História Like a marble statue - Capítulo 2


Escrita por:

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Categorias Kuroshitsuji
Personagens Ciel Phantomhive, Personagens Originais, Sebastian Michaelis
Tags Black Butler, Kuroshitsuji, Personagem Original
Visualizações 17
Palavras 4.088
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Hentai, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Estupro, Heterossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, minhas criaturas! Como têm passado a semana?
Primeiramente, minhas sinceras desculpas pelo atraso. Porém ele será justificado com um pequeno anúncio que tenho a fazer.
Minhas estórias são betadas por uma amiga minha, que pertence a Liga dos Betas, do site Nyah! Fanfiction. Porém algumas coisas estão sendo alteradas na Liga, e devido a quantidade de autores que abandonam as fics sem mais explicações e nunca chegam a postar boa parte dos betados, foi estabelecida uma regra provisória (espero eu), que diz que os capítulos corrigidos têm que ser postados, antes que se inicie a correção do próximo; regra essa, que acabou acelerando o início da postagem dessa estória.
O problema não é a regra, o problema é algo chamado "vida", que não nos permite betar um capítulo por semana! Eu só consegui manter a constância em "Hertale", porque quando postei o primeiro, já estávamos betando o sétimo, mas infelizmente não poderei mais fazer isso.
Portanto, próximos capítulos serão postados de quinze em quinze dias, e poderão ocorrer atrasos.
Mas eu digo e repito outra vez: ESSA FANFIC NÃO SERÁ ABANDONADA!
Tenham um tiquinho de paciência, que dá tudo certo!

Avisos devidamente dados...
Deliciem-se!

Capítulo 2 - Fogo


Gelo. Translucido como a água. Frio como o inverno. Ele congela até a alma. Faz esquecer quem somos nós, de onde viemos. Até quem amamos. Mas é frágil.

Mármore. Ah, o mármore e suas estátuas. Perfeitas. Enchem meus olhos, como os de uma criança. É sempre tão forte, sempre tão frio e quente ao mesmo tempo. Suas colunas imponentes, suas formas impiedosas, suas expressões inabaláveis.

Fogo. Quente, belo, incontrolável. Vem do atrito, do calor. De uma única faísca, evolui até arder florestas inteiras e mais. Destrói, sem dó. Queima, deixando um rastro negro, que jamais será reparado.

Sangue. A essência da vida humana. Vem de todos os mortais. Símbolo de suas vidas, e suas mortes. Causa nódoas permanentes em nossas memórias.

Demônios. Belos, fortes. Como estátuas de mármore; perfeitos.

Mortais. Escondem o que são debaixo de suas máscaras de gelo. Tentam, ingenuamente, se igualar ao mármore através dele. Mas se vão na primeira onda de calor, no primeiro raio de sol. No primeiro toque de um corpo em chamas.

Mas no fim, para todo mortal, não importa se feito de sangue ou de gelo, só resta um destino. Nenhum merece a eternidade; nenhum aguenta, enlouquece.

Para todo mortal, no fim, resta apenas o abraço frio; a morte.

Ou, no meu caso, o quente beijo de um demônio.


~~o~~

 

Uma corrente elétrica percorreu meu corpo.

Então era assim que ele tomava as almas? Com um beijo?

Pelo menos, eu morreria no auge do ato mais prazeroso da minha vida.

Sua língua invadiu minha boca, aprofundando. Fiquei estática.

Sim, era o meu primeiro beijo. Simplesmente não sabia o que fazer.

Mas Sebastian parecia ter consciência desse pequeno detalhe, e fazia tudo com calma, sempre controlando a situação, eu apenas tentava acompanhar o seu ritmo.

Era bom. Muito bom. Tinha um gosto diferente de tudo o que já havia provado.

Indescritível.

Involuntariamente, minha mão foi até aqueles cabelos negros e macios. Ah, como era bom afundar meus dedos naqueles fios de seda. Já havia perdido a noção do tempo. Só voltei à realidade quando diminuímos a velocidades, até pararmos.

Encarei aqueles olhos vermelhos. Simplesmente não sabia o que dizer. Em seu rosto, estava uma expressão que eu não conhecia e não sabia decifrar. Mas, antes que pudesse pensar, meu corpo agiu por vontade própria e avançou novamente até aquela boca. Depois que me dei conta do que havia feito, pensei que ele fosse me rejeitar. Contudo, Sebastian aceitou o beijo, e o retribuiu. Mas foi diferente.

Ele me pressionou contra o banco de pedra. Aquela sensação era tão boa... suas mãos passeavam pelo meu corpo, causando arrepios. Esse beijo foi bem mais longo que o outro, e havia algo mais nele. Desejo. Ele vinha de ambas as partes.

Quando finalmente nossos lábios se separaram, nos encaramos novamente e retomei a consciência do que estava acontecendo — ou não estava. A pergunta saiu da minha boca antes que percebesse.

— Por que v?... — Não consegui terminar. Ele colocou um dedo em meus lábios, calando-me.

— Shhh. — E meu demônio voltou a me beijar.

Meu corpo agia por vontade própria. Eu nunca havia experimentado tal sensação. Era tão quente que derreteu toda minha fortaleza de gelo como se não fosse nada.

As mãos dele passaram pela minha clavícula, pelo meu colo, até chegar aos botões da camisa. Eles foram abertos um por um.

Meu demônio distribuiu beijos por todo meu pescoço, e foi descendo, passando pelos meus seios, pela barriga e mais. Levantou minha saia, roçando em minha coxa, até perto da virilha. Por mais que eu tentasse, não continha alguns gemidos, era impossível.

Mas ele parou, me provocando. Seus dedos desceram pela minha perna, até alcançar meu sapato e retirá-lo. Fez o mesmo com o outro, mas se demorou em meu pé, acariciando-o. Então, com um toque, fez uma onda de calor varrer o meu corpo. Arrepiei-me por inteiro.

Nossas bocas se encontraram novamente. As mãos de Sebastian percorriam minha pele sem pudor algum, e as minhas também. Logo, ele estava sem seu paletó e camisa, que foram jogados sobre o banco, onde fui deitada.

Mesmo que não diretamente, senti o frio imenso que vinha do granito, mas não estremeci. Já havia me acostumado com o frio. E aquele corpo em chamas sobre o meu, ah... eu poderia estar sobre uma geleira, não faria diferença.

Percebi o quão equivocada estava. Sebastian não era frio. Pelo contrário, era quente como um incêndio. Insaciável, implacável, incontível. E me queimaria até saciar seu desejo.

Nossas últimas peças de roupa se foram, e com elas o resto do meu autocontrole.

Pensar exigia um esforço imenso e falar era impossível. Era meu corpo que mandava e ele queria mais. Minha mente raciocinava o suficiente apenas para retribuir suas carícias. Meus lábios só sabiam procurar por seu beijo e emitir murmúrios de satisfação.

— Aahhhh! — gemi quando, num único movimento, Sebastian uniu nossos corpos.

Dor? Prazer? Não sei. Tudo o que eu sentia era calor. Meu corpo continuava a pedir por mais. E ele me deu mais.

Nossos sexos se moviam em conjunto, produzindo uma sensação indescritível.

Qualquer dúvida sobre a natureza demoníaca dele se foi naquele momento. Tamanho prazer não podia ser causado por um humano. Aquilo era sobrenatural. Era como se eu fosse jogada em uma fogueira...

Não! Aquilo era o inferno de tão quente! Mas as chamas que lambiam a minha pele não queimavam, elas dançavam pela minha derme, adentrando minhas veias, produzindo um efeito singular. Ah... só um demônio seria capaz de provocar tal sensação!

Éramos gelo e fogo. Sangue e mármore. Mortal e imortal.

Minhas unhas estavam cravadas nas costas dele, numa tentativa de estreitar ainda mais a distância entre nossos corpos. Minha visão era um borrão. A única coisa nítida era um par de olhos vermelhos reluzentes. Minha boca só sabia emitir longos gemidos de prazer e clamar repetidamente por um único nome.

— Sebastian!

Seu timbre rouco também chegava a mim. Era como a chama de uma vela, queimando aos poucos o último fio da minha sanidade.

Suas mãos percorriam meu corpo, experimentando, apertando deliciosamente toda a extensão do meu ser. Meu demônio suspirava, deixando seu hálito quente varrer meu pescoço, fazendo meus pelos eriçarem.

— Jane! — Sebastian sussurrou rente ao meu ouvido, puxando meus cabelos. Nesse momento, aquela pouca sanidade me abandonou.

As chamas avançaram pelo corpo, a partir do meu pescoço, onde ele mordia com brutalidade — como se a razão também o tivesse deixado —, e foram espalhando, me envolvendo, me queimando; mas não era ruim. Era a melhor sensação que já tive. Tudo que consegui fazer, foi cravar as unhas mais profundamente nas costas dele, enquanto um longo gemido de prazer escapava da minha garganta.

Calor, calor, calor. Era como se meu corpo fosse explodir de tanto calor. Como se estivesse em combustão espontânea.

Era quente demais; eu queria alívio.

Em algum lugar, longe, no fundo da minha mente, escutei um riso conhecido, acompanhado de um gemido e um beijo em meu pescoço.

Então, depois de chegar ao seu apogeu, queimando-me de forma insana e totalmente deliciosa, o fogo foi cessando.

Não parou por completo, apenas diminuiu, deixando um rastro de algo diferente. Era como se a chama fosse convertida em eletricidade. Quente, mas não da mesma maneira. Vinha de forma inconstante, em espasmos, controlados pelos movimentos dele.

Nossas bocas se encontraram novamente.

Sebastian me levantou, pondo-me em seu colo.

Então, eu estava no controle? Pois bem.

Movimentei meus quadris, e senti meu corpo aprovar aquele novo ritmo. Ele também gostou. Vi quando jogou a cabeça para trás, ouvi seu timbre rouco e baixo... e senti o tapa que acertou na minha bunda. Acho que doeu. Não tenho certeza. Minha mente estava concentrada em se deliciar com o calor que meus movimentos produziam.

Sebastian me puxou para mais perto. Seus lábios passeavam em meu colo, descendo pelos meus seios, onde ele se demorava. Era tão bom. Aos poucos, aquele fogo foi voltando. Esquentando mais e mais. Senti meu sangue entrar em ebulição. O suor já não era suficiente para resfriar a pele. Nada mais era.

Seus gemidos roucos também ficaram mais intensos, mais altos. Seus braços me envolveram, apertando-me contra seu corpo. Eu não conseguiria sair dali nem se quisesse. O atrito entre nossas peles só deixava aquele momento mais delicioso.

Quando, mais uma vez, aquele fogo começou a me queimar e chegou ao seu auge, senti algo diferente. Uma sensação, acompanhada de um gemido que não era meu.

Meu demônio também havia chegado ao seu ápice. Algo surgiu em meu peito, e senti meu próprio prazer se prolongar.

Aos poucos, a chama se foi completamente, deixando meu corpo mole. Apoiei minha cabeça na curva de seu pescoço. Eu estava ofegante e ele também. O abraço se afrouxou, mas seus braços ainda me envolviam. Senti-me dolorida, mas nada seria capaz de estragar aquele momento.

Notei uma de suas mãos subir pelas minhas costas até se afundar em meu cabelo, afagando-o. Teria me arrepiado, se tivesse forças para tal ato. Sebastian se deitou no banco e me puxou para seu peito.

Quando finalmente minha capacidade de pensar retornou, perguntei-me o porquê daquilo. Minha mente formulou várias respostas, desde as mais agradáveis — e absurdas — às mais infelizes — e realistas.

Mas eu estava cansada demais para pesar e medir as possibilidades; e queria aproveitar aquele momento, digno dos meus sonhos mais libertinos.

Adormeci envolta naqueles braços, desejando que se ele fosse tomar minha alma, o fizesse durante meu sono.


~~o~~


Close your eyes
Open your mind
Who do you blame?
You`re not the only one


On your knees
Who do you please?
Who do you feed?
Until I find a better one

 

A música me trouxe para a realidade aos poucos.

Encarei o teto do meu quarto e a luz irritantemente forte que vinha do plafon. Demorei a perceber que havia adormecido com as luzes acesas e o fone de ouvido.

Suspirei e tirei a brochura de cima do meu peito, fechando-a sem marcar a página. Não havia absorvido metade da leitura; mais lucrativo começar do zero, amanhã.

Eu era melhor em humanas do que em exatas. Mesmo assim, a literatura pré-vestibular era muito maçante para o meu gosto.

Ainda falta mais de um ano para essa merda, mas eu já estava sendo cobrada. Não pela escola.

Ao meu lado, havia apenas os cadernos e canetas, que escapavam do meu estojo.

Descobri o que me despertou num momento: minha garganta, irritantemente seca.

Levantei-me, agradecendo silenciosamente por estar sozinha.

Caminhei para fora do meu quarto, sem me importar sequer em colocar meus chinelos.

Desci as escadas e fui até a cozinha. Depois de pegar a água, fiquei parada em frente à pia, enquanto admirava a janela, sem realmente vê-la.

Antes que percebesse, minha mão desceu pelo pescoço até encontrar a corrente dourada, com um relicário pendurado. Dentro dele, duas fotos.

Quando meus dedos tocaram o frio metal, uma lembrança invadiu minha mente.

Não era antiga, mas parecia.


Acordei na mesma posição que havia dormido. Aquecida sobre a pele dele.

— Bom dia, my Lady — disse. Como sempre, ele sabia quando eu estava acordada.

Bom dia? Mas ainda estava escuro!

— Bom dia — respondi, num suspiro sonolento. Novamente a cachoeira de perguntas invadiu minha mente, me deixando tonta. Eu não sabia como lidar com elas. Perguntar a ele? Tirar minhas próprias conclusões?

— Dormiu bem? — perguntou. Se eu dormi bem? Mas é lógico que dormi!

— Sim — respondi, tentando não colocar emoção na voz. Ele riu.

— Então, vai voltar a ser a durona de sempre? — Aquilo me irritou. Levantei minha cabeça e encarei-o. Seu rosto estava com uma expressão divertida, seus lábios puxados num leve sorriso.

— Por quê? — Tudo o que eu queria saber, cabia naquela pergunta.

Por que não tomou minha alma? Por que havia me deixado viver? Por que nós?... Ah! Demônio maldito!

Ele colocou sua mão em meu rosto, fazendo-me estremecer.

— Curiosidade — disse, simplesmente.

— Curiosidade? — perguntei, indignada.

— Sim. Eu queria saber como você é de verdade. Sabe, esse seu personagem nunca me enganou. — Senti seus dedos correrem pelo meu rosto, mas eu estava estática demais para reagir. — Sempre soube que havia algo muito interessante para se ver, e também que poucas pessoas tinham visto. Mas devo admitir, estou surpreso. Você é bem mais.... intrigante do que eu imaginava.

Então, ele havia feito aquilo tudo apenas por... curiosidade? Como se eu fosse um bicho de zoológico? Ele queria apenas brincar comigo...

Maldito!

Mas o que eu esperava? Um buquê de rosas e uma jura de amor? Mas é claro que não! Ele é um demônio! Eu que fui muito burra de me apaixonar logo por aquela criatura! Por aquele monstro...

Senti meu rosto enrijecer, raiva. Tive vontade de bater nele, chamá-lo de todos os palavrões que conheço, em todas as línguas que conheço, ou fazer qualquer outra coisa, que pudesse o atingir. Mas isso só daria mais um pouco do que ele queria.

Tentei juntar os fragmentos da minha máscara, e usei toda a minha força de vontade para virar a cara e tirar seus dedos de mim. Sebastian ignorou minha negativa, voltando sua mão ao exato lugar onde estava e forçando-me a encará-lo. Mas não podia fazer nada em relação a minha máscara. Ou eu achava que não podia.

Bruscamente, ele juntou nossas bocas num beijo. Foi tão rápido que não tive tempo de pensar, apenas correspondi, deixando o gelo se despedaçar novamente. Para o demônio, aquilo devia ser só mais um jogo.

Quando finalmente me soltou, suspirou pesadamente.

— Vamos embora — disse.

— Vamos — concordei.

Levantei-me, com as pernas meio bambas. Como de costume, Sebastian me apoiou. Eu apenas recuperei o equilíbrio e me soltei de suas mãos, sem uma palavra.

Recolhi minhas roupas aos pés do banco. Estavam com algumas manchas de musgo, mas bem mais limpas do que eu esperava.

No tempo que demorei a vestir minhas peças íntimas, Sebastian já havia se vestido por completo, então se pôs a me ajudar. Quase me virei e disse “Eu sei me vestir sozinha, não preciso da sua ajuda!”, como diria uma criança mimada, mas algo chamou a minha atenção.

Depois de abotoar minha camisa, ele tirou uma corrente dourada do bolso do paletó, e colocou no meu pescoço. Pendendo no fio, estava um pingente redondo. Um relicário.

— Mas o que?... — Segurei a peça em minhas mãos.

Talvez, eu soubesse o que havia dentro.

Quando o abri, encontrei uma foto de minha mãe, tirada pouco tempo antes de engravidar, no auge de seus dezoito anos. Ao lado, estava outra foto. Esta, retratava um rosto que eu conhecia bem; o meu. Era uma foto recente minha.

Vagamente, percebi que havia começado a esquecer das feições de minha mãe. Mas essa percepção foi vaga. O que chamou a atenção foi à semelhança entre nós. Usei todo meu autocontrole para não deixar uma lágrima escapar do meu olhar.

A aparência física podia se assemelhar, mas a minha mãe foi a mais doce das criaturas. Nunca teria coragem de fazer o que eu fiz. E se tivesse, nunca mais teria um só dia de paz.

Eu nunca perdi sequer uma noite de sono.

Sebastian me puxou para um beijo novamente, então, aos poucos, fui perdendo a consciência, sentindo meu corpo desfalecer em seus braços.

Acordei em casa, na manhã seguinte.

Por algum motivo, ele havia me deixado viver.

Não importava. Eu tentaria voltar ao normal, e viver exatamente como antes.

Mas nada voltou ao normal.


Fui arrancada de meus devaneios por um som.

Assustada, procurei a causa do ruído, e para a minha tranquilidade, logo a encontrei.

Lia, uma gata preta que adotei, havia pulado na pia e esbarrado no escorredor de louça, fazendo o barulho.

Seus olhos azuis encontraram os meus e ela miou, como quem pergunta “O que foi? Sou só eu!”. Dei de ombros e peguei outro copo d’água, bebendo-o enquanto voltava a minha atenção para a janela. Distrai-me novamente.

Fragmentos desconexos de memórias rodavam minha mente.

Lembranças, lembranças.

Elas ecoam pela minha mente, forçando-me a reviver tudo o que passei. De umas, me orgulho, de outras, nem tanto. Quanto a outras, me envergonho profundamente.

Lembro-me do eu que era antes, de quem eu era. Não que fosse melhor, apenas tenho saudade das garotas que deixei no passado. Dos fragmentos de mim, que estão enterrados no fundo de um caixão.

Sinto falta da criança, das brincadeiras despreocupadas, das risadas espontâneas. Sinto falta da pré-adolescente responsável e madura, e suas ideias para salvar o mundo. Não sinto falta da adolescente furiosa e vingativa, muito menos de seu coração cheio de ódio, mas ela sabia quem era e onde queria chegar. Não tenho mais essas certezas.

Quem eu sou? Por que existo? Por que ainda estou viva?...

O que eu sou para ele?

A resposta para a última pergunta veio à minha mente, na forma do refrão que ainda ecoava em meus ouvidos. Talvez já estivesse lá, apenas esperando para ser descoberta. Mas isso não a deixa menos verdadeira.

Só mais uma...

Sim, eu era apenas mais uma alma em sua lista. Só mais um contrato. A única diferença é que ele estava brincando comigo, antes de pôr um fim a minha existência.

Estava ao meu lado, até encontrar alguém melhor.

— Insônia? — Uma voz perguntou, rente ao meu ouvido.

Virei-me bruscamente, assustada, e o vi bem atrás de mim, com o mesmo sorriso de sempre. Vestia uma regata branca, uma calça folgada e estava descalço. Roupa de dormir.  

E ele dormia? Seus hábitos diziam que sim.

— Não — respondi firmemente. — Só vim pegar um copo d’água.

— Sei. — sua voz estava mesclada numa risada.

Virei-me em direção à pia novamente, para pegar mais água, mesmo que já não tivesse mais cede. O olhar dele estava sobre mim, eu sentia. Não precisei pensar muito para descobrir o porquê daquilo.

Era uma noite quente. Na pressa que saí do quarto, não havia vestido uma roupa descente. Estava apenas com uma blusa bem maior que o meu tamanho. Tinha quase o efeito de uma camisola, mas mesmo assim. Droga.

Senti-o me puxando até seu corpo, forçando-me a encará-lo.

— Você gosta de me provocar, não é? — perguntou. Sua voz ainda estava imersa num riso. Seus dedos enroscaram em meus cabelos e ele me beijou.

— Não estou te provocando! — respondi na defensiva. — Você não devia estar aqui!

— Conta outra que eu acredito! — Mordeu o lóbulo da minha orelha. — Você gosta tanto quanto eu!

— Pervertido! — acusei, com a voz mista num gemido.

— Você gosta!

— É... eu gosto — admiti, em meio a um beijo.

Sua mão foi à curva do meu pescoço, acariciando. Eu queria fazer parar, mas não tinha força de vontade para proferir uma palavra. Talvez ele estivesse me enfeitiçando, deixando-me totalmente submissa às suas caricias; ou então, fosse só o meu amor cego e totalmente nojento.

Não importava. Fato era que eu sabia o que viria depois. E queria que acontecesse.

Sebastian me sentou na bancada da pia, se colocando entre minhas pernas. De beijos mais suaves e carinhosos fomos a carícias mais desesperadas e quentes. A partir daí, nossas roupas voaram pelo cômodo e logo o ar se encheu com os sons do nosso sexo.

Não era a primeira vez que fazíamos isso, e não seria a última também. Mas cada uma tem um gosto diferente, e ao mesmo tempo, são tão boas quanto a primeira foi.

Embora me envergonhasse profundamente da situação que me encontrava, não conseguia dizer não para aquele demônio.

Sem contar as vezes que eu o procurava por vontade própria.

O toque dele era como uma droga. Por mais que eu tentasse resistir, já estava viciada. Viciei de primeira. E quanto a ele... ele aproveitava qualquer brecha no meu autocontrole. Sempre me perguntei o porquê de tudo isso.

Como em tantas outras vezes, chegamos ao nosso ápice, mas não paramos.

Antes que eu percebesse, estávamos no meu quarto — que no último ano, estava mais para nosso do que meu —, e lá começamos tudo novamente, até o amanhecer.

 

O sol no meu rosto fez-me despertar.

Eu não estava sozinha. Estava com ele. Sobre seu peito, sentindo seu calor.

Senti uma mão fazendo carinho em meu cabelo. Ergui o rosto e o vi com a mesma expressão de sempre, o mesmo sorriso.

— Bom dia, my Lady.

— Bom dia.

Espreguicei-me sonolenta. Fazia tempo que não dormia tanto, mesmo num sábado.

Levantamo-nos, vestimos qualquer coisa e fomos até a cozinha. Nossos rastros ainda estavam lá, tanto era, que Lia estava dormindo em cima de nossas roupas. Sebastian riu quando viu a cena.

Sentei-me, enquanto esperava por meu café da manhã/almoço.

Minha mente parecia travada em uma mesma linha de raciocínio.

Um ano. Um ano desde aquela noite. Um ano que eu estava naquela situação.

Perguntei-me por que nunca havia exigido respostas dele. A verdade, era que nunca tive coragem. Por que nunca tive coragem? Talvez, por ter medo da resposta dele... não sei.

Mas isso já durou tempo demais.

Uma pessoa normal, com o mínimo de autopreservação, teria aproveitado o momento e rezado para que o demônio tivesse se esquecido de cumprir o contrato. Mas eu não era normal. Queria saber os motivos dele. Queria saber o que havia de errado comigo, além do meu masoquismo. E iria aproveitar aquela repentina força de vontade para fazer isso.

O cheiro denunciava, e logo tive certeza de que ele estava fazendo panquecas doces — um dos meus pratos favoritos. Nada mal.

Comi, enquanto tomava coragem para despejar as perguntas. Ele estava encostado na parede. Não tenho certeza se me olhava comer ou Lia dormir.

Terminei meu prato e tentei puxar assunto. Peguei meu relicário e o abri.

— Sabe... eu não faço ideia de onde você conseguiu essa foto... — Sim, eu percebi que aquele relicário não era o mesmo que carreguei por boa parte da minha vida, e sempre me perguntei onde Sebastian havia arrumado aquela foto da minha mãe, já que eu mesma não tinha nenhuma.

Às vezes, me perguntava se guardei aquilo pela foto, ou pela pessoa que me deu.

— Seus avós mentiram quando disseram que não tinham nenhuma foto dela.

— Eu sei — menti. — Mas onde elas estão?

— Dentro de uma caixa, no quarto deles.

Bom, a casa tinha três dormitórios, para dois moradores. Pela falta de necessidade, nunca mais entrei no quarto dos meus avós, desde pouco depois do enterro, quando doei roupas e outros itens de pouco valor. Nunca vasculhei os objetos pessoais. Não tinha como contestar a alegação dele.

Passou um minuto de silêncio constrangedor. Levantei-me e fui até ele.

— Sabe, já faz um ano... até quando vamos ficar assim? — Ele me encarou, fingindo que não entendeu a pergunta. — Ah, qual é? Você odiou Ciel por ter te aprisionado naquele contrato, e agora, está cometendo o mesmo erro?! Tudo bem que eu não vou durar eternamente, mesmo assim!...

Ele acariciou meu rosto, arrepiando-me.

— Sabe... eu nunca te vi sorrindo — disse.

— Não muda de assunto.

— Eu queria ver você sorrindo. Aposto que seu sorriso é lindo.

Sebastian me beijou. Um curto e carinhoso beijo. Ele riu. Mas não estava alegre.

— Ciel, Ciel! Quando me livro de você, acabo de frente com sua versão feminina!

“Sabe, dentre nós dois, quem deveria guardar algum rancor e querer vingança, sou eu. Mas ele sempre quis se vingar, não sei exatamente pelo que, já que fez tudo por sua livre e espontânea vontade. Eu apenas ofereci o contrato.

Não sei exatamente se os planos dele deram certo ou errado...” e ficou pensativo. Seus olhos ainda miravam meu rosto, mas não era a mim que ele via.

“Se o plano original era me causar algum sofrimento ou coisa parecida, então deu errado. Porém se deu certo... não, definitivamente, algo assim não viria dele.”

— Do que está falando? Por que não vai cumprir o contrato? — Bufei, tentando disfarçar minha ânsia pela resposta. — Pelo que sei, você deve estar faminto, então por que essa demora toda? Por que não faz o que tem que fazer?

Meu demônio não respondeu. Apenas me beijou novamente.

Sua boca saiu da minha e foi à minha orelha, depositando algumas palavras ali.

De início, eu as reconheci, mas me recusei confiar no que meus ouvidos captaram. Talvez, fosse só uma brincadeira da minha cabeça. Ou então, aquelas palavras tinham um significado diferente para os demônios. Era a única explicação.

Mas aquilo ficaria em minha mente, ecoando por várias vezes. Independentemente de qualquer coisa, aquela frase havia sido gravada na minha alma.

— Repete — pedi. Por Deus! Eu ouvi certo?

Meu demônio me encarou. Acatando ao meu pedido, como sempre fizera.

Não, não era uma armadilha da minha mente.

— Acho que é o preço de se apaixonar por uma humana.


Notas Finais


Trilha sonora: shorturl.at/jpvGH
Apenas repetindo o que disse acima, a fic será postada quinzenalmente e atrasos poderão ocorrer, mas sob hipótese alguma ela será abandonada!
Tendo dito isso, tenho apenas a acrescentar que há uma lenda urbana, que diz que comentários fazem o humor infernal de um escritor, se tornar um pouco mais suportável!
Até mais ver, minhas criaturas!


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