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História Lilith - Capítulo 36


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Capítulo 36 - Ruínas


Povs. Raven


Pego o jornal da biblioteca e espero Kage na cozinha. Ele está demorando, será que a lavanderia é no fim do mundo?

A sensação que estou sendo vigiada retorna, não me assusto mais devido à frequência com que isso tem acontecido, mas ainda me sinto desconfortável. 

- Cuidado com o pano - a vozinha o infantil volta.

De primeira fico com tanta raiva por ela ter voltado que até cerro os punhos. 

- Pano? - pergunto. 

- Sim, o pano… não toque nele.

Ai meu Deus... É sério que estou conversando com uma voz dentro da minha própria cabeça? 

Se eu não me conhecesse, diria que tinha fumado algo bem forte.

- Como você sabe disso? - pergunto cética - por acaso é vidente? 

- Eu já disse, sua bobinha... eu estou em todo lugar - ela ri - não acreditou em mim, não é? 

Não respondo. 

- Encare isso como uma prova de que pode confiar em mim. Estou ansioso para nos reencontrarmos, mas preciso que não desconfie mais de mim - uma pausa -  e não se preocupe, eu não mordo... sabe que só quero o seu bem. 

A última parte foi sussurrada com a antiga voz e o efeito é imediato: fico arrepiada, novamente tenho a sensação que ela me é familiar e por algum motivo me deixa com medo. Muito medo.

Mal tenho tempo para interpretar o que ela diz, Kage entra na cozinha parecendo estranhamente feliz.

Agora é a hora de saber se a tal voz falou a verdade ou não. 

- Cheguei - ele diz - trouxe essa vassoura e um pano. 

Engulo em seco.

- Ah, a propósito, ele está meio úmido, eu o torci o máximo que pude, mas ainda está meio molhado.

Ah, não. Não.

Droga.

Me obrigo a agradecer a vozinha na minha cabeça. 

O pano está molhado com água benta.

Eu sinto de longe, é como uma sensação de aversão, repulsa… não quero tocar nisso. Não posso.

- Obrigada mais uma vez, Kage - Digo forçando um sorriso e inventando uma desculpa para ele sair - eu só precisaria de mais um favor… você sabe onde teria mais um saco de lixo? Acho melhor não misturar esse vidro com o lixo da cozinha, mesmo que ele esteja embrulhado no jornal.

Ele hesita.

- Claro, vou lá buscar, já volto - diz com uma cara feliz na máscara, mas deve estar se remoendo de raiva por dentro.

Provavelmente queria ver a pele das minhas mãos ser corroída por causa da água benta quando eu pegasse o tal pano.

Desgraçado.

Ele sai, equanto isso procuro por algo que possa substituir o pano, encontro dentro da pia luvas de borracha que (provavelmente) algum ser humano fresco usa para lavar a louça e as visto.

Uso-as para catar os cacos de vidro e Embrulhá-los no jornal, tirando-as rapidamente. Termino de guardá-las bem na hora que ouço os passos do Kage se aproximando da cozinha.

- Aqui está o saco de lixo - ele entrega, então olha para as minhas mãos - você não se machucou, não é?

- Não, eu me cuidei - respondo, me segurando para não sorrir - não precisa se preocupar.

Juro que ouço ele soltar um palavrão por trás da máscara. 

Me divirto ainda mais.

Depois de ter limpado tudo e arrumado as coisas eu vou para o meu quarto e tento pensar um pouco sobre o que aquela voz falou… e sobre o copo.

Não entendi ainda como aquele copo quebrou… será que fui eu? Ou será que foi essa voz? Isso não faz sentido… nada mais faz.

E por quê aquela voz me avisou sobre o pano? Ela quer me ajudar? Então por quê só me atrapalha? Por quê me persegue? 

Tantas perguntas começam a fazer minha cabeça girar, aproveito isso para tirar um cochilo. 


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- HORA DE ALMOÇAR, CAMBADA DE VAGABUNDO!

Acordar com a voz da senhora Morg berrando realmente não é nada agradável… tem potencial para destruir o seu dia e acabar de vez com a sua vontade de fazer qualquer coisa.

Me arrumo, dando uma última conferida nos machucados das costas. 

Tá doendo. Bastante.

Saio do quarto e logo encontro Ben no corredor, ele desvia o olhar e finge que não me viu, mas eu o chamo.

Preciso conversar com ele, sinto que não está bem e posso ter uma parcela de culpa nisso. 

- Está tudo bem? - pergunto ao me aproximar e ver o desânimo estampado no seu rosto.

- Ahan - ele responde triste.

- Não parece…

Descemos as escadas juntos, mas sinto como se estivéssemos em mundos diferentes e distantes um do outro.

Sinto um aperto no peito.

- Eu só estou mais quieto que o normal - ele diz sério.

- Mas tem algum motivo pra isso? - pergunto.

Ele hesita um segundo antes de responder.

- Não.

Suspiro. 

- Você quer… sei lá, conversar depois? 

Ver ele assim tristinho me deixa com o coração apertado… Ben sempre foi tão agitado, animado e alegre! Sinto falta das suas risadas e os nossos assuntos aleatórios. 

- Pode ser - ele diz com um sorriso voltando a iluminar o rosto - estou com saudades de conversar com você.

Sorrio.

- Eu também, loirinho - digo tirando o seu chapéu de elfo e bagunçando o seu cabelo, nós rimos.

- O quê tem de tão engraçado? - Jeff aparece atrás de nós, na hora eu paro de brincar com Ben e me afasto um pouco.

Melhor não provocar.

- Nada, a gente só estava conversando - eu respondo.

- É, não precisa se preocupar Jeff - Ben fala com o tom triste e desanimado na voz voltando - eu sou só amigo da Raven, não faria nada com ela.

O loiro se afasta de nós e vai para a cozinha com a cabeça baixa. Eu começo a andar atrás dele, mas Jeff leva a mão ao meu ombro e me segura com firmeza.

- Raven, não. Deixa ele.

Apesar de não concordar, assinto e fico parada ao lado do branquelo. 

Se for conversar com o Ben, pelo jeito tem que ser longe do Jeff. 

- Hoje à tarde eu vou dar uma saída, não aguento mais ficar aqui preso… quer ir junto? - ele pergunta.

- Pode ser - falo erguendo o olhar - Aonde você vai?

Ele sorri.

- É segredo.

- Não me diga que vai ser outra caixa d'água! - brinco.

- Há, há, muito engraçada você… não, não vai ser uma caixa d'água - ele me envia um olhar malicioso - mas se você quiser a gente pode dar uma passada lá também…

- Nem fudendo! - digo voltando a andar para a cozinha.

Jeff ri alto atrás de mim.

Ele não faria isso se sentisse a dor que estou sentindo no corpo.


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Depois do almoço eu e Jeff logo saímos da mansão, ele está um tanto quanto irritado pelo fato do Kage ter feito uma brincadeira antes…


Flashback on


- Acho que não tenho uma faca - Jeff disse olhando em baixo e ao redor do seu prato, ele só tinha ganho um garfo, mas a faca não.

- Não se preocupe, Jeff - Kage começou - é só você usar aquele outro talher que você sempre carrega com você.

Jeff se levantou da cadeira e ficou de frente para o mascarado, metralhando-o só com o olhar.

- Juro que se você chamar a minha faca de TALHER de novo, eu vou arrancar a sua língua com ela e fazê-lo engolir!


Flasback off


Balanço a cabeça para afastar essa lembrança. Eu ri muito na hora e quase apanhei do Jeff por isso. 

Ele gosta mesmo daquela maldita faca.

- É muito longe? - pergunto já sentindo as pernas doerem.

- Não. Fica a uns dez minutos daqui - ele diz olhando para mim, estou quase mancando - mas com esse seu ritmo vamos demorar uma hora só para ir.

- Eu estou com dor, ok? - digo chateada - Você me espancou ontem e eu não percebi? Nunca senti tanta dor no corpo!

Ele ri.

- Pior que não... e olha que fui carinhoso, já que era a sua primeira vez, eu não queria deixar você sem andar logo na primeira.

Eita porra.

Eu deveria me preocupar com isso?

- Jeff, você já tinha feito…

- O quê? - ele pergunta com um sorrisinho.

Desgraçado.

- Você sabe... - digo baixando o olhar, mas logo erguendo-o em provocação - Aquilo que a gente não conseguiu fazer na primeira vez porque você esqueceu…

- Ok, ok, sei o quê é - ele me corta agora chateado - Bom, o quê você acha?

Epa. Isso não era esperado.

- Como assim? - pergunto.

- Pareceu que eu já tinha feito ou não?

Penso.

- Ah, sei lá… foi a minha primeira vez, como eu vou saber a diferença entre um cara que já fez ou não? - pergunto.

- Hmmm, então deixa eu mudar a pergunta… - ele para e me olha, então se aproxima - Foi bom?

Ai. Por quê ele tem tanta facilidade em me fazer corar?

- B-bem, e-eu... - argh, que vergonha! - Eu gostei…

- Muito? - ele pergunta com as duas mãos na minha cintura.

- É… s-sim, foi… b-bom… eu gostei… muito…- não sei mais o quê estou falando, a vergonha me obriga a enterrar o rosto no peito do branquelo.

Ele ri.

- Não precisa ter vergonha de falar isso - ele ergue meu rosto e me encara - Como eu vou fazer coisas piores com você se ficar envergonhada assim sempre?

Dou um tapinha em seu ombro, ele ri ainda mais, mas não me solta.

- Você não quer continuar andando? - Pergunto tentando fazê-lo parar de rir.

- Na verdade não… não estamos com pressa, estamos? - ele sorri.

- Fale por você… quanto antes a gente chegar lá, seja onde for, antes eu vou poder parar e descansar.

Ele se aproxima até encostar a ponta do seu nariz na minha, então sussurra:

- Se quiser parar um pouco agora… eu deixo você sentar no meu colo - então começa a rir alto.

Não vejo graça nenhuma.

- Não, não e não! - digo me afastando - Hoje você não toca mais em mim!

Me solto e volto a andar para a direção em que estávamos indo. Ele continua rindo, mas vem atrás de mim.

Depois que ele para de rir, caminhamos em silêncio por mais alguns minutos, até que eu começo a ver algumas coisas aparecendo no meio das árvores, parecem ruínas de casas e outras construções antigas, muito antigas.

- Onde nós…

Nem consigo terminar a pergunta, na verdade, não preciso. Só ao olhar em volta e perceber que estamos andando no meio dos escombros de um antigo vilarejo eu sei onde estamos.

Jeff me trouxe para o vilarejo da igreja que foi usada para construir a mansão. Ou melhor, os escombros dele.

As ruínas se erguem como cicatrizes no meio do verde, elas são as marcas de uma população que entrou em decadência devido à fé cega que os levou para o próprio túmulo. Se eu me lembro bem, tudo começou com alguma doença que estava levando muitas pessoas à morte, na época era muito comum surtos de enfermidades causadas pelas péssimas condições de higiene, como a gripe, malária, varíola… as pessoas começaram a se desesperar e acharem que era um castigo de Deus pelos seus pecados. Eles estavam literalmente contra a parede, só a julgar pelos escombros deve ter sido um vilarejo do século XVIII (18), naquele período a Igreja era um dos pilares da sociedade, em contrapartida, a palavra "liberdade" nem devia ser muito conhecida. Eram realizadas torturas e execuções em nome de Deus, mas no fundo era tudo um sistema friamente montado para manter o controle sobre a população e servir aos interesses dos mais poderosos.

O desepero dos moradores foi tanto que, de acordo com o próprio Slender, as pessoas optaram por queimar todo o vilarejo, já que o fogo seria uma maneira de purificar as coisas, então tudo foi destruído. A própria população se permitiu virar cinzas, para que fossem perdoados por Deus. O padre que foi encontrado morto na torre/caixa d'água provavelmente morreu lá tentando escapar do caos que virou o vilarejo.

Jeff me cutuca e me acorda dos pensamentos.

- Vamos entrar? - ele pergunta apontando para frente, onde é possível ver mais ruínas e escombros, algumas até de pé e cobertas por musgo, cerca viva e outras plantas.

- Vamos - digo assentindo.

Começamos a adentrar em meio aos destroços, dos meus dois lados podem ser vistas pedras e pedaços de paredes que antes eram usados para erguer casas e outras construções. Percebo que não estamos caminhando sobre a grama, olho para baixo e vejo que estamos sobre algum tipo de calçada ou mesmo rua, claro, a pedra foi praticamente engolida pela vegetação, mas ao olhar atentamente dá para perceber que ali ainda tem alguma coisa. Ergo o olhar e me surpreendo ao ver na minha frente uma construção praticamente de pé, é grande, não sei o que era, mas está com as quatro paredes erguidas. Me aproximo, no lugar onde antes era pra ter uma porta hoje é só um vão aberto para o interior do prédio. Eu entro. Jeff fica na porta me olhando.

- Por quê você não entra? - pergunto já no centro da construção, está tudo vazio a não ser pelas plantas que dominaram o lugar.

- Não tem nada pra fazer aí a não ser olhar esse monte de pedras caindo aos pedaços.

Giro os olhos. Realmente aqui não tem muito o que fazer, mas é bonito observar as paredes resistindo à pressão do tempo para caírem, o verde que está lentamente tomando conta de cada canto desse lugar, cada fresta, cada rachadura. Também é bonito ver a luz do Sol que entra pelo enorme vão onde antes deveria ter algum telhado, ouvir o uivo suave e discreto do vento entre as ruínas … é tudo tão lindo.

- Como isso tudo ainda está de pé? 

- O cara pálida deve ter feito alguma macumba, ele acha importante conservar esse tipo de coisa - o branquelo responde revirando os olhos.

É aqui que percebo uma diferença entre nós: Jeff não olha para trás, o passado é passado e ponto. O que importa é olhar para frente. Já eu não, talvez por tudo o que já passei ainda penso bastante sobre a minha infância e vida antes de vir para cá. 

Eu gosto de pensar no passado para evitar que o futuro seja igual, e é isso que me faz encarar as paredes deste lugar.

Que histórias será essas ruínas guardam? Quais segredos estão sendo enterrados juntos com essas paredes? Provavelmente eu nunca saberei, aprendi que tem coisas na vida que simplesmente devem ser esquecidas e deixadas para trás, não como algo insignificante, mas sim como algo que já passou e não tem como ser mudado.



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