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História Losses and Gains - Capítulo 52


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Notas do Autor


boa leitura 💜

ps: a música de hoje eh Good Riddance do Green day, que se encontra na playlist da fanfic, se vcs ainda não seguem no spotify ou no youtube, vou disponibilizar o link nas notas finais :)

Capítulo 52 - Fifty


THOMAS

Enquanto Matt tagarela sobre algo que não estou prestando atenção, mantenho meus olhos focados nos fios negros esvoaçando por conta do vento da janela aberta. Consigo ver brevemente seu rosto quando ela encara Aaron, e o sorriso que sustenta nos lábios enquanto fala alguma coisa. Cara, eu poderia ficar olhando para ela a vida toda e mesmo assim não iria me cansar. Chega a ser bizarro o quanto ela anda mexendo comigo de um jeito que nunca senti antes. Claro, Misa foi a responsável por muita coisa, mas Talia está em um patamar bem acima disso.

Ainda estou tentando entender o que raios aconteceu dois dias pra cá. Ainda não caiu a ficha que eu realmente disse em voz alta que gosto dela. E ela respondeu que também gosta de mim. Isso ainda não faz sentido nenhum na minha cabeça, mas a paz que estou sentindo dentro do peito e quase surreal. Contar tudo o que eu tive com Misa para Talia, me aliviou em um nível absurdo. Eu pretendia enfiar essa história no fundo do baú e deixá-la por lá até segunda ordem, mas quando caiu a ficha que Talia estava se sentindo mal por uma burrice minha, não me deixou opção. No começo eu não tinha parado para pensar que poderia piorar a cabeça dela com as minhas lamentações, devido ao que aconteceu antes disso, mas quando percebi já tinha falado tudo. Apesar dos pesares, está tudo bem agora e isso quase me deixa sorrindo de orelha a orelha feito um idiota completo. O que essa garota fez comigo não é normal. E deve ser por isso que estou gostando terrivelmente desse rolo maluco.

- Está prestando atenção no que estou dizendo? - Matt bate no meu braço, e eu pisco algumas vezes. - Essa sua paixonite pela Kings está começando a me irritar. - ele resmunga, se encostando no banco.

- Você é tão dramático. - reviro os olhos, olhando para o lado de fora do ônibus. - Não era você quem dizia que eu deveria largar o passado de lado e "focar em gatinhas" novas? - balanço a cabeça ao lembrar da forma idiota na qual ele me disse quando cheguei ao Collins.

- Sim, mas também não deixar os amigos de lado. É lei da vida, bonitão. Nunca aprendeu isso? - ele bufa, e alcança sua mochila, tirando de lá um pacote de salgadinhos de queijo.

- Deixa disso, Matt. - me ajeito no estofado, e estico a perna no corredor. Eu bem que queria ter ido na janela, mas o espaço é muito pequeno e minhas pernas são longas demais para ficar ali por algumas horas. Matt não se importou nem um pouco com essa condição, já que deitou o encosto do seu banco sem nem se importar com quem está sentado atrás, o que o deixou mais confortável do que eu achei que ficaria.

- Que cheiro horrível é esse? - a voz esganiçada de Stacey entra nos meus ouvidos, e eu desvio o olhar da janela. Ela e Meredith estão sentadas no banco da frente, mas eu estava tão distraído olhando para outra pessoa que nem escutei as vozes das duas.

Não demora até elas se virarem para nos encarar. Stacey está com uma cara nada boa, enquanto olha para o meu amigo.

- Como consegue comer essas porcarias fedorentas? - ela pergunta apontando para o aperitivo de Matt, que sorri orgulhoso de si.

- É queijo suíço. Paguei uma nota nisso, mas valeu a pena. Quer experimentar? Sabe como é, às vezes é bom sair dessa dieta de coisas naturais que não enchem a barriga de ninguém. - ele diz, e eu dou risada. Desde que entrei no Collins, eu nunca a vi comendo nada além das saladas e sei lá mais o quê ela come. É bizarro o quanto ela leva sua dieta a sério.

- Você é decepcionante. - a loura resmunga, e volta a se sentar no lugar, mas Meredith ainda continua ali me encarando com um sorriso estranho nos lábios.

- Matt, será que podemos trocar de lugar depois? Eu queria levar um papo com o seu amigo. - ela encara o maldito do meu amigo, e eu praticamente imploro com o olhar para que ele não aceite. Eu sei muito bem quais são as intenções dela e não estou nem um pouco interessado.

Piso no pé do Matt, e ele parece lembrar que precisa responder a bendita pergunta.

- Aí, sabe que eu adoraria fazer isso, mas acabei de comer esses salgadinhos e ainda tenho mais um monte de coisas na mochila. Não vai querer estar desse lado quando eu começar a arrotar. - bufo com essa desculpa horrível, e Meredith torce o nariz.

- Ele é sempre assim? - ela volta seu olhar para mim, e eu concordo.

- Você não sabe nem da metade. - Matt sorri balançando o saquinho de salgadinhos, e volta a comer.

Por sorte, Meredith não parece insistir no assunto, e eu agradeço por isso. Não quero ser idiota de dar falsas esperanças para ela, e pretendo deixar o mais explícito possível que vamos ser apenas amigos. Isso se ela não pisar mais na bola. De uns tempos pra cá ela se mostrou arrependida das confusões desnecessárias que causou no passado, e isso é bom. Só espero que ela não confunda as coisas novamente.

Volto o meu olhar para um ponto mais a frente, e vejo Talia se virar para olhar o banco de trás, indo conversar com a ruiva. A coitada teve que se sentar com um cara desconhecido por mim, já que não havia sobrado lugar para que ela se sentasse com algum dos outros e o cara havia chegado atrasado.

Sinto minha pulsação acelerar quando seus olhos acinzentados encontram os meus. Eu bem que gostaria de ter arranjado lugar mais perto dela quando entramos no ônibus, mas os caras do time me empurraram mais para o fundo do veículo e logo depois Matt apareceu, se esgueirando pelos bancos até estarmos onde estamos agora. É frustrante, mas de certa forma, é até melhor para nós dois. É o único jeito de manter a discrição que ela tanto pede.

No momento em que ela sorri, posso sentir meu coração quase saindo pela boca. Não estou nem aí se alguém percebeu algo sobre como ela mexe comigo facilmente, só consigo olhar para o seu rosto sardento. Cara, se tem uma coisa que eu mais gosto nela além da cor dos olhos, são as sardas. Eu faço qualquer coisa se ela aparecer na minha frente com as pintinhas espalhadas pelo rosto. Nunca achei que fosse precisar ver alguém com sardas para entender que isso é a coisa mais bonita que eu já vi.

- Fecha a boca se não a baba vai escorrer, bonitão. - Matt me cutuca, e eu balanço a cabeça, voltando para o meu lugar.

Decido colocar os fones de ouvido para abafar as conversação, e evitar as insinuações de Matt.

*****

É quase cinco da tarde quando o ônibus para em um estacionamento deveras grande. Estico a cabeça para dar uma olhada, e tudo que vejo são dois galpões também enormes, além das árvores em volta. É quase como aqueles acampamentos em que os pais enviam seus filhos durante as férias.

- Muito bem, crianças, todos para fora do ônibus. - a professora de Educação Física diz, e eu me levanto. Estava começando a ficar inquieto demais aqui dentro.

Eu meio que perdi a noção do tempo quando meu celular começou a apitar com mensagens de um certo alguém. Matt já estava dormindo depois de comer as porcarias que colocou na mochila, não moveu um músculo sequer. E isso foi até bom, assim não me encheria com sua carência sem fim e com seus comentários sugestivos.

A conversa por mensagem também não fora nada de mais. Claro que falamos de tudo um pouco, mas a maioria se resume em links de músicas o tempo todo. Ela ainda mantém fielmente aquela playlist que fizemos enquanto ela estava no hospital, e eu apenas observo o número de músicas crescendo a cada dia que passa. Nem eu sabia que era possível existir tantas músicas assim, mas ela me aparece com coisas novas o tempo todo. Músicas que não são o meu tipo e ela sabe disso, mas mesmo assim insiste em me fazer escutar algo além dos meus clássicos. E bom, até que a coisa não é tão ruim quanto achei que fosse. Obviamente estou ignorando todas as músicas que tenham o nome do Justin Bieber no meio, mas até que o resto é aturável.

- Ainda bem que chegamos. Já não estava aguentando ficar encolhido naquele banco. - Matt estica os braços quando estamos do lado de fora. Consigo ouvir o estalos conforme ele vai se alongando no lugar.

- Você ficou o tempo todo com encosto do banco inclinado para trás. O Ryan teve que se encolher porque você estava babando enquanto dormia. - falo e ele dá de ombros, continuando a se alongar.

- O que deu em você? Vai correr uma maratona por um acaso? - ouço a voz de Emmy, e não demora muito até ela parar ao lado de Matt, junto com os outros.

- Quer que eu corra? Faço tudo por você, meu anjo. - dou risada quando ele pisca na direção dela, e logo recebe um tapa em resposta.

Meu corpo fica um pouco tenso no lugar quando vejo Talia se aproximando também. Ela e Aaron foram os últimos a saírem do ônibus. O garoto por sua vez me parece meio abatido. Me lembro vagamente de ela ter comentando sobre algo sobre ele, mas sempre evita por motivos óbvios. Não que eu tenha motivos para não ir muito com a cara dele, mas o fato de ele me detestar já é o suficiente. Não é como o tamanho do meu ódio por Scott, mas já é algo grande o bastante para que eu prefira sair do mesmo lugar que o cara apenas para não causar confusão por Talia. É justamente por conta dela que prefiro manter minha boca fechada e engolir todas as dúvidas que tenho sobre Aaron me odiar.

- O que deu nele? - pergunto para Holly, que está mais próxima e ela segue meu olhar.

- O coitado teve uma crise de ansiedade um pouco antes de chegarmos aqui. Acho que ele não tomou os remédios controlados antes de sair de casa. - ela responde encarando seu amigo, e eu coloco as mãos nos bolsos.

Eu não me lembro de ter escutado essa parte da história. Na verdade, tudo o que sei sobre Aaron é superficial demais. Coisas do tipo ele ser do time de basquete, seu pai ser das forças armadas, ser vizinho de Talia e falar com Meredith ocasionalmente. Fora isso, é como se ele fosse quase um completo estranho para mim.

- Não sabia que ele sofria com ansiedade. - falo no modo automático, e Holly me encara, ajeitando os óculos redondos no rosto.

- Ele não é de contar muito sobre a vida pessoal, mas isso é algo que o incomoda bastante. - a ruiva diz, e eu balanço a cabeça. Todavia, não consigo tirar meus olhos da garota na qual vem me deixando maluco e em como ela olha atenta para Aaron, que parece estar com a cabeça nas nuvens.

Eu não sei como é sofrer com esses tipos de transtornos psicológicos, mas penso que deve ser uma barra ter que lidar com essas coisas. Detesto ver quando Talia têm suas crises. Não gosto de ver como ela fica vulnerável, e ainda mais sensível que o normal. Eu não sei como ela lidava com isso antes de nos aproximarmos, mas pelo que ela me conta, sempre tentava se livrar de suas aflições sozinha. Agora, eu gosto de pensar que sempre a ajudei durante essas crises, e que sempre vou ajudá-la. A ideia de ela estar sozinha quando esse tipo de coisa acontece, me deixa quase apavorado.

- Certo, todos juntos aqui. - uma das professoras responsáveis assopra um apito, e faz um sinal para que os alunos se aproximem. - Devido ao trânsito na estrada, chegamos mais tarde do que o previsto. Ou seja, tivemos que pular algumas atividades, mas nem tudo está tão perdido assim. Os colaboradores do acampamento prepararam algo para vocês, só preciso que peguem as malas de vocês e levem para os dormitórios. - ela apita novamente, assustando alguns. Estou tão acostumado com esse barulho irritante na minha cabeça por conta dos jogos e dos treinos, que soa apenas como zumbidos nos meus ouvidos.

Me viro para ir até o ônibus, onde o motorista esquisito está abrindo o bagageiro. Além da cara de quem não dorme há dias, ele esconde algo debaixo do banco. Vi isso quando estávamos começando a encher o ônibus, mas decidi ficar quieto.

Matt aparece novamente quando Emmy o chuta de seu grupo. Sei como ele é insistente, mas Emmy é tão cabeça dura, que não sei se ele vai conseguir sair com ela de novo. Ele me contou que a garota que beijou era maluca e não foi culpa dele, mas mesmo assim eu duvido muito que ela o escute, e duvido ainda mais que ela ceda aos convites e cantadas da parte dele.

Vamos seguindo o fluxo de alunos até o galpão mais longe, e meu olhar prende num ponto mais a frente, onde Talia está agarrada ao braço de Aaron. Os dois estão mais afastados do resto dos amigos. Sei que não deveria estar sentindo o que estou sentindo por saber do estado dele, mas não consigo evitar. Quero ir até lá e iniciar uma conversa completamente desnecessária apenas para vê-la afastada dele uns dois centímetros que seja. Talvez cinco. Até dez.

Que patético.

Solto a respiração que nem percebi estar prendendo, quando Meredith cola do meu lado e me lança um sorriso grande e branco.

- O que foi? - pergunto, começando a me sentir inquieto com seu olhar.

- Acho que esse final de semana vai servir para colocarmos o papo em dia. Sabe como é, depois de todas aquelas confusões, vai ser bom finalmente conversarmos. - ela diz agarrando ao meu braço, e eu contenho um suspiro. Matt me encara, e eu mordo o lábio.

Essa viagem vai ser mais longa do que eu esperava.

*****

- As praias também são incríveis. Santa Mônica sempre foi o meu lugar favorito. - Meredith diz, e eu balanço a cabeça.

Depois de termos guardado nossas coisas nos dormitórios, os caras do acampamento prepararam um tipo de festa. O diferencial é que tem uma fogueira enorme no gramado. As conversas parecem ficar mais animadas, o que faz a barulheira aumentar. A mesa com as comidas está farta, parece mais uma ceia de Natal. Matt só sai de perto de nós quando decide encher seu prato de plástico com alguma coisa.

- E por que veio para Dallas se a Califórnia é tão boa assim? - Matt pergunta, me prendendo a atenção.

De certo, eu nunca contestei esse lado da história. Quando Meredith chegou aqui, era só mais uma aluna transferida, o diferencial é que ela veio de outro estado. Mas Talia nunca comprou essa história da vinda dela pra cá, já que sua avó mora por lá. Ninguém do grupo de amigos dela comprou. Eu sempre achei que fosse uma cisma dela, mas não importa o quanto eu argumente, ela não acredita.

- Meus pais são divorciados, e eu já havia passado um bom tempo com ele na Califórnia. Minha mãe estava morando apenas com a minha avó quando eu vim pra Dallas, então achei que fosse uma boa fazer companhia para ela também. - ela responde, e toma um gole do seu refrigerante no copo.

- Achei que fosse por conta do seu acidente de moto. - comento, fazendo com que os olhos azuis dela me encarem. Foi isso o que ela me disse quando perguntei o motivo de ela ter vindo para Dallas, e ainda mostrou a cicatriz que tem na costela.

- Isso também. Na verdade, isso foi só mais um motivo para a minha mãe me tirar de lá. - ela dá de ombros, e Matt me olha. - Eu vou buscar algo para comer, querem algo? - nego com a cabeça, e ela logo se vai.

- Essa história está muito estranha, bonitão. Cada vez que alguém pergunta, ela parece mudar de versão. A Kings está certa em desconfiar dela, eu faria o mesmo. - Matt diz, e eu aperto o copo entre os dedos. Isso está começando a me deixar inquieto e isso não é legal. - Vamos pedir opiniões do público. - ele diz, e quando eu menos espero, ele assovia alto o suficiente para que Emmy e Talia parem de andar.

Não falei com ela depois de ter entrado no ônibus, pelo menos não fisicamente. Não é como se eu fosse ter um treco com ela por perto, mas chega perto disso. Por mim, eu ignorava todo esse evento repentino, todas essas pessoas tagarelando e rindo, por um final de semana sozinho com ela. Sinto vontade de rir com esse típico pensamento de filme romântico clichê. Daqueles bens ruins que minha irmã e minha mãe assistem quando estão sozinhas em casa.

Volto a pensar novamente quando as duas se aproximam. Emmy empurra Matt para o lado, e Talia se senta ao meu lado. Seu perfume adocicado quase me deixa zonzo, e sou obrigado a me concentrar no meu refrigerante antes que eu acabe puxando-a para longe de toda essa gente e sabe-se lá o que aconteceria.

- Por que nos chamou? Desembucha logo. - Emmy diz, mordendo um pedaço de seu brownie.

- É sobre a Meredith. - ele diz, e Talia bufa do meu lado.

- Se for para falar dela, prefiro ouvir a cantoria irritante do Todd. - ela aponta para um ponto mais longe, e vejo o dito cujo balançando os braços enquanto canta alguma música melancólica.

- Acredita que essa vaca tentou me passar a perna mais cedo? Se ela continuar com essas provocações, eu vou para a cadeia e ela para o hospital. Se tiver sorte. - Emmy diz convicta, e eu dou risada.

- Não é nada disso, mas se você quiser bater em alguém, vou ser seu advogado em período integral. - Matt pisca para ela, que lhe devolve um soco no braço.

- Vão falar o que ela fez dessa vez, ou vão enrolar? - Talia pergunta impaciente, e eu encaro o meu amigo.

- Você quem chamou as duas, você fala. - dou de ombros, e ele revira os olhos.

- Você é um melhor amigo de merda, sabia disso? - ele aponta o dedo, e eu termino o meu refrigerante. - Se liga, ela estava aqui conversando com a gente, quando começou a contar sobre o motivo de ter se mudado para Dallas sendo que a Califórnia é quase um paraíso. E o que ela disse, foi que a mãe estava se sentindo sozinha aqui e blá blá blá. - ele balança as mãos, e eu endireito minha postura.

- E no primeiro dia de aula, quando ela chegou aqui, disse para mim que veio pra cá depois que sofreu um acidente de moto na Califórnia. - completo, e as duas se entreolham.

- Eu sempre soube que essa perua loura escondia algo. Não fui com a cara dela desde o início. - Emmy levanta seu último pedaço de brownie, e Talia balança a cabeça.

- Eu sabia que essa garota não me cheirava bem. Não implico com as pessoas a menos que eu tenha um bom motivo. - ela diz, e eu cruzo os braços.

- Se ela esconde mesmo algo, o que acha que poderia ser? - pergunto, encarando suas íris acinzentadas.

- Não sei, ela é maluca. Poderia ser qualquer coisa. - ela responde passando as mãos nos fios pretos. Prendo meu olhar no dela, e ela também parece congelar. Não sei se é coisa da minha cabeça, mas a luz da fogueira realça ainda mais suas sardas, deixando ela ainda mais bonita se isso for humanamente possível.

- Olha só para eles dois, não são fofos juntos? - a voz melosa de Matt entra nos meus ouvidos, e eu reprimo um palavrão.

- Se vamos servir de vela para vocês dois, seria bom se nos avisassem primeiro. - Emmy completa, e Talia ri, se voltando para os dois na nossa frente. Ela até abre a boca para falar, mas é interrompida quando alguém chama seu nome mais ao longe.

- O cara do acampamento arranjou dois violões, está a fim? - um garoto do qual não me recordo o nome aponta para o instrumento na mão de um dos organizadores do lugar, e então ela se vira para nós três.

- O que estão esperando? Vão me ver passar vergonha ou vão ficar sentados aí? - ela se levanta, e eu nego com a cabeça.

- Não fala besteira, garota. Você é melhor nisso que muita gente. - Emmy é a primeira a se manifestar, e passa os braços em torno dos ombros da amiga, e as duas vão caminhando mais a frente.

- Precisamos armar um encontro. Sabe, como casais de amigos. Você e sua musicista, e eu e minha futura tatuadora. Precisamos treinar essa coisa para quando formos adultos, já sabermos o que fazer, sacou? - ele diz animado, e eu fico calado, observando as duas conversando enquanto vamos caminhando até o cara com o violão.

Essa ideia do Matt, por mais maluca que seja, me deixou pensativo. Esse rolo esquisito entre eu e Talia vai durar tanto tempo assim? Até nos formarmos, ela ainda vai continuar gostando de mim e vice-versa? Todos dizem que namoro de colégio nunca vinga depois da formatura. Não que isso seja de fato um namoro, mas mesmo assim se aplica, não é? Isso talvez dure alguns meses depois da formatura, mas e depois? Ela claramente têm planos para a faculdade, têm vários objetivos , enquanto eu não faço a mínima ideia do que vou fazer amanhã. Isso vem martelando na minha cabeça há um tempinho, e está começando a ser uma pedra no meu sapato.

Duas garotas param um pouco mais perto de onde eu e Matt estamos, e eu continuo prestando atenção em Talia, que conversa com um outro cara que também arranjou um violão.

- Ela não perde a oportunidade de se mostrar, não é? - ouço uma das garotas falar, e reviro os olhos. Se elas forem mesmo falar besteira sobre Talia, seria melhor que fosse longe dos meus ouvidos.

- Concordo. Ela sempre se fez de coitada aqui e lá, não sei como o Hayes conseguiu gostar dela. - a outra responde, e eu balanço a cabeça novamente. Isso é sério? Elas realmente não me viram parado bem aqui?

Matt me olha como se eu devesse falar alguma coisa, mas não sei se é uma boa ideia. Com a raiva que está começando a me subir, vou acabar falando coisas demais e aí é bem capaz de a situação aumentar.

- Será que ela não percebe que -

- Vocês duas! - Emmy exclama, se aproximando das duas. - Se não fecharem a matraca, vou fazer as duas engolirem esses copos de plástico. - ela aponta para os objetos nas mãos das duas, e eu prendo o riso. Eu deveria estar me preocupando em afastar Emmy dali, mas é ótimo ouvir um sermão da parte dela para cima das duas.

- E quem é você para -

- Eu sou a pessoa que vai botar vocês duas em um saco preto se não fecharem a boca. Agora sumam daqui. - Emmy levanta o dedo, e as duas logo correm dali. - Ficou me devendo essa, quarterback. - ela aponta para mim, e eu aceno com a cabeça.

- Cara, eu amo essa garota. - Matt suspira do meu lado, e eu dou risada, voltando o meu olhar para a garota sentada do outro lado da fogueira afinando seu violão.

Matt me puxa para mais perto de Talia, e eu pressiono os lábios, vendo ela passando os dedos nas cordas do violão. Quando ela está no seu próprio mundo, parece virar outra pessoa. Gosto do sorriso que seu rosto ganha quando ela está com um violão, ou quando está lendo um de seus livros. Parece virar outra pessoa, e isso é bem legal de se ver.

- Certo, não espero que todos saibam essa música, mas se alguém souber, por favor não me deixem cantar sozinha. - Talia diz levantando uma palheta, e milagrosamente, todo mundo concorda. Quando ela me disse que sempre carregava uma palheta para tocar algum instrumento no bolso, cheguei a duvidar, mas quando estávamos conversando no dia em que ela fez aquela lasanha, mesmo que tivesse trocado de roupa, ainda assim puxou uma palheta do bolso do short. Ela pode trocar de roupa várias vezes no dia, mas ainda vai continuar com o objeto no bolso.

Another turning point, a fork stuck in the road
Time grabs you by the wrist, directs you where to go
So make the best of this test and don't ask why
It's not a question, but a lesson learned in time


Dou risada quando reconheço a letra logo de cara. Não estava prestando muito atenção na melodia, já que estava ocupado demais observando o contraste das chamas da fogueira com sua pele caramelada. Eu não esperava por essa, e acho que esse era o objetivo dela no fim das contas.


It's something unpredictable, but in the end it's right
I hope you had the time of your life


Os olhos acinzentados dela parecem varrer pelo local da fogueira, e não demora muito até encontrar os meus. Seu sorriso aumenta, e ela mantém seu olhar preso ao meu. Honestamente, estou sentindo que essa coisa entre nós vai muito mais além do que eu imagino. Posso estar blefando, mas levando em conta o rumo que as coisas estão tomando, eu não me surpreenderia nem um pouco. Ela consegue me deixar maluco só chamando pelo meu nome, e isso de certa forma, é um pouco perturbador, mas sei que ela sente o mesmo, se não mais intenso.

So take the photographs and still frames in your mind
Hang it on a shelf in good health and good time
Tattoos of memories and dead skin on trial
For what it's worth it was worth all the while


O cara com ela continua, enquanto ainda continuo olhando para ela. Eu não esperava ouvir Green Day em uma fogueira, e muito menos que algumas pessoas soubessem da música. Já ouvi essa música várias e várias vezes, mas vindo da voz dela me trás uma sensação esquisita de paz absoluta.

A música logo acaba, e eu sorrio para ela. No momento em que seus olhos grudaram nos meus, ela não desviou um segundo, nem para dedilhar entre as cordas do violão. Me pergunto como ela consegue não se perder na sequência certa de acordes, mas também não contesto. Por mais que eu tivesse sentido arrepios dos pés a cabeça quando me encarou enquanto cantava, gostei desse contato visual. Foi como se ela estivesse cantando apenas para mim no meio de toda essa gente. Eu realmente queria saber colocar em palavras o que sinto toda vez que ela canta, mesmo que seja quando ela está com os fones nos corredores, e até assim ela consegue cantarolar bem. Não sei se estou ficando louco, ou se tudo o que ela faz é estupidamente interessante e incrível.

Só desvio os olhos das íris cinzas, quando a cabeleira loura de Meredith entra no meu campo de visão, impossibilitando qualquer tentativa de enxergar a garota do outro lado da fogueira.

- Será que pode me ajudar? - Meredith pergunta, e eu aperto o copo na mão. Fala sério, agora?! E com o que raios ela pode querer ajuda?! - As rodinhas da minha mala emperraram e ela está pesada, pode me ajudar a levar até o meu dormitório? - seus olhos azulados me encaram esperançosos, e eu mordo a língua para acabar respondendo um não.

- Eu já volto. - empurro meu copo para o Matt, que me olha com um ar contrariado. Eu também não queria ter que sair daqui, e espero que isso seja rápido. Só ajudá-la com a bendita mala e voltar, não tem como algo dar errado nesse meio tempo.

Meredith tenta segurar a minha mão para me puxar por entre as pessoas, mas trato de desviar rapidamente. Não preciso que ela confunda as coisas e nem que tudo desande entre mim e Talia novamente. Está tudo ótimo do jeito que está e não quero que saia dos trilhos.

O barulho do outro lado vai diminuindo conforme vamos chegando no galpão dos dormitórios. Meredith aponta para sua mala encostada na parede de tijolos do galpão, e coloca as mãos no quadril.

- O que aconteceu? - pergunto ao ver as rodinhas completamente tortas. Acho que isso não tem conserto, ela definitivamente vai ter que comprar outra dessa, que parece ser bem cara por sinal.

- Pedi ajuda a um dos meninos do time de basquete e o idiota conseguiu tropeçar e derrubar, e como ela está pesada, deu no que deu. Acha que tem salvação? - ela pergunta, e eu olho para o seu rosto. Não tem como esse estrago ter sido causado por uma queda. Conheço um pessoal do basquete, e não me lembro de ninguém ser tão bruto ou tão alto a ponto de ferrar as quatro rodinhas da mala. Tem alguma coisa errada.

- Acho que não, vai ter que comprar outra. - continuo olhando para o seu rosto, procurando algum vestígio de mentira, mas nada. Ou ela está falando a verdade e tem alguém bem desastrado no time, ou ela mente tão bem quanto respira.

- Isso é uma droga. Ganhei essa mala da minha tia quando ela foi à França. - ela faz um bico, e eu balanço a cabeça. - Bom, pode me ajudar a levá-la até a minha beliche? - ela pergunta, e eu fico de pé, pegando a alça da mala.

Não gosto dessa sensação de desconfiança, mas não tem como evitar. Todos com quem eu conversei até agora também acham que tem algo de errado com Meredith, mas ninguém desconfia do quê. Isso é ruim, pois Meredith sempre foi franca comigo, pelo menos até onde sei, ela sempre me contou tudo abertamente sobre sua vida, até mesmo quando eu não perguntava, ela falava sobre. Não sei muito bem no que pensar agora, mas espero que eu esteja errado. Profundamente errado.

Quando chegamos ao dormitório, ela vai andando na frente para indicar sua beliche, e para a minha desgraça, fica quase no fim do lugar. Essa mala está realmente pesada, ainda mais por ser de um material firme.

- Valeu por me ajudar. Se eu estivesse sozinha, teria acabado de vez com a mala. - ela sorri quando deixo o objeto encostado ao lado da mala rosa choque de Stacey. Aceno com a cabeça, e me viro para sair daquele espaço apertado, quando Meredith empata a minha passagem. O que ela está querendo agora?

- O que foi? - pergunto, e no mesmo segundo ela dá um passo para frente, me encurralando ainda mais entre as beliches e a parede. Não tenho como me mover nesse espaço minúsculo, e isso está me deixando um tanto quanto frustrado.

- Sabe como é difícil passar um tempo a sós com você? Está sempre ocupado com o time, ou em casa. É quase impossível falar com você no colégio e fora dele. - seu tom de voz diminui, e quando pisco, suas mãos pousam nos meus ombros.

- Foi mal, Meredith, mas não vai rolar. - tento afastar seus braços, mas ela praticamente me faz encostar contra a parede a força. Não estou gostando nada do rumo que as coisas estão tomando.

- O quê? Posso ser bem melhor que a outra. - ela puxa minha mão até seu quadril, mas trato de me livrar dela. Ela ficou louca ou o quê?!

- Eu disse que não vai rolar, Meredith. Esquece. - consigo sair do pequeno espaço entre as beliches, e respiro fundo quando consigo mover pelo menos os braços.

- Ah, qual é? O que tem de errado comigo? Ou melhor, o que você vê naquela garota rabugenta e atrevida? - ela pergunta esganiçada, e eu aperto os dedos na tentativa de segurar a chuva de palavras nada agradáveis que tenho guardado para esse tipo de situação. Mas não sei se vou conseguir me policiar nesse quesito.

- Escuta, não quero ser grosseiro nem nada, mas eu sei me cuidar sozinho. Não quero que você confunda as coisas, somos amigos e nada mais do que isso. - ela me olha parecendo indignada, e eu coloco as mãos nos bolsos. - E não acho certo você falar dela desse jeito quando ela não está aqui para se defender. É ridículo. - dou um passo para trás pronto para ir embora, quando paro no lugar. - E se quer saber, eu gosto dela, Meredith. Do jeito rabugento e atrevido também, então se puder nos deixar em paz, eu agradeço. - trato de sair daquele galpão, e aperto o passo de volta para a fogueira.

Não sei o que deu na cabeça dela para tentar esse tipo de coisa. Digo, ela não é burra, deve ter escutado os rumores pelo colégio, ou alguém do corpo de líderes de torcida deve ter falado algo, até mesmo Matt pode ter aberto a boca sem perceber. De qualquer forma, é bom ela não tornar a fazer isso, ou a minha paciência vai esgotar de vez. Fui até gentil com ela, levar um pé na bunda não é algo legal, então tentei suavizar o máximo que pude, mas não sei se deu muito certo.

Vejo Matt conversando com um pessoal do time, e desvia assim que me aproximo.

- Que cara é essa? - ele pergunta, saindo da pequena roda de amigos ali.

- Meredith enlouqueceu de vez. Tentou me beijar dentro do dormitório. - ele arregala os olhos, e me empurra para um canto mais afastado das pessoas.

- Ela ficou maluca?! Eu bem que desconfiei que ela ia tentar algo assim que apareceu. Vi ela conversando com Aaron um pouco antes de te levar daqui. - Matt comenta, e eu pressiono os lábios.

- Isso não está me cheirando bem. Tem alguma coisa errada. - falo, e ele passa as mãos nos fios esbranquiçados.

- E o que vai fazer? Vai contar para a Kings sobre isso? - olho para a garota em questão, cantarolando com um pessoal à sua volta. Não quero que ela fique irritada com essa história, e também não quero que ela sinta que o que temos possa acabar ou algo assim. Mas também não gosto da ideia de mentir para ela, sei que isso não é nada tão grande, mas sei que ela detesta mentiras tanto quanto eu. É um impasse, com certeza.

- Não, eu já resolvi com a Meredith e é bom ela não tentar nada do tipo novamente. E eu não quero causar nenhuma confusão, então é bom você manter o bico fechado. - Matt levanta as mãos em sinal de rendição, e dá um passo para trás.

- Minha boca é um túmulo, bonitão. Agora vamos até lá, assim eu curto a minha garota, e você a sua. - ele diz, e logo me arrasta até onde elas estão.

Conforme vamos chegando mais perto de onde todos estão, consigo ouvir a voz baixa dela cantando mais uma música, mas dessa vez, parece estar cantando para si mesma, já que os outros estão conversando entre si. Apenas Aaron não está por ali, então aproveito para atravessar o gramado, e me sentar ao lado dela. Ela desvia o olhar do violão para o meu rosto, e sorri.

- O que está tocando? - ela se ajeita no tronco de árvore onde estamos sentados, e dedilha nas cordas do violão novamente.

- One Direction, mas você obviamente não conhece, então não faz diferença. - ela zomba, e eu reviro os olhos. - Aconteceu alguma coisa? Está com uma cara estranha. - ela se aproxima, puxando o violão consigo. Por um milésimo de segundo penso em contar o que de fato aconteceu, mas é melhor eu ficar quieto. Não quero armar confusão.

- Só Scott me enchendo. - respondo, vendo ela balançar a cabeça.

- Ele também veio tentar testar a minha paciência mais cedo, mas consegui cortar e mandá-lo para longe. - ela comenta, alcançando seu copo de refrigerante no gramado. - Ei, eu soube que -

- Vocês dois! - Matt interrompe a fala dela, e nos viramos para encará-lo. - Venham com a gente. - ele faz um sinal, e agarra Emmy pelo braço, levando-a para um ponto mais afastado dos alunos.

- O que ele está aprontando agora? - Talia pergunta, entregando o violão para um garoto sentado ali perto.

- Não sei, nunca dá para adivinhar nada vindo dele. - respondo, e me levanto, seguindo os dois.

Enquanto vamos caminhando em silêncio, os dois na nossa frente não param de falar nem por um segundo. A maior parte do tempo, Emmy está brigando com Matt por conta das cantadas fora de hora, e ele tentando segurar a mão dela o tempo todo. Tem horas que admiro Matt por ainda insistir nela depois de tudo o que rolou entre os dois, e admiro mais ainda Emmy por aguentar ouvir ele sem dar um soco certeiro no rosto dele.

Conforme vamos nos afastando de todo o barulho, a iluminação também vai diminuindo, quase um breu.

- Certo, acho que está na hora de vocês falarem onde estamos indo. - Talia diz ao meu lado, prestando atenção onde pisa.

- Se estou certo, estamos quase chegando. - Matt diz, e vejo que a tensão dela parece aumentar. Quase havia me esquecido que ela detesta o escuro.

- Pelo menos use a lanterna do celular, cabeção. - falo tirando o celular do bolso, e ligando a luz.

Talia pisa em falso, e eu seguro seu braço antes que ela vá de encontro ao chão. Ela mesma faz uma piada sobre isso, e volta a caminhar, mas dessa vez seguro sua mão. Ela desvia o olhar do chão, e me encara com um leve sorriso. Queria saber explicar o quão sem jeito ela consegue me deixar, mesmo que não faça nada. É perturbador.

- Vão mesmo ficar namorando aí atrás ou vão andar mais rápido? - Matt nos chama, e Emmy dá risada. Eu nem percebi que havíamos parar de andar, enquanto os outros dois estão bem na frente.

- Olha só para eles, estão até de mãos dadas. - Emmy aponta, e eu sinto meu rosto esquentar. Isso é patético em nível colossal. - Andem logo, não podemos demorar para voltar. - ela balança o braço e volta a caminhar seguida de Matt.

- Ainda não sei se foi uma boa ideia fazermos amizade com esses dois. - Talia comenta baixo, e eu concordo. - Vamos antes que venham nos buscar pelos cabelos. - ela me puxa, e eu trato de acompanhá-la.

O caminho até onde o Matt está nos levando é um pouco sinistro, já nem ouço mais a barulheira do acampamento, apenas o som dos nossos pés pisando nos gravetos e folhas secas caídas por ali. E também não entendi o motivo de ele não chamar os outros, mas não contesto.

- Meu Deus. - Talia suspira ao meu lado quando paramos de andar.

- Como foi que soube desse lugar? - Emmy pergunta, mas mantenho meu olhar para a vista. É realmente muito bonito.

- Quando se tem amizade com os caras do time, você sabe de tanta coisa. - Matt responde, claramente orgulhoso de seu feito. - Certo, me disseram que a descida é estreita demais e nós estamos em quatro. E já que somos cavalheiros, o que acha de levar as damas nas costas? - ele me encara, e antes que eu responda, Emmy lhe dá um tapa, parecendo indignada.

- Isso é uma desculpa esfarrapada para colocar suas mãos em mim?! - eu e Talia rimos, enquanto observamos a expressão emburrada da amiga dela.

- Ficou maluca, Emmy?! Claro que não, eu nunca faria nada que você não queira. Só pensei na Kings, já que ela é asmática. - de repente o clima parece pesar.

- Agradeço por pensar no meu lado asmático, e se querem saber, acho uma boa ideia. Se estiver tudo bem pra vocês dois, nós duas aceitamos a carona. - Talia diz, dando ênfase nas palavras. Ainda bem que ela cortou esse clima esquisito, pois eu mesmo não saberia muito bem como agir.

Ela aperta a minha mão na tentativa de me fazer falar alguma coisa, e eu olho para ela. O que ela quer que eu faça, afinal? Se eu estivesse sozinho, já teria dado o fora há tempos.

- É... por mim tudo bem. Não é bom ela ter uma crise agora, além de correr o risco de ir para o hospital, vão saber que estamos aqui e aí a bronca vai ser maior. - falo, e o toque na minha mão suaviza, substituindo o aperto, apenas pela leveza de seus dedos entrelaçados nos meus.

- Deixa de ser cabeça dura, Emmy. Se o Matt tentar algo que você não queira, eu mesma o empurro ladeira à baixo. - Talia diz, e Matt levando os polegares em sinal de apoio.

- Não sei porque deixo vocês me enfiarem nessas situações. - a outra resmunga, e Matt sorri convencido.

Enquanto vejo os dois na frente conversando sobre a tal descida, Talia cutuca no meu braço, me pedindo para abaixar.

- Se disser algo sobre o meu peso, faço nós dois cairmos. - ela diz contra o meu ouvido, e eu dou risada.

- Deveria se considerar sortuda, sabe o quão louca são essas dietas das garotas pelo colégio? Principalmente das líderes de torcida? - falo quando ela apoia o queixo no meu ombro direito. Alguns fios da sua franja caem no meu rosto, e ela trata de afastá-los.

- Fica olhando para as meninas do corpo de líderes de torcida, Hayes? - sua pergunta me pega totalmente de surpresa, e eu paro de andar, mesmo no meio do caminho para onde Matt está nos levando.

- Está com ciúmes, Kings? - devolvo com mais uma pergunta, e ela ri baixo.

- Sua tentativa de virar o jogo foi boa, quarterback. E respondendo sua pergunta, não, eu não tenho ciúmes de ninguém. Ainda mais daquelas garotas. - ela faz uma careta, e eu volto a caminhar.

- Vou fingir que acredito. - ela resmunga algo, e eu me concentro na descida até seja lá onde Matt está nos levando.

Depois de uma caminhada deveras perigosa para dois caras carregando duas garotas nas costas, finalmente conseguimos chegar até o local, e logo Talia desgruda de mim, parando ao meu lado.

- Isso é incrível. - ela sussurra ao meu lado, mas continuo focado na paisagem à nossa frente. Isso parece uma pintura, de tão surreal.

Basicamente, é o que parece ser uma cachoeira, porém, a água não cai de lugar algum. Deve ter algum bom motivo por trás disso, mas conseguimos ver claramente de onde a água deveria estar caindo. De qualquer forma, o que está me deixando mais intrigado, é como a água forma um espelho perfeito para o céu estrelado. A noite está estupidamente bonita, com a luz da lua iluminando tudo como se fosse o próprio sol.

É de tirar o fôlego.

- Podem admitir, o papai aqui mandou bem, não é? - Matt quebra o silêncio, e vejo Emmy se aproximando da água.

- Uh, isso está congelando. - ela diz depois de molhar uma das mãos.

- A noite está fria, mas isso aqui de dia deve ficar ótimo. - Talia se aproxima dela, também molhando a mão.

Enquanto as duas conversam mais ao longe, continuo observando as estrelas refletidas na água, quando Matt chega mais perto.

- Mandou bem. - falo quando ele para ao meu lado, completamente orgulhoso de si.

- É, eu sei. - ele sorri animado. As vozes altas das duas ecoam de repente, e eu paro meu olhar em Talia de novo. Não é como se eu pudesse evitar, ela está bonita hoje. Raramente usa roupas de cores claras, mas hoje ela decidiu usar. Gosto quando ela usa as famigeradas jeans pretas, mas quando usa jeans claros e camisetas da mesma cor, fica ainda mais bonita. Sua pele clara parece ganhar mais cor, assim como suas sardas parecem ganhar ainda mais vida. Fico atordoado cada vez que penso demais sobre ela. - Aí, gosta mesmo dela, não é? - Matt chama a minha atenção novamente, e eu pisco algumas vezes.

- Eu queria poder dizer que não e te dar um soco, mas sim. Eu gosto dela, Matt. - suspiro, me sentando em uma pedra gigante, o suficiente para que consigamos dividir espaço. Achei que admitir isso para alguma pessoa além de Talia, seria ruim, mas até que não. Pelo contrário, sinto um alívio esquisito, quase uma paz. Honestamente, nas últimas horas tenho me sentido estranhamente bem, melhor do que já estive em quase dois anos. Chega a ser revigorante.

- Eu sempre soube. Aliás, vocês dois sempre souberam disso, mas ninguém quis admitir tão cedo. - Matt comenta casualmente, e eu desvio meu olhar das duas por alguns segundos.

- Desde quando virou conselheiro? Anda assistindo novelas com sua mãe de novo? - ele ri, e então volta a olhar pra frente.

- As novelas não tem nada a ver com isso. Tem a ver com aquela garota ali. - ele aponta para Emmy, que está jogando pedrinhas na água, juntamente com Talia. - Sabe, apesar de todas as brincadeiras, eu realmente gosto dela, Thomas. Quero dizer, eu amo essa menina. E por culpa daquela lunática, perdi todas as chances que ainda me restavam com ela. - seu tom de voz vai diminuindo, e eu respiro fundo. Acho que nunca o vi tão sério desde o dia em que o conheci.

- Precisa falar com ela sobre isso, Matt. Não é possível que você não tenha conseguido se explicar todo esse tempo. - ele balança a cabeça em negação, e passo as mãos nos fios brancos.

- Acha que eu já não tentei? Eu tentei. Incontáveis vezes, mas ela não me escuta. Quando aquela maluca foi mandada para o reformatório, segui Emmy pelo colégio feito um psicótico para tentar explicar que eu não tinha nada com aquela garota, matei várias aulas na tentativa de ter um segundo da atenção dela, mas não adiantou de nada. Quando falo que ela é osso duro de roer, não estou exagerando. - ele se lamenta, e eu fico quieto.

É quase difícil de acreditar que desde que o mal entendido entre os dois aconteceu, Emmy não deu sequer uma chance de Matt expor seu lado. Sei que ela é muito orgulhosa de si mesma, mas não ser capaz de escutar pelo menos uma palavra do meu amigo, chega a ser absurdo. Espero que eles se acertem algum dia, e espero que não demore muito.

- Ei, o que estão fazendo aí? Venham pra cá. - Talia nos chama, segurando um punhado de pedrinhas nas mãos.

Matt me olha, e vai caminhando na frente. Até mesmo o modo como ele anda deixa claro que está pra lá de irritado com a situação em que se encontra. E o pior é que não sei o que posso fazer para tentar ajudá-lo. Falar com Emmy não é uma opção, se ela não escuta nem ele, quem dirá à mim. Talia já comentou outras vezes que também tentou entrar nesse assunto com ela, mas a mesma sempre dava um jeito de desviar do assunto ou dava cortadas diretas e rápidas o suficiente para que não voltassem no assunto tão cedo.

Isso vai ser mais complicado do que eu imaginava.

*****

- Ele está mesmo mal, não é? - Talia pergunta baixo, e eu concordo. - Sabe, é difícil falar sobre isso com ela. Mesmo que ela banque a durona, sei que ela também não está nada bem com essa história. Vez ou outra a pego distraída olhando para ele no colégio, mas nunca falei isso para ninguém. Não quero chateá-la ou algo assim. - ela continua, enrolando o dedo em um fiapo solto da minha bermuda.

- Acontece que os dois estão chateando um ao outro e nem estão percebendo. - falo apontando com a cabeça na direção deles, e ela segue o meu olhar. Eles ainda estão jogando pedrinhas na água, mas conseguimos ouvir claramente os insultos de Emmy. - Acha que podemos ajudar em alguma coisa? - ela volta a me encarar, e eu prendo a respiração.

Não sei há quanto tempo nós quatro estamos aqui, perdi a noção quando sentamos para jogar conversa fora. Logo depois, Matt e Emmy tiveram a "brilhante" ideia de deixar eu e Talia sozinhos e irem para um ponto mais afastado. Dessa vez decidi não contestar, já que eu queria mesmo ficar perto dela. Não sei se amanhã vamos ter muito tempo, então agarrei essa oportunidade.

- Que tal um encontro? - ela sugere, se aproximando um pouco mais. - Ouvi minha irmã dizer que essa semana vai ter algum evento no centro da cidade, se você chamasse o Matt e eu chamasse a Emmy, talvez consigamos colocá-los para conversar. Isso se Emmy não decidir apertar os nossos pescoços. - ela brinca, mas até que é uma boa ideia. É melhor eu nem falar sobre esse encontro para ele, já que conhecendo ele como conheço, é bem capaz de não se conter e falar para Emmy, aí sim nosso plano estaria arruinado.

- Isso é uma tentativa de conseguir um encontro comigo, Kings? - pergunto apenas para provocá-la. Gosto das reações que tem quando coloco ela em uma sinuca de bico.

- Você anda muito convencido de si mesmo, quarterback. Sua amizade com o Matt está começando a surtir efeito. - dou risada quando ela me empurra levemente.

- Ei, pombinhos. - Matt nos chama, e eu me viro para encará-lo. - Está na hora de voltarmos, deixem o namorico de lado e vamos caminhando. - ele faz um sinal para acompanhá-lo, e eu me levanto, estendendo a mão para Talia.

Não demora muito até estarmos subindo o caminho estreito. Os braços e pernas de Talia estão grudados em mim como se eu fosse seu último recurso da vida. Ao mesmo tempo que tento prestar atenção no chão para acabar não pisando no lugar errado, me concentro no modo como sua cabeça está encostada na minha e em como seu perfume está entrando nas minhas narinas. Eu sempre achei que Misa fosse a criatura mais cheirosa que eu já vi, já que a maioria dos seus perfumes eram importados, mas Talia é diferente. Ela tem esse aroma característico, algo doce, mas ao mesmo tempo cítrico. Mesmo quando não usa perfume nenhum, consegue ainda ter esse aroma que me deixa maluco.

- Acho que passamos tempo demais lá embaixo. - Emmy fala baixo quando chegamos onde a fogueira estava acontecendo. Agora está tudo vazio, como se nada tivesse acontecido ali antes. Realmente ficamos fora por muito tempo.

- É melhor irmos andando antes que nos peguem aqui fora. - Talia diz do meu lado, e logo me puxa pela mão na direção dos dormitórios.

Vamos passando pelos lugares menos iluminados possíveis, e não demora tanto até chegarmos nos galpões dos dormitórios. Olho em volta, e por sorte não têm ninguém. Pelo menos nisso nos demos bem.

- É, até que mandamos bem. - Matt fala baixo, e se vira para nós. - Bom, a noite foi ótima, mas precisamos voltar. Emmy, meu anjo, pensa bem no convite que te fiz. - ele diz, e a garota bufa.

- Eu já pensei, e a resposta é não. Vê se aceita de uma vez por todas, idiota. - Talia aperta a minha mão, mas me mantenho imóvel. Pelo jeito, juntar esses dois vai ser mais difícil do que eu pensava.

- Está de cabeça quente, amanhã eu venho perguntar mais uma vez. - ele pisca, e eu balanço a cabeça. - Kings, vê se não demora para liberar seu namorado. Precisamos nos apressar para voltar. Vejo vocês amanhã. - ele diz, e logo se vira para ir até o dormitório.

- Isso aí, vê se libera a minha amiga depressa antes que Meredith grite em um megafone que estão aqui fora. - é a vez de Emmy se "despedir", e então ficamos apenas nós dois parados ali.

- Espero que esteja preparado para a nossa tarefa de colocarmos esses dois em um encontro sem que acabe em uma das partes machucadas fisicamente. - Talia diz se virando para mim, e eu a puxo mais para perto.

- E eu espero que não tenhamos que ficar de babá deles durante esse encontro, tomando conta para que Emmy não aperte o pescoço dele. - ela ri, e se recosta em mim. Gosto do modo como ela se sente confiante para realizar certos atos como esse, e gosto mais ainda do sorriso acompanhado desses atos. Eu ainda vou enlouquecer por conta dela.

- Hoje foi ótimo, quarterback. Me senti tão bem que até me surpreendi comigo mesma. - seu sorriso ainda continua estampado em seu rosto, e eu uso a minha mão livre para afastar alguns fios de cabelo do seu rosto. Depois que os tingiu de preto, suas sardas pareceram ganhar ainda mais vida. Me pergunto como pode alguém ser tão bonita quanto ela.

Seus olhos cinzas me olham com precisão, e quando vejo, seus lábios já estão grudados nos meus. Se ela soubesse o quanto estou na dela, teria pena de mim por ter que ir para o dormitório. Me pergunto se algum dia vamos ter tempo para ficar de bobeira o dia todo, apenas conversando ou algo assim. Mas ultimamente tenho tido tantas coisas para fazer que até respirar parece perda de tempo.

As mãos dela seguram o meu rosto quando se afasta devagar, deixando sua respiração bater contra a minha pele.

- Não sei como consegui me manter longe de você o dia todo. - ela diz, deixando seus braços descansarem nos meus ombros.

- Acredite, isso também está me matando. - respondo quando ela sobe o olhar até o meu. Nunca vou me cansar de encarar suas íris cinzas. Aliás, acho que nunca vi olhos de cor tão diferente quanto os dela. Tudo nela emana uma energia diferente de tudo o que já senti, e é exatamente por isso que estou tão na dela.

- É melhor você ir, quarterback. Amanhã nós temos um longo dia. - ela se afasta, mas ainda segura a minha mão. - Boa noite, Thomas. - ela sorri, e logo faz seu caminho até o dormitório, me deixando como se estivesse pisando em nuvens.


Notas Finais


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espero que tenham gostado, tomem cuidado e NÃO SAIAM DE CASA, respeitem a quarentena e cuidem dos parentes próximos, titia ama vcs, até o próximo 💙


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