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História Love Affair. - Capítulo 28


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Notas do Autor


Olha só quem apareceu! Não postei capítulo ontem, mas estou compensando hoje, viram só? Não sou tão ruim quanto vocês falam. Boa leitura, crianças. Até quarta-feira!

Capítulo 28 - Vergonha alheia.


Reagan

Não, não, não. Eu não posso acreditar no que está bem na minha frente, diante dos meus olhos. Não posso acreditar que minha mãe está bem aqui, a alguns passos de mim, e eu não consigo sequer dar um passo em sua direção. Não consigo me mover, sinto que estou presa ao chão, como se tivesse cola sob os meus sapatos, me prendendo ali. Sua aparência está um pouco melhor desde a última vez que nos vimos, sua pele agora parece ter mais cor e o seu sorriso está cheio de vida, depois de tantos anos. Seus cabelos negros estão sedosos como eu nunca vi e seus olhos cinzas brilham para mim, convidativos. Elizabeth Gray agora se parece com alguém que eu não conheço, mas ainda não está na hora dela voltar, ou está? Não, certamente não é hora dela estar aqui e não consigo parar de me perguntar o que ela está fazendo aqui, porque tenho certeza de que ainda não está recuperada. Dias atrás as enfermeiras descobriram drogas escondidas debaixo do seu colchão e agora ela simplesmente aparece como se estivesse vendendo saúde? Tem alguma coisa errada nessa história e eu não quero voltar para ela, não quero voltar para San Diego e para aquela vida horrível que tínhamos, onde eu fazia tudo por alguém que não queria ser ajudada.

Eu não quero ir embora daqui, não quero deixar os meus amigos para trás, não quero deixar Danon e Hierly, mas principalmente, eu não quero deixar o amor da minha vida aqui sozinha. Eu não quero deixá-la, me recuso a ficar sem a Bessie.

— Mamãe? — minha voz sai como um sussurro, pigarreio e continuo: — O que está fazendo aqui e como chegou? Você está bem?

Sem responder, ela corre para vir me abraçar, um abraço tão forte que me tira o ar em poucos segundos. Em toda a minha vida, minha mãe nunca tinha me abraçado desse jeito, com tanto amor. Quando se afasta, seus olhos estão marejados e lágrimas escorrem pelos mesmos. Ela acaricia o meu rosto e beija a minha testa, mas seu olhar logo vai de encontro à Bessie e o seu sorriso morre, como se ela soubesse exatamente o que Bessie fez e passou horas antes de vir pra cá.

— Consegui sair de lá — responde, me puxando para sentar ao seu lado no sofá. — Aquele lugar não era bom para a sua mãe, querida.

Olho para Danon, que vira o rosto e coça sua barba por fazer.

— Já estou bem melhor e vim aqui pra te buscar, pra gente ir embora daqui — continua. — Vamos voltar para a nossa casa e fazer tudo diferente do que fazíamos antes — sua voz tem um certo entusiasmo, ela parece ter tudo perfeitamente ensaiado dentro de sua cabeça.

— Beth, conversamos sobre isso — Danon se intromete na conversa. — Não vou deixar você levar Reagan embora daqui. Se olha no espelho, por favor! Você não está bem, saiu da reabilitação por conta própria e nem ao menos se deu uma oportunidade de ficar bem e quer levar sua filha de volta para aquele inferno que vocês viviam? Pra que? Pra oferecer aquela mesma vida medíocre para ela? Desculpe, mas não posso permitir. Eu sou o guardião legal por Reagan agora, você perdeu o seu direito quando ficou tão louca que nem se lembrava do próprio nome.

Mamãe fica calada. Não consigo dizer nada, porque estou em choque. Tudo aconteceu tão de repente, que da mesma maneira que todo o meu passado está vindo à tona agora em minha mente, paraliso só de pensar que ele pode voltar a se repetir. Pelo menos Danon parece mesmo interessado em me manter ao seu lado, em continuar cuidando de mim, e Hierly, para a minha surpresa, o apoia arduamente.

— Não acho que a sua filha queira de volta toda aquela merda que viveu com você — a voz de Bessie chama a atenção de todos, inclusive a minha. — Ninguém merece ter que viver daquele jeito de novo, me diz qual é o ser humano que quer ter uma mãe feito você?

Seus olhos verde-esmeralda estão enfurecidos, transmitindo todo o seu ódio enquanto ela toma as minhas dores. Bessie está me defendendo, cuidando de mim da mesma maneira que eu tento cuidar dela.

— Desculpe, seu nome é Beth, correto? — pergunta para mamãe, que concorda com a cabeça. — Então, Beth, você ainda tem a chance de fazer algo bom por sua filha. Deixe-a fazer suas próprias escolhas, pelo menos uma vez na vida. Reagan não é mais aquela garotinha que você abandonava a própria sorte enquanto ficava chapada.

Minha mãe seca suas lágrimas e abaixa a cabeça, envergonhada.

— Não fui uma boa mãe, mas tudo o que eu pude fazer pela minha filha, eu fiz — responde magoada e Bessie solta uma risada irônica, como se não estivesse acreditando em nenhuma palavra do que ela diz. — E se eu fosse você, não abriria a boca para dar pitaco em um assunto familiar. Aliás, quem é você?

— Bessie Lotrov, a namorada da sua filha — diz sarcástica.

Mamãe e Hierly olham horrorizadas para ela, mas Danon aperta seus lábios uns contra os outros, para evitar o sorriso que insiste em se apoderar de sua boca.

— Calma, sogrinha, não precisa se preocupar. Garanto que sou bem carinhosa.

— Bessie e eu somos só amigas, mãe — respondo rapidamente, evitando que alguém se pronuncie a respeito. Levanto do sofá e vou até a morena, para ajudá-la a se levantar também, mas meu tio é mais rápido e a pega no colo, subindo com Bessie para o meu quarto.

Não quero ficar perto da minha mãe. Estou feliz por vê-la, mas fico decepcionada em saber que ela não permaneceu no centro de reabilitação pelo tempo recomendado pelos médicos. Eu praticamente implorava cada vez que ela me ligava, para que ela se cuidasse, fizesse um mínimo de esforço, mas foi tudo em vão.

— Vou para o meu quarto — anuncio.

— Reagan, não vai ficar com sua mãe? — Hierly questiona, boquiaberta.

— Não.

Onze anos atrás

Mamãe ainda não chegou da rua. Estou com medo, não gosto de ficar sozinha em casa, porque quando tem tiroteio, sempre acho que vou ser atingida e, por isso, me escondo debaixo dos móveis. Vou fechar os olhos e cantar “brilha, brilha estrelinha” até ela chegar, quem sabe assim a minha fome também não passa? Minha barriga está roncando muito, desde cedo. Já revirei cada canto da cozinha, mas não encontrei nada comestível, só um pão velho e mofado, mas ele fede tanto que não posso comer aquilo.

— Aguenta mais um pouquinho, a mamãe já vai chegar — falo baixinho, passando a mão em minha barriga, como se isso fosse capaz de fazê-la parar de roncar.

De repente, a porta se abre e mamãe entra com uma bolsa. Feliz, saio correndo para abraçá-la, estou com tanta saudade por ter ficado essa tarde sozinha que só penso em demonstrar isso pra ela. Acho que mamãe também sentiu minha falta, porque ri quando vê minha felicidade de ir ao seu encontro.

— Calma, minha pequena — diz, colocando sua bolsa em cima da mesa. — Você deve estar faminta, não é mesmo?

— Sim, mamãe, muito mesmo — respondo e então ela abre a bolsa, tirando de dentro um pote branco.

Antes de ver o que tem dentro, já estou salivando, ansiando por um alimento, mas caio em desapontamento assim que bato os meus olhos naquelas coisas que ela usa. Dentro do pote há vários pacotinhos com um pozinho branco, aquilo que Jonas dá para a mamãe e que a deixa tão estranha.

— Cadê o nosso almoço? — pergunto. — Mamãe, você esqueceu a minha comida?

Ela nada responde, apenas tira um pacotinho de dentro da vasilha e, de costas para mim, começa a usar. Vou para o quarto, com a fome gritando e implorando por qualquer coisa. Me deito na cama e fico lá até mamãe cair no sono. Demora um pouco pra isso acontecer, pois ela usa metade dos pacotinhos que trouxe e eles estão espalhados pelo chão da sala.

Saio do quarto na ponta dos pés, tomando todo cuidado ao passar por ela e abrir a porta. Caminho pelas ruas sem um rumo certo, vendo em todos os cantos pessoas com aquele mesmo pacotinho que mamãe tanto gosta. Alguns homens ficam me olhando e tenho medo de todos eles, pois todos tem uma cara de mal. Algumas mulheres na rua me chamam de “gracinha” e me perguntam para onde estou indo, mas não posso responder aquilo que nem eu mesma sei. Talvez para qualquer lugar, eu só quero sentir o cheiro de comida pra ver se pelo menos assim a minha barriga para de doer.

— Um restaurante! — exclamo admirada com o grande local. — Nunca estive em um, parece bem legal — falo para mim mesma. — Quando eu crescer, vou entrar em um e pedir toda a comida que eu quiser.

— Sai da frente, pirralha! — um moço briga comigo, me empurrando e me fazendo cair no chão. Ele passa por mim com um carrinho de supermercado, cheio de coisas velhas. — Que delícia, estão colocando a minha janta no prato!

Sigo o seu olhar e vejo um funcionário do restaurante jogando sobras de comida no lixo. O mendigo que me empurrou vai em direção à lata e começa a catar o que foi despejado ali, comendo sem nojo algum. Minha boca enche de água só por vê-lo mastigar alguma coisa. Quando percebe que estou olhando, estende para mim a metade de um sanduíche velho. Estou indo pegar quando um homem moreno segura o meu braço, ele é bem alto e forte, seus cabelos negros são longos e batem nos ombros, os olhos castanhos são puxadinhos e ele está com um cigarro na boca.

— Pra onde a princesa está indo? — questiona. — Aceitando coisas de estranhos?

— Estou com fome — responde e ele assente.

— Vou te pagar um x-tudo, o que acha? — pergunta, tirando uma mecha de cabelo do meu rosto.

— Acho que você também é um estranho — digo e o homem cai na gargalhada.

Ele é muito bonito, parece ter saído de um filme de conto de fadas, desses que assisto na escola.

— Não se preocupe, Reagan. Não sou um estranho, está vendo? Eu até sei o seu nome.

— Como sabe o meu nome? Quem é você?

— Eu sou o Kaleb — responde. — Sou um velho amigo do seu pai.

**

No quarto, ajeito Bessie deitada na cama e vou para o banheiro tomar um banho de água fria. Minha mãe está de volta, deixou a reabilitação e agora quer me levar de volta com ela pra onde morávamos, para onde eu passei os piores anos da minha vida. Não quero voltar, mas também não quero deixá-la sozinha, minha mãe precisa de mim, mas agora a Bessie também precisa. Assim como Beth, Bessie também usa drogas e, talvez, não tanto quanto minha mãe usava e não com a mesma frequência, mas quando decide usar, compensa por todas as vezes que não usou.

— Reagan! — grita o meu nome. — Desceu pelo ralo?

— Estou aqui — respondo ao sair do banheiro, enrolada na toalha. — O que foi, precisa de alguma coisa?

Me aproximo dela para checar sua temperatura, felizmente não está com febre.

— Eu tô bem — diz mansa. — Só estou com sede.

— Vou pegar um copo de água para você, deixa só eu vestir uma roupa.

Pego a roupa mais simples que encontro em meu guarda-roupa e quando estou prestes a ir para o banheiro para me vestir, Bessie solta um “Uh-Uh”, me impedindo de dar mais um passo à frente.

— Você pode ficar à vontade, Reagan. A casa é sua — diz, fazendo careta. — Quer dizer, o quarto é seu!

Reviro os olhos e sigo para o banheiro, visto a blusa de manga comprida e meu short de moletom, prendo os cabelos em um rabo de cabelo frouxo. No espelho, ensaio um pouco como vou reagir caso minha mãe toque novamente no assunto sobre eu voltar com ela para San Diego. Por mais que eu fique aqui olhando o meu próprio reflexo, pensando nas palavras mais adequadas a dizer, nada parece bom o suficiente. Quero ficar com Danon, quero estar com Bessie. Não quero deixar a mulher que amo para trás, não quero ter que abrir mão de algo por causa da minha mãe, que mesmo agora, não é capaz de abrir mão de algo por mim.

Quando saio do quarto, ouço Hierly e mamãe discutindo próximo das escadas. Abro a porta e as duas estão cochichando algo uma para a outra. Elas se calam assim que passo por elas para ir até a cozinha pegar água, Danon está sentado à mesa, pensativo.

— Pensou no que sua mãe disse? — pergunta receoso.

— Sobre ir embora? — ele concorda com a cabeça. — Não quero voltar para aquela vida, Danon. Pela primeira vez em anos, eu estou vivendo como uma pessoa normal, do jeito que eu sempre sonhei. Agora posso ir tranquilamente para a escola, porque quando eu chego em casa, não tem uma viciada em drogas para cuidar. Eu posso dormir sem escutar tiroteios ou traficantes batendo na porta da minha casa. Eu estou tão bem aqui... — começo a chorar e meu tio se levanta para me abraçar, me acolhendo em seus braços fortes — Não deixa ela me levar, por favor... Eu não quero ter que voltar pra vida que eu tinha antes.

— E você não vai, eu prometo.

Depois de longos minutos chorando nos braços de Danon, finalmente consigo me recuperar e voltar para o quarto. Ele me prometeu que não vai deixar minha mãe me levar embora e eu estou contando com isso. Não é que eu não ame a minha mãe, eu a amo muito, mas não quero voltar à estaca zero. Ela não se deu a oportunidade ainda de se curar pra poder ter uma vida normal e cheia de cor, sem dor de cabeça e sem envolver uma arma apontando para a mesma. Como eu posso confiar nela e acreditar em uma mudança, se ela insiste em continuar na mesma?

— Essa garota é uma drogada, Hierly — ouço a voz de minha mãe, se referindo à Bessie. Elas ainda cochicham em frente ao meu quarto. — Reconheço de longe quando uma pessoa usa drogas e essa menina me parece ser da pesada.

— Não duvido — responde a outra, sem ladainha. — Eu teria vergonha de ter uma filha como ela.

Assim que Hierly termina sua fala, Bessie abre a porta do quarto e diz:

— Sorte a minha mão ser sua filha então, porque eu também odiaria ter você como mãe.


Notas Finais


Já conhecem minha nova história, Linha de frente? É a segunda temporada de Apartamento 46. Dêem uma olhadinha, por favor. Vocês vão gostar.
https://www.spiritfanfiction.com/historia/linha-de-frente-21716247


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