História Liebe Macht Frei - Capítulo 1


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Categorias Bastian Schweinsteiger, Lukas Podolski, Manuel Neuer, Mario Gómez, Mario Götze, Robert Lewandowski, Thomas Müller
Personagens Bastian Schweinsteiger, Lukas Podolski, Manuel Neuer, Mario Gómez, Mario Götze, Robert Lewandowski, Thomas Müller
Tags Auschwitz, Gotzeus, Neuller, Podolska, Schweinski, Segunda Guerra Mundial
Visualizações 61
Palavras 3.980
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Fluffy, LGBT, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


AVISOS:
- Fanfic de minha total autoria, se alguém vier falar que é plágio eu caço até no inferno;
- Não apoio o Nazismo e nada que seja considerado preconceito;
- Essa fanfic é feita basicamente por pesquisas sobre os assuntos;
- Fanfic de temática forte, se não gosta, não leia;

Capítulo 1 - I. Golpe Inicial;


Polônia, de Junho de 1942 – Gueto de Varsóvia

“Era para ser apenas um dia normal de comemoração, mas no mesmo dia meu aniversário fora esquecido ao sermos levados pelos alemães. Nossos planos foram deixados para trás. Os nossos nomes também foram esquecidos e números começaram a ser usado para nos identificar. Era o começo do fim.”

 

O VENTO SOPRAVA FRIO e os flocos brancos, e cada vez mais grossos, de neve pintavam a calçada. Cobria algumas poças vermelhas de sangue que ousavam estragar a paisagem, a pintura pálida feita pela natureza em meio ao concreto escuro dos muros levantados pelos homens. As crianças brincavam na neve, ignoravam os corpos desfalecidos em cada esquina por não terem aguentado a fome ou o frio. Os mais rebeldes queimavam os dedos ao fazerem bolas de neve sem usar luvas e ainda deixavam a tirania cada vez mais evidente ao usar os homens mortos como alvo ou barreiras. O instinto animal de sobrevivência aflorava nas pessoas que ali moravam cada vez mais prematuramente.

As mulheres andavam de um lado a outro em um ritmo apressado. Elas não queriam perder o horário da sopa distribuída por aqueles que ainda tinham um pouco mais, ou o seu pedaço de pão com banha semanal. Era a única chance de alimentação oferecida pelas condições em que se encontravam. As filas faziam voltas nas quadras e as pessoas se amontoavam, empurravam, para tentar chegar em primeiro lugar. Quando conseguiam, escondiam a comida quente sob as vestes para que não esfriasse, para esconder e evitar olhares daqueles que não tiveram a mesma sorte e assim poder sair sem ser saqueada na primeira oportunidade pelo primeiro desajuizado.

Os judeus já haviam escondido os seus ouros, mesmo que pouco. Engoliram as suas moedas e arrancaram os dentes com as famosas obturações douradas que servia de fácil identificação dos mesmos em meio as multidões. Eram ostensivos e isso se tornava perigoso, cada vez mais usado contra eles próprios por terceiros. Ninguém sabia quando os alemães bateriam nas portas. Se seria no meio da tarde ou no calar da noite, na madrugada escura e tão silenciosa e fria que arrastava calafrios pela espinha. 

— Lukas, espere um segundo! — O meu nome era chamado em meio a homens e mulheres que eu conhecia de rosto, mas não de nome. Virei-me em direção a eles e esperei, menos paciente do que eu deveria ser, o homem que me chamava surgir por entre eles, esbaforido, com a sua própria porção de comida entre os braços. — Eu estive procurando-o por toda parte. Até pensei que já tivesse sido levado por aqueles abutres. Por onde andavas, homem?

E mesmo na pior situação que podia me encontrar, eu ri de suas palavras. Aquele homem era Robert Lewandowski, meu melhor amigo desde a infância e também padrinho do meu filho, Louis. Ele era um polonês orgulhoso de suas origens e descendência judaica por parte de pai, que apesar dos fios negros de cabelo, os olhos azuis vivo não deixavam enganar. Robert sempre fora famoso entre os homens e as mulheres. Ninguém escondia a atração que sentia pelo jovem e, principalmente, por seu sorriso sempre ladino e galanteador. Era o típico namorador de esquina, que esperava as moças passarem com sorrisos para si e então assobiava em resposta.

— Eu fui atrás de um jornal. Você não leu as noticias de hoje? — Questionei-lhe e estendi o portador das manchetes em sua direção. Apontei logo para a primeira página.

— E você acha que eles chegarão hoje? — Ele quis saber, arqueando as sobrancelhas ao me encarar. Ele sabia exatamente o que eu queria dizer, mas diferente de mim, havia algo que lhe impedia de acreditar completamente na realidade em que vivemos e por isso facilmente fantasiava meias verdades. — Vamos lá... Eu acredito em você, mas você sabe que não seria a primeira vez que diriam algo assim. Estão sempre falando algo deste teor, para ser franco.

— Sinceramente? Sim. — Respondi com um suspiro. — Você não acha que eles já demoraram demais? Os outros guetos já foram atacados. Todos.

— Eu acredito em você... — Ele calou-se e eu esperei, encarando-o, até que ele fechou os olhos e continuou.  — Mas ninguém além de mim irá fazer. — Antes que eu pudesse adicionar algo, ele tratou de prosseguir. — Todos aqui estão cegamente iludidos. Acham que esse gueto foi dado de bom grado, um presente, para que nós vivêssemos e não sofrêssemos com as barbáries de Hitler e sua trupe. Você sabe disso.

— Eu sei. — Concordei sem falar mais nada, guardando para mim mesmo a ideia de que ele, assim como os demais, estava iludido e relutante com a ideia. — Então o que você quer que eu faça? Que eu espere? Eu tenho um filho, eu preciso protege-lo! Eu não posso simplesmente ficar parado e esperar que todos estejam despreparados para quando acontecer.

Exaltei-me. Robert levou ambas as mãos até o alto, deixando claro que não era nenhum inimigo e então eu percebi que deveria lhe pedir desculpa por tal entonação da minha parte.

— Não importa o que eu diga, você fará o contrário, de qualquer maneira. Apenas entenda de uma vez por todas que nada disso pode ser mudado por você, isso não está ao seu alcance. O que adianta avisar? Que comida temos para estocar? Para onde podemos fugir ou em que lugar podemos nos esconder? — Não havia. — Vá lá, tente abrir os olhos de todos, mais uma vez, e seja motivo de riso. Não há nada que possa ser feito, Lukas, serão apenas palavras inúteis.

Por mais que eu soubesse, no fundo, que ele estava certo, não podia deixar de pelo menos tentar. Eu queria acreditar que na última hora tudo poderia dar certo. Talvez isso fizesse de mim alguém tão cego e iludido quanto meu melhor amigo. Sem dizer qualquer outra coisa, lhe dou as costas e rumo até o outro lado da rua. O menino de quem eu roubo a pequena escada que ele usava para engraxar sapatos reclamar do furto em potencial.

— Escutem todos! — Fechei os olhos e torci para que estivesse fazendo a coisa certa pela primeira vez na vida. As minhas mãos suavam e o meu corpo formigava devido ao nervosismo. Eu não queria olhar para ninguém enquanto dizia o que tinha que ser falado. Evitaria até o último segundo ver o desespero estampado em seus rostos. — Se preparem, pois, hoje os alemães vão fazer a limpa no gueto. Escondam as suas coisas mais valiosas, rezem, e tentem fugir. Talvez tentar uma fuga seja a única saída.

Era incerto. Todos que tentaram fugir acabaram sendo mortos antes mesmo que conseguissem. Era como se eu estivesse levando aqueles que acreditavam em minhas palavras direto para a morte, incentivando o suicídio. Era quase o mesmo que acabar com a própria vida. Porém, para a minha surpresa – mesmo que eu já esperasse quando decidi fazer aquilo – o riso toma conta da pequena multidão que ali se formara. Eu me senti apenas um idiota, não o homem que sabia que aquilo era verdade – eu sentia isso – e tentava, inutilmente, ajuda-los.

Não havia sido a primeira vez que tentei avisá-los sobre isso, mas todas as outras vezes eu estava enganado. Desta vez, no entanto, eu sabia que era diferente. A única coisa que nunca mudava era a reação da massa, os risos e os deboches.

— Meu jovem, por favor, não seja um idiota. — Uma senhora com os cabelos grisalhos se pronunciou. Eu a conhecia.

Era Ziva Huberman, uma judia que grita todos os dias aos quatro ventos o significado de seu nome. Como se alguém se importasse. Ela não fazia nada além de cuidar da vida dos outros, das crianças brincando enquanto ela tricotava e observava o mundo pela janela. Falar mal de todos era o seu passatempo favorito. Eu era vítima de sua língua venenosa e digna de uma cobra todas as semanas. Talvez por isso o seu marido tenha se matado aos vinte e três, apenas um ano após casarem-se.

— Por que os alemães nos dariam um lugar para morar se, logo após, fossem nos tirar isso? Ou pior, nos matar! — Ela continuou. — Não faz sentido, garoto insolente. Você é um mentiroso, um polonês mentiroso. Quer fazer com que todos assumam como verdade as suas mentiras e vivam amedrontados, entocados em suas casas.

Eu precisei contar até dez para não lhe responder da forma mais desaforada que me fora ensinada ainda jovem. Enrolei a língua para não dizer que viver entocada em sua casa era tudo que ela já fazia desde sempre, saindo apenas para comentar maldosamente algo que vira na noite anterior. O ódio era espalhado e promovido facilmente, de forma gratuita, de um para o outro. Uma judia que odiava os poloneses. Judeus e poloneses que, por sua vez, eram odiados por alemães.

— Qual é o problema de vocês? Todos sabem que ao final serão levados para os campos de concentração, inclusive eu. As pessoas que vocês amam serão arrancadas de vocês e levadas para os campos de trabalho. Vocês podem não acreditar, ou fingir que não acreditam, mas Auschwitz e os demais campos são reais. Aqui ninguém ficará, tudo que vocês conhecem se transformará em pó. — Piszczek, um jovem polonês que conheceu a mim e Robert logo nos primeiros dias que fomos levados ao Gueto, pronuncia-se. — Vocês foram avisados, todos fomos. Se os alemães não chegarem, vocês podem nos chamar de idiotas amanhã pela manhã.

Desci da escada em que estava e dei duas moedas ao menino que naquele momento já havia perdido o cliente após o pequeno show improvisado por mim. Procurei por Piszczek em meio a multidão que aos poucos se dissipava, mas não consegui capturar nada além da sua silhueta se afastando, com a cabeça baixa, voltando para a rotina fria que somente ele conhecia. Ele era um homem estranho e que sempre despertou tanto a minha, quanto a curiosidade de Robert. Pouco falava sobre si e sempre queria saber demais sobre o mundo além dos muros. Levando em consideração que ele estava ali há mais tempo que nós dois, achávamos justificáveis as suas dúvidas.

— Papai! — Ouço a voz de meu filho e sou arrancado dos meus pensamentos ao vê-lo correndo em minha direção. — Feliz aniversário, papai!

Louis era o menino mais carinhoso que eu havia conhecido. Não digo isso apenas por seu meu filho, claro, mas por ser aquele que sempre tentava reerguer a todos quando estes vacilavam ou perdiam as forças. Tinha sempre um sorriso no rosto e usava os cabelos bagunçados em todas as direções possíveis, embora eu tentasse sempre mantê-los alinhados a todo custo. Era uma criança de traços gentis e belos que eu sempre creditei a sua mãe, já que não seria possível algo tão belo quanto ele ter minha aparência. Muitos discordavam, porém, diziam que ele era uma cópia minha e tudo que eu conseguia pensar era “pobre menino”.

Os seus cabelos molhados naquele momento, a ponta do nariz avermelhada e o sorriso de lábios arroxeados denunciava o quanto ele se divertia brincando na neve mesmo sob as minhas negativas e pedidos para que não o fizesse.

— Obrigado, campeão, mas por onde você andava? — Pego-o no colo e bico rapidamente os seus lábios. Alguns olhavam em minha direção de forma depreciativa, sussurrando sobre como eu estava levando o garoto para o mesmo lugar errado no qual eu havia me perdido. — O que você acha de entrarmos para que eu tire a sua roupa molhada e lhe dê um banho? Nós não precisamos de um Louis febril e doente que não pode brincar, não é mesmo?

— Tudo bem! — O sorriso em seu rosto deixava claro o alivio infantil por não ter levado um puxão de orelha. — Você virá hoje à noite? — Perguntou a Robert que naquele instante havia sido esquecido completamente por mim e encarava a cena diante de si com um sorriso. — Nós temos que cantar parabéns para o papai.

— Claro!

Ele fora mais rápido que eu, não deixando que eu começasse a dizer que não precisava de nada disso. Não tinha muito o que comemorar. O seu padrinho lhe deu um beijo na testa e então seguiu o seu caminho, deixando-nos sozinhos ali. Eu não pude deixar de reparar a forma que meu amigo agarrava, irritado, o jornal em suas mãos até rasga-lo em vários pedaços menores antes de jogar no lixo. Sempre me impressionou a quantidade de ódio que Robert direcionava a Adolf Hitler. Não que eu não o odiasse também, mas a situação de Lewandowski e as condições que se encontrava fazia tudo relacionado ao ditador austríaco lhe causar repulsa.

Já em casa tudo se encontrava escuro e frio, como em qualquer outro dia da semana desde que viemos parar ali. As temperaturas estavam sempre negativas. A noite chegava e o medo tomava conta de cada fresta das construções que abrigavam famílias desamparadas. As luzes não eram acesas e as velas eram o suficiente, fazia-se necessário. Através da janela do que outrora fora minha sala de estar bem organizada e quente, posso ver Ziva ajoelhada enquanto recitava o Amidá¹, sempre no mesmo horário, todos os dias.

Apesar de fria e egoísta, a mulher tinha a minha simpatia. Eu podia vê-la, sem querer, chorar e lamentar enquanto orava algumas vezes, pedindo para que o filho desaparecido esteja bem. Algumas noites ela adormecia sentada na cadeira no canto da sala com a foto do ex-marido em seu colo, abraçada a ele.

— Papai, a banheira já está cheia.

Fecho as cortinas pesadas e sorrio para o meu filho, deixando claro que havia lhe escutado e percebido a sua presença ali.

Ligo o rádio que fica acima da pia do banheiro, sintonizando-o e esperando que as músicas tranquilas daquele horário comecem a soar. Sempre em volume baixo, quase mudo, para que não fizesse alarde. Sento-me ao lado da banheira e o observo banhar-se quieto, ajudando-o quando necessário, apenas, pois, como ele mesmo diz: és um menino grande.

Os meus olhos ardem e o meu peito afunda enquanto me perco mais uma vez em pensamentos. Era a tristeza repentina acompanhada da vontade de chorar que sempre me assolava naqueles momentos de quietude, instantes em que eu pensava demais nas coisas e me afundava no desespero do desamparo real. Eu nunca quis que meu filho vivesse isso. Eu nunca imaginei que um país inteiro chegaria a esse ponto.

Em 1937 a Alemanha parecia um sonho. Tudo que eu precisava para seguir a minha carreira de escritor. Eu era bem-vindo em seus braços e acalentado por seu seio, pelo carinho de uma pátria receptiva com seus semelhantes e vizinhos. Mas, em 1939, tudo mudou drasticamente. Os poloneses como eu já não eram mais amados e queridos por eles. Infelizmente eu não pude fugir a tempo, e nem poderia. Eu já havia formado uma nova vida na Alemanha.

O meu filho havia nascido em 1939. Pobre criança. Monika, sua mãe, havia fugido do país após tê-lo e foi morar com seus pais na Inglaterra. Ela deixou tudo para trás sem pensar duas vezes, inclusive o seu filho e o marido. Maldita alemã. Eu já perdi a conta de quantas vezes pensei em desistir de tudo isso, pois era mais fácil e mais honroso que deixa-los fazer isso por mim. Mas, Louis, mais uma vez, era o motivo para que eu continuasse.

— Você está chorando mais uma vez, papai. — As suas mãos frias e minúsculas tocam o meu rosto. Delicado como um algodão.

— É porque o papai ama muito. — Sorri. — Eu estou bem, não se preocupe. Crianças bonitas não devem se preocupar.

— Hoje é o seu aniversário. Você não deve chorar.

— Você tem razão, campeão. Agora, feche os olhos e fique quietinho para que o shampoo não os machuque. — Aproveito aquele momento para acariciar os seus fios loiros entre os meus dedos, deixando que o cheiro infantil tome conta do banheiro. Termino de enxaguá-lo e me levanto, ajudando-o a sair da banheira. — Venha cá. É hora de sair.

Ele se levanta – contra a própria vontade – e estica os braços para que eu os seque. Aproveito a breve oportunidade para fazer cócegas em sua barriga até que ele implore para que eu pare com isso, já sem ar por ter rido tanto. Após eu começar mais uma vez a briga diária de manter os seus cabelos alinhados e terminar de vesti-lo, ele corre até a sala de estar e se joga sobre o sofá. Ele brinca com os seus bonequinhos de chumbo e eu preparo a sopa rala daquela noite.

 Não demora muito para que Robert chegue, abrindo a porta com força e me dando um susto. Lewa vai até a sala e brinca com seu sobrinho até a sopa estar pronta. Robert coloca a vela no centro da mesa e começa a cantar parabéns, fazendo-me revirar os olhos, mas ainda assim rir por conta do riso despreocupado de Louis.

— Poldi? — Surpreendo-me com a voz de Robert atrás de mim. Ele havia chegado e eu sequer percebi.

— Arrume as coisas para o jantar.

Sem dizer mais nada ele coloca a vela no centro da mesa e os pratos em seus respectivos lugares. Comemos em silêncio, deixando que Louis fale até sentir-se cansado o suficiente para parar de falar um pouco e catar as cenouras e batatas quase inexistentes em seu prato. Os parabéns são cantados com toda a animação possível pela criança e por Robert. Eu, ainda em silêncio, sopro a vela e sorrio, deixando-os crer que está tudo bem – ou pelo menos eu acho que engano – mais um aniversário assim, sem nada; mais um ano queimado.

— Como você está? — Robert pergunta após Louis adormecer em meus braços, obrigando-nos a falar baixo, sussurrar uma conversa.

— Preocupado, com medo, desesperado. — Sou sincero, mas o sorriso que eu lhe ofereço, não. — Eu não sei o que fazer, Robert. Eu sou tão fraco. — Eu não posso mais segurar e deixo que as primeiras lágrimas escapem contra a minha vontade dos meus olhos.

Eu evito Robert a todo custo, fitando em silêncio a chama da vela que se finda aos poucos.

— Você está longe de ser alguém fraco. Você é a pessoa mais forte que eu conheço, Lukas Podolski! Nós vamos passar por isso. Nós três. Você, Louis e eu. Vamos acabar com as coisas juntos, porque nós somos uma família. Nós ainda vamos rir de tudo enquanto dividimos um asilo na Polônia, orgulhosos do nosso país. Você vai ver só... — Ele comentava sorrindo e eu não podia deixar de entrar em sua brincadeira, torcendo para que ele estivesse certo. — Louis vai ser um rapaz bonito. Ele vai se casar com a pessoa que ele escolher amar, homem ou mulher, e ninguém poderá fazer nada por ele ser quem ele é. Ele vai ser tão importante que vai esquecer de visitar o padrinho e o pai.

Ele termina e um soluço escapa do fundo da minha garganta. Eu estava sufocando-o, deixando que por fim ele se misturasse a minhas lágrimas e a minha risada estrangulada por imaginar a cena.

— É muito idiota eu realmente acreditar e me apegar a isso?

— Se você é idiota por isso, eu também sou. Eu realmente acredito nisso. Tudo que começa, uma hora acaba, você precisa entender isso. Hitler é um tirano, mas não vai demorar muito para que a Alemanha e o mundo percebam isso e se ergam contra ele. — Eu esperava que ele estivesse, mais do que nunca, certo. — Homens como ele não servem para o mundo, meu amigo.

Eu ia responder. Desejava dizer que o amava e agradecer por tudo, mas naquele instante eu fui brutalmente interrompido pelo som de um disparo. Eu, infelizmente, estava certo naquela tarde. Com a troca de olhares silenciosos e com o desespero camuflado sob o tom azul que tínhamos em nossos olhos, Lewandowski levanta de vai até as velas espalhadas pela casa e as apaga. Espiando pela fresta da janela ele afirma, ainda em silêncio, tratar-se dos soldados da Schutzstaffel.

As batidas na porta não demoraram para soar, atiçando Louis em seu sono no meu colo. Penso em algum lugar que pudesse escondê-lo, pedindo para que o mesmo permaneça em silêncio ao despertar e me encarar. Não tinha tempo para isso. A porta é aberta abruptamente e não escuto nada ao meu redor com clareza, apenas assisto ainda em choque o meu melhor amigo levantar as mãos e render-se para os homens que o levam para longe. Os disparos e os gritos continuam do lado de fora.

Eu tentei avisar. Eu tentei. Eu tentei.

— Você tem um belo garoto em seu colo, não é mesmo? — Quando me dou conta do que estava de fato acontecendo bem diante do meu nariz, já estou de pé em frente aos oficiais. O homem tinha os cabelos castanhos, nariz fino e os dois dentes da frente eram separados e aparentes em seu sorriso de lado. Os seus dedos imundos tocam os cabelos de Louis, que tremia em meus braços.

— Sim, senhor.

Foi tudo que eu consegui responder naquele instante.

Os dedos finos de Louis apertam as minhas vestes com força e eu sinto as suas lágrimas molhando a pele do meu pescoço. Ele estava com medo, mas continuava fingindo que estava dormindo como eu pedira minutos antes. Ele era apenas uma criança e infelizmente ensaiado para como agir naquela situação, ao invés de preocupar-se com a coreografia da apresentação de natal da sua escola.

O frio estava mais intenso. Ao colocar os pés na calçada pude notar a neve cair com mais intensidade naquela noite e os corpos se empilharem, triplicar de quantidade, ao lado das malas que os soldados alemães queimam sem piedade junto aos outros pertences das vítimas. Entre os corpos eu posso ver Ziva deitada com um furo de bala no meio da testa. Os seus olhos azuis ainda brilhavam intensamente naquele momento, com a estrela de Davi enrolada em sua mão direita. Naquele momento apenas desejei que ela tenha, finalmente, encontrado a paz e o seu filho desaparecido. Tenha voltado para os braços de seu marido.

Outro oficial guiava os homens e eu até o final da fila. Pude ver Robert e respirei fundo mais uma vez. Ao contrário do primeiro soldado, esse carregava o nome em negrito na placa de identificação anexada a seu uniforme verde escuro. Manuel Neuer. E junto a si outro homem estava responsável por alinhar os homens na fila de forma certa e impecável, como em seus desfiles por Berlim, nos quais exibiam orgulhosos toda a sua pureza e onipotência.

— Como você se chama? — O loiro questiona e leva a caneta até o papel na prancheta que tinha em suas mãos.

— Lukas. — O homem, Marco Reus, arqueia a sobrancelha e espera que eu continue. — Lukas Josef Podolski.

— Ele é seu filho? — E então apontou para Louis.

— Sim, senhor.

— Gómez, venha até aqui. — O mesmo homem que comentou sobre a beleza de Louis, aproximou-se, deixando-me arrepiado apenas com a sua presença e os olhos sobre mim. — Leve-o para a fila das crianças.

— Mas ele é meu filho! — Eu exclamei e os homens pareceram sinceramente entediados, como se já tivessem ouvido aquilo outros milhares de vezes. — Vocês não podem leva-lo de mim.

— Se você quiser ter a chance de vê-lo mais uma vez é melhor largar. — Reus exclamou e então eu soltei meu filho. Eu o deixei ser levado por Gómez pelo medo que eu sentia. Pela minha covardia.

Louis me chama em meio as lágrimas e eu fecho os olhos com força, evitando encará-lo para que não piorasse as coisas. Eu só queria que ele ficasse bem, que nós ficássemos bem, e que Lewandowski estivesse certo de tudo que havia dito mais cedo. Eu queria que fosse verdade.

— Ele vai ficar bem. Eu garanto que você vai encontra-lo. — O oficial mais alto entre todos, Neuer, sussurra enquanto passa por mim, contando os homens presentes na fila. — Eu farei com que você o encontre. — Mudou de assunto facilmente logo em seguida: — Quinze homens e cinco mulheres para Auschwitz. Pode levar.


Notas Finais


Como prometido por mim um tempo atrás, aqui está a (re)postagem da história. Admito que senti falta de escrever sobre o assunto e principalmente essa história que sempre foi a minha queridinha. Essa é a minha volta para esse mundo, então espero ser bem recebida.

Em breve eu trago atualizações, então espero vê-los por aqui <3


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