História Lírio de Castidade - Capítulo 1


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Categorias Good Omens
Personagens Aziraphale, Crowley
Tags Ineffable Husbands
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Palavras 7.276
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção
Avisos: Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


eu tô bem cansada então ai vai:::

gatilho de alusão a violência sexual, como já dito na sinopse. em momento algum quero romantizar a coisa toda ou o que acontece, e soquem quem romantizar um assunto delicado como esse. quem tem sensibilidade: tenha cautela ao ler, por favor.

to com sono e tô exausta

Capítulo 1 - Fogo Divino; Único.


A porta estava trancada. Os livros, bagunçados no chão. A luz, tão bem acesa. 

Seu corpo, a manifestação física a qual foi presenteado para operar milagres na Terra, fora roubado de si mesmo. Carregado para cima, para o Céu, por mãos que sempre estiveram à frente da verdade e nunca se esconderam como as de Aziraphale fizeram. E este não estava plenamente consciente quando as mesmas mãos de pessoas a qual confiava em juros agora lhe forçava a ir onde quer que queiram. 

O Príncipe do Inferno ouviu seus gritos e não pôde se intrometer. Alguns demônios poderiam jurar que havia uma acentuada movimentação no andar de cima. Todos ouviram e não se prontificaram a nada quando se tratava do julgamento de um anjo que fora tentado não pelo inferno, mas sim pela humanidade. Cometeu o mesmo erro do arcanjo caído; e disso ninguém poderia julgá-lo além da própria administração do seu lado. 

E, por Deus. Todos sabiam que Ela era imperdoável. 

Ali, na Cidade de Prata, sua voz não teve lugar, nem espaço, nem tempo. Nem dimensões — além das inúmeras internas —, nem alguém que a ouvisse verdadeiramente e a absorvesse para, quem sabe, ter piedade. Porém, ninguém havia ensinado (ou avisado) ao Anjo Principado, Aziraphale, que anjos não tinham piedade. Principalmente ele, a sua ordem angelical que era predeterminada a ser cruel àqueles que se recusam a seguir seus ensinamentos herdados Dela. Dessa vez, o mago caiu no próprio feitiço — e Aziraphale era aquele que ouviu apenas a si mesmo, não aos outros. Seu corpo ardia em chamas tão belas aos olhos dos celestiais, mas tão mortal caso se tentarem a tocá-la. 

Dor. Dor inimaginável e gritos que chamavam por qualquer um para que parem e tentem dar uma chance a ele, mesmo queimado e sua pele manchada, o sangue dourado saindo e logo tornando-se fumaça para o céu da cidade. Calor que soava humano, sofrimento que era humano, o implorar para que por favor parem ao fim de tudo que já estava ali desde o começo. Tudo humano, como já descrito nos livros que lera e tudo tão milimetricamente feito para que ele aprenda onde fica o seu lugar no mundo. E nesse meio, a subjugação queria estar apresentável desde a caricatura do físico até a maneira como ela penetrava na pele alva, na epiderme da essência até as asas brancas, puras como sempre foram por milênios. Até mesmo nos olhos, a qual seu brilho fora impiedosamente ofuscado. 

Mais uma vez, o Príncipe do Inferno sentiu a movimentação agoniada entre as nuvens e as estrelas. E quando Crowley, assim requerido para estar ali entre todos eles, apareceu bem a sua frente com uma expressão de inquietude e desconfiança — que buscavam ser disfarçadas em seus óculos escuros —, Beelzebub logo aprontou-se a dar ordens. 

— Mestre Crowley — disse indiferente enquanto o encarava. — Fomos informados de uma… Certa transferência que iria ocorrer entre essa noite e a manhã de quarta-feira. Precisamos que fique atento e preparado para receber um novo integrante exatamente às… — Viu de relance o relógio na parede à sua esquerda. — Três da manhã, na floresta de Tadfield. 

O demônio ergueu uma sobrancelha. Faltavam apenas 15 minutos para as três. 

— E por que logo eu? — questionou. 

Beelzebub olhou diretamente para as lentes dos óculos, esperando que Crowley se sinta ligeiramente atacado (ou incomodado) com os olhos nos olhos. O azul nas íris dele não tinham tonalidade ou um dizer específico, uma resposta que a pergunta (que se fez) retórica precisava. E não sabia da sua urgência. O Príncipe não comentou, nem ousou verbalizar. Apenas se virou e caminhou para longe de Crowley, que permaneceu sem ser respondido. 

Numa distância considerável, Beelzebub sabia o inferno que seria a notícia reverberando nos dois lados e já conseguia sentir a dor de cabeça que seria a burocracia da transferência e o olhar assustado que um ex-anjo julgado sempre tinha — e ela nunca tinha tanta paciência (ou frieza) para lidar com isso. Na mesma distância considerável, Crowley conseguia sentir a pontada na nuca alertando que algo aconteceu. E quando olhou para o relógio, marcando dez, tratou de se apressar para… Para… 

Não sabia. Mas, entre a livraria de Aziraphale, sua casa para dormir mais uma vez e a floresta de Tadfield, ele foi correndo para a última opção por pura intuição. 

   

(...)

 

Um jazz melancólico tocava quando na mesma rodovia ele focava na estrada e via uma estrela brilhante rasgar lentamente o céu. Parou. Olhou mais uma vez aquela estrela-meteoro. Um astro, na verdade. Asteróide, alguma coisa que brilhava em contato com a atmosfera. 

Quando o mesmo asteróide cortou o céu em dois numa cor que lhe remeteu a uma mistura de citrino e neve, logo caindo nas diversas árvores do lar do Anticristo, Crowley sentiu algo que talvez não experienciou antes. Ou, já, mas sua mente nublou demais quando seus olhos embaçaram e ele notou que lá haviam lágrimas. De nostalgia, de tristeza, de memórias que não queria se lembrar novamente porque fora agoniante demais. De algo que lhe remeta a um novo nascimento, mas que no meio do caminho houve divergência. Não se sabe. Só viu sua queda colossal — algo grandioso batendo dentro do peito ao mesmo tempo que uma lágrima caía em encanto. Um encanto confuso e complexo, que não tinha um porquê exato além do porquê de ser belo e trágico. Quem sabe, foram as pequenas faíscas de tonalidades azul e rosa, algumas esverdeadas e outras roxas, ou o fato que o céu ainda mantinha parte do brilho de alguém cintilando no infinito escurecido e misterioso. Porque de fato era. Crowley não sabia explicar o que era, ou os porquês. E, quem realmente sabe, esse sentimento controverso seria ocultado como um dos maiores segredos de sua vida, além de todas as palavras de amor que nunca foram antes proferidas para Aziraphale. 

Aziraphale. Azar-Raphael. A associação deu estalos na cabeça quando mais alguns quilômetros foram rodados, e ele já podia ver a luminosidade entre as diversas camadas de pinheiros e troncos, as mesmas as quais ele desejava quietamente que nem Adam, Anathema, ou Newton sentissem ou ouvissem ou até mesmo vissem a coisa. Em todas as formas a humanidade já teve dedo seu o suficiente na destruição das coisas, e é como dessa vez ela também tivesse envolvimento nisso. Mais de um, vários desses. E Crowley agradeceu mentalmente — ainda com os olhos marejados — por não ter luz de quarto alguma acesa durante a sua passagem entre o pequeno vilarejo. 

Quanto mais se aproximava, mais parecia ficar quente, mesmo que nada esteja pegando fogo de verdade. Apenas o recém-caído anjo brilhando intensamente num arco-íris que se desmanchava em brasas rubras. E quando o Bentley estava próximo o suficiente da cratera feita pelo anjo, o demônio que iria resgatá-lo cegou-se parcialmente pela luminosidade logo após sair do carro, incapaz de conseguir enxergar quem era. Diversas vezes estalou os dedos numa tentativa falha de um milagre para que aquela chama se apagasse; então, impaciente e angustiado por um motivo que não cabia em palavras, Crowley logo se apressou em tirar o terno e batê-lo contra a personificação a qual ele minimamente conseguia reconhecer, a brasa que aos poucos se extinguindo. E entre gemidos de dor, pôde-se ouvir algo: 

Crowley? 

Parou no mesmo momento. Seu coração gelou e ele sabia quem era o dono da doce voz que o perseguiu por anos e anos, até mesmo milênios, desde antes da Terra ser feita por barro e coacervados. 

— Aziraphale? — ele murmurou, sua voz quase não saindo da própria boca. As mãos repentinamente tremeram mais que o esperado da adrenalina, e seu corpo não sabia como reagir. Se ia adiante ou se permanecia ali, paralisado, sem saber o que fazer.

Ainda havia um pouco da chama que persuadia seu corpo. Entre a luminosidade, seus olhos doeram ao conseguir enxergar uma mão que tentava se mexer. Batendo um pouco mais delicadamente (ainda tirando gemidos), a chama se cessou. E tudo que restou foi carne viva, chamuscada, onde pequenos fiapos de luz alaranjada poderia ser encontrada entre as rachaduras dos braços e das costas nuas, assim como nos pés que mais sofreram e, principalmente, as asas que não mais podiam voar por agora. Mas, depois, não saberia se ainda estaria lá. Se ele ainda estaria lá. 

Aziraphale tentou emitir algum som que pudesse chamar Crowley: um me ajude, socorro, ou até mesmo desculpas — quem sabe até seu nome. Em todas as hipóteses, suas cordas vocais não lhe ajudariam por não estarem nem próximas de pouco aptas para, ao menos, falar. Nem ao mesmo pensar em algo coerente ele conseguia — mas era claro, porque mal se mexia. Foi exposto ao calor e ao frio simultâneos, às muitas faces que não estavam mais ali (e podia sentir todos os olhos arroxeados e azuis e verdes e castanhos) e ao terror de Crowley, que tinha culpa dentro das pupilas comprimidas. Nada processava ao mesmo que tudo era jogado na sua face em um curto período de tempo. Por fim, entre notar seu corpo exposto de forma deplorável ao seu adorado e dizer algo que convenha a não aprofundar mais sua culpa, ele apenas emitiu um murmúrio que se assemelhava a um gemido, que não era exatamente isso e nem tinha essa intenção. Só algo para Crowley entender que ele ainda estava vivo, um sinal condizente com as lágrimas que caíam dos olhos fechados e que diga, de uma forma cruel, que ele sobreviveu. Anthony Crowley ainda se sentia paralisado, justo como uma presa que o predador acima de si buscava pegar. E ganhou. 

— Anjo? — Sua voz quebrou. Não era capaz de se manter forte quando se aproximou, o fogo não o queimou, e segurou Aziraphale em seus braços com cautela, porque todo o corpo se tornou como porcelana de camada fina. Protegeu-o com seu terno e pôs, delicadamente, a mão no seu rosto. Aquele a qual já segurou dentre as mãos tantas vezes. — Anjo!? O que fizeram com você?! O que eles…

Sua boca logo se calou num impulso de raiva. Lágrimas caíram de seu rosto ao ver a mão do anjo tocar na sua num esforço que não cabia na própria capacidade atual; e ele sentiu seu peito arder e o choro vir mais forte. 

— Por que fizeram isso com você? — ele disse entre dentes, com todo o ódio que possuía e, no fundo, culpa. Era um questionamento à Deus e para si mesmo. — Por que, Aziraphale, por quê?! 

O vento que batia esfriava seu corpo, ao mesmo tempo que fazia os riscos alaranjados entre as rachaduras incendiadas brilharem mais. Crowley o acobertou mais e, num abraço, tentou protegê-lo. Da dor, do medo, do vento, do tempo. Manteve sua boca próxima à sua testa e seu cabelo loiro — que antes existia uma auréola acima — e o beijou delicadamente enquanto chorava em profunda mágoa e desgosto que condizem com sua revolta com Deus e o mundo. 

— Crowley… — Aziraphale finalmente conseguiu dizer. Nem que seja em um tom inaudível, ou em algum outro em que o timbre da voz poderia reverberar em seus ouvidos. Imediatamente o demônio voltou a olhar seu rosto, novamente sua mão. Seus olhos estavam abertos. — Eu… Te amo…

— E-Eu também te amo, meu anjo! — correspondeu de imediato, o rosto já ensopado e as mãos trêmulas, assim como seu queixo. — Eu te amo muito, eu te amo por toda a eternidade, eu…

Encarou os azuis opacos cheios de água, tão lindos ao seu ver — e que nunca deixaram de ser. Belos, encantadores, que sempre brilharam quando enxergavam Crowley e sempre mostraram, não-verbalmente, que ele era digno do amor de alguém. Que é digno de um amor tão bom. Observando melhor, era como uma pintura de uma exposição. Abstrata e que só possuía os 20 tons de azul, do mais claro ao mais escuro, e todos estes tinham uma história a contar desde que fora capturado até sua punição, expulso sem quererem saber onde ele cairia morto ou não. E podia-se jurar que, no tom da linha tênue entre o claro e o escuro, havia seu amor e a dignidade que quase foi tomada a força. 

Quando Crowley terminaria sua frase, Aziraphale fechou ambos os olhos e enterrou seu rosto na curvatura do pescoço dele, apertando sua camisa preta com força e umedecendo-a. Ele tremeu em seus braços como todas as vezes que o demônio tremeu nos seus quando tinha um sonho ruim. A diferença é que, dessa vez, não era um sonho ruim — e agora era Crowley que não hesitaria em cobri-lo com suas asas negras. 

— Eu vou cuidar de você, meu anjo. — terminou a frase após tantas sentenças que não dariam em nada. — Eu prometo. 

 

(...)

 

Num dia do mês seguinte, numa bela manhã de sol de terça-feira, Crowley acordou cansado. De todas as noites que se passaram, ele raramente dormia bem. Ou nem mesmo dormia, porque seus olhos fixaram no rosto de Aziraphale procurando gravar cada centímetro que sua expressão despreocupada fazia quando conseguia ter um sonho agradável. A serenidade no meio do fato trágico era o que conseguia mantê-lo são; essa paz era o que fazia ele ainda persistir e se manter acordado, não para gravar cada detalhe, mas para manter sua asa acima do anjo e mantê-lo seguro e à salvo sob sua guarda. 

E mais uma vez ele acordava. Cansado. Exausto. Até mesmo irritado com o próprio corpo que não consegue relaxar, sabendo que a mente tinha a maior culpa disso. Porém, olhou para Aziraphale. Delicado, sonolento. Ele o amava com todas e tantas palavras.

Não só com palavras, mas com ações. Como fazer o café da manhã com os pães que ele adorava e o chocolate quente com um pouco de canela. O demônio adorava essa bebida, mas se apaixonou secretamente pelo cappuccino. Quem sabe a assimilação dos dois o fez colocar mais uma pequena tapeada de colher de canela em ambas, como uma pequena conexão ou mãos dadas. Abriu as janelas, sabia que ele gostava de ar fresco de manhã e os rouxinóis cantando alegremente nas árvores distantes. Também sabia que Aziraphale adorava acordar ao seu lado com beijos delicados no rosto, no pescoço e no ombro — porque ele sempre fez isso com Crowley quando tinha pesadelos. E foi assim que Crowley o acordou: com um beijo delicado no braço, outro no ombro, outro no pescoço, até sua bochecha, fazendo-o acordar lentamente, olhando vago para os lados até encontrar os olhos do seu demônio favorito. 

Anthony podia jurar que aquele momento era sempre o seu favorito dos dias que passava junto com Aziraphale: o pequeno fragmento onde seus olhos se encontravam e contrastavam à luz da manhã, e, num suspiro satisfeito e feliz, o anjo sorria e admirava-o de cima a baixo. O cabelo ruivo bagunçado, os olhos amarelos, intensos e nem um pouco hostis, a expressão de leveza que estava no rosto e um sorriso adorável retrucando-o era pura perfeição aos olhos do sagrado. E, no dia de hoje, era a perfeição de Crowley que o fazia ter vontade de se levantar e tomar café junto com seu parceiro, amante, amigo e marido de longa data. 

Aziraphale notou a canela no chocolate e a quentura do pão. Também, o ar fresco que ventava e não era horripilantemente frio, mas que contrastava com o sol beijando seu rosto. Ouvia os rouxinóis e voltava a manter a curva contente nos lábios. Parece que o dia valeria a pena, mesmo que só por agora. 

— Anjo… — Crowley sussurrou, pondo sua mão acima a da dele. — Hora de abrir a livraria, não? 

Saindo da absorção dos detalhes do mínimo momento de felicidade, Aziraphale o respondeu, notando-se um pouco aéreo.

— Sim, sim. — E bebericou mais um pouco da bebida. — Talvez eu precise da sua ajuda para arrumar a prateleira dos romances. Quer dizer, isso se não for de muito incômodo…

— Não! — logo se apressou em dizer, rapidamente refazendo sua postura. — Não- Você não vai me incomodar. Você nunca me incomoda, meu anjo. 

De certa forma, Aziraphale nunca se acostumou com Crowley não chamando-o de anjo, ou melhor dizendo, “meu anjo”. Nunca surgiu na sua cabeça a ideia dele não ser mais um anjo — na verdade, já surgiu várias vezes em vários momentos que vivera crises de fé. E em todas, pensou como seria sua vida como um demônio. Ou, um humano. Perguntava-se como seria seu rosto e as sensações de fato humanas, ou, a ideia de envelhecer. Ter cachos e barba grisalha, não ser mais uma inércia no tempo. Em todas as vezes, não pensava que isso realmente aconteceria. Principalmente, acontecer consigo. Talvez nunca irá se acostumar com certas coisas. 

Os livros nas caixas permaneceram lá. Crowley não ousou tocá-los e arrumá-los de volta aos seus lugares quando chegou na livraria desde que os empacotou, bem no dia seguinte a noite a qual carregou Aziraphale nos braços em puro pânico, desejando que ele não abrisse os olhos e visse a desorganização feita. Não queria que ele os abrisse no meio do pandemônio revoltoso pro anjo principado sentir o mesmo o que os humanos sentem nos livros e na vida real — nem olhar para cima e ver seu rastro de despedida no céu estrelado. No entanto, encarar as caixas empacotadas e abertas, olhar ao redor de si mesmo e respirar fundo — o que fazia com muita frequência — era como tentar, mais uma vez, organizar a bagunça que permaneceu ali por meses. E Crowley esperou pacientemente que ele tomasse essa decisão sem pressioná-lo, aceitando cada parte de si tentar assimilar, nem que seja superficialmente, as coisas. 

— Por onde eu começo? — questionou, levantando a manga da camisa branca (o que era incomum) e pondo os óculos entre a abertura dos botões da mesma. Crowley constantemente dava o primeiro passo a falar alguma coisa que o tirasse dos seus devaneios de escape. 

Aziraphale continuou olhando para as prateleiras. Algumas vazias, outras com sinais que foram quase quebradas por completo. Nunca foi tão fácil rearrumar tudo nessas ocasiões. Nunca foi realmente fácil organizar a vida da forma que ele queria. 

— Pelos os de menos de 200 páginas. 

 

(...)

 

Parte da manhã foi baseada na troca de olhares de dois amantes que admiravam a determinação um do outro em tentarem reconstruir o que mais lhes machucaram. E parte da tarde foi baseada em pequenos momentos em que um se distraía para encarar o outro com deleite adocicado nos olhos. 

Crowley sempre observava, de relance, quando Aziraphale recebia um turista perdido pedindo por informação, e este o auxiliava e ainda recomendava um livro para sua viagem. Ou, quando o anjo ficava nas pontas dos pés para alcançar um pequeno romance de 300 palavras, e fazia parecer tudo tão fácil mesmo com o corpo parcialmente dolorido e sendo pequeno. Aziraphale fazia o mesmo, vendo Crowley abrir um sorriso ligeiramente forçado para atender um senhor de idade e quando o mesmo se desfazia pela metade quando o senhor o agradecia, segurando suas mãos e acenando com a cabeça. Seu coração amoleceu ao ver o sorriso verdadeiro quando era uma criança de aparentes sete anos, e que não conseguia alcançar O Pequeno Príncipe encontrado alguns centímetros acima do que o braço dela poderia chegar. E quando Crowley entregou a ela, um riso lindo e brilhante se abriu, junto com um abraço na altura da cintura — a qual ele retribuiu com constrangimento, sem ocultar a curvatura linda nos lábios dele e o claro encanto que surge do instinto protetor que ele sempre teve.

Aziraphale se perdeu no sorriso genuíno, podendo ouvir o “até mais, moço” que aquela criança disse para o demônio que não era mau. Ele conseguia sentir uma enorme energia dócil proveniente dele, que não conseguia parar de sorrir, muito menos esconder isso. Seu olhar contemplou o demônio que estava de cócoras ajeitando a bagunça deixada por alguém ali, até ele ser chamado por uma senhorinha, a qual seguiu com mais ânimo no olhar. 

O anjo suspirou, feliz. Eu te amo foi repetido na sua cabeça diversas vezes sem uma pausa enquanto ele piscava os olhos, prestando atenção na clientela. Hoje continuava a ser um bom dia para os dois. Sem angústias, sem medo.   

O belo logo foi substituído pelo terror. E quando enxergou a silhueta de duas pessoas — uma alta e a outra baixa — entre a ala da antiga literatura realista europeia, paralisou e não sentiu absolutamente nada. Como se todos os livros que amontoou, um por um, estivesse desmoronando, exatamente um por um e começando pelo meio. Sentiu um frio na barriga e imediatamente os olhos lacrimejaram, sem saber o porquê e como ele ainda estava tão quebrado assim. Piscou os olhos com força e correu diretamente para os fundos da livraria, respirando fundo um ar escasso da qual celestiais não precisavam — mas nada abatia a sensação de sufoco que repentinamente surgiu dentro daquele cômodo. Suas costas queimavam e doíam, e as pernas pareciam não conseguir manter-se mais em pé. Sentia mais uma vez os milhares de olhos coloridos dentro dos seus olhos, da sua pele, da sua mente, bem na nuca. Na testa. No fundo e no interior do subconsciente, que aparecia durante seus sonhos. Era como se tudo estivesse voltando num refluxo só, mas Aziraphale mal tinha comido algo hoje para botar tudo pra fora, se não tinha um tudo. Ainda não estava completo. Ainda estava em pedaços. E sentia cada vez mais as asas e o seu corpo queimarem numa ardência de fazê-lo gritar, mas, nada foi tudo que saiu da sua boca. 

As detalhadas memórias de ter sido arrancado invasivamente de seu próprio pseudo-lar tocaram-o da mesma forma que o tocaram para expulsá-lo de onde estava, de si mesmo. Queriam desmontá-lo como um brinquedo e jogarem fora. Queriam fazer experimentos do próprio oculto, da própria vontade. Nem sabia se era mesmo Deus que quis isso, mas de que forma isso importava agora? Aziraphale estava chorando ao ponto do compulsivo. Já estava próximo de gritar por ajuda mais uma vez, pedir socorro por estar preso nas memórias, por sentir as mãos e o fogo, pelas asas que quase foram cortadas junto consigo. Só não conseguia. Sua mente estava no passado há três meses atrás; e seu físico, presente no agora — e era uma disputa ardilosa entre manter a mão na boca e não mantê-la mais uma vez como as outras vezes que fizera isso. Aziraphale, o Não Mais Anjo Principado, sentia enjoo, angústia, falta de ar e medo. Medo desumano, de alguém bagunçar novamente sua livraria e raptá-lo mais uma vez ao pôr do sol. Pavor de chamar o nome de Crowley e este não vir, porque ambos estavam longe demais um do outro e ninguém fez questão de contar a verdade antes de ir ao seu resgate. Terror, também, da queda. De cair mais uma vez. De cair e nunca mais conseguir levantar, pois saberia que estava incapacitado de voar maravilhosamente bem como antes fazia durante as noites de sexta e domingo. 

Aziraphale só precisava do Crowley, mas não conseguia gritar seu nome. 

Suas pernas falharam, e ele rapidamente caiu no chão — deixando derrubar um porta-incenso da sua mesa — enquanto continuou com a mão na boca. Não pegou de volta, ficou imóvel. Parecia ter desincorporado; era só sua ansiedade. E eram as correntes que estavam na sua pele quando ele estava sendo incendiado vivo. Mesmo que não tivessem lá, podia senti-las. Socorro, pensou. Socorro, pensou com menos clareza, pois sentia a visão escurecer e tudo ficar mais quente. Alguém me ajuda, e via-se no meio da floresta de Tadfield, nu, em dor tortuosa, sem conseguir abrir os olhos por ter medo do fogo lhe cegar, ou, por ter inúmeras sensações em se enxergar com várias provas da tentação que o persuadiu. E de certa forma, fizeram com que ele fosse o culpado. Vozes e vozes que o denunciavam como traidor, que o condenavam pelo seu amor pela humanidade. Vozes e vozes que o impediam de se expressar. 

Pensou no nome de Crowley. Sentiu as mãos dele tocarem seus braços, a qual Aziraphale sentiu pânico. Não ouviu nem seus passos. Mas ouviu sua voz, e era como um milagre após anos e anos sem ter um. Ainda assim se sentia nu, exposto, como um quadro a ser pintado; e não conseguia tirar as mãos do rosto mesmo ouvindo-a, porque pensava que era, também, uma peça da mente. Uma piada mal-feita. E que nada disso era verdadeiro. 

— Aziraphale? — Crowley murmurou, o sotaque inglês soando tão real aos seus ouvidos. — Ouvi alguma coisa caindo, o que aconteceu? 

Parecia estranho só notarem quando um som estrondoso é feito, e quando este incomoda. 

— Aziraphale… — mais uma vez o demônio murmurou. — Sou eu, Crowley. Seu querido, em carne e osso. Eu estou aqui, meu anjo. 

Contrariando sua vontade e seguindo seu instinto, o anjo deixou suas mãos serem seguradas pelas mãos do demônio, que não mais possuía seus óculos escuros quando ousou olhar nos olhos dele em receio. E que acariciou seus punhos com as pontas dos polegares e fez com que as palmas frias entrassem em contato com as mornas. Não tinha mais um sorriso tão explícito de quando ajudou aquela criança, mas tinha a mesma delicadeza protetora que era sua própria natureza. 

Quando uma canhota foi ao seu peito e o massageou, Aziraphale imediatamente fez o exercício de respiração a qual se lembra de ter aprendido e logo ensinado para Crowley numa de suas crises. Inspira, expira. Olhos nos olhos e confiança, mesmo que os traumas estejam no corredor ou em alguma estante e nos olhos de quem vê. Inspira, expira. Começava a se acalmar, mas aquela dor ainda persistia. Inspira, expira. E precisava olhar mais uma vez para Crowley. Seu cabelo ruivo, seus olhos de serpente, a beleza que só ele tinha e ninguém mais teria. 

Um amor que ele não sabia se valia a pena tanta dor assim. Tanta culpa nas pupilas e tantas dores nas costas. 

— Como se sente? — questionou, ainda sem deixar de massagear o peito. Aziraphale fechou os olhos mais uma vez, ainda respirando fundo. 

— Eu não sei dizer bem — disse, sentindo o que quer que fosse. — Eu apenas… Surtei. E nem sei por quê. 

Novamente Crowley o encarou dócil, mas era diferente. Era uma expressão, um olhar, que causava repulsa aos olhos e humanidade de Aziraphale. Não esperava, mas acabara de sentir que seu amado o observava como se ele fosse digno de ter pena numa situação como essa — e também não esperava, mas acabou se descobrindo com ódio da ideia de ser digno de pena. Detestável, horrível. Porém, conseguiu esconder cada milímetro do seu rosto que denuncie desgosto e humilhação, porque repetiu mais uma vez a si mesmo: eu te amo. Assim que Aziraphale ocultava esse ódio. Com um amor que não sabia se valia a pena. 

— Quer que eu termine o expediente por hoje? — voltou a questionar, incerto do que quer que os olhos azuis do anjo queiram dizer. Eles escondiam algo que ele não conseguia captar. — Podemos abrir amanhã de manhã.

Não — Aziraphale respondeu de imediato, fechando os olhos. Respirou fundo. — Quer dizer, não, não. Está tudo bem, querido, não se preocupe. 

O demônio arqueou a sobrancelha. 

Você realmente vai dizer pra eu não me preocupar? — disse, mas foi a sua mente que ouviu. Por fora, apenas respondeu: — Tudo bem, anjo. Só me chame quando precisar de qualquer coisa, até mesmo se precisar só de mim, viu? 

Aquele sorriso. Aquele mínimo sorriso que Aziraphale adorava ver em seu rosto e que significavam mil coisas. Teve o impulso de chorar por pensar em cada uma delas, mas resistiu, apreciando todas as tentativas de Crowley ser aquele quem ele mais precisa — e em todas, ele conseguiu. 

Mas as orbes de serpente ainda tinham um sentimento em específico, a qual Aziraphale se questionou mais uma vez. 

 

(...)

 

Se ver no espelho nunca foi uma tarefa fácil depois de ter caído. Ver as manchas que ainda predominavam partes da pele alva, fazendo-o lembrar-se de memórias que parecem póstumas, era horrível. A pele nunca foi um traço lá tão importante para os celestiais e os infernais e qualquer ser etéreo. São apenas aquisições que lhes são dadas como presentes, mas que devem exercer alguma função maior dada por Ela e que ninguém sabe. Cada um possui e cada um tem sua maneira de lidar com a sua manifestação física, decomposta ou não pelo julgar da natureza. 

Aziraphale sempre gostou e sempre sentiu-se a vontade dentro do corpo que tem, e nunca enxergou defeitos neste. Porém, depois de todo o espetáculo para anjo ver, tudo que ele conseguia sentir era uma tristeza incomparável. Mesmo que todas as dores fossem individuais, a sua parecia um pouco menor fora da sua caixinha, porque ela não cabia dentro dela. E o sentimento, que fazia a visão embaçar e seus olhos se encherem de lágrimas, era indecifrável. Era se questionar quietamente se tudo isso realmente valia a pena vendo o contraste das manchas de queimadura com as memórias de que um dia ele se rendeu a tentação, e seu corpo foi tocado com consentimento e amado de maneira que ele aceitasse, e as mãos eram de alguém que ele verdadeiramente confiava e que não tinha medo. 

Uma lágrima escorreu quando removia mais uma parte de sua pele morta e chamuscada, mordendo uma toalha pequena para não deixar a dor falar mais alto do que sua boca pudesse falar. Ardia como mil agulhas lixando a epiderme lisa e bela, sangrava em vermelho quando a deixava respirar, e pequenas gotas surgiam, o lembrando mais uma vez quem ele era e onde ele deveria estar. Quando uma cicatriz estava mais entranhada, era inevitável que ele ousasse gritar um pouco mais alto do que restringia em prol da própria sanidade; ou a de Crowley, que estava atrás da porta, ouvindo os sons reprimidos de agonia ao ter que retirar sua pele morta entrelaçada com a pele supostamente viva para não dizer o contrário. Quem sabe, principalmente a sanidade de Crowley, que tampava sua boca enquanto soluçava descontroladamente escutando tudo aquilo sem poder ajudá-lo de verdade — porque nenhum milagre curaria aquilo, e nunca iria. Deus parecia tão temerosa em dar dons aos celestiais que, quando decidiu puni-los, determinou que é apenas um só; e que conviva com seu erro e ninguém se intromete. Aziraphale não seria exceção dessa vez; Crowley teria de lidar com isso sem intervenção. E teria de lidar com a horrível sensação de que parte disso tenha sido sua culpa, ou que ele deveria tê-lo pego quando sua luz cortava a vertical no céu e que se dane todo o fogo que poderia queimá-lo. 

Foi pior quando não tinha medicina alguma que pudesse anestesiar sua mente enquanto retirava as penas que não pertenciam mais as suas asas. As quebradiças, rachadas, que se tornaram pedra ou que continham sangue pisado. Crowley coletou uma por uma com receio do corpo trêmulo de Aziraphale, duvidando se era o frio local ou se a dor conseguia ser massacrante de tal forma. Ele lembrava-se de assistir filmes ou noticiários da qual coisas assim aconteciam com alguém e se perguntava, sempre nos créditos, o que acontece depois, pensando nos detalhes excessivos que precedem as coisas. O trauma e tudo mais que não é noticiado, apenas quando a pessoa desiste. Se questionou, Aziraphale faria isso? E respondeu logo de imediato: não, ele não faria, sabendo que no fundo tinha dúvidas, e no fundo mesmo, não queria cogitar sua desistência. Quando outra pena acompanhada de mais uma foi retirada fácil entre seus longos dedos, carregado de um gemido da qual Aziraphale segurou seu corpo trêmulo com mais firmeza, tentou se convencer de que tudo ficaria bem, principalmente com seu anjo. E que fosse breve, porque não aguentava mais ter essa questão acompanhada de uma culpa, de noites mal-dormidas e a impotência bem na sua cara quando ele chorava escondido dele. 

 

(...)

 

A inquietude na cama fez com que ele não conseguisse dormir tão bem como quisera. Às três da manhã acordou sentindo seu peito doer como nunca. Abriu e fechou os olhos, mas estes incomodavam. Esfregou o rosto contra o travesseiro e a maciez só o fez pensar no conforto que estava ao seu redor em perfeito estado, só que nada de fato o confortava agora. Sentia que estava prestes a explodir num caleidoscópio cheio de olhos que não mais eram tão brilhantes assim, e a ideia fazia ele estremecer em uma agonia silenciosa. 

Ao lado da cama não havia ninguém, mas estava aquecida. Levantou-se, respirando fundo. O peito apertava ainda mais ao querer chamá-lo, perguntando se ele estava por ali ou se desistiu da rotina emocionalmente exaustiva que possuíam. Porém, sabia que seu demônio não era assim. E mesmo que fosse verdade, ele ainda não conseguiria falar seu nome tão alto como conseguiu ao longo dos anos por algum engano, ou, porque um estava longe do outro numa multidão; também, nas vezes que estiveram no parque e nas outras que estavam andando pela França em plena revolução. De todas, ele nunca pensou que falar seu nome poderia soar como um vislumbre de coisas que não queria recordar. Nunca. 

Toda a linha de pensamento foi quebrada ao ouvir uma voz abafada pelas inúmeras paredes longe do quarto, e só tinha uma. Aziraphale seguiu-a receoso nas pontas dos pés. 

— Olha, Alteza — Crowley murmurava serenamente, conseguindo esconder seu nervosismo e o andar de um lado pelo outro controlando a voz. — Eu não acho isso uma boa ideia, sabe? Tudo aconteceu tão depressa…

Aziraphale suspirou. Sabia que falavam dele. E ser o centro das atenções lhe soava odioso demais quando esse era o tópico das atenções ditas. 

— Te contrariando? Claro que não! — se apressava em dizer. — Eu só estou dizendo que ele precisa de mais tempo pra conciliar isso tudo, não que eu esteja insinuando alguma coisa. Ele só não… Só… É… Não tá acostumado — falava, ainda andando de um lado para o outro. Estava tão nervoso que sibilava sem notar. — Eu ssssei que com o tempo ele aprende, Alteza; o Aziraphale só não está, de fato, preparado para o trabalho. 

Um aperto enorme na garganta se fez, e o choro — que estava estranhamente reprimido a sete chaves, preso desde o dia em que caiu até agora — caiu rosto abaixo enquanto ele estava parado perto da porta entreaberta. Tinha dificuldade enorme em pensar, entre todas as coisas, sobre a rotina. Os novos hábitos e no maior livre arbítrio — mas que todos estes não estavam absorvidos o suficiente dentro da cabeça. Não faziam sentido. E não pareciam condizer com o ser que fora feito e que Deus criou em menção de ajudar, proteger. Tudo soava tão errado ao mesmo tempo que surreal, considerando o fato que ele não estava mais no céu. E uma nova vida obrigatória feita após uma vida destruída — se reconstruir, de modo geral — era difícil. Estava sendo horripilantemente difícil. 

De repente, Aziraphale só queria dormir. E caiu no chão. 

 

(...)

 

— Anjo? — ouviu uma voz macia enquanto estava de olhos fechados. — Ei, Aziraphale. Acorda, meu amor. 

— Hmm? — o anjo murmurou, confuso. Se sentia preso dentro de alguma coisa, incapaz de abrir os olhos ou falar. Sofria de uma paralisia do sono, e estava apavorado.

— Amor... — Crowley tentou novamente, balançando seus ombros encolhidos. — Anjo, acorda. 

E com um suspiro que dizia o quanto ele precisava de ar, Aziraphale acordou desesperado, como se estivesse se afogando. Seus olhos, arregalados de uma hora para outra, focaram em todos os cantos do quarto — menos em tudo e no Crowley. Parte de si queria implorar para que hoje não existisse, porque o fato de acordar todo dia com a mesma sensação de queimação, dor e impureza era insuportável. A outra parte não sabia o que tava acontecendo, justo como o cotidiano de pensamentos do anjo.

Crowley, no entanto, segurou seu rosto delicadamente com ambas as mãos e o fez olhar no fundo dos seus olhos serpentinos. Inspirou e expirou lentamente, e Aziraphale o seguiu, também respirando fundo e não quebrando o contato visual e a confiança. Fizeram o exercício umas quatro vezes até o anjo recobrar sua consciência.

— O que aconteceu? — perguntou ligeiramente assustado, o temor se fazendo presente na voz e na forma como segurava a mão do demônio. 

— Você teve pesadelos a noite toda — disse delicadamente. — Ficou tremendo o tempo todo e sussurrando coisas que eu não consegui entender bem, mas você tava falando muito ‘eu te amo’ do nada. — E nesse mesmo embalo, ironizou: — Ficar comigo é tão complicado assim ou-

Aziraphale o interrompeu com um abraço apertado e outro “eu te amo” proferido. Quando Crowley se deu conta, retribuiu o abraço, notando que o pesadelo não tinha exatamente a ver com ele ou o relacionamento saudável que os dois construíram e que por algum motivo pensava ser tóxico no sonho dele. Muito pelo contrário, se considerar as lágrimas que caíam do rosto do seu anjo. Muito, muito pelo contrário. 

— Foi tudo um sonho? — murmurou contra seu ombro, notando singelamente a presença de mais um edredom na cama. 

— Sim? — Crowley voltou a dizer. — Você está bem, Aziraphale. Eu tô aqui. Nós estamos aqui. 

Com isso, o anjo se deslocou do abraço e segurou o rosto do demônio, apreciando cada traço que era perfeito aos seus olhos. Se sentia mais seguro. 

 

(...)

 

Aziraphale, assim que a mente ficou um pouco menos nublada depois das memórias — que agora tornaram-se simples lapsos — do pesadelo, pôde pensar melhor. Foi apenas um pesadelo que surgiu devido a uma intensa discussão entre os dois e que terminou em uma fodida crise de fé, fazendo o anjo questionar se tudo valia mesmo a pena. O amor escondido dos seus lados, o medo das administrações descobrirem e buscarem uma punição pior do que já propuseram. Ainda não esquecia de quando Crowley o dissera, quase jogando na cara, de que O Céu não pensou duas vezes em tacar-lhe dentro da chama em menção de puni-lo; e que ambos tinham um só lado, mas o demônio queria mencionar como que a implicância desnecessária com lado certo e errado era cansativa e o quanto aquilo magoou ele. E muitas outras coisas que machucaram e que ele não hesitou em esbravejar raivoso e desolado. 

Era insuportável ver o silêncio entre ele e o demônio, ainda mais sabendo que ele mantinha a postura de alguém que cuidava independente dos prós e contras de Aziraphale. Era delicado mesmo no silêncio. E era gentil, talvez um gentil que escondesse tudo o que havia falado na noite passada e que se arrependeu só de pensar que causou um pesadelo no seu anjo. Isso, essa ideia e toda a situação de sentir que colocava outro peso acima das costas de Crowley, corroía ele. 

Enquanto o demônio passava a mão, entre seus dedos as asas macias e angelicais caindo num suspiro baixo e aliviado de Aziraphale ao ver que todas estão brancas e nem um pouco chamuscadas, o anjo buscava as palavras certas para dizer. A cabeça doía, de fato. Mas, ao menos, ter a pena branca em mãos dava um sinal de sanidade e segurança. Todos eles ainda foram misericordiosos consigo. 

— Querido... — disse, baixo. — Eu queria me desculpar. 

— Pelo o que? — perguntou distraído.

— Por ontem. 

Então, Crowley parou. Encarou suas costas e teve o ímpeto de massageá-las perto da nuca, ou, abraçá-las. As asas ao seu redor abaixaram-se. 

— Deixa isso pra lá, anjo.

Aziraphale se virou instantaneamente, olhando para ele com olhos azuis e brilhantes. E raiva, também. 

— Eu não posso, Crowley. Não depois de saber que eu te magoei. 

— Mas você não-

— Eu sim. 

— Aziraphale…

— Me escuta. Eu quero que você saiba que eu estava confuso e que eu não aceitei fugir contigo porque eu estava assustado e acreditava que tudo ficaria bem, e eu ainda acreditava neles, em todos eles. Quando descobri que eu não tive nem uma chance com Deus e todos os anjos, eu entendi o quanto você estava certo e o quanto machucou entender que eu sempre estive no lado errado...

— Meu amor…

— … E eu queria me desculpar por ser tão relutante sobre esse assunto e por ter te feito chorar ontem. 

Crowley segurou sua respiração. A garganta virou um nó.

— Você é importante pra mim, Crowley. É quem eu amo — disse, gentilmente segurando suas mãos. — E é quem eu tenho certeza de quem quero passar a vida junto, mas, não conseguiria sem te pedir desculpas. Por todas as vezes que eu te magoei e você não me disse. Me desculpe. 

Aziraphale conseguia ver os olhos serpentinos lacrimejarem, fazendo com que consequentemente os dele também se enchessem de água. Aproximou-se mais do demônio e beijou seus punhos, depois, beijou as lágrimas que caíram. 

— Então, eu… — Crowley começou, a voz quebradiça. — Eu… Vou ser mais sincero com você, anjo. Eu prometo. 

— Mas não prometa como se fossem desculpas, por favor. 

— Tudo bem — disse, deixando um sorriso reluzir enquanto uma lágrima caia. — Eu prometo, sério. A partir de agora, nós dois, completamente honestos um com o outro. 

Aziraphale sorriu. Seus rostos se aproximaram e os lábios selaram um beijo carinhoso, como um pacto. Ou era apenas uma forma de dizerem “eu te amo” sem que propriamente verbalizem isso. Logo, se separaram e mantiveram as testas coladas, dispensando qualquer distância indesejada. Aziraphale segurou as mãos de Crowley com maior firmeza, e faria menção de beijá-las novamente. 

— Eu preciso te perguntar uma coisa importante — o interrompeu numa voz serena. 

— Vá em frente. 

Crowley hesitou, recordando-se das coisas que ouvira durante a madrugada. “Pare, por favor” em um tom angustiado era parte delas. 

— Sobre o que você sonhou?

Aziraphale gelou. Conseguia ver diante dos próprios olhos o sangue, as penas negras. Sentia o calor que lhe queimava e o demônio que tanto amava se questionando o porquê dos anjos serem criaturas tão cruéis quanto os demônios só por olhar pelo seu corpo nu e ferido. Viu o brilho nos olhos dele quando ajudou uma criança e sentiu o gosto do chocolate com canela, ao mesmo tempo que o amargo predominou ao ver olhos de írises violeta. Podia ouvir os demônios com burburinhos esperando sua chegada, entusiasmados da mesma forma que presenciou o silêncio dos celestiais enquanto ele implorava por ajuda —  e, de todas as formas, chamava por Crowley e ele não aparecia em hipótese alguma. Com medo, pensou se ele ouviu todas as vezes que havia lhe chamado entre soluços compulsivos. 

 A beira do choro, o peito apertado e o estômago ligeiramente embrulhado, respondeu:

— Eu tinha sido expulso do céu, Crowley. 

O dito demônio pôs uma mão em seu rosto, o coração acelerado sem saber o porquê. Abraçou seu anjo e acariciou seu cabelo loiro, sabendo que ele iria quebrar ali nos seus braços. Um lugar seguro para um choro e todo o depósito de seu medo, que, em poucas palavras, já deu a entender toda a extensão do sonho. O demônio sabia muito bem como era essa sensação, e não queria desejá-la para ele em hipótese alguma. 

— Shhhh, eu estou aqui, eu estou aqui. — E o abraçou mais forte. — Isso não vai acontecer contigo, eu prometo. Nem que eu troque contigo de corpo todas as vezes, ou o que for. Você está seguro aqui. 

Então, Aziraphale olhou em seus olhos serpentinos. Âmbar, iluminado, amoroso. Cuidadoso, de forma que possa ser seu refúgio para agora e para todo o sempre. Sentiu-se, de fato, seguro. Mas teve medo. Receio de tudo acontecer num piscar de olhos ou num fechar dos mesmos, culpando principalmente o amor que ele nutria por Crowley e por parte, pela humanidade que tinha ao redor e dentro de si. 

Aziraphale decidiu abrir a livraria hoje, mas trancaria-a ao pôr do sol. E nenhum livro cairia no chão dessa vez, quiçá, um anjo em chamas cortaria o céu pela noite.


Notas Finais


tudo vai ficar bem.


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