História Louco de Esperança - Capítulo 16


Escrita por: e MarcianoF

Postado
Categorias Inuyasha
Personagens Inuyasha, Kagome Higurashi, Rin, Sesshoumaru
Tags Autismo, Depressão, Psicopedagogia, Psicoterapia, Psiquiatria, Síndrome De Asperger, Síndrome De Burnout, Terapia Ocupacional
Visualizações 152
Palavras 4.550
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, pessoal. Chegamos aos 60 favoritos! Muito obrigado! (◕‿◕✿)
Como prometido, não demoramos muito \o/ Perdoem eventuais erros.

Contrariando o costume de postar capítulos sem imagens, segue em anexo como capa a fanart da talentosíssima @LenBarboza com seu Inuyasha humano. É basicamente assim o Inuyasha de nossa fic - sério, olhar intenso, fica vermelho com frequência.

Sem mais, boa leitura!

Capítulo 16 - Eu sou o seu apaixonado de alma transparente


Fanfic / Fanfiction Louco de Esperança - Capítulo 16 - Eu sou o seu apaixonado de alma transparente

Você é minha doce amada, minha alegria,

Meu conto de fadas, minha fantasia,

A paz que eu preciso pra sobreviver...

Eu sou o seu apaixonado de alma transparente;

Um louco alucinado, meio inconsequente

Um caso complicado de se entender.

 

***

 

Os corpos permaneciam grudados enquanto a umidade da pele do deslumbrado Inuyasha Athayde migrava para as roupas de Kagome Ribeiro. Os lábios e línguas não se apartavam, as mãos dele ainda comprimiam os glúteos generosos. As dela haviam encontrado a pele quente das costas largas sob a cabeleira úmida e a acarinhavam, instigando-o a apertá-la mais naquele abraço sensual e rico em descobertas novas.

Em meio àqueles beijos que recebia do Louco de Esperança, Kagome permaneceu com os pensamentos suspensos por breves minutos, até que o impulso irracional de se entregar a Inuyasha se desvanecesse, dando lugar a um sentimento de horror.

"O que estou fazendo?! Ele... É um paciente, não é capaz nem mesmo de responder por seus atos... E eu sou uma médica! Uma MÉDICA! Isso que está acontecendo aqui extrapola todos os limites da ética, do bom senso... E do RESPEITO! Eu o estou DESRESPEITANDO! Se alguém ver isso, eu posso ser PRESA!"

Logo o moreno foi repelido com um empurrão não brusco, porém decidido; os lábios dele estavam entreabertos e sua respiração, ofegante. Confuso, Inuyasha intentou se aproximar de novo, murmurando para a médica que ficava pequenina em altura diante dele:

— Carinho, moça anjo... Eu... Fazer carinho n’ocê.

— Não — arquejou ela, atordoada, uma tensão gigantesca se manifestando em forma de dor de cabeça. — Não, Inuyasha. Vai embora pra sua casa... Vai, por favor!

Ele ergueu o dedo indicador endurecido e apontou para a boca da psiquiatra.

— Eu fazeu carinho ruim? — indagou, numa ingenuidade que quase fez Kagome desatar em pranto. Tão doce, tão inocente!

— N-não, não é isso! Vai pra casa! — ordenou ela, a voz meia aguda e embargada.

— Moça...

Foi aí que, enfim, o rapaz sentiu que algo repuxava o tecido de sua bermuda. Inuyasha se apavorou ao notar a ereção ali, erguendo a roupa, e, num impulso, tapou seu sexo com as mãos.

— Quebrou! Quebrou! — exclamou ele, olhando para si mesmo e parecendo francamente aterrorizado. Antes que Kagome pudesse lhe dizer qualquer coisa, o rapaz saiu correndo em desabalada carreira. Precisava ir para o rio, lavar-se e consertar aquela parte inconveniente de seu corpo, que ousava tomar proporções estranhas e diferentes sem que ele pudesse controlar.

O autista deixou para trás a médica, que, sem saber como, conseguiu entrar no Pajero e ir embora dali após longos e torturantes minutos de culpa, vendo Inuyasha correr e tropeçar até sumir de seu campo visual.

Kagome se sentia suja e .

Afinal, em sua opinião, Inuyasha não sabia o que estava fazendo e ela... Abusou dele.

Retribuiu seus beijos, permitiu-se experimentar do calor daquele corpo másculo e bem feito. Na rodovia, a médica dirigia como louca, ultrapassando a velocidade máxima permitida. No entanto, ela não ligava para isso. Nada lhe importava. Ao chegar a Montes Claros, Kagome saiu ‘furando’ sinais vermelhos e ultrapassando veículos em locais proibidos, tal a ânsia de se ver dentro de seu quarto.

A médica chegaria à sua casa num estado emocional deplorável. Bateu a porta do apartamento, chutou o cesto de roupa suja, vociferou palavrões enquanto as lágrimas desabavam. Jogou-se na cama e chorou, enfim, decepcionada consigo mesma e amargando aquela sensação horrível de solidão.

Fora abraçada e beijada por um homem que, possivelmente, não fizera aquilo por querer. Ele devia ter visto tal cena em uma televisão ou algo parecido. Era óbvio, a seu ver, que o jovem moreno das margens do Pacuí sequer sabia o que era amar alguém.

O amor verdadeiro, ela conhecera com Kouga. Ele, no entanto, não poderia amá-la mais. “Inuyasha também não me ama, aquilo foi só um... QUE ÓDIO! Por que estou pensando nele de novo?!”, revoltou-se a morena, socando o colchão macio ao ver o quanto seus pensamentos estavam perturbados.

Era a maldita e impiedosa carência afetiva.

Não havia ninguém para amá-la, desejá-la, fazê-la se sentir única. Seria a cruel solidão sua companhia para sempre?

Kagome afundou o rosto no travesseiro para gritar sem fazer estardalhaço e chamar a atenção dos vizinhos.

— KOOOUGAAA! P-POR QUE VOCÊ TEVE Q-QUE MORRER?!? POR QUÊ?!?

 

***

 

Outra pessoa também sofria muito naquele fim de tarde...

Extremamente nervoso, Inuyasha correu por longos minutos sem parar, segurando as partes íntimas com a mão para que ninguém visse seu estado e desejando que o ‘pipi’ voltasse ao normal. Sua sensibilidade sensorial exacerbada o havia deixado louco de excitação ao tocar a moça bonita. E se ela ralhasse com ele, como Sesshoumaru fazia? Já na metade do caminho, ele precisou parar um pouco para respirar, muito cansado e ansioso, quando resolveu baixar as calças e notou que seu pênis estava adormecido e viscoso. A fricção o levara a ejacular e agora sua bermuda se encontrava suja de esperma. O rapaz voltou a correr, com nojo.

 

Se eu ficar sujo, a moça bonita não vai me deixar fazer carinho bom nela...

 

Vinte minutos de corrida depois, Inuyasha suspirava aliviado ao chegar ao Pacuí. Mais uma vez enfiou-se n’água, dando rápidas braçadas e despindo a bermuda para higienizá-la. Dando-se por satisfeito, ele se vestiu e recomeçou a correr, indo direto para o ponto da rodovia onde deixara Kagome. Mal notou os garranchos e pedrinhas lhe ferindo as solas dos pés grandes e descalços.

— Moça!

Mas o carro não estava mais lá, nem a bela mulher que ele tanto ansiou por ver.

 

A boca da moça bonita é macia e tem gosto de balinha.

Fico estranho quando faço carinho na boca dela. No meu peito faz bump-bump-bump-bump muito rápido.

Eu penso nela conversando comigo, me ensinando coisas novas,

olhando pra mim com aquele olhinho brilhante.

Quanto mais faço carinho na boca dela com a minha, mais me dá vontade de fazer...

E sentir o cheirinho dela...

Mas nada me deixa tão feliz quando ela tá olhando e sorrindo pra mim.

Quando ela tá comigo, sinto que vou entender tudo o que até agora não consegui entender.

 

— Moça... — e o moreno olhava para todos os lados. Não atravessou a rodovia porque seu pai o havia ensinado que era perigoso.

O coração de Inuyasha palpitou forte, trazendo-lhe um sentimento muito desagradável. Seus ombros caíram e ele, depois de esperar para ver se Kagome retornava por um bom tempo, finalmente percebeu o quanto seus pés estavam machucados. O sol estava se pondo; ele precisava voltar para casa antes que Sesshoumaru desse por falta dele.

 

A moça foi embora... Eu fiz carinho ruim nela?

Ela ficou triste comigo? Por que não me esperou?

 

O rapaz desceu a pequena colina, indo em direção a seu lar. Ele estava profundamente decepcionado não com Kagome, mas consigo mesmo. Imaginava que havia afugentado a moça com aquela reação indesejada de seu corpo. Sentiu raiva. E, enfim, se sentiu MUITO sozinho.

Inuyasha queria compreender o porquê de ter sido deixado para trás. Ele parava ocasionalmente para olhar para a rodovia, sentindo o coração se arrebentar ao notar que não, a moça não havia voltado para passar tempo com ele. O nariz ficou pesado, ele fungou. Mais um resfriado a caminho.

Ouviu de longe a voz de seu irmão e deu um sorriso mínimo. Seu coração estava doendo tanto... E ele não conseguia expressar em palavras. Talvez Sesshoumaru pudesse compreendê-lo. Ignorando as dores nos pés, Inuyasha voltou a correr até chegar à beira do casebre.

O loiro o olhou bravo, mas também preocupado. Ele sabia que havia uma parte da propriedade que dava para o asfalto e temia que o seu irmão autista fosse para lá e acabasse sendo atropelado. Vendo-o se aproximar parecendo bem, Sesshoumaru exclamou em desagrado:

— Ô idiota! Como é que você some desse jeito?! Tá querendo levar mordida de alguma cobra?

— Malu...

Inuyasha tentou se acercar do irmão, mas pisou de mau jeito e caiu com estrépito no meio das folhas secas. De imediato, o mais velho correu para erguê-lo.

— Olha onde anda pra não quebrar a perna, seu retardado — resmungou o fazendeiro, pegando no braço do caçula para ajudá-lo a se levantar. Porém Sesshoumaru ficou surpreso ao olhar nos olhos do irmão. — Caralho, Inu! Não me fala que você quebrou alguma coisa, só vai me faltar ter que engessar sua perna. Tá chorando!

— M-Malu... Eu... — e ele se embolou com as palavras e os soluços. — O c-carro...

Carro?!

— C-carro foi embora... Eu... P-papai...

Sesshoumaru deu um longo suspiro, passando um dos braços pelas costas do irmão e o carregando para dentro do casebre.

— Você furou o pé, moleque. Não adianta comprar sapatos pra você, você não usa... Você viu um carro e se lembrou do nosso pai, é isso? — e o fazendeiro fez o rapaz se sentar na cadeira. Inuyasha estava tão fragilizado emocionalmente que se deixou cair sobre a cadeira e permaneceu soluçando, olhando fixamente para os fios dourados de seu irmão. Por sorte, Sesshoumaru estava com um humor melhor naquele momento e tentou ser brando com o outro: — Assim que eu fizer uns curativos nesse teu pé, vou te dar alguma coisa pra comer, tá bom? Não fica chorando assim não, homem não chora.

Desolado, o rapaz ficou quieto enquanto Sesshoumaru perscrutava a sola de seus pés e via os ferimentos, cuidando logo de fazer assepsia em sua pele. Então, ele teve uma lembrança que, momentaneamente, fê-lo se esquecer de Kagome.

— M-Malu, ó... — e Inuyasha pegou de leve na manga da camisa do irmão. — Eu sou feio...

— Você? Feio?! — Sesshoumaru não gostou muito daquele comentário. — Vai se foder, você é igual à nossa mãe e ela era tão bonita quanto Nossa Senhora!

— Nossa Senhora, me dê a mão, cuida do meu coração... — cantarolou o moreno. O mais velho o interrompeu rapidamente:

— Isso... É de Nossa Senhora mesmo que eu tô falando. E você só é retardado, não é feio não... Ter um irmão retardado e feio seria demais pra mim. Se você fosse normal, acho que seria pegador que nem eu era quando tinha sua idade. Mas pra que tô falando tudo isso? — Sesshoumaru meneou a cabeça, incomodado com tais pensamentos. — O que você precisa entender é que tem que deixar eu cuidar dessa sua cara, moleque. Você não dava esse trabalho todo pro pai cortar o seu cabelo...

— Pro pai cortar o seu cabelo — repetiu ele, não compreendendo. — Ó... — o moreno então lembrou-se de mostrar o que o enfeava; pegou uma de suas melenas e a ergueu. O outro o compreendeu de imediato:

— Até que enfim! Vai me deixar cortar essa juba, então?

— Corta, Malu. Corta aqui e aqui — e Inuyasha apontou sua barba de muitos dias.

— Vou cortar mesmo. O pai iria me dar uma puta bronca se estivesse vivo e te visse assim, parecendo um bicho. A sua franja tá quase tapando seu nariz.

— Cê bonito, barba bonita — comentava o caçula. — Eu quer ser bonito. Barba do Malu...

— Cavanhaque?! Ave-Maria, você não tem ideia do quanto dá trabalho fazer. Eu teria que usar um aparador nesse mundo de barba que você tem. E você tem medo do barulhinho do aparador...

— Corta, Malu — pediu ele de novo, mais calmo.

— Amanhã, tá bom? Já tá escurecendo, eu não vou enxergar direito... — o loiro terminou de cuidar dos pés de Inuyasha e se ergueu. — Amanhã, eu...

Sesshoumaru se calou, observando a fisionomia já inexpressiva do irmão de novo. Imaginou se Rin o aprovaria caso soubesse o quanto ele andava infrequente nas visitas ao caçula. Mordeu os lábios, incomodado, e afirmou:

— Amanhã eu mesmo vou trazer seu café, tá bom?

— Anjo tem rosto bonito que fica vermelhinho — respondeu Inuyasha, com os pensamentos muito distantes dali. O fazendeiro revirou os olhos.

— Anjo, anjo, anjo! Será que vou ter que te levar numa igreja? Você anda falando tanto disso. Agora vai comer alguma coisa e ficar quieto dentro de casa.

Depois de dar alguma assistência a seu irmão, Sesshoumaru se despediu dele e voltou para a sede. Então, Inuyasha pegou uma cenoura crua e se sentou à porta do casebre, fitando o Pacuí enquanto comia o vegetal.

Aquelas palavras “Nossa Senhora” e “igreja” trouxeram à sua memória as imagens de anjos que haviam dentro da igreja onde seu pai, ocasionalmente, o levava.

Sorriu. Eram lembranças bonitas e agradáveis.

Kagome o fazia se sentir tão bem e era tão bela a seus olhos que, mais uma vez, ele ficou convicto de que ela deveria ser um anjo. Então, Inuyasha conseguiu algo difícil: dizer uma frase completa.

— O cabelo da moça anjo é castanho-escuro — murmurou ele, sonhador, tocando o próprio peito. Adoraria tê-la ao seu lado mais uma vez, presenteando-o com suas palavras fáceis de compreender, seu olhar tão meigo, seus lábios “com gosto de balinha”.

 

***

 

Dia seguinte, antes das seis horas, os dois filhos de Antônio Athayde se levantaram de suas camas. Inuyasha estava ansioso pela presença do irmão e, saindo da casa, despiu-se e nadou com vigor no rio Pacuí. Ia ser muito bom “deixar de ser feio”.

Ele, agora, observava as ondinhas d’água que se formavam pelo agitar de suas mãos no rio quando, ouviu a voz naturalmente mal humorada do fazendeiro a chamá-lo perto do barranco:

— Sai dessa água fria, seu maluco! Essa franja enorme quase tapando sua cara! — e Sesshoumaru se postou à porta do casebre, cenho franzido, regata e bermuda. E sem cavanhaque, para facilitar a negociação de barba com Inuyasha.

Ele decidira não ir trabalhar naquele dia para ficar mais tempo com Rin e, também, porque a tarefa de cortar os cabelos do irmão lhe custaria boa parte de sua manhã.

— Malu! Eu... Eu... — os olhos de Inuyasha avistaram a vasilha com biscoitos e a garrafa que continha o leite sem açúcar. — Fome! Leite! BOLO DA TIA!

— Se enxugue primeiro, idiota. E coloque uma calça!

Alguns minutos depois, vestido e parcialmente seco, Inuyasha devorava fatias de bolo e rosquinhas, bebendo também o leite e se atrapalhando por causa da pressa. Sesshoumaru, que resolvera fazer o desjejum ali também, ralhou ao ver gotas de leite descendo pelos cantos da boca do mais jovem.

— Come devagar, porra! Quer acabar se engasgando?

— Malu, corta — e o moreno pegou uma mecha de seus cabelos.

— Quer parar de ser apressado? Eu também tenho que comer.

Já impaciente, o mais velho virou de uma vez só seu copo com leite e retirou do bolso uma tesoura com um pente e uma escova de cerdas sintéticas. No entanto, Sesshoumaru fitou atentamente a cabeça do outro.

— Inuyasha, eu vou ter que lavar a sua cabeça.

A animação de Inuyasha desapareceu e ele fez bico, exatamente como uma criança pequena.

— Lavar não. Ruim — e se encolheu, acocorado no chão.

— Inuyasha, o seu cabelo está sujo! Só lavar com água não resolve. Como quer que eu corte esse cabelo grudento? Há quanto tempo isso não vê um shampoo?

— Shampoo... Quero não — repetiu o outro, emburrado. Sesshoumaru respirou fundo, tentando não perder a pouca paciência que tinha, e se levantou, indo até o pequeno banheiro.

Haviam dezenas de shampoos e condicionadores, milimetricamente enfileirados por tamanho e modelo. O loiro apanhou um dos frascos, decidido a mostrar ao irmão para que é que servia aquilo, e retornou à sala, notando Inuyasha ainda encolhido, escorado na parede. O caçula ficou nervoso ao ver a embalagem e tentou se colocar de pé para fugir, mas seu corpo não colaborava muito e ele acabou caindo sentado.

— Ruim, ruim... — afirmava ele, olhando com receio para o frasco.

— Larga de ser besta! Você não aprendeu até hoje pra que serve um shampoo? Eu vou mostrar — exclamou Sesshoumaru, já irritado, abrindo a tampa e despejando um pouco do produto na mão. — Presta atenção aqui, Inuyas-

O moreno agitou os braços com brutalidade e, em seguida, tapou o nariz com os dedos. Bravo, Sesshoumaru fê-lo soltar o nariz com um safanão e recomeçou a falar, aproximando dele a palma da mão que continha o shampoo:

— Olha aqui, seu inútil, eu tô tentando te mostrar pra que é que... EI! Onde você tá indo?

Engulhando, Inuyasha saiu engatinhando em direção ao banheiro, agoniado, mas não conseguiu chegar a tempo. Acabou vomitando tudo o que comera ali mesmo, no chão.

Sesshoumaru ficou boquiaberto, olhando para o irmão ofegante que, mesmo sujo, se levantava devagar e todo atrapalhado para ir ao banheiro, murmurando:

— Eca... Ruim. Cheiro ruim...

— O que é que tem cheiro ruim, Inuyasha? — indagou o loiro, totalmente confuso. A resposta de Inuyasha foi continuar andando e falando sozinho.

— Shampoo, eca. Eca, eca.

O mais velho ficou surpreso. Enfim compreendeu o porquê de, no passado, seu pai também não conseguir lavar os cabelos do garoto sem usar a força bruta.

— Então você não aguenta cheiro de shampoo... Eu sou outro retardado também, como não notei isso antes?!

 

***

 

Após pretender limpar o chão sujo de vômito e ser peremptoriamente impedido pelo rapaz autista, que imaginava ser o único realmente apto a limpar seu casebre, Sesshoumaru resolveu subir até a sede e lá apanhou uma barra de sabão glicerinado neutro. Afinal, mesmo o shampoo infantil de Rin tinha um acentuado aroma frutal.

De volta às margens do Pacuí, o fazendeiro notou que seu irmão estava acabando de higienizar a moradia. Inuyasha ainda estava ligeiramente nauseado, mas nem isso tirou seu bom humor. Ao avistar o loiro, ele deu um grito:

— MALU! CASA! LIMPA!

—Ai! Não precisa gritar — reclamou o outro. — Você terminou aí, né? Vem, vambora entrar na água.

— Banho?

— Não... Ou melhor, sim, você vai ter que se molhar, né?

Em segundos, a calça vermelha do rapaz já estava fora de seu corpo e ele se foi, feliz da vida, para o rio, mergulhando profundamente e emergindo em seguida, a franja tapando quase todo o seu rosto. Sesshoumaru foi para a beira do Pacuí, com a barra de sabão na mão.

— Já chega, tá bom. Agora você vai se sentar aqui — e indicou uma das muitas pedras ribeirinhas para que o caçula se sentasse. — Eu vou ter que lavar essa juba com esse sabão mesmo. Vem logo que eu tô com pressa.

— Lavar sabão não — retrucou o caçula, sem a mínima vontade de sair da água e afundando mais uma vez.

— Inu... — Sesshoumaru respirou fundo, procurando não perder a calma e forçando um sorriso para Inuyasha quando este veio à superfície de novo. — Se lavar o cabelo com esse sabão, você vai ficar “bonito como eu”. Não é isso que cê quer?

— Bonito? Malu bonito...

— Isso. Agora vem logo.

Inuyasha então foi ao encontro do irmão, pisando devagar. Mantinha na face a apatia de sempre; sentou-se no local indicado e Sesshoumaru se postou detrás dele, de joelhos, principiando a esfregar sutilmente a barra de sabão no couro cabeludo do moreno. Ao ver a espuma se formando, o loiro disse ao irmão que fechasse bem os olhos.

Para alívio de Sesshoumaru, Inuyasha estava totalmente colaborativo e dócil naquela manhã. Para não quebrar aquele estado de espírito do moreno, ele aplicou o sabão por toda a extensão dos fios com movimentos lentos e esfregou-os da mesma maneira. Apenas o som da água corrente e dos muitos pássaros da copaíba eram ouvidos.

Aquele manto negro de cabelos nigérrimos e compridos em suas mãos fez com que o fazendeiro se entristecesse, lembrando-se da falecida esposa. Kikyou era uma mulher de beleza simples, porém notória. Não falava muito, preferia se expressar fazendo pinturas em tecido e bordados. Ao morrer, deixou inúmeras roupas de mesa e de banho decoradas com sua arte, como também lindos quadros com natureza morta. Ela mesma parecia uma pintura, pelos seus cabelos negros como o breu e a pele do rosto, alva e totalmente livre de manchas. Sesshoumaru suspirou de leve, coração pesado. Procurou não ficar pensando na esposa, pois não conseguia se esquecer do rosto descorado e dos olhos muito abertos dela, sem vida em seus braços, sendo retirada às pressas daquele mesmo rio. Foi arrancado de suas recordações pela voz vibrante de seu irmão, que começou a cantar alto, assustando-o:

— Eu não vou negar que sou louco por você, tô maluco pra te ver...

— Não, Inuyasha! — interrompeu-o ele, irritado. — Já disse pra não cantar perto de mim.

— Eu não vou negar, você é meu doce mel, meu pedacinho de céu... — prosseguiu o outro, que, na verdade, estava entediado e não conseguia pensar em nada para se distrair além de cantar.

Sesshoumaru seria capaz de pagar para não ouvir Inuyasha entoar modas de viola; a saudade do velho Antônio lhe estraçalhava a alma ao ouvir o irmão cantar e reproduzir com perfeição o timbre do pai deles. Eis que, então, o primogênito teve uma ideia instantânea:

— Inu, em vez de cantar isso aí, canta aquela do Roque Bravo! Aquela que o nosso pai tocava pra gente falar os diálogos.

O garoto se calou de uma vez, virando o rosto para olhar para o mais velho.

— Pra gente falar os diálogos — repetiu Inuyasha, processando aquela informação por alguns minutos em silêncio. Por fim, ele começou a declamar, num tom de voz bem mais grave que pertencia ao velho Athayde:

Sesshôumaru, vem cantar a música do Roque Bravo com o Inuzinho, ele se diverte tanto.

— ISSO! — comemorou Sesshoumaru, extremamente aliviado. A parte cantada daquelas “canções de bangue-bangue” era pequena, não o incomodaria.

— Atenção, moradores da vila do Cachorro Sentado! — continuou o caçula, concentrado, olhando de novo para frente enquanto o outro jogava água limpa em seus cabelos com uma cuia. — Roque Bravo entrou aí no bar! Muito cuidado, hein? Papai, quem é aquele homem feio que quer matar todo mundo, hein?

— Fala baixo, meu filho... Aquele é o Roque Bravo! — foi a vez de Sesshoumaru entrar na brincadeira para estimular o irmão. Não, ele não mais achava divertido como no passado, porém era uma boa maneira de entreter Inuyasha e mantê-lo calmo. Felizmente, funcionou.

O moreno adorava Léo Canhoto & Robertinho. Logo narrou a música inteira, sem nem esperar pelo mais velho. Era engraçado: ele chegava a reproduzir o sotaque dos cantores. Deu tempo para que o loiro pudesse enxaguar sua longa cabeleira quase que completamente.

Logo Inuyasha se virou para trás e fitou a sobrancelha de Sesshoumaru, com o olhar mais vivo e atento. Abriu a boca para dizer algo ao irmão e sacudiu os braços.

— Ô... Ô... Ô...

— “Ô” o quê, Inu? Outra?

— OOOOUTRA! — até que enfim ele conseguiu ser compreendido. O filho caçula de Antônio Athayde ficava muitíssimo satisfeito quando alguém entendia o que ele queria dizer.

— Sem gritar, menino. Já que você quer cantar outra, cante aquela que o cantor fala: “garçom, traz cachaça pra todo mundo aí”.

Ouvindo isso, Inuyasha abraçou o próprio corpo, gargalhando escandalosamente apenas por ouvir o pedido de Sesshoumaru. Para ele, ver seu irmão compartilhando de seus gostos musicais era algo incrivelmente prazeroso e divertido; a forma que ele usava para exprimir sua alegria era rindo de forma ruidosa. “Rin está rindo igualzinho a ele”, pensou o mais velho, meio desgostoso.

Assim que o moreno conseguiu parar de rir, Sesshoumaru pegou de leve em seu ombro, dizendo:

— Inuyasha, terminei. Agora você vai se sentar naquela cadeira ali — e ele lhe mostrou a cadeira, ao lado da moradia. O jovem se levantou e, aproveitando o rio ali, jogou-se mais uma vez e nadou por alguns minutos para se livrar do suor imaginário, antes de enfim obedecer a Sesshoumaru. Este, revirando os olhos, desdobrava uma toalha para enxugar os cabelos do outro, que foi para a cadeira nu e ensopado, como sempre.

Não foi muito complicado — os fios negros eram lisos e fáceis de se desembaraçar. Sesshoumaru sentia vontade de manter os cabelos do caçula bem curtos, mas Inuyasha amava sua cabeleira. Assim ele se identificava com o pai e com o irmão, sentindo-se parte da família. Não demorou para que o loiro reduzisse o comprimento dos cabelos do jovem autista para abaixo dos ossos das omoplatas, como os seus. Tudo isso ao som de “Jack o Matador”, que o mais novo cantava.

— Ufa! Até que enfim... — suspirou Sesshoumaru, olhando o resultado do corte. Não era tão preciso, mas deixaria o irmão com aparência melhor. — E a barba, hein?

— Barba do Malu... Hum? — fez o moreno, meio intrigado com a falta que o cavanhaque aloirado fazia naquele rosto de poucos sorrisos. — Eu... Eu...

— Você quer a barba igual à minha, não é? Só que eu não tenho mais barba — afirmou o mais velho, apontando para o próprio rosto. — Tá vendo? Meu rosto tá liso. O seu também vai ficar assim... Você vai ficar “bonito como eu”.

— Malu bonito...

Barbear Inuyasha foi uma tarefa bem mais difícil que cortar seus cabelos. O rapaz não parava quieto, repetia conversas antigas, chegou a assustar seu irmão quando contou, imitando a voz de Rin e com fidelidade de detalhes, a história do Patinho Feio. Inuyasha chegou ao extremo de sair correndo, nu e com o rosto cheio de espuma para tentar subir na copaíba, alegando que tinha “ambu” lá no alto.

No entanto, Sesshoumaru estava determinado a não estourar com o rapazinho para que não pusesse tudo a perder, enquanto deslizava lentamente a navalha pela pele do caçula, agora sentado mais uma vez na cadeira. Dentro de si, o loiro se recriminava constantemente: “A culpa é minha... Eu que não devia ter deixado passar mais de quarenta dias sem fazer a barba dele...”

Cinquenta e cinco minutos depois, a face do Louco de Esperança estava livre de pelos de barba, revelando enfim sua juventude. Agora, sim, Inuyasha tinha uma aparência mais “normal” — sereno e olhando ora para a folhagem da copaíba, ora para um ou outro pardalzinho que voava por ali, o moreno parecia apenas um jovem distraído demais.

— Nossa Senhora! Nem acredito que consegui terminar — exclamou Sesshoumaru, lavando a navalha em um vasilhame com água que estava ali. — Sua barba cresce rápido demais. Fiquei todo suado...

O outro nada disse, permanecendo sentado, olhando fixamente para o mais velho. Por haver suado muito, Sesshoumaru se despira de sua regata, ficando apenas de bermuda e não dando atenção para o mutismo de Inuyasha, que o fitava intensamente, enquanto sua cabeça associava a retirada de camiseta do loiro e o suor daquela testa carrancuda a algo que só poderia significar uma coisa — banho.

Sesshoumaru mal teve tempo de se esquivar quando Inuyasha deu um salto sobre si e o agarrou pela cintura, arrastando-o para a água.

— Porra, moleque! Ficou mais maluco ainda?! Me solta! ME SOLTA! — esbravejava o loiro, lutando desesperadamente para se soltar do “abraço de urso” do caçula, que não era fraco fisicamente, apesar de descoordenado. Este, no entanto, estava de ótimo humor, tanto que nem se incomodou com os tapas que levou até chegar ao lugar desejado.

— Malu, banho! — anunciou Inuyasha, com um de seus sorrisos cheios de vida e alegria, que alcançava seu olhar. E atirou o furibundo Sesshoumaru no rio, pulando logo em seguida a alguns metros de distância do irmão.

— MALDITO!! — berrou o loiro, tossindo pelo ardor da água que invadira subitamente suas narinas. — É ASSIM QUE AGRADECE O TRABALHO QUE... cof... TIVE COM ESSA SUA CARA, SEU MERDA?! EU DEVERIA TE DAR UMA SURRA!!!

A resposta do moreno foi dar mais uma gargalhada intensa. E bater palmas. E rir de novo.

Sesshoumaru contou até dez e saiu do rio, ensopado e louco de raiva; nem adiantava dar uma bronca em Inuyasha, pois ele já estava quieto de novo...

Olhando a beleza das ondinhas borbulhantes da água do Pacuí.

 

***


Notas Finais


Versos que iniciam o capítulo: "É o Amor", de Zezé di Camargo & Luciano.
https://www.youtube.com/watch?v=LsWA1b_iCE4

Recomendamos muito que assistam também os vídeos a seguir, que são as canções cantadas pelo Inuyasha... O álbum "Léo Canhoto & Robertinho no Bangue-Bangue" é uma maravilha! Hiper divertido!
"Roque Bravo": https://www.youtube.com/watch?v=gVzK-29ZYOg
"Jack o Matador": https://www.youtube.com/watch?v=zod5i3YkG9Q

Muita dó da Kagome... :( E do Inu também, que ficou se sentindo diminuído. Por sorte, Sesshoumaru está mais 'de boas', o que ajudou a contornar a situação.

Por que o Inuyasha vomitou com o cheiro do shampoo?
Porque seus sentidos são hipersensíveis e autistas podem ficar nauseados com facilidade (não todos).

Obrigado a todos que têm acompanhado esta fanfic bela e dramática. Para nós é uma grande honra.
@MarcianoF / @Okaasan


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