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História Like the 70's rock - Capítulo 11


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Capítulo 11 - Like building walls is too tiring


Fanfic / Fanfiction Like the 70's rock - Capítulo 11 - Like building walls is too tiring

O tempo voa, Xue Yang ponderava.

Embora uma fala tão antiga, carregava verdade intacta.

Remexeu-se no banquinho alto em frente ao balcão do Haochi — que fazia um barulhinho de ranger de ferro tão característico. A lâmpada da luminária antiga era amarelada, o menu escrito à mão. Tudo naquele restaurante minúsculo gritava velharia, e talvez por isso fosse um de seus lugares favoritos no mundo. Mesmo que tudo fosse muito antigo, o local era organizado e muito limpo, obviamente graças aos esforços de A-Yuan, o neto da vovó Wen, que era a dona do lugar.

Quando entrou ali pela primeira vez, há mais de dez anos, foi calorosamente saudado por vovó Wen e A-Yuan que, na época, ainda era uma criança. E, no tempo presente, aquela era a única referência que tinha sobre um lugar ao qual pudesse voltar e ser bem acolhido, portanto agradava-lhe aquela atmosfera velha, nostálgica.

Na ocasião em que recebeu a notícia de que passara na faculdade, vovó Wen deu-lhe uma sopa por conta da casa, e o mesmo repetiu-se quando tirou a primeira nota dez, quando levou Mo XuanYu para conhecê-los e quando conseguiu a vaga de estágio na Koi Tower. Mas quando terminou seu relacionamento com A-Yu, dona Wen entregou-lhe uma sopa fria e deu-lhe um sermão sobre ter terminado com um rapaz tão bom, por motivo tão idiota. Deu-lhe também um tapa na cabeça, depois entregou-lhe um guardanapo para que secasse as lágrimas e perguntou-lhe por que cacetas agia daquela forma.

Xue Yang não pôde deixar de sorrir ao recordar-se.

Em sua frente, A-Yuan, que agora era um mocinho recém entrado na faculdade, contava-lhe sobre o primeiro semestre. Estranhamente, sua boca mexia e som nenhum saía. O rapaz não parecia notar; porém.

Vovó Wen apareceu pela entradinha que dava para a cozinha, com uma bandeja contendo três tigelas de sopa quente. Colocou uma em sua frente, as outras duas em frente aos banquinhos ao lado do seu. Olhou para o lado, Song Lan agradecia vovó Wen com um aceno de cabeça.

Song Lan.

Com exceção de Mo XuanYu, Song Lan fora a única pessoa que levou ao Haochi.

Sem intenção alguma, na verdade. Passavam lá às vezes antes de seguirem para o apartamento de ZiChen, onde passariam as horas seguintes transando. Às vezes comiam ali mesmo, às vezes pediam para a viagem.

Vovó Wen desconfiava, ele tinha certeza. Contudo, para sua surpresa, ela nunca comentou sobre ou deu sua opinião. Quando Song Lan o acompanhava, ela o tratava da mesma forma como para consigo; quando não estava, perguntava se ele estava bem e era só.

Xue Yang suspirou.

Afinal, o que ZiChen fazia ali?

Intencionou perguntar-lhe, mas, assim que virou para o lado, pôde enxergar finalmente o cliente da terceira tigela.

Xiao XingChen.

O que ele fazia ali?

Será que não o notaram ali? Ou ignoravam-no propositalmente? 

XingChen não faria isso… nem Song Lan, por mais que ele — Xue Yang — merecesse.

Eles conversavam e, assim como com A-Yuan, som nenhum deixava suas bocas. Xue Yang franziu o cenho, o que será que acontecia? Estaria sonhando?

Apoiou o cotovelo no balcão e a cabeça em uma das mãos, passando a sentar-se de lado para observá-los. 

Eles combinavam, de fato. XingChen era um homem sem igual. Era bonito, cheirava como uma loja de perfumes caros, sua personalidade era apaixonante. Mesmo ele, Xue Yang, tinha resistência nenhuma aos encantos de seu DaoZhang, às vezes achava que ele nem era real.

Song Lan, por sua vez, não era tão diferente de Xiao XingChen. Por que tinha tanta resistência a ele, então? No final, pessoas eram diferentes. 

Por algum motivo, Song Lan o fazia lembrar constantemente da vida que nunca teve, da mágoa que sentia contra Deus e o universo, das vezes nas quais chorou até dormir quando criança. Xue Yang tinha inveja de Song Lan, da sua liberdade de poder acreditar nas pessoas boas e condenar as ruins.

E XingChen, bom, era XingChen. Talvez não existisse uma pessoa no universo que não fosse se sentir acolhido por ele.

Eles eram perfeitos um para o outro, de fato.

Xue Yang virou-se novamente para frente, farto de observá-los.

A-Yuan não estava mais atrás do balcão, tampouco vovó Wen.

Havia outra pessoa, uma mulher. Não conseguia ver o seu rosto, apenas a ponta dos cabelos castanhos. Mesmo se levantasse o olhar, nada vida além de uma silhueta pouco nítida.

— A-Yang.

A voz da mulher soou, quebrando finalmente aquele silêncio sepulcral.

— A-Yang, por que não se junta a eles?

Xue Yang abaixou a fronte, encarando as próprias mãos.

— Acho que não me enxergam.

— E como poderiam? Você se esconde há tanto tempo.

— Desculpe, mas não entendi.

— Você vive preso ao passado, A-Yang. Enquanto viver disso, nada vai mudar. O tempo passa, sabe…? — Ele sentiu a mão da mulher tocar delicadamente na sua. Seu toque era quente, aconchegante.

— E como você sabe disso? Me conhece, por acaso?

A moça riu baixinho antes de continuar:

— Como eu não te conheceria, A-Yang? Te carreguei por meses dentro de mim e estou sempre ao seu lado, meu menino.

Xue Yang sentiu o corpo inteiro gelar, as maçãs do rosto formigaram, os olhos embaçaram. Tentou levantar novamente o olhar, mas era ainda apenas uma silhueta desprovida de muitos detalhes, apenas uma voz.

— Me entristece ver que está desperdiçando a vida que te dei, A-Yang. Você será para sempre o meu menininho, mas não é mais uma criança… está na hora de deixar as mágoas da sua criança no passado.

— Mãe?

— Mesmo assim, eu me orgulho muito de você.

— Mãe!

— Um dia a gente vai se reencontrar e, até lá, viva bem, meu amor.

— Mãe!

— …

— Mãe!

 

Xue Yang abriu os olhos, para dar de cara com o teto de gesso branquinho de seu quarto.

Ofegava, sentindo-se ainda febril. As lágrimas escorriam pelo cantinho dos olhos, caindo ao travesseiro e molhando a fronha. Tudo não passou de um sonho, e nem em sonho conseguia lembrar do rosto de sua mãe. Virou-se para o lado, abraçou-se às cobertas, escondeu o rosto e chorou. 

Como poderia sentir tanto a falta de alguém, cuja única lembrança viva que tinha era a do toque quentinho das mãos em seus cabelos? Nome, expressão, nada. Sentia-se terrível por não conseguir recordar-se, por mais que tentasse.

 

    -

    -

XingChen observava atentamente o homem em sua frente, ao qual serviu a quinta caneca de chopp em menos de duas horas. Não era um cliente constante, tampouco era desconhecido.

Quando despediu-se de Song Lan no início daquela mesma manhã — certo de que não o veria tão cedo novamente —, não imaginou que terminaria a noite com ele bem ali, sentado em sua frente. Embriagado numa clara mistura de álcool e apatia.

Suspirou.

Deixou de lado o copo que estava prestes a lavar, deu a volta no bar e, enfim, puxou um banquinho ao lado de Song Lan, sentando-se.

— ZiChen… — chamou, tocando suavemente em seu ombro. — O que houve?

Song Lan esboçou um sorriso amargo, levando outra vez a bebida aos lábios, tomando um longo gole. 

Sentia-se ridículo.

Xue Yang, talvez, estivesse na razão quando criticava ferozmente pessoas como ele.

Sempre se orgulhou da própria moral, tão impecável e bem construída. Estaria mentindo se não admitisse que, por muito tempo, sentiu-se superior a ChengMei; afinal, o cara era um verdadeiro boçal. Mas ele? Ele não. Song ZiChen era um homem justo, decente. Um homem que achava que tinha o direito de julgar outra pessoa.

Quando as coisas passaram a fazer mais sentido, deprimiu-se. Estava ciente de que, no final das contas, o fim de seu caso com Xue Yang talvez fosse inevitável. Ele não lhe daria espaço em sua vida, não abertamente. E não estava realmente disposto a ser uma sombra para sempre. Sentia-se mal; todavia, por nunca ter podido enxergar através do óbvio. Estava confuso, queria estar ao lado de ChengMei de qualquer forma. Bem como desejava nunca ter se envolvido com ele.

Mas estava no bar de Xiao XingCheng, enchendo a cara.

— XingChen… imagina se a gente pudesse voltar no tempo pra não fazer um monte de merdas? — despejou, inspirando profundamente, a fim de controlar a tontura. — Era só o que eu queria. Voltar no tempo e me dar uns tapas, fazer tudo diferente.

— Bom, não tem como a gente simplesmente voltar e evitar um erro, mas aprender faz parte da vida, ZiChen. — XingChen sorriu, apertando levemente o braço do outro em um carinho. Embora não fizesse a menor ideia do que realmente acontecia, tinha ciência de que a culpa poderia ser o pior castigo às vezes. — Só o que a gente pode fazer é agir diferente a partir do presente, consertar o que tiver quebrado, ao menos tentar ser pessoas melhores. Não tem o que fazer com passado, além de deixá-lo no lugar que pertence a ele.

Song Lan virou brevemente o rosto na direção do outro, vendo-o tão próximo de si. Sorriu de forma simples. Xiao XingChen era tudo o que precisava às vezes, mesmo quando não fazia ideia do que realmente precisava.

— Como você consegue ser assim? — sussurrou. — Não me surpreendo que até ele goste de você.

XingChen franziu o cenho, não tendo conseguido escutar as palavras de Song Lan.

— Hm…?

— Deixa pra lá… — O engenheiro suspirou, empurrando o caneco de chopp para o lado, não aguentava mais beber. — Acho melhor eu ir para casa.

— Espera, A-Chen. — O arquiteto segurou-o pelo braço, impedindo que se levantasse. — Você não está bem para dirigir, deixa que eu te levo.

— Não precisa — disse, tentando se esforçar para parecer mais sóbrio do que realmente estava, pois não queria dar trabalho ao outro. —, você está trabalhando. E eu estou bem.

XingChen soltou um riso soprado, ainda segurando o braço do engenheiro.

— Eu sou o dono desse lugar, caso não se lembre — disse, levantando-se. — Me espere aqui, vou passar algumas coisas para o Su She e para o ShaoHua e logo vamos.

Song Lan não insistiu, concordando com um leve aceno de cabeça e limitou-se a esperar quieto por Xingchen, que foi ao caixa para conversar com Su She e orientá-lo sobre como proceder em sua ausência.

Song Lan enquanto esperava, abanou para um dos garçons, que prontamente o atendeu. Alcançou a carteira no bolso traseiro da calça e entregou-lhe algumas notas, o suficiente para pagar sua conta. Assim que o rapaz saiu, passou a encarar as próprias mãos. De fato, não estava sóbrio o suficiente para dirigir e sentia-se grato por ter alguém para impedi-lo de acabar fazendo besteira.

Logo XingChen apareceu novamente ao seu lado.

— Acho melhor irmos com o seu carro — disse, apoiando a mão no ombro do engenheiro. — Depois eu pego um táxi para voltar.

— Tudo bem. — Song Lan concordou, entregando-lhe sua chave.

 

O caminho até o apartamento do engenheiro fora feito em silêncio. XingChen restringiu-se a prestar atenção no trânsito, não se importando realmente com a quietude do outro. Estava claro que Song Lan passava por algum conflito interno, mas tocar ou não no assunto era, ainda assim, uma escolha dele. Uma escolha que seria respeitada. Embora quisesse muito ajudar, acreditava também que cada um lidava com as coisas da melhor forma que conseguia.

Logo que o carro foi estacionado na garagem, seguiram para o elevador, ainda em silêncio. XingChen ocupava-se procurando números de táxi enquanto Song Lan procurava pela chave de casa. Assim que entraram no apartamento do engenheiro, ele jogou-se sentado no sofá e logo desculpou-se:

— Desculpa ter te dado tanto trabalho hoje, A-Chen.

XingChen sorriu calmamente e sentou-se ao seu lado, mantendo um espaço entre eles. Ainda estava receoso graças aos acontecidos do final da noite anterior e do início daquela manhã.

— Não se preocupe… Se quiser conversar, sabe que estou sempre disposto a ouvir.

Song Lan suspirou. Não era como se soubesse realmente o que falar.

— Eu… só estou confuso. Muitas coisas aconteceram nos últimos seis meses. Por teoria está tudo certo, mas eu me sinto no meio do caos.

— O caos é bom, traz movimento.

— Você sempre pensa positivo?

XingChen levou a mão em frente a boca, soltando uma risada baixa.

— ZiChen, as coisas vão acontecer e a gente vai ser obrigado a encará-las. Pensar positivo ou negativo, no final das contas, não vai fazer diferença, é só mais uma escolha.

Song Lan sorriu, o primeiro sorriso sincero daquele dia. Estar ao lado de XingChen era leve, como se aquele daozhang fosse mesmo capaz de dissipar o ar denso em torno de si com as próprias mãos. XingChen era realmente especial.

— Obrigado.

XingChen tocou em sua mão, em um afago simples.

— Não precisa me agradecer, apenas fique bem.

Song Lan concordou com um aceno de cabeça, mesmo que estivesse ainda confuso acerca de tudo. Sentia-se genuinamente cansado, como se houvesse perdido algo importante no meio do caminho. Por fim, queria apenas que aquele dia terminasse.

Song Lan inspirou profundamente.

Embora desejasse que o dia terminasse logo, reconhecia também que não queria que XingChen fosse embora. Foi impossível não se lembrar da noite anterior, que poderia ter terminado perfeitamente, não fosse a discussão que tiveram graças a Xue Yang.

Ele devolveu o afago do arquiteto em sua mão.

― Eu vou tomar um banho, não quer me acompanhar?

XingChen surpreendeu-se com o convite inesperado. Suspirou aliviado; entretanto, por ter finalmente a resposta para suas pequenas novas inseguranças em relação ao engenheiro. Mentiria se falasse que não estava contente com a proposta.

Assim, sorriu e aproximou-se o suficiente para colar seus lábios nos dele, em um beijo rápido.

— Adoraria.

 

-

-

Xue Yang despertou com a vibração incessante de seu celular sobre o criado mudo ao lado da cama. Inspirou, abrindo lentamente os olhos, entorpecido pela interrupção de um sono pesado e livre de sonhos. Tateou sobre o pequeno móvel, alcançando logo o aparelho, que tocava insistentemente com o nome "Wei-xiong" piscando no centro da tela. 

Com a voz embargada pelo sono, atendeu:

— Wei-xiong? 

— A-Yang, te acordei?

— Mais ou menos… que horas são agora?

— Desculpa… São nove e meia.

— Ainda? — surpreendeu-se. Sentou-se, então, na cama, encostando-se na cabeceira. — Eu só cheguei em casa e apaguei… depois acordei e dormi de novo, pensei que já fosse tarde.

— Desculpa mesmo por ter te acordado, liguei para saber se está melhor.

— Estou, xiong. Acho que eu só estava precisando de um descanso, sei lá.

Ele pôde escutar um suspiro contido do outro lado da linha e se conhecia Wei Wuxian bem, sabia que não era somente aquilo.

— Está tudo bem mesmo, A-Yang? Por favor, fale comigo se precisar.

Xue Yang soltou um suspiro lento, pesado. Não estava bem. Nunca esteve, para falar a verdade. Sua vida era um constante nada, uma constante busca por proteção, para que continuasse aquele vazio.

— Xiong, você lembra do rosto da sua mãe?

A respiração do mais velho pesou do outro lado da linha, seguido por um silêncio de compreensão mútua. Xue Yang encolheu as pernas, abraçando-as e descansando a cabeça nos joelhos enquanto ainda segurava o celular rente a orelha. O passado que os unia, fazia com que Yang sentisse algo próximo a um aconchego no peito quando estava com Wuxian, mesmo que em silêncio.

— Às vezes você não imagina como as coisas poderiam ser diferentes? — completou.

— A-Yang… — O mais velho finalmente pronunciou-se, chamando-o. — Por que não vem aqui em casa, hn? A shijie passou aqui quase agora e deixou um monte de sopa, podemos jantar e conversar.

Xue Yang concordou, esforçando-se para arranjar energia e sair da cama. Ele não era o tipo de cara que gostava de ficar na fossa, simplesmente levantava a cabeça e levava a vida da melhor forma que podia. Contudo, também era humano. Assim, desligou a chamada e olhou para o ecrã do celular, abrindo uma notificação de XingChen, que mandou-lhe uma mensagem no início da noite perguntando como estava. Respondeu-lhe que estava melhor, largou o celular e encaminhou-se ao banheiro, a fim de tomar um banho antes de sair.


 

Com cuidado e atenção redobrada, Wei Wuxian despejava água fervente em uma caneca, preparando chá verde para o noivo, que usava metade da mesa de jantar para corrigir os trabalhos de seus alunos. Lan WangJi era um dedicado professor universitário de língua e literatura chinesa, bastante rígido, um tantinho estóico, sério além da conta. Seu total oposto.

Embora à primeira vista parecessem duas pessoas improváveis para formar um casal, Wei Ying e Lan Zhan ressaltavam o melhor um do outro quando juntos. Conheceram-se na universidade, apaixonaram-se e estavam juntos há quase onze anos.

Wuxian colocou cuidadosamente a caneca sobre a mesa, longe o suficiente dos papéis dos trabalhos feitos a mão. Em seguida, foi para trás da cadeira do noivo, abraçando-o gostosamente e deixando um beijo carinhoso em seu rosto.

— Tem muita coisa ainda para corrigir?

— Hn.

— Daqui a pouco, o A-Yang deve chegar — comentou, ainda com o rosto colado ao de WangJi, observando por cima de seus ombros a poesia de seu aluno. — Seus pupilos são talentosos.

— São.

— Por que você faz eles escreverem com caracteres tradicionais, Lan Zhan?

— Os poetas clássicos escreviam dessa forma — explicou, ainda atento às folhas em sua frente. — Eles devem entender a origem do que escrevem.

— Tem coisa aí que eu nem saberia escrever à caneta.

— Pois deveria.

Wei Ying deixou um bico manhoso formar-se nos lábios, seu noivo hipster vivia criticando como a sociedade estava esquecendo como se escreve corretamente graças aos celulares e computadores. Ninguém mais apreciava uma boa caligrafia, falava.

— Você é muito chato, Lan Zhan… — disse, e antes que o noivo pudesse responder, a campainha tocou. — Deve ser o A-Yang… 

Wuxian soltou o noivo do abraço, seguindo à porta para receber o amigo de longa data. Ao abri-la, sorriu de forma reconfortante para o rapaz, dando espaço para que ele adentrasse sua casa.

— A-Yang, entre.

— Wei-xiong, boa noite.

Wuxian, notando a apatia do Yang, puxou-o para um abraço lateral, fazendo com que caminhasse ao seu lado para o interior da residência.

— Venha, eu vou esquentar a sopa da shijie para jantarmos.

Assim que chegaram na sala de jantar, separada da cozinha apenas por um balcão, Xue Yang cumprimentou o outro dono da casa, que parecia compenetrado em um monte de papéis.

— Hanguang-jun, boa noite — cumprimentou-o com uma mesura, no que ele respondeu também com um balançar de cabeça.

Lan WangJi não era alguém a quem chamava de amigo, mas era acostumado com a sua presença, uma vez que era quase uma extensão de Wei Wuxian. Talvez também por sua postura, sempre tão sério e justo, tinha o seu respeito.

— Sente-se, A-Yang. — Wuxian indicou a mesa, onde o noivo ainda corrigia os trabalhos, para que se acomodasse enquanto ia à cozinha ligar o fogão para esquentar a sopa de raiz de lótus de YanLi.

Xue Yang sentou-se à mesa, no lado oposto ao de Lan WangJi, que permaneceu absorto em seu trabalho. Logo, Wei Ying juntou-se a eles e sentou-se ao lado do amigo, colocando duas canecas de chá quentinho sobre a mesa, uma para si e outra para o Yang.

— Eu tenho uma imagem meio fixa. — Wuxian disse, esboçando um sorriso simples e encarando fixamente a caneca em suas mãos.

Xue Yang franziu o cenho, olhando-o confuso.

— Da minha mãe — completou.

Lan WangJi, que mantinha ainda a cabeça baixa para seus papéis, movimentou levemente os olhos, passando a discretamente prestar atenção no que se desenrolava em sua frente.

— Você sabe, A-Yang, o tio Jiang era amigo do meu pai e foi atrás de mim quando soube do incêndio. Ele tinha algumas fotos em que eles apareciam, acabei montando uma imagem na minha cabeça. É sempre a mesma expressão, mas é o suficiente pra mim. — Nos lábios de Xue Yang, a sombra de um sorriso de compreensão fez-se presente enquanto observava o amigo que falava. — Às vezes me sinto um pouco culpado por não lembrar bem, eu não era tão novo quando os meus pais morreram, mas você sabe que minha memória não é boa.

— Eu sei… — Yang respondeu em meio a um riso soprado.

— Mas por que você me perguntou isso mais cedo, A-Yang? O que aconteceu?

— Ah… nada realmente. Eu sonhei com a minha mãe, mas não consegui ver o rosto dela — explicou, baixando o olhar para encarar as próprias mãos. — Ela falava que eu estava desperdiçando a vida que me deu.

— E o que você acha disso?

— Eu não sei. Faz um tempo que eu sinto que não sei de muita coisa, por mais que eu finja saber. Mas é sempre assim, logo passa.

— A-Yang…

Xue Yang forçou o sorriso, obrigando-se a encarar Wei Ying novamente devido ao tom de repreensão com a qual seu nome fora pronunciado.

— Não precisa se preocupar, não seria a minha primeira crise existencial e duvido que seja a última.

O Yang levou a caneca à boca, finalmente provando o chá amargo preparado pelo amigo. Na prática, as coisas funcionavam naquele ciclo ininterrupto em sua vida desde que sua memória pudesse o levar. De tempos em tempos, caía na realidade de que era sozinho, que não cultivava muitas amizades e que, possivelmente, noventa por cento das pessoas que o conheciam, julgavam-no mal — e não tirava a razão daquelas pessoas.

A forma na qual agia não era totalmente inconsciente. Muito do que fazia era para proteger-se, como se a criança desconfiada de tudo e de todos vivesse ainda dentro de si, lembrando-o que o mundo não era um lugar agradável e que as pessoas, no final das contas, entravam em sua vida para irem embora quando assim fosse conveniente. E embora isso trouxesse-lhe ainda mais dissabores — como o fim do seu relacionamento com Mo XuanYu, por quem fora apaixonado por tantos anos —, era difícil escapar daquele padrão ao qual era tão habituado.

— Eu conversei com o Song Lan hoje. — Wuxian retomou a fala e, com a menção do nome de Song Lan, os olhos castanhos de Yang focaram-se novamente no amigo. — Ele me contou que vocês terminaram.

O ruído de uma cadeira sendo arrastada chamou a atenção dos dois amigos, que olharam diretamente para a outra ponta da mesa. Lan WangJi pediu licença e retirou-se do cômodo — com a desculpa de estava indo tomar banho —, a fim de deixá-los mais à vontade.

Xue Yang acompanhou-o com olhar, usando daqueles poucos segundos para tentar conter o amargo que lhe tomava a boca com a menção do nome de Song Lan. Quando deu-se conta que não tinha como postergar aquilo para sempre, voltou o olhar novamente para Wuxian.

— A gente não tinha nada, xiong, não tinha o que terminar.

Wei Wuxian rolou os olhos, cruzando os braços em seguida.

— Me poupe, Xue Yang. — disse, um tanto aborrecido. — Até quando você vai ficar nessa? Foi a primeira vez desde o Mo XuanYu que te vi com alguém, não se faça de sonso. Não comigo.

Os olhos de Yang focaram-se na própria mão, que envolvia a caneca de porcelana, ainda cheia de chá. Poderia inventar mil desculpas, que Wuxian fingiria acreditar ou não, mas não estava afim. Colocar-se em uma posição de vulnerabilidade era difícil, porém manter tantos muros em pé era igualmente cansativo.

— Uma hora ou outra isso ia acontecer, a gente é muito incom…

— Incompatível? Vocês ensaiaram isso ou algo assim? Se ter personalidades diferentes fosse algo muito grave, eu e o Lan Zhan não estaríamos juntos até hoje.

Xue Yang calou-se, uma vez que não tinha o que falar. Wei Wuxian estava certo, usar suas personalidades discrepantes como desculpa era apenas o caminho mais fácil para lidar com a situação que se esfregava em suas fuças: Song Lan chegou perto demais, e isso era desconfortável. Não queria repetir a mesma história de anos atrás, e não confiava em si mesmo para isso.

— A-Yang, você é um adulto que paga as próprias contas, sabe o que faz e não precisa de alguém te cobrando pelas tuas escolhas. — Wuxian prosseguiu, diante o silêncio do outro. — Eu sei que não tenho esse direito, mas você é um irmão para mim. Tenho receio que passe o resto da vida se negando a ter uma relação saudável, sabe?

Wei Wuxian levantou-se e seguiu em direção à cozinha, que era separada da sala de jantar apenas por um balcão, a fim de desligar o fogão antes que deixasse a sopa queimar. Se conhecia bem Xue Yang, sua mente estaria em negação de qualquer forma, não era como se falar muito mais fosse adiantar.

Quando retornou, o coração amoleceu diante o amigo que mordia os lábios, tentando conter o conflito que se estabelecia em seu peito. Talvez manter muros fortes fosse realmente cansativo.

Wei Ying manteve-se em pé ao lado de ChengMei e tocou seus ombros, em um abraço lateral. Sentiu-se meio tonto por insistir no assunto com Yang, mas algo dentro de si porventura acreditava que ainda era possível reverter aquela situação.

— A-Yang, seja mais gentil consigo mesmo. O Song Lan é uma pessoa legal e ele gosta de verdade de você. — disse, sentindo o corpo do amigo encolher minimamente diante a menção do nome do engenheiro.

Xue Yang escondeu o rosto entre as mãos e soltou um suspiro longo. A garganta doía mais que nunca, como se toda a aflição em seu peito implorasse para sair.

— Xiong, eu não sei o que fazer.

— Primeiro, você vai comer a sopa que a shijie fez. — Wuxian sorriu, deixando um afago nos ombros do mais novo. — Depois você pode começar deixando de ser tão cabeça dura. Conversa com o Song Lan, tenho certeza que ele vai querer te escutar.

O mais novo meneou a cabeça, em sinal de entendimento. Wei Ying não tentaria adivinhar qual seria o próximo passo de Xue Yang, criar expectativas com alguém tão imprevisível era perda de tempo. O que poderia fazer por ele, no momento, era lembrar-lhe de que não estava realmente sozinho. E servir-lhe um prato gostoso de sopa de costela com raíz de lótus que, tinha certeza, seria capaz ao menos de aquecer-lhe o coração.

 


Notas Finais


Estamos chegando no ponto principal da história, que loucura.
Lembro ainda quando eu tive a ideia pra 70's e quanta coisa mudou no enredo nesse meio tempo XD
Obrigada pelo apoio e carinho de vocês, que têm comentado na história e me enchido de vontade de escrever. Se as atualizações têm demorado um pouquinho, é porque eu quase não tenho tido tempo de escrever TwT... mas minha cabeça fervilha com 70's~!

Beijão e até o próximo!


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