. Termino rápido e trato de voltar para casa, não queria mais cruzar com ele. No jardim brincando com Fred, ouço a BMW chegando mais cedo. Meus olhos queriam encará-lo, mas desta vez minha razão venceu. 

         Fui para o quarto ler um pouco, isso me ajudava passar o tempo com mais rapidez. Eu estava lendo livros aleatórios, mas os meu preferidos eram de Nícolas Sparkes. Ouvi barulhos vindo da sala, porém pouco ligava. Queria me afogar nas histórias de Nícolas Sparkes.

         - Alice? Alice? – ouvi Maria me chamar.

         Levantei as sobrancelhas em sinal de entende-las. Ela veio até a mim na cama e disse:

         - Temos visita.

         Então o vi. Sentado em seu surrado sofá. Estranhei, mas contive minha reação. Ele pôs os olhos em mim e se levantou. Não correspondi o olhar, olhei direto para Maria. 

         Então tomei coragem e pergunte - Sim? - estava confusa com a presença e o motivo que levaria aquele rapaz na minha sala. Digo, tecnicamente já que aquela “casinha” também pertencia à mansão e, portanto, era dele também. 

         - Querida, esse é Pitter. Eu gostaria que você o conhecesse. Ele é filho do Sr. Wilson – disse.

         - Acho que já nos conhecemos hoje de manhã e há alguns dias – respondi sem interesse. Sério, o que era isto? Uma brincadeira? O que ele estaria fazendo aqui? Na casa dos empregados, pelo amor.

         - É que ele estuda numa universidade muito boa, e eu conversei com ele que você estava interessada - disse ela em bom e alto tom.

         - Mas mãe, essa faculdade custa caro, a gente não tem condições - afirmei.

         - Sua boba, você acha que eu não pensaria no seu futuro? Você sempre quis cursar uma faculdade, então vai fazer isso, nem que seja a última coisa que eu faça – ensaiou um sorriso.

         Minha mãe sempre gostou dele, talvez porque ela era quem cuidava dele quando ele ainda era uma criança, e seu carinho ainda continuava. Também seria impossível não se apaixonar por ele. Além da beleza, sua educação era impecável.

         Tentava me esquivar de cada pergunta. Meu corpo também tenta obedecer às ordens vinda da minha mente.

         Nesse momento Maria disse:

         - A propósito, vá se arrumar. Pitter vai dar uma volta com você. Ele vai te mostrar alguns lugares da cidade. Você ainda não saiu de casa para nada - ordenou. Como, hã, onde? Me questionei em segredo.

         - É melhor você obedecê-la - ele com sorriso largo. Estava brincando comigo.  

         Corri para o quarto, peguei minha melhor roupa e fui para a sala. Em menos de cinco minutos eu estava pronta. Fomos para BMW preta parado em frente à mansão. Eram tantos os automóveis, que nem imaginava de quem era os outros. Sentei do lado dele, mas não tive coragem de olhá-lo nos olhos. O perfume dele dominou o carro. O doce aroma pós-barba estava mais suave, mas ainda perceptível.

         Saímos da mansão e em alguns segundos estávamos em frente à praia. Era um dos lugares mais lindo que eu já havia visto. Pela primeira vez pude olhar seu rosto concentrado no trânsito. Sua beleza era incrivelmente exuberante. Também percebi que as mulheres da rua notavam o mesmo que eu. Era incrível como sua beleza chamava a atenção de todos pelo caminho.

         Logo os meus pensamentos foram interrompidos por uma pergunta, o porquê desse passeio? Por     que ele passearia comigo? E por que minha mãe cederia tão facilmente?

         - Está gostando do passeio? – disse.

         - Por que disso? - respondi direta sem pensar nas consequências no meu questionamento.

         - Você é sempre assim? – riu ao soletrar as palavras.

         - Por quê?

         -Sempre que tento fazer algo, você desconfia... Isso é engraçado... Daí você faz essa cara de assustada... Isso é realmente engraçado – ele riu novamente ao dizer.

         - Então você me acha uma idiota... Ou algo parecido? – respondo ríspida.

         - Quer comer? Achei que você gostaria de conhecer a cidade – Pergunta ao tocar meus ombros com o dedo.

         - É... Quero sim - digo mais aliviada.

         - Sei que você não tem saído, então quis fazer uma caridade. Talvez isso ajude eu ter uma vaguinha lá em cima – aponta para o céu.

         -Ahh... Com certeza isso ajudará bastante – virei os olhos. Queria estar irritada, mas ele era divertido. Que merda. Por que não é um playboy para eu odiá-lo. Isso só dificultava as coisas.

         Paramos em um restaurante, muito além dos meus pensamentos. Achei que estava arrumada, mas para aquele lugar minha roupa estava bastante simples. A BMW parou em frente ao tal lugar. E como um cavalheiro, abriu a porta do carro.

         Nós entramos juntinho no restaurante. Fiz uma cara de paisagem, não queria que ele percebesse minha impressão. Sentamos e ele pediu uma comida deliciosa cujo nome era impossível de soletrar, algo com peixes e camarão. A comida era saborosa. Enquanto comia, ele não tirava os olhos de mim, era nítido o seu interesse. O que eu não imaginava era o que exatamente ele procurava.  

         Após comermos, fomos andar na praia, em frente ao restaurante. A lua estava brilhosa, bastante clara, e o vento que batia em nosso rosto refrescava o calor escaldante do Rio. Tive medo de falar alguma besteira, ultimamente eu estava expert em falar besteira. Eu era destrambelhada neste departamento.

         Ele se aproximou e sua voz soando calma e tranquila. Mas ainda assim não entendia o significado, até que ele disse:

         - Eu vi quando me esperou no portão. E sempre soube que você estava lá.

         Minha expressão mudou. Por alguns segundo senti meus estomago revirar. A bile se concentrou a subir, mas consegui segurá-la no estomago.   

         - Isso...Isso é men... – tentei argumentar, mas o disfarce não deu cedeu.

         Fomos interrompidos, por uma buzina que insistia em tocar. Até que um nome foi dito em meio às pessoas que transitavam no local.

         - Pitter ... Pitter – berrou do outro lado.

         Viramos e quem estava fora do carro vermelho? A loira de longas pernas e cabelos até os ombros. Ele acenou com as mãos, e em menos de dois segundo a loira já estava a seu lado, agarrada em seu pescoço.

         A raiva me corroeu por dentro, pois se tratava da mesma do beijo. E é claro que ela acharia estranho ele com uma mulher desconhecida.

Partes da minha dúvida estavam certas. Assim que me viu, seu olhar me fuzilava, porém mesmo assim me cumprimentou com beijo no rosto. Ela não o beijou, mas o ciúme estava nítido em seu rosto.

         Sem assunto voltei a olhar para o chão como se os dois não estivem ali. Antes que dissesse algo, ela me interrompeu: com assuntos sobre a faculdade. Mesmo conversando com ela, ele continuava a me olhar. Fingi não o vê-lo. Então, certamente estudavam juntos. Ela tinha o dom de me excluir por completo da conversa. Ri em silêncio com sua inútil tentativa de me desprezar.   

         Sem dizer nada, sai. Mesmo sem saber por onde caminhar, o percurso pela orla da praia era incerto. Eu estava invisível. Um grito me fez parar - Aonde você vai? - questionou Pitter.

         Olhei para trás e ele já estava ao meu lado, deixando a magrela para trás. Meu coração palpitou de alegria, mas contive o sentimento. Essa com certeza não foi a reação esperada por ela. Quando pisquei os olhos, ela já estava no carro. Foi tudo tão depressa que quando olhei novamente, nem sinal do seu Lexus RX350 vermelho.

         - Continuando... - disse ele para mim.

         - Sim? - respondi rindo.

         Foi a minha deixa para ver aquele sorriso, impetuoso e devastador. Naquele instante tive certeza que aquilo me quebraria em pedaços. as noites.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...