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História Linear - Capítulo 31


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Capítulo 31 - Capítulo trinta.


Há algum tempo atrás...

O aspirante a médico tentava se concentrar na mistura a sua frente. Estava preparando o molho para acompanhar o nhoque que já estava pronto, mas essa tarefa se tornara impossível há alguns minutos, com Júnior o abraçando por trás e a cada cinco segundos depositando beijos em sua nuca, Philippe perdia totalmente a concentração.

- Você não para um minuto. - Philippe murmurou, após sentir as mãos de Neymar apertarem cada vez mais sua cintura. 

- Você quer que eu pare? - Perguntou sussurrando no pé do ouvido do mais baixo, que só era mais baixo por pouco centímetros.

- Quer que eu queime a comida? - Philippe tentou se distanciar, todavia era praticamente impossível por conta do espaço.

-  Se você pedir, eu paro. - Neymar disse com um sorriso sacana. Coutinho riu fraco. A sensação de ter o carinho do outro era boa, estava se divertindo e apesar de estar atrapalhando um pouco, Philippe não odiava totalmente o gesto. 

Coutinho virou o rosto e depositou um beijo nos lábios do rapaz, que já estava com a cabeça tombada em seu ombro o que facilitou, deixando por alguns segundos a panela em segundo plano. Quando cessaram o contato, Júnior encostou seus lábios aos do outro novamente antes de se afastar. 

- Não sabia que cozinhava. - Neymar puxou assunto enquanto se escorava em outra bancada, para observar o rapaz. 

- Eu sei fazer algumas coisas. - Revelou com uma careta no rosto. - Nada de grandioso. Também não cozinho muito por causa do tempo e da preguiça. - Neymar ouvia tudo atentamente. 

Philippe estava terminando de colocar tempero no molho e Neymar o observava com um sorriso bobo nos lábios. O moreno estava apenas com uma calça moletom, seus cabelos estavam como sempre quando estava em casa, desgrenhados, e o leve biquinho que fazia sem perceber quando estava concentrado, deixava Júnior com uma expressão boba apenas de observar.

- E você? - Philippe perguntou finalmente fechando a panela. A comida estaria pronta dentro de alguns minutos.

- Eu o quê? - Neymar acabou se distraindo enquanto admirava à paisagem. Philippe estava lavando as mãos, deu uma risada fraca e se virou para olhar o rapaz.

- Você cozinha? - Perguntou de forma mais clara. Neymar deu uma risada irônica e franziu a testa.

- Mais ou menos, quer dizer, mais para menos. - Respondeu. Não tinha muitas habilidades culinárias, algumas apenas para sobrevivência e fim. 

Em alguns instantes de silêncio, Philippe, ainda com um sorriso estampado nos lábios, virou o rosto e acabou olhando para a porta que dava na lavandeira. Foi inevitável não pensar em Charlie, o cachorro gostava de lá porque tinha uma sacada, e Charlie amava o ar livre. 

- O que foi? - Neymar perguntou ao ver Philippe mudar de expressão, para uma de tristeza. - Tá pensando no Charlie? - Philippe assentiu e forçou um sorriso. - Tá tudo bem. Pode conversar comigo, se quiser. - Disse suavemente.

- Não precisa, tá tudo bem. - Assegurou. Mesmo que falsamente. 

O restante do almoço foi finalizado e em poucos minutos Neymar e Philippe se sentaram à mesa para almoçar. Na última semana, Coutinho e Júnior acabaram se afastando do mundo exterior. Passaram a maior parte do tempo assistindo à alguma coisa da Netflix, dormindo, conversando ou dando alguns amassos. Philippe não queria pensar nas consequências, por isso estava bastante satisfeito em ficar em seu apartamento, como um urso hibernando. Neymar acabou por passar à noite, mas apenas em alguns dias já que precisava voltar para casa. 

No final da tarde, quando estavam na sala, deitamos abraçados no sofá, e conversando sobre bobagens, escutaram um celular tocar. Philippe procurou o aparelho entre as almofadas e finalmente o encontrou, era uma chamada de sua melhor amiga, Bruna. No mesmo instante, sentiu uma onda de desespero e até culpa. Neymar, vendo a expressão do rapaz, murmurou perguntando se estava tudo bem, mas Philippe, rapidamente, o pediu para ficar quieto enquanto atendia à ligação. 

- Oi. - Disse tentando soar o mais casual possível. Neymar o olhava confuso ao passo que Philippe tentava se desvencilhar do abraço se levantando.

- Uau, você está vivo. - Brincou. Todavia, Philippe sabia que tinha um pouco de verdade, já que na última semana se desligou completamente do mundo. - Tudo bem?

- Sim. E com você? - Philippe achou melhor ir para o quarto para conversar com Bruna, a situação por si só já era extremamente desconfortável. 

- Bem. - Mesmo desconfiada, Marquezine ignorou a afirmação do amigo - Você não responde as minhas mensagens, então pensei em te ligar pra fazer um convite. 

- Essa última semana foi tão cheia, me desculpe. - Pediu se justificando. - Estava tentando colocar o sono em dia. - Felizmente, não era mentira, só não era também a verdade completa. - Depois eu explico direito.

Meias verdades. Era exatamente isso que Philippe vinha dizendo nos últimos seis meses. "Onde você estava?", "No parque com o Charlie" e realmente estava, só que não era apenas com o Charlie. "Quer sair com a gente?", "Não dá, estou cansado", cansado e jantando hambúrguer com o Neymar. Tudo isso era um saco. Philippe se sentia um rato por omitir tanta coisa dos seus amigos, porém era inevitável. 

A amizade de Bruna era importante, mas a de Júnior também. Mas agora as coisas tomaram outros rumos, além da amizade. Se já seria difícil contar para Marquezine antes, agora era praticamente impossível.

- Hmn. - Respondeu. - Vamos sair amanhã, fazer alguma coisa juntos, sei lá. - Sugeriu com certo entusiasmo.

- Por mim, tudo bem. - Concordou. 

- Beleza. Mas se você desmarcar de última hora eu te arrasto pela gola da camiseta. - Ameaçou fazendo Philippe rir nasalado.

- Não vou desmarcar. - Assegurou.

- Até amanhã então, bocó. - Respondeu antes de desligar.

Coutinho jogou o tronco do corpo na cama e abandonou o celular ao lado, fechou os olhos por alguns segundos. Imaginou como seria contar a Bruna o que estava acontecendo, mas o medo era bem maior. Talvez medo de decepcionar, a garota significava muito e Philippe, ás vezes, sentia que havia estragado tudo.

Ao voltar para sala, viu Neymar calçando o tênis. Semicerrou os olhos e arqueou uma das sobrancelhas enquanto se escorava na parede que dava para o corredor, esperando ser notado.

- Terminou a ligação? - Neymar perguntou despretensioso, apenas para preencher o silêncio que tomava o cômodo, enquanto pegava sua blusa de frio na poltrona. 

- É meio óbvio. - Respondeu já entendendo o motivo do moreno estar daquele jeito. - Vai embora? - Fez a pergunta mais óbvia que poderia.

- É meio óbvio. - Respondeu no mesmo tom de piada o qual Philippe acabara de usar. 

- Foi alguma coisa que eu disse? - Ao invés de preocupado, Philippe soava com deboche. Neymar passou a encara-lo e, mesmo um pouco chateado, fingiu não ligar.

- Não. Por que eu iria embora por causa de alguma coisa que você disse? Não tem sentido. - Curvou um sorriso forçado no canto dos lábios. Coutinho ainda tinha a expressão de deboche, uma espécie de sorriso contido. - Não temos nada. - Murmurou displicente.

- Tem certeza que eu não fiz nada? Porque parece que você tá bem chateado. - Sugeriu a chateação. Deixando Neymar, de certa forma, irritado com o deboche do outro. 

- Tenho que ir pra casa. - Mudou de assunto. Philippe riu e molhou os lábios. 

- Se você quiser, vai ter que me dizer. - Dessa vez ficou sério. - Porque eu não acho que tenha feito algo de errado. 

- Você nunca faz nada de errado. - Murmurou irônico antes de revirar os olhos e avançar em direção à porta. 

- Com é que é? - Perguntou perplexo pela repentina mudança de humor de Júnior. - O que é isso? Ciúmes? - Philippe largou o deboche, estava começando a se irritar de verdade. 

- Você tá delirando por acaso? - Neymar soou debochado e Philippe permaneceu sério, não vendo um mínimo de humor naquilo. - Você não é o centro do mundo, Philippe. Eu tenho mais o que fazer. 

- Uau. - Murmurou enquanto um pequeno sorriso se formava no canto dos lábios e era claro que não era um sorriso de bom humor. - Descanse em paz, maturidade. - Ironizou. - Ela é minha amiga, precisa entender o meu lado também. - Philippe, dessa vez, disse com mais suavida. O motivo foi Neymar estar abrindo a porta, prestes a sair.

- Eu tento entender. - Respondeu. - Mas, às  vezes,  não dá. - Virou se para olhar Coutinho nos olhos. - Acho que é você quem precisa entender o meu lado. - Murmurou baixinho, seguido de um suspiro frustrado.

- O que você quer que eu faça? - Coutinho perguntou. Sua expressão corporal se transformou, agora estava cabisbaixo,  sem a pose anterior de arrogância. - Só me diz, tá bem. Porque eu quero tentar, mas preciso que você me diga antes de qualquer coisa. - Júnior entendeu que Philippe se referia a Bruna e, por breves segundos, sentiu seu peito ficar cheio de esperanças, mas precisava ser cauteloso, antes de tudo.

- Amanhã conversamos, pode ser? - Perguntou e Philippe, relutante, assentiu. - Eu te mando mensagem e a gente saí pra conversar, comer alguma coisa, sei lá. - Sugeriu. Mas segundos depois, fez uma careta com um pequeno sorriso ao notar à expressão de receio no rosto de Philippe. - Você tem compromisso amanhã?

- Pode ser de noite? - Aquilo era uma confirmação. Neymar preferia pensar que esse tal compromisso fosse com Bruna, ainda era cedo de mais para demonstracões de ciúmes.

 Por mais que tivesse parecido, Júnior não estava prestes a ir embora por conta de uma crise de ciúmes e sim pelas repetidas vezes de como Coutinho agia nestas situações. Neymar ficava enfurecido por ser tratado daquela forma, como se fosse um segredinho sujo de Philippe, o qual ninguém poderia nem se quer imaginar.

- Te mando mensagem. - Disse com um pequeno sorriso, quase imperceptível. - Boa noite, Philippe. - Neymar se despediu enquanto abria à  porta para ir embora. Philippe apenas observou o outro saindo pela porta. Pelo menos não brigaram, foi o que pensou. 

Por um lado, Coutinho sabia que o outro estava certo. Uma hora ou outra precisaria ser sincero e caso não fosse por bem, seria por mal. Entretanto, por muitas vezes o medo falava mais alto, acabava deixando para depois e esse depois nunca realmente chegava. 

A parte mais difícil, para Philippe, estava em como usar as palavras para não soar tão ruim. Todavia, a verdade era que não haviam palavras mais suaves ou até mesmo um jeito para não parecer o que era. Philippe mentiu. Mentiu por seis meses sobre uma amizade que nem deveria estar acontecendo e o pior foi que, de alguma forma, essa amizade evoluiu.

Talvez fossem apenas alguns amassos, nada de mais. Quem sabe não acabasse antes mesmo de precisar contar, ainda teria tempo de enterrar tudo aquilo e fingir que nunca aconteceu. Todo mundo já fez alguma merda que se arrepende e que, se pudesse, enterraria sem nem pensar duas vezes. 

Contudo, Philippe sabia que não era bem assim. Seu único relacionamento sério foi com Aine e durou dos quatorze aos dezessete anos, depois disso nunca mais cogitou a possibilidade de se relacionar com alguém assim novamente. Nos últimos anos, se dedicou apenas em não envolver mais sentimentos do que deveria e estava dando certo. O relacionamento com Marina era mais físico do que emocional, é claro que Coutinho achava à ruiva incrível e adorava ficar com ela, mas não passava disso e com um tempo foi ficando cada vez mais evidente. Tanto que, nesse tempo, ficou com várias pessoas. Entretanto, com Neymar era diferente.

O problema estava no agora. Philippe sabia muito bem seus limites e estava ciente de que passou por cima de muitos deles na última semana. Alguma coisa em Júnior cheirava à confusão. 

- Será que eu surtei? - Philippe murmurou sozinho, para si mesmo. Negou rapidamente com a cabeça e decidiu ir tomar um banho, para poder dormir.

No dia seguinte, estava na saída do metrô a espera de Bruna. Combinaram de se encontrar antes de ir ao shopping, já que iriam pegar o mesmo metrô. A morena já estava quase chegando, em menos de três minutos o metropolitano surgiu e Bruna saiu de dentro, procurando Philippe com uma visão periférica. Ao avistar o amigo, caminhou até o mesmo, que se levantou do banco em que estava sentado, para cumprimentar a mulher.

- Quanto tempo. - Murmurou a morena em meio ao abraço. 

- Senti saudades. - Fazia apenas uma semana, mas Philippe e Bruna conviviam tanto que se apegaram um ao outro e, quando ficavam muito tempo sem se ver, sentiam saudades. Por mais piegas que soasse. 

- A culpa é sua, bocó. - Bruna disse se desprendendo do abraço do amigo. - Tinhamos combinado de ir lá pra casa assistir filme, mas você sumiu. - Lembrou. 

Começaram à caminhar,  o braço de Bruna ia ao redor da cintura de Philippe e o do rapaz ao redor do pescoço da morena. Era um dia com pouco calor, o céu estava nublado e o shopping ficava à 5 minutos da estação. 

- Esse semana foi complicada. - Coutinho se pronunciou após alguns minutos andando em silêncio. 

- E o Charlie? Como foi a sessão de quimio? - Perguntou preocupada. Neste momento, Coutinho se lembrou que ninguém sabia sobre o cachorro, apenas Neymar. 

- Bruna, o Charlie morreu. - Philippe respondeu antes de engolir em seco. Ainda era difícil de acreditar que o cachorro se foi para sempre. Bruna o olhou pasma, em choque. 

- Eu... eu sinto muito. - Murmurou baixinho enquanto puxava Philippe para um abraço apertado. - Como aconteceu? - Perguntou ao se afastar, voltando a posição anterior. Estavam à poucos metros da entrada do Shopping.

- Foi durante a quimio. - Contou. - O veterinário disse que ele estava muito fraquinho e que na autópsia à doença progrediu bastante. - Essas informações foram reveladas durante a semana, através de mensagens, as quais Coutinho ficou muito mal por ler. 

- Ele deve estar em um lugar melhor agora, tenho certeza. - Bruna tentou dar palavras de apoio, mas não conseguia tirar a idéia de que Charlie morreu há uma semana e Philippe não disse nada à respeito. Coutinho definitivamente estava mais estranho do que o normal. 

Conversaram besteiras enquanto andavam pelos corredores do enorme prédio e por ser dezembro já era de se esperar o movimento do lugar. As lojas anunciavam promoções de natal e as decorações natalinas estavam por todos os lugares. 

Bruna quis entrar em uma loja de roupas depois de ver uma jaqueta de couro na vitrine, à contra gosto Philippe concordou. 

- Vou provar e já volto. - Bruna avisou depois de pegar seu tamanho. Coutinho concordou e virou-se para olhar as outras partes da loja, de relance.

Philippe notou algumas garotas o encarando, ficou desconfortável com a situação e preferiu ir para outra parte da loja, Bruna certamente o encontraria. Por acaso, avistou uma jaqueta jeans que o agradou, pegou o número que usava e olho ao redor, esperando encontrar Bruna.

- Vai levar? - A morena apareceu de repente, assustando o homem. 

- Sim. E você? Serviu? - Perguntou se referindo a jaqueta. 

- Vou. - Concordou com um sorriso. - Só não sei quando vou usar isso com a chegada do verão. 

- Quando você estiver na europa. - Philippe sugeriu. Bruna anteriormente contou que  seus pais estavam planejando uma viagem em família à Londres, em janeiro.

- Besta. - Disse e Philippe riu. - Eu nem estou tão a fim de ir. - Se lamuriou e Coutinho a olhou com deboche. 

- Só você pra reclamar de ter que ir à europa, Bruna. - Enquanto conversavam iam até os caixas, para pagar pelas jaquetas e assim poderam ir embora. 

- O problema não é a europa, o problema são os programas que meus pais tem em mente. São cento e dez porcento chatos. - Tentou explicar, mas logo desistiu dando uma risada seca. - Tá, foi ridículo. Esquece. - Philippe riu e deu um leve empurrãozinho com o ombro no ombro da amiga. 

Pagaram pelas jaquetas e sairam da loja. Pelo resto da tarde, conversaram animadamente sobre tudo, ou quase tudo. Decidiram passar na livraria, talvez alguns livros pudessem  estar com desconto. Já não bastava à nota de corte alta, as noites de sono roubadas e a vida social praticamente reduzida os livros da faculdade ainda eram super caros. 

No interior do estabelecimento havia uma área com uns puffs espalhados pelo chão, além das grandes prateleiras de livros ordenadas por gênero e autor. De fundo, uma música antiga e nacional tocava baixo e a iluminação era bastante agradável. 

- Falam que o quinto semestre é puxado. - Bruna comentou enquanto passava os dedos por alguns livros, os quais nem se quer gostava.

- E qual semestre que não é? - Perguntou com uma risada óbvia e Bruna riu, concordando. 

- Você ainda está conversando com a Marina? - Coutinho se sentiu incomodado com a pergunta, não estava com a mínima vontade de falar sobre a ruiva. Entretanto, Bruna não tinha culpa, ela não tinha como saber que Philippe não tinha mais intenção de ficar com a mulher.

- Faz um tempo que eu não estou falando com ela. - Respondeu brevemente. -  E você? Tá saindo com alguém? 

- Uma coisinha ali, outra aqui. - Disse dando de ombros. - Nada importante. 

- Sua cara. - Philippe disse apontando para um livro de romance, que tinha um casal na capa e um nome meloso. Bruna olhou com nojo e fez barulho de ânsia, fanzendo Coutinho rir.

-  Minha cara quando eu tinha doze anos. - Respondeu, ainda enojada. - Você que devia ler aquelas HQ's muito legais nessa idade. - Bruna zoou o amigo, que sorriu amarelo.

- Nem eu sei como passei no vestibular. - Coutinho disse divertido. - Com doze anos eu vivia na rua jogando bola, odiava livros. - Bruna o olhou surpresa e riu. 

- Você não gostava de estudar? - Perguntou perplexa. 

- Estudar eu gostava. Mas não tinha interesse em livros fictícios, não me preendiam em nada. - Contou dando de ombros. - A maioria dos que eu li foram por obrigação, por causa do vestibular. 

- Entendi, senhor ranzinza. - Bruna brincou risonha e Philippe riu. 

Olharam por mais algum tempo até Philippe se lembrar de um livro que estava querendo a tempos. Bruna estava cansada e disse que ficaria sentada em algum puff para descansar enquanto Coutinho ia procurar o livro.

- Minhas pernas estão me matando. - Bruna disse reclamando.

- As minhas também. Somos dois velhos. 

- Com certeza. - Bruna sorriu. 

- Daqui a pouco eu volto. - Philippe deixou a sacola com Bruna e estava prestes a sair, mas a morena o chamou.

- Phil, que horas são? - Perguntou com preguiça. - Meu celular tá  difícil de pegar. - Fez um bico de manha e Coutinho riu nasalado. O homem pegou o aparelho do bolso e entregou a amiga, saindo logo em seguida. 

Bruna viu que já passava das quatro da tarde e ainda não havia almoçado. Seu estômago já começava a doer de fome. Largou o aparelho sobre a barriga e se aconchegou mais no enorme puff, se distraindo com o movimento do local.

 Já fazia algum tempo que Philippe saiu para procurar o livro, quando seu celular começou a vibrar algumas vezes. Bruna deixou quieto, deveriam ser apenas algumas mensagens que não eram da sua conta, apesar de que Bruna e Coutinho tinham liberdade para fuçar um no celular do outro. 

Quando a morena sentiu que já fazia bastante tempo, resolveu conferir a hora. Estava com fome e queria poder ir a um restaurante, entretando Coutinho estava demorando demais. Tocou no botão do celular do amigo para ver o horário, era quatro e meia da tarde, porém algumas notificações do aplicativo de mensagem deixaram Bruna curiosa. Philippe não habilitou a opção de mostrar apenas o nome da pessoa, por isso era possível ver o conteúdo das mensagens. O rapaz fez isso justamente para poder ler sem precisar desbloquear o celular, porque na maioria das vezes eram mensagens bobas que poderiam esperar. 

16:12pm.

"podemos nós encontrar às oito?"

"naquela praça. depois saímos pra comer."

"qualquer coisa avisa."

O mais inusitado era que as mensagens vinham de um contato salvo como "neymala". Bruna ficou sem reação, era inexplicável e um sentimento horrível começava à se apossar de todo o seu corpo. Não conhecia nenhuma outra pessoa que tivesse no nome ney, a não ser Neymar, e Philippe não não deveria conhecer também. 

Ainda estava em estado de choque, tentando arrumar explicações, mesmo não querendo as respostas. Não podia ser verdade. Bruna não queria que fosse. 

- Desculpa à demora. - Philippe disse animado. Marquezine piscou algumas vezes e largou o celular rapidamente. - O vendedor era meio burrinho. - Brincou. Coutinho notou que Bruna parecia tensa e ficou preocupado. - O que foi? Aconteceu alguma coisa, Bru? 

- Nada. - Sua voz saiu fraca, mas logo Bruna tratou de dar um sorriso fraco e se levantar. - Vamos almoçar? Tô com fome. - Sugeriu. Marquezine entregou o celular e a sacola e andou com certa pressa. 

Pelo resto do tempo em que passaram juntos, Bruna não conseguia tirar aquelas mensagens da cabeça, mas preferiu não tocar no assunto.  Forçou ao máximo agir com tranquilidade e estava conseguindo. Durante o almoço, Bruna notou Philippe mexer em seu celular e mudar levemente a expressão ao ler as mensagens, como se estivesse frustrado, poderia até jurar ter ouvido um suspiro pesado, mas rapidamente Philippe abandonou o aparelho e o guardou no bolso.

Philippe estava estranho nos últimos dias, isso era nítido. Mas que explicação poderia ser essa para tamanho distanciamento. A mulher preferia não querer relacionar aquelas mensagens a algo a mais, porém, era difícil. Pelo o que se lembrava, Philippe e Neymar não se gostavam nem um pouco, Coutinho nunca disse em palavras claras e muito menos incentivou Bruna à terminar, isso jamais, todavia na época estava escancarado que ambos não se bicavam. 

Preferiu não perguntar nada, queria acreditar que, em algum momento, Philippe diria algo. Daria uma boa explicação para àquilo e tudo ficaria bem, na melhor das hipóteses. 

Perto das seis e meia, decidiram ir embora, por sugestão de Philippe. Isso só vez com que Bruna ficasse mais aflita ainda, o rapaz queria ir para casa para poder se arrumar e encontrar o "neymala", era tudo o que Marquezine conseguia imaginar. 

- Até depois, Bru. - Philippe disse dando um beijo na testa da amiga, que sorriu fraco. 

- Amo você. - Bruna disse encarando que Philippe, que sorriu sem mostrar os lábios. - Você é meu melhor amigo no mundo todo. - Coutinho a abraçou forte e sussurou um amo você também no ouvido da moça. -Tchau, Philippe.

- Tchau, Bruna. - Com isso, foram se afastando gradativamente. 

Ao chegar em casa, Philippe se sentiu péssimo. Estava à poucos minutos com a amiga, mas sua cabeça estava em Júnior. Pensou muito sobre o assunto, não era justo para ninguém participar dessa teia de omissões que Coutinho criou, uma hora precisaria ter um fim. 

Tomou um banho e colocou uma roupa mais quente, estava esfriando do lado de fora e não queria pegar um resfriado justo nas férias. No meio tempo que teve para ficar de boa, Philippe pensou na conversa que teria em poucos minutos com Júnior. Provavelmente não seria muio suave, mas já estava na hora. 

Saiu do apartamento oito em ponto, chegaria uns sete minutos atrasado, mas isso já era costume. O vento gelado batia contra seu rosto, se encolheu mais no moletom e apertou o passo, para chegar mais rápido. Ao se aproximar, viu Júnior sentado em um banco, seu coração bateu mais forte e um frio na barriga o tomou, mas não sabia dizer se era um frio causado por emoções ou um frio porque ventava forte. Sentou-se ao lado do rapaz e permaneceu em silêncio.

- Boa noite, Philppe. - Neymar disse olhando de relance para o rapaz ao seu lado. 

- Boa noite. - Respondeu baixinho. 

- Acho que não tem um jeito certo de começar, então vamos acabar logo com isso. - Júnior disse  depois de algum tempo em silêncio. - Precisamos esclarecer as coisas.

- O quê? - Philippe perguntou confuso. O que mais poderiam esclarecer além do que já assumiram? Por alguns segundos, Coutinho quis revirar os olhos e sair dali.

- Não tô te pedindo em namoro ou algo assim, fica tranquilo. - Neymar disse com uma risada de sarcasmo e Coutinho franziu o cenho. 

- O que você quis dizer então? - Perguntou com medo da resposta. 

- Eu gosto de você, e você sabe disse. - Neymar tomou coragem para começar a dizer o que queria, enquanto Philippe apenas escutava. - Você também sabe que eu detesto esse negócio de ficar se escondendo, como se nossa amizade fosse ultrasecreta. - Naquele momento Philippe teve certeza do que Júnior estava querendo com todo aquele discurso. - Não é como se eu estivesse te pedindo pra assumir algo, até porque nós estamos apenas ficando, mas você não acha que uma hora ou outra isso vai dar muita merda? - Philippe permaneceu em silêncio, fitando alguns arbustos. - Eu não tenho mais o menor ânimo pra ficar agindo desse jeito, é cansativo. 

- Eu sei que é. - Philippe finalmente resolveu se manifestar. - O problema é que eu sei que no exato segundo em que eu contar tudo isso pra ela, as coisas vão desmoronar. - Confessou. - Eu sou um merda por ter me envolvido com você, mas já foi. Não é  como se eu pudesse voltar no tempo. - Soou mais ríspido do que queria e logo se deu conta disso. Coutinho virou o rosto para encarar Neymar, que estava com uma expressão de aborrecimento. - Não foi o que eu quis dizer... - Tentou se desculpar, mas já era tarde.  

- É. Foi um enorme erro. - Neymar disse visivelmente chateado. - Foi um erro ter me tornado seu amigo e quando você disse "poderiamos ser amigos", eu devia ter corrido muito, muito rápido. - Disse logo em seguida dando uma risada fraca e irônica. - Mas já foi. - Disse fazendo  referência ao próprio Philippe, que acabara de dizer isso minutos atrás. 

- Quer me xingar? Jogar pedras? Socar à minha cara de novo? Tudo bem. Eu mereço. - A voz de Philippe esguaniçou levemente. - Mas quem começou isso, me beijando, foi você. - Acusou, um pouco irritado. 

- E você detestou. - Neymar disse irônico e Philippe fechou a cara, ficando irritado. 

- Chega, isso tá me irritando já. - Philippe disse sério. - Você disse que precisamos esclarecer as coisas, não viemos discutir quem é o mais errado. 

- Você tem razão. - Voltou a falar mais suavemente. - Eu gosto de você, mas eu também gosto de mim e não tô a fim de ser jogado de canto quando você surtar. Além de que, eu não quero ficar agindo desse jeito, como naquele dia na minha casa. A questão é que, quando você fica fazendo essas coisas, dizendo essa coisas, eu acho que vou ser jogado de canto a qualquer momento, como se não fosse nem um pouco importante. Eu só não quero esperar por algo que nunca vai acontecer. - Neymar praticamente assumiu que queria algo a mais com Coutinho, o moreno só não entendeu. 

- O que você quer que eu faça? - Perguntou, com a voz quase falhando. 

- Eu só quero você seja sincero, comigo e com você mesmo. - Philippe colocou a mão no banco e delicadamente Neymar a tocou, fazendo carinho com a ponta dos dedos. - Vai ser uma merda, eu sei. Mas você precisa decidir, se quer que eu vá embora ou não. Porque eu tô cansado disso, de me esconder. 

Philippe sabia que precisaria hora ou outra abrir o jogo. Neymar gostava muito de Coutinho, e pelo fato do moreno ser amigo de Bruna precisaria saber de uma vez por todas o que ele queria. Se o que eles tinham era importante o suficiente para Philippe contar a Bruna ou não e, caso não fosse, Neymar preferia dar o fora de um vez por todas. 

- Eu não quero que você vá. - Virou o rosto, encarando Júnior e com uma vontade tremenda de o abraçar. - Só me da um tempo pra resolver isso tudo. - Pediu em um sussuro. - Eu também gosto de você. 


Notas Finais


amigxs, a parte mais esperada por vocês tá chegando. só vou dizer que não vai dar bom.
eu entendo voces, esses dois são insuportáveis as vezes, mas pelo menos agora o bonito vai abrir a boca de um vez por todas.
até o próximo


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