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História Letal - Capítulo 5


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Notas do Autor


Este capítulo tem cenas fortes de morte e tortura, então não recomendo a leitura a ninguém que seja sensível ao tema. E uma observação que não deixei muito clara, apesar de dar pra entender sem problemas: a palavra "babushka" significa vovó em russo.

Uma sugestão pessoal é que leiam ouvindo as músicas da Karliene, uma artista incrível que se inspira em figuras femininas históricas pra compor músicas maravilhosas que me ajudam muito na hora de escrever sobre a Anya.

Boa leitura, espero que gostem. Podem me falar se encontrarem algum erro de digitação, ainda não sei o que acontece que sempre deixo passar umas palavras aleatórias.

Capítulo 5 - Anastasiya Volkova


Fanfic / Fanfiction Letal - Capítulo 5 - Anastasiya Volkova

 

Província de Wallachia, Romênia, ano 1100

 

As primeiras luzes da manhã invadem o condado de Dolj, marcando o início de mais um dia. O ar puro e frio se espalha em uma neblina fina, trazendo o cheiro fresco das montanhas e florestas que cercam o lugar. Ouve-se o cantar dos galos misturado ao barulho das ovelhas e carneiros que andam inquietos no curral. O dono do gado, um homem corpulento, com o rosto e as mãos encardidos devido à falta de banho, abre a cerca para libertá-los.

Respira aliviado ao ver que não sofreu nenhuma perda. Seu gado vêm diminuindo há meses - muitos culpam os lobos selvagens das montanhas, mas ele sabe que há algo bem pior por trás dos ataques. Vira com os próprios olhos quando o homem alto e pálido atacou uma de suas ovelhas há três noites, com a bestialidade pior que de um animal selvagem. Apesar de estar escuro, pode jurar que os olhos dele estavam vermelhos - suspeita ser o mesmo sujeito misterioso que habita a casa abandonada nos confins da floresta.

Os moradores começam a sair, cumprimentado uns aos outros com sorrisos e risadas altas, preparando-se para os afazeres do dia. O padeiro acende o forno e logo o cheiro de pão fresco invade os lares.

Ouve-se uma voz doce vinda da pequena casa de madeira, repleta por ervas penduradas no teto e espalhadas nas bancadas, com caldeirões e uma porção de vidros de conserva com remédios caseiros. Dominika abre as portas e janelas cantarolando músicas em seu idioma nativo russo. Seus cabelos negros e os olhos verdes, donos de um brilho hipnotizante, causam desejo nos homens e inveja nas mulheres do condado de Dolj.

Sua mãe, Evdokiya, está acordada há horas, em algum canto da floresta, oferecendo seus sacrifícios aos espíritos guias da família Volkova. As mulheres tratavam a prática com seriedade. O espírito do Lobo, guardião dos Volkova por séculos, foi quem as manteve vivas durante sua fuga do Império Russo - onde acusaram-nas de bruxaria e foram condenadas à morte por enforcamento. As duas, junto com a filha de Dominika, Anastasiya, fugiram às pressas e às cegas, perdendo-se nas florestas congeladas em busca de refúgio. Seu marido foi morto lutando pelo Czar e, como recompensa, as mulheres foram caçadas como animais para o abatedouro.

Estavam sozinhas em uma terra desconhecida, quando a mais velha invocou o espírito do Lobo em nome de todos os ancestrais Volkova que já andaram pela terra. Duas luas depois, encontraram o condado de Dolj e se instalaram ali desde então, como curandeiras do povoado.

Dominika vai até a cama da filha, que finge dormir. Ela sorri, prendendo o nariz sardento da menina entre os dedos. Anastasiya dá um pulo do colchão de palha, contagiando a mãe com sua risada calorosa.

Mama... — se inclina, depositando um beijo no rosto de Dominika.

Anastasiya vai até a mesa e parte um pedaço de pão fresco, comendo a massa quente aos poucos. Seus cabelos negros e brilhosos são iguais aos da mãe, além do rosto marcado pelas feições duras e fatalmente atraentes, típicas das mulheres Volkova. Exceto pelos olhos, que puxou do pai. São negros feito o céu sem lua numa noite de inverno.

— Onde está babushka? — pergunta, com a boca cheia.

— Sua avó saiu antes do sol nascer. Em sete dias será o Lughnasadh, ela já começou com as oferendas.

O dia é sagrado para as feiticeiras, celebrando a prosperidade e abundância nas colheitas, tanto de alimento quanto na vida, invocando bons sentimentos e realizações.

Anastasiya estava se aproximando de seus vinte e quatro anos - idade mínima para que ajudasse com as oferendas. Seu aniversário é em dois dias. Se tiver sorte, babushka deixará que a garota sacrifique algum animal desta vez.

— Preciso que você entregue alguns remédios pela vila hoje —  a mãe diz, entregando-a a cesta cheia das substâncias pegajosas que ela e Evdokiya fazer para aliviar as dores e tratar feridas. — E troque esse vestido encardido antes.

— Eu queria ajudar babushka com as oferendas... — bufa, colocando o resto do pão sobre a mesa.

— Não, você ainda não completou os vinte e quatro anos. É um mau agouro tocar na comida dos deuses sem as primaveras completas...

Anastasiya rola os olhos enquanto coloca um vestido vermelho limpo, deixando o outro no chão. As barras de suas roupas sempre ficavam encardidas porque a garota gostava de se enfiar na floresta e praticar seus feitiços escondida dos olhos dos moradores do vilarejo.

Pega a cesta de remédios com desgosto, arrancando uma risada da mãe, que a puxa de volta para pentear seus cabelos desgrenhados. Faz uma longa trança com as mechas negras, acariciando o pescoço longo e pálido da garota.

Ela calça as botas de couro antes de sair, lendo os endereços escritos com a letra rebuscada de Dominika. As pessoas a encaram com desdém ao vê-la passando, mas Anya ignora. O povoado odiava as Volkova - e o sentimento era recíproco, pelo menos por parte de Anastasiya. Eles sabiam que elas eram feiticeiras, mas não se opunham à sua estadia ali porque a mãe e a avó eram as únicas que ofereciam curas e remédios eficazes contra todo o tipo de doença.

Há um tempo, babushka fez com que a mulher do padeiro voltasse a conceber depois de ter perdido três crianças. Desde então elas contavam com pão fresquinho e de graça todos os dias. Por isso Anya suportava os olhares atravessados e sussurros toda vez que passava por um grupo de pessoas. Além disso, ela não precisa de amigos. Tem a avó e a mãe. E ainda a proteção dos ancestrais e do espírito do Lobo.

Volta para casa depois de algumas horas fazendo entregas e recebendo o pagamento em troca. O cheiro de ervas e o calor do fogo invadem suas narinas ao adentrar pela porta, erguendo o braço para tocar os ramos de agrimônia pendurados na entrada - as flores são conhecidas por atraírem proteção à quem usá-las.

A avó, com seus cabelos brancos trançados e o vestido azul escuro de sempre, espalha galhos de Juniperus em um prato de madeira redondo que sempre utiliza nos rituais, cantarolando baixinho a canção de ninar de sua terra - Bayu Bayushki Bayu, que fala sobre um lobo grande e cinza que virá devorar a criança se ela não dormir no meio da cama. Quando mais nova, Anya era assombrada pelo animal em seus sonhos até Evdokiya confortá-la, dizendo que não precisava temer. O Volk em seus nomes significava lobo. Eles nunca a machucariam. Pelo contrário, estavam ali para protegê-la.

— Tudo correu bem? — Dominika pergunta, mexendo em seu caldeirão fervente.

— Sim... — Anya responde, passando as mãos sobre os braços para se esquentar. — O tempo está ficando frio

— Vou lhe preparar um banho quente, malen'kiy volk.

O apelido russo significava "pequeno lobo". A avó e a mãe a chamavam disso desde criança.

Dominika enche a banheira de madeira com água quente, adicionando galhos de alecrim, que utiliza para purificar e expelir qualquer negatividade. Anastasiya se despe das vestes, mergulhando na água aromática. A mãe espalha na palma das mãos gotas de óleos essenciais de lavanda, aplicando nos cabelos úmidos da garota enquanto desfaz a trança. Desembaraça os fios negros com cuidado, enquanto Anya esfrega a sujeita dos braços e pernas, cantarolando com a avó.

As três se juntam aos pés da lareira para o jantar e depois vão para a cama. Dominika ajoelha-se ao lado da filha e acaricia seu rosto delicado com os dedos, desenhando sobre as sardas em seu nariz, cantando baixinho em sua voz doce a música de ninar em russo. Apesar de Anastasiya não ser mais uma criança, a mãe nunca vai deixar de enxergá-la como tal.

"Durma minha querida, pequenina

confortável dentro de sua cama tão apertada

senão o velho lobo cinza virá e te agarrará

Ele lhe rasgará entre os dentes

Se na beira da cama você dormir

E irá arrastá-la para a floresta profunda, embaixo da árvore trêmula

Então feche seus olhos e adormeça

conte as pequenas ovelhas lanosas

confortável e coberta deve ficar, senão ele virá por você..."

— Durma bem, malen'kiy volk... — sussurra, depositando um beijo demorado na testa da garota, que sorri com ternura em resposta.

 

Anastasiya não consegue pregar os olhos. Acaba se levantando silenciosamente, horas depois, e caminha até o pequeno templo que babushka preparou. Sua natureza curiosa a trai e ela passa os dedos pelos fios de lã trançados, amarrando os maços de trigo um ao outro em um pequeno buquê. Sorri, se inclinando para cheirar as ervas dispostas para atrair a força dos ancestrais durante a Primeira Colheira. Sabe que não deveria, mas seu aniversário está próximo. Os espíritos não se importarão com um dia de diferença...

 

O dia mal amanhece quando Dominika acorda com os gritos de Anya, desesperados e roucos, misturados ao choro fraco. A mãe corre até a cama e se ajoelha no chão, passando os dedos pelos cabelos molhados de suor da garota. O rosto de Anastasiya está pegando fogo e ela murmura palavras desconexas, em um delírio febril.

— Ela tocou nas oferendas, Dominika... eu posso sentir. Os espíritos estão raivosos. Não gostam de quem desobedece — Evdokiya murmura, andando de um lado para o outro. Seus olhos azuis e enrugados ficam estreitados enquanto a velha pensa no que fazer.

— O que nós faremos? Não posso perder minha menina...

Em um ato desesperado, a mais velha realiza um feitiço e deixa a garota pairando no ar, com os braços e pernas pendurados, flácidos. O corpo de Anastasiya flutua, acompanhando os passos rápidos de Evdokiya porta à fora. Dominika segue-a pela vila deserta - todos ainda dormem em suas casas.

Vão até o coração da floresta, onde posicionam o corpo de Anya sobre o barro e folhas secas do chão. Mãe e filha murmuram encantamentos e feitiços, invocando a ajuda de todas as entidades que conhecem para que poupem a vida da menina. Mas não obtém nenhuma resposta. Sua filha vai perecer por causa dos malditos espíritos e suas implicâncias.

Dominika então se lembra do homem que mora nas profundezas da mata, onde as árvores não deixam a luz do sol entrar. Elas sabem o que ele é. E o que faz para sobreviver. Seu povo conhecia à espécie de Upyr, que se alimenta da vida de animais. E também sabe que ele tem o poder de transformar humanos.  Ele pode salvar sua filha.

— Vou levá-la ao Upyr — murmura para a mãe.

— Não... Dominika, ela se tornaria uma besta.

Não posso deixar minha menina morrer por causa dos seus malditos espíritos! — grita, pegando o corpo flácido da filha no colo.

A mais velha desiste e a deixa ir. Dominika atravessa a mata, com suas lágrimas escorrendo e caindo no rosto da menina em seus braços. Chega na cabana onde mora o homem, que ela nunca viu pessoalmente, só à distância quando ele se alimentava de animais no condado. Começa a gritar desesperada até que a porta se abre em uma fresta, revelando apenas metade do rosto dele.

— Por favor... eu sei o que você é. Minha menina está morrendo e sei que pode salvá-la...

Ele emite um grunhido zangado e bate a porta na cara da bruxa.

Eu posso te ajudar — Dominka grita. — Você não pode ter contato com a luz do sol, mas meu feitiço mudaria isso.

Ela espera. Depois do que lhe parece uma eternidade, a porta se abre e ele se esconde atrás enquanto a mulher entra. Dominika deixa o corpo frio da filha sobre a mesa de madeira em sua frente. O lugar é escuro, a não ser pela luz solitária de uma vela colocada no chão, ao lado da cama. As janelas são pregadas com madeira, impedindo a entrada de qualquer resquício de luz.

Quando se vira pra encará-lo, encontra o rosto sujo e fechado do homem. Os cabelos longos, costumavam ser loiros - agora adquirem um tom de marrom, com mechas sujas de sangue. As vestes estão encardidas e rasgadas. Seus pés e as unhas das mãos, compridas feito garras, têm camadas de terra preta grudadas.

Mesmo assim, a mulher não hesita. Conjura uma chama alta de fogo em sua mão e o homem dá um passo para trás, assustado.

— Se tentar nos machucar, vou lhe atear fogo sem pensar duas vezes.

Apesar da ameaça, sabe que o homem não é mal. Durante todos os anos morando em Dolj, só o viu matando animais. Nunca atacou nenhum humano..

Ele assente, sem dizer nada.

Se inclina sobre a mesa, olhando o corpo quase sem vida de Anastasiya e deslizando as unhas sujas pelo pescoço da garota.

— Sou Vladimir — diz, numa voz rouca e ríspida.

— Dominika. Ela é minha filha, Anastasiya.

— Sua filha está morrendo.

— Você pode ajudá-la?

Vladimir cruza os braços na frente do peito e põe uma expressão pensativa, com as sobrancelhas franzidas e os lábios petrificados numa linha reta. Ele anda de um lado para o outro e passa os dedos pelos cabelos sujos, soltando um grunhido zangado.

— Se eu transformá-la, ela poderá viver. Mas seria como eu.

Dominika assente, engolindo em seco.

— Faça o que for necessário para que Anya não morra. É só o que eu peço.

— Eu terei que mordê-la e então alimentá-la com meu sangue. Ele será tóxico à princípio e então sua filha morrerá. Quando despertar, seu coração não baterá. Seus órgãos não funcionarão. Ela terá que se alimentar do mesmo que eu caso queira sobreviver e, com os cuidados necessários, viverá para sempre.

— Me prometa que cuidará dela quando eu me for. Por favor.

Ele trinca o maxilar e murmura, zangado.

— Tudo bem.

Dominika assente e Vladimir afasta os cabelos negros e espessos de Anastasiya do seu pescoço. Inclina-se sobre a mesa, inspirando fundo. O cheiro de sangue que emana da menina se torna mais forte. Ele exibe as presas pontiagudas, em um grunhido animalesco e grosso. Seus olhos adquirem uma coloração escura misturada com vermelho-vivo, brilhando na escuridão.

A mulher engole em seco. Este será o futuro de sua filha. Por um instante pensa em dizer que ele pare. Mas seu egoísmo fala mais alto, então não fala nada. Deixa que o homem transforme sua doce Anastasiya em uma besta como ele.

Vladimir crava os dentes no pescoço de Anya e ela não se mexe ou emite som algum. A mordida não dura muito. Ele se levanta e então rasga o próprio pulso com as presas, fazendo jorrar o líquido escuro e pegajoso pelo braço. Força o corte contra a boca da garota, puxando seu queixo para baixo. A mãe pode ver os movimentos de Anastasiya engolindo o sangue de Vladimir, se engasgando e movendo o corpo em um reflexo contrário, como se não quisesse continuar.

Ele retira o braço e seu corte cicatriza em poucos instantes, restando apenas o sangue escorrido. Anya abre os olhos, em uma expressão assustada e dá um último suspiro. Sua mãe segura as lágrimas ao olhar o corpo sem vida da filha, disposto sobre a mesa como um animal abatido.

Somente quando o sol se põe é que os dois são surpreendidos por Anastasiya. Ela se senta de uma vez, puxando o ar com força - olha de um lado para o outro, em choque. A mãe corre ao seu encontro e dá um abraço apertado na garota, se desmanchando em um choro aliviado.

— Eu lhe prometi proteção contra a luz do sol — dirige-se à Vladimir enquanto ajuda a filha a se levantar. — Amanhã estarei aqui e te darei o anel enfeitiçado. Você tem minha palavra.



 

Com o passar dos meses, Anastasiya se acostuma com a nova realidade de sua existência. Vladimir têm sido um bom amigo, ajudando-a a caçar, para que não precisem matar os animais da vila e ensinando-a sobre suas habilidades, que consistem em hipnotizar as pessoas e um aumento na sua percepção e os sentidos mais apurados. Com o anel enfeitiçado que sua mãe a dera, podia ir até a mata durante o dia caçar e praticar seus feitiços à vontade.

Dominika queria matá-la quando a garota praticava a hipnose nela, fazendo-a dançar no meio da sala ou obrigando a avó à gritar em plenos pulmões palavras obscenas. Babushka, que no começo abominava a decisão da mãe, agora passava horas falando com Vladimir.

O homem tem cento e cinquenta anos e conheceu vários membros da família Volkova durante suas viagem pelo continente. Evdokiya não lhe dava um segundo de paz, sempre perguntando sobre os ancestrais. Vlad não se incomodava, visto que é a primeira vez em quase dois séculos que possui algo remotamente parecido com uma família. Ele passou a se banhar com mais frequência, utilizando as essências perfumadas que Dominika o presenteava e suas vestes agora eram limpas e bem cuidadas. Também os cabelos voltaram à cor natural, loiros e claros.

Os moradores de Dolj, no entanto, não estavam satisfeitos. À esta altura sabiam que Anastasiya e Vladimir eram criaturas que se alimentavam de sangue e a tensão aumenta a cada dia. Não se atrevem a atacá-los, pois têm medo. Mas Dominika sabe que terão que partir dali em breve.

 

Anya volta com babushka do interior da floresta depois de passar o dia inteiro praticando seus feitiços de fogo e vento. Tagarela sem parar, se exibindo por ter feito chamas enormes logo de primeira, como somente uma legítima Volkova seria capaz.

— Estou orgulhosa, malen'kiy volk... — Evdokiya diz, abraçando a neta pelos ombros e beijando seus cabelos negros, bagunçados pelo vento. — Tem magia dentro de você.

— Aqui está a bruxa!

Cinco homens surpreendem as duas e passam cordas pela avó, que empurra a garota no chão antes que consigam capturá-la também. Anya olha para ela, desesperada, mas Evdokiya balança a cabeça negativamente, como se lesse seus pensamentos.

— Corra, Anya.

Ela assente, passando por entre as pernas de um dos homens e indo o mais rápido que consegue até sua casa. Precisa ajudar sua mãe. Elas têm que fugir dali. Quando abre a porta, no entanto, vê que é tarde demais. Dominika está sentada aos pés da lareira, com as duas mãos segurando a ferida em sua barriga, que verte sangue, manchando os vestidos brancos.

Anya se ajoelha na frente da mãe e pressiona o ferimento com força, chorando desesperadamente. Dominika sorri tristemente e retira as mãos para pegar o cordão de prata em seu pescoço - coloca a joia, com um lobo uivando, voltado para cima, no pescoço da filha, sujando-a de sangue.

Mama...

— Está tudo bem, meu pequeno lobo... — ela pega as duas mãos de Anastasiya e aperta, com o próprio sangue escorrendo pelos braços. — Vá, malen'kiy volk... mas se vingue deles pela dor que causaram.

A menina assente, mordendo os lábios trêmulos enquanto assiste os olhos verdes e cheios de vida da mãe que se tornam vidrados e pálidos. Ela ajuda Dominika a se deitar, mas quando chega ao chão, não está mais viva. Anastasiya beija a testa da mulher demoradamente, acariciando seu rosto com os dedos ensanguentados.

Sai correndo pelos fundos quando escuta os passos dos homens se aproximando da casa. Se enfia na mata, indo até a casa de Vladimir, deixando seu corpo cair ajoelhado no chão ao entrar. Seus vestidos vermelhos estão manchados com sangue e terra. Ela limpa os dedos, tentando tirar o sangue da própria mãe de si.

— Eles mataram elas, Vlad... as duas. Pegaram a babushka e quando cheguei, já era tarde demais para mama — sussurra, entre soluços.

Vladimir agacha na frente da garota e segura em seus ombros com firmeza.

— Eu sei que está sofrendo, Anastasiya. Mas precisamos ir. Prometi à Dominika que cuidaria de você.

A garota assente, levantando com o apoio dele. Vladimir se apressa e pega dois casacos pretos com capuzes largos o suficiente para esconder seus rostos. Coloca um sobre Anya e um sobre si. Os dois saem pela porta e montam no cavalo, preso na lateral da casa.

Anastasiya envolve a cintura do homem com os braços e encosta o rosto nele enquanto derrama lágrimas no caminho. Eles passam pelos fundos da vila, ainda nos limites da floresta, os dois encapuzados para que ninguém os enxergue. Anya vê ao longe uma fogueira alta que cheira a carne torrada. Seu corpo inteiro tensiona ao perceber que se trata da avó, que deve ter sido queimada viva.

Se concentra para ouvir que o estão gritando.

— Anastasiya Volkova! Apareça, sua assassina!

— Filha do Diabo!

— A bruxa deve estar fugindo com o  Demônio sugador de sangue!

Gargalhadas altas se misturam quando gritam "Queimem a bruxa" em plenos pulmões.

Anya trinca os dentes, tomada pela raiva. As mulheres Volkova curaram as chagas nojentas daquele povo. Ajudaram suas crianças mal-educadas quando estavam morrendo. Trouxeram de volta a graça das mulheres inférteis. Trataram as feridas dos homens asquerosos... e este é o troco? Assassina... demônio... besta...

A voz de sua mãe ecoa repetidamente em sua cabeça.

Meu pequeno lobo.

Vá, malen'kiy volk... mas se vingue deles pela dor que causaram.

Cada parte do corpo de Anastasiya Volkova se enche de raiva. Sente a fúria dos seus ancestrais no vento frio e uivante que toca seu rosto ao desencostar de Vladimir. O poder de toda a magia deles, de sua babushka e da mãe possui o corpo da garota. Raiva é melhor do que lágrimas. Melhor do que luto. Melhor do que a culpa.

Eles queriam um monstro, então ela lhes daria um monstro.

Anya pula do cavalo, assustando Vladimir, que puxa o cabresto do animal de uma vez.

— Anastasiya! — grita, desmontando também.

— Eu vou matar cada um deles e não há nada que você possa fazer.

Vladimir engole em seco, dando um passo para trás ao ver as chamas de fogo que seguem os passos de Anastasiya conforme ela anda pela floresta. Precisa segurar o cavalo, que se assusta e dá um pulo, relinchando alto. Seus olhos negros e as presas dão à ela um semblante ameaçador que ele nunca viu antes. Vladimir deixa que ela vá. Sabe que a garota Volkova não precisa dele. Ela não precisa de ninguém - ao contrário do que Dominika imaginava. E isso é o que a torna fatalmente perigosa.

Os gritos zombeteiros chamando por Anastasiya ficam mais altos conforme ela chega perto. Sua fúria a devora por dentro ao ver a antiga casa destruída - as pessoas batem nas pedras que restam dos alicerces, derrubando toda a estrutura. Os vidros de ervas estão estilhaçados no chão, junto com os livros que têm centenas de anos, onde a família registrava seus conhecimentos sobre bruxaria.

A garota adentra o povoado, fazendo um vento forte e frio apagar o fogo queimando os corpos da avó e da mãe em uma estaca grossa de madeira. Atrás de si, a floresta arde num incêndio que se espalha a cada passo de Anastasiya. Ela sente o poder de cada Volkova que já pisou a terra emanando de seu corpo - sabe que babushka e mama estão do seu lado.

Todos ficam em silêncio e se viram para trás ao uivar do vento, que lembra o de um dos lobos gigantes que habitam nas montanhas frias. Anya abaixa o capuz preto, revelando a face transfigurada que arranca gritos de horror. Pelo menos dez homens vêm para cima da moça, mas ela os derruba com um único movimento e um feitiço mental. Ouve seus ossos trincando com o impacto ao atingirem o chão.

Vocês queriam me ver? Pois bem, Anastasiya Volkova, a bruxa filha do Diabo está aqui agora — arregala os olhos, inclinando a cabeça para o lado com um sorriso frio, exibindo os caninos enormes e afiados. Todos começam a correr feito bêbados, tropeçando e trombando um no outro. — Covardes.

Uma jovem cai nos pés de Anya, se atrapalhando enquanto tenta fugir. A garota agacha, se deleitando com o choro e a tremedeira da outra. Anastasiya segura seu pescoço, tirando a menina do chão e dá uma mordida certeira em sua artéria pulsante, sugando cada gota de sangue, que desce quente e pegajoso pela garganta. O líquido escorre pelo seu pescoço, banhando seu vestido vermelho. As pessoas correm, gritando de maneira histérica, buscando uma saída - mas a feiticeira envolveu toda a vila em um círculo de fogo, assim nenhum deles poderá escapar.

Joga o cadáver pálido, que cai pesadamente no chão. Anya avança, esmagando os ossos e órgãos de homens, mulheres e crianças - qualquer um que se colocar em seu caminho, sem distinção - até sentir os ossos frágeis quebrando feito vidro e se alimenta, dilacerando o pescoço de vários deles até se satisfazer. Alcança o responsável por amarrar sua avó, puxando-o para perto. Seu nariz toca o rosto pegajoso do velho e ela consegue farejar seu medo. Dá um sorriso, afastando os cabelos dos olhos com os próprios dedos e sujando suas bochechas com sangue da vítima anterior.

— Não vou tomar seu sangue... não quero algo tão ardiloso dentro de mim — diz, apertando o pescoço dele com força. — Então... que Deus tenha piedade de você, velho. Porque eu não terei.

Sufoca o homem ao mesmo tempo que enfia a outra mão em seu peito, alcançando seu coração pulsante. Aperta o órgão, assistindo a dor em seus olhos como que vê à uma peça de teatro - com deslumbre e fascinação.

A fumaça do incêndio e o fogo por si só matam a maior parte dos moradores enquanto tentam fugir às cegas, sem enxergar meio palmo à frente. Anastasiya caminha pelas ruínas e cadáveres espalhados pelo chão, chutando as partes flácidas que atrapalham-na. Sorri, satisfeita com o pavor geral.

Encontra um grupo de três garotas que tentam pular as chamas, num esforço ridículo de escaparem para a floresta. Anastasiya dá uma risada histérica e, para o próprio divertimento, apaga o fogo e permite que elas escapem. As meninas correm floresta a dentro, desajeitadas e tropeçando nos vestidos longos.

Anya caminha pacientemente atrás, cantarolando em russo a música que a mãe costumava cantar enquanto acariciava seu rosto antes de dormir:

Durma minha querida pequenina, confortável dentro de sua cama tão apertada senão o velho lobo cinza virá e te agarrará... —  alcança uma delas e aperta seu maxilar com força, sorrindo com as presas sujas de sangue. — Ele lhe rasgará entre os dentes, se na beira da cama você dormir. E irá arrastá-la para a floresta profunda, embaixo da árvore trêmula. — Quebra o pescoço da menina com facilidade e se dirige às outras duas, erguendo-as, uma em cada mão. Sufoca as garotas aos poucos, sem desviar o olhar enquanto termina a canção: — Então feche seus olhos e adormeça, conte as pequenas ovelhas lanosas... confortável e coberta deve ficar, senão ele virá por você.

Respira profundamente, sorrindo, ao ver que não resta mais nenhuma alma viva no condado de Dolj. Até escutar uma respiração acelerada e batimentos descompassados vindos de algum lugar em sua frente. Dá alguns passos na direção do som e sente a presença de alguém atrás do tronco grosso de árvore ao seu lado. Anya dá a volta, encontrando um rapaz assustado, coberto por sangue e fuligem. Ele treme da cabeça aos pés e fecha os olhos, esperando pela morte.

Anastasiya o puxa pela nuca e lambe os lábios, dizendo:

— Vá... conte à todos o que eu fiz. Eles nunca mais gritarão meu nome — se aproxima do rapaz e lambe seu rosto, do queixo até as bochechas, sussurrando em seu ouvido, com a testa encostada na têmpora dele: — A partir deste dia, todos irão sussurrar o nome de Anastasiya Volkova.

Solta o moço com violência, fazendo sinal com a cabeça para que ele saia dali. Ele corre, sem olhar para trás, se enfiando entre as árvores escuras. A risada alta de Anya ecoa pela mata, se misturando ao barulho das chamas trepidantes, seguida por seu grito:

— Corra, ovelhinha, corra — completa para si mesma em um sussurro: — ...corra antes que o lobo mude de ideia.

A garota volta para onde Vladimir estava e ele continua ali, esperando. Caminha devagar porque todo o sangue em suas vestes pesa o tecido para baixo.  Não retorna à vila nem mesmo para recolher os ossos da mãe e da avó, porque sabe que não restam nada além de ossos sem vida ali.

Vladimir encara a garota e não diz nada. As presas e os olhos dela voltam ao normal. Seu corpo está banhado em sangue e cinzas dos mortos que queimou. Ela cheira a morte e destruição. Seu coração dói ao ver a garota doce que uma vez foi tão suave quanto água, se transformando em uma arma mortal. Anya deixou uma parte de si no condado de Dolj, junto com a mãe e a avó. Essa é a tragédia da vida.

O homem estica a mão, ajudando-a a montar no cavalo novamente. Seus dedos ficam pegajosos com o líquido vermelho que escorre pelos braços de Anya. Ela sobe no animal, seguida por ele. Abraça-o pela cintura e os dois somem na noite escura, galopando por entre as árvores.

 

 

 

 

 

“You're a foul heathen

A demon of malevolence

Venomous bitch

Old witch

You're the reason for all our sins

Burn the witch!“    

Witch - KARLIENE   

 

 

 


Notas Finais


Link da canção que a mãe da Anya costumava cantar. A cena dela correndo atrás das meninas e cantando fica muito mais intensa quando se ouve a música original. Minha tradução não foi tão exata, porque traduzi de uma versão em inglês, mas é igualmente tensa hsauhsua

https://www.youtube.com/watch?v=8f8WYvAo-RA

E aqui uma das músicas da artista que citei lá em cima - essa em particular fala sobre bruxas, o trecho dela é que foi citado no final.
https://www.youtube.com/watch?v=_kEFwjXiIMs


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