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História Linhas, laços e nós - Capítulo 9


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Capítulo 9 - Dente-de-leão


06:13

Era o que o relógio marcava no exato instante em que ela abriu os olhos e se sentou na cama, alguns segundos antes do primeiro raio solar iluminar seus cabelos soltos, a sensação de dejavu não a abandonava, e ela sabia muito bem o por que a imagem de Yuki deitado em seus pés a olhando era tão familiar. Fazia cinco dias que sua nova medicação havia chegado, ela pediu diretamente aos seus professores responsáveis que mandassem manipular novas pílulas, e agora suas consultas aconteceriam uma vez por semana, e a dosagem dobrou. Finalmente, ela estava conseguindo dormir novamente.

Depois de analisar o fluxo de seus hormônios responsáveis por seu sono o médico pediu para que Saori tivesse uma rotina fixa a seguir, e era isso que ela estava fazendo — ou, pelo menos, tentando —. Assim que acordava, ela colocava a roupa mais confortável que tinha e saia para caminhar, dava exatas três voltas ao redor dos dormitórios, por serem muitos, ela levava mais de quarenta minutos para completar tal tarefa, e quando chegava, tomava um banho e fazia uma refeição apropriada, mas é claro que ela não ficou nada contente quando descobriu que o prato de todas as manhãs seria omelete, Hiroshi teve que aguentar sua cara de mau humor pelos primeiros dias, e era quase impossível lhe dirigir uma palavra sem levar uma patada de volta. Mas o estresse não durou muito, aos poucos ela foi se acostumando e como ela mesma dizia: “é tão deprimente que a minha tristeza anula o gosto do ovo”.

Hoje, diferente dos outros dias, ela não teria aula no período da tarde, por conta de um “pequeno” acidente, que tinha nome, idade e endereço: Bakugou Katsuki, ele aprontou um escândalo quando descobriu que uma caloura do primeiro ano tinha modificado o design de seu traje, enfurecido — como sempre — ele atirou a roupa no chão, e inesperadamente, ela explodiu, acontece que, ela tinha adicionado novos sensores que, como forma de defesa, criaria pequenas explosões e queimaduras na pessoa que tocasse qualquer parte de seu corpo coberto pelo tecido, e bom, pelo menos agora sabiam que funcionava, depois de terem aberto um buraco no chão e estilhaçado todas as vidraças do andar.

Aproveitando o tempo livre, ela se trancou na sala de criações dês da hora do almoço, estava nos últimos detalhes de sua adaga, depois disso, só faltaria passar pelos testes. Esteticamente, parecia perfeita, toda a anatomia do objeto fora projetada para que atendesse as peculiaridades do corpo de Saori. Elas ficariam presas a um suporte em seus pulsos, para que pudesse segurá-las mais facilmente e também, para que seu “saque” fosse o mais rápido possível, logicamente, ela passou horas treinando em seu quarto com pesados bastões da madeira que Hiroshi a arranjou, obviamente eram muito maiores que o objeto cortante a sua frente, mas por hora, estava mais do que ótimo.

— Parece boa. — Surgindo atrás de si, seu amigo descansou a perna apoiando o pé sobre a caixa de ferramentas no chão, Saori deu um pulo e quase deixou cair as peças que estavam acima da mesa.

— Seu idiota! Por que me assustou desse jeito?! — Virou-se para encará-lo e retirou os óculos de proteção, lhe acertando um tapa no ombro, ele gargalhou e segurou em suas mãos os objetos curvos e de coloração esbranquiçada.

— É a primeira vez que eu vejo essas, são peculiares, nunca vi uma faca branca desse jeito, parece até meio transparente. — De forma desajeitada, ele tentava manuseá-las, mas estava apenas mexendo suas mãos de maneira aleatória. — Imagino que tenha desistido do metal, depois de ter se machucado tantas vezes na solda, eu também teria deixado de lado. — Comentou depois de deixá-las cuidadosamente sob o tecido fofinho onde estavam anteriormente, ele fitou as mãos de sua colega, estava cheia de curativos.

— Não só por isso, elas ficariam pesadas de mais se eu tivesse usado metal, por isso optei pelo untasta… Untazta… Ah, não sei o nome do material, aquela coisa azulada que eu te mostrei quando chegou. — Ela tirou as luvas de proteção e relaxou as costas no assento da cadeira. — Não precisei fazer muita coisa, ela vai se camuflar sozinha por causa do revestimento, Aizawa disse que é muito usado atualmente, é uma pedra que tiram de lençóis freáticos, ela tem a propriedade de se camuflar dependendo da superfície em que se encontra, e, falando nisso, olha só. — Apontou para o tecido que estava abrigando o par de adagas, mas, não era possível ver nada além do seu relevo, elas tinham se tornado completamente transparentes.

— Woooahhh!! Incrível! — Os olhos de Hiroshi vibraram, mas, em contrapartida, ele cruzou os braços e estampou o biquinho de insatisfação em seus lábios, ele estava emburrado. — Eu queria saber mexer nassas coisas, só funciono sob pressão, fiquei tão puto na prova do improviso, aquele desgraçado ficou igual um mongoloide depois de usar uma vez a porcaria da individualidade, sendo que eu avisei pra ele concentrar nas bombinhas e depois lançá-las, mas em vez de me ouvir ele preferiu explodi-las de uma vez só. — Com um suspiro de raiva, ele chutou a caixa no chão e se sentou no banquinho, sua nota havia sido a segunda mais baixa, ficando na frente apenas de Bakugou e sua dupla.

— Já foi, Hiroshi, já passou, ficar remoendo ódio pelo coitado do Kaminari não vai adiantar nada, eles não tem ninguém além da gente, o segundo ano quase não fica mais no colégio, seus serviços já foram comprados por grandes empresas e tudo que eles fazem é passar 24 horas projetando equipamentos, e o terceiro nem se fala. — Ela se escorou na cadeira e esticou suas pernas, seu corpo estava todo travado por ter ficado tanto tempo sentada. Sua barriga roncou alto. — Estou com fome.

— Vamos comer alguma coisa, eu comprei uma coisa pra gente quando fui dar uma volta do lado de fora, guardei escondido na geladeira da enfermaria. — Parecendo empolgado, ele saltou do lugar onde estava e bateu palmas, seus olhos sorriram.

— Espera, o que disse?! Quando é que você saiu do colégio, matou aula a manhã inteira, nós não podemos pedir permissão quando temos horário cheio. — Hiroshi a ignorava completamente, ele guardava apressado os equipamentos de Saori, socando tudo dentro da mochila de gatinho da mesma, sem nenhuma delicadeza.

— Tá tá tá, agora cala a boca e vem comigo. — Depois de atirar a bolsa pesada em seu peito, ele saiu a puxando pelos corredores quando ela nem mesmo tinha ajeitado as alças.

— Oi! Hiroshi! Você acabou de me mandar calar a boca?!

[depois de muito caminhar…]

Saori só o perdoou e parou de tagarelar quando ele lhe entregou uma caixinha de isopor grande e pesada, ela sentia vontade de atirá-la em seu rosto mas desistiu da ideia quando viu todos aqueles macaroons, bolos, cookies, chocolates e até mesmo alguns dangos de morango.

“Hiroshi, eu vou te amar para sempre.”

Pensou quando o primeiro doce derreteu em sua boca, estava a tantos dias vivendo com as miúdas balas de caramelo que ela tinha trazido que quando sentiu o gosto do chocolate, seus olhos reviraram e ela sentiu um suspiro quase escapar de seus lábios. Eles estavam comendo escondidos na janela do segundo andar da sala de ginástica, as luzes estavam apagadas e eles ficaram rindo alto por um bom tempo enquanto falavam sobre o cabelo esquisito da professora substituta de matemática, que tinha vida própria e vivia agarrando canetas e borrachas.

— Ei, escutou iss- — Saori cochichou para seu colega ao seu lado, que comia sem pudor algum um pedaço do bolo que tinha trazido para ela, mas sua fala foi interrompida pela luz ascendendo e alguém entrando no aposento.

— Ah sim, com certeza os colchonetes vão ser suficientes, acho que tem alguns atrás do armário velho ali. — Ela encarou seu amigo com os olhos arregalados quando as vozes se propagaram por todo o lugar, eles estavam escondidos justamente, na janela atrás do armário velho

Hiroshi fez sinal de silêncio e deixou o recipiente de isopor sujo de chantilly e outras coisas sob o chão, dando impulso e pulando para fora do local, Saori suprimiu um gritinho com as mãos quando ele caiu de pé no chão.

— Vem logo! — Ele sussurrou e indicou com as mãos para que ela saltasse de uma vez.

Ela negou com a cabeça, devia ser uma queda de no mínimo uns três metros e ela provavelmente arregaçaria seus joelhos, isso sé não acabasse com uma fratura. O som dos passos ficava cada vêz mais alto e próximo da janela, ela olhou para os lados e encarou seu colega.

— Vamos! Eu te seguro! — Hiroshi abriu os braços longos, a olhando de volta e murmurando um: “confie em mim”

O som do pesado armário se arrastando fez ela saltar poucos segundos antes de ser capturada pelos olhos daquele que ali estava, Saori quase não sentiu a queda, mesmo com dificuldade, Hiroshi a segurou com firmeza até que ela colocasse os pés no chão, e assim que o fez, começaram a correr em disparada para o mais longe dali, e só pararam quando não era mais possível ver o prédio e nem seus arredores, agora, se encontravam em um dos bebedouros espalhados pelo colégio, não tinha ninguém por perto.

Ambos estavam vermelhos, suados, cansados e ofegantes, a adrenalina imundando todo o corpo e o coração batendo a mil por hora.

— Essa foi por pouco, sinceramente, nunca mais faço nada disso com você. — Os cabelos oscilando entre um tom amarelado com raízes escuras e acastanhadas, Hiroshi resmungava baixo enquanto recuperava o fôlego.

— Você não tem escolha, se não fizer eu conto para os professores que está cabulando aula fora do colégio. — Ela estendeu a mão e indicou com o dedo sua palma, indicando que agora, ele estava sob seu controle, mesmo que ela não tivesse coragem de entregá-lo dessa maneira, não fazia mal blefar um pouco.

Tiveram que esperar alguns minutos até que a estamina de seus corpos estivesse recuperada, este período de descanso teve até direito a uma discussão sobre quem usaria o bebedouro primeiro, qualquer um que visse ambos se empurrando poderiam jurar que eram crianças brigando por causa de algum brinquedo bobo. Quando já tinham condições melhores para andar, tomaram rumo até o dormitório, Hiroshi não lhe dirigiu nenhuma palavra se quer, estava de mau humor e claramente, queria xingá-la de mil coisas, mas estava receoso, agora que ela sabia de suas saidinhas escondido.

Enquanto eles caminhavam, Saori ouviu um tilintar incomum em seus ouvidos, por alguns segundos sua mente se desligou da realidade e quando ela olhou para trás, viu os pelinhos brancos do coelho, com as orelhas atentas e com um matinho esverdeado entre os dentes saltados. A brisa soprou com força, fazendo a imagem ser coberta pelas folhas secas e quebradiças, o animal desapareceu logo depois, abandonando a imagem da loira parada no meio da grama.

— Saori!! Que saco! Vem logo!! — A voz amarga de seu colega soou de longe, e ela saiu de seu transe.

— É só, imaginação, isso, imaginação, sim… Já estou indo!! — Gritou de volta, pouco antes de retomar o caminho de pedrinhas.

Quando estavam se aproximando do prédio, Hiroshi voltou a falar, ele não era muito bom em ficar em silêncio, depois que se tornaram amigos ele só sabe tagarelar, reclamar e tagarelar mais um pouco, o sol estava se pondo, e entre o caminho serpeante eles compartilhavam sorrisos e risadas, nem parecia que, a poucos minutos atrás estavam quase se agredindo por causa de um pouco de água.

Porém, aos olhos de outras pessoas toda aquela demonstração de afeto parecia mais outra coisa.

— Eu já falei que ela fica realmente gostosa nesse uniforme? — Mineta não parecia muito interessado na resposta, um grupo de alunos da turma A vinha caminhando logo atrás da dupla risonha.

— Vendo por este ângulo eles realmente parecem um casal, de uns dias para cá é quase impossível ver um sem se encontrar com o outro, são como unha e carne, não desgrudam de jeito nenhum. — Uraraka coçava o próprio queixo enquanto se lembrava de vê-los juntos durante a troca de professores. — Será que eles realmente namoram?

— Não acho, eles parecem mais como bons amigos. — Midoriya, que carregava parte de seu traje chamuscado nas mãos se pronunciou, ele não achava que poderia haver um relacionamento amoroso entre ambos, eles agiam com muita espontaneidade e naturalidade.

Durante o treino, ele pediu para que Todoroki o ajudasse, mas o bicolor acabou perdendo o controle de suas chamas parcialmente e sem querer incinerou suas mangas. Apesar de pedir desculpas, era notável o comportamento mais afastado do que o normal, ele parecia de mau humor dês de que voltou da sala de ginástica com o professor, carregando vários colchonetes e uma expressão mais indecifrável do que nunca.



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