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História Love Me If You Can - Capítulo 68


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Notas do Autor


Se eu não dormi, ainda é segunda

Capítulo 68 - Chá com mel


- Tem certeza que não precisa de ajuda?

A gentileza de Franco já estava deixando Francesca com dor de cabeça. Tinham se passado dois dias desde a conversa amigável dos dois e para o completo desespero da mais nova, Franco parecia querer manter a camaradagem.

- Eu faço essa trabalho desde que tinha 8 anos, tirar neve da calha não é tão difícil.

- Mas é perigoso!

- Se você sair na rua corre perigo de levar um tiro de uma bala perdida. Acredite que subir no telhado da sua casa de primeiro andar em um dia de neve, nem se compara.

Entretanto, Franco achava bem mais perigoso sim. Para começar, Francesca não tinha uma escada, então cabia a ela escalar a partir da janela do primeiro quarto de hospedes (que era o de Franco), se pendurar nas telhas e com uma vassoura, empurrar a neve. As calhas eram velhas demais e se acumulassem muito neve, corriam o risco de quebrar. Francesca já parecia acostumada em fazer aquilo e não demonstrava medo, mas Franco não conseguia deixar de ter a visão da garota toda quebrada no chão.

- O que raios você está fazendo? – Franco perguntou desesperado.

- Limpando, oras.

O que já era perigoso, se tornou um jogo de equilíbrio quando Francesca tirou os pés da parte superior da janela, usada como suporte, e se pendurou completamente nas telhas. Como um macaco, ela foi até a próxima janela, onde novamente colocou os pés na madeira e com a vassoura que ela segurou com a boca, voltou a empurrar a neve. Franco olhava tudo abismado. Francesca não usava luvas e mesmo assim suas mãos não tremiam ou demonstravam fraqueza.

- Desce daí! Quantas vezes já mandei você pegar a escada do vizinho! – A senhora Bussie surgiu no quintal, gritando com a neta e, pela primeira vez, a garota tremeu.

- Assim é bem mais divertido. – Francesca usou um tom de birra que seria fofo se os dois mais velhos não estivessem mais preocupadas com a garota se esborrachando no chão. – Eu nunca me machuquei!

- Ainda, Cesca! Ainda!

Francesca decidiu ignorar os avisos dos mais velhos e continuou seu trabalho. O vizinho de trás, observava a cena com bom humor, não era a primeira vez que a garota esguia fazia aquilo – e ele tinha certeza que não seria a última.

Lorena estava na recepção como na maioria das vezes. Ela não tinha a disposição da irmã para fazer metade das coisas, mas sempre se divertia vendo a maior fazer. Normalmente o que se espera de gêmeas idênticas são duas garotas inseparáveis e elas foram na maior parte da vida. A personalidade delas eram extremamente conflituosas e isso criava vários conflitos que a separavam... Temporiamente, logo elas voltavam a ser inseparáveis – na maioria das vezes.

A senhora Abigail Bussie, não pretendia passar sua velhice cuidando de suas netas, mas desde que sua filha Camile veio a falecer, essa responsabilidade lhe foi dada. Camile nem se quer sabia quem era o pai de ambas, talvez as bebidas que tomou na noite em que elas foram concebidas, tenham ajudado na neblina de suas memórias. Das gêmeas, Francesca era a cópia em personalidade da mãe, já em aparência, elas devem ter herdados os cabelos e olhos escuros do pai.

Todas as vezes que a senhora via Francesca fazendo alguma estripulia, vinha a ela lembranças de sua falecida filha. Ela sabia que Francesca não apareceria grávida a qualquer momento, sua neta era muito mais inteligente que isso, porém as artimanhas desenvolvidas por ela para fazer uma simples tarefa doméstica sempre faziam a senhora ter seu peito aquecido com a lembrança da filha.

Lorena tinha uma personalidade mais pacífica, adorava ajudar a avó e acalmar qualquer discussão que se iniciasse entra a senhora e a irmã. Ela sabia que sua avó amava profundamente as duas irmãs igualmente, mesmo que o temperamento de uma delas a tirasse do sério. Ela tinha gosto em ver certas brincadeiras inofensivas de Francesca, ria até que suas bochechas doessem, mas tinha verdadeiro pavor daquelas que colocavam sua vida em mínimo risco. Existia um trauma ali.

- Francesca Bussie, eu juro por tudo que é mais sagrado que se você se pendurar nas janelas mais uma vez, eu mesma te matarei!

As bochechas gordinhas da senhora estavam vermelhas de raiva. Francesca tinha descido do telhado e precisou correr de sua avó que tentou lhe agredir com a vassoura que usou para limpeza. Franco não sabia bem o que fazer, então apenas observou a cena com ar de riso. Alguns quadros foram derrubados pela corrida destrambelhada de Francesca pelas escadas e sua avó seguia em se calcanhar, tentando atingi-la com o cabo da vassoura.

Um casal conversava na recepção com Lorena, eles estavam alugando um quarto para as férias e a mais nova esperava que a cena não os espantassem. Francesca circundou os dois e seguiu para a cozinha, onde deveria fugir para o quintal e pular o muro do vizinho – era o que normalmente fazia.

- Bem, essas foram minha irmã Francesca e minha avó Abigail. – sorriu sem graça. Ela queria algum lugar para enfiar a cabeça e morrer em paz.

- Elas são bem... Animadas, né? – a mulher ruiva sorriu, tentando tirar o desconforto da mais jovem. Lorena suspirou aliviada.

- Sim, principalmente quando minha irmã faz algo irresponsável. – sorriu suavemente e pegou uma chave na gaveta – Acompanharei os senhores até seu quarto. Me acompanhem, Wintess.

Depois de acompanhar o casal até seu quarto, Lorena desceu e foi até a cozinha para colocar um pouco de água no fogo. Sua avó a qualquer momento voltaria e um chá sempre acalmava. Ela aguardou a água ferver, serviu uma porção em uma xícara com algumas folhas no fundo e uma colher de mel e então pode voltar para a recepção. Alguns minutos depois, a porta se abriu, mas não era um novo hóspede e sim Francesca suja de neve e lama. Lorena que estava sentada atrás da mesa, apoiava seu queixo em sua mão e levantou uma sobrancelha enquanto sorria divertida. Sua irmã não usava luvas e as pontas dos dedos dela estavam roxos. Francesca levou o indicador até os lábios em sinal de silêncio e subiu as escadas de uma forma quase gatuna, ela tinha anos de prática. Lorena se concentrou nos sons ao seu redor e logo ouviu a porta dos fundos se abrir novamente, sua avó tinha voltado e ela poderia finalmente relaxar em sua cadeira enquanto folheava uma revista de moda. Ela adorava acompanhar as mais novas modelos e uma estava chamando muita atenção ultimamente e seu nome podia ser lido em letras brilhantes na capa: Elise.

A senhora Bussie se sentou a mesa da cozinha enquanto agarrava sua xícara de chá para esquentar seus dedos. A vassoura estava jogada ao lado da mesa e suas botas foram deixadas do lado de fora, ela mantinha os pés aquecidos apenas com meias de lã bem grossas, mas que não seriam o bastante. Estava esfriando. Ela agradeceu o cuidado de sua neta em preparar o seu chá favorito, era amargoso, mas agradável ao paladar. O toque de mel dava um charme especial a sua bebida e aquilo a acalmou. Francesca, provavelmente, estaria tomando um banho quente aquela hora e isso ajudou seus nervos. Ela era teimosa, inconsequente, birrenta e teimosa, mas era uma boa garota aos olhos da avó.

- Espero que esteja mais calma. – a voz masculina não era bem o que esperava, mas levantou os olhos de sua xícara para observar Franco. Sua roupa estava impecável como sempre, seu relógio caro estava em seu pulso e seu sorriso calmo não a enganava – Eu imaginava que Francesca daria trabalho, mas não tanto... – ele percebeu que fez o comentário errado, a senhora Bussie estava trincando os dentes.

Ninguém fala mal de um Bussie, só eles mesmos – ou seus amigos.

- Senhor Menier. – o tom baixo era de quem já tinha lidado durante anos com clientes inconvenientes – Espero que esteja ciente que quem pode falar sobre minhas netas, sou eu!

- Claro, não foi minha intenção ofende-la com meu comentário. Só pensei que já tinha superado minha barreira inicial com Francesca e estaria aberto a uma... – ele buscou a melhor palavra – brincadeira.

- Certo... – a senhora suspirou. Ela criticava a neta, mas também parecia com ela – Sente-se.

Não era a intenção de Franco conversar mais, no entanto o olhar da senhora ainda mostrava irritação e, sem saber se era com ele ou não, preferiu sentar-se. Eles ficaram em um silêncio desconfortável que só era interrompido pelos breves goles que Abigail dava em seu chá. Quando finalmente seu líquido calmante acabou, ela pode levantar a cabeça novamente para encarar o homem. Ele tinha um tom bonito de dourado nos olhos e, para alguém tão novo, ele tinha algumas marcas de expressão envolta dos olhos, ele parecia cansado de tantas coisas. Talvez eles não fossem tão diferentes.

- O que, verdadeiramente, traz um homem como você até aqui? – a pergunta não era bem o que Franco esperava, mas ele agradeceu pela franqueza. Lembrava um pouco Francesca.

- Verdadeiramente? Bem... – e foi a vez dele abaixar a cabeça. Mas apenas para reflexão. Depois de alguns breves segundos, ele voltou a encarar Abigail – Eu não sei. Era uma viagem pelo meu aniversário, eu não esperava chegar até aqui... – fez uma pausa, mas Abigail não parecia disposta a interromper, então ele continuou – Eu sou um homem muito... ocupado, com, absolutamente, tudo, menos comigo mesmo. Acho que uma hora isso cansa até o mais bravo dos guerreiros. Eu deixei meus negócios com alguém de confiança, pedi para me alugarem um hotel afastado e vim parar aqui. – ele suspirou – É só isso.

Abigail não respondeu nada, continuou a observar o homem que começou a se sentir desconfortável. Ela parecia querer extrair sua alma com o olhar. Era de gelar a espinha, porém ele não fraquejou, continuou ali esperando uma resposta. Talvez ela tivesse entendido as entrelinhas. Franco observou que ela começou a circular a boca da xícara com o indicador, era um movimento calmo que precedeu sua fala.

- Sinceramente, senhor Menier? – Franco assentiu – Não acredito em uma palavra do que fala. – a franqueza novamente. Franco realmente gostava daquela senhora – Você não é o tipo de homem que procura um lugar desses para se... distanciar. Querendo ou não, você poderia ter saído e buscado um lugar melhor, mas não o fez. As pessoas costumam temer lobos em pele de cordeiro, mas você é o próprio lobo diante de mim, não sei qual face demonstra de frente para os outros, mas não o temo.

O silêncio voltou a reinar entre os dois. Franco quieto, mas não impressionado. Se aquela mulher lhe comparava a um lobo, ela só poderia ser uma velha coruja. Observadora e sábia. Ela não viria a ser a carta mais presente no baralho, porém era um Joker precioso.

O som de passos no corredor, quebrou a tensão entre os dois. Francesca entrou na cozinha usando o máximo de roupas que conseguiu colocar. Ambos provavelmente dariam risadas, se não estivessem tão concentrados um no outro. Até mesmo Francesca notou e parou ao observar a cena. Sua avó não era o tipo de pessoa que intimidava os hóspedes – os vizinhos, mendigos e padeiros da região, talvez, mas hóspedes não –, pelo contrário, ela seria a primeira a defendê-los caso Francesca passa dos limites. E ali estava ela, matando Franco com seu olhar. Seja lá o que estivessem conversando, a mais nova gostaria de não ter entrado na cozinha, ficar conversando com a irmã parecia ter sido uma melhor ideia.

- Bem... – seus olhos não sabiam em qual dos dois fixar – O que estão fazendo?

- Ora, Cesca. – e em um piscar de olhos, Abigail dispersou a tensão dando um sorriso caloroso a neta – Tomando um chá.

Ela não sabia o que Lorena tinha posto nesse chá, mas ela agradeceria de joelhos a irmã pelo milagre de ver sua avó sorrir depois do dia que tiveram.


Notas Finais


Prometo que o próximo será maior... Pq tretas começaram.
Alguém sentiu a referência a uma personagem? Dica: água de salchicha

Dias de lançamento: segundas e quintas.


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