1. Spirit Fanfics >
  2. Litigious Love >
  3. Trilha Sonora

História Litigious Love - Capítulo 21


Escrita por:


Notas do Autor


Músiquinhas tema? Dive- Ed, Just a Kiss - Lady A, Fallin' for you - Colbie C

Capítulo 21 - Trilha Sonora


Girei meu tronco de um lado para o outro, as mãos atrás das costas unidas em um aperto aflito, como se eu temesse que elas perdessem o controle e tomassem vida própria. Vespas insistentes ferroavam meu cérebro com as mesmas perguntas. Eu ainda podia mudar de ideia e ir embora antes que Justin chegasse. Mas meus pés estavam plantados no chão.  

Não demorou muito para que um carro prata sedan estacionasse no meio fio onde eu estava. Só por um segundo pensei em correr, temendo um sequestro, entretanto, a janela do passageiro logo foi abaixada para me dar visão daqueles traços faciais de tirar o fôlego. Ele não perdeu tempo em sorrir para mim, como se eu já não tivesse problemas o bastante para regularizar a respiração.  

— Quanto tempo, Lia — disse ele descendo do carro para me receber. Usava uma calça jeans justa nas pernas, folgada no quadril, camisa branca lisa e jaqueta preta.  

Inferno de modelo personalizado em tormento.  

Uma festa estranha no meu estômago me fez pensar que eu precisava mesmo tomar remédio de vermes.  

— Ei — levantei uma mão para acenar sem jeito, ao passo que ele revirou os olhos e puxou minha cintura com uma mão para um abraço desajeitado.  

Inspirei brevemente de seu perfume antes de me afastar. Eu poderia deitar a cabeça em seu ombro e ficar ali por horas.  

— Pronta?  

Contrariando todos os avisos mentais conscientes, respondi: 

— Com certeza. 

Justin me deixou entrar primeiro, e apesar de saber que ele me observava — e estar nervosa por isso — não tropecei de novo. Por outro lado, tive atenção redobrada, apoiei as mãos com cuidado nos bancos e entrei mais devagar do que o normal. Acomodei-me no canto perpendicular à janela e cumprimentei nosso motorista do dia, um homem de boné de beisebol e pele rosada num rosto redondo. Aquele tipo que dava a impressão de sentar-se no sofá à noite com uma cerveja na mão, assistindo a jogos esportivos na TV. 

— Como foi seu compromisso de hoje? — Justin perguntou, logo após se acomodar.  

Não devia ter sido tão estranho conversar normalmente com ele coisas banais como aquela. Porém, eu não conseguia me livrar da sensação de que havia alguma coisa faltando — e não era o livro físico que eu deixara com Fani. 

Mais perturbador ainda foi descobrir a origem do sentimento. Ele emanava alguma energia atrativa e meu corpo tinha a necessidade de manter o contato físico para completar o mútuo entendimento. Cruzei bem as pernas e braços como forma de me inibir. É de conhecimento comum que não há necessidade alguma do sentido sensorial para ouvintes e falantes se comunicarem, e eu não sou uma exceção à regra.  

Independentemente do que eu me dissesse, só fiquei satisfeita quando entramos no jatinho e ele segurou minha mão. De fato, a despeito do meu medo de voar, estive ansiosa para chegarmos ali, esperando que ele tomasse essa atitude.  

— É impressão minha ou você está mesmo perdendo o receio de voar? — Avaliou-me com os olhos, tão orgulhoso que me deu a dica de como ele tomava aquele crédito para si.  

Parei por um instante para refletir minha resposta.  

A questão toda mais tinha a ver com sua presença eclipsar qualquer outra sensação que eu pudesse ter. Isso, por si só, já superava meus medos mais enraizados.  

— Hmmm. Você é bom em distrair pessoas.  

Seu sorrisinho cresceu antes que ele forjasse uma expressão grave.  

— Você sabia que eu tenho um superpoder secreto? 

Contive o riso, adivinhando que vinha bobagem por aí. Balancei a cabeça, tentando acompanhar seu tom solene.  

Ele se inclinou mais para perto de mim a fim de compartilhar o segredo — o que não fez nada bem para meu ritmo cardíaco.  

— Consigo mexer na memória alheia. Apago até uma coisa básica como o nome. Claro que não para sempre, não sou cruel assim.  

É claro que ele sabia da própria habilidade de atrapalhar o sistema cognitivo de terceiros.    

— Imagino que seja uma especialidade muito útil para você — murmurei.  

Ele levantou um ombro. 

— Sabe o que dizem, de grandes poderes advém grandes responsabilidades.  

Assenti.  

— E você acha que está sendo responsável? 

 — Ah, sim — confirmou, passando a mão distraidamente no cabelo já bem arrumado no costumeiro topete — Eu só não sou exatamente muito centrado quando estou com você. Só por isso vou te fazer uma demonstração.  

Eu engoliria em seco de nervoso se não fosse alvo dos seus olhos que nada perdiam. Concentrei toda reação nas pernas, já que perder as forças ali não me traria malefícios de imediato.  

— Você pode tentar, mas eu sou muito focada — um fio muito fino de voz foi o que saiu da minha garganta.  

— Gosto de desafios — sua mão livre foi de encontro a minha bochecha, as costas dos dedos acariciando o local com muita delicadeza. Compeli-me a permanecer imóvel, sem me desmanchar como o fazia por dentro enquanto seu rosto se aproximava do meu — Você não? 

Meu desafio no momento era continuar viva. Já podia sentir a contradição do fogo frio lambendo meu sangue. Pouco oxigênio no cérebro, talvez. Será que eu ainda respirava? Ele continuava me fitando com profundidade, como se esperasse uma resposta. Havia me feito alguma pergunta? Piscou seus grandes cílios que só destacam a cor caramelizada dos olhos arrebatadores.  

Sim! Ele havia me perguntado se... seus  dedos desceram para o meu pescoço, dedilhando até alcançarem minha nuca.  

Muitos arrepios.  

Ele levantou uma sobrancelha diante da minha mudez, a espera.  

— Gosta, Lia?  

Gostar, sim, essa era uma palavra adequada, embora insuficiente, para o que estava acontecendo. Sua mão acompanhou a curva do meu crânio para se fixar em meu couro cabeludo, e, se houvesse alguma resistência em minha postura, acabara de cair por terra. 

Movi a cabeça em um sinal positivo, leve demais para a consistência real de um corpo.  

— Vou te te fazer perguntas simples em situações comuns. Você não terá nenhum problema com elas — Mas é muito convencido mesmo esse... ele inclinou minha cabeça para o lado, expondo meu pescoço — Você usou algum perfume hoje? — Afundou-se ali, inspirando minha pele.  

Eu não sabia que um coração podia bater tão rápido assim.  

— Passei — respondi rápido, sentindo que perdia o fio da meada.  

— Percebo — seu hálito contra meu pescoço me fez tremer, mas eu estava atordoada demais para me sentir envergonhada. Ele passava a ponta do nariz por toda a região, como se pincelasse o caminho da perdição — Eu gostei, mas devo admitir que prefiro o Girlfriend — ouvi seu sorriso — De onde você vem?  

 Agora seus lábios roçavam minha pele ligeiramente, o suficiente para me fazer cócegas, se é que eu poderia chamá-las assim. Ele subiu e desceu duas vezes, feito um inspetor de essências.  

— Preciso repetir a pergunta? — Sua voz soava inadequadamente quente — Talvez precise reformular: onde você nasceu? — O movimento que a boca fazia para falar simulava beijos tão desejados e esperados. Uma forma muito eficiente de tortura.  

— São Paulo — falei num impulso, apressada como se a palavra pudesse escapulir de mim num momento de descuido.  

— Interessante... E em qual ano isso aconteceu? 

Eu precisava me apegar em algumas das letras se não queria passar vergonha.

Mas... por que passaria vergonha?  

— Isso? 

— Em que ano você nasceu? — Logo já apresentou sua cartada, firmando os lábios no meio do trajeto, depositou um beijo meticuloso e lento ali.  

Derreti completamente ao passo que ele não teve problemas em inclinar minha cabeça para trás e transitar com o suplício embaixo do meu queixo.  

— 1994? — Supôs.  

O que queria dizer 1994?  

— Sim — murmurei sem pensar.  

Em um gesto de pura covardia, ele riu contra minha pele.  

— Achei que você fosse três anos mais nova do que eu.  

Ah... 

— Claro.  

Mais uma risadinha e subiu para beijar meu queixo.  

— Quantos anos você tem, afinal? 

E subindo de novo, agora em direção a minha orelha, deixando minha boca formigando para trás. Perto da ponta, me retraí instintivamente, alertada da sensibilidade do local. Ele continuou avançando até que atingisse o ponto e o repuxasse com uma leve mordida. Leve para ele, catastrófica para mim. Minha pele se arrepiou de tamanha forma a ponto de doer..

Justin Bieber, eu nunca imaginei que você pudesse ser tão... tão... tão baixo!

— Qual é, Lia, eu praticamente te dei a resposta — praticamente sussurrou em meu ouvido.  

Só aí percebi que cravava minhas unhas nas palmas, enquanto a outra mão apertava a sua. Eu precisava puxá-lo mais para mim.  

Sem resposta aparente, seu calor se afastou de mim, mas ainda levei dois segundos para abrir os olhos sem saber que os havia fechado. Ele estava bem ali a dois centímetros do meu rosto. Seus olhos ardiam quase tanto quanto meu peito, envolvendo-nos numa bolha abrasadora.  

Deslizando por minhas costas, sua mão alcançou minha cintura até encontrar o fecho do cinto, enquanto a outra retornava às carícias em meu rosto. A mandíbula dele estava tensa e proeminente, um exagero para sua figura já tão irresistível.  

Quando eu já estava liberta do cinto, segurando a base das minhas costas, ele me puxou mais para perto. E eu tentei com todas as minhas forças inexistentes permanecer imóvel até que ele entreabriu a boca rosada. Tomei seu rosto em minhas mãos e o beijei num impulso só. E, bem como ele parecia querer, já não pensei em mais nada, não lembrei de mais nada que não fosse ele. Ele e sua boca gentil e carinhosa, ele e todo seu abraço que me puxava cada vez mais para perto, ele e sua essência inebriante que me absorvia sempre que estávamos juntos. Ele me beijava, mas apreendia parte de mim no processo. Se eu estivesse com o mínimo de consciência talvez me preocupasse com o que sobraria de mim se continuasse nesse ritmo.  

Não resisti a morder seu lábio inferior para me afastar, entretanto, ele avançou, puxando meu queixo para dar seguimento ao beijo com um pouco mais de urgência. Estremeci assim que passou por baixo de minha blusa, encontrando a pele das minhas costas com propriedade.  

Respirar nunca parecera tão supérfluo naquele instante, até que minha tontura estivesse acentuada demais. De mal grado, refreei minha ganância e tentei me distanciar o suficiente para tomar ar. Dessa vez ele permitiu, tão ofegante quanto eu. 

Mantive meus olhos cerrados para perdurar a sensação extracorpórea. Percebi quando sua testa se apoiou na minha e me contentei em manter aquela proximidade.  

— Não precisei nem chegar a parte do nome — disse ele com uma rouquidão exagerada, sem duvidas muito realizado com o feito.  

Fiz uma careta de reprovação para mim mesma. 

— Eu não saberia mesmo — admiti, decepcionada. Ele provavelmente já sabia, não adiantava esconder. 

Seu dedão fez círculos na maçã do meu rosto, carinhosamente.  

— Eu também esqueci o que precisava perguntar — confessou.  

Um sorriso espontâneo se espalhou minha face e precisei abrir os olhos para vê-lo. Ele me direcionava a mesma espécie de sorriso. E naquela breve troca de olhares, meu pobre e jovem coração emitiu um clique. No momento seguinte eu estava em queda livre no precipício.  

— Afinal, é isso que você quer? Que eu me esqueça de quem eu sou? — Questionei, intimidada pelo grande nada no qual deslizava.  

Ele não pensou antes de responder.  

— Não, Lia. Eu quero quem você é.  

As vespas de outrora pareciam ter descido a meu estômago, batendo suas asas num frenesi infinito.  

Encolhi-me com a sensação esmagadora.  

— Você não pode ficar dizendo essas coisas.  

Ele vincou o cenho de leve.  

— Não posso evitar de me expressar.  

Suspirei, talvez não fosse o que eu estava pensando. Há mais de uma forma de querer alguém. Não precisava necessariamente ser naquele sentido arrebatador. Da mesma forma, eu não podia evitar de pensar.  

— Você viu a matéria do TMZ? 

A menção a revista fez com que ele afastasse a testa da minha. Linhas de desconforto distorcendo seu semblante. O espaço, ainda que mínimo, me recobrou parte da consciência.  

— Eles nunca perdem uma oportunidade de me alfinetar. Sempre quis saber quem são as “fontes próximas”.  

Mordi a boca, entalada com o teor da pergunta que queria fazer.  

— Fani também viu. Ela ficou preocupada — e eu também, acrescentei mentalmente — e me pediu que suspendesse nosso contato — revelei, falando cada vez mais baixo.  

Justin umedeceu os lábios, ficando um pouco mais sério. Será que ele fazia ideia de como aquilo destoava meus batimentos?  

— Suponho que não seja o que você quer. 

Dei de ombros, uma indiferença completamente deslocada para minha preocupação atual.  

— Eu estou aqui, não é? Aliás, menti para ela. Falei que daria uma volta com a Lara no centro.  

O fantasma de um sorriso aliviou seu semblante.  

— E Lara sabe disso? 

— Sabe.  

— Imagino que seus pais não? 

— Correto.  

— Hm... — ele contraiu os lábios e o cenho, pensando. Estressei, todas as suas expressões tinham que ser atraentes? — E nós estamos nos direcionando a pontos turísticos super movimentados. Não acho que sua mentira vá durar muito.  

A luz vermelha para afivelar o cinto se acendeu. Já estávamos prestes a aterrissar. Quase choraminguei por ter que me endireitar no banco para isso. Depois de prender o próprio cinto, Justin entrelaçou os dedos nos meus outra vez — mais festa aos meus hormônios.  

— Eu não sou muito boa em mentir — admiti. Quando saísse notícias de que eu estava com ele, Fani faria churrasquinho de mim. Eu não havia gastado muito tempo pensando nisso.  

— E seus pais acham que você está onde? — Indagou, quase rindo.  

— Com ela.  

— Bom... Se você quiser, não precisamos ir a lugares movimentados. Eu te disse ontem. Conquanto esteja com você, não me importa o destino.  

Mias um clique no meu peito. Eu devia ser mais rígida com ele e pedir que parasse logo com aquela bipolaridade.

Respirei fundo.  

— Eu sou uma idiota — por várias razões, querida —, mas realmente quero conhecer a calçada da fama e a placa de Hollywood. Vou lidar com as consequências depois — não foi isso que eu combinamos de dizer, Júlia. 

Até eu mesma percebi quão falível aquele plano era depois de me ouvir e devo ter feito uma careta por isso.  

— Você pode mudar de ideia quando quiser. Está arrependida? 

Baixei o olhar para nossas mãos juntas, uma imagem não exatamente escandalosa, mas que me dava calafrios, quase calando a voz da razão.  

— Deveria estar? — Perguntei baixinho, covarde o suficiente para tanto. Não conseguiria lhe perguntar se ele estava brincando comigo, ou ao menos encará-lo.  

— Não posso dizer como você deve se sentir, mas posso tentar impedir que se arrependa. Alguns riscos valem a pena ser corridos.  

Risco, sim, parecia uma boa palavra para defini-lo. E pelo que parecia, um que eu estava mais do que disposta a correr. Diria que até ansiosa para isso. Podia valer a queda depois? Quando meus ossos frágeis finalmente dessem de encontro com o solo duro e infértil?  

O modo como meu sistema se recusava a cogitar o “depois” podia ser minha resposta. Rendida ao inevitável, desviei em partes o assunto: 

— Qual era a pergunta que você queria me fazer sobre o livro? — Ou aquela era minha maneira inconsciente de moldar os resultados.  

A pressão em meu ouvido me lembrou da aterrissagem e eu apertei com um pouco mais de força a sua mão. Percebendo minha inquietação, ele deslizou o dedão pelas costas da minha mão e segurou meu queixo para voltar meu rosto para si. Uma distração muito certeira contemplar sua face tão de perto, as sobrancelhas escuras que chamavam atenção para seu olhar colorido de mel, o nariz reto entre as bochechas rosadas, a boca compacta tão chamativa e a pintinha preta ali perto contra a pele de porcelana. Um rosto digno de exposição, que podia lhe dar o título de deus da beleza na Grécia antiga. Afrodite não tinha nem chance contra sua magnificência.  

Ele quase quebrou o encanto com as próximas palavras:  

— A motivação de grande parte, se não todas, as escritoras de fanfics parte de um desejo próprio e pessoal. Foi assim com você também? Você queria se imaginar vivendo um romance comigo? — Perguntou, presunçoso.

Pega no pulo! 

Gelei enquanto tentava manter a plenitude. Gritos internos de quem foi flagrada. Pensei rápido.  

— Essa é uma fala de Josh para Heloísa. Você realmente está lendo! — Elogiei, esperando desviá-lo.  

Ele levantou uma sobrancelha.  

— O que minha palavra é para você? Uma piada? E você já está corando, então tenho minha resposta — passou o dedo de leve na minha bochecha, animado.  

O comentário só serviu para o rubor se intensificar.  

— Na época eu não tinha nada melhor para pensar — respondi rabugenta.  

Seu queixo caiu de indignação e eu ri.  

— Claro que não tinha, já que você não me conhecia pessoalmente precisava viver da ficção — deu a volta por cima — Por isso me sinto na obrigação de te provar uma coisa.  

Revirei os olhos para amenizar a verdade.  

— O que? 

— Que eu beijo muito melhor do que você podia prever.  

E sem outro aviso, encostou nossos lábios. Ele não precisava ao menos se esforçar para me provar aquilo, portanto, com o dobro da dedicação, corri sérios riscos de entrar em combustão espontânea. Começou lenatamente, com pequenos selinhos que repuxavam meu lábio e minha alma. Depois, intensificou-o com a língua sorrateira e quente enquanto acariciava meu rosto com o dedão.  

Gradualmente, o contato se tornou mais urgente, e, sem interromper  o beijo, ele nos libertou de nossos cintos para puxar minhas pernas para o meio das suas, estreitando nossa distância. Abraçou com firmeza minha cintura por baixo da blusa, arrepiando todos os fios existentes em meu corpo, e me puxou bruscamente para junto de si, de modo que quase acabei sentada em seu colo.  

Todo o processo parecia ter estourado as minhas veias uma por uma, e o sangue se bombardeava quente contra minha pele sem controle. O calor foi capaz de derreter meus ossos até que eu me transformasse numa massa de gelatina. Agarrei seu cabelo macio para que não sucumbisse e me deixei ser abraçada contra seu peito sólido.  

Quando sua boca me libertou, caí praticamente sem vida em seu ombro, completamente desnorteada. Justin riu com encanto, abraçando-me com mais firmeza.  

— Consegui superar suas expectativas? — Indagou sem fôlego.  

Não havia palavra alguma em meu vocabulário, então produzi um ruído de apreciação no fundo da garganta.  

Ele riu de novo, acariciando meus cabelos.  

— Vou levar isso como um sim.  

Quase precisei ser carregada para fora do jatinho, meu coração ainda batia frenético no peito e as pernas permaneciam sem forças. Precisei de ao menos 10 minutos para conseguir retornar todo meu espírito ao corpo, e ainda assim, não me sentia eu mesma, tão leve que poderia estar flutuando outra vez.  

Patrick nos esperava na pista particular com um carro próprio, assim, estávamos nós dois sozinhos outra vez em seu carro até nossa primeira parada, a calçada da fama. O espaço compacto me deixou ansiosa, mas Justin não teve dificuldade de monopolizar a conversa, relatando com empolgação a primeira vez que ele havia conhecido Los Angeles, com Scooter como seu guia.  

— Eu sempre quis meu nome na calçada da fama de Hollywood. Na verdade, ainda quero — comentou ao estacionar no estacionamento subterrâneo — Você sabe que tenho uma em Stratford, Canadá e Wembley, Londres?  

— Sei de Stratford. Mais do que merecido — respondi, desafivelando o cinto. Ele piscou para mim sem misericórdia.  

Descemos ao mesmo tempo e eu expirei, finalmente prestando atenção nos meus nervos. Mais uma vez estaríamos em público, e depois daquela repercussão do dia anterior, eu só conseguia pensar no pior.  

— Ei — ele alcançou minha mão, buscando meus olhos — Tem certeza disso? Se você estiver com medo, te levo para outro lugar.  

Mordi a boca e assenti.  

— Eu quero estar aqui.  

Justin sorriu de lado e afagou brevemente minha bochecha.  

— Qualquer coisa você me avisa.  

E assim que ele soltou minha mão perdi parte considerável da coragem. Agarrei-me a minha teimosia e o segui. Eu não morreria por uma caminhada banal na calçada. Pensei.  

Como em Venice Beach, Patrick andou na nossa frente. Fiquei um pouco mais aflita quando constatei que a calçada da fama era, de fato, só uma calçada comum onde as pessoas transitam livremente, sem nenhuma espécie de grade que isolasse o local. O que eu estava esperando também? Burra. A sensação era de caminhar na 13 de Maio com estrelas cor de rosa desenhadas no chão. O comércio local rodeava os transeuntes, com barriquinhas e lojas bem ordinárias — com exceção de algumas marcas famosas —, para ser honesta. O patriotismo dos Estados Unidos o glamouriza mais do que ele oferece de fato.  

De qualquer forma, eu reconheço a fantasia que assola o local, um mundo de sonhos pipocados na realidade cotidiana. Justin apontava para os nomes aos nossos pés e comentávamos brevemente sobre eles quando eu não estava bisbilhotando as lojinhas em volta. Diverti-me com tantas bugigangas e aproveitei para comprar alguns para os meus.  Isis adoraria o troféu de estrela como de Sharpay em HSM e Danilo faria bom proveito da miniatura de Kong. Mostrar os presentes ajudaria na hora que eu fosse responder as mensagens e ligações ignoradas do dia anterior. Eu esperava.

Fiz o máximo que pude para ignorar os olhares escancarados das pessoas que reconheciam meu cantor preferido e, na maior parte do tempo, ele fez o mesmo, fingindo não ouvir os chamados. Patrick auxiliava, detendo-os de uma aproximação maior. E eu tentei não ter um ataque de nervos cada vez que via uma câmera voltada em nossa direção — mas mantive o rosto abaixado estrategicamente em todas elas.  

Haviam personagens transitando em meio ao povo e eu apontei quando vi Darth Vader.  

— Lara morreria com esse. Ela tem uma estranha obsessão com Guerra nas Estrelas.  

— Você deveria tirar uma foto para fazer inveja. Ei, amigo! — Ele levantou a mão, chamando o fantasiado.  

— Justin! — Tentei repreendê-lo, tarde demais.  

— Uma foto com ela, por favor? — Pediu assim que o personagem se aproximou trajando sua capa e capacete bizarro.  

— Claro, baby, baby — o homem respondeu, com a voz grave e tudo. 

É claro que Darth Vader reconheceria Justin Bieber. Nós rimos e eu me apressei para a foto. Quanto mais rápido acabasse, melhor. Apontei para o encapuzado com um sorrisinho e Justin bateu a foto do próprio celular.  

— Vamos nós dois? Ou você me teme? — Perguntou o homem com muita sagacidade.  

Darth V — para os íntimos — me passou seu celular — uau a galáxia está muito evoluída — e eu fiz as honras.  

Aquele curto espaço de tempo foi o suficiente para atrair uma rodinha de espectadores. A maioria meninas trêmulas e chorosas esperando uma oportunidade para seus retratos, e não era com o homem da espada espacial. 

— Justin, por favor! — Pediu a ruiva sardenta de um metro e meio. Ela mal conseguia segurar o celular na mão, amparada por sua amiga minimamente mais estável de cabelo preto preso num longo rabo de cavalo. 

Fui tomada de misericórdia e olhei para ele compreensiva. Eu sabia que eu era um agravante para sua falta de atenção com as fãs e não achei totalmente justo da minha parte. Ele inclinou a cabeça para mim numa pergunta silenciosa e eu assenti.  

A concessão para um par de fãs levou a obrigação de tirar com mais sete pelo menos ao passo que repetia as palavras decoradas: 

— Muito obrigado. Eu aprecio muito isso. Se cuide — com aquele sorrisinho amável compassivo que despertava muito meu lado Felícia.  

Observar as fãs transbordando de felicidade por ter apenas cinco segundos com ele me fez pensar quão insana era a experiência de tê-lo como meu guia turístico, tão abençoada por ter mais tanto tempo de sua atenção, e quão pequeno parecia esse tipo de sentimento para o que eu tinha agora. Não que eu o amasse mais do que todas elas, mas agora eu tinha mais motivos para tanto. E isso era assustador. Ele estava mais enraizado em meu material genético do que nunca.  

Pude perceber, também, o tanto de orgulho que me trazia uma simples criatura como aquela. Flagrando meu olhar, ele sorriu pra mim, ali bem escondida ao lado de Patrick, fingindo que estava invisível. E, milagrosamente, não o estava para ele.  

Nesse momento, ele dispensou o restante e Patrick tomou a frente de novo, pedindo espaço.  

— Se eu não saísse ficaríamos presos ali para sempre — justificou-se — E eu comprei ingressos para visitarmos o museu de cera e o de Hollywood — bateu no bolso, orgulhoso de si mesmo.  

Juntei as mãos ao lado do corpo, resistindo ao impulso de abraçá-lo.  

— Você é inconvenientemente adorável! — Grunhi e ganhei uma demonstração facial do argumentado.  

Alguns passos a frente estava o museu de cera. Eu mal esperei que ele entregasse os ingressos e já corri para minha primeira vítima, Vin Diesel. Resisti o impulso de encostar na careca brilhante, chocada com a fidelidade à realidade. E então, mais a frente estava a representação de Zac abençoado Efron. Eu juro que tive um pequeno enfarto antes de perceber que era só o boneco. Soltei um gritinho e corri em sua direção.  

— Foto, por favoooor! — Pedi a um Justin risonho que logo fingiu uma careta.  

— Preciso estar enciumado?  

Eu ri, controlando a histeria.  

— Não se esse não for o de verdade — brinquei.  

Ele me fuzilou com os olhos.  

—  Só por isso não apresentarei você pra ele.  

Não me deixei cair no golpe. Justin não podia ter o contato de Zac Efron. Até onde eu sabia. 

Pouco mais a frente eu dei um pulo.

— Ah!

Mais uma mini corrida em direção a um boneco de cera um pouco menor do que seu paradigma, trajando uma calça e tênis preto, colete e gravata dessa mesma cor e camisa social branca. Os traços apenas tentavam imitá-lo. O artista deve ter admitido que era impossível reproduzir tamanha divindade. Entretanto, eu devia dar os créditos pelo cabelo. Na cor certa de ouro, cortado de sua tigelinha original para uma singela franja. Justin Bieber de 2011.  

— Quão adorável é essa coisinha! — Exclamei, apressando-me para o lado do boneco.  

Patrick estava mesmo rindo e se eu não o conhecesse um pouco, diria que Justin se acanhava.  

— Você se lembra de como era ser a pessoa mais doce do mundo?! — Provoquei-o, abraçando sua réplica.  

Ele mostrou a língua, parando de braços cruzados em frente a minha cena.  

— Patrick, por favor me fotografe com essa espécie em extinção — estendi meu celular para o segurança.  

Fiz minha melhor pose de fã emocionada agarrada ao seu ídolo para o divertimento dos dois. Justin não me enganava com sua pose de marrento.  

— Venha tirar uma com ele também, Justin, não é todo dia que encontramos o Biebs.  

— Há há, engraçadinha. O deboche não lhe cai bem. Posso te provar agora mesmo o quanto você prefere esse de carne e osso — direcionou-me uma piscadela sedutora, apontando para o próprio corpo.  

Esbocei tédio, encarando-o sem emoção, como se não percebesse o calor que me tomou.  

— Eu não trocaria o Drew por você — insisti.  

Justin olhou para os lados, reparando propositalmente nas pessoas que o rodeavam como tubarão em torno de carne fresca.  

— Não me provoque, Lia — Deitou a cabeça com um sorrisinho tão adorável que se tornou a maior ameaça que recebi na vida.  

Para não perder a pose de bandida, virei as costas como uma esnobe seguindo para o próximo boneco de cera. Pude tirar fotos com Demi Lovato, Will Smith, Lady Gaga, Taylor Swift (Justin torceu o nariz nesse e eu fingi que não vi), passei reto no das irmãs Jenner e fiz outro mini escândalo para meu tão adorado Capitão América, no qual Patrick e Justin trocaram um olhar de incompreensão. 

— Você não devia ficar tão surpreso assim por não ser o único artista que eu lamberia o chão para passar, é muito desumilde da sua parte — censurei-o.  

Seus dentes faiscaram.  

— Você lamberia o chão para eu passar?  

 Alguém por favor coloque uma tranca na minha boca?! 

Reconheci por minha visão periférica a escultura de Selena Gomez, e, em solidariedade, ignorei-a decididamente. Também não quis olhar para a expressão dele e testemunhar seu desconforto, já devia ser bem difícil se sentir assim. Mas, no fim, eu podia jurar que ele o transmitia por forças magnéticas para mim, tão forte era seu sentimento. Para dissipar a névoa de puro desalento, demonstrei muito mais energia com a representação de Beyoncé do que teria feito. 

Sem novos incidentes, ele me acompanhou pelo restante do museu, fazendo comentários bastante críticos para as réplicas, me provocando risos ainda que eu não o compreendesse algumas vezes. Cheguei a imaginar que estivessem jogando alucinógenos pelos dutos de ar. Não podia ter tanta graça assim.  

Ou talvez eu só estivesse cada vez mais feliz e precisasse externar todo esse sentimento.  

Meu abdômen terminou a exposição dolorido.  

— Você não acha que é muito duro com as pobres criaturas de cera? — empurrei seu ombro, implicando com ele.  

— Se você visse essas pessoas pessoalmente concordaria comigo.  

— Entendi, sabichão. Mas você deve entender o quanto é complicado esculpir pessoas assim.  

Ele colocou as mãos no bolso, seguindo pela calçada. Deu de ombros.  

— Eu poderia te desenhar.  

Cruzei os braços, de imediato retraída com a ideia dele enxergando todos os meus detalhes — cof cof defeitos.  

— Não confia em mim? Vou te provar. Você será minha modelo qualquer dia desses e não aceito não como resposta. 

— Hã... — eu busquei palavras atrás do choque momentâneo.  

— Ali está o Museu de Hollywood — apontou — Prometo me comportar melhor nesse.  

Era mentira.  

— Você já percebeu o quanto o ser humano exalta coisas sem a menor relevância? — Ele apertou os olhos para a vitrine, crítico.  

Do outro lado, um jornal amarelado noticiava a morte de Marilyn Monroe. 

— Com uma simples pesquisa no Google descobrimos quando, do que e onde ela morreu.  

Deixei meus ombros caírem.  

— Aham, e você acha exatamente isso sobre todos aqueles carros cinematográficos? 

— São objetos distintos — defendeu-se — Mas não é quem os usou e para o que foram usados que os torna especiais. É o fato de serem únicos. E não precisavam ser.  

— Você não pode realmente achar que nada disso é especial — discordei, descrente, gesticulando com as mãos a nossa volta. 

— Veja bem, é claro que tem coisas legais, mas meu ponto é sobre a valoração de algo por nenhuma razão relevante. Esse vestido azul — indicou para a redoma ao lado — nem é bonito o suficiente para estar aqui, mas todos acham emocionante admirá-lo porque Marilyn usou. Meu tênis, por exemplo — levantou o pé para colocá-lo em destaque — se eu quisesse poderia leiloá-lo ou expor num museu em Stratford só porque eu usei. E para mim isso não faz o menor sentido. No fim, pertenciam apenas a pessoas com habilidades comuns.  

Coloquei as mãos na cintura, indignada.  

— Você acha suas habilidades comuns?! 

— Lia, existe muita gente por aí que sabe cantar e dançar.  

— Mas você não se resume a isso — insisti — Você não tem fãs por todo esse tempo “só” porque canta e dança. Sua voz por si só já é extraordinária, claro, e não, ninguém pode cantar como você — acrescentei antes que protestasse — Mas é esse combo do jeitinho extrovertido, o sorriso fácil e contagiante, o cabelo e olhos brilhantes e sem dúvida muita lábia. Parece que você foi feito para atrair pessoas.  

Justin ergueu as sobrancelhas para mim, repuxando os cantos da boca.  

— Por favor, continue enumerando as razões pelas quais te atraio.  

Ugh, e lá estava eu me denunciando outra vez.  

Balancei a cabeça, grunhindo.  

— Você é muito atentado! — Reclamei.  

Ele piscou os olhos feito criança.  

— Essa é uma de minhas muitas habilidades que te fazem ser atraída por mim? — Perguntou, se divertindo bastante às minhas custas.  

— Só não te desço o tapa porque viraria notícia polêmica no TMZ.  

Justin gargalhou, jogando a cabeça para trás e eu disfarcei minha própria risada, envolvida pelo som adorável.  

Meia hora depois, já havíamos terminado a visita. É claro que documentei tudo em fotos para mostrar à Lara posteriormente, levando o encanto dos trajes cenográficos nas vitrines, objetos consagrados e os próprios ambientes preparados para nos introduzir aos cinemas. 

Na saída ainda ganhei um churros com sorvete de chocolate, como se Justin precisasse se esforçar muito mais para cair nas minhas graças. 

— Então vocês não tem esse doce no Brasil?  

Confirmei, tomando muito cuidado ao lamber o sorvete para não pingar no seu carro caro. Coloquei uma mão em concha embaixo do queixo como prevenção. Meu corpo emitia pequenos tremores pelo frio que o doce agravava. Não estava exatamente calor para tomar um sorvete. 

— Churros sim, agora churros com sorvete para mim é novidade. 

— E gostou da combinação? 

Embora molhasse a massa do churros, o que a deixaria encharcada se não ingerido rápido, eu não podia negar a satisfação de uma boa junção de ótimos doces como uma formiga nata. 

— Perfeita! Não há nada que chocolate não transforme em perfeição. 

— Hmmm – ele me analisou de rabo de olho — Concordo. 

Uma sútil referência a minha cor de pele, pelo que pude perceber. Enfiei a cara no doce, sem graça. A grande quantidade de sorvete ingerida me fez estremecer. Justin reparou nisso e aumentou o aquecedor do carro. Eu o vi abrindo a boca para fazer algum comentário, o sorriso travesso já pronto no rosto, mas desistiu no meio do processo, refreado pelo filtro da decência, imagino.  

— Vou te dar algumas opções, Lia. Para visitar a placa de Hollywood de perto precisaremos fazer uma trilha de aproximadamente dez quilômetros. Se quiser uma vista razoável, seguimos de carro até o Lake Hollywood Park. Ou então, uma viagem de helicóptero para a vista privilegiada. O que você prefere? 

— Bom, nós sabemos que eu não vou querer ir de helicóptero — falei ao passo que ele sorriu. Não se tratava apenas de confiar menos na geringonça de um helicóptero do que num avião, mas também da dificuldade que seria a comunicação com ele durante o passeio —, não temos muito tempo para uma caminhada de dez quilômetros, então por eliminação, Lake Hollywood Park.  

Ele assentiu.  

— Certo. Também não achei que você aguentaria uma caminhada dessas — atiçou-me.  

Engoli mais um pedaço da massa de churros — quase me derretendo com a maravilha — e levantei um dedo de alerta.  

— Respeita minha história! Sou a maior fã de caminhadas que você deve conhecer.  

Justin arqueou uma sobrancelha para mim.  

— Topa o desafio então? Depois de visitarmos todos os principais pontos turísticos, retornarmos para uma trilha a placa de Hollywood?  

Concordei, destemida.  

— É claro. E se prepare porque você vai ficar para trás.  

Ele balançou a cabeça discordando. Como paramos no sinal vermelho, aproveitou para dar um rápida varrida em mim com o olhar.  

— Suas perninhas não vão te levar muito longe, provavelmente terei que te carregar no colo — piscou.  

É claro que ele não precisava saber que eu preferiria mil vezes ser carregada no colo por ele do que fazer qualquer outra coisa, então fingi uma careta.  

O parque era apenas a alguns minutos da calçada da fama. Estacionamos nas vagas ao lado da placa que recebia os visitantes. Como qualquer outro parque natural, ele se apresenta como um campo aberto de grama bem aparada, árvores esparsas e grandes em seus arredores, e adiante, dava visão para as montanhas que abrigavam o grande e famoso letreiro branco de Hollywood.  

Eu arregalei os olhos de empolgação para meu guia turístico.  

— Vamos lá te garantir uma foto — disse ele, já descendo do carro.  

Não escapamos de olhares e burburinhos ali também, como esperado, o espaço era razoavelmente movimentado pelos turistas e possíveis nativos, quase tão curiosos com o cantor ao meu lado quanto com a placa. Patrick assumiu nossos flancos e Justin apontou a frente. Em alguns momentos eu ficava desconfortável por deixá-lo excluído, mas o homem conseguia se camuflar.

— Vamos ao mirante principal, para chegar mais perto.  

 A nossa volta, nem todos seguiam para a leve inclinação com a melhor vista do letreiro, espalhavam-se pelo gramado para fazer piqueniques, brincar com cachorrinhos, fazer caminhadas ao ar livre, ou apenas deitar na grama para conversar. O vento trazia toda aquela sensação de leveza e alienação aos problemas do cotidiano, onde a alma descansa e os risos ficam mais fáceis. Só de estar ali eu me sentia ainda mais distante de qualquer conflito, apenas grata por ter aquele limbo de tempo para apreciar e vida florescer.  

— Não é possível que você não visitou o Cristo Redentor — Justin comentou indignado.  

Dei de ombros.  

— Não foi por falta de vontade, eu só não tive oportunidade mesmo.  

— Mas você já foi ao Rio de Janeiro  — certificou-se.  

— Ah sim, fui. Visitei algumas praias. Passei perto de onde você pichou, foi emocionante.  

Ele riu, revirando os olhos.  

— Eu tive autorização para aquilo.  

— Parece que não da pessoa certa se isso te rendeu um processo, hein?  

— Processos não são justos as vezes, Lia.  

Perdi o passo e estagnei para fitá-lo. Quase havia me esquecido que ele estava me processando. Aquele comentário podia significar que mudara de ideia? A criatura não me deu mais informações, limitou-se a sorrir e continuar andando. Retomei a caminhada com hesitação. Ensaiei várias formas de fazer a pergunta e todas elas pareciam inadequadas. Se ele estava a caminho da luz, temia tirá-lo de lá com qualquer pressão.

Suspirei. Por hoje eu o privaria. Talvez ele estivesse esperando terminar de ler o livro, e aguardar mais um pouco não poderia piorar a situação. Provavelmente.

Após a leve subida, estávamos no referido mirante principal. Nada a mais do que a continuação do campo aberto, um pouco mais acima do nível que havíamos chegado. Arfei. De fato, o letreiro estava mais próximo e visível ali, imponente entre as montanhas, um dos pontos altos dos Estados Unidos. Parecia tão importante que eu sentia a necessidade de interagir com ele de forma mais concreta, além de olhar. Alguns dos transeuntes aproveitavam para registrar o momento, mas não estava tão cheio quanto imaginei.  

Assim, não tive que esperar para conseguir um bom ângulo. Justin encarnou o fotógrafo Fredo, o baixinho de olhos puxados que o acompanhou na carreira — será que ele se importaria e nos apresentar? — e me orientou a melhor posição, ajustando a altura do celular. Fiz o sinal da paz e mostrei a língua para uma foto extrovertida — não sem ficar tímida por estar sendo fotografada.  

— Tire uma nossa, Patrick, por favor — ele passou seu celular ao segurança e veio para o meu lado.  

Enrijeci, sem saber que tipo de pose deveria fazer. Contudo, ele não hesitou, passando um braço ao redor da minha cintura e sorriu para a câmera. Não era nada demais, certo? Uma foto comum com uma fã comum. O que representava para mim não importava a ninguém.  

E antes que as pessoas hesitantes diante de nós tomassem coragem para se aproximar e solicitar atenção, nos direcionamos ao canto mais extremo do parque, adentrando entre as árvores. Ali a temperatura parece ter descido mais um grau, o ar úmido e mais gelado acariciando a pele do meu rosto e me obrigando a cruzar os braços.  

— O que as pessoas devem estar pensando com nosso isolamento por aqui? — Indaguei, nervosa ao cogitar minhas próprias respostas.  

— Eu sei o que nós devíamos estar pensando: em conseguir um pouco de paz. Devemos aproveitar também o fato de que ninguém te ligou ainda, te ameaçando para te ter de volta. 

Eu ainda não estava certa de que o silêncio era melhor do que o caos, nesse caso. Se eles já tinham visto alguma coisa e ainda não me contataram, deviam estar planejando muito bem minha exterminação.  

Então Justin repentinamente parou e sentou na grama, estendendo os braços para trás das costas e esticando as pernas. Fiquei segundos em pé, indecisa, até que ele olhasse para mim e batesse no chão ao seu lado.  

— Você não tem receio de sentar no chão, tem?  

Olhei para os lados, me certificando antes que não seríamos abordados por seus perseguidores nesse momento de vulnerabilidade. Estávamos sozinhos, distantes das conversas descontraídas dos outros frequentadores, ao nosso redor apenas o farfalhar de árvores frondosas. Até mesmo Patrick parara duas árvores atrás, de braços cruzados também estudando a segurança do espaço.  

Tudo bem. Sentei-me ali com as pernas cruzadas de índio, sem resistir a um espasmo quando o frio do solo ultrapassou o tecido da minha calça.  

— Você é um bom guia turístico — disse-lhe, arrancando pedacinhos da grama a minha frente com as pontas dos dedos distraidamente.  

 — Fico emocionado com o reconhecimento. Estou mesmo me esforçando — respondeu, humorado.  

— Me impressiona que tenha que se esforçar em alguma coisa, tudo parece tão fácil pra você — zombei, muito concentrada na carnificina que fazia.  

Ele fez um muxoxo.  

— Minha mãe sempre me dizia que eu sou uma pessoa que aprende rápido o que quer que seja.  

— Ah sim, aposto que desde o início você era aquela criança brilhante e curiosa — dei um sorrisinho ao me lembrar de suas fotos como bebê, aquelas bochechas fartas, os olhinhos brilhantes, o cabelo lisinho. 

— Acho que essa é a questão, eu sempre fui muito curioso. Dizem que a curiosidade matou o gato, mas aposto que ele morreu mais sabido do que os outros animais.  

Eu ri.  

— O que é melhor, ser burro e vivo ou inteligente e morto? — Meditei.  

Viver idiotices ou sucumbir na dúvida e falta de emoção?

Fui agraciada pelo som de sino de sua risada infantil.  

— Prefiro o meio termo.  

A movimentação ao meu lado indicou quando ele se deitou, e acompanhei pela visão periférica a cena. Com os braços atrás da cabeça, representava a personificação da boemia.  

— Suponho que você sempre tenha sido uma criança tímida, que não gostava de interagir com o mundo exterior e criava o próprio universo.  

— Não só quando criança — pontuei.  

— Certo — ouvi o sorriso na sua voz — E então você soube da minha existência e não pode me deixar de fora. 

— Você implorou pra entrar no meu universo — argumentei. 

— Ah é? Como?  

Senti-me inquieta por estar me privando de vê-lo e me voltei em sua direção, instantaneamente grata pela ideia. Ele parecia muito confortável ali, com um semblante de visível sossego enquanto me encarava. Despertava a vontade de juntar-me a ele.  

— Com suas músicas, claro.  

— Claro. Preciso compor uma agora para pedir que se deite aqui comigo? — Estendeu-me a mão.  

Não deixei a histeria se sobressair a minha risada. Mal sabia ele que sem o convite eu já estava tentada. Assim, fui obrigada a aceitá-lo.  

— Se você se comportar — apresentei a condição, mas já havia pegado sua mão, no meio do trajeto de recostar ao seu lado.  

Não satisfeito, ele abraçou minha cintura, puxando-me para cima do seu peito. Não resisti, aconchegando-me ao calor do seu corpo, deitando a cabeça na região de sua omoplata.  

— Eu sou a pessoa mais comportada que você já viu.  

Ele estreitou o abraço em minha cintura e suspirou. 

Dali, eu sentia sua respiração soprar acima da minha cabeça e o leve esforço do peito para viabilizar a função. Percebi que até o som de sua respiração soava como música aos meus ouvidos. E não uma música qualquer, aquela que tem a melodia pegajosa, que te faz apaixonar nos primeiros segundos e faz falta a cada momento em que não é reproduzida, que parece conversar com todos os músculos do seu corpo e reconforta em todos os momentos.  

Concluí que o Justin não é apenas um cantor, ele é a própria música, e eu queria, desesperadamente, que fosse minha trilha sonora.  


Notas Finais


UAU ISABELLE COMO VOLTASTES RÁPIDO
SIm, eu voltei! Para isso, sacrifiquei minhas aulas da pós esses dias (ka ka a irresponsabilidade), pulei um capítulo da outra história que posto (pai eterno ) e tudo isso pois tinha que presentear alguém ajakakka AGORA voltamos ao normal. E eu também atrasei muito da última vez, né, mais do que merecido pra vocês!
Agora tentarei voltar ao menos daqui duas semanas.

Como vocês estão?

Obrigada pelas leituras, comentarios, corações! Espero mesmo que tenham gostado desse capítulo. A cada capítulo estou mais insegura com a história, é isto kakakakaka
ENFIM

um beijo <3

ps: e por falar em trilha sonora nossa playlist segue linda. Esse capítulo é pra ouvir a partir de Dive, do Edzinho: https://www.youtube.com/watch?v=Wv2rLZmbPMA&list=PLd-aXQ964B6si9QL9ho3HyXU2U6stzLBE&index=7


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...