História Losses and Gains - Capítulo 49


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Notas do Autor


ola ola, esse cap vai contar como uma parte dois do cap anterior, tá? espero que gostem e não se preocupem pq o próximo já eh na visão do menino Thomas :)

boa leitura 💜

Capítulo 49 - Forty seven


TALIA

- Olha só para você. Para quem dizia que não ia rolar nada com o quarterback, as coisas já estão em um patamar bem mais elevado. - Emmy caçoa de mim, o que faz com que Holly dê risada.

Depois que Thomas me deixou em casa, encontrei minha mãe e minha irmã brevemente, e avisei que dormiria na casa da minha amiga. As duas ficaram mega preocupadas comigo, mas consegui escapar de casa antes que meu pai saísse do quarto. Acho que ele estava em conferência por Skype com um cara de Ottawa, no Canadá. Depois disso, liguei para Emmy e ela concordou na mesma hora, e até ameaçou confrontar meu pai se fosse preciso.

Fora isso, troquei algumas mensagens com Thomas e agora estou sentada na cama de Emmy, com Holly - que também veio para dormir na casa dela - dividindo uma caixa de pizza.

- Deveria ganhar um prêmio por ter ganhado o coração dele. Sabe quantas vezes eu já o vi dispensando as garotas do colégio? Muitas. - Holly diz, fazendo minhas bochechas formigarem.

- Ela tem razão. Conhece a Jade? - Emmy pergunta, mordendo um pedaço de sua pizza.

- A loura dos olhos verdes que faz exercício? - levanto uma sobrancelha, e minha amiga concorda.

- Essa mesma. Outro dia eu estava indo pegar um refrigerante na máquina do refeitório, quando vi ela se aproximando do seu quarterback. Quando ela o chamou para sair, ouvi claramente ele dizer que já tinha um compromisso importante que não podia adiar, e adivinha só? Foi no mesmo dia em que vocês foram na cafeteria na frente do colégio. - ela sorri de canto, e Holly ri, comendo sua pizza.

- Isso não é nada. Conhecendo ele como conheço, sei que ele faria a mesma coisa se fosse outra pessoa. - as duas me acertam com guardanapos usados, mas relevo. É de surpreender como ele tenha dado um fora na tal Jade. A garota é uma gata. Cabelos que dão inveja na entojada da Stacey, um corpo quase esculpido por conta da academia, e olhos verdes de tirar o fôlego de qualquer um. Ela é praticamente o sonho daqueles idiotas do colégio.

- E por um acaso ele dá um colar de aniversário para outra pessoa? - Emmy aponta para o pingente no meu pescoço, e eu automaticamente levo a mão até o objeto.

- Ou ele diz na cara de outra pessoa que quer beijá-la sem muita gente por perto? E ainda por cima, no sofá da casa dele? - Holly completa e Emmy ri alto. Balanço a cabeça e desvio o olhar.

- Pode falar o que quiser, mas ele está caidinho por você. E você também está. - Emmy aponta o dedo, e me concentro no meu copo de refrigerante já vazio. O som de leves batidas na porta faz meus músculos relaxarem por ter que desviar desse assunto.

- Estou entrando. - a figura masculina do namorado da mãe de Emmy aparece. - Sei que o papo está bom, mas está ficando tarde e amanhã vocês têm aula. Ordens diretas da sua mãe. - ele encara a minha amiga, logo se oferecendo para pegar a caixa de pizza vazia, juntamente com os copos.

- Achei que fosse dormir na sua casa hoje. - Emmy diz, o ajudando com os copos de vidro.

- Eu ia. Mas amanhã vou ter o dia de folga no trabalho e resolvi ficar um tempo com sua mãe, se não se incomoda. - ele diz indo até a porta.

- Está tudo bem, Frank. Acho que ela está se sentindo sozinha demais nesses dias, é uma boa ficar com ela, já que o colégio ocupa todo o meu tempo livre. E ainda tenho o meu curso, então não posso fazer muita coisa. - Emmy diz tranquila, colocando a mão na maçaneta.

- Se depender de mim, sua mãe nunca vai se sentir sozinha na vida. - ele sorri, todo bobo. - Boa noite, meninas. - ele acena para Holly e eu, e nós acenamos de volta.

- Ele é um cara legal. - comento enquanto ajudo Holly a arrumar os colchonetes no carpete do quarto.

- Sim. Ele faz um bem danado para a minha mãe desde a separação do meu pai. - Emmy dá de ombros, subindo em sua cama. - Boa noite. - ela fala baixo antes de apagar o abajur.

Tento me acostumar com a escuridão sem entrar em pânico. Eu realmente nunca gostei do escuro. É como se eu pudesse escutar as brigas no andar de baixo como se estivessem no pé do meu ouvido. Tento acalmar a respiração enquanto Holly se aninha no seu cantinho.

*****

Já são duas da manhã e eu não consigo pregar os olhos. Emmy e Holly estão apagadas há um bom tempo. Meu nervosismo está aumentando e isso não é bom. Nada bom. Preciso respirar ou vou acabar tendo uma crise no meio da noite.

Dou uma olhada nas duas, e pego meu celular. Atravesso o quarto silenciosamente e abro a porta, logo saindo. Desço as escadas e vou para a sala. Preciso de alguns minutos antes de voltar.

Me sento no sofá perto da janela, e encaro o céu estrelado. O ar frio vindo de fora me ajuda a acalmar as batidas do meu coração. Eu realmente preciso dar um jeito nesse medo idiota. Não posso viver com isso para sempre. Acho que agora sim é o momento certo de ir ao tal psicólogo que a mãe de Rafael me recomendou outro dia.

Enquanto estou observando a rua iluminada pela luz do poste, meu celular vibra nas minhas mãos e logo a tela se acende. É uma mensagem de Thomas.

Por favor, me diga que está acordada. Preciso de você. A mensagem chama a minha atenção. Pelo jeito que me escreveu, parece desesperado. Decido não responder, e sim ligar. Seja o que for, sinto que ele realmente precisa de mim.

Balanço a perna inquieta enquanto espero que ele atenda. Depois de exatos cinco toques, ele finalmente me atende.

- Thomas? Está tudo bem? - tento falar baixo, e escuto um burburinho do outro lado da linha.

Não. Preciso te encontrar. - sua voz está falhando, e percebo que ele tem que fazer um esforço para falar. O que está acontecendo?!

- Certo, onde você está? - pergunto subindo as escadas rapidamente.

No hospital. O mesmo que Amber ficou. - ele funga, e eu percebo mais do que nunca que ele precisa mesmo de mim.

- Tudo bem, não sai do lugar. Chego em vinte minutos. - desligo a chamada, e entro no quarto de Emmy, que parece acordar e me encara.

- Onde vai à essa hora? - ela sussurra enquanto eu me viro para não incomodar Holly enquanto coloco uma calça jeans.

- Ao hospital. Thomas me mandou uma mensagem e parece não estar bem. Eu vou ver o que está acontecendo. - respondo dando um último nó no cadarço e puxo minha blusa xadrez da bolsa.

- Precisa de ajuda? Acho que Frank emprestaria o carro dele. É mais rápido. - ela passa as mãos nos fios azuis desgrenhados, e eu nego com a cabeça.

- Não precisa. Não é muito longe, de qualquer forma, mas valeu mesmo assim. - sorrio e pego minhas chaves. - Eu já volto. Não me espere acordada, mando mensagem quando puder. - Emmy concorda, e eu desço as escadas.

Já no meu carro, tomo cuidado ao sair da garagem espaçosa da casa da minha amiga, e acelero pelas ruas desertas. Eu não sei o que está acontecendo, mas ouvir o tom de voz murcho do quarterback do outro lado da linha, me deixou com o coração na boca. Espero que não seja nada muito grave.

Passo no sinal vermelho antes de entrar no hospital, e encosto na primeira vaga vazia que vejo. Aperto o botão do alarme e me apresso em chegar ao interior do prédio. Não demora muito até eu ver a figura esguia de Thomas sentado em uma das cadeiras da recepção, com os braços apoiados nos joelhos e cabeça baixa.

- Ei, o que houve? - coloco minha mão sob o seu ombro, e ele tem um leve sobressalto. Quando ele levanta a cabeça, confirmo a minha suspeita de minutos atrás. Ele estava chorando.

Thomas não diz nada, apenas fica me encarando e logo joga seu corpo por cima do meu, me abraçando apertado. Dá para sentir de longe que ele está tenso. Tenso e triste, talvez até estressado. Sua respiração fica mais pesada, pois está na cara que ele está segurando o choro. Estou com um certo medo do que possa estar acontecendo para ele chegar à esse ponto, mas eu continuo passando as mãos nos seus fios macios, na tentativa de acalmá-lo.

Por cima de seus ombros largos, vejo sua irmã se aproximar de nós, mas assim que nos vê, contém os passos. Ela faz um sinal que vai para outro lugar, e eu agradeço com um sorriso. Preciso descobrir o que está acontecendo primeiro, depois podemos conversar normalmente.

Quando Thomas decide me soltar, vejo seu rosto meio avermelhado e úmido. Me parte o coração vê-lo desse jeito. É como se eu tivesse a obrigação de protegê-lo de seja lá o que estiver sentindo.

- E então? Vai me contar o que está acontecendo? - pergunto, levando minhas mãos até seu rosto e secando os resquícios de lágrimas pelas bochechas. Por ele ter a pele muito clara, suas bochechas estão deveras rosadas, assim como o nariz está bem avermelhado.

- Eu não sei, eu estava dormindo quando Amber me acordou gritando. Quando vi, minha mãe havia desmaiado no meio da cozinha. - ele desvia o olhar por alguns segundos, e eu sinto meu coração apertar. - Eu congelei. Literalmente travei no lugar. Não fazia ideia do que fazer, e só fui voltar a pensar quando Amber grudou as unhas nos meus braços e me mandou ajudá-la a levá-la para o carro dela. - observo ele cutucar a unha, mantendo o olhar fixo ali.

- Ela toma algum remédio? Ou não comeu nada? Eu também já acabei desmaiando algumas vezes, sabe disso. - ele respira fundo, olhando para o teto branco da recepção.

- Minha mãe têm a saúde de ferro. Não sei o que aconteceu de tão grave a ponto de ela desmaiar no meio da noite. - ele passa as mãos nos fios pretos, voltando a me encarar. - Foi mal te tirar da casa da Emmy à essa hora. Sei que não está em um bom momento, mas eu não sabia se conseguiria ficar muito tempo sozinho sem enlouquecer de vez. - ele encosta na cadeira, e eu balanço a cabeça.

- Está tudo bem, quarterback. Fizemos uma promessa, lembra? Isso também vale para você. - suas íris escuras me olham com atenção. Mesmo com essa expressão abatida, esse garoto consegue ser um gato.

Ele segura as minhas mãos novamente, e logo sua irmã aparece com um copo médio de café em uma mão, e uma garrafa de água na outra.

- Toma essa água, você precisa. - ela estende a garrafa na direção de Thomas, que pega e se ajeita no banco.

- E então? O que os médicos disseram? - ele pergunta preocupado. Não imagino o que ele deve estar sentindo agora. Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente teria invadido hospital à dentro enquanto Marianna corre atrás de mim.

- Isso tudo foi estresse e exaustão, mas está bem agora. - Amber responde, nos deixando um pouco confusos. - Você sabe como a mãe é boa em esconder o que ela sente, e quando coloca algo na cabeça, ela vai até o fim. Me parece que algo deu errado no trabalho, e acabaram descontando em cima dela. Quando desci, vi um monte de papéis espalhados pelo sofá e a mesa de centro da sala, ela provavelmente deveria estar tentando consertar o que "fez". - ela termina de explicar, o que me deixa surpresa. Eu não sabia que a mãe deles tinha esse lado sombrio. Sei que todo mundo tem um lado obscuro, mas a Sra. Hayes sempre me pareceu contente e animada o tempo todo. É estranho pensar em como isso é um pouco óbvio, eu mesma faço essa prática de sempre dizer que está tudo bem, mesmo quando não está. Nisso, eu e a mãe do quarterback somos iguais.

- Eu sabia que tinha algo de errado com ela, só não sabia que era algo tão ruim quanto exaustão. - Thomas se levanta, começando a andar de um lado para o outro, meio paranoico. - Aquele francês deve ter colocado muita pressão pra cima dela, Amber. Eu sabia que ele não foi em casa à toa. - ele levanta o indicador, ainda andando de um lado para o outro, completamente atordoado. Não sei do que ele está falando, mas estou sentindo seu nervosismo de longe.

- Também não é assim, Thomas. Uma coisa não têm nada a ver com a outra. Nós dois sabemos o quão ela é dura com si mesma, um trabalho tão importante quanto o que ela estava fazendo é de deixar qualquer um de cabelo em pé. - Amber se levanta, indo até seu irmão, fazendo-o parar de andar. Sinto que estou sobrando nessa conversa, mas não quero sair. Não sei se devo, na verdade. Ele está precisando de companhia agora, e se for para eu ficar sentada escutando os dois irmãos discutirem, por mim está tudo bem.

- É, mas foi esse trabalho importante deu no que deu, e agora ela está nesse hospital de merda. - ele responde rápido, e é nessa hora em que decido interferir. Sei na pele o que ele vira quando está de cabeça quente, e não quero que Amber decida levar isso para frente.

- Certo, acho que já deu, não é? - ele faz o possível para não me olhar, pois sabe que vai acabar se rendendo de uma forma ou de outra. - Olha, eu não sei o que sua mãe passa, e nem você sabe o que rola na cabeça dela. Ela estar aqui já é o ruim o bastante, tenho certeza que ela detestaria saber que estão discutindo enquanto ela está lá dentro. - falo, mas ele continua me ignorando. - Sabe se ela já pode receber visitas? - me viro para Amber, que está olhando com certa dureza para o quarterback.

- Sim, ela pode. Só não está acordada por conta dos remédios. Provavelmente ela vai ter alta amanhã no almoço. Quarto trinta e cinco. - ela responde, voltando seus olhos para mim. Os dela são mais claros que os de Thomas, mas ainda assim são parecidos.

- Ótimo, por que você não vai lá pra dentro ver que ela está bem com seus próprios olhos? Vamos esperar você aqui. - aponto para o interior do hospital, e com muito custo, Thomas parece aceitar a minha proposta e vai pisando duro até o quarto onde sua mãe está. Suspiro aliviada e me jogo na cadeira da recepção de novo.

- Olha, eu amo esse garoto, mas às vezes quero bater nele com todas as minhas forças. - Amber comenta, se sentando ao meu lado novamente.

- Às vezes ele consegue ser um cabeça dura de primeira, mas com um pouco de insistência ele cede. - falo passando as mãos no cabelo, sentindo o olhar dela sobre mim. Está ficando meio desconsertante.

- Obrigada por aparecer aqui. Acho que eu estaria perdida se tivesse que lidar com uma mãe no hospital, e um irmão quase enlouquecendo. - ela diz, se aproximando de mim.

- Não foi nada. Ele mesmo me ligou, e pela voz, não me parecia nada bem.- falo, vendo ela sorrir minimamente.

- Eu não sei em que patamar as coisas entre vocês estão, mas você está fazendo um bem danado para ele, Talia. Quando eu fiquei internada depois do acidente, eu soube que Matt estava se desdobrando para impedir que ele entrasse hospital à dentro, até você chegar, salvando a pátria. - ela sorri, e eu endireito minha postura na cadeira.

- Eu também não sei o que estamos fazendo, Amber. De verdade. Mesmo quando não quero, eu estou pensando nele. O universo sempre dá um jeito para que eu e ele fiquemos no mesmo espaço, chega a ser aterrorizante. - acabo confessando sem perceber, o que aumenta o sorriso dela. Eu não sei o que deu em mim, mas é como se ela tivesse um certo poder de me fazer abrir a boca sem menos perceber. Só não sei se isso é bom ou ruim.

- Eu não sei o que rola entre vocês, mas fico feliz em saber que meu irmão está se envolvendo com uma pessoa como você. Ele já sofreu muito para a pouca idade que tem, e sei que você também têm os seus demônios, e espero que um consiga ajudar o outro. - ela sorri com ternura, e sinto um frio na espinha.

Ficamos conversando por mais um tempo, até que Thomas aparece. Ele se arrasta até onde estamos, e se joga ao meu lado.

- Será que agora acredita em mim quando eu disse que ela estava bem? Ou precisa de mais um tempo lá dentro? - Amber diz em um tom provocativo, e eu olho para ela. Eu sei como é ser a mais velha e tentar dar um jeito no mais novo, mas também sei quando não é hora de provocações. E esse não é um bom momento.

- Eu nunca disse que não acreditava em você, Amber. Eu só... sei lá, estava nevoso e não deveria ter dito o que eu disse. Foi mal. - ele balança a garrafa de água que ela deu à ele, já vazia.

- Está tudo bem. Eu entendo, no seu lugar, eu faria o mesmo. - ela dá a volta, e se senta ao lado dele, lhe dando um beijo na bochecha. - Agora vai pra casa. Está tarde, amanhã tem aula e você tem jogo, precisa descansar. - por algum motivo, os olhos do quarterback se voltam para mim. Ele parece mais calmo agora, apesar de ainda estar um pouco atordoado.

- Eu... eu te dou uma carona até sua casa. - falo diante de seu olhar, e Amber decide falar alguma coisa. Por sorte. Não sei o que ele está querendo, mas estou percebendo claramente como suas íris vagam pelo meu rosto, até chegar na minha boca e isso não é nada legal. Pelo menos não aqui.

- Você provavelmente vai estar na aula quando ela ter alta, mas eu aviso você assim que sairmos do hospital. - Amber se levanta, o que finalmente faz com que ele encare sua irmã, e não à mim. Já estava me dando calafrios.

- Se ela estiver disposta, leve ela ao jogo. Talvez ela se distraia por lá. - Thomas me surpreende ao convidar sua mãe, já que ele nunca a chama de verdade. Ela sempre aparece de surpresa, e ele sempre diz que ela não precisava ter ido.

- Pode deixar, agora vão pra casa. Está tarde. - ela diz nos levando para fora do lugar. - Aqui, Come alguma coisa no caminho. Toda essa bagunça deve ter te dado fome. - ela estende algumas notas na direção dele.

- Amber, eu não -

- Nem adianta tentar me convencer. Eu faço o que bem entender com o meu dinheiro. - ela sorri convencida, e eu dou risada. Ela é insistente igual à ele. - Agora vão logo. - ela nos apressa, e logo volta para dentro do hospital.

Fico feliz que não seja nada grave com a Sra. Hayes. Claro, estresse é ruim de qualquer forma, mas podia ser algo pior. Eu não imagino o que seria de Thomas se algo ruim tivesse acontecido com ela. Tenho certeza que ele estaria digno de um sanatório.

Assim que entramos no meu carro, ele respira fundo e encosta a cabeça no banco.

- Como ela estava? - decido perguntar antes de sairmos do estacionamento.

- Eu não sei, ela estava dormindo, mas aparentava estar bem. - ele responde olhando para frente.

- Ei, sua mãe vai ficar ótima. Não precisa ficar com essa cara, e nem acumular estresse desnecessário. Amanhã mesmo ela já vai estar em casa, como sua irmã falou. - seguro suas mãos, e seus olhos encontram os meus, me causando um arrepio.

- Valeu por ter vindo. Se não tivesse aparecido, algum médico provavelmente teria me sedado bem ali. - solto um riso baixo, e sua mão sobe para o meu rosto, colocando o meu cabelo atrás da orelha. Ele vem se inclinando na minha direção, e eu espero quase ansiosa por isso. Mas o barulho de seu estômago roncando em alto e bom som corta todo e qualquer clima dentro do carro. Agora sim minha risada sai mais alta, enquanto ele volta a se encostar no banco resmungando algo.

- Certo, acho que podemos ir comer em algum lugar primeiro. Temos tempo o suficiente para continuarmos isso. - coloco a chave na ignição, e saio do estacionamento do hospital.

Depois de uma breve conversa, decidimos parar em um fast food vinte e quatro horas. Ele ainda está um pouco quieto demais, quase não responde o que eu pergunto. Só fez um comentário sobre uma música no rádio do carro, alegando achar a letra interessante. Fora isso, ficou calado o tempo todo. Para mim, está sendo como pisar em ovos, pois não sei se é o momento de conversar normalmente, como sempre fazemos, ou de deixá-lo ficar calado pensando em alguma coisa relacionada à sua mãe.

- Não vai ficar quieto pelo resto da noite, vai? - pergunto baixo, enquanto esperamos as poucas pessoas ali dentro finalizarem o nosso lanche.

- Só estou cansado. E ainda preocupado. - ele passa as mãos nos cabelos, os bagunçando ainda mais. Ele está usando um moletom cor creme, e uma calça preta de pano fino com listras dos lados. Mesmo com uma vestimenta tão simples como essa, faz ele parecer estupidamente atraente. Tudo nele emana beleza demais. Me deixa quase tonta.

- Deixa de ser cabeça dura, Thomas. Amber disse que ela vai ter alta, você mesmo viu com os seus próprios olhos que ela está bem, o que mais precisa para colocar na sua cabeça de que tudo vai ficar bem? - me aproximo dele, encarando o seu rosto. - Eu sei que é difícil porque é sua mãe, mas você precisa relaxar. Não se esqueça que também têm à mim, se quiser conversar. - um pouco mais atrás dele, vejo uma atendente nos encarando, mas ignoro. Tudo o que enxergo agora é a figura alta do quarterback na minha frente. Aliás, ele é tudo o que eu venho enxergando nos últimos dias.

- Tem certeza de que tenho você  para conversar? - ele me surpreende ao colocar suas mãos nos meus quadris, me puxando para si. Não tenho tempo de responder, já que ele distribui vários beijinhos pelo meu rosto, até chegar na minha boca, onde ele me dá um selinho demorado. Merda, eu não havia percebido que senti falta de seu contato até agora, e olha que nem faz muito tempo desde que o vi pela última vez.

- Ei, casal, o pedido de vocês está pronto. - a voz do atendente nos chama a atenção, e sinto meu rosto queimar conforme nos afastamos. Thomas também está corado, o que me faz rir baixo antes de ir pegar as bandejas.

Decidimos ir nos sentar do lado de fora do fast food, no andar de cima, fora do alcance dos olhares dos atendentes. Apenas das câmeras pelos cantos do lugar. Não é como se fôssemos vulgares de qualquer forma. Mesmo que eu sinta vontade de sentir seus lábios nos meus a todo segundo.

*****

Batuco meus dedos no volante, e dou uma olhada no meu relógio, que marca quase quatro da manhã. Daqui algumas horas temos que ir para o colégio, e não estamos tão cansados assim. Não depois do lanche da madrugada.

Thomas pareceu esquecer os problemas por algumas horas e eu me senti aliviada. Não queria vê-lo amuado e estressado. É horrível. É como se eu quisesse tomar toda a dor dele para mim, como numa transfusão. E com muita conversa afiada, consegui distrai-lo. Agora ele está mais relaxado, sorrindo um pouco mais, graças as palhaçadas que falei mais cedo enquanto comíamos, e menos estressado. Seus ombros largos, que antes estavam tensos pra caramba, agora estão mais leves. Sinto como se tivesse tirado um peso de cima de mim e dele.

Paro em frente a casa dele, e puxo o freio de mão. Diminuo o volume do som do rádio, e tiro o cinto, me virando para encarar o garoto alto e misterioso ao meu lado.

- O rei está entregue à sua fortaleza. - falo, vendo ele tirar o cinto também. - Ou prefere príncipe? Você já age como um, de qualquer forma. - sorrio, e ele murmura um ha-ha. - Hoje foi uma noite e tanto. - comento encostando a cabeça no banco, olhando para o seu rosto ainda meio corado.

- Sim. Isso me cansou, e ainda tenho jogo amanhã. - ele diz, também encostando a cabeça no banco. - Você vai? - ele enrola para perguntar.

- Quer que eu vá? - levanto uma sobrancelha, me aproximando um pouco.

- Sim. Fiz uma coisa e preciso que esteja lá para ver. - fico confusa, e ele sorri ligeiramente. Ele sabe que vai me fazer pensar nisso pelo resto da noite, e ainda vai fazer o maior suspense até o maldito jogo. Detesto quando ele faz isso.

- Não vai me contar o que é, certo? - ele desvia o olhar por alguns segundos, chegando mais perto.

- Não. Você vai precisar ir para ver. Mas se serve de consolo, acho que vai servir como uma vingança. - ele consegue me deixar mais confusa ainda, e eu o detesto por isso. - Te vejo amanhã? - ele pergunta casualmente, como se não tivesse acabado de me dar um bom motivo para me fazer ficar acordada a noite toda pensando no que raios ele está tramando.

- Tenho como responder não? - ele sorri completamente convencido. Eu o odeio muito.

Não me mexo quando ele aproxima seu rosto do meu, e respiro fundo quando ele cola seus lábios nos meus. Não sei se consigo odiar ele agora. É um beijo lento, o suficiente para me deixar à beira de uma crise de asma. Sua língua acaricia a minha com tanta destreza, que sou obrigada a me apoiar no encosto do banco para ter certeza de que não subi aos céus em questão de segundos. Está quente aqui dentro. Quente demais.

Volto a pensar quando ele mesmo quebra o beijo. Me sinto frustrada, mas ao mesmo tempo agradeço, pois não sei se eu mesma conseguiria dar um basta nisso. Tudo nele me vicia. Absolutamente tudo.

Sua testa ainda está colada na minha, assim como como nossas mãos pousam na lateral do rosto um do outro. Estou quase ofegante. Sua respiração também está batendo contra o meu rosto, e eu me atrevo a abrir os olhos para encarar o par de íris escuras me olhando com carinho. 

- É melhor você ir, ou não vou conseguir me manter longe de você. - ele sussurra, e de repente essa me parece ser a pior ideia do planeta. Voltar para a casa de Emmy não me soa mais como um refúgio. Claro que agradeço à ela até o último minuto por me deixar ficar em sua casa, assim como sua mãe, mas quero ficar com ele. Escutar sua voz, sentir seus toques e sentir seus beijos. Talvez seja arriscado demais ficarmos sozinhos em sua casa com os hormônios à flor da pele.

Mas eu quero tanto, ficar com ele.

- E se eu não quiser ir? E se eu quiser que não se mantenha longe de mim? - ele parece parar para pensar, mas logo deixa um beijo demorado na minha bochecha. Estou me sentindo vulnerável demais. Pronta demais para fazer qualquer coisa com esse garoto, mas a julgar pelo olhar no rosto dele, ele não quer a mesma coisa.

- Você precisa ir. Acho que estamos indo rápido demais com o que quer que esteja rolando entre nós. Precisamos diminuir a velocidade. - ele diz, enfiando as mãos nos bolsos e pegando suas chaves, sem nem mesmo olhar na minha cara.

Estou me sentindo uma completa idiota. Eu achei, eu realmente achei que estávamos no mesmo patamar. Achei que ele também estava sentindo aquela confusão no estômago que eu sinto quando chego perto dele. Principalmente depois de tudo o que ele me disse e, de tudo o que ele fez por mim. Mas pelo visto, eu estava errada. Bem errada.

- É, acho que têm razão. - falo me ajeitando no banco, olhando para qualquer lugar na rua deserta que não seja ele. Estou com vergonha demais para isso.

- Talia, não fica assim. Eu só -

- O quê? Não disse que estávamos indo rápido demais? Eu só estou concordando. - corto sua fala, ainda olhando para frente. - Não sei o que deu em mim, mas pode ficar tranquilo, não vai acontecer de novo. Agora, como você disse, eu preciso ir. Emmy está me esperando. - minto, pois sei que minha amiga deve estar no vigésimo sono. Só quem não vai pegar no sono tão cedo, sou eu.

Thomas fica um tempinho em silêncio, e sei que está me encarando, pois consigo ver pela visão periférica. Até quando estou longe dele, o sinto me olhar. É como se algo brilhasse na minha cabeça, e tudo o que eu vejo, é o corpo alto e esguio do quarterback.

- Eu... eu vou indo. - ele sibila, mas não ouso olhar para ele. Estou com vergonha demais para isso.

Vejo ele se aproximar do meu rosto novamente para deixar outro beijo na minha bochecha, mas sou mais rápida em virar o rosto. Fecho os olhos com força ao escutar seu suspiro. Preciso que ele saia daqui logo, antes que eu tenha um ataque de nervos. Sinto que estou sendo feita de palhaça. É como se tudo o que tivemos até agora fosse em vão. É, talvez esteja sendo um exagero da minha parte, mas... eu não sei. Estou confusa. Foi a primeira vez que senti como se fosse capaz de tudo. Como se fosse capaz de largar os ressentimentos que tenho do passado, como se fosse capaz de colocar toda aquela confusão debaixo do tapete pela primeira vez em muito tempo, e de repente, uma parede é posta na minha frente sem me dar possibilidade alguma de enxergar do outro lado. Nem mesmo por uma pequena fresta. Tento controlar a vontade que tenho de socar alguma coisa enquanto espero que ele dê o fora daqui. Ou alguém.

Assim que ouço a porta do meu carro bater, trato de acelerar para longe dali sem nem olhar pelo retrovisor. Puta merda, como eu sou patética. Fala sério, eu achei mesmo que esse rolo esquisito ia dar em alguma coisa?! Mesmo sendo ele o meu atual confidente, o cara para quem conto os meus piores segredos, o cara que sabe de muita coisa sobre mim mais do que qualquer um de fora da minha família?! Eu não sei nem o motivo de achar que essa coisa ia pra frente! Por Deus, ele é o cara mais cobiçado daquele colégio, e um dos melhores jogadores do time. O que diabos ele poderia querer de mim?! Eu literalmente não tenho nada para oferecer à ele além de problemas e preocupações sem fim. Eu não sou perfeita e estou há milhões de anos luz de ser, mas de alguma forma, dentro do peito eu sentia que pudesse ser boa para ele.

Digo, o que aconteceu hoje? Eu larguei tudo na casa de Emmy para correr diretamente para ele, pois o mesmo estava precisando de ajuda. Eu sequer pestanejei em ir encontrá-lo. Ouvir sua voz baixa na linha foi o que eu precisava para ir até ele. E mesmo que estivesse em outra cidade, em outro estado, seja lá onde fosse, eu iria atrás dele, pois sei que ele faria o mesmo por mim. Eu sei que ele apareceria uma hora ou outra para me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem, mesmo sem possibilidade alguma de isso acontecer. Sei que ele iria estar lá por mim, assim como eu estive por ele hoje. E pode até ser, apesar do que aconteceu, sei que ele não seria cretino por rejeitar me ajudar.

Minha cabeça vai explodir.

Algo escorre pelas minhas bochechas, e reviro os olhos ao ver que são lágrimas. Me recuso a chorar por algo que eu sabia que não teria futuro, por mais que eu queira muito. Eu sabia que não deveria ter nenhuma ilusão quanto aquilo, logo, não tem motivo nenhum para eu estar chorando. É ainda mais patético.

Seco o rosto mais uma vez antes de entrar na garagem da casa de Emmy, e desligar o carro. Abro com cuidado a porta da frente e a tranco assim que entro. Subo as escadas até o quarto da minha amiga, e vejo as duas dormindo feito pedras. Tomo cuidado para não pisar no óculos de Holly, e deito no meu colchão novamente. Eu sei que não vou pregar os olhos, e me odeio por isso. Significa que vou manter todos os meus pensamentos naquele idiota e vou ficar com ainda mais raiva, e eu não mereço isso. Ele também não merece que eu gaste meu tempo com essa baboseira. Sei que estou sendo dura demais, algo que é quase desnecessário, mas só assim vou conseguir tentar não pensar nisso.

Fico olhando para o teto desbotado do quarto enquanto penso numa forma de pegar no sono. Só tenho algumas horas para dormir, e não quero desperdiçar pensando em como sou ridícula por me deixar levar por palavras bonitas ditas nas horas certas, com combo de um garoto estupidamente bonito e ao mesmo tempo idiota. Era óbvio que essa combinação tinha que acontecer.

*****

Sinto algo balançar os meus ombros, e abro os olhos contra a minha vontade. Vejo Holly sorrindo levemente e percebo que já está arrumada para irmos aula.

- Emmy pediu para que eu te acordasse. Está quase na hora de irmos. - ela diz, e eu afundo o rosto no travesseiro.

Minha noite foi uma porcaria. Como eu disse, não consegui dormir. Fiquei me revirando o tempo todo até cansar e sentir um pouco o peso da noite passada. Quando finalmente peguei pesado no sono, Holly me acordou.

- Estou um caco. Sem a menor vontade de ir para a aula. - resmungo para ela quando me levanto do colchão.

- Emmy me contou o que houve. Está tudo bem com ele? - pressiono os lábios quando ela toca no assunto. Eu não o tirei da cabeça a noite toda. Quase fiz um mantra para não pensar nele, mas não deu muito certo, obviamente.

- Foi bem ruim, para ser sincera. - respondo dobrando o cobertor. - A mãe dele foi parar no hospital por estresse, e ele me ligou. - Holly me ajuda a ajeitar o colchão em um cantinho, e eu endireito minha postura.

- Sério? E ela está bem? - ela começa preocupada, enquanto eu amarro o cadarço dos meus tênis. Não tive coragem para tirar a roupa de ontem, e vai ser com essa mesma que vou para o colégio.

- Sim, deve ter alta no almoço. - falo passando as mãos no cabelo. Ela abre a porta do quarto e eu a sigo descendo as escadas. - O problema foi depois. - Emmy nos estende duas xícaras de café na nossa direção assim que chegamos mais perto da bancada da cozinha.

- Deixa eu adivinhar, ele não beijou você? - Emmy zomba, mas não é tão engraçado. Essa coisa realmente me deixou confusa e frustrada. - Foi mal, eu estava brincando. O que aquele idiota fez agora? - ela se aproxima de nós duas, se sentando no banquinho da bancada.

- Se o problema fosse ele não ter me beijado antes de ir pra casa, eu estava perfeitamente bem. Mas ele fez isso. E depois disse que não queria nada comigo. - aperto a asa da xícara, encarando o líquido preto do café. - Quero dizer, ele não disse com todas as letras. Só disse que estávamos indo rápido demais. - decido tomar um gole do café para engolir esse estresse maldito.

- Talvez ele só esteja tentando ser cuidadoso com você. Já parou para pensar nisso? - Emmy diz, mas isso não me convence muito.

- Talvez. Mas ele sabe que para mim é difícil, Emmy. Foi a primeira vez na vida em que senti que fosse capaz de levar isso para frente. A primeira vez em que senti que pudesse deixar todas as minhas preocupações de lado e entrar de cabeça nesse rolo. - continuo com o olhar focado no café. - Ele sempre diz o que eu quero ouvir, sabe de muita coisa sobre mim, e se comprometeu a muita coisa. Não estou dizendo que quero que ele me peça em namoro ou algo assim, só sinto que tudo o que aconteceu entre nós não significou de nada. Eu sei que ele tem alguma sujeira debaixo do tapete que não quer me contar, mas decidiu que jogar tudo para escanteio era o melhor. - suspiro, tomando todo o café de uma vez.

- É, até que você tem razão. Vocês enrolaram demais para chegarem onde estão. Achei que ele sentia o mesmo que você. - Holly comenta, limpando os óculos que ficaram embaçados por conta do vapor do café.

- E o que você vai fazer agora? Dar um soco nele por ser tão burro? - Emmy pergunta, e eu sorrio fraco.

- Dar um fim nisso. Eu não tenho tempo para perder com esse rolo. Estou no meu último ano do colégio, preciso focar em entrar em uma faculdade boa e seguir com a minha vida. Já que ele quer jogar assim, que seja. Todo mundo sabe que namorico de colégio não vai pra frente. - me levanto do banquinho, e vou lavar a minha xícara. Vejo que as duas se encaram como se não concordassem com o que eu disse, mas não dou a mínima.

Me dói pensar em ter que colocar uma pedra em cima desse assunto. Estou entregue demais à ele para simplesmente jogar isso dentro de uma lata de lixo, mas não estou tendo muita opção. Talvez seja até bom colocar um basta nessa história. Vai ser difícil, com certeza vai, mas tenho que tentar, ou não vou ter paz.

Depois de escovar os dentes e arrumar nossas bolsas, partimos para o colégio. A mãe de Emmy e o namorado dela ainda estavam dormindo quando nós saímos. Tenho que me lembrar de agradecer por ter me deixado ficar lá hoje. Ela foi muito gentil quando cheguei na casa da minha amiga. Fez de tudo para que eu e Holly ficássemos a vontade. Acho que ela não está muito acostumada com a filha recebendo visitas de amigas.

Durante o caminho, participei das conversas das duas enquanto me concentrava nas ruas. Hoje o tempo está estranho. Está calor, mas o sol não está tão forte quanto costuma ser. Até o dia está meio apagado. Sinto que hoje vai ser uma merda.

Paro em uma vaga um pouco mais longe da entrada, e logo saímos do carro. Não preciso olhar muito para ver que a moto de Thomas já está ali. Não quero encontrar com ele hoje. Não quero nem mesmo ir ao seu jogo. Não quero saber o que ele está aprontando para o jogo hoje. De repente, tudo o que está relacionado a ele pouco me importa. Só quero passar essa sexta-feira na minha.

- Bom dia, garotas. Bom dia, meu amor. Sentiu minha falta? - Matt aparece antes que entremos no pátio do colégio. Ele abraça Emmy e dá um beijo estalado na bochecha dela, antes mesmo que ela possa o empurrar para longe.

- Se encostar em mim de novo, eu corto o seu braço e grampeio sua boca. - ela o ameaça, e tira o braço dele ao redor de seus ombros. Holly ri e eu apenas balanço a cabeça.

- No fundo, você sabe que me ama, Emmy Williams. Você me ama. - o louro diz convencido, e então seu olhar cai em mim. - E aí, Kings? Cuidou bem do meu amigo enquanto estive fora? - ele sorri inocente, e então percebo que Thomas não contou a ele o que fez.

- Seu amigo não precisa que cuidem dele, Matt. Ele sabe se virar muito bem sozinho. Não precisa de mim. - respondo parando diante do meu armário.

Ih, o que ele fez agora? Pode me falar, eu dou um jeito naquele idiota que eu chamo de amigo. - ele faz sinais de soco no ar, e eu rio baixo.

- Você pode perguntar agora mesmo. Ele está vindo bem ali. - Holly aponta para um ponto atrás de Matt, e eu respiro fundo. Não quero estar aqui quando ele chegar mais perto, pois sei que ele vai tentar falar comigo. Hoje não vou nem sentar no meu lugar de sempre, vou sentar do outro lado da sala com Todd e Mark. Sinto falta de conversar com eles. Os dois com certeza vão me fazer desviar os pensamentos do quarterback por algumas horas.

Me mantenho com o olhar no interior do meu armário, mas sinto claramente sua presença. Preciso dar o fora daqui.

- E aí, bonitão. Sentiu minha falta? Porque a Emmy sentiu bastante. - Matt diz, e a minha amiga lhe dá uma cotovelada.

- A gente vai procurar o Tadashi. Ele disse que já estava aqui. - Emmy diz, e Holly a acompanha. Sei muito bem o que ela está tramando, e eu não quero olhar para a cara de Thomas.

- Eu também tenho que ir. Preciso colocar o papo em dia com o japonês, e a minha gatinha. - ele pisca para Emmy, que revira os olhos e puxa a ruiva para si.

Os três vão embora dali, e eu sinto vontade de gritar por estar aqui sozinha com ele. Não sei onde fui amarrar meu cavalo quando decidi ser amiga daquele pessoal.

- Oi. - ele sibila, mas continuo olhando para a foto de Luke Hemmings colada na porta do meu armário, ainda na época em que ele ainda usava o piercing no lábio. - Será que podemos conversar? - ele pergunta, e eu prendo a respiração, fechando a a porta do armário com força, fazendo um estrondo deveras alto, sabendo que não vou escapar dessa maldita conversa.

- Não temos nada para conversar. - falo, e trato de me afastar dali.

- Qual é, Talia? Precisa me escutar, eu me expressei mal ontem. Eu -

- Pode ir parando por aí. Eu não estou nem aí para como você se expressa, você deixou bem claro o que queria dizer, e eu entendi. É confuso, mas eu entendi. - falo alto, mas me arrependo na mesma hora, pois atraímos os olhares de quem passa no corredor. Paro de andar, me virando para ele. - Você tinha razão. Estávamos indo rápido demais, e acho que agora seria uma boa para pararmos de vez. - falo baixo, sentindo um nó na minha garganta.

- Não está falando sério, não é? - ele se aproxima, e eu dou um passo para trás por puro instinto. Ele parece assustado com o meu ato, mas mesmo assim não desiste de se aproximar. - Eu não estava dizendo que queria parar com o que seja lá o que estiver rolando entre nós, eu só disse que as coisas estavam tomando um rumo rápido demais. - seu tom de voz está desesperado, e o nó na minha garganta só aumenta.

- Eu entendi, e é por isso que devemos parar com isso. Assim nós vão vamos para lugar algum, e talvez seja melhor assim. Você pode se preocupar com o seu futebol, e eu com o projeto do livro. Somos de mundos diferentes, Thomas. No fundo, a gente sabia que isso não ia vingar. Foi só fogo de palha. - falo baixo, vendo seus olhos me encararem com total pânico. - Agora se me der licença, eu preciso ir. - corro para longe dele o mais rápido que consigo.

Viro no corredor da biblioteca, e me enfio lá dentro. Ando depressa até a última estante de livros do lugar, e me encosto no espaço estreito entre a parede e a prateleira. Tento com todas as minhas forças não chorar, mas é impossível. Deslizo as costas contra o gesso da parede, e me sento no carpete do piso, abraçando os meus joelhos. Eu definitivamente não estava esperando começar a minha manhã desse jeito. Eu sabia que deveria evitá-lo à todo custo. Só que está doendo mais saber que não vamos ter tudo aquilo que tínhamos antes. Nada de saídas às escondidas, nada de estudo um na casa do outro e nem os beijos viciantes. Nada. Eu não tenho capacidade de esquecer tudo e simplesmente ser amiga dele. Não consigo.

Penso em matar as primeiras aulas, mas não posso. Não posso ficar chorando escondida na biblioteca, como eu costumava fazer. Preciso amadurecer e encarar isso de cabeça erguida. É só mais um problema. Um de muitos. E talvez o mais difícil de solucionar.

*****

Encaro o lado de fora do colégio, sentada na janela observando os alunos perambulando por ali. O sol está escondido atrás das nuvens, deixando apenas um clima abafado aqui embaixo. Eu queria estar como as nuvens agora, apenas vagando pelo infinito do céu, sem compromisso com nada. Às vezes elas podem ficar tão branquinhas quanto algodão, como um sinal de que está tudo bem. E às vezes elas podem ficar tão carregadas e escuras, que podem causar uma tempestade devastadora. Na verdade, acho que sou exatamente como uma nuvem. Eu estava bem há um dia atrás, me sentindo tão leve quanto uma pena - como a nuvem branca. E agora, estou péssima, me sentindo a pessoa mais idiota do planeta - como a nuvem escura, pronta para uma tempestade.

Eu nem sei o que vim fazer na aula. Se eu tivesse matado os primeiros horários em um buraco qualquer pelo colégio, como costumava fazer, não teria feito diferença nenhuma. Não prestei atenção no que os professores diziam, sequer encostei a caneta no caderno. Minha mente foi para lugares que eu nem sabia que era possível chegar. Lugares onde eu tinha um futuro feliz. Feliz comigo mesma, e feliz por quem estava do meu lado, como se fossemos realmente um casal assumido para Deus e o mundo. Cara, isso é tão patético. Bastou eu olhar para o outro lado da sala para saber que isso tudo não passava de uma tremenda baboseira. Ele estava encarando o professor com uma cara de tédio o tempo todo, mas Meredith estava fazendo um bom trabalho em tirá-lo desse tédio. Ficou sorrindo para ele o tempo todo, e estava sempre tirando suas dúvidas com ele.

Garota ridícula.

Sinto alguém balançar o meu ombro, e me assusto. Estava tão inerte pensando em coisa nenhuma, que não percebi o aglomerado de pessoas no gramado lá embaixo. Já é hora do intervalo.

- Está tudo bem? Você estava alheia o tempo todo. - Aaron pergunta.

Eu estava sentindo falta dele, de verdade. Parece que faz séculos que não converso com ele. Tenho estado tão ocupada que me sinto uma vaca que esquece dos amigos. Prometo a mim mesma dar atenção à ele, assim como aos outros. Quanto mais tempo eu passar com eles, mais rápido eu me recupero dessa neura interna.

- Vai ficar, não se preocupe. - respondo guardando as minhas coisas na bolsa.

- Tadashi disse que está na frente do colégio, junto com Emmy para podermos almoçar naquela lanchonete aqui perto, novamente. - Holly diz olhando em seu celular. Ainda bem que não vamos ficar aqui. Não aguentaria ter que ficar olhando para ele o tempo todo.

Nós três saímos da sala por último graças aos meus devaneios. Tenho que focar em alguma coisa pelo resto do dia. Não posso ficar a mercê dos meus pensamentos por hoje. Mesmo que hoje não seja o meu dia de clube, acho que vou ficar no clube de música. Posso me entreter em continuar a tocar piano, assim consigo espairecer um pouco. O longo piano de calda na sala de música sempre me chamou a atenção pela carcaça preta e brilhante. É um instrumento lindo e difícil de aprender, mas devo estar chegando em algum lugar. Ouvi que finalmente vão colocar professores nos clubes, e isso é bom. Não vai ser mais aquela coisa monótona de sempre, onde todo mundo se senta em um canto e não faz absolutamente nada. É frustrante, pois nunca tenho com quem tirar as minhas dúvidas, ou dividir meus conhecimentos. Vai ser bom finalmente ter um "mentor" para os clubes.

Um ruído nos alto falantes dos corredores me faz parar no lugar, assim como todos no corredor. Uma tosse é escutada pelos quatro cantos do colégio, e vejo os meus amigos me encararem confusos. Provavelmente é só o diretor tentando dar um aviso, mas sempre que ele faz isso, acaba esquecendo que está com o dedo pressionado no botão do microfone e fala um monte de coisas sem sentido. Certa vez, ele resmungou algo sobre estar com dor de barriga enquanto estava com o dedo no microfone. Foi engraçado.

Essa coisa está funcionando? - o diretor murmura no microfone, e eu balanço a cabeça em negação. Às vezes me pergunto como diabos esse cara foi ter um cargo tão importante quanto esse. - Bom, primeiramente bom dia. Espero que vocês estejam tendo um ótimo dia de aula. - reviro os olhos ao escutar sua voz mais claramente. Se ele soubesse o dia de merda que estou tendo, se arrependeria de ter feito esse comentário. - Como vocês já devem ter visto no quadro de avisos, todos os alunos do último ano, farão uma viagem. - os murmúrios começam, mas isso não me anima tanto. Nada me anima hoje. - Vai ser neste fim de semana, e aqueles que optarem por ir, preciso que peguem as autorizações com o professor responsável nas próximas aulas. Nas autorizações, têm todas as informações necessárias para que os pais de vocês assinem. - ele faz uma pausa, o que faz com que todos ali resmunguem de frustração. O homem não sabe quando deve finalizar um simples aviso, e eu apostaria dez dólares que ele está bolando fazer mais um daqueles seus discursos intermináveis. - Tenham um bom dia de aula, e não se esqueçam que o conhecimento é a -

O microfone é cortado e todos agradecem. Essa viagem pareceu ser interessante há alguns dias atrás, mas agora parece ser a pior ideia do mundo. Não sei se aguento ficar no mesmo lugar que Thomas, ainda mais quando somos da mesma sala. Uma hora ou outra ambos vamos ter que superar isso. Não podemos ficar fugindo, embora seja essa a minha vontade.

- Esse colégio tem tantos eventos que quase não consigo acompanhar. - Holly diz, e Aaron concorda.

Continuamos a andar até onde Tadashi e Emmy estão nos esperando, quando a porta do refeitório se abre com certa força. Um grupo de no minimo seis garotos do time de futebol saem de dentro do refeitório, e dentre eles, Thomas. Ele não está sorrindo como a maioria. Está sério, quase sem expressão alguma. Seus amigos dão alguns tapinhas nas costas, tentando animá-lo, mas não parece surtir efeito. Pelo visto, ele está tão mal quanto eu. O que não faz tanto sentido, já que ele mesmo provocou toda essa confusão.

Ele desvia de mais um tapinha de seu amigo, e seu olhar cruza com o meu. Uma onde de choque é enviada pela minha espinha, até o último fio de cabelo. Meu corpo trava no lugar como se meus pés estivessem colados no chão com uma hiper-cola. Ele também está parado, me encarando sem nem piscar. Assim que ele ameaça vir na minha direção, me forço a recuperar os sentidos, e passo direto, quase correndo. Meus dois amigos são forçados a dar uma leve corrida para me acompanhar, e eu abraço os meus livros com mais força. 

Vejo Emmy e Tadashi conversando mais ao longe, e eu me aproximo mais outra de cabelos azuis. Preciso conversar com ela. Na verdade, preciso me distrair com a conversa de todos eles, mas ela é o que posso chamar de melhor amiga. Todos eles são os meus amigos, mas Emmy têm algo a mais.

- Que cara é essa? - ela pergunta assim que chego mais perto, mas a pego pelo braço e arrasto ela para um pouco mais a frente dos nossos amigos.

- Estou prestes a ter uma crise de pânico. - dou uma olhada para trás, apenas para ter certeza de que os outros não estão escutando a nossa conversa. - Eu não sei se vou aguentar passar o resto do dia na mesma sala que o quarterback. Cruzei com ele no corredor ainda agora, e por um segundo cogitei mudar de ideia. Não sei se vou durar muito tempo no mesmo espaço que aquele idiota. - falo rápido demais, e ela abana as mãos na frente do meu rosto.

- Ei, relaxa. Mais devagar. - ela tenta me acalmar, e eu olho para as nuvens sumindo lentamente, dando visão ao céu azul escondido atrás delas. Seria pedir muito ser uma dessas malditas nuvens? - Não acha que está indo longe demais com essa história? Olha só para você, mal passou um dia longe do cara e está quase tendo um surto. - ela diz preocupada, e eu conto até dez mentalmente. Fico com a minha bombinha de asma na mão por precaução, enquanto tento controlar a velocidade da minha respiração.

- Não posso. Isso significaria que eu estaria levantando a bandeira branca primeiro, sendo que ele é o culpado disso tudo. Tenho o meu orgulho próprio, e isso ele não vai tirar de mim. - falo convicta, mas sei que ela não acredita muito. Sinceramente, nem eu sei. Eu estou tentando mandar para o ralo essa vontade de dar meia volta e pular nos braços daquele babaca. Não vou fazer isso. Se ele quiser que eu esqueça essa história, vai ter que ser o cara mais convincente do mundo. Mais do que os caras dos comerciais de televisão, dos quais a minha avó sempre acredita.

- Cara, você tem uma cabeça dura demais. Deveria tentar mudar isso. - Emmy diz quando chegamos na lanchonete. - Às vezes precisamos inverter os lados. Sabe como é, essa coisa clichê de sempre ser os caras quem pedem desculpas dão o primeiro passo. É machista e ridículo. Deixa essa merda de orgulho de lado e tenta falar com ele você. Sei que ele é o estúpido da história, mas seria ótimo se você tomasse a iniciativa. - ela empurra a porta de vidro, e eu entro no lugar.

Tudo isso que ela está dizendo faz sentido. Sei que ela está certa, mas como eu disse, meu orgulho é mais forte. Thomas procurou por isso, e se ele quiser reverter a situação de alguma forma, ele que me procure.

Nos sentamos numa mesa larga nos fundos da lanchonete, e eu trato de esvaziar a minha cabeça para prestar atenção nos meus amigos. Eles quem estão aqui agora, não o quarterback.

Aaron está ao meu lado, escutando atentamente ao que Tadashi está tagarelando. Ele está com um leve sorriso, e eu não posso deixar de admirá-lo. Por estar sentado na janela, ele parece ainda mais bonito do que de costume. Eu não sei o que ele anda fazendo, mas seu rosto parece ter mais traços firmes. Seus fios pretos estão cortados na medida certa, e seus olhos estão claros feito duas piscinas contra a luz do sol. Ele é realmente bonito.

E então, ele desvia o olhar da conversa do japonês, e me encara com o mesmo sorriso leve de segundos atrás.

- Tem alguma coisa no meu rosto? - ele pergunta, e eu nego.

- Você parece animado. Aconteceu algo que eu deveria saber? - apoio os cotovelos na mesa, e ele sorri mais abertamente.

- Meu pai finalmente deu um sinal de vida. Ele ligou para a minha mãe ontem no meio da noite e falou com todos nós. Isso foi melhor do que as cartas que sempre manda. - ele diz um pouco alto, o que interrompe a conversa dos nossos amigos. Eles voltam os olhares para nós, e eu não consigo esconder o sorriso.

- Isso é ótimo, Aaron. Viu só? Eu disse que ele iria aparecer, você só precisava esperar um pouco. - falo, e logo a garçonete aparece com as nossas bebidas.

- O que está rolando? - Tadashi pergunta, mas Aaron não consegue desviar os olhos dos meus. 

- O pai dele entrou em contato. Não é o máximo? - rodo o canudo nos dedos, tentando fugir de seu olhar.

- Claro, ele é militar, não é? - Holly empurra os óculos um pouco mais pra cima. Aaron finalmente olha para um lugar que não seja o meu rosto. Eu estava começando a ficar desconsertada.

E então, pelos próximos minutos, meus amigos vão conversando entre si sobre o pai de Aaron. Fico feliz que ele não esteja mais naquela ansiedade de receber algo vindo do pai. Eu não vejo a hora de conhecer o cara, já que Aaron sempre fala tão bem dele. Ele até me mostrara uma foto da última vez em que o viu antes que o mesmo partisse para uma missão. Pela foto, ele é bem parecido com Aaron, mas não dá para ter muita certeza, já que a foto não estava lá essas qualidades. Pelo menos ele está em paz consigo mesmo, diferente de mim. 

E ainda por cima tem o maldito jogo. Antes de toda essa confusão acontecer, eu estava certa de que iria enfrentar mais uma multidão de pessoas no campo de futebol novamente, tudo para ver o que Thomas estaria aprontando, mas agora não tenho tanta certeza. Digo, ainda quero saber o que ele está tramando, mas não quero ter que ir até lá e vê-lo voar pelo gramado. Ele é um jogador e tanto. Ele chegou no time fazendo seu nome, e tendo um dos postos mais importantes na vida dos atletas, que é ser um dos melhores do time. Se não estiver em primeiro lugar, com certeza está entre os cinco primeiros.

Balanço a cabeça ao perceber para onde os meus pensamentos estão me levando. Preciso redirecionar meus devaneios para um lugar que não me faça querer gritar e jogar o tubo de ketchup no vidro atrás de Aaron.

Respiro fundo e encaro o lado externo da lanchonete. As nuvens. Talvez seja melhor pensar nas malditas nuvens e em como eu daria tudo para sumir com o vento.


Notas Finais


espero que tenham gostado, dessa vez eu voltei rápido hein hehe

eu queria muito agradecer vcs pelo retorno INCRÍVEL que vcs estão me dando, eu realmente não mereço. eu amo mto vcs, tá? 💙

até o próximo xuxus 💙💙


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