História Long Forgotten Sons - Capítulo 6


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Tags Conceitos, Histórias, Rascunhos
Visualizações 1
Palavras 9.528
Terminada Não
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Rascunho de uma evolução espiritual da 79.1.A. Você pode achar a versão de um dos meus amigos por aí no Spirit.

Capítulo 6 - Arquivo Número 79.2.C


(...) Aquele pedaço de concreto se soltou e caiu diretamente em minha cabeça, fazendo-me ficar inconsciente. Não sei o paradeiro dos outros depois disso.

Em algum dia, de algum mês, de algum ano.

Acordei com o rosto em uma superfície, provavelmente, uma mesa, a julgar que estava sentado.
Minha cabeça doía demais. Naquele momento, não tinha noção de quanto tempo havia passado desde a última vez em que estive acordado. Tudo estava escuro, não via nada além de minhas mãos. É interessante, as vemos mesmo quando não há luz. Cada mão é única, é uma das nossas identidades. Talvez as ver em momentos de escuridão nos faz lembrar de quem somos.
Naquele momento, minhas mãos estavam cobertas por uma fina camada de concreto em forma de pó, com um pouco de sangue coagulado.
Além de estar escuro, estava frio, o local parecia estar fechado, mas um vento congelante circulava. Mesmo escuro e frio, sentia uma presença no canto esquerdo do lugar, graças ao meu pequeno sexto sentido. O ser começou a andar pelo em círculos por lá, conseguia ouvir sua respiração quando passava por mim. Os passos lembravam os de um ser humano.
— Que bom que está acordado. – O ser disse.
Sua voz era normal.
— Quem é você? – Perguntei.
— Eu sou eu, nada mais, nada menos que isso. – Respondeu, escarnando.
Por uma resposta daquelas, já era possível deduzir de que não se tratava de um aliado.
Ele deu mais duas voltas pelo local.
— Você sabe por que está aqui, não é?
— Não precisamente, mas tenho minhas desconfianças, pode confirmar se estou certo?
“Provavelmente, fui capturado”.
— Claro. – Ele encostou na mesa. – Não é por nada demais. Você está aqui por foi capturado, humano.
“Bem previsível”.
Claramente, era um vampiro. Humanos não se referem a uns aos outros com “humano”.
— E o que você quer?
— Sabemos que você é um diplomata do Franco Exército Republicano. Além de ter se destacado como um dos melhores combatentes, além de ser um diplomata...
Ele puxou uma cadeira e se sentou. Acendeu uma vela e permaneceu em uma posição em que a luz apenas mostrava seus dentes.
— ... então, você provavelmente deve saber coisas importantes. Conte-me tudo.
Forcei uma risada.
— Um dos melhores combatentes?
— Sim.
— Então, vocês foram enganados, sou como qualquer um. E, como vai querer que eu conte tudo o que sei, se não sei de nada de especial?
— Qualquer um?
— Sim. Em nível de habilidade, sou igual ou pior que outros soldados, por isso, não fui para as linhas de frente. O que permitiu a minha sobrevivência até então foi a minha arma e os meus amigos.
— ...
— E, diplomata? Provavelmente, não, apenas sou um mensageiro.
— E os seus amigos?
— Apenas precisa saber que são como eu, seus nomes não importam.
— Eu quero saber se estão vivos, e, se estiverem, onde estão.
— Faz quanto tempo que fui capturado?
— Três semanas e três dias.
— Não sou vidente nem um deus para saber onde eles estão atualmente. Se me interrogassem antes, talvez eu saberia.
— Ok...
Ele pegou uma folha de papel.
— Como você entrou para o exército? – Ele perguntou.
— Treinei com os meus amigos, parte deles. Então, entramos.
— Quando foi isso?
— Menos de dois meses atrás.
— Faz sentido não ser conhecido no F.E.R., mas, como te mandaram para uma missão tão importante, mesmo sendo um recruta?
— Isso é uma coisa que vocês provavelmente não pensariam em fazer: Enquanto os soldados habilidosos ficam nas linhas de frente, os outros fazem tarefas secundárias, médicos, tradutores e cartógrafos, por exemplo.
— E você ficou nos diplomatas ou mensageiros?
— Nenhum dos dois. Sou da equipe de reconhecimento.
— Como assim? Isso não faz sentido...
— Faz sim. Se eu fosse um diplomata, evitaria as fortalezas, bases e acampamentos do seu exército. Por que acha que o nosso grupo matou tudo o que via pela frente?
Ele balançou a cabeça, concordando silenciosamente. Pegou uma caneta e fez anotações em outra folha de papel.
— Voltando ao assunto original, eu gostaria de ouvir tudo.
— Já disse que não sei de nada. Ouvir tudo o que sei é uma enorme redundância para o seu cérebro.
— Você cooperou bem, até agora. Se quiser que eu não te torture... – O som de uma lâmina saindo de uma bainha ecoou pelo local. – Vai ter que me contar tudo.
— Vai ser bem inútil, mas, o que quer que te conte, precisamente?
— Tudo o que vivenciou até agora. Mesmo, pelo seu julgamento, achar que nada é útil, talvez haja algo importante para nós.
— Tudo? Não poderia ser mais preciso? Não poderia dar um ponto temporal?
— Ok, ok. Conte-me tudo, desde o Marco Zero.
A chama da vela tremeluziu.
“De qualquer maneira, terei que contar. Vamos pelo caminho mais fácil, mais rápido e mais seguro”.
— Certo, desde o Marco Zero.
Um sorriso abriu em seu rosto.

“Durante o interrogatório, alguns detalhes foram omitidos, outros, alterados, com a devida cautela para o interrogador não ter nenhuma suspeita.
A seguir, contarei a história verdadeira, com todos os detalhes que consigo lembrar.
Em certos momentos, os sentimentos poderão não ser relatados com a mesma intensidade de como realmente fora sentido. Infelizmente, viver em um mundo pós Marco-Zero gera a atrofia dos nossos sentimentos.
A partir deste ponto, a história será contada cronologicamente, até chegar novamente nele”.

Marco-Zero não é um nome de uma catástrofe. Mas, aquele dia foi tão impactante para todos, que nomeamos assim para reduzir o trauma em nossas mentes.

Um mundo próspero, apesar de ter acabado de sair da Última Guerra. Os países vencedores tiveram um impulso na economia e estabilidade social por dois anos.

Mas o mundo cresce em bases frágeis, e, como sempre foi na nossa história, algo ruim tinha de acontecer.

"Quanto maior a altura, maior o tombo", diziam alguns.

Era o melhor momento da humanidade, o ápice, uma prosperidade nunca então vista, mas, como a regra diz...

A única coisa inversamente proporcional ao nosso desenvolvimento naqueles dois anos era um apocalipse. E assim foi.

O destino decidiu acabar com os únicos que poderiam defender o futuro da humanidade: os adultos.

Famílias foram rasgadas ao meio, cidades foram destruídas, grande parte do mundo acabou em apenas um segundo.

Mas o fim não se limitava à morte de nove décimos da população. Algo, que antes acreditávamos que era apenas uma lenda, se ergueu: Vampiros.

Sem defesas, poucos países conseguiram manter-se em pé, diante dessa ameaça.

Então, os dias, meses e anos começaram a ser contados a partir do Marco-Zero.

 

Paris, no último dia antes do fim.

A minha viagem estava quase acabando, o avião baixava a altitude para se aproximar do aeroporto. Estavam todos felizes, riam, tiravam fotos para registrar o momento, haviam outros que queriam aproveitar aqueles últimos minutos de voo para descansar um pouco. Estava ansioso para ver a cidade de perto. Não me contentava com as fotos.

Um pequeno jato circulava o aeroporto, esperando permissão para pousar.

— Pessoal, temos permissão para pousar, peço que fiquem sentados em suas cadeiras. – Anunciou o piloto.

O avião desceu mais, até que estava perfeitamente alinhado com a pista de pouso.

Mas coisas estranhas começaram a ocorrer.

O avião se inclinou repentinamente, as pessoas começaram a gritar, com seus olhos, ouvidos e bocas sangrando. Segundos depois, estavam no chão, mortas.

Meu coração começou a bater mais rápido, a temperatura abaixou e parecia que o ar havia desaparecido. O pânico tomou conta de mim. Permaneci sentado, sem conseguir me mover.

A roda frontal do avião colidiu com o chão e foi arrebentada com o impacto. Não tínhamos velocidade o suficiente para parar, mesmo com o atrito criado com a fricção entre a fuselagem e a pista.

Com a inclinação da aeronave, ela fez uma curva para seu destino: o terminal.

O jato que circulava o aeroporto se chocou contra o chão, e uma turbina voou e acertou o nosso avião, abrindo um buraco alguns metros à minha frente.

Olhei para o terminal pela janela, a situação era igual, porém, em maior escala.

Então, momentos depois, o avião colidiu com uma ala do local. Ele quebrou no meio a partir do buraco causado pela turbina e envergou. Fui lançado para frente com o impacto e, consequentemente, para fora da aeronave. A última coisa que vi antes de desmaiar foi a janela do terminal, se aproximando cada vez mais.

Acordei com uma dor insuportável na cabeça, causada pelo impacto, com um corte de brinde.

A energia do local havia acabado, as fracas luzes de emergência eram a única fonte de luz no momento.

Olhei ao redor: corpos, poças de sangue, marcas de mão, luzes fracas e um avião em chamas. Uma cena que indicava que a terra se tornara o inferno.

“Tenho que sair daqui”.

Correr era inviável, o chão estava tão ensanguentado que escorregaria no primeiro segundo. Então, fui andando lentamente, procurando pela saída.

Após andar um pouco, ouvi passos rápido atrás, virei para ver o que era.

Era apenas uma criança, correndo da esquerda para a direita, desesperada. Mas então, ela foi lançada para longe e um vulto foi em direção a ela.

Comecei a andar mais rápido, com certeza aquilo não era amigável.

Estava me aproximando da entrada, mas havia um problema: o teto havia desabado. Os destroços me impediam de continuar, teria de sair por outro lugar.

Estava contornando o local, quando um pedaço do teto caiu em cima de mim, novamente, desmaiei.

Acordei no andar de baixo, provavelmente, o chão cedera também. Havia um celular na minha frente, estava em uma chamada e no viva voz, com parte da tela trincada.

— Pai? Pai?! – Chamava um garoto do outro lado da linha. – Tem gente estranha aqui em casa, a mamãe sumiu, onde você está?

Ele continuou chamando pelo seu pai, até que uma porta abriu, então, ele começou a gritar por ajuda, depois, aparentemente, alguém o levou para longe.

Estava preso naqueles destroços, meu braço esquerdo estava para fora, mas não conseguia mexê-lo.

Passos vinham de um local próximo, o som indicava que eram duas pessoas, e uma perseguia a outra.

Outro pedaço do teto caiu em minha cabeça, fiquei muito tonto. As duas pessoas vieram até onde estava, uma, que estava mais próxima de mim, sacou uma faca. A outra estava com uma espada curta. Elas começaram a lutar, caíram no chão e tentavam esfaquear uma a outra. Alguns segundos depois, a que estava com uma faca, levantou, vitoriosa.

— Vampiro desgraçado! – Murmurou.

Então, ela olhou para mim.

— Vou te tirar daí.

Ela segurou minha mão esquerda. Havia uma cicatriz em seu braço, ela o percorria por completo. Começou a tirar os destroços. Apaguei novamente.

Estava em um lugar totalmente branco e vazio.

— Que lugar é esse? – Perguntei para mim mesmo.

As palavras ecoaram pelo local.

Comecei a andar por ali, mas parecia que não saía do lugar.

Alguns segundos depois, uma imagem da terra apareceu na minha frente. Era uma avenida movimentada, as pessoas andavam, conversavam. Carros passavam. Os painéis dos prédios mostravam imagens normalmente.

De repente, tudo começou a piscar, até que toda a imagem mudou. Era a mesma avenida, mas tudo estava destruído e as pessoas eram cadáveres em uma pilha.

— O que vocês fizeram com ela? – Uma voz perguntou, enfurecida. – Minha querida Terra! Como ousam?!

— Eles terão a devida punição... – Disse outro.

Tudo escureceu.

 

Acordei com a luz do sol em meus olhos. “Um pesadelo”, concluí. “Mas, será que o avião caindo também foi? ”

Observando ao meu redor, percebi que não estava em casa, estava em um andar superior de alguma construção, já que havia uma escada que descia.

Minha cabeça ainda doía, meus braços e minha testa estavam enfaixados, mas sem gesso, apenas pano. Estava deitado em uma das seis camas que haviam ali.

Resolvi descer as escadas, para saber onde estava.

Havia uma mulher sentada em uma poltrona, lendo um livro e dando goles em uma caneca com café.

— Aí está você! – Ela notou minha presença. – Sinceramente, achei que não ia acordar.

— Onde estou? – Perguntei.

— Você está na minha casa. – Fechou o livro. – Você se lembra do que aconteceu, certo?

Os momentos passaram rapidamente pela minha cabeça.

— Sim.

— Caramba... você é forte. Não parece nada abalado com isso...

— Achei que era apenas um pesadelo, mas, agora, tenho certeza de que realmente aconteceu.

— Mesmo assim, você não parece estar traumatizado ou coisa parecida. Poucas pessoas ficam assim.

— O que houve depois que eu apaguei?

— Eu te tirei daqueles escombros e te levei para um colega meu, que é médico, ele deu uma olhada nos seus ferimentos, fez alguns curativos, depois te trouxe para cá. Isso foi há... cinco dias.

— Eu realmente fiquei apagado por cinco dias?

— Sim, por isso achei que você não acordaria.

Uma garota, parecida com a mulher, passou por mim e subiu as escadas.

— Ela é a sua filha?

— Não. – Ela riu. – Não tenho idade para ser a mãe de uma garota de doze anos, eu só tenho 23!

— Ah...

— Mas, mesmo assim... – Ela abaixou o tom. – Não conte nada para ela.

— Por que?

— Ela ainda não se tocou de que não sou sua mãe. Sabe, ela ainda não conseguiu assimilar todos os acontecimentos.

— Mas, então, obrigado pela ajuda.

— Não há de que.

Andei até a porta de saída.

— Onde você vai?

— Vou procurar ajuda para voltar para casa.

— É... você realmente não sabe o que houve, por completo...

— Hã?

— Olha, não tem como voltar para casa, o mundo acabou.

— Como?

— Você percebeu algo de estranho no aeroporto?

— ...

— Apenas as crianças estavam vivas.

Confirmei após me lembrar de tudo;

— É verdade...

— Me avisaram sobre isso... por isso estou aqui, viva.

— O que aconteceu?

— Aparentemente, a cada dez pessoas acima de treze anos, apenas uma sobreviveu. Parece que uma praga que só ataca pessoas a partir dessa idade se espalhou pelo mundo, bem rápido.

— Sério?

— Claro que sim! Pelo menos, de acordo com meus amigos...

— Então, vamos ver se eu entendi.... Você está me dizendo que uma doença se espalhou e matou a maioria das pessoas com mais de treze anos, certo?

— Sim.

— Mas, se fosse assim, eu também estaria morto!

— Você tem treze?

— Sim.

— Estranho, parece que você teve uma tremenda sorte, então.

— Eu ainda não acredito nisso...

— É só andar pela rua, que você verá o estrago.

Olhei para a janela. Realmente, grande parte do que conseguia ver estava destruída.

— Você parece ter bastante base para afirmar isso.... Há mais alguma coisa que aconteceu?

— Sim... mas vai parecer muito estranho.

— Não tem problema, toda essa história já é muito estranha.

— Certo... como posso explicar... – Ela deu um gole na caneca. – Digamos que... criaturas estranhas apareceram para nos “punir”.

— Que tipo de criaturas estranhas?

— Vampiros.

— ...

Nada daquilo fazia sentido.

— É impossível acreditar nisso.

— Eu sei, mas é a verdade, pergunte a qualquer um por aí, eles te dirão a mesma coisa.

— Então, eu não posso sair, porque vampiros estão por aí?

— Sim e não. De fato, há vampiros em todos os lugares, só que o exército francês os expulsaram das grandes cidades.

— ...

— O governo disse que temos que acolher as crianças cujos pais morreram. Por isso que você está aqui.

— Não sei se meus pais morreram, já que eles não estavam comigo, mas é bem provável que sim.

— Então, agora você acredita?

— Ainda tenho minhas dúvidas, mas... sim, eu acredito.

— Que bom que você não teve um colapso mental e caiu no chão. Agora, você mora aqui. Pelo menos por enquanto.

A garota desceu as escadas e foi até a cozinha da casa.

— Aquela é a Alice, ela chegou um dia depois de você.

— Certo. E você é?

— Olha, eu não gosto do meu nome, então me chame de tia.

— Ok, tia.

— Alice? – Chamou.

— Oi!

— Venha cá!

Ela andou até onde estávamos.

— Esse é o...

— Mike. – Completei

— ... Mike. Ele é o novo integrante da nossa família, o avião dele caiu e agora está com a gente.

— Ah, você é o garoto que não acordava...

— É.

— É bom te conhecer. – Ela apertou minha mão.

Em seguida, ela voltou para a cozinha.

— Parece que a família vai só aumentar... – Ela disse a si mesma.

— Por que?

— Nós temos que acolher as crianças, e há muitas delas por aí.

— Isso é verdade.

E como ela previu, quase um ano depois, outro chegou.

Naquele dia, ela havia saído, para fazer alguma coisa.

Enquanto isso, eu conversava com Alice. Havia descoberto, anteriormente, que seus pais eram separados e que ela morava com a mãe na Inglaterra. Sua mãe teve que se mudar para a França por causa do trabalho, então, ela foi junto. Já fazia três anos que moravam em Paris, quando a catástrofe aconteceu.

A porta abriu e um garoto entrou junto com a “tia”.

— Pessoal! – Ela anunciou. – Esse aqui é o Troy. Os militares acharam ele em uma cidade no interior e trouxeram para cá.

— E aí! – Ele disse.

— Olá! – Disse, animado.

— Oi! – Disse Alice.

— Arrume um lugar aí, sente-se.

— Ok.

Ele sentou-se próximo de nós.

— Então, Troy, de onde você veio? – Perguntei.

— Eu vim da Escócia. Vim ano passado para visitar meu avô. Só que aconteceu toda essa merda e tive que viver entre os vampiros, até que os franceses me resgataram.

— Os vampiros te deixaram vivo?

— Sim, eles só deixam vivas as crianças. Nós damos nosso sangue em troca de proteção. Era horrível viver lá, mas era melhor do que estar morto.

— Disso eu não sabia. – Comentou a “tia”.

— É, normalmente, os lugares onde as crianças ficam são fortalezas, então, qualquer humano que tente entrar, é morto.

— É realmente uma guerra. – Comentou Alice.

— Mas parece que nós estamos ganhando. – Disse a “tia”. – De acordo com os meus amigos, estão quase expulsando os vampiros da França.

Troy era engraçado e otimista, era o comediante da casa.

A nossa família não parou por aí. Alguns meses depois, mais um juntou-se a nós.

Naquele dia, a “tia” estava inquieta, parecia ansiosa com algo.

— O que foi? – Perguntei.

— Me disseram que outra pessoa vai vir para cá.

— Ah, então é por isso.

— E eu sei quem é. Pelo menos, bate com a descrição.

Bateram na porta.

— Opa. – Ela disse, levantando-se.

Ela abriu a porta e uma garota entrou. Ela era ruiva, usava roupas de frio, carregava uma bolsa com livros e usava um óculos preto.

— ... – Ela parou de andar.

— Sente-se. – Disse a “tia”.

Ela sentou-se e permaneceu quieta.

— Qual é o seu nome? – Perguntei.

— Dakota. – Ela respondeu.

— Que nome legal, se eu não me engano, também é o nome de um estado dos EUA.

Ela não parecia querer conversar. Pegou um livro e começou a ler.

— Vamos chamar os outros. – Disse a “tia”.

— Ok.

Andamos até a cozinha.

— Eu não faço ideia se ela se lembra... – Ela murmurou.

— Do quê?

— Ela conheceu um amigo meu há uns sete anos atrás.

—Ah.... Ela é bem quieta, não é?

— Parece que sim. Ou talvez não tenha se acostumado conosco, ainda. Olha, provavelmente, os outros dois não vão gostar dela, já que é muito quieta, sabe? Adolescentes gostam de conversar e pessoas que não o fazem são descartadas, então, já que você é o mais velho, quero que você tente unir todos, certo?

— Ok. Tudo bem.

— Certo.

Ela abriu a porta que ia para o quintal de trás.

— Alice, Troy! Venham conhecer nossa nova integrante!

— Ok! – Respondeu Troy, correndo.

Ela realmente estava certa, depois de uma frustrada tentativa de conversar com Dakota, eles simplesmente a trataram como se não existisse. Meu trabalho era uni-los, mas também foi uma tentativa frustrada, eles simplesmente se recusavam em se aproximar dela. Depois de muita insistência, fizeram o mesmo comigo. Só me restava uma opção: eu mesmo me tornar amigo dela.

Assim que ela percebeu que eu sabia que ela existia, tornamo-nos amigos, ela lia um livro, o emprestava para mim e discutíamos pontos de vista diferentes. Ela era bem fechada, nunca me contou sobre seu passado, mas, mesmo assim, confiava nela e ela também confiava em mim.

Um dia, a “tia” me chamou.

— Estou aqui. – Disse.

— Recebi uma carta do exército.

— E então?

— Eles precisam de mim.

— Mas, e nós?

— Eu mandei uma carta de volta dizendo que tenho vocês comigo, faz um tempo isso. A resposta é: - Pegou a carta e começou a ler. – Já que estamos recrutando todos com mais de 16 (dezesseis) anos de idade, pedimos que os treine até completarem esta idade, então, todos virão para o exército francês.

— Então, todos vamos para o exército?

— Sim, porque é obrigatório.

— Tem certeza que os outros vão aceitar isso?

— Não tenho certeza. Mas, de qualquer maneira, eles vão ter que ir.

— Isso é verdade.

— Você já tem 16, mas não vou te mandar ainda, quero treinar todos.

— Você conhece o treinamento militar?

— Olha, eu lutei na guerra até o final, comandei um esquadrão, então, sim, eu conheço.

— Certo. Quando começamos?

— Eu vou contar para todos, e aí nós começamos.

— Ok.

Ela anunciou para todos o que teríamos que fazer, e então começamos a treinar, o dia inteiro, durante um ano.

Houve uma inércia no começo, não progredíamos de maneira alguma, até que nos acostumamos. No fim, desenvolvemos uma alta habilidade com todo o tipo de arma que se possa imaginar, aprendemos técnicas de sobrevivência e nossa disposição era muito alta.

E então, chegou o grande dia.

— Chegou a hora, estão prontos?

— Sim. – Respondemos.

— Esperem eu pegar minhas armas e já vamos.

Ela foi para seu quarto e voltou com um fuzil e uma pistola.

— De onde você tirou isso? – Perguntei.

— Eu trouxe para casa depois da guerra.

— Ah...

— Então, vamos lá!

Todos saíram, exceto Dakota.

— Dakota? – Chamei.

— Oi.

— Vamos lá.

— Mas já? – Fechou seu livro. – Jurava que daria para terminar este capítulo. – Ela riu.

— Vamos lá, para a nossa nova vida. – Disse a “tia”, enquanto entrávamos em um carro preto, com o emblema do exército.

Uma nova vida, não melhor que a anterior, mas mais intensa.

Apenas alguns minutos foram necessários para chegar na instalação militar mais próxima, que, no caso, era o principal quartel do exército.

Sempre achei que lugares assim eram mal arrumados e sujos, mas estava completamente errado, parecia que um viciado em limpezas era o dono do lugar. O chão e as paredes, por mais que antigos, sequer possuíam um grão de poeira.

Não era o único impressionado com o local, os outros também estavam, exceto a “tia”, porque, provavelmente, já estivera ali.

Na porta, um guarda nos parou.

— Identificações? – Ele pediu.

— Você me conhece. – Disse a “tia”.

— Ah. – Ele a reconheceu. – Bom vê-la novamente, capitã. – Liberou a passagem. – Podem entrar.

A seguimos até pararmos em uma recepção.

— No que posso te ajudar? – Perguntou um dos atendentes.

— Trouxe esses quatro para entrarem no exército.

— Certo... – Ele pegou uma folha de papel. – Vá para a sala na direita, eles ficam aqui.

— Tudo bem.

Ela entrou na sala.

— Ah... – Resmungou Troy. – Já faz dez minutos e nada!

Ela saiu da sala, uniformizada e carregando os nossos uniformes.

— Pronto. – Entregou um para cada um. – Agora, só faltam suas armas. Vamos lá.

Fomos guiados para uma sala enorme, com prateleiras e mesas cheias de armas brancas e de fogo.

— Podem escolher a de vocês. – Lembrou-se de algo. – Ah, é verdade, todas as armas têm algo de especial, então, testem a que vocês pegarem antes de irem para outra.

Andei pela sala, mas nenhuma me chamou a atenção, até que avistei um par de luvas, diferentes do normal. Eram feitas de algum tipo de metal, nas palmas, havia um símbolo estranho, que não identifiquei, ele era branco na luva direita e preto na esquerda. Coloquei-as, mas nada aconteceu.

“É interessante, mas não parece ter nenhuma vantagem em combate, já que teria que chegar muito perto”.

“Uma espada seria melhor...”

Os dois símbolos começaram a brilhar e uma fenda preta com um contorno branco surgiu na minha frente. De dentro dela, uma espada saiu.

A espada era igual a fenda, a ponta se mexia como a ponta de uma chama. Peguei-a, não tinha peso algum. Não fazia nenhum reflexo, mesmo o lugar sendo bem iluminado.

Um raio amarelo atravessou de uma ponta da sala à outra.

— Desculpe! – Disse Alice.

“É só pensar em um tipo de arma, que luva irá invocar, então”.

Aproximei-me da “tia”.

— Que espada legal você tem aí, hein? – Disse ela.

— É. Acho que vou ficar com ela.

— Tudo bem, espere aqui.

Alice voltou com uma lança. Ela era maior que a garota, em sua ponta, havia algo parecido com a guarda de uma espada, talvez para garantir que apenas a lâmina atravesse o alvo. Pequenas faíscas amarelas saíam da lâmina.

Dakota escolheu uma rapieira. Além dos vários ornamentos, a lâmina parecia estar em uma temperatura extremamente baixa, já que havia uma gota congelada na ponta.

Troy trouxe duas pistolas pretas. Uma Desert Eagle e outra que aparentava ser um modelo modificado de uma M1911, de acordo com ele.

— Todos já escolheram? Certo. É o seguinte, como não passaram pelo treinamento militar, vocês foram colocados na divisão de reconhecimento. A única ordem de vocês é ir para Estrasburgo. Como eu não estou na divisão de reconhecimento, não vou com vocês. Entenderam?

— Sim. – Respondemos.

— Ok, então, vou levar vocês para os vestiários para colocarem o uniforme.

Depois de trocados, ela nos levou até um caminhão.

— É... – Ela disse. – É aqui que nos despedimos. Sentirei saudades.

Ela era como uma segunda mãe para mim, mesmo não sabendo sobre sua vida, nem seu nome.

— Nós também. – Disse.

— Apressem-se. – Ela sorriu. – Boa sorte.

— Obrigado.

Subimos pela parte de trás do caminhão, logo depois, ele começou a acelerar. Alguns minutos depois, estávamos na estrada.

Naquele momento, a destruição era bem perceptível, mesmo depois de quatro anos.

Plantações queimadas, moinhos e casas destruídas.

Alguns soldados também andavam ao lado da estrada, alguns iam até Paris, outros vinham da cidade.

Estrasburgo ficava a 300 milhas de Paris, cerca de quatro horas de viagem. De acordo com o horário que saímos, chegaríamos no começo da noite.

Presumi que teríamos algo para fazer assim que chegássemos, então, descansei um pouco.

A viagem demorou muito mais, já que paramos em cidades para levar alguns soldados, deixar outros, no fim, chegamos na cidade às nove da noite. Ela estava muito bem fortificada, haviam soldados para todo o lado.

— É aqui que vocês descem. – Disse o motorista.

Descemos. O caminhão deu meia-volta e seguiu novamente para Paris.

“A única ordem de vocês é ir para Estrasburgo”

Procurei alguém para saber se precisavam de algo. Um soldado me indicou onde ficavam os oficiais naquele momento.

— Senhor? – Chamei.

— Pois não, soldado? – Respondeu um.

— Há algo que possamos fazer? É que acabamos de chegar aqui e não recebemos mais ordens desde então.

— Por enquanto, não há nada. Vocês podem fazer o que quiserem, por enquanto.

— Tudo bem. Obrigado.

— De nada. – Voltou às suas atividades.

Decidimos simplesmente andar pela cidade, começando pelo seu exterior. Disseram-nos que a cidade havia sido tomada recentemente, o que explicava os corpos e armas deixadas por ali. Haviam enormes buracos no chão, alguns parcialmente cobertos por madeira queimada. Talvez fossem trincheiras improvisadas.

Ao longe, algumas fazendas eram vistas, ou, pelo menos, o que sobrara delas. Em outra parte, haviam dois grupos de tanques de guerra, com os canhões apontados uns para os outros, enferrujados e agora, tomados pela vegetação. Era provavelmente um legado deixado pela última guerra antes do fim.

Olhando para os restos de uma fazenda mais próxima, haviam quatro soldados. Um atirara na cabeça de um vampiro, a qual estava amarrada na varanda, uma das únicas partes que estavam intactas. A cabeça explodiu e seus pedaços caíram no chão, esfumaçando.

Assim como, normalmente, vemos antes de ouvir, o barulho do disparo veio alguns milésimos depois. Mas não era o som de uma arma, e sim, de um trovão. Com certeza, seu rifle era especial.

Enquanto isso, um oficial passou correndo por nós. Mas consegui ver a patente em seu ombro: General. Este correu para o encontro dos quatro. Começaram a conversar. Era estranho ver um general indo falar pessoalmente com um simples soldado. Provavelmente, era algo muito importante. Alguns segundos depois, o general voltou, correndo.

Os quatro começaram a andar de volta para a cidade. Assim que nos viram, um deles apontou para nós. Se aproximaram.

— Olá. – Disse o soldado de rifle. Olhando de perto, percebi que havia uma baioneta na ponta dele.

— E aí? – Respondeu Troy.

— Vocês já estão encarregados de algo?

— No momento, não. – Respondi.

— Não deram ordens para vocês?

— Não.

— Certo.... Então, nós estamos precisando de mais quatro soldados para partir em missão. Por acaso, vocês gostariam de ir conosco?

— Não vejo problema nenhum nisso.

— Nem eu. – Disse Alice. – Não é, Troy?

— Por mim, tudo bem. – Disse Troy, reagindo à uma pequena cotovelada de Alice.

— Também não vejo problema nenhum. – Disse Dakota.

— Todos estão de acordo? Certo. – Ele apertou minha mão. – É um prazer conhece-los. Sou Glaven, ela é a Aiko, esse aqui é o Shiva e aquela é a Iris.

Nos apresentamos, também.

— E, quando nós vamos? – Perguntei.

— Philippe disse que sairíamos daqui onze horas. Mais ou menos, oito e meia da manhã. – Respondeu Glaven.

Presumi que Philippe fosse aquele general.

— Então, nós temos que passar a noite em algum lugar. – Ele completou.

— Vamos procurar, então. – Disse.

Voltamos para a cidade. Glaven falou com alguns soldados.

— Aparentemente... – Disse ele, se aproximando de nós. – Não tem nenhum lugar pra ficar. Sabe? Nenhuma casa. Então, nós vamos ter que arrumar algum lugar na rua.

Ventos fortes passaram por nós.

— Tem alguns becos, a gente pode fazer um fogo, ou algo parecido. – Disse Iris.

Isso me lembrou dos mendigos.

No fim, após andarmos bastante, achamos um círculo de sacos de areia. Shiva conseguiu um pouco de madeira e fez uma pequena fogueira no meio.

Algum tempo depois de nos assentarmos, Iris, Alice, Troy e Shiva acabaram caindo no sono.

— Parece que a Aiko fez uma amizade com Dakota. – Comentou Glaven.

Elas estavam conversando e davam risadas de vez em quando.

— É realmente muito bom. Ela não é de falar muito, então dificilmente faz amigos. – Disse.

— É bom todos terem confiança uns nos outros. A nossa missão não é fácil.

— É verdade, você não disse qual é a missão.

— A gente tem que atravessar a Alemanha e fazer uma aliança com a Polônia. Tudo isso em segredo, porque os comandantes não querem cooperar com os poloneses.

— Então, basicamente, estamos agindo contra o próprio exército?

— É. Só que é a melhor opção para nós. Se não, vai ser que nem em filmes pós-apocalípticos. O mundo acabou, os humanos têm que sobreviver, e, mesmo assim, guerreiam uns contra os outros. Uma guerra só aceleraria a destruição da humanidade.

Ele estava coberto de razão.

— Pelo menos, eu espero que dê certo. – Completou.

— É basicamente uma missão suicida, já que a Alemanha é uma terra de ninguém.

— Sim. E também não sabemos como está a Polônia. Vai que eles viraram neonazistas e, quando chegarmos lá, nos levariam para um campo de concentração ou algo assim. Só de pensar nisso já dá um nervoso. – Se acomodou. – Mas, então... vamos ter que sair cedo, então, tente dormir também. Boa noite.

— Boa noite.

Levei bastante tempo para dormir.

Acordei antes de todos. Já havia amanhecido, mas não era tão tarde, talvez sete e meia ou oito horas.

Philippe estava nos esperando. Ele estava fora da cidade. Fomos ao seu encontro.

Ele estava ao lado de um caminhão, um pouco diferente do que embarcamos para ir para Estrasburgo. Haviam três mochilas dentro e algum soldado estava dirigindo.

— Chegaram cedo, hein? – Disse ele.

— É. – Disse Glaven.

— Olha, sei que não é o melhor transporte nem os melhores suprimentos, mas, sabe? Não podemos levantar suspeitas.

— Sim.

— De qualquer maneira, tem comida o suficiente para pelo menos dez dias. Também tem kits de primeiros socorros, caso vocês passem algum perrengue, e eu sei que Iris é boa com essas coisas.

Iris sorriu, confiante.

— E... ah, sim. Também há um mapa e cantis para todos vocês.

— A viagem é direta? – Perguntou Troy.

— Não, eles iriam notar o sumiço desse caminhão velho. Apenas podemos leva-los para Mainz, depois, terão que ir a pé até lá.

— Ok.

— Boa sorte para vocês. E... não morram, talvez o futuro da França dependa de vocês. – Começou a murmurar. – Tecnicamente, nas suas fichas, vocês já estão mortos ou desaparecidos... mas... ah, tanto faz! Vejo vocês na Polônia.

Nos despedimos dele e nos acomodamos naquele caminhão. Ele era realmente velho, fumaça preta saía do escapamento, o motor produzia um som estranho, provavelmente eram esses pontos negativos que o tornavam tão fácil de pega-lo sem ninguém notar.

A viagem para Mainz era muito mais rápida que ir de Paris para Estrasburgo, já que sempre estávamos em alta velocidade e não parávamos.

Assim que descemos, o caminhão deu meia volta, com pressa, e voltou.

— Não parece ter ninguém aqui. – Disse Glaven.

— Isso é bom para nós. – Disse.

— Mesmo assim, é melhor ter cuidado.

Todos estavam prontos para sacar as armas, caso qualquer inimigo fosse avistado.

Mainz não era uma cidade tão grande antes do Marco-Zero, menor ainda agora. Talvez chama-la de cidade fosse algo completamente estranho.

A única maneira de atravessá-la seria seguindo pela avenida principal, depois virar à direita e seguir na diagonal.

Chegamos em um cruzamento, além do caminho de volta, só havia um livre, que era o que deveríamos seguir. Os outros dois estavam bloqueados por corpos, escombros e restos de veículos.

— Estranho. – Comentei.

— O caminho livre é o correto, mesmo assim, continua sendo bem estranho. — Concordou Glaven.

Sons de passos. Alguns corpos caindo e inimigos tocando o chão. Fomos cercados em frações de segundos.

— E mais caem na armadilha, parece que não aprendem... – Comentou um vampiro.

Abri a venda e arranquei uma espada grande de dentro. Os outros também sacaram suas armas.

Um grupo grande de inimigos pulou no meio de nós, nos separando.

— Droga! – Disse Glaven.

Partiram para o ataque, três vieram pela frente, bloqueei os ataques e suas lâminas derreteram, algumas gotas de metal derretido caíram aos seus pés. Olharam surpresos para mim. Sorri, vitorioso. Não deixando uma janela de tempo para desviar, ataquei lateralmente, cortando o trio ao meio. Cheiro de sangue, de carne tostada e de metal queimado tomaram conta do ar.

Uma cabeça de vampiro voou de minha direita. Shiva apareceu em um pulo.

Um disparo de Glaven fez o chão tremer, assim como meus ossos.

— E aí? Conseguindo matar alguns deles? – Perguntou, sorridente.

Ele levantou sua Katana negra. Possuía uma lâmina afiada o suficiente para cortar um cavaleiro junto de seu cavalo.

— Três, até agora. – Disse, defendendo um golpe e desferindo outro, matando o atacante. – Agora são quatro.

— É melhor permanecermos juntos até achar uma brecha e fugir.

Retalhamos mais dois ataques.

— Alí! Vamos! – Anunciou Iris.

Olhei para trás, mas não consegui vê-la.

— Droga, parece que não tem jeito mesmo, me desculpem. – Disse Glaven. – Vamos.

— Atrás deles! – Gritou um.

— Ficamos para trás... droga... – Disse ele.

Um corte de raspão atingiu seu rosto.

A única opção era lutar contra todos eles.

O cerco continuou a fechar.

Continuava atacando lateralmente, era a maneira mais efetiva de lidar contra grupos.

Algo atingiu meu braço. Senti os ossos se partindo lentamente, as mensagens da área em direção ao cérebro para alertar sobre os danos.

Um corte diagonal atingiu levemente as costas dele. Shiva jogou-se ao chão como resposta.

— Gire! – Ele gritou.

Segui seu conselho. Matei a maioria, os outros recuaram em resposta.

— Vamos! – Ele correu.

Um machado de dois fios voou em suas costas.

Uma distração perfeita, que nos convenceu que era possível escapar. Não tínhamos percebido os arqueiros nos telhados das casas.

Não consegui nem pensar, todos dispararam.

Pernas, braços, as costas, o tronco. Todos atingidos, mas a real finalização foi no pescoço. A flecha atravessou minha garganta.

Não havia mais ar e eu me afogava no próprio sangue. Tudo escureceu, enquanto minha mente lutava para continuar.

Voltei à minha consciência.

Estava caindo, com a mesma sensação de quando estamos quase dormindo.

Não via nada, apenas sentia frio e ouvia um selvagem vento.

Ao mesmo tempo que estava frio, também estava quente, uma sensação de queimação na pele.

“Estou sonhando? ”, me perguntava. As palavras ecoavam em minha cabeça, por um momento, minha mente estava vazia. Não sabia quem era, o que estava acontecendo ou onde estava.

Assisti minha vida, como se fosse um filme.

“É mesmo, eu estou morto. Mas, para onde estou indo? “

Era uma queda sem fim, em um abismo.

Então, bruscamente, colidi com o chão.

Um lugar com grama verde, cheio de flores, um lago no centro e um obelisco no topo de uma colina. Parecia um jardim, mas não havia nenhum horizonte, era como se o mundo se limitasse a isso.

Andei até o lago. A água era extremamente transparente. Conseguia ver meu reflexo nela.

O reflexo mostrava a minha aparência antes de morrer, com inúmeras flechas cravadas em todos os membros. Mas, olhando para mim, não conseguia ver nada disso.

Havia alguém no topo do obelisco, se equilibrando com o pé esquerdo. Com braços cruzados, a pessoa me observava com seus brilhantes olhos vermelhos. Não conseguia ver nada além disso, ela vestia um manto preto, que balançava ao vento.

Quando percebeu que eu a encarava, estendeu lateralmente seu braço direito, aos poucos, o obelisco se transformou em pó. A pessoa sorriu e, imediatamente, apareceu em minha frente.

Não esperava por isso, mas, mesmo assim, não me assustei.

— Olá... – Sua voz era indescritível, não era de um homem, nem de uma mulher. Não era grossa, nem aguda, não era limpa, nem abafada. Me causava medo, mas, mesmo assim, me deixava tranquilo.

Uma fumaça totalmente negra emanava de suas vestes. O sorriso desapareceu assim que terminou a frase.

— ... – Tentei falar, mas nada saiu.

— Não dirá nada?

— O-olá...

— Agora sim... – Se afastou um pouco. – Bem-vindo. Esta é a sua vida.

— Como? – Perguntei, confuso.

— Esse lugar... sua aparência varia de pessoa para pessoa. Tudo depende de como foi sua vida. Como posso ver, a maioria dela foi calma e pacífica...

— Isso não é verdade.

— Tem razão, esta é apenas grande parte dela... eis, agora, a menor parte...

A água do lago, antes pura e cristalina, tornou-se rubra. As flores tornaram-se ervas daninhas. A grama começou a queimar. A luz desapareceu quase que por completo.

Olhei para a figura novamente, estava sorrindo novamente.

— Uma vida na qual as memórias ruins foram suprimidas pelas boas. Vivendo em um mundo onde a morte desconhece fronteiras, você permaneceu agarrado na vida, interessante como ainda existem pessoas assim.

— Mas, não são todos assim? Querem sempre viver?

— Parece, não é? É um dom que os humanos possuem: o dom da mentira. Não tenha dúvida de que quase todos atualmente querem ir para um lugar melhor... – Apareceu atrás de mim, algo me impedia de virar para trás. – Alguns cometem suicídio, outros, simplesmente desistem, mas não têm a coragem necessária para tirar a própria vida, outros continuam e outros, como você, não desistem.

— A morte não é algo bom. Como as pessoas achariam que é algo melhor do que viver?

— Nesses tempos, sim. Em um mundo cheio de miséria, a morte é uma salvação para as pessoas. Ainda mais para vocês, humanos, seres miseráveis e medíocres, com vidas fugazes e insignificantes. Vocês se abalam com qualquer coisa, se aproveitam dos menos capazes, fazem de tudo para se sentirem bem, não importa o meio que usem para chegar em seu conceito de “satisfação. E, se tudo der errado, colocam a culpa em um conceito de “Deus” por suas ações deploráveis.

Ela estava insultando a raça humana, mas, não estava irritado. Parte de mim concordava e outra discordava.

— ... acho que me empolguei um pouco. – Voltou à minha frente. – Garoto, você está em uma geração perdida, a maioria dos mortos são da sua idade... parecem que todos vocês são mortos por vampiros, não é?

— Sim. Mas, como sabe que a maioria morre para vampiros?

— Eu sou a Morte. Mas, diferente do que as pessoas acham, eu não sei como vocês morreram, nem escolho a hora de suas mortes, não tenho nível hierárquico suficiente para fazer isso.

— Então, você sabe como nós morremos, porque contamos a você?

— Exatamente. Normalmente, passo bastante tempo conversando com humanos, assim, sei como está o mundo. E, aparentemente, de acordo com suas memórias, você morreu com inúmeras flechadas.

— Sim.

— Você tem sorte de ter uma morte rápida e tranquila como essa. Já vi casos piores.

— Então... para onde nós vamos quando morremos?

— Céu, Inferno, Purgatório, Nirvana... tudo depende da sua crença. – Sorriu novamente. – Sabia que perguntaria isso alguma hora, vocês sempre têm essa dúvida. Como vocês não acreditam nas pessoas que voltam? A maioria os taxam como loucos que acham que voltaram da morte.

— Então, existe reencarnação?

— Sim. Essa é uma das duas opções que eu dou.

— Então, a maioria escolhe morrer porque o mundo é cheio de sofrimento e coisas assim?

— Exatamente. Por acaso, você gostaria de reencarnar? Sabe? Estou precisando que alguém reencarne.

— Eu gostaria. Meus amigos precisam de mim.

— Seus amigos? Por exemplo, o Shiva? Bom, ele já morreu, a não ser que você tenha outros amigos ainda vivos.

— Eu tenho.

— Certo. Então, você quer encarnar...

Silêncio.

— ..., mas, se realmente quiser voltar, quero que você faça um contrato comigo...

— Que tipo de contrato?

— Conhece esses vampiros? Ah, mas é claro que conhece... então, por algum motivo, eu não consigo coletar suas almas.

— Onde quer chegar?

— Para coletar suas almas, eu preciso que alguém colete para mim.

— Então, você quer que eu volte para matar vampiros e coletar suas almas?

— Exatamente. Mas, você parece um pouco fraco...

— Eu aceito, mas, já que você disse que sou fraco, vou precisar de poder.

— É por isso que você terá mais chances.

— Como?

— É o seguinte: eu faço você voltar, com mais cinco chances, ou seja, você pode morrer mais cinco vezes. Em troca, eu fico com as almas dos vampiros que matar.

— Parece justo.

— Sim, parece.

— Eu aceito.

Estava completamente decidido que queria voltar.

— Tudo bem. Apenas vou fazer uma marca. – Envolveu meu braço esquerdo na fumaça preta. – Olhe para ele.

Haviam quatro riscos verticais, com um quinto cortando todos na diagonal, do topo da esquerda para a base na direita. É a mesma marcação que vemos em filmes de náufragos, que a usam para marcar os dias que passam.

— Como é que era mesmo... – Invocou sua foice. – Faz tanto tempo que não faço isso. Acho que é ao contrário...

— Faz tempo que não faz alguém reencarnar?

— Isso. – Virou a foice ao contrário. – Ah, sim, é exatamente assim. – Apontou a parte sem fio da lâmina para mim. – Ajoelhe-se.

Imediatamente, meu corpo obedeceu.

— Boa sorte. – Disse, tocando a lâmina em mim.

Tudo se retorceu e eu sentia a mesma sensação de queda.

Desta vez, o baque foi em algo mais rígido, no caso, o concreto da rua.

Estava envolvido naquela fumaça negra novamente, quando se dissipou, meus olhos arderam com a luz do sol.

À minha volta, jaziam os corpos dos inimigos e o de Shiva, praticamente cortado ao meio, algo que não havia notado. Sua katana estava cravada no chão. Em volta dos corpos, haviam poças de sangue. Eu estava em uma delas, mas não havia me molhado. Tentei me levantar, assim que movi os membros, eles começaram a doer insanamente.

“Voltar da morte, com certeza, não é uma experiência tão agradável”

Após algumas tentativas, consegui me levantar.

Queria carregar Shiva, mas, o corpo estava tão danificado, que não seria possível leva-lo para enterrar sem que algum pedaço caísse. Então, peguei sua katana.

“Quanto tempo se passou? “

Aparentemente, apenas se passaram alguns minutos desde então. Se eu fosse rápido, poderia alcançar o resto.

Me lembrava do caminho que tínhamos que seguir, então, continuei seguindo pela rua.

Após um tempo de caminhada, olhando para uma rua ao lado, vi um pequeno rastro de sangue, que entrava em uma casa e uma espada de lâmina avermelhada e guarda dourada no chão. Também haviam alguns corpos de vampiros.

“Qualquer um que seja dono desse rastro de sangue, espero que não seja um dos nossos. ”

Assim que virei à direita, vi, ao longe, o grupo. Eles estavam carregando alguém, que não pude identificar.

Comecei a andar mais rápido e, consequentemente, chegando cada vez mais perto deles.

Quando saíram da cidade seguiram a ponte que passava pelo rio Reno, que estava, por partes, bloqueado por restos de casas e edifícios. Era praticamente um milagre a ponte ainda estar em pé, já que haviam enormes rachaduras nela.

Em um momento, eles desviaram o caminho para uma pequena floresta que ficava próxima daquele rio, segui-os.

Foi um pouco difícil mantê-los no meu campo de vista, já que as árvores cresceram sem descanso desde o Marco-Zero.

Por fim, pararam em uma clareira. Esperei um pouco para me mostrar, para evitar que se assustassem.

A pessoa que eles carregavam era Glaven. Ele estava com uma enorme faixa na cabeça, uma parte estava coberta de sangue. Algumas partes de seu braço direito estavam roxas, indicando uma pancada no local. Aiko e Dakota estavam ocupadas tentado acordá-lo.

— Ei. – Disse Iris, que, por algum motivo, aparecera quase que atrás de mim. – Que bom que vocês conseguiram voltar. Espera, cadê o Shiva?

Ergui a katana.

— Ele não conseguiu fugir. Nós matamos todos eles, mas ele ficou mortalmente ferido. – Menti, afinal, ela não acreditaria se dissesse que eu também havia morrido.

Imediatamente, ela ficou triste.

— Entendo... – Olhou para o chão. – Shiva... – Sussurrou. – Olhou para mim novamente. – O que vai fazer com a katana dele?

— Não sei, mas, provavelmente, a melhor opção seria fazer um túmulo e deixar a katana lá.

— Sim...

Ela foi pegar algumas madeiras. Deixei a espada com ela. Parecia realmente abalada com aquilo, eles provavelmente tinham um vínculo muito forte.

Me aproximei das garotas.

— É, parece que ele se machucou feio.

Aiko levou um susto e caiu para trás. Dakota riu.

— Que bom que você está bem. – Ela disse.

— É bom te ver bem, também.

— Não me assuste de novo... – Murmurou Aiko.

— O que aconteceu com ele? – Perguntei.

— Não sei, quando cheguei onde ele estava, tinha um vampiro morto ao seu lado. Provavelmente teve uma luta corporal com ele.

— Não é uma boa ideia tentar bater em um vampiro, eles são muitas vezes mais fortes que nós.

— É, mas parece que ele matou o vampiro com a baioneta do rifle. – Apontou para o fuzil, que estava encostado em uma árvore. A baioneta estava coberta por sangue. – E foi dentro de uma casa pequena, então, não tinha como atirar.

Tentamos acordá-lo, mas sem sucesso. O tempo passou e Iris fez um túmulo para Shiva. Simples, mas feito para representar a honra de um soldado que morreu em combate para salvar seus amigos.

Ficamos todos reunidos em volta de Glaven, exceto Troy e Alice, que estavam um ao lado do outro, encostados em uma árvore.

— Casalzinho, hein? – Disse Iris, olhando feio para eles.

Ele respirava, mas era o único sinal de vida que dava. De repente, ele acordou, levantando sua cabeça imediatamente. Ele parecia estar desnorteado.

— Hã...? – Disse, confuso.

— Finalmente... – Disse Iris. – Achei que não ia acordar.

— Ah... Mike, que bom que está bem... – Virou a cabeça para os lados, procurando algo. – Cadê o Shiva?

Iris fez aquele cara novamente. Glaven entendeu imediatamente.

— Droga... – Murmurou. – Além dele, todos estão bem?

— Sim. Só você está machucado. – Disse Aiko.

— Que bom, então. – Olhou para o céu. – Por quanto tempo eu fiquei apagado?

— Uma hora, mais ou menos.

— Ainda estamos em Mainz?

— Praticamente sim. – Respondeu Iris. – Estamos a uns 40 quilômetros de Frankfurt.

— Então, é melhor irmos andando. – Tentou se levantar.

— Opa, espera aí. – Disse Aiko, o segurando. – Você acordou, mas ainda não está em condições de sair andando por aí.

— Ok... – Ele deitou novamente.

Decidimos que apenas seguiríamos adiante no dia seguinte, para ter certeza de que ele estava totalmente recuperado.

Glaven havia nos contado o que acontecera.

Lutou sozinho contra um vampiro, que, de acordo com Iris, era um nobre, vigorosa-hierarquicamente muito superior do que os que cuidavam das defesas e iam para as linhas de frente, apenas aparecendo quando havia uma batalha muito importante ou para caçar um alvo que os peões não conseguiram eliminar, no caso, Glaven fazia parte da segunda ocasião.

— Uau! Então, você matou um nobre? – Perguntou Iris, impressionada.

— Sim, mas foi por muito pouco. – Respondeu ele, dando ênfase no “muito”.

...

Acordei entre galhos e folhas. Uma chuva fria e densa apagara o fogo e encharcara a todos.

Já era de manhã, uma árvore havia caído, na fratura, haviam sinais de queimado, provavelmente fora atingida por um raio.

...

Frankfurt estava logo à frente, uma cidade que havia passado três guerras mundiais e um fim do mundo e, mesmo assim, continuava de pé, apesar de ter sido dominada por vampiros.

Inúmeros guardas, que se tornavam apenas pontos em meio à chuva, empunhando os arcos e flechas que haviam me matado. Olhar para aquilo me fazia lembrar da cena.

— Ah... – Murmurou Glaven. – Com certeza, sabiam que estaríamos aqui.

— Mas as condições do tempo nos ajudam. – Disse Iris. – E nos atrapalham, ao mesmo tempo.

Nos aproximamos mais.

— Eles não vão nos ouvir com o barulho da chuva. – Disse. – Pelo menos, se não chegarmos tão perto.

Nos aproximamos ainda mais. Uma travessa era visível, e era um ponto cego entre os guardas nos telhados. Além disso, era completamente coberta por pedaços de contêineres.

— Ali. – Dakota apontou. – Ninguém conseguirá nos ver se formos por aquele caminho.

— É verdade. – Concordou Aiko. – Vamos lá.

Esperamos os guardas virarem, por precaução. Chegamos lá, sem problema algum.

A água atingia o teto como balas atingiam um tanque.

— Vamos ver o mapa... – Disse Iris, tirando-o da mochila.

O mapa estava completamente marcado, descrevendo o caminho e indicando onde encontraram inimigos. Ela também tirou uma caneta.

— Não está molhado, ótimo. – Apontou para uma rua, no mapa. – Estamos à esquerda dessa aqui. Se a gente for pelo caminho mais seguro, que são essas ruas pequenas, nós vamos ter que ir para a avenida e depois para a estrada mais para frente.

— Os guardas estão nos telhados, mas, provavelmente, alguns também patrulham as ruas. É melhor não atacarmos nenhum, a não ser que tenham nos visto ou no caso de não podermos passar sem matarmos um deles. É melhor usarmos armas de longa distância, o meu rifle faz o som de um trovão, que não levantaria suspeita alguma...

— Ok... – Disse para mim mesmo, mas os outros também ouviram. – Preciso de um arco...

Então, a fenda se abriu e peguei o arco. Ele não era igual a espada, que era apenas uma chama, parecia ser feito de algum metal, com rachaduras que brilhavam como o fogo negro.

— Uau, legal! – Comentou Glaven. – Então, você também pode disparar...

— Eu tenho duas pistolas, mas elas fazem os sons de uma arma, então, só vou atirar se estivermos em batalha de fato. – Disse Troy.

Iris guardou tudo.

— Vamos lá.

Atravessamos algumas ruas, até pararmos em uma intersecção. Deveríamos prosseguir, virando à esquerda.

Glaven se inclinou para olhar. Fiquei atrás dele.

— Ah, droga... – Ele pegou o rifle. – Por que eles tinham que se virar exatamente agora?

Me inclinei, assim como ele. Haviam três deles olhando para nós e pegando suas flechas, um na rua e dois no telhado, bem próximos.

Fiz duas flechas se materializarem entre meus dedos, coloquei-as na corda do arco, que era de fogo negro, assim como os projeteis. Puxei, angulei uma para acertar o outro vampiro e soltei. Um foi atingido na cabeça e outro foi dividido em dois lateralmente, o trajeto foi marcado por vapor d’água. Glaven explodiu o outro em vários pedaços.

— Bom, pelo menos, eles não acertaram ninguém. – Disse Iris.

— Que má sorte... – Disse Glaven. – Eu juro que vi quatro... – Indicou com os dedos, olhando para a rua. – Se for verdade, é melhor andarmos mais rápido.

Mais ruas a frente, estávamos a apenas um quilômetro da estrada. A chuva começou a piorar, as densas nuvens diminuíram a luminosidade.

Já na avenida, ouvimos o som de um caminhão.

— De onde vem isso? – Perguntou Alice.

— ... – Glaven procurava. – Está vindo pra cá... – Apontou para uma casa. – Vamos nos esconder ali.

Ele correu e chutou a porta, que caiu.

Ficamos agachados, atrás das janelas. O caminhão parou exatamente na frente da casa. Alguns desceram, não consegui contar quantos haviam.

— Ei, é sério! Tinham sete desses miseráveis aqui! – Um deles disse, irritado.

— Acho que você está vendo coisas. – Disse outro. – Ninguém viu, além de você.

Cutuquei Glaven.

— Eles vão entrar na casa daqui a pouco. A gente ataca eles, ou continuamos andando?

— Vamos sair daqui. É bem arriscado dar de frente com um monte deles. – Respondeu.

Nos arrastamos pelo chão. Os vampiros continuavam discutindo se haviam ou não humanos ali.

— Babacas... – Comentou Iris. – Com certeza, precisam de guardas melhores.

A entrada para a estrada, que era o único meio de sair da cidade, estava quadras à frente. Estranhamente, não haviam mais guardas, nos aproveitando do fato, aumentamos o ritmo.

“Fácil demais”, pensei.

Eu estava na frente, estávamos prestes a virar para a esquerda.

— Estamos quase l-

Fui interrompido por um soco no rosto. A força do impacto percorreu todos os meus ossos, fazendo alguns ranger. Quando olhei, estava voando em direção à porta de uma casa. Ela foi partida em pedaços, alguns ficaram embaixo de mim, outros, em cima.

— Ah, cace-

Foi o que Glaven gritou, antes de levar um chute na cabeça, novamente.

Iris tentou acertar o responsável por isso. O instante foi o rápido demais para minha debilitada cabeça entender tudo, apenas a vi no ar, caindo em cima do telhado de uma casa e abrindo um buraco nele.

Alice foi arremessada em um carro, que estava do outro lado da rua, intacto. Os sons de uma pancada e de vidro quebrando foram produzidos.

Um poste, enferrujado, chegou a dobrar ao ser atingido por Aiko.

Dakota atacou com sua rapieira, mas foi bloqueada, a arma caiu no chão e ela foi arremessada em direção à janela da mesma casa que Iris caiu.

Troy mergulhou rasgando pelo asfalto, até parar no fim da rua.

— Ah, francamente... – Reclamou o inimigo. – Eu esperava mais de vocês...

O som de seus passos nas possas de água indicavam que ele se aproximava de mim. Parou a cerca de cinco metros de distância.

— Principalmente você. Ah, “Aquele que foi para o inferno e voltou”, sua fama criou expectativas, mas, no fim, parece que você é só um sortudo que voltou dos mortos, não é? Sabe, meus soldados ficarão decepcionados ao saber que você é apenas um soldado comum que botou medo neles.

Tentei me levantar, sem sucesso.

— Vamos lá, você é mais forte do que isso. Tudo o que busco, é um inimigo à altura, ou, que me dê um pouco de diversão.

Finalmente, levantei. Atordoado, invoquei minha espada. A chuva caía em cima dela, as gotas viravam vapor.

Sacou uma maça. Uma arma lenta, mas, que quando atinge alguém, o perfura e o dilacera.

— Pode vir. – Ele sorriu.

Corri para cima e tentei realizar um ataque em diagonal, mas ele desviou com extrema facilidade. Antes que conseguisse me recuperar, contra-atacou, com sorte, desloquei a arma para o lado em que me acertaria, mas desviou em uma velocidade muito alta para a esquerda.

— Me falaram para tomar cuidado com essa sua espada.

A luta seria muito mais fácil se ele não conhecesse o potencial dela.

E investiu novamente contra mim, fiz o mesmo e ele desviou novamente para a esquerda.

A única maneira de vencer alguém rápido, é sendo ainda mais rápido.

Segurei a espada com a mão esquerda. Deixei-o vir para cima, fiz a mesma defesa, mas, desta vez, ele desviou para a direita. Nessa janela de tempo, acertei o seu braço com minha mão direita.

Seu braço explodiu, pedaços saíram voando para todos os lados, muito sangue jorrou do ferimento.

Ele gritou de dor e recuou. Sua doentia expressão de deboche havia mudado para pura ira. Agora, seu único objetivo era me matar, de preferência, da maneira mais dolorosa.

Disparou como um foguete, mal consegui vê-lo, de raspão, suas garras passaram pelo meu ombro esquerdo. Fingi estar atordoado.

Ele parou na minha frente, com a maça levantada, pronta para dar o golpe.

Ele mordera a isca perfeitamente.

— Muito lento! – Gritei, enquanto atravessava sua mão com a espada. Uma pequena parte do cabo foi queimada.

Ele deixou a maça cair no chão. Agonizava na minha frente. Peguei sua arma e golpeei-o no abdômen.

A maça ficou presa depois de rasgar sua carne.

— Não está se divertindo? Que pena... – Cortei sua perna direita.

Ele permaneceu no chão, respirando com dificuldade. Sangrava bastante.

— Filho da...

— Como é que é? – Interrompi-o.

— Eu estava dizendo que você é um filho da...

Cortei sua língua fora.

— Ah, desculpa, não consegui te ouvir! Poderia repetir, por favor?

— ...

— Você queria se divertir, não é? Vou te deixar se divertindo sozinho, ok?

— ...

— Certo, até mais!

Glaven estava inconsciente, assim como os outros.

— Ei. – Cutuquei-o. – Glaven? Ei!

— ... O ... O quê?! – Ele assustara-se.

— Tudo bem com você?

Ele permaneceu sentado.

— Ah... droga... – Colocou a mão na nuca. Olhava para o chão fixamente. – O que aconteceu?

— Um vampiro atacou a gente. Ele era forte pra caramba.

— Ah... um nobre... então, todos estão bem?

— Acho que sim. Ele não rasgou ninguém, estão todos inconscientes.

— Ele fugiu?

— Não. – Apontei para o nobre.

— Caramba. Você conseguiu. Boa. – Sorriu.

— Vou ver se os outros estão bem, ok?

— Beleza. – Levantou-se. – Eu ajudo também.

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...