História Livro 01: Gritos de Guerra. - Capítulo 1


Escrita por:

Postado
Categorias World of Warcraft (WoW)
Visualizações 1
Palavras 8.219
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Magia, Mistério, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Prólogo.


Parte 01: Silêncio.

Um grande pilar de luz esverdeada brilhou no horizonte, seguido de um estrondo que sacudiu a terra.

- Se esconda é uma ordem!

Essa foi à última coisa que escutou de seu mestre.

- Mestre! - Gritou. - Mestre!? - Mas nenhuma voz veio em resposta.

Sem a presença de seu mestre em sua mente, o servo se sentiu só, perdido, vazio. Depois de tanto tempo juntos, sim, parecia que ambos já possuíam aquele vínculo há meses, anos, décadas até. Mas agora, havia apenas o silêncio em sua mente.

Sem saber o que fazer devido não ter mais alguém para lhe comandar, o servo decidiu acatar a última ordem de seu mestre e procurou se esconder.

A princípio, se perguntou como faria a tarefa, por um tempo passou a caminhar e observar o melhor lugar para se esconder. Primeiro, viu um grupo de rochas que estavam juntas de forma a formar uma pequena cobertura, mas logo descartou a ideia de se esconder ali visto que não ajudaria em nada a esconder seu corpo por inteiro. Em seguida viu inúmeros arbustos feitos de some-folhas, mas mesmo sabendo que apesar do cheiro forte da planta ajudar a encobrir o seu próprio cheiro, ficar em um terreno baixo não era o lugar ideal. Depois viu o lago a distância, sabia que o mesmo não poderia lhe matar, mas as coisas que viviam nele talvez conseguissem. Por fim, ao longe, viu uma enorme árvore, enorme o suficiente para ver do próprio lago, e por alguma razão sabia que ali seria o lugar perfeito para se esconder.

Logo começou a correr para não perder mais tempo e depois de correr bastante, viu que a árvore se encontrava no topo da colina, o que explicava por que mesmo de longe era possível ver a árvore. Depois de subir a colina em passos acelerados, pode ver de perto que a árvore era na verdade um pinheiro ancião e que no pé do mesmo também havia alguns arbustos de some-folhas, o que mostrou ser um bom sinal, pois ajudaria a encobrir os sinais de que esteve por ali, a árvore também mostrava sinais de que conseguiu resistir à praga, o que era raro nos dias atuais, pois a maioria já havia sucumbido e apodrecido com o tempo.

Agora só faltava escalar a árvore e mesmo sendo muito grande, bastou olhar para suas mãos e ver que agora ele possuía garras bastante afiadas que ajudariam a escalar com mais facilidade do que anteriormente, porém, não se lembrava de ter escalado aquele pinheiro. Sem demoras e em movimentos rápidos e precisos começou a escalar o pinheiro.

Por muito tempo ficou entre os galhos do pinheiro, observando o cenário. Graças à altitude e a sua boa visão, pode ver como a floresta havia morrido ao longo do tempo. Algo dentro de si dizia que era triste ver aquele cenário do jeito que estava agora, porém, ele não ligava muito pra tal sentimento, pois a única coisa que importava era seu mestre.

- Mestre? - Chamou por seu senhor, mas não teve nenhum retorno. - Mestre?! - Chamou novamente desesperado. - Mestre!? Porque você me abandonou.

E assim continuou a observar o cenário silencioso.

Horas se passaram e o sol já começava a se pôr no horizonte, o silêncio da floresta durante o dia começou a ser substituído pelos sons das criaturas noturnas que começavam a despertar de seu sono.

- Mestre!? - Gritou novamente por seu senhor na esperança de ouvir sua voz. - Silêncio! - Uma voz gritou em sua mente. - Mestre? - Perguntou esperançoso.

Cães e Lobos uivavam em uníssono anunciando que logo iriam começar a caçar. Aranhas e morcegos gigantes guinchavam dando indício que haviam despertado. Ursos rugiam descontentes por terem de sair de suas tocas. Por fim os desmiolados, mortos-vivos que não escutavam a voz do mestre, ficaram gemendo e grunhindo, rindo ou chorando, gritando ou sussurrando. Em pouco tempo a mistura de sons, começava a se transformar em uma cacofonia, dando a floresta a sua própria voz, e essa voz agora cantava uma música hostil e tenebrosa. Tudo parecia normal, uma noite como outra qualquer. 

- Mestre, você está me escutando? - O servo perguntou confuso com a situação.

Mas foi respondido apenas com o silêncio em sua mente. Sem saber o que fazer, começou a olhar para baixo e viu que nada se aproximava do pinheiro, fosse animal ou morto-vivo, talvez devido ao fato dos arbustos de some-folhas. E por um breve momento começou a descer.

- O que você está fazendo?! - Uma voz veio em sua mente. - Mestre?! - Perguntou assustado, mas algo estava estranho, diferente. - Mestre, é você? - Não! - A voz respondeu. - Quem é você? O que fez com o Mestre?! – O servo perguntou furioso.

Porém, mais uma vez ele teve apenas o silêncio em sua mente como resposta. Ao olhar em volta, viu que ninguém estava próximo, fera ou morto-vivo, provavelmente deveria ser um fantasma se ocultando. Então olhou novamente para baixo e procurou tentar descer novamente, mas percebeu que seu corpo estava parado, e não obedecia ao desejo de descer.

- O que está acontecendo?! - Falou sem entender. - Eu estou. - A voz voltou a falar. – Me solte! – O servo gritou enraivecido.

A voz não era a do mestre disso o servo tinha certeza, mas era poderosa, ela falava em sua mente como se conhecesse bem e tinha tanto poder quanto o mestre, o suficiente para controlar seu corpo, mas ao mesmo tempo, apesar da imponência que passava ela também passava algo antigo e familiar.

- Quem é você?! O servo perguntou a voz.

O silêncio em sua mente foi à resposta, um silêncio diferente do que sentiu quando o mestre lhe abandonou, um silêncio pacífico e reconfortante. Sabendo que não adiantaria voltar a descer, ficou no local e voltou a observar o cenário noturno.

A noite parecia mais escura que o normal foi quando percebeu que não havia lua ou estrelas iluminando o céu, porém, não havia nuvens de tempestade na região, mas isso não impedia da floresta continuar a cantar. Até que no horizonte distante um novo pilar de luz esverdeada subiu aos céus por um breve momento, seguido de um estrondo muito maior que o anterior.

O estrondo tinha sido tão forte, que pode sentir as vibrações em seu corpo. Até a própria floresta parecia ter sentido isso, pois por algum momento tudo ficou em silêncio.

- O que foi isso? – O servo falou preocupado. - Não sei, mas não gosto. A voz comentou também preocupada.

Uma leve irritação subiu por sua espinha ao escutar a voz novamente, porém, ainda sim fico contente por saber que ainda estava lá com ele.

Por muito tempo a floresta continuou em silêncio em resposta ao estrondo, e com isso continuou a olhar a direção de onde tinha vindo o pilar de luz. Por um momento pensou.

- Nem ouse. - A voz disse convicta. - Mas, talvez tenha acontecido algo ao mestre. – O servo disse convicto em resposta. - Você não havia gritado que ele lhe abandonou. - A voz questionou chateada. - Talvez, porque tenha sido obrigado? – O servo respondeu chateado. - Se você tem tanta certeza, assim, então desça e vá atrás, a escolha é sua. - A voz disse por fim em tom direto e seco.

E por um breve momento seu corpo voltou a lhe obedecer como antes, mas assim que mexeu sua perna a fim de ir para um galho mais abaixo, já não tinha  tanta certeza se devia ir realmente até aquele local e o mesmo se encontrava muito longe. Sim o mestre poderia estar lá, mas também não podia, e também arriscaria um excelente lugar por uma incerteza, isso não parecia muito inteligente. Por fim, apesar de não gostar muito, apertou com força o tronco deixando marcas de suas garras, mas não desceu a árvore.

- Sábia escolha. - A voz disse contente. - Eu realmente gostaria de socar você nesse momento. – O servo contente comentou.

A voz riu alto em sua mente e isso lhe deixou um pouco mais tranquilo ao ponto de sorrir.

O tempo voltou a passar, e a própria floresta voltou a cantar, um pouco mais modesta e assim continuou por muito tempo.

- Você pode me responder uma coisa com sinceridade? - O servo perguntou tranquilamente. - Pergunte. - A voz tranquilamente disse. - Você fez algo ao mestre? - Perguntou já sabendo a resposta. - Não. - A voz respondeu sincera.

E o servo sabia que, o que a voz havia dito era verdade de alguma forma.

- Você acha que ele morreu? – O servo perguntou novamente. - Não sei dizer, provavelmente não. - A voz respondeu. - Porque será que ele deixou de falar comigo? – O servo perguntou. - Também não sei dizer, mas pelo menos estou aqui. – A voz disse.

E logo ambos voltaram a ficar em silêncio.

No decorrer da noite, a floresta continuou a cantar até que muito tempo depois os primeiros raios de sol começaram a se mostrar no horizonte distante. As criaturas antes noturnas começavam a ficar cansadas da noite agitada, e com isso a própria voz da floresta começava a minguar junto. E quando o sol já iluminava o horizonte ainda que de leve, surgiu um terceiro pilar de luz esverdeada, muito maior e forte que os anteriores, e seguido dele, um estrondo que fez a própria terra tremer em resposta. Porém, mesmo diante de tal magnitude todas as criaturas ficaram em silêncio, como se temessem o que estava por vir.

- O que foi isso agora? - O servo perguntou confuso. - Não sei. - A voz respondeu também. - Pelo visto veio da mesma direção que o pilar de luz. - Sim. - O mestre ainda não voltou a responder. - Sim. - E pelo visto aquilo está ligado a isso. - Sim, disso eu tenho certeza.

Mais uma vez, o servo voltou a olhar para o chão agora levemente iluminado pelo sol.

- Será perigoso. - A voz falou convicta. - Sim. - O servo concordou também convicto. - O que você acha? - A voz perguntou empolgada. - O que eu acho? - O servo disse indeciso, porém, se empolgando com a ideia.

Quando os raios de sol começavam a atingir o pinheiro com mais intensidade, o servo procurou olhar ao redor e viu que estava sozinho. Isso era estranho, já que mesmo fantasmas eram incapazes de se esconder da luz do dia.

- Onde você está? - O servo perguntou um pouco apreensivo com a ideia de voltar a ficar só. - Aqui. - A voz respondeu. - Onde?! - O servo voltou a olhar ao redor e não viu ninguém. - Aqui. - A voz disse por fim, mas agora parecia diferente.

Um raio de sol banhou seus olhos por um breve momento fazendo o desviar o olhar. E quando voltou a olhar ao redor mais uma vez e não encontrou nada, nem ninguém.

- Estou sozinho novamente. – O servo falou. - Sim. - Uma nova voz falou em sua mente, a sua.

Porém agora, estava tranquilo quanto a estar só. Sabia que mesmo estando só iria ficar bem.

O sol iluminava a região com mais força e o servo começou a descer o pinheiro  sozinho e em silêncio consigo mesmo e quando olhou para a floresta e viu que o caminho estava livre, começou a correr na direção à região de onde tinha vindo os pilares de luz.

-\-

 

Parte 02: Desespero.

Dois dias se passaram e o servo continuava correndo em direção à região do pilar de luz.

A princípio foi difícil ter uma noção de direção, porém luzes esverdeadas surgiam constantemente no mesmo horizonte, porém menores e sem os estrondos.

Ainda preocupado com seu mestre, o servo procurava não diminuir seu ritmo um segundo sequer, ele não se cansava como os vivos, então podia correr sem se importar. Enquanto o sol ainda cobria a região, corria constantemente, sempre alerta a qualquer situação ou inimigo. Porém, durante as noites, sempre procurava arbustos de some-folhas para arrancar algumas folhas e subia nas maiores árvores, a fim de se esconder das criaturas noturnas.

Com o passar dos dias, as criaturas noturnas começaram a se tornar menos ativas e também imprevisíveis, por algum motivo os animais estavam muito assustados e não era pra menos, desde a primeira noite após o maior de todos os pilares de luz, uivos terríveis eram escutados constantemente ao anoitecer, uivos que não eram vindos de cães ou lobos, uivos que faziam até mesmo bandos inteiros de aranhas e morcegos gigantes se esconderem, até os ursos pareciam amedrontados dentro de suas cavernas. Só os desmiolados é que continuavam com suas não-vidas intactas, apesar de o número de desmiolados diminuir cada vez mais, até parecia que eles tinham sido raptados. Tais uivos não o assustavam, mas o deixavam em alerta total e era só por causa desses uivos que ele não continuava a correr durante a noite.

O sol já começava a se pôr na manhã do terceiro dia, e os poucos animais selvagens que ele tinha avistado começavam a sumir das clareiras para se esconder. A região em que se encontrava lhe era familiar, assim como a do dia anterior, porém, isso não era relevante no momento, apenas seguir adiante até alcançar o seu destino. Vendo que ele teria apenas alguns minutos antes do sol se pôr por completo, começou a procurar uma árvore para poder se esconder, porém não conseguiu encontrar nenhuma árvore alta o suficiente para escalar. Sabendo que cada minuto contava, parou por um segundo e fechou os olhos no intuito de melhorar a percepção com os outros sentidos, e começou analisar o seu arredor de outra maneira.

No início não escutou muita coisa relevante, apenas o leve som natural da floresta. O vento soprava vindo do oeste trazendo consigo o som de árvores sendo sopradas e com isso o cheiro das mesmas, mas também algo de familiar veio com o cheiro das árvores.

- Sangue. - O servo pensou excitado.

Só o leve cheiro de sangue já o fazia salivar e atiçava seus instintos, que o forçaram a seguir com seus impulsos que estavam cada vez mais difíceis de controlar ou ignorar, já que fazia dois dias que ele não comia nada, apenas corria. Vozes soavam no fundo de sua mente, uma dizendo que deveria ignorar a fome e seguir adiante até o seu destino, enquanto a outra falava para ele comer algo, pois tinha destinos piores que a morte, mesmo ele não podendo morrer de fome.

E assim ele se decidiu e começou a correr em direção ao cheiro de sangue, ao se aproximar cada vez mais do cheiro, seus instintos faziam o fizeram correr mais rápido. Mas logo ele percebeu algo de estranho, um cheiro diferente, o cheiro lembrava enxofre, o que o fez parar de súbito e passar a ir mais devagar até o local.

Foi quando viu uma fera enorme, maior que um urso e comendo um urso como se fosse uma simples cabra. O cheiro de sangue e tripas, assim como a visão foram difíceis de ignorar, porém, o que não era difícil de ignorar era aquela fera. 

Parecia um cachorro gigante, porém no lugar de pelo, havia um couro escamoso. Também havia dois tentáculos sobre seus ombros dianteiros. Suas garras eram enormes e também mostraram ser bastante afiadas enquanto rasgavam o urso. Mas foi a boca que mais lhe chamou a atenção, suas presas eram inúmeras, fileiras e mais fileiras de dentes enormes e bastante afiados. A cada mordida que a fera dava, um naco enorme do urso era arrancado, fazendo esguichar ainda mais sangue pelo chão.

Contendo a fome diante da cena que via, procurou recuar lentamente. Por alguma razão a criatura ainda não havia sentido sua presença e isso era bom. Aos poucos começou a forçar seu corpo a se mover para trás sempre procurando estar coberto da vegetação. Também com muito cuidado ele procurava ver onde estava pisando, pois sabia que muitos seres acabavam perdendo suas vidas por causa de um mísero barulho. Bem pelo menos todas as presas que tentaram se esconder dele acabaram tendo esse destino.

- Grarr. - Algo rugiu próximo vindo da direção traseira.

- Merda! - Pensou.

Era outra fera igual a que estava a sua frente, que estava farejando as matas atrás de alguma presa.

- Grarr! - A fera da frente rugiu.

E logo a segunda fera começou a caminhar em direção a primeira, mas indo logo de encontro a ele.

- Porra! - Gritou mentalmente. - Uma fera talvez fosse possível de escapar, agora duas, e ainda por cima cercado? - Pensou.

A situação não estava ao seu favor o sol já havia sumido no horizonte.

- Foco. - Pensou.

Olhou ao redor e não viu nada que pudesse ajudar, a única coisa que tinha consigo era um punhado das some-folhas consigo e o colar. Por um momento pensou em jogar o colar numa direção para distrair as feras enquanto procurava correr, mas a ideia o fez se sentir tão mal quanto imaginar ser devorado. Então procurou outra coisa para jogar, um pedaço de pau ou pedra, mas não tinha nada disso perto. Relutante, tirou o colar e olhou para ele uma última vez. Era um belo colar, sempre o usava, era um colar em formato de um sol vermelho com uma pedra alaranjada no centro.

Com muito desgosto e ódio, por ter de se desfazer do colar ele o arremessou o mais forte que pode em direção a uma árvore na direção mais longe dele.

E assim que o colar atingiu o seu alvo, fazendo um barulho o suficiente para chamar a atenção das feras para aquela direção, o servo começou a correr na direção oposta como se sua vida dependesse disso e ele sabia que dependeria.

Por muito tempo ele correu, sem se importar com mais nada, mesmo estando de noite e a floresta estando escura, isso não o impedia de enxergar por onde estava indo. Ao fundo ele escutava o rugido daquelas feras, provavelmente descontentes por não ser nada. Porém, ele também começou a notar outros rugidos similares ao seu redor acontecendo em conjunto.

- Mais que porra! - Pensou. - Cercado?!

Continuou a correr, sua única esperança seria encontrar algum lugar alto, ou quem sabe uma toca de urso.

- Pensando bem, não é melhor ir para uma toca de urso. - Falou enquanto corria.

Os rugidos das feras começavam a se tornar mais constantes e próximos.

- Ótimo, agora estou sendo caçado. - Falou irritado.

Seus ouvidos captavam o quão perto as feras estavam e seus olhos notaram de onde elas estavam vindo. A cada metro deixado para trás, sentia a presença de seres se aproximando em sua direção.

Ao seu redor, nada apenas árvores pequena e arbustos, que desapareciam cada vez mais, o que mostrava que ele estava indo de encontro a uma campina. E para sua infelicidade ele acertou no palpite alguns metros depois, pois havia chegado a uma campina aberta sem muitas árvores, arbustos, elevações nada, apenas uma leve descida coberta de grama.

Sabia que se parasse de correr seria seu fim, e sabia também que talvez nem mesmo uma árvore no alto o salvasse agora, por um momento sentiu saudades do pinheiro ancião e seus arbustos de some-folhas. Suas esperanças já começavam a minguar e o desespero começava a assolar sua mente. Foi quando ele viu o brilho do luar, não vindo do céu, mas vindo do chão.

- Um lago! - Gritou empolgado.

O lago não estava tão longe apenas uns duzentos metros adiante. Mas em resposta ao grito que tinha feito, as feras rugiram em seu encalço. Sabia que não devia olhar para trás, pois isso poderia arruinar tudo, mas ainda sim olhou e viu dez feras se aproximando cada vez mais dele. Ao voltar seu olhar para frente, a raiva subiu por seu corpo, uma raiva que nunca havia sentido antes e isso lhe ajudou a correr mais rápido.

Segundo a segundo, metro a metro, ambos chegavam mais próximos de seus objetivos. O servo via o lago cada vez mais perto, porém, também com o canto do olho ele via as feras emparelhadas com ele, duas, uma em cada lado e uma parecia carregar consigo o cheiro de sangue de urso.

- Vaca. - Pensou.

A da esquerda deu uma leve carreira para frente e depois saltou em sua direção.

Nos poucos segundos que lhe restaram, parecia que o próprio tempo havia ficado um pouco lento. Ele sabia que a da direita se preparava para dar um bote enquanto a outra se aproximava pela esquerda, e as outras oito não estavam muito longe também. Tinha apenas duas opções continuar adiante e provavelmente sofrer com o bote ou saltar na direção da esquerda enquanto a mesma estava no ar.

Pressionando toda força que tinha em suas pernas, ele saltou na direção da fera da esquerda, o que ele não imaginava era que seu salto seria o suficiente para passar a mesma por cima e deixar a fera da esquerda colidir com a da direita.

O pouso não foi lá dos melhores, ele escorregou, rolou e voltou a ficar de pé em questão de segundos e voltou a correr, as pernas ainda pareciam boas por algum milagre, mas as feras também recuperaram o tempo perdido com o pequeno contra tempo. Logo ambos, caçadores e caça, voltaram a correr o máximo que podiam em direção ao seu objetivo.

Cem metros... noventa metros... setenta metros… as feras rugiam a míseros trinta metros de distância. Quarenta metros… Ele sentiu o bafo das feras nas suas costas, e se abaixou a tempo de ver uma delas passar por cima da sua cabeça em meio a um salto. Trinta metros, ele pôs toda a força em suas pernas novamente, no intuito de poder correr mais rápido e saltar no momento certo mesmo com uma das feras na sua frente e o encarando.

- Vinte metros! - Falou furioso.

O servo correu em direção à fera e a mesma se preparou para atacá-lo frontalmente. Então ele, pôs mais força nas suas pernas e pulou com tudo o que tinha fazendo mais uma vez passar por cima da fera, a mesma tentou usar de seus tentáculos para agarrá-lo, mas já era tarde demais a presa tinha sido muito rápida e agora caia dentro do lago.

Enquanto o servo procurava mergulhar até o fundo o mais rápido que podia.

Dez feras rugiam em desespero, pela presa que havia fugido.

-/-

 

Parte 03: Festim de corvos.

Muitas horas se passaram desde o ocorrido da noite anterior e a luz da lua foi trocada pela luz do sol.

Enquanto estava no fundo do lago, o servo se perguntava se às feras ainda estariam esperando por ele na margem do lago, apesar da sorte de ter tido de não ter sido perseguido dentro do lago, isso não impediria que elas o esperassem assim que ele saísse.

- É impossível ver a margem daqui. – O servo pensou.

Aos poucos, o servo começou a nadar de volta para a superfície na esperança de que ao chegar lá às feras já haviam em muito ido embora, mas por segurança continuou no centro do lago. Ao chegar à superfície, ele pôs levemente a cabeça para fora e começou a olhar ao redor.

- Nada. – O servo falou contente.

Nenhum sinal das feras, apenas um fedor vindo de uma das margens do lago, onde ele pode ver uma grande quantidade de fezes no local. Rindo da cena, ele começou a nadar devagar até a margem enquanto ainda procurava ver se não havia nenhum sinal das feras.

Mas não encontrou nada de fato, as feras a muito haviam saído daquele local, as pegadas ao redor do lago estavam na maioria se desfazendo com o tempo.

Foi quando ele sentiu o cheiro de algo queimando vindo das proximidades, e olhando ao redor viu uma vila não muito longe do lago.

Sabia que não era da sua conta se a vila ardia em chamas ou não. Ele mesmo já havia ajudado a queimar e saquear várias outras, porém, algo lhe dizia a não ir para aquela vila e ele não ousou desafiar.

Logo voltou seu olhar em direção ao local dos pilares de luz era um pouco mais a oeste de onde se encontrava.

- Talvez se eu correr rápido o suficiente eu chegue antes do anoitecer. – Pensou. – Isso se não tiver nenhuma daquelas feras no caminho.

Sim ele poderia enfrentar cães, lobos, ursos, morcegos e aranhas gigantes, desmiolados e até mesmo os humanos, mas aquelas feras, ele sabia que não sairia vivo se enfrentasse uma abertamente e sozinho.

Aos poucos começou a correr em direção ao seu destino mais uma vez, seus instintos estavam mais sensíveis do que antes graças à noite anterior, assim como também sua fome.

A fuga desesperada parecia ter aumentado a sua fome em dez vezes, e até mesmo sua própria mente começava a ficar desnorteada. Ele não se lembrava da última vez que havia deixado de comer e agora já haviam se passado quase três dias.

Durante sua corrida pela campina ele pode sentir cheiro de fezes das feras com mais frequência. Apesar de que, as fezes em si não eram o problema, mas sim o forte cheiro de enxofre que saia delas. Era por isso que preferia o cheiro de sangue, mesmo apodrecido era indistinguível e inigualável, e foi por causa desse cheiro tão único que ele mal percebeu que estava indo em uma nova direção.

O cheiro de sangue apodrecido era tão forte, que era impossível resistir, por um breve momento ele sonhou com pelo menos um naco de carne. O que o fez lembrar o urso de ontem e consequentemente das feras. Ao lembrar das feras e o que elas o fizeram passar, ele saiu do transe que se encontrava, mas isso não adiantaria muito, pois a fome já estava insuportavelmente forte e se não fosse saciada logo, isso poderia acabar o pondo em risco e se ele morresse.

- Se eu morresse tudo iria acabar. – O servo pensou. – Fome, desespero, solidão... Não! O mestre poderia ficar em apuros, caso eu morresse. Droga, realmente estou perdendo a razão.

Furioso, correu em direção ao cheiro de sangue e independente do que encontrasse carne crua, podre ou não, ele drenaria o sangue do chão se isso saciasse essa fome infernal e o deixasse continuar com seu caminho.

Ao se aproximar do local de onde vinha o cheiro, viu que o mesmo era uma fazenda. De longe já podia se ver que a mesma tinha um festim de corvos pairando no ar.

- Se há corvos, há corpos. E se há corpos... – Pensou. – Sangue! – Gritou excitado.

A fazenda estava totalmente devastada. As construções estavam na maioria caindo aos pedaços. A plantação havia sido completamente arruinada, a única coisa que restou parcialmente intacta foi um pomar de figos, maçãs e pêssegos.

Porém apesar de toda a devastação, foram os corpos, ou o que restou deles, que chamou sua atenção. Havia restos de cadáveres espalhados por toda a fazenda, maioria devorada até os ossos, os poucos que ainda possuíam alguma coisa era disputada pelos corvos.

Enquanto caminhava pelo local, o servo não notou quando ou como ele estava com o que parecia ser um crânio humano em sua mão, mas ele não ligou, pois logo passava sua língua e sorvia o gosto de morte e o sabor era indescritivelmente.

- É tão... Bom! – Gritou contente.

Alguns corvos ficaram irritados com o fato que havia aparecido alguém para disputar o banquete. Mas o servo não ligou muito para isso e aos poucos começou a atacar o que restava dos cadáveres e começava a devorar sem perder tempo.

De corpo em corpo, ele buscava saciar sua fome, até que os corvos começaram a atacá-lo por não deixar mais o que comer pela plantação.

Após ser expulso pelos corvos da plantação, ele passou pelos estábulos, onde viu que os animais não tiveram muita chance. O cheiro de sangue, carne podre e fezes era bastante forte no local, e ao olhar com mais atenção viu que todo o feno estava manchado com a mistura.

- Vai da um adubo e tanto. – Falou, mas sem entender muito o do porque ter falado aquilo.

Saindo dos estábulos, pode finalmente começar a distinguir melhor os cheiros. Havia três cheiros distintos, naquela fazenda. O cheiro de enxofre, que vinha de algumas das casas assim como das plantações. O cheiro de sangue e podridão, que entregava os possíveis locais onde ocorreram as mortes de algum ser vivo. E por fim o cheiro das frutas era possível sentir o cheiro dos figos, maçãs e pêssegos e isso o fez sorrir.

- Mãe! – Uma voz infantil gritou.

Por reflexo ele voltou a ficar em alerta e logo passou a caçar quem havia gritado. Porém, não conseguiu encontrar ninguém, por um bom tempo ele foi de casa em casa vasculhando os escombros para encontrar a possível criança, mas não encontrou nada. Só restava apenas uma casa para vasculhar, a maior de todas. O cheiro de sangue que vinha do local era tão forte que sua boca começou a salivar e ignorando um pouco da razão e seguindo apenas os seus impulsos ele adentrou.

As janelas do térreo estavam todas arrombadas assim como a porta. Na entrada, a casa não estava tão diferente das outras, os moveis destruídos ou revirados, sinais de luta e sangue espalhados por todo o lugar. Ao continuar a andar, ele chegou ao que parecia ser a cozinha

- Hihihi! – Risos de crianças soaram em seus ouvidos.

Seguindo os risos, ele chegou ao que parecia ser o restante de uma escada, porém, a mesma estava destruída tornando impossível a subida ao primeiro andar.

Como seus instintos já haviam sido excitados pela possibilidade de uma caçada, ele mais uma vez pôs a força em suas pernas e saltou. O salto foi bom o suficiente para chegar às grades e dai pode subir.

O primeiro piso não estava tão diferente do térreo, porém ainda sim, ele estava destruído. Porém, ao que parecia, as feras não conseguiram subir até aquele andar.

Caminhando pelo local ele viu os quartos vazios, na maioria revirados, mas sem qualquer grande sinal de invasão ou ataque, ou de sangue. Porém o cheiro de sangue ainda estava lá.

- Onde estão vocês? – Falou empolgado.

Foi quando ele sentiu o leve odor de decomposição vindo de um dos quartos. Tentou abrir a porta, mas de nada adiantou, logo começou a chutar a mesma e ela não se movia.

- Colocaram algo atrás da porta. – Pensou. – Não tem problema.

Bateu nas paredes para ver se escutava algo oco.

- Tóc! – A parede respondeu. – Crash! Crash! Crash!

Ele começou a socar a parede com toda força que tinha até que havia feito um buraco na mesma e logo estava dentro do quarto. As janelas fechadas, o guarda roupas estava atrás da porta impedindo a passagem, as camas estavam no mesmo lugar.

- Nada. – Pensou. – Não há nada aqui.

Cerrou os olhos e os punhos, a caçada estava deixando ele furioso. Porém, mais uma vez ele sentiu o cheiro de decomposição, leve, sim vinha daquele quarto, mas de outra direção, não havia outras portas além da bloqueada. Ele abriu o guarda-roupa por desencargo, mas só encontrou mais roupas.

A luz do sol já começava a mudar de intensidade pelas brechas da janela, mostrando que provavelmente já era de tarde. Os corvos continuavam a cantar, o que era um bom sinal, pois mostrava que nada estava atrapalhando o seu festim.

- Onde vocês se esconderam? – Falou curioso, dando mais uma olhada pelo local.

Bateu nas paredes do quarto, mas não escutou nada que mostrasse uma passagem secreta. Foi quando sentiu o cheiro novamente e parou, deixou-se ser envolvido pelo aroma da morte, de onde realmente estava vindo e percebeu que vinha de cima. E ao olhar para cima.

- Um sótão. – Falou surpreso.

Ao que parecia a entrada do sótão se encontrava no mesmo lugar do armário. Em seguida, puxou uma das camas que se encontravam no quarto até o local e usando da altura da mesma ele conseguiu empurrar a portinhola e logo depois a mesma se afrouxou por fim abrindo para baixo.

Assim que a entrada para o sótão se abriu, o cheiro o invadiu. Sim, havia algo se decompondo lentamente naquele sótão, e pelo cheiro não parecia ser um simples rato de campo.

Havia uma escada interligada a portinhola que usou para subir e ao chegar no sótão, levou pouco tempo para se acostumar a escuridão do lugar, já que o mesmo não parecia ter qualquer janela, havia apenas alguns poucos feixes de luz deixados pelas brechas do telhado.

Sendo levado pelo odor do sangue ele encontrou o que tanto procurava e a visão em si o fez salivar.

Não havia um corpo se decompondo, mas três, não era de se admirar que o odor de decomposição estivesse tão forte, e pelo que parecia, os cadáveres eram de uma mulher e duas crianças.

A mulher estava com a parte de trás do vestido rasgado, consequentemente sua pele também estava rasgada e ele pode identificar o tipo de criatura que poderia causar aquele estrago graças a já ter visto algo semelhante antes, havia alguns sinais de vômito junto com a poça de sangue que se encontrava abaixo do corpo da mulher.

Apesar da fome que estava sentido ter sido diminuída com o leve banquete que tinha feito no lado de fora, ele logo atacou o cadáver. Usando de sua força arrancou o braço da mulher e começou a devora-lo, o sangue já havia apodrecido e se tornado uma pasta escurecida tornando o gosto do próprio cadáver um pouco mais forte que o de um cadáver fresco, mas ainda sim, era melhor que nada.

E enquanto devorava o braço da desafortunada, notou os cadáveres das crianças, uma menina e um menino ainda trajando suas vestes de dormir, elas estavam sentadas juntas e de mãos dadas, a garota parecia ser mais velha do que o garoto devido ao tamanho, e ambas estavam intactas, sem qualquer sinal de perda de sangue.

- Provavelmente morreram de fome. – Pensou enquanto devorava o braço.

As feições das crianças estavam um pouco mais sugadas o que provavelmente também sofreram com o calor do sótão.

- Mas pelo menos morreram juntas. – Falou secamente.

E assim que terminou de devorar o braço, partiu para o próximo. O rosto da mulher já estava inchado e deformado graças a decomposição do cadáver ter sido acelerada pelo calor. Não era possível dizer se ela tinha sido bonita ou feia, a única coisa que era possível de se dizer era que ela estava deliciosa.

Algum tempo se passou enquanto ele se banqueteou com o cadáver da mulher, tanto que não percebeu quando os pequenos feixes de luz haviam sumido quase que por completo.

Os corvos também cantavam bem menos, porém, ainda cantavam. O que mostrava que eles não haviam sido perturbados por nenhum outro predador.

No lugar onde antes havia um cadáver, agora havia apenas ossos quase limpos e alguns fluídos corporais no chão. E com isso sua fome havia sido saciada depois de dias, ele votou seu olhar para as crianças, seria uma pena não devorar seus cadáveres, mas ele decidiu melhor não. E vendo que o dia cada vez mais aproximava do seu fim, decidiu passar a noite na fazenda.

Então sem mais nada para fazer ele se deitou no chão do sótão, ao lado dos ossos da mulher, fechou seus olhos e ficou escutando os corvos cantarem pelo fim da tarde até que anunciassem o final do seu festim.

-\-

 

Parte 04: Adeus.

A estrada era levemente iluminada pela luz dos lampiões acesos e com isso a carruagem seguia seu caminho mesmo durante a noite.

Após a queda da cidade de Stratholme pelas mãos do príncipe herdeiro, muito dos moradores da região procuravam sair da região. Tal comoção era causada pelos boatos de que a cidade tinha sido devastada para conter uma praga que fora disseminada na região.

- Cof, cof. – Tossiu, e com isso seus pulmões arderam em dor. – Você está bem? – Uma mulher de cabelos escuros perguntava preocupada, enquanto trocava o pano seco de sua testa. – Um pouco, obrigado mãe. – Falou forçadamente. – Nós iremos chegar a Dalaran a tempo, aguarde mais um pouco filhote. – Sua mãe voltou a falar com a voz carinhosa enquanto afagava os seus cabelos.

A sensação era boa, o cheiro também, cheiro de ervas do campo, ela sempre cheirava a ervas e isso sempre o acalmava.

- Nill.. – A mulher chamou por alguém, se apresse. – Iá! – Alguém gritou do lado de fora da carroça.

Os cavalos mesmo durante a noite corriam o quanto podiam, porém, ele sabia que não adiantaria, eles precisavam descansar após um dia inteiro de viagem.

- Pai. – Falou se esforçando um pouco.

Mais não adiantou muito.

- Pai! – Gritou, e sua garganta queimou por isso. – Calado! Lin, controle ele por favor! – Seu pai gritava furioso, porém sua voz estava carregada. – Sangeor não se esforce. – Sua mãe falou com a voz tremula, enquanto voltava a acariciar seus cabelos.

Ela estava chorando, ele podia notar, não era pela forma como seu pai havia agido, mas sim por ele.

Seu corpo tremia constantemente devido ao frio gerado pela febre fortíssima. Seus órgãos se reviravam constantemente como se queimassem por dentro. Falar doía, se mexer doía, até escutar e olhar para sua mãe doía, tudo doía. Esses eram os efeitos da então famigerada praga?

Enquanto mantinha seus olhos fechados, se lembrava constantemente de sua vida que vinha em flash rápidos. Risos de crianças brincando na cozinha ou na floresta, uma cidade sorridente e alegre, seu primeiro trabalho na forja, seu primeiro beijo com uma garota, seu primeiro beijo com um homem, tudo vinha rápido de mais a sua mente, tanto que era difícil de manter a razão.

E no meio de tudo, uma voz sussurrava ao fundo, uma voz fria, implacável, poderosa.

- Entregue-se a mim. – A voz sussurrava constantemente.

A principio era fraca, pensava até ter sido coisa de sua imaginação, mas depois de ter adoecido, a voz começou a se tornar mais constante e com o avanço da doença ela se tornava cada vez mais presente e forte.

- Entregue-se a mim. – A voz voltou a sussurrar. – Abandone a vida e entregue-se a mim.

- Não! – Gritou e se arrependeu logo em seguida de ter gritado. – Não vou morrer.

Sua mãe gritou algo, mas ele não pode entender, pois a voz começava a silenciar as coisas ao seu redor.

- A vida é frágil, fraca. – A voz sussurrava convincente. – Abandone ela e abrace a morte, nela você será forte e poderoso.

- Não! – Gritou mais uma vez.

Mas logo entrou em estado de covunção e apagou em seguida.

...

A princípio escutou o choro de sua mãe, ela chorava e gritava em desespero e acompanhada a ela, seu pai também chorava.

- Porque eu não escutei ele antes. – Seu pai falava enfurecido e triste ao mesmo tempo. – Porque!

Sua mãe chorava e o abraçava, ainda podia sentir o calor do corpo dela e o seu cheiro. Era difícil mover seu corpo e mais difícil ainda era falar.

- Mais um pouco, mais um pouco e você será meu. – A voz sussurra em sua mente.

A voz o fazia ficar com raiva, sentia no seu amago que tudo era culpa dela, mas ela se tornava cada vez mais convincente.

Porém, reuniu as forças que ainda tinha e fez um último esforço.

- Um último adeus. – Pensou.

E abriu seus olhos.

- Eu ainda não morri. – Falou fracamente e esboçando um sorriso.

Sua mãe congelou por um breve segundo e o abraçou fortemente, seu pai chorou como uma criança com a cara espantada.

- Meu filho, meu filhote. Pela Luz! Muito obrigada. – Sua mãe falava enquanto o abraçava.

- Ei, não chore velho, você não me disse que um homem só deve chorar se for por felicidade. – Falou se esforçando ao máximo em manter um último sorriso para seu pai.

E em resposta ele voltou a chorar e o abraçou forte beijando sua cabeça.

- Me escutem por favor. – Começou, e seus pais congelaram. – Eu... eu, não tenho muito tempo. – Falou secamente.

- Besteira! – Sua mãe gritou. – Nill, pegue os cavalos vamos rápido para Dalaran! – Sim! – Seu pai concordou.

Seria difícil, mais ainda sim o fez e agarrou seu pai antes de levantar e olhou com o máximo de seriedade que já fizera e seu pai se ajoelhou e voltou a chorar, enquanto sua mãe chocada o olhava como se fosse perde-lo novamente.

Por favor. – Sua voz saia trêmula. – Por favor, não façam dos meus últimos momentos com vocês um desespero. – Começou a chorar, mas lágrimas de sangue saiam de seus olhos. – Eu quero poder escutar uma última vez uma bronca do senhor, uma última vez o canto da senhora, quero poder ir sorrindo, sem arrependimentos. – Chorava com mais força.

E seus pais choravam junto, enquanto o abraçavam, e assim ocorreu. Seu pai falava que ficaria atarefado demais na forja se os deixa-se. Sua mãe cantava enquanto desenhava runas na sua pele com os dedos. E isso o fez sorrir, mais forte que antes, mais em paz.

- Mãe. Pai. Eu amo muito vocês, sempre vou ama-los, nunca esqueçam disso. – Sua voz saia o mais forte que ele podia. – Não esqueceremos! – Ambos falaram aos prantos.

Ele apertou a mão de sua mãe o mais forte que pode, de alguma forma sentia que algo muito ruim estaria por vim num futuro próximo.

- Isso, entregue-se a mim. – A voz sussurrava em sua mente com mais força.

Enquanto olhava para seus pais, viu ao fundo da carruagem uma luz vermelha começar a iluminar a carruagem, o que o fez rir.

- Hahaha. – Gargalhou e logo em seguida tossiu forte. – Sangeor Rubrossol falecendo com um sol vermelho o iluminando. – Falou ironicamente. – Meu filho, não fale besteiras. – Sua mãe ralhou enquanto chorava sobre o colar de um sol avermelhado.

Ele olhou para sua mãe e seu pai, com seus olhos começando a embaçar.

- Me prometam uma coisa. – Pediu. – Claro, seu pai falou, qualquer coisa.

Olhou nos olhos de seus pais uma última vez. Sua mãe estava linda como sempre, um pouco descabelada, seu rosto também estava bastante abatido, mas os seus olhos, os olhos cor de sáfira, os mesmos que fizeram seu pai se apaixonar por ela e declarar seu amor por ela, esses olhos ainda estavam lá e isso o deixava feliz. Seu pai também estava acabado, os anos na forja não foram gentis com ele, porém, o deixaram com um corpo forte e resistente, e também tinha o bigode, sim o mesmo bigode desde que ele se lembrava, um pouco mais branco que antes, mas ainda sim o mesmo bigode.

- Eles vão ficar bem. – Pensou. – Entregue-se a mim. – A voz sussurrou.

Os sussurros já começavam a tornar impossível a capacidade de raciocinar, e sabendo disso ele usou as últimas forças que lhe restavam.

- Não voltem jamais para nossa casa, vão para o mais longe que puderem daqui, me prometam isso quando eu me for. – Falou desesperado. – Meu filho, mas é nossa casa, nosso lar, nossa vida. – Sua mãe falou assustada. – Me prometam! – Falou seriamente olhando para eles.

Ambos seus pais olharam um para o outro sem entender o pedido, sua mãe derramou mais algumas lágrimas e seu pai se esforçava ao máximo para não quebrar.

- Me prometam! – Pediu desesperado. - Prometemos, não iremos voltar jamais. – Falaram juntos de forma decidida. – Nós... Nós... – Sua mãe começou a chorar. – Nós te amamos muito filhote e sempre iremos te amar, mesmo depois da morte. – Seu pai falou segurando as lágrimas.

Uma lágrima escorreu de seus olhos.

- Droga! Eu não queria chorar. - Falou fracamente indignado. - Eu queria sorrir. – E assim o fez, ao esboçar um sorriso forçado. - Obrigado mãe, pai. – Suas palavras finais saíram assim como também seu último suspiro.

-/-

 

Parte 05: Enterro.

Arr! – Suspirou ao acordar e ver a escuridão ao seu redor.

Ao olhar ao redor, percebeu que ainda se encontrava no sótão, as crianças ainda se estavam se decompondo próximo a ele, assim como os ossos da mulher.

- O que foi isso. – Se perguntava em mente. – Um sonho?

Mas ele entendeu que não havia sido um mero sonho, foi vivido demais, realista demais, e desde que ele havia despertado ele nunca precisou dormir, nenhum um dia sequer.

Foi quando tudo veio em mente, memórias do passado, de quando ele era vivo, e feliz. Memórias de uma outra vida, da vida que perderá, seus pais, tios, amigos e conhecidos, tudo e todos havia lhe sido arrancado assim que morrerá.

Quando fechou os olhos pode se lembrar da voz de seu mestre falando pela primeira vez no seu despertar.

- Erga-se! Erga-se e me sirva na morte, agora e sempre! – A voz de seu mestre rugiu em sua mente.

E ele se ergueu de sua cova rasa, sem saber o que era ou quem era, só sabia que devia servir e assim o fez por muito tempo, esquecendo de tudo e todos que um dia já passaram por sua vida.

Sentiu lágrimas derramarem de seus olhos, em seguida sentia corpo tremer devido ao ódio que começava a se acumular por fim sentia sua voz engasgada em sua garganta querendo sair.

- Maldito! – Gritou em toda sua fúria.

O grito foi alto o suficiente para fazer os corvos despertarem assustados de seu sono e começarem a gritar em desespero.

...

Algumas horas depois após ficar sentado no sótão enquanto revivia todas as suas memórias, passou a olhar os cadáveres que lhe faziam companhia naquela madrugada.

Sim, todas as suas memórias haviam voltado. Todas as tão queridas memórias de quando estava vivo. Assim como também todas as memórias como morto-vivo.

Ao encarar os cadáveres das crianças e os ossos da pobre mulher que devorou. Pode de fato compreender as inúmeras atrocidades que havia cometido contra os vivos.

Porém, apesar de isso o fazer se sentir triste, mal ou enojado, ele não sentia nada, apenas um vazio e lá no fundo desse vazio havia um sussurro do que esses sentimentos foram um dia.

Não tinha noção de que horas eram, mas sabia que devia fazer algo com relação aos três corpos que estavam ali com ele.

Momentos depois, saia da casa grande carregando consigo o corpo das crianças e um lençol onde havia depositado os ossos da mulher.

Procurou uma pá pela fazenda e após encontra-la começou a cavar duas covas. Uma para os ossos da mulher e uma grande o suficiente para as duas crianças.

Não era muito de praxe ou respeitoso enterrar duas pessoas juntas na mesma cova, mas ele nunca foi de entender porque enterrar pessoas separadas e sozinhas umas das outras, quando muitas das pessoas haviam amado e vivido anos ao lado de quem elas gostavam. Então seguindo essa lógica, colocou as duas crianças na mesma cova de mãos dadas e então passou a cobrir-lhes de terra.

- Não sei quem foram em vida. Mas peço que em morte possam me perdoar por ter feito aquilo com vocês. – Falou seriamente olhando para as duas covas.

Algum tempo depois, o sol começava a surgir no horizonte e com a visão do sol se erguendo levemente avermelhado, sorriu.

Inspirou, e mesmo sabendo que seus pulmões não precisavam mais de ar para sobreviver, ainda sim pode sentir os odores como antes. Os odores pútridos haviam se tornado uma coisa natural, mas os cheiros doces das frutas e das ervas.

- Ela sempre cheirava a ervas. Pensou ao lembrar de sua mãe, e voltou a sorrir.

O vento soprava vindo do leste assim como o sol, não sentia frio ou calor, mas ainda podia sentir a sensação do vento roçando em sua pele em seu rosto. Assim como também sentia a sensação da terra entre seus dedos do pé.

Ao olhar para suas mãos como alguns dias atrás viu, que suas unhas haviam crescido de tal forma que pareciam de fato garras. Sua pele não tinha mais o tom marrom avermelhado de antes, mas sim um tom acinzentado. Havia cicatrizes por todo seu corpo.

E por um pensamento de orgulho masculino, puxou o trapo que usava como calça e viu que ainda estava lá.

- Já estive melhor. Falou contente.

Sim, já esteve melhor, mas seu corpo foi muito maltratado pelas atitudes imprudentes que cometeu, brigas com animais selvagens, brigas com humanos sem usar nada além de suas mãos vazias. Seu corpo não iria se regenerar como antigamente quando se cortava ou machucava agora que estava morto.

Os corvos começavam a gritar com o sol avermelhado erguendo-se cada vez mais.

- Sangeor Rubrossol, esse é meu nome. – Falou convicto. – E jamais irei lhe servir de novo.

Então começou a caminhar deixando a fazenda para trás e a cada passo que dava, se distanciava da antiga direção que ia com tanto afinco para encontrar seu antigo mestre. Porém, a cada novo passo que dava ia em direção a algo que havia jogado para trás algo do qual havia pertencido a sua mãe, mas havia sido enterrado com ele.

\-|-/



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...