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História Love is beginning - Capítulo 11


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Capítulo 11 - XI - Sobre a última ceia


Fanfic / Fanfiction Love is beginning - Capítulo 11 - XI - Sobre a última ceia



Capítulo XI — sobre a última ceia 


O cheiro gostoso e convidativo de legumes cortados e refogados percorria toda a extensão da cozinha. Hinata passava a faca habilidosamente pelo nabo, tomate, cenoura e algumas verduras que Sasuke tinha acabado de lavar. Enquanto preparavam o jantar sem falar muito, ouviam uma música do R.E.M. no rádio. 

O sol se punha vagarosamente, escondendo-se atrás dos arranha-céus, deixando a cor alaranjada e melancólica sobre a mesa, e no céu uma infinidade de rabiscos coloridos de azul, roxo, rosa, laranja e vermelho. Às vezes, eles ficavam parados olhando para a janela juntos e por poucos segundos esqueciam o que estavam fazendo, e com uma troca mútua de olhares seguidos de sorrisos cúmplices, voltavam a tarefa de cortar os alimentos.

Hinata particularmente gostava do tom alaranjado do sol poente tocando a pele leitosa de Sasuke.

E ele adorava como os olhos dela ficam bonitos com o reflexo dos raios de sol.

 O cozido de carne com batatas era uma especiaria japonesa que Hinata aprendeu com sua mãe, geralmente ela preparava o prato para comemorações especiais, como quando passara na Todai.

O som animado da música preenchia todo o ambiente, deixando-o assim mais aconchegante. Darwin mantinha-se deitado em sua caminha roendo um osso de pelúcia satisfeito. Sasuke saiu mais cedo para comprar cervejas, saquê, vinho e aquela soda horrível que Ino gostava de tomar, vodka.

 Quando faltava pouco para que os convidados chegassem Hinata tomou um banho rápido e vestiu uma calça jeans justa, como sempre rasgada nas coxas, uma blusa preta meia manga larga do Nirvana e um cardigã mostarda, os cabelos estavam soltos, usava uma maquiagem leve, a qual realça vá seus olhos perolados. Assim que chegou na cozinha deparou-se com Sasuke saindo de seu quarto também vestido e já de banho tomado. Usava uma calça jeans com rasgos nos joelhos, camisa regata cinza do Slipknot já um tanto desbotada, uma blusa xadrez amarrada na cintura. Os cabelos negros mantinham-se arrepiados como sempre. 

Hinata puxou do bolso o maço de Black Stone e enquanto acendia um estendeu para Sasuke, porém este negou, puxando seu próprio maço do bolso.

— Gosto de fumar o seu antes de dormir. — comentou acendendo o Marlboro Menthol.

— Não sei como consegue gostar disso ai. — apontou para o maço de cigarros verde de Sasuke. — Não tem gosto de nada.

O moreno riu rolando os olhos suavemente, encostou-se à mesa de madeira, cruzando as pernas a frente e acendeu o cigarro com o isqueiro de Hinata. Era um isqueiro preto em formato redondo de metal, havia nele alguns detalhes talhados, lembrando arquiteturas medievais, um Zippo original. Ele gostava de ficar raspando os dedos por aquele objeto sem motivo aparente, gostava das pequenas ondulações que seu dedo fazia.

E também gostava pelo simples fato de pertencer a Hinata.

— Acha que eles vão demorar? — Hinata questionou, acomodando-se ao lado de Sasuke enquanto esfregava as próprias mãos. 

Ele não podia negar que horários era algo que pessoalmente levava muito a sério, e achava discrepante e imperdoável a maneira como as pessoas pareciam ignorar aquilo. 

— Shikamaru mandou mensagem dizendo que iria buscar a Ino na estação, o Shino ainda não sei — comentou ele tragando um pouco do cigarro.

Hinata concordou e ambos entraram em silêncio em que somente o fraco som de carros passando na avenida podia ser ouvido. A noite já caíra, o céu não estava estrelado como nas outras noites, havia uma grossa camada de nuvens em tons avermelhados devido a claridade das luzes da cidade. Durante o dia choveu pouco, molhando a estreita rua de paralalepidos deixando assim pequenas poças de água, as gotículas se acumularam pelas luzinhas e os postes. Não havia ninguém nos banquinhos brancos de ferro, pois estavam molhados ainda. A suave brisa da noite chacoalhava as copas das árvores gentilmente provocando um leve som de farfalhar.

No oitavo andar do prédio mais alto da rua 54 de Shibuya, o vento entrava pela janela com certa timidez e bagunçava os fios negro azulado de Hinata que tamborilava os dedos pela mesa causando pequeno som. Sua mente estava presa em qualquer pensamento quando foi surpreendida por uma pergunta que fez sua mente parar de funcionar.

— Hinata se... Se eu fosse embora, por alguma razão importante pra mim, você iria entender?

Parou de bater as pontas das unhas na mesa de madeira, e por breve segundo esqueceu de como se fazia para respirar.

Como era mesmo?

— Nós não somos casados, Sasuke. — Hinata riu, tragando a fumaça de seu Black Stone. — Você é livre para fazer suas escolhas.

Embora aquela resposta soasse despreocupada, Hinata sabia que bem no fundo um pequeno incômodo nascia, como brasa quente que aos poucos começa a se alastrar por dentre palha seca.

Dúvida.

Desejou perguntar, desejou ardentemente questionar a razão de tal pergunta assim tão de repente, mas algo a barrou. Ela tinha razão, os dois não tinham nada, não eram casados e Sasuke era livre para fazer qualquer escolha que desejasse. Porém, uma pergunta começou a girar em sua mente como um espiral. 

Ele queria mudar de apartamento? Estava decidindo morar sozinho? 

O coração de Hinata começou a pulsar mais rápido, parecendo até que batia contra sua caixa toráxica,  o som das batidas podia ser ecoado nos tímpanos. De repente sentiu medo. Piscou algumas vezes para se livrar daqueles pensamentos. Não, nada daquilo fazia o menor sentido, não havia razão plausível para que Sasuke desejasse ir embora. 

Não havia.

Quando estava abrindo a boca para questioná-lo, o som de algumas batidas na porta ecoaram pela sala. Darwin que caminhava animadamente pela cozinha latiu e correu até a porta balançando o rabo. Sasuke apagou a bituca do cigarro no cinzeiro e foi caminhando até a porta.

Com um leve clique abriu e sorriu fraco ao ver quem surgiu.

Ele era conhecido como Shino Aburame ou apenas Shino para os amigos mais próximos. Fazia sua segunda faculdade na Todai, a primeira foi em Handai. Ele era quase da mesma altura de Sasuke, tinha os cabelos negros, e um belo sorriso que poucas vezes surgia, já que era conhecido por ser discreto e calado demais.

Era o mais velho do grupo, com 29 anos. Sua primeira faculdade na Handai foi direito,  agora trabalhava no ramo, a segunda — que ninguém entendeu o que o levou a fazer — era física e estava no mesmo ano que Hinata. Usava uma calça jeans justa nas pernas, uma camisa verde e uma jaqueta preta com as mangas arregaçadas cujo os braços eram adornados por pulseirinhas pretas. Trazia em uma de suas mãos um maço de cigarros L.A cherry.

Assim que viu Sasuke abriu um simpático sorriso simples. 

— Faz tempo que não o vejo. — Shino declarou abraçando Sasuke amigavelmente.

— Vocês se conhecem desde quando? — Hinata apareceu na sala acendendo outro cigarro e viu o momento em que Shino tirava os sapatos pretos. 

— Você não é o único que conhece o musicista da estação de metrô Hinata-chan. — Shino disse rindo até a amiga e se limitando em fazer uma mesura, porém Hinata rodou os olhos e o abraçou, sendo prontamente retribuída pelo amigo.

— Nos conhecemos na época em que eu tocava nos metrôs. — Sasuke explicou, jogando-se no estofado, deixando que sua perna ficasse pendurada no braço macio do sofá. — Ele fazia uns pedidos bem estranhos pra eu tocar. Tipo Bach. Quem consegue tocar Bach de cabeça? — Sasuke revirou os olhos.

— Não tenho culpa se meu gosto é refinado. — Shino declarou, tirando um cigarro de seu maço e colocando o restante em cima da mesinha de vidro onde fazia um cinzeiro, a caixa de Marlboro Menthol e o Black Stone.

 Hinata sentou-se no sofá de três lugares, sendo que o de dois estava ocupado por Sasuke. Lembrou-se que nunca tinha comentado com Shino sobre como conheceu Sasuke e achou estranho o advogado saber que eles também se viram pela primeira vez na estação de metrô. Isso queria dizer que aquele primeiro encontro também foi importante para Sasuke.

Shino se sentou no sofá com as pernas elegantemente cruzadas, inclinou-se somente para trazer o cinzeiro para perto de si. Darwin correu até seus pés e começou a brincar com suas meias. Riu baixinho passando a mão desocupada na cabeça do bichinho.

Hinata ainda estava pensativa, mas achando bem fofo o fato de Sasuke ter contado a seu respeito para Shino, mesmo antes de conhecê-lo. Desejou saber como ele havia falado. 

Os dois iniciaram um papo animado sobre música, uma vez que Shino também entendia muito de música clássica. Enquanto Isso, Hinata desmontou a mesinha de centro e jogou uma toalha branca por cima, deixando só a parte do vidro, que usariam como apoio para o Mahjong. Quando tirou as peças da caixa e jogou sobre mesa, os pequenos objetos se espalharam fazendo um leve barulho. 

— Posso colocar um som? — Shino perguntou, indo até o aparelho de som que ficava na estante e olhando os cds ali ao lado. 

— Claro, fica a vontade — Sasuke deu de ombros e partiu para a cozinha, para pegar cervejas. A noite já havia começado. 

Hinata estava sentada no tapete em cima de suas pernas, muito concentrada em deixar todas peças do jogo em ordem, mesmo tendo a plena consciência de que dali a pouco elas estariam novamente bagunçadas. Mas fazia parte do toque, e ninguém ali presente pararia para ver ela exercendo seu momento de loucura.

— Affection do Cigarettes After Sex. — Shino comentou colocando o cd dentro do player. — Fazia tempo que eu não ouvia isso.

— É meu. — Hinata comentou sem tirar os olhos das peças. — É minha banda preferida.

— Sério? — Shino se surpreendeu por Hinata gostar de música. — Pensei que só gostasse de números.

— Gosto de números porque eles formam música. — ela o olhou de modo intrigante fazendo Shino erguer o cenho. — você também não pode falar nada, também gosta de números.  — suspirou cansada.

— Porque pra nós faz sentido. — Shino observou e Hinata apenas riu.

Dois físicos falando de números parecia tão apaixonante, visto de fora quanto um marido falando da amante de modo carinhoso para a esposa. Não fazia sentido.

Sasuke entrou na sala trazendo três latas de cerveja nas mãos. A de Hinata já estava aberta e sem o piniquinho levantado, pois sabia que Hinata tinha certa aflição a aquele pequeno objeto que servia para abrir a cerveja. Quando entregou para Hinata retribuiu o sorriso que recebera em agradecimento.

Quando estava quase voltando ao sofá, Sasuke ouviu um leve som abafado vindo da porta e assim julgou como sendo os últimos convidados que faltavam. 

— Atrasados como sempre. — Shino suspirou, após tomar um longo gole de sua cerveja e sentar-se ao lado de Hinata, ajudando-a na tarefa de empilhar as peças do jogo.

Shino carregava em seu semblante uma expressão tão serena que Hinata sentia-se verdadeiramente confortável em estar ao seu lado. Como se o cheiro do L.A Cherry e a presença juntamente com a simpatia lhe trouxesse forte sensação de paz. 

Gostava de Shino.

Quando Sasuke partiu para a porta devagar, tendo ao seu lado um animado Darwin, imaginou que do outro lado da porta houvesse uma Ino com cara de poucos amigos e um Shikamaru fumando aquele Seven Star com sua maior cara de deboche. 

Contudo, assim que abriu a porta de madeira, deparou-se com Ino usando uma calça jeans preto de cintura alta, uma camisa de botões florida e botas pretas de salto alto.

Sasuke se perguntou se aquela maluca não sentia frio a julgar pelo tecido de sua roupa e a falta dele nos braços. Mas Ino parecia pouco se importar com o frio. Carregava em seus lábios cheios um sorriso apaixonado, porém tal sorriso não era dirigido para o anfitrião, e sim para o moreno que tranquilo ao seu lado fumava um cigarro, movimento a cabeça serenamente em sinal positivo.

Ambos pareciam alheios demais conversando sobre algo. Sasuke sorriu, dando-lhes espaço. E somente quando tirava as botas Ino percebeu que já haviam chegado ao destino.

— Sasukeee! — o abraçou animadamente, fazendo-o quase cair para trás, tendo sorte por ter uma parede atrás de si e foi amparado por ela.

— Oi Ino, nossa quanta animação — Sasuke devolveu o abraço, rindo baixinho. 

Shikamaru tirava os sapatos sociais de bico com típica elegância, mantendo em seus lábios o cigarro preso, os cabelos negros amarrados num coque alto e apertado como sempre, alguns brincos e piercings adoravam suas orelhas. Usava um terno negro, seguido e um sobretudo que logo foi tirado e pendurado no cabideiro,  calças de tecido garbadine um pouco larga. Assim que tirou o terno, também arregaçou as mangas da camisa social preta e colocou delicadamente encostado na parede o case com seu violino ao lado do semi case do violão de Ino.

— Então esse é o Shino! — Ino se pronunciou animada, fazendo uma mesura a Shino que logo foi retribuída. — E o que deu com a festa que falou que ia dar?

— Não rolou. — Shino deu de ombros, um pouco frustrado ao lembrar-se que chamou todos seus amigos para uma festa, mas nunca aconteceu. — Eu esqueço que tento socializar, mas não tenho vida social.

— A vida do Shino se resume atrás de uma mesa assinando papéis sem graça. — A voz rouca de Shikamaru se fez ouvir por toda a sala, fez uma mesura ao amigo seguido de um leve aperto de mãos, quando passou por Hinata lhe de um beijo no alto da cabeça, antes de se sentar.

Todos sabiam que a relação de Shikamaru com Hinata era quase de irmãos. Até o próprio Sasuke estava ciente disso, uma vez que logo quando se mudaram para o apartamento da rua 54 de Shibuya, o moreno o alertou que se magoasse ou machucasse Hinata, daria um jeito de fazer pior com o Uchiha. Sasuke se lembrou que recebeu aquela intimidação com uma risada baixa. Jamais machucaria Hinata.

Jamais.

Apesar de não poder negar que sentiu uma pontinha de ciúmes da aproximação de Hinata e o Nara. A garota era sua demais para que outro homem se aproximasse, por outro lado, ele entendia muito bem o nível de relação dos dois e não queria interferir.

Mas o ciúme? Estava lá, sempre.

Aquela relação de irmãos entre Shikamaru e Hinata causava um leve desconforto para Ino, pois sabia em seu íntimo que por mais que desejasse viver qualquer tipo de relação com o moreno, nunca seria daquele jeito. 

Nem como irmãos, nem como nada. 

— Cerveja? — Sasuke ofereceu, ainda de pé. Ino fez um sinal positivo com o dedo polegar ao sentar-se ao lado de Hinata e com um único tapa bagunçou as peças que ela havia empilhado com o maior cuidado.

Hinata somente suspirou frustradao.

— Conhaque — Shikamaru retrucou. 

— Certo

Enquanto se juntavam os cinco ao redor da mesa, cada um pegava a quantidade de peças para começar o jogo. Havia até sido feita uma aposta. Quem perdesse lavaria a louça. E não importava se fosse visita ou não. Estava um frio cortante lá fora e nenhum deles a fim de perder.

— Estão prontos pra perder? — Hinata ameaçou.

— Fica na sua nanica! — Shikamaru cuspiu, resmungando em seguida ao ver suas peças.

— Não nasci pra perder — Ino disse tomando um gole da cerveja.

Sasuke e Shino só riram e começaram a jogar.

***

Os maços de Gitantes, Seven Star, Black Stone, Marlboro Menthol e L.A Cherry, descansavam um ao lado do outro jogados de qualquer jeito. Algumas caixas abertas e outras quase vazias. O cinzeiro ao lado estava abarrotado de cinzas, e pelo apartamento haviam dezenas de latas de cerveja espalhadas.

Já eram três da manhã e o jogo estava pela metade ainda. Foi feito uma pausa para que jantassem, e agora estavam novamente sentados no chão da sala jogando. 

E como todos esperavam, Hinata estava ganhando sem fazer o menor esforço. Até Shino sendo um físico se via um pouco perdido. Mas nada superava as expressões de confusão de Ino e Sasuke.

— Tsumo¹! — Hinata anunciou satisfeita — São 7.000 pontos!

— Ah, vá a merda! — Ino gritou muito frustrada, atirando as pedras no chão e bebendo mais um gole da vodka junto com aquela soda de gosto duvidoso. — Você não sabe brincar não?! — levantou-se depressa e rumou ao banheiro, em passos duros.

— Eu falei que ela era boa... — Shikamaru suspirou, puxando um Seven Star do maço e acendendo após um suspiro.

— E tem um gênio muito ruim. — Shino observou.

— Isso quer dizer que o Ino lava a louça. — Sasuke contabilizou os pontos. — Hinata em primeiro, Shino em segundo, eu em terceiro, Shikamaru em quarto e a Ino...

— Eu não vou enfiar minha mão naquela porcaria congelada! — gritou do banheiro fazendo todos da sala gargalharem.

— Cansei de me frustrar. — Shikamaru suspirou, jogando as peças na mesa e se jogando no sofá, cruzando as longas pernas e colocando o pulso em cima da testa, tragou seu cigarro, expelindo tranquilamente a fumaça para cima. 

— Jogar com Hinata é sempre um choque de realidade pra mim. — Shino comentou aleatório, enquanto ajudava a mesma a guardar as peças. 

— Vocês falam como se eu fosse um monstro. — Hinata rodou os olhos.

— Jogando mahjong você é um monstro Hinata. — Ino entrou na sala e colocou as duas mãos na cintura parecendo decidida a cumprir a tarefa para qual fora forçadamente designada. — Um espírito de competitividade horrível, me sufocava! 

— A louça ta lhe aguarda sua majestade. — Sasuke sorriu, fazendo uma mesura longa ao passar por Ino.

— Vai se foder Sasuke, vai se foder bem forte! — resmungou, indo em direção a pia.

O resto do grupo ficou na sala. Hinata continuou sentada no chão, tomando sua quinta cerveja, não era de beber muito, mas naquele dia estava disposta a passar um pouco do limite. Não teria faculdade naquele dia e só entraria no trabalho por volta das 14:00hrs. Sasuke por sua vez sentou-se ao seu lado com as pernas dobradas, havia tirado a camisa, ficando assim só de regata preta. 

Embora o vento frio perpetuasse lá fora, no oitavo andar, mais precisamente na sala, as coisas estavam quentes e bem agradáveis. O clima era gostoso, os amigos conversavam animadamente sobre vários assuntos, nunca se cansando, nunca havendo um silêncio incômodo. Shino lhes contava sobre algumas coisas engraçadas que aconteciam com seus clientes no escritório. 

A música ainda rolava ao fundo, agora o som potente do X Japan. 

Ino voltou para a sala secando as mãos, exibindo seu melhor sorriso.

— Vocês nunca viram uma louça tão bem lavada e nunca vão ver de novo!

— Eu to vendo que vou ter que lavar tudo amanhã de novo. — Hinata sussurrou ao pé do ouvido de Sasuke que somente gargalhou e concordou.

Voltaram a conversar assim que Ino se jogou no sofá ao lado de Shikamaru e ficou brincando com seus pés, estalando os dedos vez ou outro fazendo o moreno resmungar e praguejar, mas sem tirar os pés dali. 

O tempo passou sem que percebessem. Quando acabou a última faixa do CD eles perceberam que não tinha mais música. Shino resmungou indo até a estante para colocar outra coisa.

— Podíamos ouvir a Hinata cantando. — Sasuke sugeriu fazendo Hinata corar violentamente.

— Que? Não. — suspirou. — Eu estou bêbada, rouca, não vai ficar legal.

— Ora vamos. — Shikamaru rodou os olhos. — Eu to afim de tocar mesmo. — se levantou num salto e pegou o violão juntamente com seu violino e levou até a sala. 

Sasuke se levantou no mesmo minuto e pegou o violoncelo que descansava na parede da porta de vidro da varanda, sendo um pouco coberto pela cortina clara.

— Tem afinador Sasuke? — Ino perguntou, dedilhando seu violão. — Meu Dó ta desafinado. — resmungou.

— Tenho. — Disse baixinho, estava afinando uma corda do violoncelo. — Lá no meu quarto, já vou pegar.

— Eu posso pegar. — Hinata se ofereceu.

— Em cima da escrivaninha, Hinata. — Sasuke avisou, sem tirar os olhos de seu instrumento. — Dentro de uma caixinha. Não repare a bagunça pelo amor de Deus! 

Só quando Hinata entrou em seu quarto se lembrou da carta da universidade de Oxford em cima de sua escrivaninha. Engoliu em seco. Não havia mais como tirá-la de lá, pois ia dar a entender que ele tinha algo para esconder.

Quando Hinata entrou no quarto de Sasuke e acendeu a luz após tatear pela parede, respirou profundamente por algumas vezes tentando não focar naquela zona de guerra que era o quarto de Sasuke. Haviam sapatos pelo chão espalhados, muitos papéis amassados em bolinhas jogados pelos quatro cantos do quarto, nenhuma das gavetas tanto da cômoda quanto da escrivaninha estavam fechados e algumas dela até cuspiam roupas para fora. A cama estava totalmente revirada, porém ela notou que sua coberta ainda estava ali, unida à dele. A coberta preta e a azul marinho. 

Será que dormiriam juntos de novo?

Crispou os lábios tentando afastar aquele pensamento e foi até a escrivaninha procurando pelo real motivo de ter entrado ali. O afinador. Após mexer em algumas apostilas afim de encontrar a caixinha, acabou por derrubar a luminária. Rapidamente conseguiu aparar antes que ela encontrasse o chão. 

Porém, seus olhos pararam e se fixaram num papel de cor creme que jazia bem ao lado da escrivaninha. 

"A universidade de Oxford convida você, Sasuke Uchiha para um intercâmbio de um ano e meio. Quer conhecer os melhores músicos clássicos do mundo?"

Esse era o chamado da carta. Hinata não precisou ler ela inteira para saber que aquele era o motivo verdadeiro para Sasuke lhe fizesse aquela pergunta. 

" — Se eu for embora, por alguma razão..."

Claro que havia uma razão para que ele fosse embora. Era sua vida profissional em jogo, jamais se perdoaria se Sasuke resolvesse ficar no Japão por sua causa e perder uma oportunidade tão grande e única como aquela. Não, ele merecia muito mais. 

Engoliu em seco e antes que saisse dali sem pegar o afinador, voltou para seu intento original. Pegou o afinador e deixou o quarto. 

Assim que irrompeu pela sala, lutou ao máximo para que sua expressão não a entregasse. Ela não podia ter um ataque de ansiedade ali.

De forma alguma.

Entregou o afinador para Ino, no momento em que os olhos de Sasuke procuraram os seus, ela desviou, tombando a cabeça para o lado. De repente qualquer coisa que Shino estivesse perguntando para Shikamaru pareceu bem interessante e ela quis ouvir.

Sasuke entendeu. Ela leu.

— O que vamos tocar? — Ino perguntou após afinar a corda.

— Until The Day I Die. — Shino disse sentando-se no sofá com genuína graça. — Do Luna Sea.

— Ah, sério? — Shikamaru bufou.

— Eu sou a plateia. — Shino o olhou de modo triunfante. — Eu e o Darwin. — puxou o cachorro para seu colo.

— Pode ser. Eu dou a entrada. — Ino dedilhou o violão e começaram a tocar a introdução. 

O som do violão, violino e o violoncelo juntos tornaram-se uma melodia melancólica e profunda. Sasuke estava com os olhos fechados, com um pé apoiado no braço do sofá e a cabeça pendida para frente. Ino sentada, com as pernas levemente abertas e a cabeça tombada para o lado, e Shikamaru de pé, o corpo levemente curvado para frente, as costas um pouco arqueadas. A cabeça pendida para o lado e os olhos fechados.

Hinata entrou cantando na hora certa, e sua voz explodiu na sala, deixando o som harmonioso e melancólico dos instrumentos tornando-se um fundo magnífico para o atrativo principal. 

Ela cantava com os olhos fechados, as mãos erguidas, e os cabelos jogados para frente. A letra da música era uma bela declaração de amor.

"Está sempre chovendo em meu coração.

Você balança na neblina da chuva.

E mesmo agora minha voz estremece para você."

No momento em que cantava o refrão ousou abrir os olhos e fitar Sasuke e a imagem que teve dele fez seu coração quase sangrar. Havia uma solitária lágrima escorrendo pelo rosto alvo, escondendo-se atrás da franja. Os lábios levemente partidos entregam o choro mudo. 

Sasuke estava apaixonado. Tão apaixonado quanto Hinata. 

E isso queria dizer que ele estava considerando não ir para Inglaterra.

Ela tornou a fechar os olhos, continuar a entoar a canção, sua voz soando cada vez mais cortante, mais profunda, era como se viesse do profundo de sua alma e se tornasse em som. A voz levemente trêmula talvez entregasse? a tênue tristeza contida. Contudo não iria parar até a música findar. 

Aquela música podiae sim ter sido uma escolha de Shino, mas era também uma declaração de amor para Sasuke.

Quando a música finalmente findou, Sasuke largou o arco do violoncelo em cima do sofá e tratou de passar o pulso rapidamente em seus olhos, afim de esconder as lágrimas.

— Uau. — Shino se surpreendeu. — Vocês deviam largar tudo e virar uma banda de... Sei lá... Blues?

— Não. — Hinata franziu o cenho rodando os olhos e rindo. 

— Eu gosto de Blues, qual o problema? — Shikamaru rosnou. Sentiu seu celular vibrando no bolso e buscou por ele.

— Eu não quero viver de música. — Ino argumentou. — Péssima ideia Shino, odiei você.

Shikamaru se afastou um pouco para atender o telefone, capturando os olhos curiosos de Ino.

— Se eu pudesse respirar música, seria o suficiente pra mim. — Sasuke disse com a voz levemente embargada. 

Ele estava chorando. 

— Vou inscrever vocês num programa de talentos! — Shino anunciou, feliz com a própria ideia.

— Mato você. — Hinata arfou. Só a ideia de estar sendo observado por milhões de pessoas sendo numa plateia ou mesmo pela TV lhe dava náuseas.

— Tipo de X Factor? — Ino sugeriu, buscando pelo Gitanes no chão. — Poderiamos concorrer na Inglaterra, tem aquele jurado lá... O... — estralou os dedos tentando se lembrar.

— Simon Cowell. — Sasuke disse, seus olhos no mesmo instante procuraram os de Hinata que se fixaram ali. 

A troca de olhares foi longa porém singela. 

— Isso, esse mesmo. — Ino acenou, assim que acendeu o cigarro. — Me pelo de medo dele, não rola pra mim, podem ir vocês, vou ficar aqui pintando meus quadros e torcendo.

— Gente, eu tenho que ir. — Shikamaru voltando, enfiando o celular no bolso trazendo em seu rosto um semblante visivelmente chateado. — Tenho uma cliente.

— Cliente? — Shino ergueu o cenho. — Ah. — ele piscou quando entendeu que todos ficaram mudos. Era engraçado a forma como todos trataram a profissão de Shikamaru como sendo algo tão comum quando certamente não era.

— Agora? — Ino mordeu os lábios. — Você disse que iriamos no café depois daqui.

— Fica pra próxima Ino. — Ele foi indo até a porta, vestindo o terno seguido do sobretudo.

— Próxima...? — Agora sim Ino estava enraivecida. Não era possível que seria trocada assim tão facilmente. 

— Quer que eu te leve pra casa? É caminho pra mim. — o Nara perguntou formalmente, porém evitava de olhar Ino pois sabia que a expressão de confusão que carregava em seu rosto o faria sentir-se mal.

— Não. — Ino negou. — Eu vou de trem. 

— Tem certeza? São quatro da manhã, os trens só começam a rodar às cinco e meia...

— Eu já disse que não! — ela praticamente rosnou. — Vá!

Os outros três na sala ficaram mudos, não sabiam bem como reagir ante aquela situação. Shikamaru terminou de pôr os sapatos e saiu em silêncio, não se despediu de ninguém e fechou a porta com um leve baque.

Ino voltou para a sala e os quatro se submeteram a um longo e assustador silêncio. Nenhum olhar se cruzava, por um curto instante pareceu até que ali reinava um luto.

— Bom, eu vou indo também. — Shino disse, colocando o L.A no bolso da calça e checando o horário no celular. — E eu sei que você quer carona Ino. — virou-se para a loira que permanecia em silêncio.

— O idiota esqueceu o violino. — resmungou quando se aproximou para pegar seu violão.

— Vai levar pra ele amanhã? — Sasuke perguntou baixo. 

— Se eu levar pra casa vou botar fogo nisso. — bufou indo para a porta.

— Ino... — Hinata pegou o violino e estendeu a ela. — Vai ter um motivo pra falar com ele amanhã. 

— E se eu não quiser falar? — rosnou.

— Shikamaru gosta de você Ino. — Sasuke disse baixo. — Só você não ve.

Shino concordou com um leve aceno de cabeça. 

— Ok, estamos indo, nos acompanham até em baixo? — Shino perguntou

— Não, me despeço daqui. — Hinata sorriu mansinho. — To morrendo de sono. — confessou. 

Na realidade queria ficar um pouco sozinha.

— Eu vou. — Sasuke pegou o casaco preto e os três caminharam juntos até o elevador de grade com estilo ocidental e dos anos 50. 

Até chegar ao saguão de entrada os três não disseram uma palavra, era como se cada um estivesse imerso em seus próprios pensamentos. Quando chegaram na porta, Shino destravou o Honda Civic preto que estava encostado na calçada de paralelepípedos. Sem dizer nada, Ino abriu a porta do passageiro e se jogou dentro do carro, estava chateada demais para se despedir.

Sasuke acendeu um cigarro e trago a fumaça com certa força.

— Já contou pra ela? — Shino perguntou depois de um certo silêncio. — Pra Hinata...?

— Não. — Sasuke murmurou. — Mas acho que ela já sabe.

— Ela vai entender. — Shino pousou a mão no ombro do amigo. — Só não esconda mais nada.

Foi a última coisa que disse antes de exibir um belo sorriso de covinhas e partir para o carro.

Sasuke ficou ali parado na porta de entrada do prédio que não tinha nome. Geralmente todos os prédios de estilo ocidental possuiam um nome,no entanto aquele era diferenciado de todos os prédios daquela rua e quem sabe até de Tokyo inteira. Ele tinha somente números. 080.

Por que tudo que não fazia sentido tinha haver com números?

Assim que o Civic virou a esquina Sasuke deu alguns passos para frente fitando a rua. Os postes ainda estavam com as luzes acesas bem como as luzinhas amareladas que projetavam suaves círculos no chão. Os bancos de aço ainda traziam pequenas gotas que gentilmente pingavam no chão. As árvores farfalhavam.

Bem lá atrás, no muro, o sistema solar muito bem desenhado lhe sorria como um velo amigo. 

Olhou para cima, fitando as varandas dos predios em estilo francês. O cheiro de tudo misturado correndo em suas narinas.

Sentiria muito a falta da rua 54 de Shibuya.

***

Quando abriu a porta com um suave clique, notou que a casa estava impecável. Hinata não iria dormir enquanto não deixasse tudo em ordem, conhecia ela bem, afinal. Caminhou pela sala, suspirando, e passando as mãos suadas pela calça. 

Não podia negar que a ideia de ficar a sós com Hinata depois de certamente descobrir que ele partiria em breve o apavorava. Seus lábios tremiam levemente e as mãos não pararam de suar desde que subira as escadas.

Optou pelas escadas pois assim demoraria mais para ter um encontro com sua realidade.

E teria tempo para pensar.

Ao andar pela sala, notou que Hinata dormia no sofá, sem cobertas e era notável que estivesse com frio, visto que as mãos estavam encolhidas junto ao peito e as pernas dobradas. 

Soltou um suspiro amargurado. 

Sentou-se no chão de frente para Hinata, e passou as pontas dos dedos longos e frios por suas bochechas levemente rosadas. Hinata foi abrindo os olhos lentamente e suspirou baixinho.

— Já foram? — sussurrou.

— Sim.

— Foi bom né? — ela perguntou, colocando em seus lábios um sorriso gentil.

— Foi. — Sasuke continuou passeando os dedos pela face dela. — Obrigado pelo cozido... Por cantar pra mim... Foi realmente uma comemoração.

— Você merece. — ela sussurrou de volta, a voz soou levemente embargada.

— Me desculpe por não ter te contado antes. — Sasuke abaixou a cabeça sentindo-se verdadeiramente mal. — Você era quem mais torcia por mim e eu...

— Eu entendo. — Hinata sorriu fraco. — Eu entendo o que esteja sentindo agora, mas é a sua vida Sasuke, é o seu futuro, é o seu sonho, não coloque pessoa nenhuma na frente do seu sonho. Vá. 

— Eu não quero deixar você. — confessou, após um longo e profundo suspiro doloroso.

— Eu não vou morrer. — Hinata riu. — Meus pais moram a duas horas daqui, se eu me sentir mal, pego um trem e vou vê-los. Mas você precisa seguir. 

— Hinata... — Sasuke sussurrou, aproximando os lábios aos de Hinata que o olhou timidamente e mordeu os lábios. — Quando eu voltar, você ainda vai estar aqui, nesse apartamento, e vamos morar juntos.

— Claro, eu não vou dividir o apartamento com mais ninguém. — ela riu.

— Não. Vamos dividir um apartamento como um casal. — Sasuke praticamente ronronou as palavras, os lábios muito próximos aos de Hinata.

— Como um casal...? — repetiu, levemente hipnotizada.

— Sim, porque eu quero que namore comigo. — arfou, antes de roubar o beijo intenso e longo de Hinata.

As línguas se encontraram com certo toque de desejo e tocavam-se como velhas amigas. Havia um grande sentimento que os rodeava naquele momento.

Era afeição.

Sempre fora.


¹ — nome de uma jogada do mahjong, no qual se compra uma pedra do monte, descartando outra que se tem em mãos.


Notas Finais


Oi gente! Esse é de longe meu capítulo preferido! Foi uma delícia escrever e a música citada do Luna Sea é maravilhosaaa! Quem puder ouvir, não perca a oportunidade.
Agradeço a @mariaryaa pela betagem e agradeço a todas pelos comentários e favoritos! Me digam o que acharam e o que esperam para o próximo capítulo!

Beijo


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