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História Light - Capítulo 77


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Capítulo 77 - Voltando ao jogo


Fanfic / Fanfiction Light - Capítulo 77 - Voltando ao jogo

Emma






Faz mais de vinte quatro horas desde que ela esteve aqui. Aliás, desde que qualquer pessoa esteve aqui. Nem mesmo o repugnante carcereiro havia retornado com água e comida.

Nesse meio tempo, tentamos racionar o que restava das duas garrafas trazidas no dia anterior, no momento, temos apenas meia e, não sabemos por quanto tempo ficaremos aqui.

Há algumas horas, eu ouvi barulhos da parte superior, algo como, móveis sendo arrastados e equipamentos elétricos sendo usados. Eles estavam esvaziando a casa, eliminando as provas como Elsa havia informado. Mas tem por volta de uma hora que não ouço os ruídos vindos lá de cima, nenhum único movimento, nada.

Preocupa-me esse silêncio repentino.

— Tem alguma coisa errada aqui — murmuro mais para mim do que para a garota encolhida no pé da cama.

Sinto o cheiro forte de gasolina ou algo similar a isso, o odor parece intensificar a cada minuto.

— Filha da puta! — salto da cama, esquecendo das correntes presas a mim, e cambaleio para trás, batendo os quadris na cama.

— Porra! — vocifero contra as correntes. — Desgraçada!

Belle levanta assustada e me encara apreensiva. Ela chegou a mesma conclusão que eu. Os sinais estão claros.

Elsa irá cumprir a sua ameaça, incendiando a casa com nós duas trancadas aqui dentro.

Não teríamos nenhuma chance de sobrevivência, pelo menos não eu, com essas correntes presas a mim.

— Você tem que tentar fugir! — murmuro a ela. — Tem que encontrar uma maneira de sair daqui.

Nenhum de nós duas merece um fim como esse, principalmente ela. Sermos devoradas pelas chamas, até que não restasse mais nada. É um fim triste e com certeza, muito doloroso.

Embora Graham não tenha chegado a tempo de nos salvar, eu tenho absoluta certeza que ele não deixará Regina e meus filhos padecerem nas mãos e mente psicótica de Elsa. Ele iria ajudá-los.

Ter a certeza disso, de certa forma, faz com que eu fique em paz. Eu agradeço cada momento que tive com eles. Esses quase dois anos juntas, apesar de tudo o que houve, foram os mais felizes da minha vida. Excluindo os momentos de dor e tribulações, sofridos por eles, eu não mudaria exatamente nada.

Eu amei e fui amada, plenamente. E isso vale por uma vida inteira.

— Conseguiu enganá-los uma vez — insisto com fervor. — Conseguirá novamente.

No entanto, eu já não acredito que tenha mais alguém na casa, além de nós duas presas aqui em baixo. As chances que ela possui, são tão nulas quanto as minhas.

— Queria que minha esposa... — minha voz falha, abaixo a cabeça em rendição — que ela soubesse que a amei intensamente e, continuará assim, além dessa vida.

Ela balança cabeça e tapa os ouvidos, negando-se a continuar ouvindo minhas palavras de despedida.

Observo enquanto ela corre até a porta, as mãos espalmadas, batendo contra ela, com força. Sons incompressíveis saem de sua boca,

pedindo por ajuda. A jovem chuta e empurra a porta com os ombros, a porta não se move um milímetro.

Uma garota pequena e frágil como ela, jamais conseguiria derrubar uma madeira maciça como essa. Até mesmo eu, com o dobro do seu tamanho, enfrentaria certa dificuldade.

Eu gostaria que pelo menos ela, tivesse uma chance de sobrevivência.

Sinto-me culpada de certa forma. Ela foi apenas mais uma das vítimas das atrocidades de Elsa.

Eu tento pela milésima vez escapar.

Poderia arrastar a cama, mas os pés estão soldados no chão. As corretes também não dão a mobilidade que preciso para quebrar as grades. A desgraçada havia pensado em cada detalhe. Pergunto-me há quanto tempo ela havia planejado isso. Ou quantas pessoas ficaram aqui antes.

Essas questões são esquecidas quando a fumaça começa a surgir por debaixo da porta, escura e densa. Eu grito por socorro, na esperança de que alguém possa me ouvir. Esse é o pior tipo de tortura, esperar que a morte venha até você, lentamente.

Boa parte do quarto está coberto de fumaça, agora. Mas consigo ver a jovem em meio à penumbra. Pelo o que eu vejo, apenas a parte superior foi atingida pelo fogo. Isso não é menos preocupante, a fumaça é tão ou mais perigosa que as próprias chamas.

Nossos pulmões não resistiriam por tanto tempo o alto teor de toxina.

Começo a tossir e tento me lembrar das aulas contra incêndio.

Frequentemente fazemos esse tipo de treinamento na SET.

— Pegue a garrafa — grito, cobrindo meu rosto com a camisa suja. — Tire sua camisa e molhe-a com a água, depois deite-se no chão e evite a fumaça o máximo que conseguir.

Se tivermos sorte e o fogo não chegar até o porão e não houver nenhum desmoronamento, ela terá alguma possibilidade de escapar com vida. Pelo menos para um de nós duas ainda há esperança.

Ouço os sons a minha frente e um minuto depois ela surge diante de mim.

A mão pressionada contra o rosto e sua camiseta molhada estendida a mim.

— Não! — afasto sua mão ao compreender sua intenção. — Fique com ela e faça o que eu lhe disse!

Ela pressiona a camisa contra meu nariz e quando eu a pego para devolvê-la, a jovem se afasta, engatinhando para o outro lado.

— Belle! — volto a tossir, fechando meus olhos. — Droga! Não faça isso! Volte!

Não a vejo ou ouço mais. A ardência em meus olhos me impede de continuar com eles abertos. Meu peito queima e minha garganta está comprimida.

— Você não... pode desistir! — as palavras são abafadas pelo pano úmido em minha boca. — Não pode.

Ela era minha única chance para que Regina soubesse que meus últimos pensamentos antes de partir haviam sido para ela e nossos filhos. Diferente da outra vez, agora eu posso ir em paz. Não será o olhar aterrorizado que mebacompanhará nessa nova jornada, mas o brilho do seu amor a me guiar.





                                ****





Ouço o zunido em meus ouvidos e giro a cabeça em direção à porta. Há um clarão em volta dela. Alguém surge na porta escancarada e imagino se aquela é a face da morte, o anjo da morte. Ele se aproxima, em poucos segundos vejo seu vislumbre ao meu lado, a luz em volta dele me cega e a fumaça obriga-me a voltar a fechar os olhos.

— Emma...

Eu conheço essa voz. De onde? A máscara esquisita em volta do rosto impede-me de identificá-lo.

—Você está bem? — o som abafado está mais próximo ao meu rosto agora.

— Afaste-se. Eu vou atirar.

Os sons agudos e potentes em meus ouvidos são como um tapa em meu rosto, trazendo-me de volta a realidade.

— Graham?

—Tome, use isso — escuto-o começar a tossir quando transfere sua máscara para mim. — Aguenta mais um pouco, Emma. Vou tirar você daqui!

Quando sou apoiada em seus ombros e encaminhamos em direção à porta, já não sinto o peso das correntes em meus pulsos. Subimos a escada íngreme e somos interceptados por dois homens uniformizados.

— Ouvimos tiros — um deles coloca-se ao meu lado, prendendo meu braço em seu ombro.

O fogo parece ter sido controlado, embora o local esteja irreconhecível.

— Ela estava presa às algemas — Graham volta a tossir, empurrando-me em direção ao homem. — Precisei atirar para quebrar as correntes.

— É melhor sairmos daqui — outro bombeiro aproxima-se. — O andar de cima pode desabar a qualquer momento.

— Há mais alguém vivo na casa? — pergunta o homem que me carrega para fora.

Eu sei que a pergunta foi feita a Graham, mas sou eu a responder.

— A garota? — retiro minha máscara olhando em direção a Graham. — Onde ela está?

— Que garota? — pergunta ele, confuso.

— Eu não estava sozinha — respiro fundo em busca de ar. — Ela está lá em baixo. Tem que salvá-la, Graham.

Quando chegamos ao degrau da entrada, sinto apenas seu vulto retornando.

— Ei, não pode voltar aí! — o homem grita ao meu lado. — Seu maluco!

Parte de mim sente arrependimento pelo pedido que fiz, deveria ter direcionado meu pedido a um dos bombeiros presentes e não ao meu amigo com mania de herói, afinal, poderia tê-lo enviado para a morte.

Enquanto sou arrastada para fora, começo a examinar o local. A casa possui dois andares, é relativamente grande, pelo o que vejo, do tipo colonial. A parte de cima está completamente incendiada e a parte de baixo tão ruim quanto a superior. Nem consigo identificar as cores das paredes e as grades nas janelas parece carvão.

Há fumaças por todos os lados, ainda.

Os muros são altos ao redor da casa.

Espalhados pelo imenso terreno há várias viaturas de polícia e ambulâncias. Algumas mulheres abraçam uma as outras, sentadas no chão. Policiais pegam depoimentos das mais calmas e outras recebem atendimento médico.

Recebo a máscara de oxigênio.

Conforme o ar puro alcança meus pulmões à realidade me toma. Estou viva, de alguma forma e isso não me importa agora, Graham havia conseguido.

Olho em direção à entrada, apreensiva. Cada batida do relógio angustia-me um pouco mais. Vamos lá, Graham, você consegue, salve-a, por favor!

Eu sei que só estou viva porque a garota havia abdicado da própria sobrevivência para me manter respirando. Não sei quanto tempo permaneci desacordada e quanto tempo ela conseguiria resistir a fumaça.

O paramédico começa a me examinar, fazendo algumas perguntas na qual respondo sim e não com minha cabeça, sem compreender direito o que ele está dizendo. Ele coloca uma luz forte em meus olhos seguindo com os cuidados iniciais.

Continuo focada na entrada. Com um suspiro de alívio o vejo surgir com a garota amparada em seu peito. Ele está sem camisa que está envolta no rosto da jovem. Vejo-o vacilar no primeiro degrau e quando um homem se aproxima, Graham o afasta, mantendo Belle junto a ele.

Ele aproxima-se de mim nos degraus da ambulância. Noto seu rosto coberto de fuligem e a queimadura em seu braço esquerdo.

— Pode me dar a garota agora, senhor — o paramédico prontifica-se na frente dele.

O homem é alto, bem encorpado, não tanto como Graham, mas poderia conduzir a jovem sem grandes dificuldades.

— Ela está... — afasto a máscara do meu rosto novamente.

— Viva! — Graham conclui minha frase, acomodando-a ainda mais rente a ele.

— Senhor, pode me entregar a moça — repete o homem, esticando os braços.

— E por que eu faria isso? — Graham encara o homem, estreitando o olhar. — Não sei se podemos confiar nele.

A força ameaçadora com que ele olha, faz o homem vacilar e dar alguns passos para trás. Há uma grande descarga de adrenalina pairando no ar. E eu não faço a mínima ideia do que está acontecendo ou o que havia acontecido com meu amigo para que tivesse uma reação tão estranha.

— Por que ele é o paramédico? — pergunto a Graham e aponto em direção a jovem inconsciente — Por que ela inalou muita fumaça e precisa de cuidados?

Ela começa tossir e contorcer-se em busca de ar. Ele senta com ela na grama e afasta a camisa do seu rosto.

— Está tudo bem — murmura para ela. — Você vai ficar bem.

— Senhor — volta a insistir o homem.

— Graham!

— Tá bom — murmura ele, colocando-a na maca e volta-se para homem ao meu lado. — Mas eu vou ficar de olho em você...

— Graham eu adoraria discutir sobre isso. O que deu em você, agora? — apelo para sua racionalidade e bom senso. — Eu tenho uma mulher louca na minha casa! Com minha esposa e meus filhos. Depois você desconfia de tudo e todos a sua volta!

Jogo a máscara em cima da maca e caminho decidida em direção aos portões. Dois policiais ameaçam vir em minha direção, mas fulmino-os com olhar. Nada irá me parar até chegar a minha casa e ter minha família de volta.

Olho ao redor quando chego à calçada. Não tenho a mínima ideia de onde estamos. As árvores em volta indicam que essa é uma propriedade privada, não vejo casas ou prédios em volta de nós, apenas árvores e mais árvores e um caminho de pedras.

Reconheço o carro de Graham parado no meio do caminho. Noto a porta escancarada e a chave na ignição.

— Calma aí, parceira. Não está em condições de dirigir — ele coloca-se a minha frente. — Além disso, só quem toca no meu carro sou eu.

Ignoro-o e vou para banco de passageiro. Pouco me importa quem dirige essa merda. Eu só quero chegar em casa e pela forma que as rodas derrapam pelos pedregulhos, não demorará muito tempo.

— Regina e as crianças? — pergunto antes de me segurar contra o banco quando ele desliza em uma curva fechada, em alta velocidade. — Cuidado!

Eu realmente estou com muita pressa, mas não escapei de um incêndio para morrer em um acidente de carro.

— Até onde sei... — o carro derrapa para a esquerda — estão bem.

— Elsa? — o nome parece tem gosto de fel em meus lábios. — Está com eles?

— Estão todos bem, confie em mim — seus lábios alargam-se de forma diabólica. — Estamos dando uma festa.

E ela nem imagina a surpresa que irá ter.

— Como me encontrou?

Tento manter minha mente em algo que não seja Regina e meus filhos mercê da mente perversa do minha irmã.

— Rastreei a torre de onde vieram as mensagens que me enviou — murmura ele, dando de ombros, como se falasse de algo banal. — Essa não é uma área muito habitável como pode ver. Além disso, vimos movimentos estranhos vindos dessa direção. Após algumas tentativas frustradas, chegamos até aqui.

Coloco o cinto de segurança para restringir meu corpo dos movimentos bruscos que ele faz com o carro. Sinto como se meu corpo houvesse sido atropelado por um trator. Respirar ainda é um pouco doloroso.

— Quando cheguei aqui com dois dos meus homens, a parte de cima estava pegando fogo. Havia mulheres trancadas no andar superior e tentamos salvá-las a tempo até a polícia e os bombeiros chegarem. Quando eles apareceram, o primeiro andar já estava sendo tomado, não conseguimos fazer muita coisa.

Ouço tudo atentamente tentando visualizar o que ele me diz.

— Procurei por você em todos os cômodos quando uma delas nos disse sobre o porão e que talvez estivesse lá em baixo. Teve sorte do fogo não ter alcançado o porão, mas mais alguns minutos vocês teriam morrido sufocadas.

— Que lugar era aquele e quem eram aquelas mulheres?

— Robin e Elsa tinham essa casa de prostituição e lavagem de dinheiro, talvez até tráfico de drogas. Eles traficavam mulheres do Brasil, Chile, Colômbia toda América Latina e de alguns lugares da Europa, também — noto o desprezo em sua voz, é uma reação não muito diferente da minha. — Com certeza há muitas pessoas poderosas envolvidas, inclusive o juiz responsável por julgar a Regi.

— Por isso aquele desgraçado não queria cooperar em nada — vocifero, irritada. — Maldito!

— A polícia já desconfiava há algum tempo — ele olha para mim. — Na verdade, desconfiam de você.

— De mim? — pergunto, confusa.

— Sim — ele continua. — Empresária rica. Além disso, o seu passado... os gostos peculiares.

— Isso é um absurdo! — murmuro.

— Eu era jovem e idiota.

— Sua fuga e falta de resposta quando Regi fugiu só reforçaram ainda mais as desconfianças. Sabiam que você estava escondendo alguma coisa. Aquele lugar por exemplo. Antes de Neal morrer, eles entraram em contato com ele, mas Elsa deu um jeito de eliminá-lo.

A morte de Neal foi bem estranha para mim. Fizeram parecer um assalto, mas a forma que ele foi executado, dizia exatamente o contrário, agora tudo faz sentido. Se a polícia chegasse até mim, chegaria até Elsa e o plano dela iria por água abaixo.

Quando alcançamos a estrada de asfalto, o celular dele toca indicando que havia recebido uma mensagem.

— Porra! — ele bate o telefone contra o volante. — Filha da puta!

— O que foi? — pergunto, ansiosa.

— Graham, quem era?

— August — ele acelera, os olhos focados na estrada. — A festa acabou.



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