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História Losing Hope - Capítulo 13


Escrita por:


Notas do Autor


Hey pessoal! Tudo bem com vocês?
Como combinado, terça-feira, capítulo novo!

—> Iniciei LH pensando em escrever esse capítulo, ele está planejado desde o início e gostei muito do resultado. Espero que gostem também!
—> Se alguém gosta de ler ouvindo música, sugiro "Angel By The Wings", da Sia, foi o que ouvi enquanto escrevia.
—> Vou explicar algumas referências nas notas finais, então, leiam por favor!

Obrigada por todo apoio e carinho até aqui, vocês são incríveis!
Boa leitura!

Capítulo 13 - Transparência



“Velha alma, suas feridas estão à mostra 

Eu sei que você nunca se sentiu tão sozinho 

Mas aguente, levante a cabeça, seja forte” 

 Angel By The Wings: Sia 

 


Assim que Naruto e Hinata adentraram o Ichiraku, os olhares das pessoas que estavam no estabelecimento se voltaram quase que instantaneamente para eles. 

Hinata abaixou a cabeça constrangida por um instante, mas ergueu o olhar surpresa quando o Uzumaki apanhou a sua mão em um aperto firme, balançando a cabeça em um sinal negativo com um sorriso encorajador. 

Ela respirou fundo e com o incentivo do seu olhar, caminhou em passos determinados até a mesa indicada por Naruto sem abaixar a cabeça por um segundo sequer. 

O rapaz apenas sorriu minimamente, orgulhoso, sentia o olhar de todos sobre si, mas verdadeiramente não se importava, sua única preocupação era deixar Hinata confortável e diverti-la, fazê-la não se sentir mais sozinha. 

Ela precisava se permitir viver, ter novas experiências e construir novos laços. Naruto, mais do que ninguém, sabia o quão ruim é se sentir sozinho e não desejava que Hinata se sentisse assim. Sabia que a solidão produzia insegurança, que levava ao receio e a vontade de se isolar. Ele já esteve naquela posição, já foi e ainda era muito recluso, mas não desejava que a amiga fosse um reflexo de tudo o que viveu, ela tinha a chance de ser infinitamente melhor. 

Por algumas horas, estava disposto a esquecer de todos os problemas, por um curto espaço de tempo, inclinado a ignorar a confusão que viviam e ter uma noite absolutamente comum, sem tantos medos, preocupações e inseguranças. 

Muitas pessoas vivem em busca de emoção e aventura, situações que as desafiem e as levem ao limite da sua existência, mas, de alguma forma, tudo que o Uzumaki queria era uma vida simples, pacata, e sabia que Hinata ansiava o mesmo. 

Esse desejo era consequência de um passado mais exposto do que gostaria de lembrar, da exaustão provocada pelo caos urbano e por não suportar mais o ritmo frenético da sua rotina. E, agora, ele estava em um dos lugares favoritos dos seus pais no mundo, detentor de uma beleza única e simplória, significativo justamente por conta desses aspectos, um lugar ideal para desacelerar o ritmo e descansar, no entanto, até o presente momento, ocuparam-se apenas com problemas e preocupações, os momentos agradáveis eram quase nulos comparados aos desafiadores, ambos precisavam permitir que a vida fosse agradável novamente. Portanto, por pelo menos algumas horas, estava determinado a aproveitar uma parcela da tranquilidade que a cidade poderia oferecer, mantendo-se alheio a qualquer confusão. Ele e Hinata mereciam isso. Mereciam ao menos uma noite de paz.  

Seu humor estava mais tranquilo do que em qualquer outra ocasião. Ele sentia que muito disso devia-se a companhia de Hinata, uma vez que ao lado dela se sentia mais leve, em paz, mais como ele mesmo. Ela o fazia um bem extraordinário e despertava sua melhor versão, a que ele não mostrava a quase ninguém, mas que residia em algum lugar do seu peito. 

Os dias que passaram sem se ver não os distanciou de nenhuma forma, o que evidenciava que já estavam apegados demais para isso ocorrer, e, no fundo, mesmo com tão pouco tempo de convivência, Hinata sentia que não conseguiria suportar caso ele se afastasse. 

Ela estava diferente desde que o conheceu, sentia-se mais viva, arriscava a dizer, mais feliz. Por algum motivo que ainda não conhecia, a presença de Naruto a acalmava e a fazia pensar que as coisas não eram tão ruins quanto parecia ser quando ele não estava por perto. Ele entrou na sua vida e, simplesmente, mudou tudo, fazendo-se tão presente em seu coração que agora seria impossível arrancá-lo dali. 

Tinha se apegado e temia o sentimento que crescia em seu peito sem nenhum controle. Foi fácil se deslumbrar por tudo que o Uzumaki era e representava, mas como se sentiria quando ele tivesse que partir? 

Seu coração ainda não estava preparado para encarar essa realidade. 

   

— Todos estão olhando para a gente. — comentou desviando o foco dos seus pensamentos, observando por cima de um dos ombros os olhares curiosos dos cidadãos de Konoha. 

— Não liga para isso, se você não se importar e agir naturalmente, logo eles vão se ocupar com outra coisa. — Naruto exibiu um sorriso singelo, declarando com firmeza. — Ignore as vozes, os olhares, finja que só existimos nós dois aqui. — sugeriu calmo, olhando no fundo dos olhos perolados. — Você está comigo e não tem motivos para se sentir desconfortável, não estamos fazendo nada demais. Lembre-se que tudo ao redor é insignificante.  

Ela respirou fundo e por segundos que pareceram longos demais, fitou os olhos azuis e realmente conseguiu se esquecer de tudo. 

Por alguns instantes, foi como se tudo a sua volta parasse, inclusive, o próprio tempo, diversos sentimentos circulavam o seu corpo e uma sensação completamente nova e inquietante fazia-se presente em seu coração, contribuindo para o seu descompasso. 

Foi inevitável não sorrir e não sentir o seu peito explodir em uma felicidade que não sabia de onde vinha, mas que estava lá, quase nítida em seus olhos. 

O olhar carinhoso de Naruto era o maior responsável pelo seu estado exultante. Suas íris incrivelmente azuis traziam a sensação de paz, observar o seu raro sorriso automaticamente a deixava feliz. As preocupações de outrora já não importavam, porque o que verdadeiramente significava algo era ter o rapaz ao seu lado, todo o resto tornara-se insignificante perante isso. 

— Obrigada, Naruto! — exclamou sincera, revelando o sorriso mais genuíno que o Uzumaki já pôde vê-la exibir. — Você tem razão, os olhares, os comentários... — perscrutou o local com o olhar, para em seguida, sorrir verdadeiramente. — Eu não me importo com eles. 

— Viu? Não foi tão difícil! — brincou e os dois sorriram um para o outro. 

— E então... O que queria falar comigo? — inquiriu recordando-se da razão do convite do Uzumaki. 

— Sobre isso... O que acha de a gente ignorar esse assunto até o jantar? Sei que está curiosa sobre o motivo que me levou a chamá-la até aqui, mas estou sendo sincero quando digo que esse assunto pode esperar.  

— Tem relação com o fato de estar me ajudando? 

— De certa forma, sim, mas como disse, não precisa se preocupar com isso agora. Não há pecado em relaxar um pouco, Hinata. 

— Eu estou obcecada por esse assunto, não estou? — riu baixinho, um tanto constrangida. 

— Nós dois estamos. É um assunto delicado e que demanda nossa atenção, mas isso não significa que não podemos nos distrair um pouco também, desligar a nossa mente dos problemas. — ofereceu, calmo. — Portanto, o que você acha de por ao menos algumas horas, ignorar a confusão que nos metemos? — propôs com um sorriso infantil desenhado nos lábios.  

— Certo! Por mim tudo bem, contanto que você me esclareça tudo depois. — concordou rendendo-se a leveza do Uzumaki. 

— Combinado, então! — garantiu empolgado, chamando a atenção da amiga ao indicar o cardápio sobre a mesa. — Pode escolher primeiro. 

— Que cavalheiro! — implicou, à medida que Naruto revirava os olhos azuis, divertindo-se. — Não sei o que pedir... — folheou o cardápio rapidamente, em dúvida. — O que sugere? 

— Rāmen— prontamente respondeu, arrancando um sorriso de Hinata. — É o que eu como quando venho aqui, ou seja, quase todas às noites. 

— Acho que você deveria considerar se alimentar um pouco melhor. — repreendeu, mas não parecia de fato irritada, soou mais como uma brincadeira e Naruto concluiu que até mesmo “brava", Hinata conseguia parecer extremamente fofa. — Mas vou aceitar a sua sugestão, eu adoro rāmen. 

— Do que vai querer? — estava rindo por conta da advertência. 

— O mesmo que você. Tem algum motivo para gostar tanto do prato? Parece que tem alguma história por trás disso. 

— Acho que é por conta da minha mãe. — refletiu por um instante, prosseguindo logo em seguida. — Ela adorava. Sendo bem sincero, era o único prato que ela sabia fazer, o ofício na cozinha era mais coisa do meu pai que era mais calmo, paciente e ligado a tarefas domésticas. — sorriu nostálgico. — A dona Kushina era impulsiva e energética, o tipo de pessoa que se envolve em mil trabalhos ao mesmo tempo, uma verdadeira mulher de negócios. — Hinata sorriu, contente por Naruto estar compartilhando uma parte da sua vida com ela. 

Sequer piscava ouvindo seu relato, fitando-o com demasiada atenção.   

— Sei o que deve estar pensando, nem um pouco compatíveis, não é? — exclamou divertido, contudo, seu sorriso foi esmorecendo aos poucos. — Eles eram um casal atípico de fato, mas se amavam mais do que qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido. 

— Eles parecem incríveis, Naruto. — exclamou baixinho, transmitindo o máximo de sinceridade que conseguia com o olhar. 

— Sim, eles realmente eram. — respondeu distante, levantando-se em seguida. — Vou fazer nosso pedido, tudo bem? Volto já! 

Hinata não teve tempo para responder, pois no segundo seguinte, o loiro estava caminhando a passos largos em direção ao balcão visivelmente desconfortável. 

Ela respirou fundo correndo as mãos nos fios escuros do cabelo exasperadamente, um tanto confusa. Questionando-se internamente como uma conversa tão agradável transformou-se rapidamente em algo alarmante, tentando compreender o que de fato aconteceu. 

As oscilações de humor de Naruto a confundiam verdadeiramente, mas seu jeito esquivo e fechado não deixava de intrigá-la. Mais do que nunca, ela queria entender o que aconteceu com ele, ter a chance de enxergar as suas cicatrizes, assim como permitia que ele enxergasse as suas. Queria compreender o seu passado e ajudá-lo a lidar com ele, mas para isso, sabia que precisava ser paciente e ter cautela, provar que era alguém digna da sua confiança. 

Conseguia perceber que o Uzumaki tinha dificuldade em confiar nas pessoas e deixá-las entrarem completamente na sua vida. Por um motivo que desconhecia, ela era uma exceção, mas, ainda assim, ele não conseguia se abrir completamente e expor os seus problemas, era como se barreiras invisíveis o impedissem de se abrir e ela desejava tanto a sua sinceridade. 

Ansiava compreender o homem que em alguns momentos parecia firme, porém, em outros, completamente vulnerável. Vendo-o se aproximar novamente, prometeu a si mesma que continuaria lutando para quebrar as suas defesas. 

   

— Fez o nosso pedido? — questionou com um sorriso leve, tentando reestabelecer o clima calmo entre eles. 

— Fiz sim, espero que goste de miso rāmen— respondeu em um suspiro fundo, expondo um rastro de culpa em sua voz. — Desculpe-me por ter a deixado sozinha. Tudo bem até agora? 

Hinata franziu o cenho por um segundo intrigada, mas sorriu ao recordar-se da promessa que o Uzumaki fez ao convidá-la para jantar, a condição estabelecida por ela de não a deixar sozinha em nenhum momento. Concluiu, também, que o que a afetou não foi o fato de se encontrar sozinha com tantos olhares recaídos sobre si, mas, sim, as constantes inclinações do rapaz e a maneira como ele parecia fugir de certos assuntos. 

Não estava incomodada por ficar sozinha, e notou que já não se aborrecia com os comentários paralelos. 

— Ah, está tudo bem! Já não me sinto afetada pelos olhares e pelo que as pessoas comentam sobre mim. — começou tranquilamente, o timbre carregado de honestidade. — Um amigo muito especial me disse que eu não devia me importar com o que dizem, pois não é verdade, seguir o conselho dele me fez um bem extraordinário. 

Ficaram em silêncio por alguns segundos, até Naruto rir, balançando a cabeça em negação. 

— Esse seu amigo parece um cara legal. 

— Ele é! — afirmou fitando diretamente o oceano azul que eram os olhos do Uzumaki. — Ele tem me ajudado tanto que eu nem sei se um dia vou conseguir retribuir. 

— Você faz o mesmo por ele, mesmo sem saber... — exclamou em baixo tom, de forma que Hinata seria incapaz de ouvi-lo se não estivesse tão próxima. 

Ela resfolegou entreabrindo os lábios surpresa, sentindo o coração realizar um alarde em seu peito, enquanto perdia-se no brilho cintilante do olhar intensamente azul. 

Fitavam-se de uma maneira diferente. Hinata podia sentir as bochechas formigando e tinha certeza que elas portavam uma forte pigmentação rosada. Naruto, por sua vez, sorria involuntariamente frente ao embaraço da amiga, ciente de que seu coração batia em um ritmo muito mais acelerado do que o comum. 

Os dois poderiam passar horas e horas se encarando naquele silêncio contemplativo, com um riso leve e despretensioso desenhado nos lábios, contudo, a chegada de Ayame com os pratos os distraiu da bolha em que se fecharam onde o tempo parecia não passar.


[...]


— Isso está maravilhoso! — Hinata exclamou maravilhada, lambendo o canto dos lábios com vestígio de caldo, à medida que arrancava sorrisos verdadeiros do Uzumaki. 

— Agora você entende porque eu como rāmen todas às noites. — brincou fazendo a morena gargalhar. 

— Definitivamente, compreensível! — concordou em meio a risos, questionando logo em seguida. — E o que mais você gosta de fazer além de comer macarrão submerso à caldo? 

— Hm... E além de ajudar garotas com amnésia que encontro em jardins abandonados? — ponderou fazendo Hinata o fitar incrédula com a comparação. — Sinceramente, não sei o que dizer, não tenho hobbies. Em Tóquio, passava a maior parte do meu tempo trabalhando, vivia em função do escritório, então acabava não sobrando muito tempo para distrações. 

— Isso parece triste... — murmurou para só então se dar conta de que poderia ter soado indelicada. — Desculpe-me, eu não... 

— Tudo bem, Hina. Não é de fato o melhor exemplo de vida feliz. 

Ele sorriu para tranquilizá-la e a mulher preferiu se manter em silêncio, limitando-se a ouvi-lo. 

— Demorou um tempo para eu perceber que tudo a minha volta se tornou uma rotina maçante e sofrida, mas, ao mesmo tempo, acolhedora, uma vez que eu aprendi a odiar toda e qualquer mudança. Estar em Konoha não foi uma decisão fácil de ser tomada, é mais uma medida de desespero. — riu sem humor. — Em Tóquio eu vivia uma vida totalmente apática, não tinha tempo para relacionamentos, amigos, nem para a minha própria madrinha, por muito tempo culpei o meu trabalho por isso, mas a verdade é que aos poucos me afastei. — confessou parecendo distante. — Eu só estou tentando mudar isso, mas tenho medo de que tudo volte ao normal quando eu tiver que retornar. 

— É surpreendente ouvir isso. — Hinata comentou quase que para si mesma. 

— Por quê? 

— Porque é difícil imaginá-lo como alguém refém da própria rotina e do trabalho. Não você. — explicou fitando-o com atenção. — Sei que nos conhecemos há pouquíssimo tempo e que eu não sei nada sobre o seu passado, mas vejo uma capacidade de amar tão grande em você... Você age como se fosse capaz de fazer qualquer coisa por quem ama, o tipo de pessoa que deseja ter a família e os amigos sempre por perto. Essa postura negligente e reclusa não faz parte de quem você é. O homem que enxergo a minha frente, assim como eu, odeia a solidão. 

— Eu... — Naruto começou, mas calou-se ao perceber que não tinha réplica alguma para rebater. 

Um nó intenso estava instalado em sua garganta e seu peito ardia em uma dor incomum, incapaz de negar que Hinata estava certa em suas conclusões. Ele odiava a solidão, contudo, insistia em se afastar de quem ama, porque era uma característica sua destruir tudo o que toca. 

Assim como odiava a solidão, aprendeu a abraçá-la, pois era mais fácil e cômodo. Havia se fechado em uma redoma solitária, onde a fuga sempre parecia a melhor solução. Com o tempo abandonou os seus sonhos, princípios e metas, entregando-se completamente ao que era fácil e banal. 

Não se orgulhava de ter deixado sua vida sair tanto fora dos trilhos, não sentia o mínimo orgulho de ter se perdido tanto. 

Sentia-se completamente transparente diante da análise minuciosa que as íris acinzentadas faziam sobre si, Hinata parecia enxergá-lo por inteiro, inclusive, por dentro, e isso o desconcertava, deixando-o evidentemente sem palavras. 

Mais afetado do que gostaria de admitir, desviou o olhar azul para um canto qualquer, respirando fundo vezes seguidas. Contudo, Hinata novamente o surpreendeu ao entrelaçar os seus dedos sobre a mesa apertando suavemente sua mão, tornando inevitável a tarefa de não encarar as suas palmas unidas e, logo em seguida, as singulares pérolas que eram os seus olhos. 

— Naruto... — iniciou sutil, porém, sustentava um tom decidido e firme. — Como disse, sei que nos conhecemos há pouco tempo e não conheço toda a sua história, mas isso não me impede de enxergar que você carrega muita culpa por dentro e não se acha merecedor de ter pessoas que o amam ao seu lado, por isso, escolhe se afastar. Mas você não deveria agir assim, porque ao contrário do que pensa, você não merece a solidão. 

Declarou desestabilizando-o por completo, o fazendo resfolegar verdadeiramente atônito. 

— Sei o bastante da sua história para compreender que ela é triste, mas um passado turbulento não significa um futuro infeliz. Sei, também, que as marcas que adquirimos involuntariamente acabam influenciando um pouco o caminho que vamos seguir, mas você não pode deixar isso definir o seu destino. O que você deve fazer é olhar mais para você e prometer, não para ninguém, mas para si mesmo, que vai aceitar os recomeços que só a vida é capaz de nos dar. Que a partir de agora, vai se desprender do passado e seguir em frente. Embora não acredite, você é uma pessoa incrível. Sei que não é fácil sair da escuridão que nos encontramos, mas você não pode desistir de tentar. 

Finalizou sem deixar de encarar os olhos azuis que se encontravam completamente atordoados. 

O Uzumaki também não conseguia desviar o olhar, apenas se esforçava para respirar fundo e controlar as batidas descompassadas do seu coração.   

As palavras de Hinata penetraram dolorosamente a sua alma e ele sentia-se sem fôlego, à mercê da confusão de sentimentos que esmagavam impiedosamente o seu peito. 

— Como isso é possível? Como você pode me conhecer tão bem, quando eu mesmo sinto que não me conheço? 

— Acho que, às vezes, só um coração tão machucado quanto o nosso pode compreender cada pedaço da nossa dor. — respondeu simplesmente, refletindo. — Eu tive a chance de observá-lo de perto, de enxergar além do que você está disposto a mostrar, sei que carrega muitos fardos, mas apesar de tudo, está lutando para deixá-los para trás. 

— E, ainda assim, tenho falhado miseravelmente. — suspirou em descontentamento. 

— Está errado! — Hinata negou sutilmente, surpreendendo-o mais uma vez. — Você só estará falhando se desistir, se você não fosse realmente forte, não suportaria passar pelo que está passando. Você não consegue enxergar, mas apesar de ter enfrentado episódios ruins, você sobreviveu e continua tentando. Se você é uma falha, eu diria que o considero uma falha orgulhosa. Sabe o que eu sinto quando olho para você? Sinto um intenso sentimento em meu coração. Porque você não é perfeito, é humano. Você comete erros, tem defeitos, mas busca evoluir. Isso o faz a pessoa mais forte que eu conheço, Uzumaki. — sorriu verdadeiramente, forçando Naruto a fechar os olhos por alguns instantes para poder aplacar as batidas descontroladas do seu coração. 

Refletiu e percebeu que jamais teve uma conversa tão sincera e íntima com alguém, nunca conseguiu se abrir daquela forma. Sentia-se completamente exposto diante das singulares íris peroladas, totalmente afogado dentro de si mesmo, em um lugar onde o passado parecia não doer tanto assim. 

De alguma forma, a presença de Hinata o acalmava e o deixava à vontade para ser plenamente sincero. Naruto não se incomodava com o fato de ela conseguir enxergá-lo tão bem e conseguir desvendar todo seu passado. O que sentia em relação a ela era absolutamente inusitado, no entanto, sentia-se incapaz de temer o que crescia sem nenhum controle em seu âmago. 

Observando-o tão pensativo, Hinata quase se arrependeu de tudo que disse, ponderando se, de repente, não foi longe demais. Apesar de só querer ajudar, sabia que estava sendo invasiva, cutucando feridas que visivelmente não estavam cicatrizadas. Ela não queria ferir Naruto e muito menos ser cruel com as suas palavras, reconhecia que não era fácil abandonar a dor e deixá-la completamente para trás, era um exemplo disso. Entretanto, via em Naruto uma grande sede de viver, alguém bondoso, gentil e capaz de amar com todo coração, mas que se sabotava por não se achar merecedor de nenhuma felicidade. Ele se apagava, e não havia nada mais triste do que isso. 

Arrependia-se, no entanto, de não ter sido um pouco mais sutil. Sua maior preocupação era ter ultrapassado um limite maior do que poderia passar. 

— Naruto, me desculpe! Eu não deveria ter me metido na sua vida dessa forma. 

— Não se pede desculpas por dizer a verdade, Hinata. — liberou uma risadinha baixa, sem qualquer vestígio de mágoa ou raiva, apenas compreensão. — O que você disse me afetou tanto porque é a mais pura verdade. Você sabe mais de mim do que muitas pessoas que conviveram comigo a vida toda, e digo isso interiormente falando. Você está certa em afirmar que eu me culpo e me cobro demais, que acho que não mereço as pessoas que tenho a minha volta. Está malditamente certa ao afirmar que eu odeio a solidão, e, ainda assim, afasto as pessoas. Mas para mim é mais fácil ser assim, entende? Porque se eu não tenho ninguém, não preciso enfrentar a dor de perdê-las. — assumiu o que jamais revelou a ninguém, pegando Hinata totalmente de surpresa. 

Ele fechou os olhos azuis por um momento, completamente absorto e afetado pelas lembranças, quando tornou abri-los, estavam cheios de pesar, carregados de uma tristeza que não era mais capaz de disfarçar. 

Hinata limitou-se a observá-lo em silêncio, à espera de uma continuação que sabia que viria. Naruto não precisava das suas palavras agora, necessitava apenas da sua companhia e do seu apoio. 

— Sei que estamos aqui há algum tempo, mas será que posso levá-la a um lugar antes de deixá-la em casa? — pediu soando mais inseguro do que pretendia, porém, era tarde demais para voltar atrás, e sequer desejava fazer isto. 

— Claro, Naruto! — concordou ciente de que se não fosse importante, ele não estaria pedindo. 

— Só vou pagar a conta, me espera? 

— Estarei exatamente aqui quando voltar. — exclamou gentil, lançando-o um olhar de incentivo e segurança. 

O Uzumaki apenas aquiesceu antes de se afastar, reprimindo um profundo suspiro, certo de que não seria fácil dar aquele passo, mas que precisava desesperadamente expor o que estava sentindo. 

Já havia sido consumido por tempo demais. 

    

[...]

   

Embora não compreendesse a escolha do lugar, não demorou muito para Hinata reconhecer o trajeto realizado por Naruto constatando que faltava pouco para chegarem à antiga residência Uzumaki. 

Não questionou por nenhum momento a escolha do lugar, mas estava verdadeiramente curiosa para entender o porquê de dentre tantos outros destinos, Naruto escolher levá-la justamente até ali, o lugar onde seus caminhos se cruzaram pela primeira vez. 

Não era tola de acreditar que o fato de terem se conhecido precisamente ali era a única razão para estarem seguindo diretamente para a antiga propriedade, contudo, não podia negar que o lugar que para ela já era bastante especial, ganhou um significado diferente desde aquele dia, uma vez que marcava o início de grandes mudanças. 

Desde que conheceu Naruto sua vida se transformou completamente. Algo nele prendia completamente sua atenção e talvez isso fosse consequência de ter reconhecido em seu olhar algo bastante familiar desde que o viu pela primeira vez: solidão. Uma sensação de proximidade perturbadora. Simplesmente não se sentia capaz de explicar esse sentimento.  

Estava agitada, seu coração batia em um ritmo desenfreado enquanto não conseguia deixar de inspecionar o Uzumaki com o olhar. Ele, por sua vez, mantinha-se concentrado na estrada praticamente deserta, parecendo cada vez mais distante, preso as suas próprias lembranças. O silêncio entre eles era inquietante, Hinata desejava que o rapaz falasse alguma coisa, — qualquer coisa! —, no entanto, ele prosseguia em seu silêncio mordaz e julgou coerente respeitá-lo. 

Quando finalmente chegaram, o acompanhou até o jardim ainda sem verbalizar nada. Limitou-se a observar atentamente a postura rígida do amigo e sua respiração errática. Delicadamente, mas segura do seu ato, levou sua mão até a dele entrelaçando os seus dedos em um aperto firme. Naruto fitou suas palmas unidas por alguns segundos até finalmente conseguir levantar o olhar e encarar diretamente seus olhos perolados, encontrando neles o conforto necessário para iniciar. 

— Meus pais viveram anos aqui até finalmente se mudarem para Tóquio, a esta altura imagino que já tenha deduzido, mas eles faleceram quando eu ainda era criança. — depois do episódio no Ichiraku, Hinata já imaginava, contudo, foi difícil ouvi-lo admitir, principalmente porque notava seu esforço em conter suas emoções. 

Seu coração comprimiu-se em profunda empatia e ela intensificou o aperto entre seus dedos, transmitindo o máximo de apoio possível com o gesto, incentivando Naruto prosseguir com o relato. 

— Apesar das personalidades distintas, eles se amavam muito, tinham uma relação de respeito e apoio mútuo, baseada em cumplicidade. Todos diziam que eles eram um casal perfeito e, de fato, eles eram. O meu pai abriu mão da sua vida em Konoha só para apoiar o sonho da minha mãe de ser uma grande arquiteta, eles construíram uma vida nova na capital, eram felizes e conquistaram muito juntos. Mas, inesperadamente, tudo acabou. 

— Naruto, não precisa continuar se não quiser. — propôs baixinho, sem querer forçar o Uzumaki a resgatar memórias tão dolorosas. 

Ele apenas balançou a cabeça negativamente e respirou fundo, por ora, conseguindo controlar suas emoções. 

— Além da paixão por arquitetura, minha mãe era muito ligada à arte, era comum vê-la viajar a trabalho ou para conhecer novos lugares, museus e teatros, o meu pai sempre a acompanhava. Eles estavam em uma exposição na cidade na noite em que faleceram, houve uma explosão... Um atentado que pôs fim a tudo. 

A respiração ofegante de Naruto quebrava o silêncio gradativamente, enquanto seu peito era ocupado uma dor lancinante provocada por todas as recordações que por anos lutou para esquecer. 

Hinata o fitava estarrecida, sem saber o que dizer para consolá-lo. Lágrimas impertinentes embaçavam a sua visão e ela queria poder retirar ao menos um pouco da dor que o Uzumaki demonstrava estar sentindo. 

— Nos meses que sucederam a perda dos meus pais, tudo me lembrava eles. Meus padrinhos, Jiraiya e Tsunade, assumiram a minha guarda e fizeram de tudo para que eu tivesse uma infância e uma vida feliz. Eles que sempre foram um casal disfuncional, se uniram com o propósito de serem um bom exemplo para mim e me ofereceram todo o amor que uma criança pode querer, porém, mesmo assim, a falta dos meus pais era um sentimento constante e simplesmente não consegui amadurecer de forma saudável. A juventude trouxe à tona o meu pior lado, o lado que foge dos problemas ao invés de solucioná-los, e que não conhece limites... 

Concentrado em sua história, Naruto sequer parecia sentir o aperto de Hinata em sua mão cada vez mais forte. 

— Passei praticamente toda adolescência como se não precisasse dar satisfação a ninguém, fiz escolhas erradas e cometi erros, muitos e muitos erros. Dentre eles, o pior de todos. Eu me apaixonei... 

O Uzumaki sorriu sem humor, alheio ao tormento de Hinata que, surpresa, afrouxou o aperto em sua mão. 

Ela sentiu seu estômago revirar enlouquecidamente, sem compreender o porquê de aquela revelação incomodar tanto. Sua mente produzia perguntas e mais perguntas a respeito do que Naruto tinha acabado de expor, sentindo seu coração comprimir de maneira ilógica e irracional. 

— Eu tinha a Tsunade, o Jiraiya, amigos verdadeiros, diversas pessoas que me amavam e se importavam comigo, mas tinha a necessidade de ser visto e amado por uma única pessoa. Eu sabia que ela gostava de mim, mas era nítido que não da maneira que eu gostaria que ela gostasse. Hoje eu enxergo que não era um amor verdadeiro, era carência, desespero para ser visto, reconhecido..., mas é um egoísmo imenso atribuir a outra pessoa à responsabilidade de te fazer feliz. 

— V-você ainda a ama? — balbuciou antes que pudesse refrear as palavras. 

— Não! — respondeu simplesmente, demonstrando sinceridade. 

— Como superou? 

— Não sei se dá para colocar dessa forma, mas aconteceu. 

— Foi outra pessoa? — questionou vacilante. 

— Foi outra situação! — contrapôs convicto, mostrando-se distante novamente. — Há aproximadamente um ano atrás, perdi o meu padrinho, Hina, e minha melhor amiga. 

— Naruto... 

— Foi um acidente. Eu estava lá e fui o único sobrevivente. — a interrompeu precisando, desesperadamente, desabafar. — Sei que provavelmente deveria ser grato por estar vivo, mas tudo que ainda consigo sentir é culpa. E eu sinto tanto a falta deles. Falta do cara que me abraçou quando meus pais morreram, que me criou e me deixou chorar no seu ombro enquanto não derramava uma lágrima sequer por também ter perdido seu melhor amigo. 

Pela primeira vez desde que iniciou o relato, a voz de Naruto fraquejou, mostrando-se embargada. Porém, antes que ele pudesse processar o que estava acontecendo, teve os ombros contornados por Hinata que abraçou fungando baixinho, sendo retribuída prontamente, com a mesma intensidade. 

Ele se agarrou a ela em desespero, sem conseguir lidar com a confusão sentimentos que circulavam o seu corpo, sentindo-se estranho por ter se permitido ser tão vulnerável, mas igualmente leve, como se tivesse se livrado de um fardo pesado demais. 

Não estava arrependido da sua atitude, perto de Hinata, não conseguia refrear seus pensamentos, tal como se sentia compelido a ser completamente sincero, ser ele mesmo... Ela tinha o dom de confortá-lo com apenas um olhar e naquele momento, com os braços dela ao redor do seu corpo, soube que não importaria o que acontecesse, tudo ficaria bem. Depois de tudo, se sentia realmente assim. Verdadeiramente em paz. 

Lentamente, Naruto se afastou com o intuito de agradecê-la por ficar ao seu lado o tempo todo. Agradecê-la por apoiá-lo em gestos e palavras, e por não ter soltado a sua mão por nenhum segundo enquanto ele despejava sobre ela suas dores mais ocultas. Entretanto, assim que seus olhares se encontraram, todas as palavras ficaram presas na sua garganta e tudo o que conseguia fazer era encarar os olhos bonitos, sentindo-se estranhamente sem fôlego. 

Quanto mais se olhavam, mais intensamente seus corações batiam, inebriados demais para conseguir interromper a conexão estabelecida entre eles, com a adrenalina reagindo em cada poro de seus corpos. 

Um arrepio percorreu o corpo de Naruto quando uma das mãos de Hinata, instintivamente, deslizou do seu ombro e agarrou-se ao seu peito, podendo sentir as batidas frenéticas do seu coração contra suas digitais. 

Ela ergueu o olhar sem saber como agir, confusa com o que estava acontecendo, consumida por uma necessidade quase básica de se aproximar mais e mais... 

Naruto, por sua vez, não estava pensando nas consequências quando trouxe o corpo de Hinata ainda mais para perto, pressionando levemente a sua cintura, enquanto ponderava o quanto aquilo parecia certo

Ele observou, atentamente, quando as pálpebras da amiga se fecharam em uma calma quase desesperadora, e sem sequer perceber, inspirou fundo, aproximando vagarosamente seus rostos.

 

 

 


Notas Finais


Primeiro de tudo, não me odeiem por terminar o capítulo assim!!

Sobre o capítulo; como vocês observaram, ele foi quase completamente voltado ao Naruto. A fic chegou a uma fase que é importante revelar mais sobre ele, mas antecipo que isso não é tudo! Ele contou uma parte da sua vida a Hinata, mas falta muita coisa aí! Basicamente, ele narrou o que aconteceu, mas não COMO aconteceu! Então fiquem tranquilos que retornarei a esse assunto futuramente com uma riqueza maior de detalhes.
—> Segundo ponto; não me odeiem pela Hinata não ser o primeiro amor do Naruto. Acredito que muitos de vocês vão se atentar a esse detalhe especificamente, mas garanto, é diferente! O fato de o Naruto ter sido apaixonado por alguém no passado não é o mais importante aqui, esse detalhe é fundamental para outra situação. Estou afirmando isso para tranquiliza-los e não gerar conclusões precipitadas. Colocando o meu favoritismo um pouco de lado e tratando a história de forma mais lógica, é importante lembrarmos que o Naruto tem 26 anos e viveu uma vida inteira em Tóquio antes de conhecer a Hinata, é natural que ele tenha tido outras experiências, estranho seria o contrário... Contudo, essa paixão ficou e permanecerá no passado, sendo apenas pano de fundo para outro contexto.
—> A fala da Hinata, chamando o Naruto de “falha orgulhosa” é referência ao capítulo 98 do mangá, utilizada aqui porque amo esse momento NH.
—> Pensei em muitas formas de contextualizar o falecimento do Minato e da Kushina, a ideia de ser um atentado veio a partir da obra “O Pintassilgo”, de Donna Tartt. Obviamente, a única coisa em comum é a circunstância da morte. Apenas deixando registrado aqui no que eu me inspirei para vocês.

Acho que é isso, espero não ter esquecido nada! Sintam-se à vontade para dizer o que estão achando da fic, talvez eu demorei um pouquinho porque vou focar em escrever em off para antecipar a história, mas não se preocupem, porque eu volto!

Grande abraço! ❤


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