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História Lover - Capítulo 22


Escrita por: wumeirong

Notas do Autor


Bom, agora sim vou me despedir de Lover.
Ao meu querido Michael Gray, que para mim merecia o mundo inteiro. Hoje faz 1 mês que deu tudo errado, então a gente precisa desse final feliz.

Capítulo 22 - Epílogo


“The life of the party, you’re showing of again
And I roll my eyes and then you’d pull me in
I was not much for dancing, but for you I did
(...)
Your name
Forever the name on my lips"

Las Kiss, Taylor Swift

 

Birmingham, Inglaterra, 1925

 

O hall de entrada de Highbury Hall estava lotado com o batalhão Barbosa-Shelby-Gray. Michael levou alguns segundos para entender o que acontecia, tendo saído cedo para a Shelby Company e sido avisado que a esposa ainda não retornaria de Londres – onde estava com a família.

-Milorde! – foi um choque se deparar com Ana descendo as escadas.

-Ana! – ele sorriu. Isso queria dizer...

-Milady está no quarto. – a aia ofereceu, sabendo que era a única coisa que interessaria o patrão. – chegamos faz pouco tempo.

-Certo. Obrigado. – mesmo que suas pernas quisessem seguir diretamente para lá, ele precisava cumprimentar os parentes primeiro. – Sr. Barbosa, Sra. Barbosa, que bom os ver novamente. Fizeram boa viagem, espero?

-Muito melhor que das outras vezes. – seu sogro assentiu.

-Oh Michael, ela está tão linda! Tão feliz! – sua sogra o abraçou. – radiante, de verdade. Você foi a melhor coisa que nos aconteceu! – segurando seu rosto, a senhora depositou um beijo estalado em sua bochecha.

-Meu Deus, querida, controle-se. – Franklin resmungou em português.

-Obrigado? – Michael corou, ainda desacostumado com elogios e... Mimos.

-Estava dizendo a sua mãe que não há par melhor. Lorde Nicholas era um charme, e Robert tinha suas qualidades, mas você... – ela piscou, emocionada.

Michael assentiu, agora sentindo vontade de rir.

-Eu me esforço para estar à altura dela.

-Ande, querida, deixe-o ir. Faz uma semana que não vê Maria Clara!

-Ainda preciso falar com os outros. – ele indicou a mãe e os primos. – João e Pedro não conseguiram vir mesmo?

-Chegarão apenas na próxima semana. – Sr. Barbosa explicou. – Eduarda preparou uma surpresa para vocês, mas esse é o máximo que posso contar.

A sobrinha de Marie, agora também dele, estava fazendo um grande avanço no inglês porque queria, de todas as formas, se comunicar com o “Tio Michael”. Ela era uma coisinha pequena, manipuladora e simpática, bem menos escandalosa que as filhas de John, porém muito mais sapeca que todos os Shelby juntos – reinando solitária como única neta dos Barbosa até o início daquele ano, quando Pedro e Joana  foram agraciados com o nascimento de Lilian, sua primogênita.

-Mal posso esperar para ver o que é. – riu.

Depois de saudar os outros visitantes, ele disparou pelas escadas rumo ao quarto principal. Ao abrir a porta, foi quase derrubado por uma massa caramelo gigante e ensurdecido por uivos característicos: Tirano, o Fila Brasileiro que ganharam de presente de um dos tios de Maria Clara, e Guerreiro, o Beagle que compraram para fazer companhia ao outro cão.

-Oi meninos, também estou feliz em ver vocês. – fazendo um carinho rápido nos dois, Michael tropeçou nos próprios pés ao se aproximar da cama. Caindo na beirada dela, escalou até a cabeceira e se deparou com o rosto risonha da esposa, encostada em alguns travesseiros. – não foi minha melhor entrada, né?

-Eu achei adorável. – Marie riu baixo, largando o livro que lia e passando uma mão pelo rosto dele, como se o mapeasse. – senti sua falta.

-E eu de vocês. – ele roubou um beijo breve, depositando outro na barriga dela. – conseguiu fazer tudo o que precisava lá?

-Consegui, sim. E por aqui? Sem nenhum problema, espero.

-Tudo controlado. – assentiu. – passei no Instituto ontem e as crianças perguntaram por você... Se está ausente porque o bebê nasceu.

-Ainda não. – ela sorriu, terna. – avisei que minha família estava vindo, mas sabemos que eles só escutam o que querem.

-Ah, falando em família, mamãe veio ontem com uma torta de maçã e nozes, achou que você poderia gostar... Mas também não sabia que estava viajando. Prometi que irei buscá-la logo para que te veja antes do neném nascer. – ele encolheu os ombros. – só precisamos manter mamãe e sua mãe longe.

-Ela pode ir até o Instituto antes da visita mensal, o que acha? – Marie ofereceu. Mrs. Johnson geralmente se voluntariava todo fim de mês no Instituto, sendo uma maneira de ver o filho e contribuir com as crianças.

-Você tem certeza que quer continuar trabalhando por agora? Não seria melhor ficar quietinha aqui?

-Mas ao menos uma vez eu deveria aparecer lá, só para me certificar que está tudo certo, não? – ela fez bico. – já não posso andar em Apolo, também fui restringida de frequentar a Shelby Company, sou proibida de ir à Casa de Apostas desde sempre, você fica fora o dia inteiro... Se eu parar com o...

-Tá bem, tá bem. – Michael desistiu. – reconheço que ele não consegue se manter tanto tempo em ordem sem a minha diretora esforçada e responsável.

-Minha? – piscou, corando.

Um ano de casada e ainda tinha dificuldades de se acostumar àquilo.

-Minha. – ele concordou, olhando para o delicado colar de nó que ela jamais tirava. – e para sempre, devo ressaltar.

-Para sempre é tempo demais, Michael.

-Não com você. Nunca com você. – ele negou, descansando a cabeça sobre o ombro dela. – e esse é meu lugar favorito no mundo.

-A cama?

-Você.

O rubor aumentou, vindo acompanhado de uma risada tímida.

-Se alguém no passado me dissesse que era um cara romântico desse jeito, eu teria morrido de tanto rir. – Marie comentou, depositando um beijo na cabeça dele.

Michael não era assim em público. Quando estavam cercados por pessoas, os dois costumavam continuar com implicâncias leves e nada mais além de um beijo na bochecha ou abraço; porém, ao ficarem sozinhos, ele se transformava num herói literário que nenhum autor jamais conseguira escrever... Gestos, declarações e olhares que transbordavam carinho, amor. Ele ainda tinha muitos e muitos dias em que a tirania o dominava por inteiro, mas se esforçava ao máximo para não deixar aquilo respingar em Maria Clara.

E ela, sua guerreira, lhe dava o apoio necessário para superar.

-Sua mãe acabou de me dizer que fui a melhor coisa que aconteceu a vocês, mas a verdade é que é ao contrário.

-Ai, por favor! Pare com isso! – Marie riu desesperada. – vai me fazer chorar!

-Certo, vou ficar caladinho. – ele sorriu, ainda apoiado nela. – me conte o que minhas princesas fizeram essa semana em Londres.

-“Minhas princesas?” – sua esposa questionou, curiosa. – acha que é uma menina? – eles sempre conversavam sem tentar imaginar um sexo para o bebê, então que Michael começara a relacioná-lo à uma garota foi surpreendente.

-Estou cada dia mais convencido que é uma.

-Pol me disse que pelo aspecto da minha barriga e pelo que sentiu, é um garoto. – comentou. – mas eu não sei o que pensar.

-Vai ser uma menina, Marie.

-Hmm... Realmente não sei o que pensar.

-Vai ser uma menina, meu amor. – ele repetiu. – porque é a sina dos Barbosa terem apenas netas, e porque é meu castigo divino... Viver rodeado por mulheres que vão mandar e desmandar em mim, e que eu secretamente amarei cada segundo.

-Ora, Michael! – ela riu. – então faremos um trato: se estiver certo, pode escolher o nome dela. Se vier menino, eu escolho. O que acha?

-Você é uma Blinder dos pés à cabeça! Trato feito. – assentiu, erguendo o rosto para olhá-la. – podemos selar com um beijo?

Ao invés de responder, ela apenas grudou a boca na dele.

 

±±±±±±

 

Dez dias depois, numa agitada tarde de quinta-feira, o mais novo papai da Inglaterra saía desesperado da Shelby Company, porque estava no meio de uma reunião quando recebeu o telefonema de Polly avisando que Marie iria dar à luz. Por sorte, Mr. Heartwell era um cliente antigo e compreendia a necessidade de Michael em estar junto à esposa naquele momento.

Ao chegar em casa, foi impedido pelo sogro de subir. Aparentemente, o sexo masculino não possuía estômago para aguentar o parto e ele mais atrapalharia que ajudaria estando presente dentro do quarto.

-Posso ao menos avisá-la que cheguei?

-Acho melhor esperar... – Sr. Barbosa foi cortado pela porta.

-Viemos o mais rápido que pudemos! – Lizzie e Esme entraram juntas. – onde ela está? – a mais velha questionou.

-Lá em cima. Vocês podem avisar que Michael chegou?

-Claro, sem problemas. – arrastando Esme, as duas subiram.

-Quanto tempo dura? O que eu faço até acabar? – Michael o olhou.

-Tudo depende... Para algumas mulheres é bem rápido, para outras não. Comigo, fiquei no estúdio trabalhando. João e Pedro preferiram beber e fumar, tentando bloquear os gritos.

-Gritos? – os globos verdes se abriram em pratos.

-Apesar de ser muito discreta, você não supõe que Marie vá ficar calada enquanto uma criança sai de dentro dela, não é?

O estômago de Michael embrulhou.

-Eu...

-Vejo que agora entendeu porquê não somos de grande ajuda nesse caso. – Sr. Barbosa riu, dando tapinhas de consolo no ombro dele. – vamos, acho que um pouco de brandy e um charuto poderão te relaxar.

 

Houveram gritos, como previsto. Também houveram empregados subindo e descendo sem parar, litros de bebida e um mundaréu de comida para recepcionar as visitas que chegavam, e cachorros latindo enquanto Duda liderava a tropa de pestinhas – que corriam de um lado para o outro, escapando da ala infantil. Era o puro suco do caos, mas Michael não poderia se importar menos.

Então, quase três horas depois, o jovem casal Gray dava boas-vindas ao seu primogênito. Marie estava bem fraca e muito cansada, mas deixou uma risada escapar em meio às lagrimas... Bem, parece que o marido perdera o trato.

Polly desceu acompanhada de Esme e Lizzie, enquanto a mãe de Marie e suas cunhadas a preparavam para receber o resto da família.

Ao ver o trio todo choroso, o coração de Michael parou.

-O que aconteceu? Por que estão chorando? – ele perguntou aflito. Sem responder, Polly apenas o abraçou com força. – mãe! O que...

Se Marie tivesse morrido... Ou bebê... Ou os dois...

-Estão apenas organizando tudo para que os outros possam visitá-los um pouquinho. – Esme explicou. – não precisa se assustar.

-Custava ter falado isso antes?! – ele respirou fundo, envelhecendo 10 anos.

-Ora, Michael, você tem que entender que é um prazer vê-lo rendido de amores! Me sinto na obrigação de tirar proveito disso. – ela riu.

-Eu gostaria de ser uma mosquinha para ver a reação dele assim que o liberarem para subir. – Lizzie piscou, um sorriso sardônico nos lábios.

-É uma menina? – questionou, agora ansioso. – não! Esperem! Não respondam. Quero que seja surpresa.

A vontade de fumar outro charuto para aliviar a agonia era grande, mas Maria Clara jamais o deixaria se aproximar se estivesse fedendo... E Michael não queria arriscar mais um segundo longe dela ou do neném.

Pensando nisso, pediu licenças e buscou por Baxter, seu valete. Ele pediu um quarto desocupado e uma muda de roupa limpa. Com muita sorte, talvez ao passo que terminasse de se arrumar, Marie já estaria preparada para vê-lo.

 

Já deitada em novos lençóis, a brasileira segurava seu filho adormecido enquanto Eduarda lhe explicava sobre a “surpresa” para o “Tio Michael”. Por um tempo, Tio Pedro era seu favorito (mais por falta de concorrência que qualquer outra coisa), porém como Tia Marie sempre seria sua “número um”, era natural que o marido dela se transformasse no preferido da menina também.

Com a entrada de um novo membro na família (o bebê), Duda queria dar algo à Michael que mostrasse que ele era um Barbosa tanto quanto Marie. Depois de muito matutar, foi seu avô quem sugeriu o presente: um anel de sinete com o brasão do marquesado de Valença. Ela podia não ter ideia do que aquela simples confissão fazia com o já baqueado coração de Maria Clara, mas a mais velha precisou de muita força para engolir as lágrimas e conciliar um sorriso tranquilo.

-E este é o anel? – apontou para a caixinha que a menina segurava.

-Sim. E queria que a senhora me ajudasse a falar para ele o significado.

-Claro, é claro que ajudo. – Marie assentiu.

Ana Vera entrou com uma bandeja de mingau e chá. Atrás dela, vinha Michael acompanhado por Tirano, quase como um guarda-costas do dono.

-Posso entrar? – ele colocou a cabeça para dentro, incerto.

-Por favor, milorde. – Ana gesticulou. – vou apenas colocar a comida de milady aqui e levarei Duda para a ala infantil.

-Antes, ela queria entregar um presente para o Tio Michael. – Marie o encarou, risonha. – muito bem, querida, vamos lá. – voltou-se para Eduarda.

-Hm... – ela pigarreou. – Tio Michael...

-Sim? – ele sorriu, um poço de paciência e suavidade.

-E-eu queria que você... Soube?

-Soubesse. – Marie a corrigiu.

-Soubesse. É, certo. Queria que soubesse que é tão Barbosa quanto minha Tia Marie. – respirou fundo, brincando com o lacinho da caixa, tímida. – e que é meu tio favorito... Vovô me ajudou a sele... Encon...

-Escolher. – Marie ofereceu.

-Escolher. – a menina repetiu. – esse presente.

-Um presente? Para mim?! – Michael exagerou na surpresa, sabendo que aquilo a deixaria satisfeita.

-Porque gosto muito de você. – as bochechas dela estavam vermelhas.

-E eu de você. – ele mordeu o riso.

-.

-Aqui. – Marie repetiu, em inglês. – não falamos “tó” para os outros, Duda.

-Muito obrigado, Duda. – Michael agradeceu em português, pegando o embrulho e o colocando na ponta da cama. – e meu abraço?

Com um suspiro quase resignado, a garotinha abriu os bracinhos e esperou que Michael a pegasse no colo. Era sempre uma experiência incrível vê-lo lidando com crianças ou pessoas mais vulneráveis, inocentes. O coração de Marie se expandiu, cheio de amor por aquele homem complexo e intenso.

Ainda segurando a sobrinha, ele desfez as fitas e puxou a tampa, revelando um anel de ouro amarelo com um brasão conhecido em relevo: VALENÇA. Michael ergueu os olhos para a esposa, quase incerto sobre o que interpretar.

-Parece que é oficialmente um Valença, Lorde Gray. – comentou sardônica.

-Parece que sou. – o britânico engoliu em seco, inundado por uma série de emoções. – obrigado, Duda. Vou usá-lo para sempre. – sua voz saiu rouca.

A menina sorriu envergonhada, escondendo o rosto no ombro dele.

-Acho que devemos deixar Tio Michael um pouco sozinho com o neném, não é mesmo? – Ana Vera andou até eles, falando em português. – vamos avisar ao Vovô sobre seu priminho, que tal? Aposto que todos estão curiosos para conhece-lo.

-Pode soltá-la, Ana a levará para baixo. – Marie traduziu.

-Claro. – colocando Eduarda no chão, eles se despediram. Ao som da porta se fechando, Michael voltou a encarar a esposa. – você sabia disso?

-Sabia. – concordou. – papai me ligou perguntando seu número.

-Uau. – ele puxou o ar, chocado. – quer pôr em mim?

-Vai ser um pouco difícil, levando em consideração que estou com os braços ocupados. – gesticulou com o queixo para o bebê que segurava.

Ah.

Era como se Michael finalmente se lembrasse o motivo de estar ali.

Que dia cheio de intenso e apavorante! Ele levaria algum tempo para superar toda aquela enxurrada de carinho e bons sentimentos... Ficara assim também quando Marie lhe contou que estava grávida.

-E então? – questionou enquanto colocava o anel.

-Vem aqui. – o chamou. A passos cautelosos, ele parou ao seu lado, sentando-se na ponta e ficando quase da altura da cama. Com a atenção fixa no rosto do marido (para não perder nenhuma reação), falou. – veja só, Henry, este é o papai.

Henry.

Eles tinham um garotinho?!

-Henry? – perguntou baixo, os lábios ficando secos.

-Henry Franklin Gray. Achei apropriado, não?

Maria Clara acompanhou em primeira mão enquanto Michael compreendia o significado daquele nome. Também foi a única expectadora daqueles olhos verdes nublando com lágrimas, flashes de ternura, esperança e muito amor dançando por eles. Incerto, Michael passou o nó dos dedos delicadamente pela cabeça do filho e apertou o maxilar, na tentativa de controlar qualquer emoção.

-Henry, – repetiu, rouco. – por mim?

Marie assentiu.

-Franklin, por papai. E Gray, por nós.

Com um suspiro lento, Michael desistiu de se segurar.

-Eu amo você, sabia? – sua voz estava embargada, enquanto uma lágrima escapava e rolava por sua bochecha. – amo vocês, na verdade.

-Também te amamos, Michael. – ela sorriu, carinhosa. – será o melhor pai do mundo, sabe disso né? – ele negou. – quer segurá-lo um pouco?

-Não acho uma boa ideia. E-eu não tenho...

-Deixe de besteira, é como segurar qualquer bebê.

-Ele não é qualquer bebê! – protestou. – é nosso filho!

-Mais uma razão para segurá-lo.

-Será que você pode respeitar minha vontade de...

Henry se mexeu, bocejando e apertando os olhinhos. Logo, seus dois globos verdes piscaram preguiçosos, a atenção do pequeno focando primeiro em Marie e depois no novo rosto ao lado dela.

-Poderia segurá-lo enquanto eu como meu mingau? – Marie tentou outra vez, percebendo a expressão de encantamento no marido.

-É claro. – Michael respirou fundo, se ajeitando na cama. – v-você...

Com cuidado, ela colocou o neném no colo dele. Por um breve minuto, a brasileira se derreteu toda com a cena; em seus sonhos mais malucos imaginara aquilo, claro, porém nada se comparava à realidade.

-E então?

-Ele é tão pequenininho! – o britânico comentou com espanto. Henry agitou as mãozinhas, algo parecido com um sorriso tomando a boquinha banguela. – e-ele... Ele sorriu para mim?! Você viu isso?

Agora era sua vez de segurar o choro.

-Eu vi! – Maria Clara sorriu em resposta. – é sua primeira vez nos braços do papai, meu amor, e é o melhor lugar do mundo. – disse ao filho.

-Não, não, Sua Graça. Aí seria nos seus.

Ela o encarou por um segundo, depois venceu a distância e roubou um beijo.

 

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Highburry Hall, Birmingham, Inglaterra, 1928

 

Era o primeiro natal que a família Gray decidia realizar uma celebração menos íntima, e conforme combinado, lá estavam os pais e irmãos de Marie para comemorarem com eles. Em anos ímpares, o casal ficava na Inglaterra, e nos pares, ia ao Brasil (ou o Brasil vinha até eles, como era o caso). A festa também contava com a presença dos amigos próximos deles, além de alguns Blinders e outras figuras influentes do círculo social que frequentavam.

Trajando um longo e delicado vestido de seda verde-claro, acentuado na cintura com uma faixa de veludo em um tom mais escuro, que terminava em um laço e deixava as pontas caindo quase no comprimento total da saia. Ela tinha a opção de usar o vestido de veludo vermelho da Chanel que ganhara da mãe, porém sabia que muitas convidadas priorizariam aquela cor.

E, bem, não era nenhuma surpresa que “Lady Gray” gostava de ser diferente.

-Quero ficar até meia-noite, também! – Duda bateu o pé em birra. – se Karl vai, por que não posso? Tudo bem Lilian e Henry, porque são pequenos, mas eu já sou grande! – cruzou os braços, emburrada.

-Grande? – João Antônio abafou o riso. – filha, não é adequado ficar com os adultos até essa hora... E outra, Karl não ficará conosco, ele vai dormir junto com vocês. – ajeitou a tiara no cabelo dela.

-E se as crianças não estiverem dormindo, como o Papai Noel vai entrar? Ele não pode correr o risco de ser visto. – Marie se encostou ao batente da porta no quarto dos irmãos. – ou prefere ficar sem os presentes?

João a encarou, agradecido, e Marie o respondeu com uma piscadela.

-Sem contar que este é o primeiro natal de Anna conosco. Ela esperava que você a acompanhasse o tempo inteiro. – seu irmão completou.

-Henry ainda é muito novo, e como disse, você já é uma mocinha, não?!

Eduarda olhou de um para o outro, desconfiada, mas como adorava receber elogios e se sentir responsável, acabou aquiescendo.

-Bem, creio que preciso ajudar Anna, então. – ela ergueu empinou o nariz, altiva. – que tipo de prima eu seria se a deixasse na mão?

-Justamente. – Maria Clara riu. – estou indo vê-la. Quer vir comigo?

Duda assentiu.

As duas seguiram para a ala infantil, que pipocava com todas as crianças da família. Gritos e risadas agudas preenchiam o ambiente, a deixando feliz por ver que todos aparentemente se divertiam.

As meninas (exceto Anna) brincavam de casinha em um canto. Tirano, deitado perto da janela, tinha Anna apoiada em sua barriga, enquanto ela lia um livro. Uma horda de meninos brincava com espadas e tapa olhos, algo sobre serem piratas e um tesouro perdido; Charles, Henry e Lilian estavam em outro canto, seguindo as ordens de Edward para alguma dobradura de papel, Guerreiro dormindo ao lado do pequeno Gray.

-Milady! – uma das babás se aproximou. – precisa de algo?

-Ah, não. Apenas vim dar uma olhada em como estão; antes da festa começar. Creio que em pouco tempo o jantar deles será servido. – Marie sorriu.

-Mamãe! Duda! – Anna se levantou.

Maria Clara se agachou, abrindo os braços e esperando a filha neles.

Um ano mais nova que Eduarda, a menina chegou ao Instituto logo em sua inauguração, Órfã de pai e mãe por cause de um desabamento, nenhum outro parente quis cuidar dela, e de alguma forma, captou a atenção de Marie.

Com sua nomeação ao cargo de diretora e o caminho livre de Hughes, a presença de Michael no Instituto também aumentou, e aos poucos, o jovem casal percebeu que talvez o lugar da garotinha fosse junto deles, como uma Gray.

A adoção não surpreendeu muitas pessoas, visto que todos sabiam um pouco do passado de Michael. E agora, quase seis meses depois de oficializarem os documentos, Marie compreendia que tomaram a decisão certa.

-Por que não está brincando com o pessoal?

-Preferi ler o livro que papai me emprestou. – ela encolheu os ombros. – mas já que Duda voltou, vou guardá-lo.

-Por que você não mostra a ela seus desenhos de vestidos? – Marie sugeriu.

-Vestidos? – Duda franziu o cenho.

-Anna quer ser uma modista muito famosa. – a brasileira ficou em pé. – e andou criando alguns esboços... Você pode falar um pouco sobre como está a moda no Brasil, o que acha? Assim ela ganha mais inspiração.

-Farei em português, para que ela treine também. – Eduarda decidiu.

-É uma ótima ideia.

Marie já ia se despedir quando sua filha olhou para algum ponto atrás dela, um sorriso gigante rasgando o rosto corado.

-Papai! – Anna correu, as saias de seu lindo vestidinho de crepe lilás balançando conforme pisava. Com um impulso, ela pulou para os braços de Michael.

Virando-se, Maria Clara se derreteu toda com a cena.

-Imaginei que fosse te encontrar aqui. – seu marido a encarava, segurando Anna no colo. – o pessoal já está chegando.

-Eu queria ver os meninos antes. – ela encolheu os ombros. – apesar de Henry não estar nem um pouco interessado em mim.

-Lily e Edward estão aqui, meu amor, achei que você soubesse qual lugar ocupa no coração dele perto dos dois. – debochou.

-Bom, ao menos Anna e Duda me amam acima de tudo, não é?

Anna riu, escondendo o rosto no pescoço do pai.

-Creio que ela goste mais de Tio Michael, mas você é minha favorita sempre, Tia Marie. – Duda ofereceu, a voz levemente consoladora.

-Obrigada, Duda. Você também é minha favorita sempre.

Depois de deixarem algumas orientações às babás quanto ao jantar, o casal se despediu das crianças e rumou o salão de festas.

 

Era revigorante ter todos por perto. Nada tirava da cabeça de Marie que o mundo seria milhões de vezes mais bonito caso Brasil e Inglaterra estivessem na mesma distância que Birmingham e Londres. Apesar da saudade que, embora menor, nunca passava, ela permanecia firma na declaração que fizera anos atrás:

Amava o Brasil, mas amava Michael Gray mais.

Levando em consideração tudo o que passaram juntos, desde o maldito leilão em 1921 até aquele presente momento, em 1928, era certo dizer que realmente nada, nem ninguém chegaria aos pés daquele homem hipnótico.

Esperava que, após três anos de amor unilateral e quatro de casada, os sentimentos que nutria por Michael tivessem entrado em uma espécie de “contenção”, porém, a realidade passava longe. Ainda se derretia toda ao encontrar aqueles olhos verdes turbulentos, seu coração se apertava ao vê-lo com os filhos, seu estômago girava ao som da voz rouca, sua pele se arrepiava ao mínimo toque dele...

Às vezes discutiam seriamente, porém ele se esforçava para não deixar seus demônios a machucarem, e mesmo que estivesse a um passo de se tornar a pior pessoa da Cristandade, ele jamais voltara a magoá-la como antes. No mais, as implicâncias agora se mesclavam ao flerte, e quase sempre terminavam em gargalhadas e beijos febris.

-Juro que até hoje me pego pensando em como conseguiu esconder por tanto tempo que era apaixonada por ele. – Ada parou ao seu lado, uma taça de Martini em mãos. – qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade perceberia.

Marie suspirou, um pouco divertida.

-Acho que como sempre revidava as grosserias, fui capaz de camuflar. Porém, se estivesse conosco aqui em Birmingham, com certeza teria visto. Lizzie viu.

-São seus olhos, Marie... Seus olhos dizem tudo.

Ela corou.

-Sorte a minha que ele nunca notou.

-Sorte que notou a tempo. – Ada a corrigiu.

As duas ficaram mais alguns segundos analisando Michael, que estava rodeado por Isaiah, Louis, Stanford, dois secretários de Churchill, João e Pedro, e Mr. Waldorf. Ele falou algo, os homens rindo em seguida, e o sorriso exibido que tomou a boca dele fez as pernas de Marie enfraquecerem.

Antes que pudesse desviar a atenção, seus olhares se encontraram e ela sentiu o coração acelerar. Suas bochechas queimaram, mas logo a conexão foi quebrada quando uma mão rodeou seu cotovelo.

-Lady Gray. – o tom debochado de Nick foi seguido de uma piscadela.

-Ora, seu patife! Você quer aborrecê-lo logo hoje?

Por mais que Marie finalmente tivesse contado ao marido que toda a corte de Nick não passara de uma mentira, ele se negava a acreditar que o lorde não nutriu nenhuma esperança de que terminassem casados. Isso tornou a amizade entre os dois um pouco complicada, porque as crises de ciúme acabavam aparecendo. Então, na tentativa de apaziguá-lo, ela fez o impossível para torná-los próximos... E até dava certo, mesmo que Nick insistisse em o irritar mais que o necessário.

-Implicar Michael é uma de minhas atividades favoritas! – ele encolheu os ombros. – gostaria de dançar um pouco?

-Sinceramente? – ela suspirou.

-Sabe que será rude se negar sem um bom motivo. – insistiu. – posso ver seu cartão de dança? – brincou, fazendo um floreio.

-A verdade é que não tenho um.

-Ainda mais difícil de me rechaçar. – havia um quê de puro deboche na postura de Nick, e não era preciso muito para entender o porquê.

Sentindo um calafrio subir pela coluna, Maria Clara encarou o grupo em que Michael se encontrava segundos antes... E não mais.

-Nick...

-Shh... Aja normalmente. – ele sussurrou, e Ada tampou a boca, como se escondesse uma risada. – Lorde Gray! – sorriu amplamente.

-Estou atrapalhando? – a voz rouca de Michael chegou até eles.

-Oh, não. Estava apenas convidando Marie para dançar...

-Ah? – seu marido ergueu uma sobrancelha, maxilar travando.

-Mas ela se recusou, apesar de ser uma gafe fazê-lo. – ele completou, conspiratório. – portanto, o que acha de dançar, Mrs. Thorne?

-Eu adoraria. – Ada assentiu, risonha.

Pegando a mão de Nick, os dois se afastaram a passadas tranquilas, deixando Marie sozinha com um Michael razoavelmente irritadiço.

-Por que foi rude e não dançou com ele? – quem o escutasse acharia que era uma pergunta genuína... Mas ela sabia melhor.

-Porque não estou com humor para isso. – deu de ombros. – e não queria te chatear, já que sei que tem ciúme e...

-Não tenho ciúme! – ele retrucou na defensiva.

-Ah não?

-Não!

-Então tá. – Marie puxou as saias do vestido. – talvez eu consiga pegar Nick antes da próxima música começar.

Mas ela não deu um passo sequer, pois Michael a segurou.

-Agora não adianta mais tentar consertar o estrago... Te resta apenas dançar comigo. – por sorte, havia o início de um sorriso naqueles lábios espertos. – acho que li em algum livro de etiqueta que a anfitriã deve ter o marido como primeiro par.

-Mesmo?

-Mesmo. E não queremos parecer ainda mais mal-educados, não é?

Entrelaçando os dedos nos dele, a brasileira assentiu.

-Hoje mesmo Mrs. Waldorf voltou a repetir como você é um cavalheiro e tanto, o quanto é agradável e esperto. Papai também escutou Lorde Hastings dizer que os lordes do clube de caça estavam ansiosos para a próxima reunião em que você fosse... Deus nos ajude se os decepcionássemos comportando com pouco decoro!

Ao som dos elogios, o sorriso de Michael se alargou.

-E pensar que há uns anos você fazia questão de deixar claro como eu era apenas um canalha. – zombou.

-Mas acabo de dizer que esses comentários partiram de Mrs. Waldorf e Lorde Hastings, não de mim! Esse seu ego não cabe dentro do salão...

-Vamos dançar. – ele balançou a cabeça em negativa, rindo.

Ela rolou os olhos, fingindo um bufado.

-Homem impossível!

-Casou comigo sabendo.

Sentada ao lado de Lizzie, Polly observava o filho falar com a orquestra, a mão firmemente enrolada na de Maria Clara. A enchia de alegria vê-lo tão contente, tão satisfeito e tão... Ele. Com o passar do tempo, ficava cada vez mais nítido que não havia companheira melhor para ele: ninguém teria tanta paciência e carinho ao lidar com Michael como Marie tinha, e ninguém saberia trazê-lo para superfície quando ele tentava se afundar como ela.

A brasileira conseguira resgatar o potencial de Michael, transformando-o em um exemplo de homem (apesar de algumas ressalvas quanto à ética, principalmente por ser um Blinder). Era notável como o filho se esforçava para deixá-la orgulhosa, para ser o ótimo pai e marido que se propôs  ser. Polly jamais acreditou que viveria para vê-lo constituir uma família... Mas cá estava, avó de duas crianças maravilhosas e que eram alucinadas pelo pai – Henry era só sorrisos perto dele, e Anna explodia em felicidade quando estavam juntos.

-É palpável o quanto se gostam. – Lizzie comentou, encantada.

-Que bom que ele percebeu a tempo.

-E a senhora querendo que ela ficasse com Lorde Nicholas! – a mais nova riu.

-Eu tinha meus motivos, não é? Como saberia que os dois foram feitos um para o outro quando Michael se comportava igual um babaca?!

E, para o fascínio de todos, uma amostra daquele afeto tão puro começaria. Os primeiros acordes de uma melodia conhecidíssima para eles preencheram o salão.

-Fascination?! – ela estava surpresa.

-É claro. Ainda não me sinto magnânimo o suficiente para compartilhar Carinhoso com os outros. – encolheu os ombros.

Marie precisou de muito controle para não o encher de beijos ali mesmo. Existiam duas canções que ele sempre gostava de ouvi-la tocar no piano, principalmente em dias que estava cansado ou amargo: Carinhoso e Fascination.

Ao som daquela valsa que remetia à tantas memórias boas, os dois tomaram posição na pista. Naturalmente, os convidados ao verem os anfitriões ali, deram mais espaço a eles, quase como se fossem a atração principal do momento. Dizer que nenhum dos dois percebeu o que acontecia seria constatar o óbvio; envoltos pela bolha de intimidade que criavam ao se olharem, nem uma explosão conseguiria quebrar a conexão que compartilhavam.

-Suba essa mão e se afaste um pouquinho. – ela ordenou.

-Por quê? – Michael desafiou. – somos conhecidos, não?

Lembranças de quando valsaram pela primeira vez fizeram com que mordessem o sorriso. Naquela época, a noite terminara em desastre: Marie com o coração quebrado, e Michael com a notícia da gravidez de Charlotte. Porém, diferente de 1924, aquela noite só tinha um caminho a seguir: a satisfação.

Para manter um pouco da originalidade do momento, Maria Clara empinou o nariz e colocou sua melhor expressão de altivez.

-É indecoroso e pode passar uma imagem errada.

-Que imagem? – a apertou mais contra si.

-Ora, Lorde Gray, mais um pouco e vou achar que está apaixonado por mim.

Os olhos daquele verde único cintilaram em ternura e diversão.

-Sempre, amor. E só por você. – Michael assentiu.

O coração dela explodiu no peito, rendido como desde quando o viu na corrida. Tantos anos ao lado de seu Apolo Original, e ainda assim, não parecia ter nenhuma perspectiva de ser menos apaixonada por ele.

-E é recíproco. – completou sincera.

FIM


Notas Finais




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