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História Love Affair. - Capítulo 26


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Notas do Autor


Olha só quem apareceu... Nem demorei dessa vez, hein? Se vocês forem bonzinhos comigo, amanhã eu posto mais um de Love Affair.

Boa leitura!

Capítulo 26 - Outro mundo.


Bessie

Cinza, tudo está absolutamente cinza. É como se eu estivesse em outra dimensão. Na minha cabeça, imagens sem sentido passam rapidamente, como se fossem apenas flashes de tudo o que eu vivi até o dia de hoje, mas uma cena em especial me chama a atenção. Eu e o Padre Anthony, o meu pai, estamos almoçando juntos e ele recita alguns trechos da Bíblia para mim, explicando cada passagem com tanto vigor que dá até gosto de ver.

Sempre foi assim, a cidade inteira sempre falou sobre a minha vida e desde muito nova tive que me acostumar com os outros me chamando de “filha do padre”, mas eu nunca cheguei a contar para alguém o que de fato aconteceu comigo. Só para Serena, mas isso levou muito tempo e também não tem muito o que contar. Anthony não me disse muito na época, porque eu era só uma menina de quatro anos de idade, mas eu acabei descobrindo algumas coisas depois e ligando os pontos. Pelo o que sei, meus pais biológicos nunca foram casados. Não sei se meu pai abandonou a minha mãe quando descobriu que ela estava grávida de mim ou se ele nem sequer soube da minha existência, mas o que eu sei é que a mulher que me deu a vida me abandonou dentro de uma cesta na porta da Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, dizendo que era melhor assim e que um dia voltaria para me buscar, mas isso nunca chegou a acontecer de fato.

Mesmo sem ter nenhuma obrigação e sendo criticado por muitos fiéis, Anthony me criou até os meus cinco anos de idade. Confesso que me criar não foi uma tarefa muito fácil, porque eu sempre tive esse gênio ruim, atacado, sempre tive esse jeito durona de ser. Eu o respondia muito, reclamava de tudo, mas mesmo assim o padre sempre me abria um sorriso largo e continuava me explicando o porquê das coisas serem de um jeito e não do outro.

Nunca vou me esquecer de tudo o que aprendi com o Padre Anthony.

Engraçado como as coisas são. Apesar de levar essa vida errada que eu tenho, ainda consigo ter muita fé em Deus e em tudo o que o meu pai de criação me ensinou. E quer saber de uma coisa? Eu não me importo nenhum pouco de ser chamada de “filha do padre”, porque é isso o que eu sou. Anthony foi a figura paterna que eu nunca tive e eu sou eternamente grata a ele. Mesmo com tudo, mesmo com todos os meus erros, sinto orgulho de poder chamá-lo de pai, mas será que Anthony sentiria orgulho de ver o que a filha que ele tanto amava se tornou?

Acho que não...

Em seguida, outras imagens passam pela minha mente, flashes de duas mulheres. Uma ruiva muito bonita sorri para mim, sei que é Nadia pelo tom de seu cabelo, mas não consigo identificar quem é a outra. Sua pele é branca e seus olhos negros são muito expressivos. Lembro de já ter sonhado com essa mesma mulher outras vezes, mas nunca descobri sua identidade.

Tudo vai e vem pela minha mente, coisas totalmente soltas e sem nexo algum. Às vezes eu me vejo deitada em uma cama de hospital, com Nadia em pé ao meu lado, segurando a minha mão e sussurrando repetidas vezes “tudo vai ficar bem, meu amor”. Não entendo o motivo desse sonho justo agora e nem o porquê dele se repetir tantas vezes assim.

Com muito custo, forço os meus olhos o quanto posso e consigo abrir os mesmos. A cena é a mesma dos meus sonhos: uma cama de hospital, eu deitada sobre ela e um acesso venoso no meu braço direito, mas diferente do sonho, ao invés de Nadia, quem está parada em pé ao lado da minha cama é uma enfermeira loira e siliconada, que sorri de forma sedutora para mim. Se eu ainda não estou louca, tenho certeza que ela está tentando flertar comigo.

— Parece que nossa morena misteriosa finalmente acordou! — exclama assim que seus olhos encontram os meus.

Varro meus olhos pelo quarto, em busca de maiores informações, mas não encontro ninguém além dela.

— Onde eu estou? — digo com dificuldade. — E quem é você?

— Acalme-se, querida — pede gentilmente. — Meu nome é Claire e eu sou sua enfermeira particular — pisca.

Okay, ela realmente está dando em cima de mim.

— Você sofreu uma overdose de cocaína nessa madrugada. — explica. — Por sorte aquela moça bonita estava passando na hora e te trouxe pra cá, porque se não, tenho certeza que essa hora você não estaria mais aqui para contar história.

A Miss Silicone, vulgo Claire, vai me falando tudo de forma tão natural que fica difícil para eu conseguir assimilar. Recapitulando: eu tive uma overdose na noite passada, lembro-me vagamente de estar sentada no chão da minha sala montando carreirinhas de cocaína, mas não tenho certeza do quanto cheguei a usar e nem o que aconteceu depois disso, mas segundo a enfermeira, eu fui resgatada por uma mulher bonita. Tenho certeza de que foi Reagan essa mulher, só pode ter sido ela.

— Moça bonita? — questiono. — Você disse que quem me trouxe pra cá foi uma moça bonita, certo? Por um acaso sabe o nome dela?

Claire concorda com a cabeça e checa o acesso em meu braço, colocando mais uma bolsa de soro enquanto continua a falar:

— Foi exatamente isso o que aconteceu, querida. Uma moça bonita salvou você, mas não sei dizer o nome porque ela não quis se identificar — senta na beirada da cama enquanto se inclina para frente, deixando seus enormes seios artificiais quase em meu rosto — Mas olha, essa mulher deve te conhecer muito bem, porque chegou aqui informando o seu nome completo e algumas informações ao seu respeito.

— Informações... — digo confusa. — Que tipo de informação essa pessoa sabia sobre mim, enfermeira?

— Ah, bastante coisa — responde simplesmente — Seu nome completo, tipo sanguíneo, idade, endereço, local que estuda e a senha do seu celular. Foi ela quem localizou uma amiga sua para vir te buscar.

— Eu não preciso que ninguém me busque! — digo ríspida, já tirando as cobertas de cima de mim e usando toda a força que ainda tenho para me sentar na cama.

Claire se levanta rapidamente, para tentar me conter, mas eu estou decidida a ir embora desse hospital com minhas próprias pernas.

— Calma, Srta. Lotrov, é melhor você continuar deitada mais um pouco — insiste.

Em um movimento brusco, arranco o acesso venoso do meu braço e jogo o mesmo longe. Tudo o que consigo pensar é numa maneira de sair daqui sem precisar de ajuda e tentar descobrir quem foi a mulher que me trouxe pra cá e que, aparentemente, sabe tudo sobre a minha vida. Tenho certeza que não foi Reagan, porque o máximo que ela sabe é o meu nome todo e meu número de celular, mas nunca passei pra ela a minha senha. Aliás, só duas pessoas sabem minha senha e uma delas está morta agora, mas se fosse Serena que tivesse me trazido, ela não iria me deixar aqui sozinha. Ou iria? Não, claro que não.

Claire se desespera com minha agitação e fica gritando para eu me acalmar ao mesmo tempo em que aperta um botão vermelho ao lado da cama repetidas vezes, provavelmente chamando por um médico.

— Mas o que é que está acontecendo aqui? — um homem alto e com um jaleco branco entra às pressas no quarto, no mesmo momento em que eu impulsiono o meu corpo para levantar. — Srta. Lotrov, precisa se acalmar ou vou pedir que lhe apliquem um tranquilizante!

Mas eu não consigo responder o que o médico diz, porque tudo fica cinza outra vez. A única coisa que sinto antes de desmaiar são os braços da enfermeira Claire me segurando para não me deixar cair no chão.

**

Horas mais tarde quando acordo novamente, já estou bem mais calma. Olho para o meu braço e o acesso venoso está lá novamente, intacto. Sinto cada gota de soro que entra pela minha veia, me causando um soninho gostoso, mas não quero dormir. Acho que já dormi o suficiente por um dia inteiro e preciso ficar boa logo para poder ir pra casa, cuidar da minha vida e dos meus clientes.

Droga... Meus clientes!

Lucca vai ficar uma fera quando souber que eu estou em um hospital e não avisei à ele e Serena provavelmente vai arrancar o meu fígado com as próprias mãos se descobrir que eu voltei a usar drogas. Não que eu tenha voltado de verdade, prefiro enxergar o meu momento de fraqueza como uma recaída, algo impensado e que nunca mais vai voltar a acontecer.

— Se sente melhor? — a enfermeira Claire pergunta quando me vê de olhos abertos.

Forço o meu melhor sorriso para ela e concordo com a cabeça. Faço um esforço para me sentar na cama, mas a loira vem me ajudar, ajeitando o travesseiro atrás das minhas costas de maneira que eu fico confortável.

— Ótimo, vou pedir para os seus amigos entrarem. — informa.

Quero dizer à ela que está equivocada e que eu não tenho amigos, mas Claire é mais rápida e abre a porta do quarto, voltando segundos depois acompanhada de Reagan e Kevin. Reviro os meus olhos com impaciência quando os vejo, definitivamente nenhum dos dois são meus amigos e eu não os quero aqui.

Antes que alguém diga qualquer coisa, o médico entra novamente no quarto, ajeitando os seus óculos de grau enquanto vem até minha cama e verifica o meu acesso.

— Vocês são familiares da Srta. Lotrov? — o doutor pergunta.

— Amigos — Reagan responde. — Eu sou uma amiga da Bessie.

Nossos olhos se encontram por um momento, mas eu desvio o olhar rapidamente, virando o rosto para o outro lado. Claire vem até mim novamente, dessa vez para me ajudar a levantar, mas Reagan é mais rápida e toma a sua frente.

— Eu cuido dela daqui pra frente, pode deixar.

Ela se aproxima de mim enquanto a enfermeira se afasta, mas eu desvio o meu corpo para o lado quando Reagan faz menção de me ajudar a ficar de pé. Seus dedos tocam o meu rosto e acariciam o mesmo devagar, com cuidado, como se ela estivesse com medo de me machucar ainda mais.

— Fico feliz em saber que tem quem cuide de você, Bessie — o médico fala simpaticamente e se vira para os meus “amigos”: — A paciente se recuperou bem desde que deu entrada no hospital. Estou dando alta se seguir com as minhas recomendações, que se resumem apenas em se manter em repouso absoluto e evitar qualquer tipo de droga. E lembre-se, Srta. Lotrov, droga e álcool nunca foram bons separados, imagine juntos. Teve muita sorte daquela ruivinha ter trazido você a tempo, quase não conseguimos te recuperar.

— Ruivinha? — Kevin pergunta para o doutor, que assente.

Reagan fica calada, muito calada. Algo me diz que está com ciúmes, achando que eu estava com outra ontem à noite quando passei mal, mas não foi isso o que aconteceu e eu não faço ideia de quem foi essa alma caridosa que me salvou e me trouxe pra cá.

O médico sai do quarto e a enfermeira se aproxima de mim com minhas roupas na mão. Me levanto da cama com um pouco de dificuldade e Claire segura delicadamente nas laterais da minha camisola de hospital.

— Sabe, eu posso cuidar disso também — Reagan diz e me puxa pelo braço para perto de si.

— Tem certeza? Eu posso...

— Eu dou conta do recado — fala firmemente.

Kev olha para nós duas com os olhos arregalados, mas não diz nada e se retira do quarto junto com Claire.

Reagan tira a minha roupa hospitalar, que por sinal é horrível, e vejo que ela cora violentamente ao me ver nua diante de si. Como se já não tivesse visto tudo antes... Ao contrário dela, eu não sinto vergonha alguma de estar assim em sua frente, não há nada aqui que ela não tenha visto e eu estou acostumada a tirar a roupa na frente de pessoas estranhas, afinal, esse é o meu trabalho. Em vão, tento ajudar ela no processo de me vestir, mas não adianta muito. Estou fraca demais e mal consigo me segurar em pé sem ter que apoiar em alguma coisa, ou melhor, nela. Estou depositando todo o peso do meu corpo contra o seu, deixando minhas mãos apoiadas em seus ombros enquanto ela veste meu short jeans.

— Por que está aqui? — pergunto.

— Porque eles me ligaram — responde, abotoando o meu short. — Ao contrário de você, Bessie, as pessoas sabem para que serve um celular.

Bufo baixo e me sento na cama. Reagan se senta na poltrona ao meu lado e cruza os braços. Não quero começar uma briga agora, estou tão cansada e indisposta que discutir só vai servir para me deixar ainda mais exausta.

— Não precisava ter vindo, eu posso me virar sozinha — digo emburrada e encaro os seus olhos. — Se não percebeu, eu estava te ignorando.

— Sinto muito, mas eu não sei te ignorar, muito menos depois de receber uma ligação às três da manhã dizendo que você teve uma overdose — resmunga. — Por que fez isso, Bessie? Por que usou drogas?

— Isso não é da sua conta! — exclamo na defensiva. A verdade é que não quero culpá-la pela minha fraqueza. — Para de ser tão enxerida, garota. Eu quero ir embora dessa merda agora!

Levanto da cama, evitando me apoiar em Reagan novamente, e vou até a porta do quarto para gritar:

— Kevin! — o garoto entra no quarto assim que o chamo. — Me tira desse lugar!

Reagan se levanta também e vem até mim, para servir de apoio. Kev também tenta me ajudar, mas a menina parece querer fazer tudo sozinha e, por isso, me coloca em uma cadeira de rodas, para poder me guiar até o estacionamento com mais facilidade. Ela abre a porta do carro para mim e me coloca sentada no banco de trás, entrando em seguida ao meu lado.

— Para de ser marrenta só um pouquinho? — me pede — Eu estou tentando cuidar de você.

— Não lembro de ter pedido para você perder o seu tempo comigo, Reena — respondo com sarcasmo.

— Nenhum tempo com você é perda de tempo.


Notas Finais


Pra quem ainda não viu, comecei a postar a segunda temporada de Apartamento 46. Vão lá me dar um biscoito, obrigada! Link: https://www.spiritfanfiction.com/historia/linha-de-frente-21716247.


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