História Lírios Brancos - Capítulo 6


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Rap Monster, Suga, V
Tags Bts, Deficiencia, Depressão, Drama, Jikook, Jimin, Jimin!top, Jungkook, Jungkookbottom!, Kookmin, Romance
Visualizações 700
Palavras 5.594
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fluffy, Lemon, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Slash, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


AAAAAAAAAAAAAAAAAA GENTE!!!! Não acredito que nós chegamos a cem favoritos, meu deus, eu só quero chorar!!! Muito obrigada, mesmo <33 Fico muito feliz de saber que tem gente que se permite dar uma chance para o que eu escrevo, mesmo eu sendo uma péssima autora kajsoqeq
Demorei um pouquinho pra aparecer de novo, mas foi porque eu acabei o capítulo tarde da noite ontem e decidi me segurar pra postar hoje.
Já estamos no capítulo cinco, hein. "Só" mais cinco e a fanfic acaba :O

Bem, eu não tenho muito o que dizer hoje, então aproveitem a leitura. Espero que atinja as expectativas de vocês, com esse cap que é inteirinho jikook <3

Capítulo 6 - Para você, das estrelas


Fanfic / Fanfiction Lírios Brancos - Capítulo 6 - Para você, das estrelas

Capítulo Cinco — Para você, das estrelas

 

Numa escala de zero a dez, meu nível de estabilidade emocional estava negativo — se é que ele ainda existia. Minha vida parecia ter sido programada para dar errado, desde os primórdios de minha existência, e qualquer um que dissesse o contrário era um péssimo mentiroso.

A dor me consumia aos poucos, e eu nunca estive tão mal. Mas eu sabia que, cedo ou tarde, as coisas iriam piorar. Sempre pioram. 

Eu era um incômodo na vida de todos a minha volta, até mesmo na minha. E essa era a pior parte. Eu estava começando a me incomodar — ainda mais — comigo mesmo. Eu odiava pensar em como tudo mudou em questão de um mísero segundo, em como fui um completo babaca.

Talvez Yoongi não tivesse tanta culpa assim. Nem Taehyung, nem Hoseok, nem Namjoon. Muito menos os meus pais.

Se eu tivesse prestado atenção, não teria sido atropelado, então não acabaria em uma cadeira de rodas, e as coisas continuariam as mesmas de sempre. Se eu não tivesse dado uma de "bonzão" com Yoongi, então não teríamos discutido, e aquele provavelmente seria só mais um dia que passei com os meus amigos. 

Existiam inúmeras possibilidades. Mas eu não podia voltar atrás e tentar nenhuma delas. Seokjin me fez entender que não se pode viver de e se's, então só nos resta aceitar o presente. 

Eu sempre soube que não era nada demais. Não havia nada de misterioso ou instigante em mim; eu não era uma pessoa iluminada como Hoseok, nem divertida como Namjoon e Taehyung. E as pessoas também não queriam saber mais sobre mim, como sempre faziam com Yoongi. Eu não era o tipo de pessoa que vale a pena conhecer.

Eu não era nem o bom, nem o ruim. Muito menos ótimo ou péssimo. Eu era apenas..."ok". Com Jungkook? Ok. Sem Jungkook? Ok.

Mas eu nunca me importei. Sempre aceitei isso.  Ser um ninguém era tão natural quanto ouvir o meu próprio nome.

Mas agora eu parecia tão...patético. Não conseguia aceitar. Não queria aceitar.

Sentia como se eu tivesse pegado a minha vida inteira e jogado fora.

Já fazia quase duas semanas que eu não saía daquele quarto. Eu queria manter a minha decisão de ficar isolado para sempre, mas eu não conseguia ceder a tentação de morrer de fome. 

No ínicio, Jimin ficava batendo na porta como um louco, e até já ameaçara arrombá-la várias vezes, mas desistiu de tentar depois de uns dias.

Ainda assim, todos os dias eu ouvia um "Jeon, estou bem aqui. E vou continuar, até você abrir a porta." A porta não estava trancada, e sim aberta para quem quisesse entrar. Mas ele respeitava o meu espaço. E eu apreciava isso. 

Mas aquele dia foi diferente.

Ele estava à frente da minha cama, com as mãos na cintura e me olhando com cara de indignação.

— Por quanto tempo você pretende ficar deitado aí? 

— Até meu corpo concordar que continuar vivendo é inútil. — Respondi, débil, me enrolando no edredom estampado. 

— Jeon Jungkook. — Disse ríspido. — Viver não é inútil.

— Mas eu sim. — Murmurei, com uma carranca. — Aliás, você não devia estar na faculdade? É melhor parar de vir aqui. Não quero atrasar ainda mais a sua vida.

— Do que você 'tá falando? — Perguntou como se aquele fosse o maior absurdo do mundo. Ele pareceu esperar uma resposta, porque ficou me olhando por alguns segundos até se tocar de que eu não estava a fim de ter aquele tipo de discussão. — Por que você 'tá falando esse tipo de coisa?

— Porque é a verdade, Jimin. — Senti um nó na garganta, uma ardência incômoda. Me senti vulnerável de novo, e quase podia ouvir meu cérebro gritando em protesto. Não comece, Jungkook. Não o aborreça com os seus problemas. Não seja irritante. Mas Jimin me olhou como se tivesse todo o tempo do mundo para me ouvir, como se eu tivesse toda e sua completa atenção só para mim naquele momento. — Eu sou só um estorvo pra você. 

— Não é verdade...

— É sim! — O interrompi com um soluço. Passei as costas da mão pelo rosto molhado e mordi os lábios, como que tentando me conter. — Até os meus pais acham isso.

A expressão de Jimin se tornou preocupada e curiosa. Talvez até um pouco irritada.

— O que eles disseram pra você?! — Perguntou, com o tom de voz elevado.

Me vi encolher só de lembrar, como se uma figura enorme e assustadora pisasse em cima de mim. 

— Não importa. Mas eu sei que é tudo verdade. — Sussurrei. — Você vai se cansar de sempre ter que me ajudar, e então vai embora. — Senti algo dentro de mim doer, mas tentei esconder esse sentimento o máximo que pude dentro de mim. Eu não precisava de mais um problema no meio de todo o caos que eu era. — Só...só... — Minha voz embargou. — É tão horrível, Jimin. Eu sinto como se eu fosse um pedaço de merda. Eu nunca fiz nada de relevante ou especial pra ninguém, e agora que eu não posso mesmo fazer alguma coisa pra mudar isso. Me sinto um inútil. E um imbecil. Sei que existem outras pessoas nas mesmas condições que eu que conseguem viver bem, mas eu não consigo, eu não posso. — Minha visão ficou turva devido as lágrimas salgadas que inundavam meus olhos, e eu tive ainda mais vontade de chorar, a cada vez que aquelas palavras saíam de mim. Coisas que estiveram presas, num lugar tão profundo e tão escuro que nem eu mesmo podia encontrar. Eu havia caído no meu próprio abismo. — Não consigo me livrar dos pensamentos ruins. Não consigo encarar isso de uma forma boa. Não ter pernas e não poder andar são praticamente a mesma coisa. — Solucei. — Não consigo ser forte. E parece que eu só pioro as coisas para todos. —  Dei uma pausa. —  Não quero ser um estorvo, mas não consigo fazer nada sozinho. Eu me odeio. E odeio ser eu, e odeio mais ainda o fato de não poder fazer nada sobre isso. —  Comecei a brincar com as mãos, nervoso. — Sei que não posso mudar o passado, mas também não consigo encarar o futuro. Estou preso no presente. Estou preso a mim mesmo. E eu não aguento mais, Jimin. — O rosado franziu o cenho e me encarou triste enquanto eu me debulhava em lágrimas. Sua mão se estendeu para tocar meu ombro, mas então se conteve. Talvez ele tivesse medo de se perder em mim também.

— Jeon, isso... — Me encarou fundo nos olhos, como se procurasse a resposta que procurava em mim. Mas não havia nada além de um vazio imensurável. 

— Eu só queria ser alguém. Só queria ser como você, que exala alegria por onde passa, que é interessante. 

— Você é alguém. —  Sentou-se na cama ao meu lado e buscou uma das minhas mãos, acariciando-a com a ponta de seus dedos. — Você é Jeon Jungkook. E isso é o suficiente.

Fiz careta e puxei minha mão. Jimin sorriu triste e passou os dedos curtos por entre os fios róseos.

— Não quero ser suficiente. Não quero ser mediano. Não quero ser tanto faz. Mas por que não consigo ser mais que isso? — Mais um soluço. —  Se...se eu tivesse percebido isso antes, eu poderia ter mudado. Mas agora...agora eu não posso nem andar. Eu provavelmente nem conseguiria me matar sem precisar de ajuda. — Meu choro se tornou mais intenso quando puxei o edredom que cobria o meu corpo e olhei para as minhas pernas desnudas, finas e completamente imóveis. —  H-Havia...havia tantas coisas que eu poderia fazer, Jimin. Tantas coisas que eu gostaria de tentar. Eu não fiz nada nesses dezenove anos. —  Levei uma mão ao peito e a fechei, como se meu coração doesse. — Eu nunca dei atenção a essas coisas, mas agora que não posso fazê-las ou tê-las...dói muito.

— Jeon, coisas assim são inevitáveis. Ninguém imaginou que fosse acontecer. Não é sua culpa.

— É minha culpa sim! — Gritei, sem querer ouvir, e Jimin pareceu se assustar com a elevação do meu tom de vez, porque deu um pulo na cama.

E então suspirou, como se estivesse realmente desapontado.

Quase achei que fosse ficar seco de tanto chorar. Não queria que Jimin me odiasse ou ficasse decepcionado comigo. De todas as pessoas, não queria que ele visse esse meu lado.

— Escuta, Jungkook. —  Suspirou pela segunda vez e sustentou o olhar em meu rosto para a direção contrária, que eu virei, com medo do que estivesse por vir. — Eu entendo que você se sinta assim, e isso não mudará tão cedo. Vai ser um processo longo e demorado. — Olhou para cima, como que tentando buscar as palavras certas. —  Mas, mesmo passando por tudo isso, você ainda continua aqui. E eu tenho certeza de que não foi por "precisar de ajuda até para se matar". — Sorriu levemente. —  O que estou tentando dizer, é que...essa é a maior prova de que você é forte. Talvez a pessoa mais forte e corajosa que eu conheça. — Sua aura enegreceu de repente e eu abaixei a cabeça, tentando olhá-lo discretamente. Seus olhos estavam tão marejados quando os meus. —  Você sabe que aguenta muito mais. E sim, Jungkook, você é alguém. Tenho certeza que você já coloriu a vida de muitas pessoas, e ainda pode fazer isso. O que mudou em você? Você apenas está em uma cadeira de rodas. Ainda é o mesmo Jungkook de sempre. Talvez um pouco mais machucado e sensível, mas com certeza mais forte. O menino lindo e cheio de brilho ainda está aí dentro. Você só precisa deixá-lo sair; e se precisar de ajuda, eu ainda estarei aqui. Seus pais ainda estarão aqui. — Não tenho tanta certeza assim, pensei, mas levantei o olhar para fitá-lo nos olhos. — Você não precisa tentar ser outra pessoa. E você ainde pode fazer o que quiser, Jungkook. Você dita o que é impossível ou não. Só continue sendo quem sempre foi. — Puxou a minha mão para si pela segunda vez e a segurou com firmeza, como se nunca mais fosse soltar. Desejei que ele nunca mais a soltasse. — Porque você me ilumina.

Abri a boca para dizer algo, mas nenhuma palavra saiu. Senti uma última lágrima escorrer pela face ainda úmida, e apertei as costas de sua mão pequena e quente com os dedos.

— Eu não posso. — Sussurrei, e senti como se cacos de vidro cortassem a minha carne por dentro.

Ele me soltou e se levantou, parecendo perturbado e aéreo. 

Eu estraguei tudo, solucei, cobrindo o rosto com ambas as mãos. 

Então ouvi um barulho já conhecido no piso, e o mais velho levara a cadeira de rodas até mim, e antes que eu pudesse perguntar o que ele faria, senti seus braços me envolverem e me levantarem, me sentando de uma forma desajeitada no assento de tecido.

— Jimin. — Perguntei assustado quando ele se pôs atrás de mim e começou a empurrar a cadeira para fora do quarto. — O que você 'tá fazendo?! Pra onde você vai me levar?! — Quase gritei, assustado com a sua mudança repentina de humor. — Onde estão os meus pais?!

— Vou te mostrar que está errado. — Disse confiante, e comecei a me desesperar quando passamos pela porta de casa.

— Eu não quero. Não quero sair. Jimin! — Gritei, atormentado e me sentindo tonto. As pessoas nos olhavam como se fossêmos loucos, mas o rosado não parecia se importar, como se houvesse uma barreira invisível em torno de si. Comecei a suar frio à medida que descíamos a rua, com o coração quase saindo pela boca. Segurei com força no apoio de mãos e comecei a chorar de novo, me sentindo pressionado e com medo, como se minha mente me alertasse de que eu estava em perigo. Quis gritar ou sair correndo, mas não conseguia mexer um músculo, o que era ainda mais desesperador. Não conseguia respirar direito, e o ar parecia não ser o suficiente para preencher meus pulmões e aquietar o meu corpo trêmulo. 

Achei que fosse desmaiar ou vomitar quando a cadeira parou bruscamente e Jimin ficou à minha frente. Ele me olhou preocupado, e senti meu corpo inteiro amolecer e meus sentidos começarem a se esvair. Joguei o corpo para frente em uma reação imediata quando ele se agachou, sem dar atenção a qualquer detalhe à minha volta. Enlacei seu pescoço com os braços e escondi o meu rosto ali, soluçando e quase me afogando no meu próprio pranto. Eu queria socá-lo e xingá-lo até não poder mais, mas estava completamente sem forças.

Fechei os olhos, com medo e com aquela sensação de perigo insistente ainda me assombrando, mesmo que agora eu estivesse em seus braços.

Senti suas duas mãos em minhas costas.

— Está tudo bem, Jungkook. — Tentou me confortar, mas não adiantou. — Você sabe que eu não queria te assustar. Olhe pra mim.

Fiz que não, assustado demais para me mover.

— Me desculpe. — Sua voz era serena e calma. — Eu estou aqui com você, então tente se acalmar. Olhe onde nós estamos. — Disse e eu apertei os meus braços contra si ainda mais, mas então levantando o olhar para fitar ao meu redor. Um lugar coberto por árvores de copas verdes e abundantes. Eu podia ouvir crianças brincando não muito longe dali, rindo e gritando e pais preocupados as dizendo para tomar cuidado.

Ele fez menção de se levantar, e eu o agarrei com ainda mais força, como um gato com medo de entrar na água.

Ele riu suavemente.

— Não vou te largar. — Prometeu, me olhando fundo nos olhos e eu me ajeitei na cadeira de rodas novamente. Eu estava um pouco mais calmo, mas o pânico foi tão grande que ainda sentia meu coração bater a mil por hora, e as lágrimas caíam incontrolavelmente, como se só precisassem sair. Olhei para mim mesmo, de pijama e pés descalços, e desejei estar em casa. — Eu vou te segurar, está bem? — Assenti, embora o bom senso me dissesse para fazer o contrário. Ele inclinou o corpo para que eu segurasse em seu pescoço, e me levantou, os braços protegendo as minhas costas.

Eu não conseguia nem imaginar o quanto aquela cena parecia esquisita, comigo em pé, sendo sustentado completa e unicamente pelo Park, mas não importava.

Arfei quando meus pés tocaram o chão, e um sorriso  largo e inocente tomou forma em meus lábios. Olhei para baixo, sem desencostar o corpo nem por um milímetro do de Jimin, que sorriu também, quando meus olhos encontraram a grama verde abaixo de meus pés. Meus dedos por entre as folhinhas compridas e finas.

Eu juro que quase pude sentir o seu toque. Não, eu podia. Quase pude sentir os meus dedos se moverem e ficarem sujos de terra. 

Meus olhos marejaram. Eu estava com medo de cair, estava com medo de minhas pernas finas e fracas bambearem e fraquejarem, estava com medo que Jimin me largasse, mas deixei todos esses pensamentos ruins de lado e ri. Ri como uma criança feliz. E também tive ainda mais vontade de chorar, mas não de dor ou de tristeza.

— Você é como qualquer outra pessoa, Jeon. E pode fazer o que quiser.

O abracei ainda mais forte, como se aquele momento fosse infinito. 

 

 

Jimin acabou tendo que descansar um pouco os braços, depois de um tempo, e eu também não ficaria surpreso se ele tivesse torcicolo no dia seguinte. Então estávamos eu e ele, sentados debaixo de uma árvore, com as costas recostadas no tronco extenso e grosso desta. 

Eu podia sentir a brisa fresca e os raios de luz do sol da tarde baterem em meu rosto, entrando pelos espaços vazios no topo da árvore, pontos em que as folhas ficavam mais verdes e vibrantes.

Coloquei as mãos na grama, enterrando os dedos ali e depois observando a terra em minhas unhas.

Sorri, ao passo que o Park fez uma cara de nojo. 

— Se eu soubesse que você gosta tanto de mexer com terra, teria te levado numa fazenda. O que você vê de tão especial nisso? — Perguntou, cético. Olhei para baixo, sem deixar o sorriso se desmanchar.

— Eu...apenas gosto dessa sensação. — Respirei fundo. — De se estar vivo de novo. De poder tocar nas coisas e sentí-las.

Ele sorriu, e conclui que seu sorriso era uma das minhas coisas preferidas no mundo.

Então pensei em alguma coisa.

— Hyung. — Chamei. Ele me olhou com surpresa e arregalou os olhos de leve.

— Nossa. O garotinho finalmente aprendeu a respeitar seu hyung?! — Revirei os olhos.

— Você nunca me falou muito sobre você. Sabe, sobre sua vida, seus gostos. — Dei de ombros, tentando parecer menos interessado do que parecia.

— Jeon, fazem meses que nos conhecemos e você me pergunta uma coisa dessas agora? — Riu com si mesmo, incrédulo. — Que tipo de coisa você quer saber?

—  Eu não sei. Qualquer coisa. Sua cor favorita, sua música favorita, que tipo de coisa você gosta de comer...Eu quero te conhecer de verdade, Jimin. —  Respondi sem nenhum pudor ou medo. 

Ele abraçou as pernas e olhou para o céu, pensativo.

—  Lírios.

— O que? 

—  Eu gosto de lírios. São minhas flores favoritas. — O olhei, ainda tentando processar aquela informação, e por algum motivo, senti minhas bochechas esquentarem um pouco.

—  Por que? —  Quis saber.

— Você parece uma criança de seis anos, sabia? Quer saber o motivo de tudo. —  Disse e eu lhe mostrei a língua.

—  Não é minha culpa se você me deixa curioso.

Soltou um suspiro e colocou as mãos na grama, sustentando o próprio corpo, e jogou a cabeça para trás.

—  Eu apenas gosto. Me trazem uma sensação de paz, não sei explicar. Mas eles têm que ser brancos. São os mais bonitos.

Pensei em perguntar o por que novamente, mas me contive. Apenas não pude evitar de achá-lo adorável naquele momento.

Depois disso, descobri uma infinidade de coisas sobre Jimin. E provavelmente não me arrependeria de saber mais uma infinidade de coisas sobre ele. Agora, sabia que sua cor favorita era amarelo — o que não poderia fazer mais sentido para mim, porque, afinal, ele era o próprio sol. Talvez mais como o sol se pondo no final da tarde, quando o céu está uma mistura de laranja e rosa, como os seus cabelos. É quente e bonito, mas ao mesmo tempo é triste e assustador, porque significa que ele está indo embora. É o tipo de momento que você quer congelar para sempre.

Eu me sentia assim em relação ao Jimin. Poderia apreciá-lo por horas, mas sabia que sempre havia a hora de partir.

Ah, também havia descoberto que ele odiava frutos do mar, e que tinha medo de palco, porque fora obrigado a fazer uma peça quando criança, e ficou tão nervoso que se esqueceu de todas as falas. Ele amava gatos, e tinha um medo bizarro de baleias — que tipo de pessoa tem medo de baleias? 

E à medida que fomos nos conhecendo, me senti ainda mais próximo de si. 

— E o que aconteceu com seus pais? 

— Como assim? — Pareceu confuso.

— Você nunca me falou nada sobre eles. Sempre me conta de coisas sobre a sua vó, mas nunca ouvi um "A" de seus pais.

— Ah... — Sorriu fraco. — Acho que eles pararam de gostar de mim depois que cresci um pouco. Ou talvez tenha sido depois que tive câncer. 

O olhei um pouco chocado, sem saber se deveria simplesmente mudar de assunto, ficar em silêncio ou perguntar mais. Mas achei que fosse a vez de Jimin de falar.

— Meus pais sempre foram pessoas muito ocupadas. Nunca tiveram muito tempo para mim, e também não pareciam querer. Acho que eu ficar doente foi só mais uma desculpa para me mandarem para a casa da minha avó, como um vale premiado. — Deu de ombros, como se aquilo não fosse relevante, mas sabia que devia significar o mundo para ele. Então significava para mim também. — Bom, pelo menos por um tempo, porque acabaram indo me buscar um ano depois. Mas, como você sabe, quando eu fiquei mais velho decidi por mim mesmo voltar pra cá, e minha avó me acolheu sem nem pensar duas vezes.

— Ela é muito especial pra você, certo?

Ele assentiu, com um sorriso radiante.

— Câncer é uma merda. — Disse simplesmente.

— Pode apostar que é. — O rosado concordou. O olhei de canto, curioso com a sua reação, sem conseguir decifrar exatamente o que se passava por sua cabeça naquele momento.

Essa era uma das — únicas — coisas que eu odiava em Park Jimin. Odiava como ele conseguia me ler tão fácil, descobrir todos os meus pontos fracos sem muito esforço e me deixar desestabilizado só de se aproximar. Odiava o efeito que ele tinha sobre mim. 

E odiava o fato de não parecer ter nenhum efeito sobre ele.

O mais velho vivia falando frases clichês por aí — talvez eu tivesse pego esse hábito dele —, como o quão impossível é saber o quão profundo é o oceano de alguém e todas essas coisas de poeta com dor de cotovelo.

Bom, mal ele sabia que ele era o próprio oceano.

Mas o quão profundo era Park Jimin?

Acho que nem ele sabia a resposta. 

Bem, existem perguntas que não foram feitas para ser respondidas. Porque talvez sempre exista algo a mais a se descobrir.

— Você me deu um puta susto hoje. — Tentei quebrar o gelo, mas ele apenas me encarou, sem sorrir ou fazer cara feia.

— Eu não devia ter feito o que fiz. — Passou a mão pelos cabelos, jogando a franja pra trás. De repente, me vi imaginando como Jimin seria em outras cores de cabelo: laranja, vermelho, azul, platinado. Ele definitivamente ficaria bem em todos, mas o rosa provavelmente ainda seria o meu preferido. — Eu só...foi a primeira coisa em que pensei. 

Sorri fraco quando voltei à mim.

— Achei que fosse morrer. — Senti um calafrio percorrer a espinha e encolhi os ombros. — Nunca tive tão medo na vida. — Sussurrei, e percebi que ele pareceu desconfortável, talvez se sentindo culpada.

Talvez eu não devesse estar tão calmo na posição em que me encontrava, mas eu não conseguia sentir raiva. Apenas...medo de que acontecesse de novo.

Procurei a sua mão com a minha e, quando a encontrei, a apertei de leve, arrancando um sorriso desprevinido do mais velho.

— Está tudo bem. Eu estou bem. Obrigado por não desistir de mim.

 

— Jungkook? 

— Sim? — Respondi, de olhos fechados, a cabeça encostada no tronco da árvore. Já estava escurecendo, e a noite ia ficando mais fria.

Estávamos lá há horas, apenas conversando ou observando o mundo à nossa volta e, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia em paz. Me sentia bem. 

— Posso fazer uma pergunta?

— Outra? — Ele sorriu amarelo com a minha tentativa falha de ser engraçado. Que merda, Jungkook. Eu só podia estar aprendendo essas piadas sem graça com o Jin hyung, mesmo.

— Como foi...quando você sofreu o acidente? Digo, o que aconteceu naquele dia? — Me olhou curioso, e me senti extremamente desconfortável com aquela pergunta.

Odiava quando me faziam esse tipo de pergunta. Não gostava desse tipo de exposição.

Estalei a língua e respirei fundo, me preparando. Eu nunca tinha revelado nada sobre aquele dia para ninguém além de Seokjin, e o que ele sabia era apenas a ponta do iceberg.

— Eu...fui prestar vestibular naquele dia. O...O Yoongi me acompanhou — engoli em seco —, e quando me deixou no local da prova, combinamos de nos encontrar na casa de Hoseok. Sempre comemorávamos quando um de nós ia fazer prova, mesmo que as chances de não passar fossem grandes. — Ri fraco, todas trazendo aquelas memórias à tona. — Yoongi estava estranho naquele dia. Ele é uma pessoa quieta, normalmente, mas...era diferente. Ele sempre foi uma pessoa muito complicada, sabe? Mas eu estava cansado disso. — Suspirei. — Cansado de estar sempre disponível e ser sempre tratado como um "tanto faz". Então eu explodi e começamos a brigar. Os meninos tentaram nos separar, mas não adiantou. Um de nós tinha que ir embora e...

— Ninguém te impediu. — Jimin completou.

— É.

— Você sente falta deles?

Parei pra pensar um pouco.

— Não tenho certeza. Talvez não o tempo todo, mas...acho que continua aqui, entende? — Apontei para o peito, mas ele continuou sem dizer nada. — Eu só...nem sei mais se eram meus amigos de verdade. Eu só queria poder voltar no tempo e reverter tudo isso. 

Ele ficou quieto por um tempo.

— E quanto aos seus pais?

— O que tem eles? — Franzi o cenho, estranhando a pergunta repetina. Para falar a verdade, eu não tinha parado para pensar sobre eles até aquele momento. Depois de ter ouvido todas aquelas coisas, era...simplesmente muito difícil de suportar encará-los.

Queria não ser tão emocionalmente dependente deles quanto me sentia. Mas, eu sabia que eu provavelmente apagaria de vez se ainda não sentisse mesmo que um pouco o amor daqueles que cuidaram de mim a vida inteira.

E ouvir a minha mãe chorando e batendo na porta, suplicando por pedidos de desculpas, era ainda mais doloroso do que ouvir aquelas atrocidades. Mas eu não estava pronto para encarar essa situação de frente, ainda.

— Você queria que as coisas voltassem a ser como antes? — Questionou, brincando com os dedos gordinhos sobre o jeans rasgado.

— Não. — Respondi de prontidão. — Eles brigavam o dia todo, era óbvio que iam se separar. Mas parece que agora eles se forçam a ficar juntos, por mim, entende? Isso só torna as coisas mais horríveis. Não quero impedir a felicidade deles.

— Nem eles a sua.

— Talvez não estejam fazendo um trabalho tão bom quanto pensam. — Arranquei uma plantinha ao meu lado e a girei entre o dedo indicador e a mão. — Minha mãe...me sufoca. Mas eu entendo que é difícil para ela. Talvez até mais do que para mim e, embora meu pai me defenda, as coisas só pioram para ela. 

— Ela vai melhorar, Jeon. E você também. — Olhou para cima. — Talvez seus pais também devessem tentar a terapia, pra aceitar a situação aos poucos.

— Eles...eles sabem. Só estão cheios de preocupações. Contas para pagar, trabalho dobrado, um filho paraplégico. — Falei mais para mim mesmo do que para ele. — Eu vou fazer vinte anos, Jimin. Mas me sinto impotente como uma criança, ou um bebê que precisa de colo.

— ... — Me encarou por alguns segundos, quieto, com um biquinho nos lábios carnudos. — Acho que sei do que você precisa.

— De pernas novas? — Brinquei e ele riu, logo depois soltando um "aigo, seu idiota", o que me fez rir também.

— Seria uma boa, mas não. — Riu mais uma vez e se levantou, batendo uma mão na outra como se estivessem cheias de pó. Então se aproximou da minha cadeira de rodas e a trouxe para mais perto de mim. — Quero te levar num lugar.

— Jimin, eu já quase morri duas vezes por causa de suas ideias malucas de ficar me levando para um lado e para o outro. — Murmurei, fingindo estar muito sério. — Acha mesmo que eu confiaria em você de novo?

Ele sorriu doce, e minhas bochechas ruborizaram, sem que lhes fosse permitido.

— É o meu lugar favorito no mundo, e seremos apenas eu e você. — Tentou me ganhar, mas não me dei por muito convencido. — Você vai gostar. 

 

 

— Tá. — Exclamei. — E como você espera que eu chegue lá em cima? — Indaguei, incrédulo.

Às vezes eu me perguntava o que se passava na cabeça do Park, ainda mais ao levar um paraplégico a um prédio de pelo menos cinco andares.

— Isso não vai ser um problema.

Arqueei as sobrancelhas, rindo de desdém.

— Ah, não? — Meneei a cabeça, sem saber se ele estava muito louco ou eu quem não estava botando muita fé em suas palavras. Provavelmente a primeira opção. — Esse prédio da era medieval pelo menos tem algum elevador? — Perguntei, encarando o edifício de cima a baixo.

— Um elevador de madeira.

Meu Deus.

— Para de ser tão medroso, Jungkook. Você acha mesmo que eu encaro essa escadaria toda vez que eu venho aqui? — Me olhou, e eu fiquei quieto. — Vai ficar tudo bem. É uma promessa. E você vai amar a vista de lá de cima. 

Respirei fundo e fechei os olhos, tentando me convencer das palavras do rosado, quando senti sua mão pegar a minha e o seu toque quente, o que me deixou num misto de calmaria e nervosismo.

 

 

Nós chegamos ao terraço, depois de um trabalho árduo de insistência e convencimento por parte do mais velho, e, eu tinha que admitir, ele estava certo. Eu nunca havia visto o céu tão azul, tão escuro e tão cheio de estrelas.

Seul era conhecida por ser uma cidade muito iluminada e movimentada, mas, ali, eu só conseguia sentir a calmaria da noite e a brisa fresca e agradável.

Jimin me empurrou com a cadeira até a borda do terraço, protegida por meio metro de muro, que nos dava visão para a vista abaixo de nós.

Havia algumas estudantes rindo e conversando na rua de frente com o prédio, e eu sorri enquanto as assistia. Sentia falta da época do colegial.

Quando estamos estudando, praticamente imploramos para que acabe logo. Mas é muito diferente quando você se forma, e percebe que acabou.

Esfreguei os braços com as mãos, me vendo naquele grupinho de meninas, mas com Taehyung, Hoseok, Namjoon e Yoongi. 

E então todos foram sumindo.

Mas não um a um. Todos de uma vez.

— Sabe, Jeon. — Jimin me chamou, apoiando os braços no muro baixinho e recuperando minha atenção para si. — Eu venho aqui sempre que preciso desabafar. Então eu encho os meus pulmões de ar e grito tudo o que estou sentindo. — Sorriu. — Você devia tentar.

— Não mesmo.

— Por que não? É divertido. Olha. — Passei a mão pelos cabelos, já prevendo a vergonha alheia, quando Jimin se colocou de ponta de pés — ainda que não lhe fosse necessário — e respirou fundo. — MEUS PAIS SÃO COMPLETOS IDIOTAS! — Gritou e eu arregalei os olhos, me inclinando para frente. Todas as garotas olharam para cima, assustadas, confusas e procurando o dono do grito, e então eu apenas senti minha cabeça sendo empurrada para baixo e uma sucessão de gargalhadas.

Era Jimin, encolhido no chão, com a mão ainda na cabeça, impedindo que eu a levantasse. Eu estava pronto para protestar quando ele fez sinal de silêncio com o indicador e voltou a rir.

Suavizei a expressão, abrindo um sorriso.

— Sua vez.

O encarei de forma hesitante, e seus lábios tomaram forma de um sorriso suave e singelo.

— Apenas... — Olhou para cima. — Grite como se estivesse contando um segredo às estrelas. Só elas podem te ouvir.

Senti meu corpo esquentar ao ouvir suas palavras e, depois de contar até três mentalmente, respirei fundo, fechei os olhos e abri um sorriso de ponta a ponta.

— EU ODEIO MIN YOONGI! — Gritei o mais alto que pude e vi que Jimin me olhava um pouco chocado, para então começar a rir, seguido por mim.

 

Àquela altura, já estávamos ambos deitados no chão do terraço, lado a lado, gritando a primeira coisa que nos viesse à mente e rindo como dois loucos. 

— Jeon Jungkook é a melhor pessoa que eu já conheci!

Então senti necessidade de colocar para fora algo que há muito tempo estava guardado em mim, a chama acesa que, mesmo que fraca, ainda reluzia em meio a todo o breu do abismo. E eu sabia exatamente quem era a pessoa responsável por mantê-la assim.

— Eu amo você, Park Jimin! — Gritei a plenos pulmões, esvaziando-os por completo e cessando as risadas. Gritei como se ninguém além das estrelas pudesse ouvir, como se pudesse alcançá-las, como se fossem minhas. Ignorei por completo que o homem que eu amava estava bem ao meu lado, e tentei desfrutar da sensação de se estar livre, mesmo que apenas por um minuto.

Eu precisava dizer. Precisava dizer a ele o que eu sentia. Eu não queria esconder nada dele. 

Eu podia não ser o homem mais experiente do mundo, e talvez não ter uma ideia certa do que é o amor. Talvez minha cabeça estivesse tão confusa quanto meu coração. Talvez eu não soubesse para onde ir ou do que fazer ou como fazer. Mas eu tinha certeza de que queria encontrar a resposta com ele.

Eu demorei para perceber, mas Jimin havia se tornado meu refúgio.

E não havia nenhum outro lugar para qual eu queria ir.

Virei o rosto levemente em sua direção, apenas para dar de cara com um Jimin de olhos levementes arregalados e cara de quem havia sido pego desprevinido.

Se a situação fosse outra, talvez eu tivesse me sentido mais vitorioso por ter tido um aparente impacto sobre o outro. Acho que eu nunca o havia deixado sem fala. O Park sempre sabia o que dizer, mas aquela era a primeira vez em que eu havia o deixado sem falar.

Mas eu estava ocupado demais processando os milhares de pensamentos e sentimentos dentro de mim, ali, naquele momento, enquanto nos olhávamos olho a olho e eu sentia a sua respiração em meu rosto.

Então seu semblante se suavizou, e ele chegou mais perto. 

Muito mais perto.

Se virou no chão, deitando de bruços e assim podendo levantar a cabeça, como um animal sorrateiro, que se aproxima aos poucos para atacar a sua presa, sempre minuciosamente.

Então os seus lábios tocaram o meus, e foi a melhor sensação que eu poderia sentir.

Meu corpo inteiro se arrepiou e senti o famoso frio na barriga, quando a adrenalina sobe por suas veias e, mesmo que dê medo, é a melhor coisa de todas. E você quer repetir. Pra sempre.

Levei uma mão ao seu rosto, acariciando seus cabelos cor de rosa, e movi a boca contra a sua devagar, abrindo e fechando em um beijo lento e demorado.

 

E ficamos assim, colados um no outro, entre risadinhas envergonhadas e beijos calorosos, por boa parte da noite.


Notas Finais


O OTP É REAL CARALHO PORRAAAAAAAAAAAA (perdoem o palavreado).
Só eu tava esperando por isso há 84 anos? Mas pois é, finalmente aconteceu )O)
Aos que acharam que as coisas aconteceram um pouco rápido demais, lembrem que meses se passam de um capítulo para o outro e, logicamente, não foi fácil para o Jungkook aceitar que está apaixonado (de novo). Então sejam bonzinhos com o bebê :(

Vejo vocês na próxima! <3
Comemorem enquanto o momento bom dura, rsrsrs.


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