História Long Forgotten Sons - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Conceitos, Histórias, Rascunhos
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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Arquivo Número 79.1.A


2012, esse é o ano que tudo acabou.

Foi bem diferente do que acreditavam, as pessoas temiam uma catástrofe com tsunamis, furacões e asteroides. Mas nós caímos por uma coisa simples, mas que sempre existiu e sempre foi uma ameaça, por mais que mínima. A doença.

Tudo foi causado pela ambição do ser humano de conseguir ser invulnerável a doenças, talvez almejando a imortalidade. É interessante como nós somos resistentes a coisas que criamos, mas nunca conseguimos nos proteger do próprio ciclo natural.

Depois desse vírus ter vazado, todos os humanos com mais de 13 anos morreram. Talvez, se você for uma pessoa pensativa, tenha se perguntado o porquê de eu ter falado humanos em vez de pessoas. Bem, pensávamos que nós éramos a única raça, mas estávamos errados.

Os Vampiros se escondiam, em lugares em que nunca conseguimos chegar, ou talvez ninguém tenha saído com vida, talvez um desses lugares foi o Triângulo das Bermudas. Mas, não importa de onde eles vieram, porque nós caímos, e foi uma queda feia.

Eles surgiram para levar o "resto", nós, crianças. Nos escravizaram, drenando nosso sangue todos os dias, como um parasita, nós éramos a fonte de vida deles, e fazíamos essa troca para sobrevivermos. Mas nos descartavam quando perdíamos a utilidade.

Vários dos meus companheiros tentaram fugir, mas voltavam, sem vida. Os Vampiros colocavam seus corpos expostos, para servir de exemplo, para que ninguém tentasse, senão teria o mesmo destino.

Diferente da vida de antes, não comíamos para saborear a refeição, era para sobreviver.

Mas nem todo o "resto" foi escravizado, alguns fugiram, e estabeleceram algumas pequenas cidades, aproveitando as cinzas da civilização que um dia já foi próspera e feliz.

Começamos a crescer, as crianças, que agora eram adolescentes, acharam que conseguiriam se rebelar contra a "colônia" local, então organizaram uma "revolução".

Eles estavam errados.

Naquela noite, as ruas foram pintadas com um vermelho forte, sangue. Você não conseguia ver o rio, os cadáveres obstruíam a visão.

Em meio ao banho de sangue, eu consegui fugir, deixando meus amigos para trás. Esse fato é o que me assombra até hoje, talvez a melhor opção seria me juntar a eles, pelo menos eu não sentiria essa culpa.

Fazia tanto tempo que eu não via a luz do sol, por mais que fosse inverno, era uma verão comparado à antiga vida.

Eu não sabia que ainda existiam humanos lá fora até então, a lenda que nos falavam é que a doença virou uma espécie de névoa, é claro que isso era só para nos fazer acreditar que ser escravizado era uma coisa boa.

Depois que meus olhos se adaptaram à claridade, eu percebi que estava em cima de uma colina, dava para ver as cidades, ou pelo menos o que sobrou.

Então, ao longe, eu vi algumas pessoas se aproximando, elas me viram, então correram para minha direção.

Eu fiquei feliz, tentei falar alguma coisa, mas o choque de realidade foi forte demais, então eu desabei.

Acordei em uma cama de hospital, sem saber o que tinha acontecido, algumas pessoas me deram roupas, as minhas estavam rasgadas e cobertas de sangue, totalmente inúteis.

A vida naquele lugar era boa, como antes da doença se espalhar, tínhamos um exercito para nos proteger e íamos para a escola. Eu fiz alguns amigos, eu nem conhecia eles direito, mas nós tivemos alguns momentos que eu não trocaria por nada.

No começo do ensino médio, ou colegial, nós começamos a ter uma nova matéria: combate. Eles se referiam como educação física, mas só quem tinha crescido naquele mundo cairia nessa. No começo era como em qualquer escola, com esportes básicos, mas depois as coisas começaram a ficar mais intensas: Esgrima, tiro e combates com espada.

É claro, eles começaram com coisas básicas para nós termos agilidade e força o suficiente para carregar uma espada ou uma arma.

A maioria gostava de usar armas, outros gostavam de espada, e claro, eu, o indeciso, usava as duas, uma espada leve e uma arma pequena.

Mas então as coisas se intensificaram, começamos a enfrentar colegas de classe. Abandonei a competição depois de ocorrer a primeira morte, era ridículo, eles forçavam os alunos a se matarem.

Mas a vida continuou a seguir, e eu me juntei a um clube da escola, nós ficávamos discutindo sobre tudo o que tinha acontecido até então, teorias sobre como a humanidade caiu.

Aquele foi um tempo próspero, mas como toda nação ou espécie cai, as tentativas de se reerguer também são falhas.

Já fazia já fazia muito tempo desde que cheguei na instalação dos humanos, já havia começado o inverno, então suspenderam as aulas de "Educação Física". Era melhor, agora eu tinha o período da tarde livre, e eu gastava todo esse tempo naquele clube que eu entrei, o pessoal era meio maluco, aqueles famosos teóricos da conspiração, mas era melhor do que ficar vagabundeando por aí.

Com a suspensão das aulas de "Educação Física" e o fim do torneio, todos receberam suas armas, inclusive eu, mesmo não tendo participado. Para nada sair do controle, nós só podíamos usa - las em casos extremos.

Por algum motivo, a sala do clube fora fechada para manutenção, então eu e o pessoal fomos para o refeitório, mas eles não começaram a falar de conspirações, pelo menos não inicialmente, começaram a falar de um andar subterrâneo secreto e então emendaram com o que eram profissionais.

Eu me retirei dali, mas eu fiquei curioso e comecei a procurar pela porta que levava a esse andar. Após algumas horas de procura,já era de noite, então achei essa porta, estava no 3° andar, atrás de uma parede quebrada, na qual era proibida a entrada. Fui abri-la, mas eu ouvi passos, então me escondi dentro de uma sala.

Houve um tremor, depois os passos ficaram mais altos, então ouvi explosões. Saí correndo para o primeiro andar, onde todos os alunos ficavam, no centro sempre havia um guarda, mas naquele dia haviam mais de vinte. Perguntei para eles o que estava acontecendo, então eles responderam "Nada anormal, apenas pegue sua arma e venha para cá."

É claro que tinha alguma coisa errada, a expressão deles já dizia isso. Corri para o meu armário e peguei minha espingarda de cano duplo e minha espada.

Enquanto estava voltando, os alunos começaram a me olhar como se dissessem "Mas por que diabos esse garoto tá correndo com uma arma?".

Então a entrada da escola explodiu, um alarme começou a tocar, avisando para todos os alunos pegarem suas armas e se juntarem aos soldados. Uma dezena de vampiros entrou no lugar e todos começaram a gritar. Os soldados começaram a lutar, então fui ajudar, mas um deles me segurou e disse:

– Você acha que vai conseguir ajudar com esse equipamento? - Ele pegou minhas armas e começou a falar algumas palavras estranhas.  – Pronto, agora vai lá.

Depois de receber minhas armas de volta, percebi que elas haviam mudado de cor, ficaram pretas, a minha espada ficou com uma aura cinza e a espingarda tinha a ponta do cano laranja, como se o metal estivesse quase derretendo. Elas definitivamente ficaram mais leves, dava pra sentir isso.

Quando cheguei na entrada, os vampiros já tinham sido mortos, mas muitos começaram a chegar, então comecei a lutar com eles.

Com certeza aquele soldado fez um milagre, aquela espingarda mal fazia buracos na chapa de aço que usavam como treinamento, agora ela desintegrava os vampiros, e melhor, não precisava recarregar. Até aquele momento, eu ainda não tinha usado a espada, eu fiquei de longe atirando, mas os vampiros começaram a avançar, então vieram em grupo para cima de mim, tirei minha espada da bainha, e alguma coisa estranha aconteceu, todos saíram voando,  e eu senti uma rajada de vento forte, quando olhei para a espada, ela não tinha mais a aura cinza, mas aos poucos ela voltou.

–  Ei! Bela espada! - Gritou um soldado.

Ele se juntou para ajudar, começamos a matar os vampiros, ele usava uma lança, que fazia sons de eletricidade e lançava raios. Após algum tempo de luta, nós forçamos os vampiros a recuar. Ele se despediu com "Obrigado pela sua ajuda! Com certeza será recompensando por isso, até mais.", depois saiu correndo.

Os soldados começaram a dizer para nós sairmos do local, porque precisavam fazer reparos. Fui para o refeitório, ainda com a sensação de adrenalina, os alunos começaram a se reunir para o jantar, então peguei minha comida. Quando estava terminando de comer, eu percebi que alguns soldados no fim do refeitório olhavam para mim, enquanto conversavam, talvez estivessem só olhando pro nada, então ignorei, fui para o meu quarto, deitei na minha cama e imediatamente caí no sono.

Sonhei que estava no meu quarto, com as minhas armas em cima da escrivaninha, assim como quando fui dormir, mas então o sonho começou a ficar meio estranho, eu pisquei e então estava no meio do nada, e então eu ouvi uma voz dizendo "Volte para a batalha.", então eu apareci no meio de um campo de batalha em uma cidade grande, prédios estavam caídos e tudo estava em chamas, de repente, o fogo consumiu tudo e eu acordei.

Claro, atrasado para a aula, me vesti e saí correndo para a sala, por sorte, o professor não tinha chegado ainda. Sentei no meu lugar e esperei a aula começar.

Na troca de aula, um soldado do exército entrou na sala e me chamou para fora.

– Vem comigo, temos assuntos importantes para tratar.

Tive que ir com aquele cara. Era nesse momento que eu descobriria que aquela sala escondida era do exército.

– É... Pra onde a gente tá indo? - Perguntei.

– Eu não posso falar sobre isso, aliás, os alunos não precisam saber sobre os assuntos do exército.

– Ok.

Eu só podia pensar em duas possibilidades: Ou eu seria recrutado, ou seria executado. Parte de mim estava feliz e a outra estava em pânico. Era só subir uma escada e continuar pelo corredor, mas para mim era como se arrastar de uma ponta à outra da Russia.

Finalmente chegamos até a porta. Dois guardas estavam na frente dela.

– Entrega chegando! - Disse o soldado.

– E... Entrega? - Talvez tenha entrado em pânico nesse momento.

– Ok, obrigado. Agora volte ao seu posto. - Disse o guarda, então ele se vira para mim enquanto abre a porta. - É só seguir aquele corredor e virar à direita.

– Hã... Ok. - Respondi.

Se subir as escadas já era um sacrifício, então imagina percorrer um corredor de mais ou menos 30 metros. Eu tentava forçar o pensamento que estava tudo bem.

Então virei à direita, e lá estava uma placa: Escritório - Admissão de novatos. Continuei andando. No final, havia um soldado sentado na frente de uma mesa, mas ele deveria ser de uma patente maior, ele usava roupas diferentes.

– Ah, então aí está você! - Ele disse. - Ué, pensei que seriam vários...

– Hã... O quê?

– É que, com o fim do torneio, os cinco melhores formariam um esquadrão. Mas, ele ainda não acabou.

– Então por que eu estou aqui?

– Recomendação por um dos soldados.

– Ah, aquele cara.

É, se eu encontrar com ele algum dia, tenho que o agradecer.

– É garoto, vai demorar um pouco para te botar em um esquadrão. Mas, por enquanto, bem-vindo ao exército.

– É... Obrigado.

– Aliás, por enquanto, você vai ficar na escola, mas pode entrar na nossa base quando quiser, te avisaremos quando tiver algum grupo pra você entrar.

– Ok, obrigado.

Eu realmente fiquei feliz, eu fazia basicamente a mesma coisa todos os dias, finalmente poderia fazer alguma coisa diferente. Agora é só esperar.

Eu tive que esperar a aula acabar, então já fui direto para o refeitório, já que a sala do clube ainda estava fechada.

Eu pensei que faltava pouco para a aula acabar, mas faltavam duas horas, então resolvi ir para o meu quarto, mas antes, eu fui dar uma olhada na entrada da escola.

Sinceramente, fiquei contente em ver os soldados se divertindo enquanto reconstruíam as paredes e substituíam as portas, cantavam, faziam piadas e davam risada.

Quando eu cheguei no meu quarto, havia um livro em cima da cama, era um livro de boas-vindas do exército, com algumas regras.

Eu comecei a ler o livro, afinal, eu não tinha nada para fazer. Eu sempre fui de ler rápido, então em alguns minutos, eu já estava terminando.

Mas começaram a bater na porta. Abri a porta.

– Ei, o Coronel está te esperando, não demore, leve suas coisas.

– Ok.

Peguei aquele livro e minhas armas, saí correndo para a instalação. Quando cheguei lá, o Coronel estava conversando com alguém, então eu fiquei esperando.

Assim que ele ficou desocupado, apareci para conversar com ele.

– Então, garoto, a gente achou um esquadrão para você.

– Opa, legal.

– Só tem um problema. Eles estão em outra base, no norte. São uns 10 quilômetros até lá, mas o caminho não é tão seguro assim. Você vai ter que ir sozinho.

– Tudo bem, não deve ser tão difícil assim.

– Que confiante, hein. Então, se você chegar lá, vai ter um esquadrão. Você pode ir agora ou esperar o amanhecer.

– Eu acho que vou agora.

– Ok, então, é só seguir para lá. - Ele aponta para o outro lado.

Me despedi dele e segui o corredor. Me deparei com um grande portão com alguns guardas na frente.

– Então você deve ser o recruta. - Disse um deles.

– Sim, sou eu mesmo. - Confirmei.

Ele abriu o portão.

– Ei, toma cuidado lá fora.

– Tudo bem. Aliás, em que direção eu tenho que ir pra chegar na base do norte?

Ele não disse nada, só me deu um GPS com a localização.

Logo que saí, eles fecharam o portão. Era mais ou menos umas duas da tarde.

Normalmente, uma pessoa leva mais de dez minutos para andar um quilômetro, eu não queria demorar muito, então saí correndo.

Mesmo só fazendo cinco anos desde a queda da humanidade, me dava a impressão de que fazia mais tempo, os prédios, todos queimados e destruídos, agora estavam cobertos pela natureza, o mundo de fato era menos poluído. Será que a nossa queda realmente foi uma coisa ruim?

Era mais ou menos metade do caminho, quando eu fui interrompido por um caminho bloqueado, pilhas de carros, caminhões e concreto. Tive que pegar outra rua.

Quase chegando lá, eu parei para descansar, correr por 7 quilômetros não era tão fácil assim. Depois dessa parada, comecei a andar até lá, mas alguém me interrompeu, um vampiro.

– Ora ora, o que um gado tá fazendo aqui fora? - Ele disse.

– Não deveria ter dito isso, imbecil. - retruquei.

– Mas que gado irritante, vou te dar uma lição. - Ele começou a correr na minha direção.

Ele já estava vindo para dar um golpe, não dava tempo de sacar a espada, Atirei no machado dele e saquei minha espada. Chegou minha vez de atacar, dei um corte lateral, mas ele defendeu.

– Você acha que uma arma comum vai me ferir? - Provocou.

– Aí que tá, não é uma arma comum. - Retruquei.

Ele atacou da minha esquerda, não dava para defender, tentei desviar, mas acertou meu ombro, um corte não tão grave. Dei um chute nele e atirei, o braço dele foi arrancado.

– Desgraçado! - Ele gritou. - Beba meu sangue, machado.

O machado furou a mão dele e ficou vermelho, ele deve ter ficado mais ágil, deu um trabalho a mais para defender. Minha vez de atacar, dei uma rasteira nele e me preparei para dar o golpe final, mas ele revidou, conseguindo fazer um grande corte no meu braço.

– Seu eu for morrer, vou levar você junto! - Ele gritou, e começou a atacar sucessivamente.

– Vai levar o caralho! - Cortei o outro braço dele.

Ele caiu no chão, saí andando, deixando ele pra trás, o sangramento faria o resto. Agora, eu tinha que me preocupar em conter o meu sangramento e chegar na base.

Enquanto eu estava andando, parei para pensar que aquele vampiro não era normal, os que eu tinha enfrentado eram fáceis de matar, ele me deu um grande trabalho.

Helicópteros passavam pela cidade, eu ouvia explosões, por mais distantes que fossem. Finalmente cheguei na base do norte.

De fato, ela era maior, muito mais movimentada também, soldados treinando ao ar livre, comendo, rindo, era o único momento que eles esqueciam o dever deles.

Fui em direção à entrada da base, então alguns soldados começaram a olhar para mim, afinal, nem todo o dia um garoto com cortes no braço sai andando por aí. Já na frente do portão, um guarda me parou.

– Você não parece vir daqui, o que você vem fazer nessa base?

– Eu sou o recruta, eu ouvi falar que um pelotão precisava de um novo membro.

– Ah, sim, a base nos avisou que você estaria vindo, mas eu não sabia que viria sozinho.

– É, eu também não esperava vir sozinho.

Ele demorou um pouco para perceber os cortes no meu braço, ele disse que eu precisava de cuidados médicos, então me levou à enfermaria.

Já com os ferimentos tratados, fui conhecer o meu novo esquadrão, o comandante do lugar me levou até lá.

– Eu vou chamar o líder do esquadrão primeiro, depois ele te apresenta pro resto, estou um pouco ocupado. - Disse o Comandante.

O Comandante saiu da sala junto com um garoto que parecia ter a mesma idade que a minha e era um pouco menor. O Comandante foi embora.

– Sou Tsubasa Kiyosakio, líder do esquadrão, é um prazer te conhecer.

– Prazer. - Falei enquanto apertava a mão dele.

Ele me levou para dentro da sala, lá tinham três garotas, não pareciam estar muito felizes.

– Essa é Yumiko Kitazume, essa é Nanami Kishinami e essa é Yumi Tomonari. - Disse ele, em tom baixo.

– Por que você tá falando baixo? - Falei no mesmo tom que ele.

– Bem, é porque nosso membro acabou de morrer, então elas tão meio tristes, sabe? E, aliás, é melhor não falar com elas por um tempo, espera se recuperarem.

– Ok, tudo bem.

Ele me levou para uma mesa um pouco longe delas, e então começamos a conversar sobre várias coisas, eu contei a minha história, ele contou a dele. Conversamos tanto que anoiteceu e chegou a hora de nós dormirmos.

Assim que eu acordei, Tsubasa veio correndo para a sala.

– Pessoal, acabamos de receber uma missão. É melhor a gente ir.

– Vamo lá. - Disse, meio sonolento.

Levantei e segui Tsubasa. Fomos até um carro.

– Entra aí, explico o que tá acontecendo no caminho.

Entrei no carro, no banco da frente, Tsubasa começou a acelerar, e nos afastávamos rapidamente da base do norte.

– Ok, é o seguinte. Temos que ir até a parte mais alta da cidade, o pessoal precisa da nossa ajuda, me disseram que descobriram planos dos vampiros, pra atacar a gente, só que a gente vai atacar primeiro. - Disse Tsubasa.

– Isso não é muito esperto, já que os defensores sempre tem uma vantagem. - Disse.

– É, mas a gente não pode decidir nada, só podemos seguir ordens.

Tsubasa é daquelas pessoas que são bem descontraídas, mas quando o assunto é sério, mudam completamente de comportamento, um cara ideal para ser líder de um esquadrão, consegue manter o ânimo das pessoas e cumprir os objetivos.

A cidade pode não ser grande, mas o percurso foi longo, porque a maioria das ruas estavam bloqueadas. Eu pensei que o Tsubasa não dirigiria bem, já que ele tem a minha idade, mas ele fazia curvas perfeitamente.

Enquanto nós seguíamos para o leste, que era a parte mais alta da cidade, eu tentava me ocupar com alguma coisa. O Tsubasa estava dirigindo, então não era legal atrapalhar ele, e não era uma boa ideia falar com elas, então resolvi fuçar no porta-luvas, achei um bloco de notas, tinha alguma coisa escrita na capa, mas as letras estavam desgastadas. Guardei na pequena bolsa que eu carregava.

Depois de 10 minutos, nós chegamos, descemos do carro, era quase 11 horas da manhã. Entramos na instalação e fomos até uma porta, que no caso era a sala de operações, Tsubasa disse que era para esperarmos enquanto ele iria receber ordens. Procurei um banco e me sentei.

Alguns minutos depois, a porta se abriu, e o Tsubasa veio falar comigo.

– Então, a gente tem um tempo livre, tipo uns 10 minutos, tá afim de dar uma volta por aí? - Ele perguntou.

– Sei lá, pode ser, não tenho nada pra fazer. - Respondi.

Começamos a andar pela instalação. O pessoal já se preparava para a batalha. Então uma dúvida veio na minha cabeça, então me virei para o Tsubasa.

– Cara, quem era o antigo membro? Sabe, aquele que morreu.

Ele estava com uma cara feliz, mas depois que perguntei isso, sua expressão mudou.

– Ele era o líder do esquadrão, um grande amigo, eu conheci ele enquanto eu estava fugindo dos vampiros, eu não era do exército ainda. Ele me ensinou a lutar, e foi graças a ele que virei um soldado.

– Então é por isso que elas estão tristes assim, né?

– Sim, ele também salvou elas, que nem fez comigo, a diferença é que eu não fiquei muito abalado com a morte dele.

– O que aconteceu com ele?

– Nós fomos encurralados por um nobre, então ele mandou a gente fugir. Ele conseguiu matar o nobre, mas ele morreu momentos depois. O cara era bem habilidoso, entretanto nenhum humano tem chance contra um nobre. - Ele olhou para o relógio no pulso dele. - Já tá dando a hora, a gente tem que ir.

– Ok.

Os soldados estavam se reunindo na entrada, onde paramos o carro. Então um general subiu em um ponto mais alto e começou a separar os esquadrões em localizações. Nosso esquadrão ficou sozinho, responsável por atacar uma pequena estação de metrô, onde havia cerca de 20 vampiros. Então todos se separaram.

– Tá, onde fica essa estação? - Perguntei.

– Ah, bem no fim da estrada, não dá pra errar. - Respondeu Tsubasa, apontando para uma estrada à esquerda.

Começamos a seguir pela estrada, prédios e casas ainda estavam queimando, deve ter acontecido uma luta recentemente. O caminho estava livre, apesar dos escombros das construções. Então Tsubasa se virou para mim.

– Fique em alerta, já saque sua arma.

Peguei a minha espingarda, mas deixei a espada na bainha, afinal, aquela rajada de vento pode ser útil.

já conseguíamos ver a estação ao longe, mas havia alguma coisa errada, tinham vampiros saindo dela, muitos, cerca de 30, mais do que a gente esperava.

– Parece que a gente se atrasou. - Disse Tsubasa. - Vamos esperar que eles venham.

Todos se esconderam em algum lugar, eu fiquei atrás de uma parede de uma casa. Os vampiros se aproximavam cada vez mais. Tsubasa pegou uma garrafa do chão e jogou na direção deles.

– Ha, esses humanos são imbecis, eles acham que não sabemos onde eles se escondem. - Disse um deles.

– Ué, pensei que só teriam vampiros de merda nesse lugar. - Disse Tsubasa. - Sendo assim, vamos atacar!

Ele saiu correndo na direção deles, fazendo um sinal para mim ir junto. Já deixei a espada pronta para o saque, saí correndo, dando alguns tiros de suporte. Yumiko veio com a gente, usava uma lança. Aqueles vampiros usavam uma formação lateral, como se fosse uma barreira, bom para mim. Cinco deles vieram na minha direção, tirei a espada da bainha e eles se desequilibraram com o vento.

– Eu não sabia que você podia fazer isso! - Gritou Tsubasa.

Então mudei a direção, mas um deles me atacou, travamos as espadas.

– Ah, acho que você não reparou direito, mas eu seguro a espada só com uma mão. - Disse, apontando a espingarda na cara dele.

Ele deu um pulo para trás, mas quem disse que isso desvia de um tiro? Os pedaços dele voaram por aí.

Tsubasa foi cercado, mas ele conseguiu derrubar todos com o seu machado enorme. Então foi a minha vez de ser cercado, dois vieram em direções opostas, dei um chute na cara de um deles, o outro foi finalizado pela Yumi, que até agora, eu não sabia que ela tinha um rifle.

Sobraram cerda de seis deles, eles começaram a correr em direção à estação.

– Hã... A gente deve seguir eles? - Perguntei.

– Sei lá, deve ser uma armadilha, mas beleza. - Respondeu Tsubasa.

Corremos atrás deles, entramos na estação, começamos a ouvir vozes, diminuímos o passo.

– Mas senhor, nós não podemos suspender o ataque, nós seremos punidos se fizermos isso! - Disse um vampiro.

– E daí? É melhor do que morrer! Eu não sou um nobre, são dou conta de cinco humanos. - Respondeu o líder.

Tsubasa entrou na sala onde eles estavam.

– Olha, eu estou impressionado, nunca vi algum vampiro ter medo de um humano. - Disse Tsubasa. - Você deve ser bem merda, já que tá com medinho. Podem vir, pessoal.

Entrei na sala junto com os outros.

– Eles são só humanos imbecis, a gente consegue acabar com eles. - Disse um vampiro.

– Pode vir, então.

Os vampiros começaram a lutar com a gente, inclusive aquele líder.

– É um espaço pequeno, cuidado. - Disse.

– Eu sei. - Disse Tsubasa, enquanto atacava dois de uma vez.

Eu não podia usar a minha espingarda, mas eu não guardei ela. Eles eram mais fáceis do que os outros, conseguia matar eles facilmente.

– Yumiko! Sai daí, não tem espaço pra você atacar! - Gritou Tsubasa.

Olhei para a esquerda, ela estava sendo cercada pelos três restantes, incluindo o líder. Ela levou uma pancada na cabeça e desmaiou, Tsubasa e eu matamos os dois vampiros e incapacitamos o líder.

– Ha, parece que eu atrasei vocês. - Ele disse.

– Do que você tá falando? - Perguntei.

– Digamos que... Vocês não tem base pra voltar.

– Deixa esse merda aí, já fizemos nosso trabalho. - Disse Tsubasa.

– Ok.

Saímos da estação, com Tsubasa carregando a Yumiko, estávamos preocupados com o que o vampiro disse, agora era só voltar para a base para confirmar se o que ele disse era verdade ou não.

O problema era: Se fossemos atacados, como nos defenderíamos? O Tsubasa estava carregando a Yumiko, desmaiada, menos 2. E, se fosse verdade, que não teríamos para onde voltar, para onde iríamos?

Isso que ficou martelando minha cabeça o percurso inteiro. Eu também senti uma grande curiosidade sobre o que tinha naquele bloco de notas, tirei - o do meu bolso e comecei a ler.

Estava tudo em alemão, eu tive algumas aulas, então segue o que eu consegui traduzir:

"Olá, humano, ou talvez vampiro, mas duvido que vampiros saibam alemão, de qualquer maneira, meu nome é Ludwig, descendo de uma família que caça essas aberrações.

Eu não lembro a minha idade, mas eu sei que eu sou velho, e que não deveria estar vivo, já que o Serafim do Fim matou todos os humanos com mais de 13 anos. A única razão de eu estar aqui, é que eu me isolei da sociedade, então não contraí esse vírus do apocalipse.

Andei pesquisando por anos sobre como prever esse apocalipse, no entanto, eu falhei em minha missão. Logo, foquei meus estudos na arte de matar vampiros, tentei de tudo, alquimia, pactos com anjos, demônios, doenças, mas nada fez tanto efeito quanto a magia.

Então, a única coisa que um velho fracassado como eu deveria fazer, é passar esse conhecimento adiante, saí pelo mundo, ensinando as civilizações que sobraram como lidar com essas aberrações.

(...) O ultimo lugar que visitei foi a Rússia, mas eu não consegui passar de lá, porém, teve uma coisa boa, eu encontrei soldados, que pareciam ter vindo do Japão, então descobri que eles formaram pactos com demônios, que deram certo. (...)

(...) Após muitos dias de perseguição, era certo que iria morrer alguma hora, juntei todas as minhas pesquisas e guardei em uma garagem em Varsóvia. Ela não precisa de chave, é só aproximar o símbolo na próxima página, que ela abre, além disso, ela também tem esse símbolo, então fica fácil de achar.

Deixei este diário com um colega que fiz enquanto estava na Itália, a única coisa pela qual eu posso torcer é que isto caia em boas mãos."

Na página seguinte, havia um símbolo que eu não consigo descrever, mas ele brilhava.

Fazendo o nosso caminho de volta, começou a chover, tivemos que nos apressar. Alguns minutos depois, começou uma ventania muito forte, como um tufão, coisas estavam sendo levadas embora, mas nós tinhamos que chegar até a base.

Estávamos mais ou menos um quilômetro de distancia, eu não sabia se era coisa da minha cabeça, mas eu escutava gritos, tiros e explosões. Chegamos mais perto, tudo estava em chamas, a água que descia a rua era vermelha, pessoas estavam lutando.

– Vamos voltar. - Disse Tsubasa.

– Tem certeza? Ainda tem gente lá. - Disse.

– Com essas condições não é uma boa ideia lutar.

– Ok, vocês voltam, eu vou ir. Nos encontramos na estação.

– Beleza, toma cuidado.

Então eles se afastaram aos poucos. Mas eu nem consegui prestar atenção nisso naquele momento, eu tinha que ajudar na defesa, a adrenalina tomava conta do meu corpo.

Corri em direção à base, o exército estava em desvantagem, logo eles iriam ser esmagados pelos vampiros.

Eles não esperavam por um ataque vindo de outra direção, o vento estava agindo ao meu favor, eu estava extremamente ágil, como se não tivesse peso, em poucos segundos, já eram cinco vampiros a menos.

Mas isso durou pouco, a esperança de salvar aqueles soldados, logo virou desespero, um vampiro, que era chamado de nobre, começou a matar todos eles. Um deles gritou para eu ir embora. Foi isso o que eu fiz, eles não tinham mais salvação.

Comecei a seguir pela estrada, ela parecia tranquila, tirando todo aquele vento e a chuva. Mas ou comecei a ouvir um barulho horrível, como metal se retorcendo, quando olhei para a esquerda, havia um grande prédio, cerca de 200 metros de altura, despencando. Ele caiu bem para frente, mas ele bloqueou a minha passagem. Peguei outro caminho, ele era um pouco mais longo, eu teria que passar pelo centro, para depois seguir para a estação.

O vento e a chuva se intensificaram, já não dava para ver mais de três metros à frente, o pior disso, eu ouvia passos, provavelmente vampiros correndo. Os passos começaram a ficar mais altos, corri para dentro de uma casa e me escondi. Esqueci que isso não funciona.

– É sério que eles ainda tentam se esconder? - Um deles perguntou.

– É claro, humanos são previsíveis. - Respondeu o outro.

– É sério, de onde você estiver, saia, e não corra, você só vai morrer cansado.

Então eu saí na rua.

– Ora ora, um soldado, ué, pensei que estavam todos mortos. Por acaso, você fugiu? - Provocou.

Comecei a esquentar.

– Ha, um soldado que foge de uma batalha, nunca vi isso. - Provocou novamente.

Fui consumido pela raiva.

– Do que adianta fugir, se você vai morrer alguma hora? Quer saber, chega. Vamos acabar com isso. - Ele disse.

Disparei na direção dele, errei por alguns milímetros o pescoço dele. Ele veio em minha direção, revidei com um tiro.

– Não entende que você é inferior? - Provocou. - E, aliás, você não percebeu que não tem só eu?

Olhei para trás, recebi um soco na cara, o vampiro pegou a minha mão e a quebrou. Peguei a espingarda e joguei na cara dele, emendei com um corte vertical, ele foi cortado no meio.

– Esse cara é um inútil mesmo, mas ele me ajudou. - Ele disse.

– Agora é a sua vez. - Disse.

Reparei que a minha espada não ficou coberta de sangue, mas ele ficou avermelhada. Ele veio com a espada dele, novamente, não consegui defender a esquerda, foi um corte feio, mas não o suficiente para me parar.

– Desista! - Ele gritou.

Ele veio dar o golpe final, mas eu chutei a guarda da espada ele, ela saiu voando. O tempo ficou lento, pelo menos para mim, o que eu fiz, foi involuntário, comecei a dar golpes seguidos, quando parei, ele estava cortado em dezenas de pedaços, a espada ficou mais vermelha.

A adrenalina passou, então eu comecei a sentir a dor do corte e da mão, guardei minha espada, peguei minha espingarda, e continuei meu caminho. Cada gota de água parecia uma facada, mas eu não podia parar, do contrário, morreria alí, porque, com certeza, viriam mais deles.

Quando eu cheguei na estação, eu estava quase desmaiando, a perda de sangue foi grande, eles estavam alí, me esperando.

– Caramba, o que aconteceu com você? - Tsubasa perguntou.

– Alguns contratempos. - Respondi.

– Vem cá, você precisa de uns curativos.

Fui para uma sala com ele, lá estava a Yumiko, ainda desmaiada. Ele fez alguns curativos.

– Bem, pelo menos você não vai morrer. - Ele disse. - Então, o que aconteceu?

– Bem, tava indo tudo certo, aí veio um nobre e matou todo mundo. - Respondi.

– Tenso, então, parece que essa merda de chuva nunca vai acabar, a gente tem que passar a noite aqui.

– Ok, mas, e a comida e essas coisas?

– Bem, tem umas lojinhas aqui, o lance é roubar tudo. Você vem comigo?

– Pode ser, bora.

Nós pegamos algumas comidas enlatadas, afinal, era só isso que não tinha passado do prazo de validade, tinha uma loja de roupas, pegamos algumas para nós, já que todo mundo estava encharcado. Eu me vesti por último, então fui ao encontro deles.

– Ela vai ficar bem? - Perguntei, apontando para a Yumiko.

– Sei lá, ela já aguentou muito mais porrada, acho que vai ficar bem. - Tsubasa respondeu. - Acabei de lembrar, a gente tem que arrumar um jeito de impedir a passagem.

Fui com ele bloquear a entrada, colocamos tudo o que conseguimos, caixas eletrônicos, pacotes, até que notei um botão.

– Hã, que botão é esse? - Perguntei.

– Deve ser... - Ele olhou com uma cara de desapontado. - O botão... que fecha a entrada.

– É sério que a gente fez isso à toa?

– É, puta que pariu.

Ele apertou o botão que fechava a entrada. Voltamos até elas. Me sentei junto a todos, pegamos a comida e distribuímos entre nós, não era gostoso, mas é o que tinha.

Ainda dava para escutar a chuva, eu ouvia metal se retorcendo e tremores. Percebi que Tsubasa estava olhando para a minha espada.

– Que foi? - Perguntei.

– Hã. - Parecia que ele tinha saído de transe. - É que sua espada, ela era preta, não?

– Era.

– É que ela tá um pouco avermelhada, cor de vinho, sabe?

– Ah, sim, ela ficou desse jeito de repente.

– Estranho.

– Muito.

Ficamos em silêncio por bastante tempo, até que peguei o Diário do Ludwig. Comecei a folhear as páginas, até que achei um símbolo estranho, algo parecido com um relógio. Eu ia virar o livro para eles, para perguntar se conheciam esse "relógio", mas no momento em que eu virei o livro, tudo escureceu.

Meus amigos sumiram, e um homem velho apareceu.

– Parece que você achou meu livro, não? - Ele disse.

– Sim, pera, você é...

– Ludwig. - Me interrompeu. - Você é a terceira pessoa a por as mãos neste livro, mas foi o primeiro a descobrir esse símbolo, muito bem. - Olhou para a minha espada. - Então, você tem uma espada com o meu encantamento.

– Como assim?

– Bem, eu passei o conhecimento adiante, mas foram criadas várias magias, assim como civilizações adotaram meios diferentes de como sobreviver. Essa é a primeira magia, no caso, a mais forte, à medida que você mata os vampiros, ela fica vermelha, dando... algumas vantagens, bem básicas, como velocidade, força e agilidade.

– Pera, você é real ou é uma magia programada para falar comigo?

– Talvez sim, talvez não. O que importa são as minhas pesquisas, você tem que acha-las, rápido, antes que alguém pegue. É só isso que tenho a dizer, adeus.

Então ele desapareceu e tudo voltou ao normal. Todos já estavam dormindo, o tempo parecia ter voado, como se eu estivesse em um sonho. Os ventos já tinham cessado, a chuva tinha parado. Era só esperar eles acordarem.

Continuei sentado alí, observando eles dormirem e estando pronto para qualquer vampiro que viesse sedento por sangue. Depois de alguns minutos, resolvi ir até a entrada.

A porta que fechava a entrada tinha algumas pequenas janelas, dava para ver que já era de manhã. Me sentei em um banco próximo. Peguei o diário e comecei a tentar traduzir em outras partes, mas sem sucesso, a linguagem que ele usava em algumas partes era arcaica, e nós não aprendemos isso.

Eu ia me levantar, mas quando olhei para frente, lá estava a garota dos olhos verdes, a Yumiko, na minha frente. Ela percebeu que eu olhei para ela e logo disse:

– Bom dia.

– Bom dia.

– É... onde vocês acharam essas roupas?

É verdade, eu tinha me esquecido que ela estava desmaiada, então não pegou roupas novas.

– Me segue, eu te levo até lá.

– Ok.

Levei ela até a pequena loja de roupas da estação.

– É aqui, vou voltar para lá, vou deixar você escolhendo o que vestir. - Disse.

– Ok, obrigada.

– De nada.

Eu estava andando de volta, até que vi uma mochila dentro de uma loja, era a única que estava lá. Não tinha nada dentro, mas guardei minha espingarda dentro, não fazia sentido carrega-la na mão se eu não podia usa-la.

Coloquei a mochila nas costas e continuei andando, passei pela sala, eles ainda estavam dormindo, cheguei na entrada e sentei no mesmo banco. Passou-se alguns momentos, então o Tsubasa veio correndo na minha direção.

– Cara, eu acho que eles raptaram a Yumiko. - Ele disse.

– Relaxa, ela só foi pegar roupas novas. - Disse.

– Caramba, que susto.

 Ele se sentou em um banco à minha frente.

– Cara, o que aconteceu aquela hora? - Ele perguntou.

– Que hora?

– Quando você estava lendo aquele livro, você virou o livro para mim que disse "Cara, você sabe o que é..." e então começou a dormir.

– Ah, é que eu vi um símbolo naquele livro, mas eu estava com muito sono, então devo ter dormido alí, mas não me lembro de ter perguntado. - Menti.

– Cara, que estranho, nunca vi alguém dormir enquanto estava falando.

– É estranho mesmo, eu nem lembro.

Então a Yumiko veio na nossa direção e ficou em pé perto de nós.

– Agora, só falta elas acordarem. - Ela disse. - Mas então, o que aconteceu depois que eu desmaiei?

– Uma tempestade começou, fomos até a base, mas ela estava sendo atacada, eu fui ajudar, combinamos de nos encontrar aqui, mas todos lá morreram, vim correndo para cá, me encontrei com alguns vampiros, quase morri, então estamos aqui. - Disse.

– Então eu fiquei apagada por bastante tempo.

– Só um pouquinho, tipo, umas 12 horas. - Disse Tsubasa.

Então Nanami e Yumi vieram até nós.

– Bem, parece que todos estão aqui. - Disse Tsubasa. - Já podemos ir.

– Pra onde? - Perguntei.

– Esse é o problema, mas acho que a base do norte ainda está em pé. - Ele respondeu.

– Ok , então vamos. - Disse Yumi.

Apertei o botão e saímos. Estava tudo destruído, os prédios não estavam mais em pé, tudo coberto de concreto e vidro quebrado.

– Que merda de lugar. - Disse Tsubasa. - Não estava assim antes, parece que a tempestade foi forte. Não acredito que somos a última civilização em de pé.

– Isso não é verdade, ainda existem algumas por aí. - Disse.

– Sério? Então temos alguma chance contra os vampiros? - Ele perguntou.

– Talvez sim, talvez não. Aliás, a base mais perto daqui é a do norte?

– Não, tem uma do centro, que é subterrânea.

– A gente pode ir lá. - Disse Yumiko.

Começamos a andar em meio aos destroços, desviando de pedaços gigantes de vidro, vigas de concreto e até alguns corpos. Chegamos até um túnel.

– Eu acho que é aqui. - Disse Tsubasa.

Esse "acho" não pareceu ser muito confiável. Mas prosseguimos pelo túnel. Me dava um frio na espinha caminhar por lugares assim, pior ainda quando se sabe que poderá ser atacado a qualquer momento. Repentinamente, Tsubasa parou.

– O que houve? - Perguntei, em tom baixo.

– Vem cá. - Ele correu até uma porta nas laterais do túnel. - A gente pode se esconder aqui.

Corri até aquela sala, mas ele ainda não havia explicado porque parou. Assim que todos entramos, ele fechou a porta lentamente.

– Eu vi alguns vampiros andando à frente. - Disse ele.

– Você esqueceu que não funciona se esconder? - Yumiko disse, como se estivesse dando uma bronca.

– Essa regra não se aplica nos vampiros comuns. - Ele disse. - Agora, é só esperar que passem, mas estejam prontos para uma luta.

Yumi pegou seu rifle e começou a mirar na porta. Os passos ficaram audíveis, foram aumentando a medida que chegavam perto de nós. Mas no fim, nada aconteceu, passaram reto.

– Ok, vamos. - Disse ele.

– Parece que a sua teoria é verdadeira. - Disse Yumiko. - De fato, vampiros comuns não sentem a presença de humanos.

Ele abriu a porta e continuamos a seguir o nosso caminho. Começamos a ouvir vozes, mas pelo assunto que discutiam, dava para perceber que eram humanos.

– Não! Não adianta atacar, nosso exército está em desvantagem. - Disse um deles.

– Se aquele acontecimento for verdade, nós poderemos atacar, sim. - O outro retrucou.

– Impossível, aquela base nunca iria cair!

– É... Com licença... - Disse Tsubasa. - Viemos da base da parte do leste.

– Eu disse que ela não havia caído. - Disse um deles, com ar de vitória.

– Na verdade... Ela caiu sim.

– Droga! - Ele deu um soco na mesa.

– Então está decidido, atacaremos a base deles. Eles estão distraídos comemorando a vitória sobre nós. - Disse o outro, ele se virou para nós. - Preparem-se para a batalha. Vou avisar o resto do pessoal.

Ficamos alí esperando, enquanto o outro soldado não aceitava o fato da base ter sido tomada. Minutos depois, vários soldados começaram a vir em nossa direção. Dava para perceber na cara deles que cansaram dessa vida.

– Pessoal! - O soldado disse. - Chegou a hora! De parar de nos defendermos e finalmente atacar!

O pessoal começou a aplaudir.

– Vamos lá! Vamos esmagar a cabeça desses desgraçados e mostrar quem é que manda nessa porra!

Então todos os soldados começaram a correr para a saída to túnel.

– Ok, mas, a onde a gente vai? - Tsubasa perguntou.

– Tem uma mansão seguindo a avenida que passa pelo túnel. Ela fica um pouco afastada, mas a gente consegue chegar até lá. - O soldado respondeu.

– Ok, pessoal, a gente vai ter que sair novamente. - Dava para perceber que o Tsubasa estava cansado. - Vamos lá.

Fomos o mais rápido possível para chegar ao pelotão. Eram cerca de 100 soldados, provavelmente era o suficiente para acabar com uma mansão inteira, somando o fato de que vampiros não são tão fortes quando está de dia e que eles estão de "folga".

Era uma boa formação, na frente ficavam soldados de escudo, que eu não sabia como eles conseguiram escudos, Depois ficava o resto. Todos riam alto e cantavam musicas, um comportamento bem alegre, considerando o fato de que eles poderiam morrer a qualquer momento.

Foram alguns minutos de caminhada, ou corrida, paramos em uma colina perto da mansão.

– Ok, Atacar! - Gritou um deles.

E todos saíram correndo, mas ainda mantendo a formação, fomos logo atrás deles. Ao longe, já dava para ver uma coluna de vampiros formada na frente do portão, olhei para uma outra colina, lá estava um soldado, usando um lança-misseis, ele atirou, explodindo o portão, apenas dava para ver fumaça e pedaços de vampiros voando.

– Ok, vamos lá! - Disse Tsubasa, com uma expressão feliz. - Tá na hora de matar alguns vampiros.

– Vocês vão na frente, dou suporte a vocês. - Disse Yumi, com Nanami ao seu lado.

Nanami se encarregava de proteger Yumi, porque ela não tinha chance no corpo a corpo. Descemos a colina correndo, conseguíamos ver batalhas sendo travadas, mas nós passamos reto, iríamos limpar uma barreira de defesa mais à frente.

– Ok, usa o seu "ataque especial". - Disse Tsubasa.

Assenti e corri em direção aos vampiros, tirei a espada da bainha, eles se desequilibraram, eram mais fortes que os normais. Yumiko entrou no meio deles e começou a girar a lança, matando alguns, derrubando outros, me distraí olhando eles, fui derrubado, quando o vampiro ia me matar, ele recebeu um tiro na cabeça, ao longe, conseguia ver Yumi fazendo um sinal de "joinha".

– Toma cuidado. - Disse Yumiko, ajudando a me levantar.

Tsubasa estava encrencado, ele estava defendendo um ataque, quando um vampiro surgiu atrás dele, corri e dei uma estocada em sua cabeça.

– Valeu. - Disse ele.

– Foi nada. - Disse.

Alguns segundos depois, os soldados já estavam se reagrupando no telhado da mansão, mas estávamos lá embaixo. Comecei a ouvir barulhos de motor.

– Que som é esse? - Perguntei.

– Não sei. - Respondeu Tsubasa.

– Reforços! - Gritou um soldado.

Até parecia que fosse, mas o o avião direcionou o bico para o chão. Todos ficaram meio confusos, até que caiu a ficha.

– Eles vão jogar um avião na gente! - Gritou um soldado.

Todos começaram a correr desesperadamente, eu não sabia o que fazer, o avião se aproximava cada vez mais, até que ele acertou a frente da mansão. Bem, ele errou, mas o bico são cravou no chão, o avião começou a vir em nossa direção a uma velocidade ridiculamente alta, até que acertou a mansão em si, começamos a correr, quando eu olhei para cima, um pedaço da mansão me acertou. Tudo ficou escuro.

Acordei com um calor imenso e com sons de concreto se mexendo. Havia algo na minha frente, mas minha visão estava tão embaçada que não conseguia ver direito, levou alguns segundos para tudo ficar compreensível. Lá estava na minha frente a Yumi.

– Vai logo, tá muito quente aqui. - Ela disse, estendendo a mão para mim.

Me arrastei para fora dos escombros, ela me ajudou a levantar.

– A onde estão os outros? - Perguntei, ainda desnorteado.

– É isso que eu quero saber.

Já estava de noite, mas não havia nenhum vampiro, apenas corpos, escombros e os restos do avião. Começamos a andar em volta da mansão, tentando procurar nossos amigos, até que tropecei e caí, na minha frente, eu conseguia ver uma mão para fora dos escombros.

– Aqui. - Falei.

– É a Yumiko, me ajuda com isso.

Retiramos os escombros de cima dela. Ela estava acordada, mas não estava em condições de se mexer, arrastei-a e a encostei um um muro, continuei a procura. Yumi foi para o outro lado.

Conseguimos circular a mansão, mas sem sinal do Tsubasa, nos encontramos perto da Yumiko.

– Achou alguma coisa? - Perguntei.

– Não. - Disse a Yumi.

Ouvimos um barulho alto, olhei para o topo dos escombros, lá estava Tsubasa. Ele acenou para nós e começou a descer, mas se desequilibrou e deu de cara com o chão. Ele se levantou, dando risadas.

– Parece que estão todos bem. - Ele disse, até que notou a falta de alguém. - Cadê a Nanami?

A expressão da Yumi mudou na hora.

– Bem, ela... - Ela olhou para baixo. - Me sigam.

Ela nos levou até os destroços do avião, apontou para um ponto, demorou para entender, até que vi um corpo carbonizado.

– M-mas, como? - Perguntei.

– Ela veio correndo assim que viu o avião. - Disse ela, com um tom triste.

– Que merda. - Disse Tsubasa. Ele se aproximou do corpo e balbuciou algumas palavras, então tirou do bolso uma foto e colocou do lado. – A vida segue... Bem, vamos ver a Yumiko.

Fomos até o lugar onde deixei-a, estava em pé, sem entender o que estava acontecendo.

– Hã, o que aconteceu? - Ela perguntou.

– O avião explodiu a porra toda. - Disse Tsubasa.

– Ok... A Nanami morreu, certo? - Ela concluiu.

– Como você sabe? - Perguntou Yumi.

– Olha a cara de luto de vocês, tá na cara de que alguém morreu!

– Ok, mudando de assunto, Yumi, o que aconteceu depois do avião explodir? - Perguntei.

– Todos os soldados morreram, menos vocês, chegaram vampiros, centenas deles, começaram a ir para a cidade.

– Como você não foi detectada?

– Me escondi nos escombros.

– Ah tá, tem mais alguma coisa?

– Sim. Eu tinha um rádio, eu liguei ele na frequência do exército, estavam pedindo ajuda em várias localizações, parece que fizeram um a espécie de Blitzkrieg contra nós.

– Consegue ligar nessa frequência novamente?

– Sim.

Ela ligou o rádio, uma mensagem em looping começou a soar. "Soldados, nossas bases caíram, não há nada o que fazer, protocólo 158 ativado. Broken Arrow começa em 10 horas."

– O que é esse protocolo 158? - Perguntei.

– Evacuação total. Significa que perdemos a guerra. - Respondeu Yumiko.

– E o Broken Arrow?

– É uma consequência do 158, tipo o protocolo "Hammer Down" dos Estados Unidos, eles bombardeiam a área, no nosso caso, temos uma bomba nuclear enterrada no centro da cidade. Sabe, pra se perdermos, não deixarmos de graça.

– Eu nem sabia disso, como você sabe? - Perguntou Tsubasa.

– Eu fiquei fuçando na biblioteca.

– Ah, ok. Mas, pra onde a gente vai, então?

– Temos Polônia, França, um monte de países. - Disse Yumi.

– Não temos boas relações com o exército francês. - Disse Tsubasa. - Alguns anos atrás, um pessoal se encontrou na fronteira, eles começaram a brigar, então não é uma boa ideia.

– Polônia. Temos coisas para fazer lá. - Disse.

– Tipo? - Perguntou Tsubasa.

Tirei o livro da minha mochila e mostrei para ele.

– Entende alemão? - Perguntei.

– Não. - Ele respondeu.

Contei a eles sobre o que eu tinha lido no livro.

– Mas, você tem certeza de que as pesquisas ainda estão lá? - Perguntou Yumiko.

– Não tenho certeza.

– Mesmo assim, nós vamos. - Disse Tsubasa. - Mas, por enquanto, a gente tem que se preocupar em se afastar do alcance efetivo da bomba.

– Que é tipo? - Perguntei.

– Uns 40 quilômetros.

– Ok, então, vamos de carro, né?

– Com certeza.

Começamos a ouvir sons de motor.

– Vampiros? - Perguntei.

– Não sei. - Disse Yumi. - Se for, devem ser poucos. Vamos para a entrada.

Andamos até a entrada, dava para ver a cidade de lá, não estava no seus melhores dias, ela basicamente estava em chamas, e o céu, era totalmente escuro, coberto pela fumaça. O som de motor aumentou e depois parou, houve o bater de portas. Vampiros começaram a andar até a entrada, se aproximavam cada vez mais.

– Bem, eu não esperava isso, e você? - Um deles perguntou.

– Eu também não, mas o que importa, é que nós ganhamos. - O outro respondeu.

– É melhor a gente arrumar um jeito de não alertar esses caras. - Disse, em tom baixo.

– Tem razão. - Disse Yumi. - Ali. - Apontou para um buraco no muro.

Passamos, um por um, no buraco do muro. Achamos o carro, entramos, Tsubasa deu a partida, fechamos as portas e fomos embora. Fiquei no banco de trás, para descansar um pouco, foram três dias no exército, mas muita coisa havia acontecido, estava com um grande cansaço físico e mental, eu ainda precisava de um tempo para absorver toda essa informação, foi questão de segundos para eu cair no sono.

Outro sonho, eu estava sendo levado para um lugar cinza, em uma montanha coberta de neve, quando pisquei, já estava em um corredor dentro daquele lugar, que logo percebi que era uma prisão, humanos, totalmente desnutridos, alguns mortos, em suas celas, e havia chegado minha vez. Me jogaram dentro de uma cela e me trancaram lá.

– Malditos humanos, ainda não perceberam? Não é possível mudar o destino! - Disse um guarda.

A minha visão ficou escura, e uma frase ecoou na minha mente, "mas você pode lutar contra ele".

Quando acordei, já era de manhã, estava sentado no carro, mas ninguém estava lá. Olhei para trás, e lá estavam eles. Saí do carro, era possível ver a explosão ao longe, uma grande bola de fogo no céu. Ninguém falava nada, apenas observava. Até que alguém quebrou o silêncio.

– Então é isso. - Disse Tsubasa.

A expressão dele era como se tivesse esvaziado, uma cara sem emoção descritível. Eu conseguia entender como ele se sentia, afinal, eu também havia perdido pessoas importantes para mim.

– Não adianta lamentar, o que foi feito, está feito. - Disse Yumiko. - Só precisamos de determinação pra continuar.

Comecei a olhar ao meu redor, estávamos com o carro estacionado do lado de um posto de gasolina, havia uma pequena cidade a alguns metros de onde estávamos.

– Ok, pessoal, vamos voltar para o carro. - Disse Tsubasa.

– Você dirigiu bastante enquanto a gente descansava, são seria melhor você descansar um pouco? - Perguntou Yumi.

– Sim, mas, quem vai dirigir o carro?

– Eu. - Ela disse.

– Tem certeza? Eu quero dormir, mas não pra sempre!

– Relaxa, eu sei dirigir.

– Ok, mas tenha cuidado.

Yumi e Tsubasa entraram na frente, eu e Yumiko ficamos na parte de trás. Nós ficamos algum tempo sem falar nada, até que ela perguntou:

– Ei. - Ela se virou para mim. - Se a gente vai cair que nem eles, então, por que a gente luta?

– Porque a gente nunca vai cair, se continuarmos em pé por algum motivo.

– É, você deve ter razão.

Dava para perceber, ela sempre se mostrou forte em relação a esses acontecimentos, o problema é que ela guardou toda essa insegurança, esse medo, até agora.

Mas era assim que nós dávamos adeus para aquela vida e começávamos outra.

Antes de pegarmos a estrada, paramos na cidadezinha para pegar suprimentos. Eu fiquei com a parte dos alimentos, enquanto a Yumi foi pegar roupas e coisas úteis, como lanternas. Na cidade havia um mercado, que devia ser a maior construção de lá.

Ao entrar lá, fui direto para a seção de enlatados, já que é a única coisa que ainda tinha validade, mas mesmo assim tive que verificar a data. Não havia muita coisa, apenas deu para encher uma parte da mochila, mas era melhor que nada.

Voltei para o carro, coloquei a minha mochila no chão dele. Yumi ainda não havia voltado, então fiquei esperando. Ela finalmente voltou, carregando uma mochila cheia e outras duas vazias.

– Achou alguma coisa boa? - Perguntei.

– Acho que a melhor coisa que consegui foi um GPS. - Respondeu.

Um GPS era de grande ajuda, já que não conhecíamos nada sobre as estradas da Polônia. Assim que ela configurou a viagem para Varsóvia, consegui ver a distância: 294,5 milhas. Conseguiríamos chegar em menos de 5 horas se andássemos a pelo menos 60 milhas por hora. O problema era que Yumi era inexperiente, então ela andava a 30 milhas por hora, o que demoraria o dobro do tempo.

Fiquei a viagem inteira olhando a paisagem, que era bem mais bonita do que escombros e construções em chamas, era o interior da Polônia, então conseguia ver fazendas, moinhos, animais e até vampiros ao longe.

Paramos na metade do caminho, após 5 horas de viagem, em Lódz, uma cidade grande. Já estava bem escuro, como era inverno na Europa, normalmente às quatro horas da tarde já anoitecia. Era um território hostil, ou talvez de ninguém, mas precisávamos procurar abrigo.

Tudo estava coberto de neve, lagos estavam completamente congelados, mesmo agasalhado, o vento gelado cortava a alma, era outro motivo para achar um lugar quente. Tentamos abrir a porta das casas, mas o frio havia congelado as fechaduras e maçanetas, o único lugar que não precisava de fechadura era o shopping da cidade. Na verdade, ele tinha fechadura, mas as paredes eram de vidro, o que facilitava bastante a entrada.

Nem precisamos quebrar o vidro, muitos já estavam destroçados, talvez pelo vento, ou por alguma luta que aconteceu por alí. Não havia luz, o que significava que não havia ninguém por alí. Escolhemos ficar em uma cafeteria, que tinha uma grande sala nos fundos.

Fizemos camas improvisadas com as roupas que Yumi pegou, comemos um pouco da comida que peguei, passamos alguns minutos conversando, até que decidimos dormir. Eu havia dormido bastante, não estava com sono, Tsubasa acordara pouco tempo antes de pararmos, então nos voluntariamos para ficar de guarda.

Não havia acontecido nada de estranho naquela noite, até às cinco da manhã, quando começamos a ouvir barulhos de conversa, bem baixos.

– Cara, é melhor a gente verificar o que é isso. - Ele disse.

– Se nós dois formos, não vai sobrar ninguém para ficar de guarda. - Disse. - Eu vou dar uma olhada.

– Ok, só toma cuidado.

– Relaxa.

Peguei minha espada e saí da cafeteria, indo em direção ao som.

Cheguei na praça de alimentação, as luzes estavam acesas, conseguia ver dois caras conversando, só não sabia se eram humanos ou não, já que usavam roupas normais ao invés de um uniforme. Me deitei e comecei a me arrastar para perto deles.

Eles continuaram conversando, até que cerca de trinta vampiros chegaram perto deles.

– Não há nenhum sinal de humanos na parte leste de Lódz, senhor. - Disse um vampiro.

– Muito bem, descansem um pouco, e depois comecem a procurar nesse shopping e na outra parte da cidade. - Disse o vampiro sem uniforme.

Senti um gelo na espinha, comecei a voltar para avisar os outros sobre aquilo. Após me afastar um pouco do local, me levantei e andei até a cafeteria. entrei na sala.

– E então? - Ele perguntou.

– O shopping tá cheio deles. - Respondi.

– Isso é ruim, muito ruim. - Começa a cutucar as duas, mudando o tom de voz. - Vamos, a gente tem que ir rápido.

Yumi e Yumiko se levantaram, bem sonolentas.

– O que foi? - Perguntou Yumi.

– Tem um bando de vampiros vindo pra cá. - Disse Tsubasa.

– Ok. - Ela se levantou rapidamente.

Yumiko também fez a mesma coisa, pegou sua lança e foi até a entrada da cafeteria. Coloquei a mochila nas costas e a segui.

Assim que todos já estavam prontos, nos preparamos para sair. Tudo estava bem, até chegarmos perto do carro. Os vampiros que estavam na praça de alimentação agora estavam no meio da rua, perto do carro, um deles se virou para nós.

– Alí, pessoal! Humanos! - Ele gritou.

Correram para cima de nós, mas cortamos um a um, até que não sobrou mais vampiros. Colocamos as coisas no carro, Tsubasa ia dar a partida, mas o carro não ligava o motor. Para piorar, do outro lado havia uma legião de vampiros vindo em nossa direção.

– É sério isso? - Reclamou. - Bem agora? A gente tem que ir a pé.

– Não dá, eles são mais rápidos que nós! - Disse Yumi.

– Eu vou segurar eles. - Disse.

– Tá maluco? A gente não vai deixar ninguém para trás. - Yumiko disse.

– Talvez ele consiga se safar. - Disse tsubasa. - Ele é o único que tem experiência em fugir de vampiros, se ele conseguir segurar eles, ele foge sem problemas, então ele depois nos encontra.

– Tá, mas toma cuidado. - Disse Yumi

– Eu vou. - Peguei minhas armas e dei a mochila para Tsubasa. - O livro tá aqui, quando você chegar na cidade, procure uma garagem com um símbolo estranho.

– Ok, boa sorte. - Ele disse.

Eles saíram do carro e correram para longe, então sumiram de vista. Me preparei para uma luta que pode ser considerada suicídio, mas eu estava determinado a sobreviver.

– Um? - Disse um deles, com desdém. - Isso vai ser fácil.

Partiram para cima de mim, cada um era mais difícil que o outro, eu estava sendo atacado por todos os lados, mas o meu instinto de sobrevivência chegou ao máximo, desviava cada ataque, fazia de tudo para não ser acertado, todos se prepararam para atacar ao mesmo tempo, não havia como defender tudo, então peguei minha espingarda. Minha mão estava quebrada, mas é melhor estar assim do que estar morto. Atirei nos que estavam na minha frente, eles voaram com o impacto, corri para frente, enquanto os outros atacavam o ar, embainhei a espada e saquei, fazendo com que o vento os derrubasse. Enquanto se levantavam, corri e cortei todos ao meio. Minha espada ficou vermelho-sangue, ela aumentou de tamanho, ficou mais leve e conseguia ver raios em volta dela.

Mais deles chegaram e se prepararam para atacar, mas um vampiro com um uniforme diferente apareceu.

– Senhor! O que está fazendo aqui? - Perguntou um vampiro.

– Vim matar esse humano. - Ele respondeu.

– Mas, um nobre não precisa matar um humano sem importância.

– Ele matou vários de nós, é um dever meu proteger meus soldados, e, afinal, ele vai morrer rápido. Podem voltar a patrulhar.

– Sim senhor! - Disseram eles, se afastando.

– Bem... - Ele se virou para mim. - Você causou vários problemas para mim, então, é hora de morrer.

Ele sacou Uma espada com duas lâminas que se entrelaçavam e partiu para cima. Defendi, quase perdendo o equilíbrio, contra-ataquei, fazendo um pequeno corte em seu braço esquerdo, logo emendou outro ataque, mas dei um pequeno pulo para o lado, desviando do ataque, fui ataca-lo, mas travamos as espadas, ele fez uma força maior e fui lançado com a espada para longe, rapidamente me levantei, ele veio para acertar minha esquerda, defendi com minha espada e dei um chute nele. Mas ele não caiu, apenas recuou um pouco, e tentou um ataque de baixo para cima, defendi, mas ele me chutou, me mandando para longe novamente, mas minha espada caiu um pouco atrás de mim, tentei pegá-la, mas ele fez um corte na minha perna esquerda e me agarrou pelo pescoço, começou a aperta-lo, usei minha perna direita para chutar a cara dele, me soltou, peguei um impulso e voei para trás, mas não consegui ficar em pé, fiquei sentado no chão, ele chegou perto e foi dar o golpe final. Quando ele foi atacar, lhe dei um chute no pé, ele caiu no chão, peguei minha espada, consegui ficar de joelhos e a cravei em seu pescoço. Continuei de joelhos, tentando recuperar minha força, enquanto ele se desintegrava.

Após alguns minutos, recuperei forças para me levantar, minha perna doía bastante, mas eu teria que sair dalí rápido antes que mais vampiros chegassem, já que eu não estava em condições de lutar.

Segui o caminho que os meus amigos usaram para fugir, eu tinha que encontrá-los, mas chegar até eles nessas condições não seria uma tarefa fácil.

Uma tempestade de neve havia começado, mas mesmo com essas condições de tempo, eu não poderia ficar alí, seria capturado pelos vampiros, melhor morrer do ser capturado e sabe-se lá o que fariam comigo. No começo, era uma pequena tempestade, nada que iria interferir de forma tão extrema, mas ela piorou e eu estava machucado, a ferida aberta já doía, com essa temperatura baixa, ela começou a congelar. Por meia hora, eu andei sem conseguir ver mais de meio metro a frente, mas o sol começou a se erguer em meio aquela total escuridão. Mais 20 minutos andando, cheguei em uma estrada asfaltada no meio de uma floresta, grande o suficiente para passar um caminhão, as árvores suportavam o vento enquanto minha temperatura voltava a subir, mesmo tudo coberto de neve, era uma paisagem bonita, cervos corriam, lobos uivavam e pássaros entravam em suas tocas, dentro das árvores.

A estrada não era tão grande, poucos minutos de caminhada e eu já havia chegado na frente de um túnel, que para o meu azar, havia desabado, mas havia um morro do lado, não havia outra maneira de passar, então subi-o, com cuidado para não cair ou escorregar, cada machucado pioraria a situação. Já no topo, olhei o horizonte para ver algum lugar que poderia ir. Mais ou menos a uma milha de distancia havia tres estabelecimentos, ao lado de uma estrada paralela a que eu estava, que provavelmente não havia visto por causa da tempestade. Novamente tomando cuidado, desci o morro e andei até os estabelecimentos, que agora era possível ver o que realmente eram, uma farmácia, uma loja de roupas e um restaurante e, dependendo do seu ponto de vista, um posto de gasolina, já que era junto do restaurante. Primeiro, entrei na farmácia, peguei algumas bandagens, um pouco de álcool, para desinfetar e um anestésico, assim fazendo um curativo que, mesmo sendo improvisado, ajudaria bastante. Eu peguei uma tala também, já que partes do meu braço esquerdo estavam quebradas.

Em seguida, fui para a loja de roupas, que não venda apenas roupas, haviam sapatos, mochilas e um monte de coisa que possa se imaginar. Uma simples jaqueta não iria ajudar em nada nesse frio, então peguei um casaco de inverno, peguei luvas também, já que minhas mãos estavam congelando, elas tinham algum material que não escorregava na palma e nas pontas dos dedos, assim teriam mais aderência para segurar alguma coisa. Claro, não esqueci da mochila, nenhum sobrevivente de seja lá qual acontecimento deve ficar sem uma.

Não havia nada a fazer no restaurante, se fosse um mercado haveria a chance de ter alguma comida enlatada. Então, bem agasalhado e pronto para continuar, saí da loja de roupas e de mais um monte de coisa, A tempestade de neve já havia parado, também era possível ver metade do sol em ascensão, assim segui meu caminho pela estrada.

Já era cerca de meio dia quando cheguei na entrada de uma cidadezinha, lia-se na placa: Łowicz. Era uma cidade pequena demais para chama-la de cidadezinha, poucas ruas e parecia estar perdida no tempo, as casas eram de uma arquitetura europeia do século XVIII, as ruas eram iluminadas por postes com lamparinas no topo, mas o querosene havia acabado, então serviam mais para enfeite do que para iluminar. O que realmente chamava atenção na cidade era uma grande catedral, de longe a maior construção de Łowicz, ocupava mais da metade da área da cidade. Perto da catedral, haviam algumas casas, que claramente eram de membros da igreja ou de pessoas muito ricas, cruzes no topo dos telhados e paredes muito bem conservadas. Eu estava cansado, não havia nada de errado em entrar em umas dessas casas e ter algum descanso. Entrei na quinta casa da esquerda da catedral, apenas a parte de fora parecia velha, por dentro haviam várias coisas atuais, como televisões de tela plana. A sala de estar era bem bonita, tirando o fato de que tudo estava empoeirado, um sofá vermelho bem grande, estantes com coisas douradas, que tinham o brilho ofuscado por uma camada bem grande poeira. Fui para a cozinha para procurar comida ou alguma coisa útil, por costume, apertei o interruptor, para a minha surpresa, a lâmpada acendeu, talvez houvesse algum gerador ou um painel solar na casa, cheguei perto da geladeira e consegui ouvir o barulho que ela fazia, abri-a e encontrei vários alimentos, peguei a comida enlatada que havia, mesmo tudo estando dentro da geladeira, não duraria alguns anos.

Em cima de uma mesa, haviam cinco garrafas de cerveja vazias, uma garrafa de diesel, panos e um isqueiro, uma perfeita receita inacabada de coquetéis Molotov, no balcão, haviam alguns fuzis e suas respectivas munições, possivelmente indicando de que a família sabia o que iria acontecer. Aproveitei o que deixaram e montei os coquetéis, guardei 4 deles em minha mochila e segurei um em minha mão esquerda, já que não poderia usar a minha espingarda de cano duplo.

Voltei para a sala, me sentei no sofá, iria descansar cerca de meia hora e depois continuaria a minha viagem. Não saiu como planejado, estava tão cansado que minutos depois já estava dormindo. Acordei um pouco desnorteado, indicando que dormi menos de dez horas. Saí da casa, no céu havia uma grande lua crescente, eram cerca de sete horas da noite de acordo com meus dois dias de treinamento como escoteiro. Estava tudo certo para ir em direção à Varsóvia, mas vi uma garota correndo em direção à catedral, seguida por vários vampiros.

Resolvi ajudar, guardei o Molotov na mochila, não seria uma boa ideia incendiar uma catedral, comecei a correr para lá, no meio do caminho, comecei a ouvir alguns barulhos de choque de metais, indicando que havia uma luta acontecendo. Assim que cheguei lá, apenas conseguia ver um aglomerado de vampiros, mas não consegui ver a garota. Chamei a atenção deles gritando coisas como "tem mais um aqui!" ou "Ei! Suas criaturas imbecis!", a maioria deles veio em minha direção, mas todos foram derrubados pelo saque da minha espada, se levantaram e vieram para cima de mim, mas minha espada os eletrocutava com apenas um ataque, que no caso a eletricidade apenas funcionava em vampiros normais, já que ela não havia feito nada com o nobre. Derrotado todos, ainda haviam sete atacando a garota, então corri para ajudar, agora conseguia vê-la, tinha cabelos loiros, olhos verdes e segurava uma espada grande coberta de pano, um vampiro ia lhe atacar, mas ela desviou, sacou um isqueiro do bolso e incendiou a espada, cheguei dando um corte diagonal, acertando dois em um ataque, ela cuidou de três, dando um ataque lateral e incendiando todos, ataquei outro, ele caiu no chão, mas minha espada ficou presa no corpo ele, enquanto outro se preparava para me atacar, mas foi interrompido tendo seu peito atravessado pela espada, pegando fogo e começou a se debater no chão.

– Você... é um humano? - Perguntou ela, com um tom de cansaço, apontando a espada, que já havia parado de pegar fogo, para mim.

– Sim. - Respondi, guardando minha espada.

– Ufa... - Guardou a espada. - Não seria bom ter que lutar contra você, olha o que fez com os outros.

– Mas por que um vampiro mataria outros vampiros?

– É que existem alguns "rebeldes". Mudando de assunto, obrigada por me ajudar, meu nome é Eilynn. - Disse ela, apertando minha mão direita. - Prazer em te conhecer.

– Igualmente. Bem, já estou de saída, tenho um objetivo a cumprir.

– Tudo bem, até mais!

Andei para fora da catedral, pronto para seguir a estrada, mas Eilynn começou a correr em minha direção.

– Ei, posso ir com você? - Ela perguntou.

– Claro, é sempre bom viajar acompanhado.

– Obrigada! - Disse com um grande sorriso no rosto.

Seguimos para a saída da cidade, dava para ver na placa: Varsóvia - 54 Milhas, o que daria cerca de um dia de caminhada, começamos a seguir uma autoestrada.

– Você não é daqui, né? - Ela perguntou.

– Não, na verdade, não sou nem da Europa, e você?

– Eu sou de Łódź, mas me mudei alguns meses antes de acontecer todo aquele apocalipse.

– Então você presenciou... - Falei um pouco alto demais.

– Sim e não, por algum motivo bizarro, meus pais não sofreram nenhum dano.

Eu achei estranho, porque todas as pessoas com mais de 13 anos morreram, mas lembrei que haviam membros do exército que eram bem velhos. Ficamos em silêncio pelo resto do caminho, já era meia noite quando Eilynn se virou para mim e disse:

– Podemos parar? Estou exausta...

– Claro, mas a gente tem que procurar algum lugar seguro.

– Tudo bem.

Na beira da autoestrada, havia um posto de gasolina, ela perguntou se poderíamos parar alí, eu disse que poderíamos, entramos em uma garagem ao lado, onde provavelmente faziam a manutenção de algumas partes dos carro.

– Aqui deve estar bom, acha? - perguntei, fechando a porta da garagem.

– Sim. - Ela disse, se encostando ao lado de uma caixa de ferramentas.

Me encostei na porta da garagem.

– Como a gente vai fazer? Quem vai ficar de guarda primeiro? - Ela perguntou.

– Pode dormir o quanto você quiser, eu dormi de tarde.

– Tudo bem. - deitou no chão.

Foi questão de segundos até ela cair no sono, agora, era só espera-la acordar para prosseguirmos na viagem.



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