História Liberta-me - Capítulo 13


Escrita por: e JulesA

Postado
Categorias Os Instrumentos Mortais, Shadowhunters
Personagens Isabelle Lightwood, Simon Lewis
Tags Drama, Romance, Sizzy
Visualizações 81
Palavras 5.581
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Hey, mais um capítulo. Não, não morremos e não, não abandonamos a fanfic.

Mas confessamos que são 4 da manhã e não revisamos e mal editamos e não estamos apologéticas em relação a isso;

Aproveitem!

Capítulo 13 - Nada de importante aconteceu aqui


Agora que você sabe quem você é
O que você quer ser?
E você já viajou muito longe?
Até onde os olhos conseguem enxergar
(...)
Querido, você é um homem rico
- The Beatles

Dezenove dias.

Isabelle não estava nervosa, muito menos ansiosa. Ela ficava nervosa quando tinha que pedir permissão para algo, quando tinha que sair da zona de conforto dela, quando Helen fazia alguma pergunta díficil para Maxwell e ele esperava que ela soubesse a resposta (ela geralmente não sabia. No fim das contas Robert era um tutor bem medíocre). Isabelle estava pura e genuinamente desesperada.

Ela sentia em todas as fibras do seu ser que ter ido até o Meliorn tinha sido uma péssima ideia, principalmente porque ele fazia questão de lembrar do prazo final dela para sair da casa de Simon e ir embora com ele. Dezenove dias. O humor de Isabelle não estava um dos melhores por conta disso e o belo dia que fazia parecia debochar de sua cara.

Meliorn estava estranho. Ele sempre a apoiara em tudo que ela queria, até porque ele sempre esteve incluído nos planos dela. Claro que ela não falara para ele sobre suas inseguranças e dúvidas, porém ela quase conseguia sentir que ele sabia de seus questionamentos. Isso a assustava de certa maneira: ele estava impaciente, nervoso e, quando ele explodia, ele tendia a ficar agressivo. Ele tinha sido grosseiro mais de uma vez durante esse último encontro e gritara com ela também. Isabelle estava desconfortável com a situação, contudo, como em outras situações, ela ignorava porque ainda era Meliorn e ele sabia o era o melhor para ela. Ela estava insegura e ele era a pessoa com certezas nesse relacionamento.

De qualquer maneira, ela tinha apenas dezenove dias.

Isabelle resolveu espairecer, determinada a esquecer por um tempo seu prazo e o dilema a respeito de suas decisões e pensar apenas em tecidos e nos lindos vestidos que vira em sua última viagem a Paris com seus pais como a “exemplar” donzela Lightwood. Seguiu em direção ao vilarejo com Hunter, seu fiel escudeiro, que parecia estar muito feliz em ir embora do esconderijo de Meliorn.

Como de costume, a jovem foi cumprimentada por diversos mercadores e clientes; já era conhecida e, mesmo que não comprasse tanto quanto os boatos diziam, era querida ali.

Ao chegar na loja do Sr. Charpentier, foi logo abordada por Jean-Jacques, o filho mais velho do dono Louis Charpentier.

一 Bonjour, Mademoiselle Montgomery.

Isabelle forçou um sorriso. Depois de alguns meses, ela já tinha se acostumado com o título (uma parte dela quase gostava de ser chamada assim), contudo ela não estava no clima. No máximo ela queria comprar alguns tecidos e ir para casa remoer seus problemas.

一 Bonjour, Jean-Jacques. O que me traz de novo?

一 Sempre curiosa, mademoiselle, trouxemos cetins bordados da Índia, cores quentes são as mais cotadas para este verão, é uma pena que não possamos trazer uma variedade maior…

一 Ora, mas por que, Jean? Eu acreditava que os negócios estavam indo bem. Vocês precisam de alguma ajuda? 一 A jovem disse a última frase em um tom cuidadoso, a última coisa que queria era ofender a família Charpentier. Sabia como os franceses eram bons em guardar rancor.

一 Non, ma chère, os negócios vão bem, são apenas os limites de um negócio familiar, não podemos arriscar os negócios com tecidos de extremo luxo, mas se eu pudesse, ah, investiria nos chiffons e sedas nesse verão, Antoinette tem os mais lindos modelos em nosso ateliê.

O mundo da moda e dos negócios sempre interessou a jovem, que aprendera de perto com seu pai sobre compra e venda desde cedo, mas assim que Robert se lembrava que Isabelle era uma menina, era banida do escritório e das reuniões, só sendo recebida quando trazia café ou uísque e charutos para os “amigos” de Robert, sempre se aproveitando da distração dos visitantes com a sua beleza para pescar novas informações sobre investimentos e comércio.

一 Mal consigo imaginar, precisarei ver-los logo, sabes como fico quando me deixa esperando.

一 Oui, ma dame. Papa deve chegar com alguns tecidos em umas duas semanas.

Isabelle assentiu animada, até se lembrar de que não teria duas semanas para escolher tecidos e mandar fazer vestidos. Em dezenove dias ela teria que ir embora, querendo ou não, e ela nem deveria estar se distraindo com coisas banais. Se fosse para escolher algum tecido, ela talvez ficasse com o linho. Ela precisava de algo que fosse prático e duradouro, mas que também não chamasse a atenção das pessoas para ela e Meliorn.

一 Talvez algodão cru 一 ela analisou enquanto focava nos fios de ouro da seda verde.

一 Nesse calor, mademoiselle? Não creio que seja uma boa ideia.

Ela piscou, sendo trazida de volta a realidade por Jean-Jacques. Ela deixou o tecido de lado e respirou fundo.

一 Eu preciso ir.

一 Mas já? Não chegamos nem a discutir modelos de roupas.

一 O lorde está a meu aguardo 一 ela mentiu 一 Preciso mesmo ir.

一 Não serei eu a contrariar meu lorde 一 ele disse e se curvou levemente 一 Au revoir, milady. Não esqueça sua revista.

Isabelle, que já tinha se esquecido de sua revista trimestral de moda que os Carpentier faziam questão de trazer sempre um exemplar para ela, pegou com pressa e montou em Hunter, partindo em disparada até sua casa.

Para ser sincera, Isabelle tinha dúvidas. Uma parte sua acreditava que a melhor coisa que ela podia fazer era ir embora com Meliorn, não só porque ela tinha prometido que ia, porém porque ele era familiar e a lembrava de uma época em que as coisas eram mais simples. Ela gostava dele de verdade, ela sabia que seria feliz com ele, mesmo que ultimamente ele estivesse sempre irritado com ela.

Por outro lado, ela tinha mais coisas a considerar do que apenas sua felicidade. Ela era respeitada e tinha um lugar de poder no vilarejo; ela tinha encontrado pessoas que a amavam do jeito que ela era; apesar de estar noiva, ela não tinha nenhum tipo de obrigação com Simon e os dois viviam muito bem do jeito que estavam; Isabelle sabia que seus pais nunca a atacariam de maneira alguma enquanto ela estivesse ali. E Max... Maxwell estava em êxtase na propriedade: ele amava tudo ali, amava Simon, amava Jordan, amava aprender com Helen, que de acordo com suas palavras, era a melhor tutora que já tinha existido.

Maxwell talvez nunca a perdoasse se ela o tirasse do lugar que ele já chamava de lar.

一E agora, o que eu faço? 一 ela se perguntou em voz alta.

一 Falando sozinha, Lady Montgomery?

Isabelle deu um gritinho nada dignificante e quase caiu de Hunter. Ela não tinha percebido que já tinha chegado a seu destino final e estava montada em Hunter sem andar.

一 Jordan! Como pode assustar uma donzela assim? Quase caio de Hunter por sua culpa. 一 O cavalo bufou como que concordando com a sua amazona.

Isabelle tinha um olhar inocente seu rosto, mas Jordan não cairia nos truques da moça.

一 Mil desculpas, milady. Como, em minhas humildes habilidades, posso lhe auxiliar com seus problemas? 一 Ele tinha um sorriso malandro no rosto quando terminou seu discurso dramático.

一 Não se faça de esperto, Jordan Kyle, sabemos muito bem que não se poria a ajudar-me com minhas preocupações tolas de mulher. 一 As palavras que Maryse ensinara a Isabelle nunca foram tão bem utilizadas, ou tão saturadas com sarcasmo. 一 Não te incomodarei mais.

一 Absolutamente 一 ele zombou. 一 Seus problemas são meus problemas. O que tem que resolver?

Ela ponderou dizer que não era da conta dele, mas ele nunca deixaria morrer o assunto se esse fosse o caso. Falar a verdade estava mais do que fora de cogitação. Precisava de uma desculpa decente e rápido. Não poderia envolver Maxwell ou Simon nisso pois atrairia ainda mais a atenção do rapaz. Pelo mesmo motivo, Maia também estava fora de cogitação. Quem Isabelle conhecia que não tinha amizade com Jordan?

Foi então que Isabelle falou a coisa mais estúpida que ela pensou que seria capaz de dizer:

一 Queria fazer uma reunião com minhas amigas.一 Saiu como um gemido baixo de sofrimento.

Jordan a olhou tão seriamente que ela pensou que ele iria dizer algo muito inteligente, mas tudo que saiu de sua boca foi:

一 Você não tem amigas, Isabelle.

一 Claro que eu tenho. 一 ela desmontou de Hunter 一 Eu quero que você mande uma mensagem para Helen, uma para Clarissa e uma para minha prima Aline Penhallow, faz muito que eu não a vejo. Avise Maia que ela também terá que participar.

Jordan assentiu e se retirou, deixando Isabelle sozinha. Finalmente. Isabelle bufou. Ela tinha muito o que preparar graças a própria idiotice.

Pela terceira vez Isabelle dobrou uma saia e hesitou no momento em que suas mão tocaram a mala aberta sobre a cama, não podia levar tantas roupas, desfez a mala por completo, dobrando peça por peça e as colocando em suas respectivas pilhas sobre a cama. Podia levar pelo menos seu colar de rubi, certo?  

Poderiam precisar de dinheiro e as jóias valeriam bastante...

Porém a jovem não conseguia imaginar-se se desfazendo das pouquíssimas peças que trouxera do casarão Lightwood: os brincos que foram de sua avó, o colar de rubi da sorte e a pulseira de ouro branco que Simon lhe dera de presente ainda no pulso da moça, os olhos da serpente encarando a jovem, como se soubessem que seriam usados apenas como moeda de troca.

Estava pronta para recomeçar sua tarefa quando ouviu uma batida na porta.

一 Isabelle, que história é essa de festa? 一 A voz de Maia ressonava através da porta e em um momento de pânico, Isabelle jogou todas as roupas dentro da mala sem muito jeito e chutou a mala para debaixo da cama. Por sorte, suas jóias estavam sobre a mesa ou perderia os brincos de vista.

一 Que festa, Maia? 一 Ela tentou parecer calma, mas não se saiu muito bem na tarefa. 一 Estou organizando apenas uma reunião com minhas amigas, não nos vemos há muito tempo.

Maia abriu a porta com uma expressão impassível no rosto.

一Isabelle, você não tem amigas.

一 Pare de ser amarga, Maia, toda moça tem amigas.

A expressão no rosto de Maia continuou a mesma.

一 E como estão os preparativos? 一 Perguntou a jovem governanta. 一 Já enviou os convites?

一 Por isso mesmo precisarei de sua ajuda! Nunca planejei algo tão íntimo e preciso que cuide de alguns detalhes para mim. 一 Manter Maia ocupada era sempre uma boa maneira de ganhar tempo, principalmente com uma fuga para planejar.

O pensamento entristeceu Isabelle um pouco, não queria deixar Maia para trás, não com tantas coisas que ainda não tinham feito juntas.

Com um suspiro cansado, Maia respondeu.

一Claro, milady, organizarei seu chá da tarde com as outras ladies.一 Isabelle revirou os olhos.

一 Está passando tempo demais com seu namorado, Maia, já estão dando as mesmas respostas abusadas. 一 Isabelle aproveitou o choque de Maia - que gaguejou uma resposta qualquer - e a guiou em direção a porta, fechando-a logo depois.

(...)

Dezoito dias.

Era raro Simon cair no sono antes de Isabelle quando se encontravam na sala de música todas as noites, por isso Isabelle não soube muito bem para onde ir depois de cobrir um Simon adormecido no divã. Decidiu por voltar a seu quarto, não tinha nem ideia do que os funcionários da mansão diziam sobre as muitas noites que dormira junto do jovem lorde, mas quis evitar ser pega dormindo fora de seu quarto. A cama estava perfeitamente feita e a jovem se sentiu estranha dormindo sozinha.

Entretanto, esse sentimento não vingou até a manhã, já que fora acordada com um furacão chamado Maia entrando com tudo no quarto, já chamando por Isabelle e fazendo mil perguntas por minuto, sem dar tempo o suficiente para a jovem despertar completamente.

一 Maia, por tudo que é sagrado, saia do meu quarto! 一 a moça cobriu a cabeça com os cobertores enquanto Maia abria todas as cortinas.

一 Você planejou isso, madame. Levante e se apronte para receber suas amigas! 一 A governanta continuou com seu plano de tortura, puxando os cobertores da jovem.

一 Eu te odeio! 一 Isabelle resmungou, enfiando o rosto no travesseiro mais próximo.

一 Não me culpe pelos seus erros, Isabelle. Levante que hoje não tem café no quarto com o lorde!

Um travesseiro foi atirado na direção de Maia. Que riu da atitude da lady.

一 Estarei na sala de jantar em meia hora, agora saia!

Isabelle bufou enquanto terminava de arrumar as flores na sala de chá de sua casa. Todas as meninas tinham confirmado com Jordan que apareceriam - Helen, inclusive, já estava em casa tutorando Maxwell, e ela não tinha muito tempo para deixar tudo do jeito que pretendia até chegarem.

Simon tinha olhado estranho para Isabelle quando ela contou, como se ele também achasse muito estranho o fato da Lightwood ter amizades femininas, mas achou uma boa ideia. Ele parecia feliz por Isabelle estar mais à vontade a ponto de convidar pessoas até a casa, e Isabelle sabia que ele ficava satisfeito de vê-la transformando cada vez mais a mansão em um lar.

Mais uma coisa que tornava o fato de deixá-la muito difícil.

一 Isabelle! 一 a menina congelou no lugar quando ouviu a voz atrás dela. 

Ela tinha esquecido que tinha sido essa mesma voz que a colocara nessa situação.

一 Minha prima 一 ela se virou e abraçou levemente Aline, mostrando uma compostura que com certeza não exibia no dia a dia. 一 Como é bom revê-la.

Para ser sincera, Isabelle queria se exibir um pouco para Aline. Ali na mansão, ela era uma pessoa totalmente diferente do que ela era enquanto estava com os pais. Ela estava mais confiante, mais madura. Aquela era a casa dela, seu pequeno reino de faz de contas.

一 Igualmente. Pensei que só teria o prazer de vê-la quando o casamento chegasse. 一 ela se aproximou mais do ouvido de Isabelle 一 Afinal, quando será esse casamento? Confesso que estou ansiosa para conhecer o lorde. 一 Aline arregalou os olhos 一 Ele não está aqui, está? Helen fala deveras bem de seu noivo, apesar de nunca dar detalhes. Helen sempre guarda o melhor de tudo para ela.

一 Meu noivo se encontra sim em casa, Aline 一 ela não pode deixar de marcar o fato de que Simon era seu noivo, ainda mais com toda a curiosidade de sua prima em relação à ele 一 Porém ele é muito atarefado e está em seu escritório cuidando dos negócios.

Aline assentiu e mordeu o lábio, parecendo mais séria de repente.

一 Como você está, minha prima? Soube do que meus tios fizeram, o quão brutos e desalmados foram. Se soubéssemos antes teríamos feito questão de que ficasse conosco. É inadmissível a atitude deles, minha prima.

Isabelle ponderou a pergunta por um tempo.

一 Eu estou bem. Estou melhorando, pelo menos. Lorde Montgomery cuida bem de mim. Todos cuidam. 一 ela se corrigiu quando percebeu o que tinha dito 一  Eu encontrei um lar.

E era verdade.

Aline logo tratou de mudar de assunto, o que Isabelle não deixou de ficar grata. Ela não sabia lidar muito bem com seus sentimentos e aquele chá ridículo era uma boa maneira para que seu único sentimento fosse o desgosto. Aline falou sobre seu noivado e os preparativos do casamento com Mark Blackthorn e como Helen a ajudava com as coisas, como Helen era uma boa companhia quando Mark estava indisposto, de como Helen era a melhor amiga que ela poderia ter no momento.

Isabelle suavizou na hora e toda mágoa que ela ainda tinha contra sua prima se esvaiu na hora. Ela sabia que Aline não estava falando apenas sobre uma amizade comum. Sua prima tinha no rosto a mesma expressão que Alexander tinha antes de fugir. Ela também sabia que fugir nunca seria uma opção para Aline, então a menina provavelmente ficaria presa em um casamento infeliz e nunca viveria o amor que tanto sonhara e merecia. Pobre Aline.

Não tardou muito para que as outras meninas chegassem. Clarissa veio como sempre, como se parte daquela casa fosse dela, contando como ficara feliz pelo convite e que ela já tinha falado com Lorde Montgomery antes de ir para lá. Helen chegou logo depois, garantindo que Maxwell estava bem e que tinha ido brincar com Jordan. Pelo olhar que Helen mandou para Aline, Isabelle soube na hora que os sentimentos eram recíprocos. Maia foi a última, que chegou com alguns lanches para elas.

Enquanto elas falaram sobre moda Isabelle aguentou, era divertido até. Ela podia ficar falando sobre moda já que era um dos poucos assuntos que se considerava apta a discussão. Quando o assunto mudou para a vida dos moradores do vilarejo, ela ainda estava interessada: ela tinha ficado genuinamente curiosa sobre o escândalo dos Cartwright. O filho deles sempre tinha sido desagradável. Foi quando elas começaram a falar sobre arte que Isabelle quis bater em sua própria cabeça com a bandeja de chá, ou que uma tempestade surgisse, qualquer coisa para mudar de assunto, até mesmo que Meliorn entrasse correndo na mansão, brandindo uma espada curta e demandando um duelo com o Lorde pela mão de Isabelle.

Pensando bem, talvez arte fosse melhor mesmo.

一 Isabelle, está prestando atenção? 一 Helen perguntou e tirou Isabelle de seu devaneio.

一 Claro que estou, vocês estão falando de arte. Pintura, pintores. Inspiração. Sodomia.

一 Olha, ela não está tão errada. 一 Clarissa ponderou. 一 Eu fico feliz que estejamos aqui. Eu amo meu marido, porém eu sinto falta de estar entre garotas.

一 Tenho que concordar 一 Isabelle mentiu descaradamente.  一 É muito bom estar com todas vocês.

一 Ora, Isabelle 一 Maia começou e a Lightwood sabia que boa coisa não viria 一 Faltou apenas Lady Belcourt para que essa tarde ficasse completa.

一 Você é amiga de Camille Belcourt? 一 Aline parecia uma criança na hora da sobremesa. Maia e Clarissa, que sabiam que as duas não se davam bem, apenas riram da careta que foi se formando no rosto de Isabelle. 一 Eu a vi uma vez em uma viagem à Itália, fomos a uma ópera em que ela convidada de honra. Muito elegante e bonita.

一 Lady Belcourt é realmente uma pessoa distinta, não acha, Isabelle? 一 Clarissa perguntou, entrando no jogo de Maia.

一 Distinta é uma palavra boa para ela 一 Isabelle resmungou e se levantou da cadeira onde estava sentada 一 Se me dão licença, eu preciso ir ao toilette.

Isabelle não esperou as amigas responderem, ela apenas deu um sorriso murcho e se retirou da sala, quase ouvindo a risada de Maia e Clarissa.

A jovem já havia passado do ponto de precisar de uma pausa da situação em que ela mesma se colocara, mesmo que em nenhum momento tivesse previsto que Camille Belcourt seria o foco da discussão. Seguiu mansão adentro, dizendo para si mesma que estava em um passeio sem rumo, mas não se surpreendeu quando se deparou com o vitral em losango da porta do escritório do famoso Lorde Montgomery.

Sem pensar duas vezes, virou a maçaneta e abriu uma brecha da porta, parando subitamente quando ouviu o tom sério e calmo da voz de Simon.

一 Preciso que leve estes documentos para o Sr. Manaois com urgência, espere pela resposta dele à minha proposta e a traga de volta, sem desvios no caminho. Espero que volte no prazo de uma semana. 一 Ele soava anos mais velho, soava como um lorde.

一 Sim, senhor, pode confiar que cumprirei o prazo. 一 O rapaz falava de forma humilde.

一 Espero que sim, não fiquei nem um pouco satisfeito com o seu trabalho com os mercadores de Varsóvia, quero que entenda a seriedade desta transação. 一 Simon repreendeu o jovem, que pareceu sentir o peso de seus erros, mas em nenhum momento pareceu humilhado como os criados no casarão Lightwood.

A moça aproveitou que sua presença não parecia ter sido notada e tentou fechar a porta furtivamente, porém o mensageiro escolheu aquele mesmo momento para sair do cômodo, abrindo a porta subitamente, surpreendendo a jovem que ficou sem reação com a mão pendurada, prestes a bater.

一 Entre, senhorita Lightwood 一 Disse Simon, suavemente, mas sem mudar o tom de voz autoritário. Isabelle não pode deixar vacilar com o uso formal de seu nome. Simon nunca a tratava daquele jeito. 一 Obrigado, Marcell, pode seguir com seus afazeres.

Isabelle ainda não sabia o que fazer consigo, se pedia desculpas e fugia ou se prosseguia com o que queria dizer a Simon, mas nem ao menos se lembrava do que tinha a dizer.

一 Com licença, senhorita Lightwood. 一 O jovem Marcell parecia tão incerto quanto a moça.

Decidiu por fim, deixando o rapaz seguir seu caminho, Isabelle entrou no cômodo, estranhamente tímida, escondendo suas mãos nos bolsos da saia e olhando para tapete intrincado que cobria o chão. Não sabia exatamente explicar porque estava tão nervosa em falar com esse Simon sério, mesmo que soubesse que ele ainda era o mesmo doce Simon que tocava melodias até os dois caírem no sono.

一 Sinto muito pela interrupção, por um momento esqueci que estaria ocupado com seus negócios, não pretendo lhe atrapalhar mais em nenhuma maneira, senhor. 一  Isabelle se desculpou de maneira sublime, da mesma maneira que costumava se retirar do escritório de Robert Lightwood. Essa pequena ação causou um arrepio que subiu pela coluna da jovem, a fazendo se sentir estranhamente constringida.

Simon franziu o cenho, largando a pena e se recostando na cadeira grande. Isabelle teve vontade de dizer que aquilo não o tornava mais casual ou menos intimidador - de uma maneira positiva, no entanto.

一 Não, Isabelle. Se teve que vir até aqui, o que nunca faz normalmente, é porque deve ser importante.

一 Não de verdade 一 ela sorriu amarelo 一 Eu confesso que não estava pronta para estar com tantas pessoas diferentes, mesmo que todas sejam muito queridas. Eu precisava de um tempo delas e... eu senti sua falta. 一 ela arregalou os olhos notando o que tinha dito 一 Mas sei que estou atrapalhando, então vou voltar para meu chá, afinal são minhas convidadas.

Simon a olhou estranhamente, os olhos lhe diziam que ele ainda tinha algo a falar, mas a boca se manteve imóvel, talvez com um leve sorriso, mas Isabelle não era tão boa com detalhes para acreditar na doçura daquela expressão. Mais que doce, era delicado e sútil. Frágil.

Seu coração deu uma descompassada, mas ela ignorou.

一 Não, fique. Sei como essas situações são. Fique aqui enquanto eu trabalho.

一 Muito obrigada, Simon, prometo que não atrapalharei.

E ela não atrapalhou. Ela pegou algum livro qualquer sobre música, que ela não estava particularmente interessada e fingiu estar lendo enquanto na realidade observava Simon passar de documento para documento, fazendo anotações e andando de um lado para o outro em busca de mais papéis.

Era engraçado vê-lo trabalhar, porque apesar de saber que ele amava muito mais a música ele se dedicava igualmente para os negócios. Ela imaginava que não era só para manter a fortuna e seus luxos musicais, mas para manter o legado de seu tio; porque Simon fazia muito bem para a comunidade garantindo que todos ali estivessem confortáveis e bem com seus pequenos negócios, como a família Carpentier com sua alfaiataria.

No entanto, ela podia ver que ele estava inquieto com o que quer que ele estivesse pesquisando.

一 Eu desisto 一 ele murmurou, sentando-se de novo em sua cadeira e tirando os óculos, esfregando os olhos com força. 一 Isabelle, você por acaso sabe como lidar com o mercado de tecidos?

Ela ponderou se deveria ou não responder. Ela sabia que tinha sido uma pergunta retórica e que Simon não queria mesmo sua opinião, porém era algo que Isabelle sabia, e ela queria ajudar como podia.

一 Acho que posso ajudar com isso. 一 ela começou e ele levantou o olhar esperançoso, o que só a incentivou 一 É de meu conhecimento que os estoques do senhor incluem sedas indianas, sedas com brocados e linho de excelente qualidade, mas tais peças não vão vender bem para os moradores dos vilarejos ao redor, e o grande Lorde Montgomery não vai sair de porta em porta vendendo tecidos para os poucos nobres ou mercantes ricos ao redor da propriedade. Todo esse é estoque parado é perda de dinheiro, enquanto o senhor poderia vender tais tecidos nas capitais e reinvestir o lucro em algo mais comum e prático, que lhe custará uma parcela do custo atual e venderá em poucos meses para pessoas mais humildes, ganhando muito mais na quantidade vendida, podendo aumentar mais ainda esse lucro se fizesse uma parceria com algum alfaiate, como os Carpentier, e vender as peças prontas. 一 A moça terminou um pouco sem fôlego, faziam anos que não podia dar sua opinião em algo tão importante. Isabelle sabia, inclusive, que provavelmente tudo que tinha saído de sua boca era um bando de baboseiras sem sentido.

Ele se endireitou na cadeira, Isabelle notando que a postura tinha voltado a ser a de homem de negócios. Lorde Montgomery. Ela se arrependeu de ter dito qualquer coisa.

一 Isabelle, encoste a porta, por favor.

一 Sim, meu lorde. 一 Ela se dirigiu a porta, a cabeça levemente abaixada e pronta para ir embora, envergonhada por ter falado tanto. 一 Não irei mais atrapalhar.

一 Do que está falando? 一 Simon parecia genuinamente confuso. 一 Puxe uma cadeira, sente-se comigo. Temos muitos negócios a discutir.

Um sorriso sincero se espalhou no rosto da jovem, que fechou a porta e se pôs a trabalhar; recolhendo os papéis que Simon a indicava, calculando e corrigindo valores, discutindo estratégias de venda numa conversa fluida e leve, com até algumas risadas. Os dois perdendo a noção do passar das horas, entretidos no trabalho em mãos. O número de documentos espalhados pelo escritório dobrando, mas os dois satisfeitos. Havia muito que Isabelle não sabia em questões de números, entretanto, Simon não a fazia se sentir inferior, ele a corrigia delicadamente e a incentivava para que continuasse a participar.

一 Simon, você não vai acreditar no que a Isabelle fez desta vez! 一 Maia praticamente gritou ao abrir a porta sem nenhuma cerimônia, assustando levemente os dois. 一 Ela armou esse circo todo para as amigas dela e simplesmente sumiu, eu aposto que ela pegou aquele cavalo maluco dela e foi só Deus sabe para onde!

O casal viu as várias expressões passando pelo rosto da jovem governanta; surpresa, raiva, choque, confusão, talvez um pouquinho traída, tudo se dissolvendo numa expressão séria final. Isabelle avaliou a situação, notando finalmente que em algum momento durante a discussão ela havia se recostado sobre a mesa de madeira e interessada no documento nas mãos de Simon, se aproximou mais ainda, seu busto a meros centímetros do rosto do famoso Lorde Montgomery.

一 Eu estou aqui, Maia 一 Isabelle constatou enquanto tentava se ajeitar discretamente. Ela tinha ao seu favor o fato de que eles não estavam fazendo nada de impróprio.

一 Não quero saber o que se passa aqui. 一 Maia negou, já recuando uns passos 一 Eu me recuso a saber o que está acontecendo nesse escritório. Eu vou voltar para minha festa. 一 ela bateu a porta, deixando os dois sozinhos.

Simon olhou para Isabelle e ela o olhou de volta, ambos caindo na gargalhada no exato momento. Isabelle nunca tinha percebido o quão gostosa e viva era a risada de Simon. A risada deles foi morrendo com o tempo, mas ambos continuaram se encarando. Livres, leves e jovens. Isabelle sempre fora fã de olhos claros, porém os olhos de Simon tinham um tom de chocolate que ela descobriu que não se importaria nem um pouco de afundar.

Foi então que algo mudou.

Isabelle costumava ler em livros de romance - não que ela lesse muito - que quando alguém se apaixonava, quando ela via a pessoa amada ela esquecia como respirar por um tempo. Que era como uma asfixia, mas positiva. Doloroso, mas prazeroso.

Isabelle descobriu que isso era idiotice.

Quando ela olhava para o Simon, ela sentia o contrário. Ela sentia que as cores estavam mais vivas, que ela reparava todos os detalhes do escritório, que Simon não tinha uma ordem certa para os livros, que estavam empilhados em todas as superfícies do cômodo, também viu os pequenos artefatos das viagens que o jovem fez pelo mundo. Sendo que, ao mesmo tempo em que reparava em todas essas coisas, ela só conseguia reparar em Simon. Seu rosto tinham pequenas cicatrizes que ela julgava que fossem do incêndio de sua antiga casa; ao redor de seus olhos tinham leves marcas de expressão, que ela sabia que era porque ele sorria muito e seus olhos se fechavam com o ato. Sua barba estava precisando ser feita, mas isso o deixava mais charmoso de certo modo; seus lábios eram grossos e um pouco ressecados e ela se viu curiosa para sentí-los.

Isabelle sentia o ar mais puro, de repente respirar era mais fácil. Ela sabia que estava apaixonada por Simon Lovelace, e que era tão fácil e natural quanto respirar.

Ela se aproximou dele, dando um leve beijo em sua bochecha, torcendo para que as suas não estivessem vermelhas.

Simon a olhou com os olhos arregalados, mas igualmente vermelho. Ele abriu e fechou a boca diversas vezes, sem sair nenhum som. De algum jeito, a falta de tato dele a ajudou a relaxar e a tentar agir naturalmente.

一 Vamos voltar a trabalhar, Simon. Você tem muito a me ensinar.

一 Sim, claro. Vamos. Eu posso fazer isso. Trabalhar. Negócios. Vamos, Isabelle.

Eles trabalharam em um silêncio confortável - porque depois de sua descoberta, até ficar em silêncio com Simon era agradável -  até que uma leve batida na porta foi ouvida, mas que não esperou para ser autorizada.

A segunda vez que Maia visitou o escritório foi muito mais formal que a primeira, perguntando ao senhor Simon se poderia entrar. A formalidade da governanta causou um estranhamento no casal, mas isso se dissolveu tão rapidamente quanto apareceu.

一Simon, sua amiga querida que não pode passar mais de um mês sem aparecer nesta casa veio lhe cumprimentar.一 A acidez na voz de Maia foi o que normalizou o clima da última visita.

一Eu não preciso mais de apresentações, Maia.一 Clarissa respondeu com uma leve careta.

Clarissa não esperou Maia terminar de lhe alfinetar e entrou no cômodo em um único impulso, indo na direção de Simon, já abrindo os braços e o abraçando, o jovem demorou uns segundo para reagir ao abraço, meio sem jeito.

一J-Já está partindo, Clary? Aproveitou o chá da tarde? 一 O rapaz estava confuso, ainda perdido na discussão de estratégias de vendas. Isabelle tentou ignorar o fato de que não conseguia parar de olhar para as mãos de Clarissa acariciando os ombros e braços de Simon.

一 Teria aproveitado mais se essa mocinha aqui não tivesse fugido justo quando a conversa ficou interessante! 一 Ela respondeu, apontando um dedo esguio na direção de uma Isabelle distraída.  

一 Eu dificilmente vejo Camille Belcourt como alguém interessante 一 ela respondeu secamente, seu bom humor se esvaindo como geralmente acontecia quando Clarissa estava por perto.

一 Enfim 一 Simon tentou apaziguar a situação 一 Faça uma boa viagem de volta, não tarde em escrever.

Clarissa olhou de Simon para Isabelle e a Lightwood tentou não se incomodar com a inspeção que parecia que a ruiva estava fazendo.

一 Tenha cuidado nas estradas, afinal você tem um marido para quem voltar. 一 Isabelle disse em um tom leve e um sorriso no rosto, como sua mãe lhe ensinara. 一 Logo, logo devem aparecer pequenos Herondales para correr nos nossos jardins! Espero notícias! Até logo, Clarissa.

Ela ouviu Maia sufocando uma risada e Simon claramente desconfortável e tentando disfarçar com um sorriso murcho. Clarissa apenas sorriu e abraçou Simon mais uma vez antes de ir embora com Maia em seu encalço, piscando para os dois enquanto saía do escritório.

一 Creio que seja hora de nos recolhermos, certo Isabelle? 一 Ele ofereceu o braço para ela.

一 E o jantar, mal comi em meu chá com minhas amigas já que um lorde muito cruel me fez trabalhar horas a fio! 一 A jovem respondeu de maneira dramática, secando um suor imaginário da testa e usando a atuação como desculpa para se recostar no ombro de Simon, o fazendo rir de tanto drama.

Ambos seguiram a rotina de jantar, se separar para se trocarem e se reencontrarem na sala de música, onde pela primeira vez em muito tempo ele tocou melodias alegres e esperançosas que ninaram a jovem a um sono tranquilo e cheio de sonhos felizes.

E então ela acordou.

Demorou para ela despertar por completo. Ela olhou para o lado e viu Simon ressonando confortavelmente no divã ao lado. Tão despreocupado, tão jovem, tão lindo.

E a realidade a atingiu. Toda a felicidade pelos sentimentos por Simon se esvaindo quando ela se lembrou de que do outro lado do vilarejo, tinha outra pessoa a esperando para fazê-la feliz. E Meliorn tinha uma contagem regressiva que estava diminuindo a cada dia que passava.

Dezessete dias.


Notas Finais


o que acharam? comentem!


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