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História Luar Puro - Capítulo 18


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Notas do Autor


Sim, eu demorei.
Por quê? Um monte de razões, mas nada disso justifica o sumiço, eu poderia ter feito mais, no entanto, se eu reclamei antes que a faculdade estava difícil, vocês não imaginam como a merda bateu no ventilador dessa vez.
Ano novo, cara nova, procrastinação de sempre.
Quando comecei a fic, quis fazer tudo devagar, pra falar a verdade, ela cresceu junto comigo, e se vocês prestarem bastante atenção, vão perceber que ela foi iniciada no ano de 2016... bem, esse foi o ano que entrei na faculdade... e sim, 2020 é meu quinto ano... ou seja...pew, tcc, estágio, apresentação de monografia, formatura e blá blá blá...
Uma montanha russa, eu sei.
Meu maior problema de todos tem sido conciliar a escrita com meus trabalho (TCC óbvio!), o que tem sido muito complicado, por que quando se trata de my person, os dois estão relacionados.
Meus capítulos se tornaram muito grandes, muito bagunçados e eu sinto uma necessidade masoquista de ficar relendo e corrigindo tudo, pois sou uma perfeccionista, isso tudo causa um atraso estupendo.
Parando com a enrolação, apertem os cintos, pois a coisa está prestes a se tornar muito, mas muito intensa.

Capítulo 18 - Encantada


Fanfic / Fanfiction Luar Puro - Capítulo 18 - Encantada

A sensação é imediata, indescritível.

Como se duas realidades paralelas acabassem de se chocar, causando um colapso de sensações, se encontrando e se fundindo, como morrer e renascer ao mesmo tempo. Se eu já tivesse morrido nessa vida, se eu tivesse apenas um pedaço do outro mundo, do céu, do paraíso...  se eu já tivesse morrido, então eu diria que está é a sensação, morrer e então renascer logo em seguida, me perder e  então me ganhar de volta.

Meu sangue parece retumbar numa sequência de tambores, uma canção antiga, ancestral, que ressoa no meu coração escorrendo lentamente, aquecendo através das minhas veias, vibrando em cada célula. O ar fica mais leve ao redor, e gradativamente sinto meus pés se enraizarem na terra úmida do chão, como se criassem raízes.

Eu poderia ficar aqui para sempre, me tornar árvore e nunca me sentiria sozinha de novo.

Ele está aqui...

Fico olhando-o por muito tempo, tentando associar a minha lembrança ao que está na minha frente, o real, mas ele é incomparável, o que eu tinha flutuando em meus pensamentos por semanas não fazia jus a sua presença física, o lobo e o homem se fundindo na minha frente... vivo e vibrante.  Não chegava nem perto do que estava na minha cabeça.

Ele está igual e ao mesmo tempo tão diferente, como se minhas lembranças não fossem dignas dele, do que ele é e significa para mim.

Senti tanta falta...

Um arrepio corre por minha coluna me tirando do transe, pisco freneticamente diante desse pensamento dolorido que faz cada veia do meu corpo zumbir.

Talvez toda aquela sensação constante de falta de ar e solidão fosse apenas saudade, saudade de uma pessoa que mal tinha entrado na minha vida e já era toda ela.

Como eu poderia ter me negado por tanto tempo?

 Era assim que eu vinha me sentindo, como se estivesse tentando afastar metade de mim.

Ele não parecia estar incomodado com meu escrutínio, seus olhos dourados estavam me analisando da mesma forma, como se fosse necessário assegurar que nada tinha saído do lugar, que eu ainda era eu, que não havia sido machucada. Meu coração se aperta com essa verdade e me pego fazendo o mesmo tipo de varredura nele, como se fizesse parte do meu instinto seguir suas ações.

Ele é grande, forte... e mesmo assim parece cansado, como se houvesse um grande peso sobre seus ombros... como se algo estivesse o puxando para baixo por vários dias, lutando, uma força invisível e persistente.

Eu conheço essa sensação...

Um desejo súbito e faminto me faz ter o ímpeto de me aproximar para toca-lo, como se meu toque fosse o suficiente para vencer o tormento. Eu não faço isso, claro, me controlo da melhor forma que posso, cravando os dedos dos meus pés na terra.

Fecho meus olhos e suspiro longamente.

Queria que fosse simples, queria não me sentir envergonhada pelo que fiz ontem, apagar tudo e recomeçar, se não houvesse toda a negação então eu poderia me expressar, poderia fazê-lo entender o que acontecia no meu íntimo, todos os fatos que me fizeram ser retraída e cautelosa.

Tudo que me fez ter medo do sentir...

Abro os olhos quando a escuridão tenta deslizar sorrateira dentro dos meus pensamentos.

Não posso mudar meu passado, e muito menos me deixar dominar por ele, então, por agora, tudo que posso dar, são minhas palavras inseguras.

Devo isso a ele, devo a minha coragem ao menos.

Mordo meu lábio e estreito meus olhos, as palavras são como indecisão despejando dos meus lábios.

- Você... você pode se transformar?

Assim que a pergunta sai eu olho para seu flanco, onde não há nenhum tecido amarrado, o balançar sútil da cabeça do lobo confirma a ausência de roupas.

Sinto meu rosto ficar quente imediatamente.

- Isso vai ser difícil então.

Eu não ia me transforma, não tinha essa intenção, de forma alguma.

Se ele tinha vindo até aqui então os outros deveriam estar por perto, não arriscaria passar por outro estresse tão cedo, tudo que eu podia aguentar agora era falar com ele.

Só ele...

Minha cabeça está cheia de questionamentos e maneiras de resolver o impasse, o lobo apenas me encara em seu silencio paciente.

Como ele pode estar tão calmo?

Um sentimento minúsculo de irritação se manifesta no meu cenho franzido, observo sua forma silenciosa, os olhos atentos a cada movimento do meu corpo, assistindo os mais mínimos detalhes, monitorando minhas reações.

Ele não estava tentando me deixar desconfortável, isso era óbvio, e a forma que me analisava não era íntima ou autoritária, era... como se ele estivesse esperando que eu me sentisse confortável.

A forma como sua cabeça se curva de maneira indecisa só confirma meus pensamentos.

- Oh... você... planejava permanecer na sua forma.

Faz sentido, a última vez em que nos vimos ele estava transformado também.

- Sam disse para você se manter assim?

Ele acena vigorosamente e continua a me encarar, percebo que seu silêncio não é como o dos outros, e isso me faz pensar que se pudéssemos, ficaríamos assim para sempre e seria o suficiente, só estar assim, com ele.

Confiança

Eu nunca tinha me sentido dessa forma, não por um estranho, então a noção do que isso significa me bate, meus sentidos não eram mais apenas meus, não graças ao imprinting.

Ele certamente sentia minha agitação, no ar, no seu próprio íntimo até.

Sua cabeça se inclina de forma questionadora, como se perguntasse a minha opinião sobre como ele quer conduzir as coisas, suspiro em alívio, pois saber que Sam esteve auxiliando ele de alguma forma significa que Seth se importa de verdade, a ponto de me manter confortável acima da sua própria vontade.

- Isso é bom... tudo bem para você, certo?

Mais um aceno.

Sinto meu corpo se inclinar em sua direção e inverto o movimento para me sentar no chão, minha movimentação faz ele se aproximar repentinamente, congelo no meio do movimento, apavorada com a possibilidade do contato físico, meus olhos procuram pelos dele em alerta.

Como se sentisse meu pânico ele emiti um ganido e retrocede, ficando menor e quase submisso.

Arrependo-me instantaneamente, me encolhendo em resposta, sentindo meu rechaço ricochetear entre nós dois.

- Me desculpe...

Minha voz está apertada e sem fôlego, percebo que o pânico não é meu único inimigo, também me sinto magoada, minha reação brusca causou dor a ele, posso ver em seus olhos, posso sentir vibrando através da ligação.

- E-eu, não sei o que estou fazendo, me desculpe, só quero fazer parar de doer... quero parar de te machucar.

Enrolo meus braços ao redor do meu corpo e tremo, ele espera algum tempo antes de responder, seus olhos ficam baixos e os minutos se estendem enquanto eu percebo emocionada que sua ação significa mais do que é possível colocar em palavras.

Submissão

Não é uma ação comum a um lobo se submeter dessa forma, este é o tipo de devoção que se dá de forma voluntaria, e eu sei que mesmo se forçasse, não a receberia de bom grado, quando se dá dessa forma é necessária toda a honestidade de seu coração.

Uma vergonha fria desliza no meu intimo, ecoando a minha fraqueza, quão ruim eu tenho sido até agora. É como se minha decisão fosse baseada em um vazio, a ideia tinha parecido simples quando desci do carro de Julian e só agi, por quê toda a dificuldade em me comunicar?

Talvez eu fosse mais covarde do que imaginava.

O movimento sútil de Seth me traz de volta ao momento, ele se deita sobre a barriga e esconde o focinho entre as patas, suas pálpebras se abaixando preguiçosamente, essas pequenas ações, tão calmas e simples fazem ele parecer tão dócil em sua forma de lobo, tão confortável em sua própria pele...

Eu sei tão pouco sobre ele que chega a ser injusto evita-lo.

Tenho sido tão injusta...

Com cuidado eu me inclino e sento sobre minhas pernas, arrumando meu vestido ao redor das minhas pernas nuas, quando me acômodo olho para ele e sinto uma vontade forte pinicar os músculos do meu rosto que ficam ao redor da boca, quase sorrio com a forma que ele me observa, pequenas criaturinhas pulam em meu peito fazendo meu coração se encher de calor, mas prendo a respiração e a vontade vai embora.

- Oi.

O lobo gira em suas costas e fica de barriga para cima se balançando de um lado para o outro, sua felicidade se derramando dos olhos dourados, observo encabulada sua reação acolhedora, um modo próprio de dizer “olá”, e percebo que está é a primeira vez que o cumprimento de verdade, meu rosto se aquiesce em vergonha e prazer.

- Você é um entusiasta, não é?

Quando digo as palavras percebo de onde vem o pensamento, a forma como meu cérebro compara inconscientemente Seth com meu amigo Julian, os dois são tão distintos e ao mesmo tempo tão semelhantes em sua alegria inocente.

Ele para de rolar e mexe a cabeça humildemente, e apesar do brilho em seus olhos ser exibicionista sei que ele está apenas sendo sincero, mordo o sorriso pícaro que brinca pelos meus lábios e ergo os ombros, é hora de obter soluções.

- Certo, quero fazer isso direito, então... assinta quando concordar e negue quando tiver uma dúvida, tudo bem?

Um aceno afirmativo, um sim.

- Você sabe que eu não sei nada... – desvio meu olhar, calor subindo em meu rosto, balanço a cabeça para afastar a sensação – não sei muito sobre o que aconteceu entre a gente, na verdade, ainda não sei tudo sobre ser um lobo e o que sei sobre... bem, você sabe, relacionamentos...entre eles... eu não sei nada disso na verdade, pelo pouco tempo que estou aqui aprendi que ver é bem diferente de saber.

Penso em todas as manifestações físicas de carinho e de amor que presenciei entre as pessoas que agora faziam parte da minha vida, a forma como eu sempre desviava a atenção, nas vezes que as ações e emoções se entrelaçavam e se tornavam grandes demais, eu não sabia como me sentir sobre.

Não consigo me imaginar tendo esse tipo de contato, não quando eu sequer podia lidar com um simples contato físico, ainda me sentia esquivar quando um dos meus amigos tentava me tocar, principalmente Julian, apesar de ter melhorado muito.

Olho para Seth com seus olhos dourados perscrutadores e sinto uma aflição crescente com a ideia de ele me tocar, eu mal conseguia me lembrar da sua forma humana...

- Acho que podemos deixar essa parte para outro momento... tudo bem?

Ele assente e desvia os olhos do meu rosto, observando ao redor, talvez estar nesta forma fosse complicado, todos os pensamentos e frases não ditos, parecia vulnerável demais.

- Eu... eu prometo que vou estar pronta, em breve...

Suas orelhas tremem quando ele escuta minha promessa indecisa, os olhos parecem maiores e mais brilhantes.

Ele tem tanta felicidade...

Meu coração se enche e bate mais rápido, posso sentir cada célula do meu corpo implorar, a fome mais forte que eu, estou presa para sempre dentro dos seus olhos, ansiando por sua felicidade, para fazer parte dela, e só percebo o que estou fazendo quando já é tarde demais, meu braço já está estendido e minha mão rodeia o rosto do lobo, meus dedos se afundam no pelo denso cor de areia.

E sinto tudo, tão forte e profundo.

Meu suspiro escapa de forma trêmula e sofrida, sinto meus olhos arderem com lágrimas não derramadas.

É tão bom, tão certo...

É como se algo tivesse acabado de encaixar, como gelo e fogo se encontrado em um chiado ensurdecedor de sentimentos reprimidos, uma corrente me envolve e se aperta ao redor dele, fazendo cada pelo do meu corpo se arrepiar com a estática da ligação.

Mas então, como um estalo, eu vejo, nos seus olhos, uma esperança forte e ensurdecedora, desejosa...

Mais, mais, mais, mais...

E eu não posso, simplesmente não posso dar tudo de uma vez, não consigo.

Afasto-me bruscamente, quebrando o contato entre nós, Seth parece sentir isso fisicamente e retrocede com um ganido, como se eu tivesse acabado de pegar algo essencial e arrancado sem o menor cuidado dele. Uma pontada de dor me faz arfar, sinto sua dor ecoando na minha, sua ausência se fazendo presente, um vazio tomando o lugar da sensação anterior de segurança.

Eu não posso sequer pedir desculpas, minha voz se foi e tudo que há é vazio e dor novamente.

Ele parece mais arredio agora, algo que não se encaixa em sua personalidade vivaz, desvio o olhar quando enxergo sua decepção no dourado de seus olhos de lobo.

Viro meu rosto para o lado e observo a escuridão, a vontade de mergulhar nela e correr para sempre é mais forte do que minha persistência em querer resolver as coisas com Seth. No final, talvez eu goste de sentir a dor da sua ausência, estive tão acostumada com todo tipo de dor, não seria tão ruim voltar para ela novamente.

Então a lembrança me vem, tão clara e crua, a forma como Silver e Erin sufocaram suas dores até virarem cicatrizes doloridas, cicatrizes que sempre estariam abertas, sempre expostas a novos danos, porque elas nunca iriam deixar o orgulho de lado e tentar se curar. Eu estava cansada de contribuir com este tipo de machucado, cansada de me esconder da minha nova realidade, eu precisava me libertar, ao menos de um dos pedaços que faziam a minha cicatriz.

E se eu ia fazer isso, então começaria pela maior, a dor que eu estava infligindo a alguém, que compartilhava algo maior comigo.

- Sei que não estou fazendo certo... eu nem sei o que deveria ser o certo, preciso entender antes de tomar uma decisão.

Deveria ter falado com Sam mais cedo, apesar de que se tivesse pensado duas vezes então não estaríamos cara a cara, aqui e agora, e eu não teria sentido, esse pequeno e maravilhoso momento que aconteceu brevemente entre nós dois.

Nós...

Fecho meus olhos, meu coração se enche de uma nova ternura, respiro fundo e olho novamente para ele, Seth está sentado, seus olhos baixos, evitando qualquer contato visual, evitando me assustar.

Coragem Ayira, coragem...

- Eu não sou uma pessoa que compartilha facilmente... tenho tantas barreiras... mas de uma coisa eu tenho certeza... a cada respiração que dou longe de você, é como se estivesse me afogando cada vez mais... e se eu sofro, você também sofre...

Quando ele ergue seu olhar eu prendo a respiração e me mantenho firme, há uma centelha de esperança crescente nos seus olhos, talvez se ele não fosse tão efusivo eu conseguisse manter minha coragem, mas quando ele olha assim, é como se eu fosse me desmontar em pedaços.

Ele é tão forte, tão esperançoso...

- É tão complicado... não achei que seria tão difícil, acho que preciso escutar o seu lado, você provavelmente tem mais experiência com isso.

A ideia de ele se transformar de volta é assustadora, mas eu não consigo fazer isso sozinha, é bem óbvio, saber sua opinião e entender o significado do imprinting facilitaria essa nova transição.

O lobo bufa e balança sua cabeça de forma efusiva, chega quase a ser cômico, e talvez eu tivesse sorrido se não me sentisse tão aliviada em saber que ele não se transformaria em um homem adulto nu na minha frente, sinto meu rosto corar profusamente.

- Certo, tudo bem.

Ele se deita sobre a barriga e coloca o focinho entre as patas novamente, seus olhos inteligentes parecem me dizer algo, e por um segundo é quase como se eu pudesse ler seus pensamentos, pois sei o que significa: A conexão da alcateia.

- Oh... os outros, faz sentido, vocês compartilham tudo... - sinto um calafrio só de pensar na sensação de estar conectada a eles - é uma forma de comunicação desconcertante, não consigo imaginar ter todos em minha cabeça, vendo... tudo de mim...

Ele sabia o que era a ligação por causa dos imprinting dos seus irmãos, não porque ele tivesse passado fisicamente pela experiência, afinal, o imprinting era único. Devia ser evasivo ter todos aqueles sentimentos e pensamentos amorosos de outras pessoas em sua cabeça, só de pensar já me fazia sentir violada, franzi o cenho e Seth resmungou, ecoando o meu sentimento de desconforto.

- Tem razão, acho que por aquela breve experiência nós já temos uma noção da minha reação a ligação... não posso imaginar quão difícil deve ter sido para você, crescer tendo isto sempre ao seu redor.

Os olhos do lobo se reviram dramaticamente e meu coração dá um pequeno pulo de alegria com sua resposta, ele está sendo tão dramático, e de propósito, como se quisesse me divertir com sua tortura. É bom ver esse lado dele, poder analisar está forma que eu mesma possuo, observar cada detalhe e mudança mais singela, pensar em como eu deveria parecer para os outros quando era loba.

Apesar de haver esse entendimento mútuo dessa forma... por algum motivo, eu sinto que este ainda não é Seth, não completamente.

- Sinto muito... queria que você pudesse falar.

Ele levanta sua cabeça com atenção e suspira lentamente, seus olhos mais sóbrios, como se quisesse dizer que esperaria o quanto fosse preciso até a próxima vez.

Olho para ele e me perco em como é fácil, de como não há toda a aflição que eu imaginava que haveria quando estivéssemos sozinhos, e talvez eu estivesse apenas sendo boba ao criar todo aquele pânico ao redor da ideia de deixar ele entrar na minha vida. E mesmo não sendo difícil, ainda posso sentir, lá no fundo do meu estômago, um nervosismo borbulhando com a perspectiva de ver ele em sua forma humana, de conhecer a sua voz... de tocar nele novamente.

Solto uma respiração trêmula e meu rosto cora com os pensamentos secretos.

- Sim... da próxima vez.

O lobo assente calmo e sinto a necessidade de me por de pé, tendo o maior cuidado possível eu me levanto, observando ele o tempo todo, o lobo espera quieto até que eu esteja de pé, e então também se levanta, e ver ele assim me faz suspirar, porque ele é grande, maior do que minha forma humana, e todos aqueles tons arenosos se fundindo e se misturando com a escuridão da noite.

Seu cheiro...

E então sou engolida pela sensação.

 

Terra molhada

Eu corro sem parar, mas não há medo, apenas essa liberdade gigantesca, essa vontade de ser e querer que impulsiona todos os músculos das minhas pernas, me levando para além, para um lugar onde nunca estive.

Sinto a macies de mãos escuras e fortes, como terra molhada, a sensação de ser envolvida ecoa na minha pele, me afundando na familiaridade do toque á muito tempo esquecido.

 

Chuva

Eu nado rápido, e não estou me afundando, só há a calmaria de se sentir cercada por algo maior que eu, essa imensidão que me faz sentir que mesmo só sempre estarei rodeada por um universo de elementos essenciais para a minha sobrevivência.

As pequenas gotas deslizando pelas minhas mãos, gotículas frias fazendo cócegas em meus dedos, quão suave é o tamanho desse acontecimento natural, essencial para a existência de todo o mundo.

 

Fogo

Meu coração bate forte com cada momento, cada toque, sentindo profundamente, até que tudo me consuma como se minha alma estivesse queimando com todo o amor que vem até mim.

Seu abraço enfatizando a minha fragilidade, aquecendo-me, me protegendo de toda e qualquer coisa que possa me fazer mal, seu calor me rodeando, uma forma física e infinita de amor.

 

Vento

A sensação de finalmente pertencer, sem medo e sem dor, apenas a libertação escorregando e fluindo por cada membro, lavando toda a tristeza que me banhou um dia.

Sua voz me rodeando como a brisa fria, as notas suaves fazendo meus olhos queimarem, cada palavra reafirmando o sentimento verdadeiro da canção, a emoção que seus olhos azuis transbordam quando ela me toma do colo de meu pai e sorri, seu sorriso partindo meu coração.

 

Meu peito queima, como se meu sangue estivesse queimando meu corpo, fecho os olhos com força, lágrimas pinicando enquanto tento segurar os últimos fragmentos da lembrança, desse frágil pedaço do meu passado.

O ganido de confusão de Seth me faz suspirar, e sentindo sua angústia eu respiro novamente e deixo ir embora, deixo porque ainda me pertence, deixo ir porque agora eu tenho um presente e talvez, se eu lutar um pouco mais, talvez um futuro.

- Obrigada...

Posso ver confusão em seus olhos, mas devido as circunstancias não há possibilidade aberta para questionamentos, e mais uma vez nos temos mais perguntas para mais tarde.

Mais tarde...

Não posso mais ficar longe dele, não quando senti isso, não quando ele me faz lembrar de quem um dia eu fui, como fui cega... depois de tudo, ainda havia esperança, Seth era ela, e ele esteve aqui o tempo todo. Talvez essa seja a coisa mais certa na minha vida, o fato de que ele é uma parte essencial da pessoa que eu tenho descoberto ser, e se eu continuar o afastando nunca vou me conhecer o suficiente, ou aceitar essa vida, essa linda segunda chance que foi me dada.

- Você acabou de me dar algo lindo e sequer tem noção do tamanho disso...

Ele apenas me encara, o lobo me olhando no fundo dos olhos, sua respiração quente soprando até mim.

O céu escuro parece perder um tom a mais e percebo que já é um novo dia e a madrugada começa a deslizar pela floresta, respiro fundo e deixo o cheiro dela invadir meus pulmões mais uma vez, limpando qualquer agonia que esteve ali antes, saboreando esses últimos momentos de paz.

- É tarde.

Eu sei que tenho que ir e ele também sabe disso, mas não me movo, só continuou olhando ao redor, tentando prolongar o momento, quando olho novamente para o lobo sinto meu coração aquiescer, ele tem os olhos fechados, o focinho se esfregando nas patas, e é quase como se ele estive suspirando de contentamento, apreciando o momento de sua própria forma.

Eu acho que não posso mais ficar longe de você...

O pensamento é tão forte, dolorido e cheio de saudade, como uma força maior, minha pele se arrepia e os olhos de Seth se abrem, mais dourados do que nunca, me encarando com a mesma intensidade que o meu pensamento, correspondendo ao sentimento na mesma frequência.

- Eu vou ver você em breve... mas, Emily sugeriu algo, um almoço, imagino que ela não vá se incomodar com mais um convidado, afinal, você é praticamente da família... Nós podemos nos ver, mas acho que é melhor se acontecer perto de Sam, e dos Cullen, você se importa?

Ele faz um breve gesto frenético, mais uma vez deixando sua alegria se derramar nas ações, o brilho do seu olhar me faz corar, e desvio meu olhar assentindo em concordância.

Com cuidado eu me levanto e espero até que ele faça o mesmo.

- Eu vou ver você, em breve, prometo.

Com um ultimo olhar eu me viro e começo a caminhar em para casa, meus pés afundando na terra, é quase como se meu corpo tivesse o dobro de seu peso, e a sensação é deliciosa, o sentimento de conexão imenso. A sensação persisti por todo o caminho e por isso eu sei que ele está a espreita, me acompanhando, olhando por mim.

Não sei explicar, mas pela primeira vez na vida, eu me sinto completamente segura e sei que é por isso, que deixo o sorriso surgir, calmo e languido enquanto minhas mãos se estendem e varrem entre as folhas da vegetação.

Mesmo longe da fronteira eu posso sentir seu olhar me protegendo, e quando estou em frente de casa ele para tempo o suficiente para que eu pegue as minhas coisas, quando subo o primeiro degrau eu sinto, o ar começa a mudar, ficando mais leve e fino enquanto a sensação dentro do meu peito cresce, me viro e olho para trás.

Ele se foi...

Mesmo na tristeza desse pensamento, na sua ausência, na sua distancia, eu sei, que foi real, que ele esteve aqui e que em breve estará novamente.

Sentindo-me mais uma vez incompleta eu opto por agir com indiferença, guardo meus pertences na bolsa e passo a alça atravessada no meu peito, desço as escadas e me afasto o suficiente para correr e pegar impulso, usando a árvore mais próxima eu escalo com destreza e a uso como apoio para saltar em direção à sacada. A estrutura geme com o meu peso, e fico tensa ao perceber que não fui tão sorrateira, anunciando a minha chegada em alto e bom som para os oito vampiros da casa, o que não devia me incomodar de todo, nesta casa, você sempre está sendo esperado.

Sinto sua presença assim que me viro em direção ao quarto, seu cheiro sendo propagado pelo ar, cansada eu apenas fecho as portas e abaixo as cortinas, me viro para Bella que está sentada na minha cama analisando os tecidos dispersos em cima do edredom. Aparentemente os dons domiciliares de Rosalie e Alice não se aplicavam a arrumação, eles eram melhores em espalhar e retirar as coisas dos lugares, ou era isso ou elas queriam me dar uma lição sobre responsabilidades.

Ela parece tranquila, suas narinas se dilatam suavemente e seu cenho franze, seus lábios se contraem nos canto em diversão.

- Me desculpe por chegar tarde.

- Não se preocupe com isso, não é como se você fosse acordar a casa toda por estar entrando as escondidas.

Bella me dá um olhar e segura o sorriso enquanto faz um gesto para que eu me aproxime, deixo minhas coisas jogadas mais uma vez e caminho até a cama, um comichão de irritação subindo pelos meus braços quando percebo que deixei uma trilha de pegadas de lama pelo meu caminho.

- Eu não devia sair por tanto tempo sem avisar, não achei que...

- Ayira, você estava segura, todos nós podemos afirmar isso, seu cheiro foi trazido pelo vento.

Aliso a saia do meu vestido nervosamente e não consigo olhar em seus olhos quando sussurro a pergunta.

- Alice está brava?

Ela faz um barulho irônico e levanto o olhar, seu rosto bonito se franzido.

- Digamos que o instinto materno está crescendo cada vez mais dentro dela.

Com um suspiro de frustração começo a dobrar as roupas que estão espalhadas, colocando os vestidos de volta nos cabides, é reconfortante me ocupar com algo tão simples e domestico, a concentração na ação faz com que meus pensamentos fiquem quietos e depois de um tempo percebo que Bella está me ajudando a guardar tudo no closet. Quando terminamos parece que não há mais nada com que se distrair e ficamos apenas paradas no meio do quarto, observando minhas pegadas de lama espalhadas por todo o chão em diferentes tons, escuros e então cada vez mais claros, eu provavelmente receberia um sermão.

- Onde encontro produtos de limpeza?

- Não se preocupe com isso agora, por que você não toma um banho enquanto eu preparo uma xícara de chá?

- Tem certeza?

Vejo suas narinas dilatando novamente e percebo envergonhada que talvez esteja com o cheiro de Seth, é tão estranho que isso não me incomode quando para os vampiros o odor é irritante.

Rosalie e Emmett deviam estar resmungando pela casa a essa hora, meus lábios se abrem sobre os dentes e minhas bochechas pinicam.

- Claro, deixe seu vestido em um dos cabides.

Vou até o closet e retiro minhas roupas, deixando o vestido em um cabide apenas de roupão eu volto para o quarto e Bella está sentada na cama, o chão está brilhando de limpo, nenhum sinal de pegadas.

- Como você...?

Ela levanta uma sobrancelha de forma cínica e eu me calo imediatamente.

- Segredo de vampiro.

Às vezes queria ser mais vampira do que todas as outras coisas, ser híbrida tinha suas desvantagens, eu sempre seria um terço a menos do que os vampiros e os lobos, sempre um passo atrás, principalmente quando se tratava da velocidade.

- Lave o seu cabelo, vou penteá-lo.

Meus olhos queimam com lágrimas de emoção, Bella vê isso em meu rosto,  quão comovida estou com suas palavras, caminhando em minha direção ela para a minha frente, me sentindo mais criança do que nunca eu encaro ela de volta, minha vulnerabilidade preenchendo o espaço do quarto.

Com um sorriso triste e maternal ela me dá um beijo carinhoso na têmpora.

- Vou fazer um pouco de chá.

Quando ela sai eu faço o que instruiu.

Decido usar a ducha, deixando a água escorrer pelo meu cabelo enquanto desfaço as traças, bloqueio todos os acontecimentos do dia e deixo apenas o som da água preencher os meus pensamentos, eu tiro todas as camadas nas quais fui vestida, deixando apenas meu próprio eu. Assim que termino vou para o closet e escolho uma camisola branca de linho, e então volto para o quarto e me sento no meio da cama à espera.

Bella não demora muito para voltar e me entrega uma caneca quente de chá de camomila, dou um pequeno gole enquanto ela pega uma escova e se senta as minhas costas, começando a escovar meu cabelo úmido.

Seu cabelo é tão macio... como plumas de asas de corvos...

Estava tão acostumada a bloquear minhas lembranças de antes, que fiquei desestabilizada com a delicadeza dessa em particular, deixar que ela passasse através do muro que prendia a escuridão significava que talvez eu pudesse superar isso, aos poucos. Compartilhar esse momento maternal com Bella era importante, pois eu podia sentir seu toque suavizar as bordas escuras ao redor das minhas antigas lembranças, podia sentir a sua bondade lavando toda a maldade para longe.

E sei que isso não é algo aleatório, não, isso era Seth, o que sua presença me deu de volta hoje é o que fez minha mente se abrir, e se eu pudesse ficar mais perto dele, então mais lembranças poderiam ser limpas.

Minha vida não precisava ser construída através das sombras do meu passado.

Enquanto escova o meu cabelo Bella relembra o passado, de como ela adorava escovar o cabelo de Renesmee, sempre se surpreendendo com a cor que lembrava tão bem a dos fios de cabelo do pai, ela diz que sempre viu mais dele nela do que de si mesma e em como isso só aumentou o seu amor enquanto a via crescer. E mesmo que me sinta feliz não consigo controlar o cinza que recai sobre os meus pensamentos, pois estive deixando isso para trás, confiando nas circunstancias estáveis dessa nova vida, tentando acreditar que no final tudo estava bem... mas não estava, eu podia escutar isso na voz de Bella, podia sentir em seu toque, ela era mãe, e as mães sempre sentem seus filhos.

Eu me afasto dela num movimento preciso e me viro, seu rosto revelando muito, sinto um frenesi por respostas e deixo isso explicito no meu rosto.

- Vocês os acharam?

Ela fica quieta por um momento e prendo minha respiração, minha ansiedade contida.

- Acho que quanto mais longe você fica, mais claras ficam as visões de Alice, parece ter algo haver com a influência dos seus poderes, fica mais leve com a distância.

Faz sentido, e a culpa vem com força quando percebo que estive reforçando minha influência nos últimos dias e sequer tinha pensando no impacto sobre os dons de Alice. Pisco chocada e abraço o meu corpo, meus olhos se afastando de Bella.

- Eu não sabia... estive bloqueando o lobo, talvez isso tenha afetado Alice, não consigo controlar, não achei...

A cama afunda quando Bella se aproxima, suas mãos desvencilhando meus braços a procura das minhas mãos.

- Ninguém está culpando você Ayira, vai haver muito tempo para aprender a controlar seus poderes, não se preocupe.

Sei que Bella quer me confortar, que quer me fazer ser menos pessimista, mas não há forma que seus olhos possam esconder que algo não está bem.

- Estão a salvo?

- Sim, estão sim.

Mentiras...

- Por enquanto.

Me levanto, pois preciso de espaço, de ar, preciso ficar só.

- Não faça isso querida.

É como se ela soubesse que estou tentando me isolar e me afastar novamente, como se pudesse sentir minha culpa, fecho os olhos com força e mordo o lábio inferior para evitar o soluço.

- Não consigo entender, por que o preço é tão alto? Minha liberdade vale mais que a segurança dos meus amigos?

- Eles não estão em perigo Ayira, estão bem e a salvo.

Me viro tremendo com o esforço de conter minha raiva.

- Mas não estão aqui... eles não estão aqui Bella.

Ela espreme seus lábios numa linha fina e tensa, seus olhos se mantendo nos meus, uma eternidade se passando entre nós enquanto o peso das minhas palavras traz a realidade a tona.

Eu solto minha respiração e com ela uma única lagrima solitária escapa, deslizando pela minha bochecha, olho para as minhas mãos e sinto uma solidão tão grande, um sentimento de estar sozinha no mundo.

Queria que Seth estivesse aqui...

Pensar assim só faz me sentir pior, dolorida.

- Não é justo que para ser feliz eu tenha que infligir sofrimento.

- Pare de dizer isso.

O sermão em sua voz causa um peso em meus ombros.

- É a verdade.

Ela segura meus ombros e me sinto fraca, inútil.

- Não, não é, você não merece sofrer nenhum minuto sequer há mais nessa vida, você é merecedora de felicidade Ayira, você vale a pena e nós escolhemos ajuda-la por que você é importante, nós sabemos disso e Renesmee e Jacob também sabiam assim que a viram.

- Eu só quero que eles estejam aqui.

- Eles vão, eu prometo que eles vão.

Ela me abraça e eu ignoro o frio, ignoro a dureza, só quero abraça-la de volta com a mesma força, quero sufocar meus medos, meus pesadelos, minhas sombras, quero que elas se afoguem no abraço de Bella. Como uma criança ela me pega no colo e me leva até a cama, onde ela coloca minha cabeça em seu colo e acaricia meu cabelo, me deixando chorar toda a minha angústia.

Depois de um tempo tudo que posso sentir é o seu toque, me sinto adormecer aos poucos, mas a consciência me traz de volta quando sinto o seu toque mudar.

- Então, você vai me contar sobre a sua noite?

- Eu descobri muito sobre a natureza humana, descobri muito do que há neles que também há em mim.

Não estou vendo seu rosto, mas posso sentir o seu sorriso no ar.

- E essas descobertas foram boas ou más?

Penso na pequena alegria que vivenciei com os meus novos amigos, e então em como a felicidade só alcança pequenos picos por vez, com intervalos constantes de infelicidade, uma dependendo da outra. E aprender essa nova forma de viver é de certa forma prazerosa, viciante, diferente de sempre ter infelicidade, que foi a forma como eu aprendi desde cedo.

- Foram tristes, reveladoras e claras... mas num todo, boas, esclarecedoras.

- Bem, ao menos nós sabemos que você está se tornando uma adolescente normal e melancólica.

Dessa vez consigo identificar o humor e aprecia-lo, me pego rindo junto a Bella, e é bom, divertido, dividir uma piada entre outra pessoa é familiar, intimo. E perceber que minha intimidade com ela nos permite compartilhar isso, faz com quem eu queira contar mais, talvez, tudo.

Um silêncio não tão descontraído surge entre nós e percebo que é proposital, Bella está esperando que eu tome o próximo passo.

Respiro fundo, e fecho os olhos com força, deixando as palavras saírem num suspiro nervoso.

- Eu tomei uma decisão hoje à noite.

Ela não faz perguntas obvias, por que faria? Quando todos os Cullen parecem saber mais que eu sobre o que está acontecendo comigo mesma.

- Você se arrepende?

A pergunta é mais direcionada a minha cautela do que ao assunto em si.

Eu me arrependo?

Lembro do momento em que toquei Seth, que toquei seu lobo.

É tão bom, tão certo...

É como se algo tivesse acabado de encaixar, como gelo e fogo se encontrado em um chiado ensurdecedor de sentimentos reprimidos, uma corrente me envolve e se aperta ao redor dele, fazendo cada pelo do meu corpo se arrepiar com a estática da ligação.

- Não, não me arrependo.

Sua mão mergulha entre as mechas do meu cabelo e acariciam até as pontas.

- Qual o problema?

O problema sou eu, estou acostumada com o pior, em sempre ter noticias ruins ao invés de boas, em sempre viver na desgraça e não no jubilo.

- Isso, com Seth, o que há entre nós... é algo bom... ele é bom... estou apavorada.

- Se abrir por vezes é apavorante, e fazer isso para se mostrar a alguém é mais ainda.

Meu maior medo era me abri para ele, por que se eu mostrasse todas as minhas nuances de sombras, se eu fizesse isso com ele, então estaria manchando toda a sua pureza, toda a sua alegria e esperança. Eu não queria infligir mais tristeza na vida dele, na de mais ninguém, se houvesse outro caminho já teria seguido ele há muito tempo, teria me enclausurado longe o suficiente para não afetar a vida de mais ninguém.

No entanto, essa não é a minha realidade e eu acabei de descobrir que devo continuar lutando, e esse tipo de luto não é sobre morrer, é sobre viver, por que não estou mais lutando apenas por mim.

- Eu não quero me mostrar, mas se não fizer, vou machuca-lo e isso vai doer, muito, em mim.

- Se não fosse assim, não valeria a pena, sem dor não há  o amor.

Amor...

Um arrepio de medo percorre o meu corpo e Bella para com o carinho, me sentindo desconcertada eu me sento, empurrando para trás das orelhas o cabelo que cai em meu rosto.

Os olhos dourados de Bella me analisam.

- Não sei se o amo, na verdade, nunca senti algo perto disso – brinco com meus dedos e reflito sobre o amor infinito que sinto pelos meus pais, ou a forma que eu amo cada membro do clã dos Cullen, mas nada disso chega perto do amor do qual ela falava, o amor romântico, paixão – só... não posso ficar longe dele, não acho que consiga mais evitar... – mordo o interior da minha bochecha para ignorar a dor aguda que surge quando penso nessa – é tão difícil, eu não sei nada sobre isso.

- Imprinting?

- Sim, isso também.

Ela assente, e então olha para longe pensativa, paro de mexer minhas mãos.

- Eu não diria que sou a pessoa certa para ajudar, o pouco que sei não ajudaria muito.

Não há outra alternativa, tenho que ir direto a fonte: o bando.

Sinto um calafrio evasivo e sacudo meu corpo para me livrar da sensação.

- Por que isso acontece?

- Porque a vida acontece, Ayira. Nós vivemos em um mundo mágico, onde é possível encontrar a sua alma gêmea de maneiras infinitas, a forma como o lobo se liga ao seu amor é apenas mais intensa, mais sagrada, de alma para alma.

- Queria que não fosse tão complicado.

- A vida não é fácil, se fosse, então a morte seria difícil.

Com um beijo tão leve quanto uma pluma no topo da minha cabeça ela diz boa noite e me deixa sozinha.

No dia seguinte chego mais cedo na escola, o estacionamento não está nem pela metade, o atraso é algo descolado entre as crianças humanas, mesmo assim sinto alívio em ser a única andando pelo estacionamento, já é difícil demais estar entre tantos deles, imagine ter que andar no meio deles enquanto todos me encaram como se eu fosse uma modelo na passarela. Estou organizando meus livros no armário quando sinto sua aproximação, e me preparo, pois sei que com Julian é melhor esperar pelo diferente do que pelo comum.

Ele não me decepciona.

Com um beijo estalado na bochecha ele se anunciou, controlo a reação automática de tensão do meu corpo e olho para Julian, seu grande sorriso ofuscando o meu desconforto.

- Bom dia, aluna exemplar!

Seu cabelo está úmido do banho matinal, o loiro escuro quase que completamente castanho, ele parece todo fresco, a pele rosada pelo frio, os olhos brilhantes, as roupas com cheiro de amaciante e de Julian, o cheiro do mar.

- Bom dia, garoto exemplar.

Ele morde um sorriso divertido e covinhas afundam em suas bochechas coradas, absorvo essa reação com interesse, ele se apoia nos armários e me dá um de seus olhares interessados.

- Você acabou de usar meu trocadilho?

Se eu contasse a ele que aprendi a fazer piadas internas ontem a noite ele ficaria chocado.

Guardo um livro que não vou precisar e paro de olhar para o seu rosto brilhante, não estou surpresa em encontrar ele aqui, geralmente Erin consegue ser mais pontual que qualquer um, mas não vou culpar ela por ser atrasar depois do que aconteceu em sua casa.

- Sim, parece justo, visto que não sou a única a chegar mais cedo na escola.

Parei chocada com meu tom de voz salpicado de ironia, olho para ele rápido peço desculpa com os olhos, Julian joga a cabeça para trás e gargalha abertamente, enfio minha cabeça no armário e finjo estar procurando algo, esperando que o rubor de vergonha suma rapidamente.

- Você está se soltando.

Fecho os olhos e respiro fundo antes de fechar a porta do armário e olhar para ele a procura de explicações.

- Isso é ruim?

Ele controla sua diversão, seu rosto ficando suave, e fico agradecida que ele não esteja brilhando tanto.

- Não, é bom, gosto de me surpreender com você.

E lá está novamente, aquela expressão inquietante, o olhar profundo me analisando, ele estende a mão e coloca meu cabelo atrás da orelha, sua mão se demorando.

Pigarreio nervosa e ajeito a alça da bolsa no meu ombro, o movimento o faz retroceder.

- Você está me elogiando?

Ele dá um de seus sorrisos brincalhões e fico corada.

- Eu sou mais óbvio que isto senhorita Hale.

Ele tem razão, e isto só está ficando mais evidente a cada dia.

Troco meus livros de braço e analiso Julian, ele ainda tem um pouco daquela expressão em seu rosto, mas está sendo ele mesmo, estou prestes a dizer que tenho que ir quando vejo Erin vindo em nossa direção enquanto outros alunos começam a chegar, ela se destaca, seu cabelo preso num rabo de cavalo, no rosto óculos diferentes, de armação grossa e roxa, destaca seus olhos violeta.

Sorrio abertamente quando vejo que não há nenhum livro entre seus braços, e fico emocionada ao vê-la sorrir de volta, o sangue se acumulando em seu rosto, cor de rosa, ela parece uma criança.

- Olá estranhos.

Antes que eu possa cumprimenta-la Julian surpreende a nós duas quando pega ela num grande abraço de urso e gira em um semicírculo, Erin solta um gritinho e vejo as outras crianças humanas observarem nossa pequena comoção.

- Bom dia aniversariante!

- Ah caramba, meu aniversário já acabou Julian!

- Isso não significa que você ainda não seja a birthday girl do momento Erin.

Ele a devolve ao chão novamente e ela alisa suas roupas nervosamente, um olhar desconfiado se movendo entre Julian e eu.

- Bem, se eu soubesse que iria ser tão bem recebido teria chegado mais cedo.

Olho as horas no meu relógio de pulso e franzo o cenho.

- Você não está atrasada.

Sua risada me faz olha-la, tanto ela quanto Julian tem essa expressão engraçada, comprimo os lábios

- Oi.

Ela abre um grande sorriso e dá um passo incerto a frente, levada pelo meu instinto eu abro os braços e os aperto ao redor dela, o abraço é um pouco tenso, tudo culpa minha, e é rápido, não o suficiente para deixar de notar seu cheiro doce.

Talvez eu vá caçar mais tarde, está ficando difícil respirar ao redor deles.

- Ei, tudo bem?

Ela parece genuinamente preocupada quando me afasto rápido demais.

- Sim, e você?

- Estou bem.

Sinto a verdade em suas palavras, e sei que ela está bem se sentindo melhor.

O fluxo de alunos começa a ficar maior e o primeiro sinal toca, hoje tenho aula com Erin, olho para ela e fico feliz com o olhar cúmplice que ela me devolve.

Julian se empertiga agitado e sorri grandemente para nós.

- Tenho que encontrar a treinadora, vejo vocês no almoço?

- Claro.

Erin sorri animada e eu assinto solenemente.

- Nos vemos depois.

- Ok então, até mais garotas, não façam nada que eu não faria.

- Isso não faz muito sentido Julian.

- Essa é a intenção Erin.

Ele beija o topo da cabeça dela e assisto seu rosto ficar corado os olhos se estreitando, então Julian se vira na minha direção, seus olhos procuram os meus, a intensidade me deixa mais uma vez sem saber o que fazer, então desvio o olhar primeiro e não me afasto quando ele segura minha mãe e dá um aperto antes de ir.

Erin tem essa expressão desconfiada, ignoro e faço sinal para seguirmos o fluxo de alunos em direção à aula, assim que estamos no meio da muvuca ela começa a falar, sua voz cuidadosa, mas cheia de insinuação.

- É impressão minha ou o garoto de ouro está mais afeiçoado que o normal?

- Julian é uma pessoa naturalmente afetuosa, você não acha?

- Sim... mas o tratamento com você é diferenciado.

Estreito meus olhos e finjo que não entendi.

- O que você quer dizer?

Ela está olhando na minha direção, posso sentir o peso de sua atenção.

- Você jura que não percebeu?

- Nós somos amigos.

- Você realmente não tem habilidades sociais, né?!

Olho para ela e percebo que está caçoando, seu sorriso quase se rasga nos cantos enquanto ela segura a risada, balanço a cabeça incrédula e ela finalmente solta uma gargalhada.

- O que você tem?

Ela continua rindo quando entramos na sala.

A primeira aula é divertida, Erin é tão dedicada quanto eu, passamos um bom tempo discutindo as questões, o professor é cheio de elogios quando somos as primeiras a entregar o exercício completo, ele nós libera mais cedo e seguimos separadas para aulas diferentes.

No horário de almoço eu encontro Erin na nossa mesa, Julian aparece por trás e puxa minha cadeira como um perfeito cavalheiro, franzo o cenho e me sento, ignorando o olhar sarcástico de Erin, Julian começa a falar animadamente com a albina, eles parecem estar se divertindo ao descobrir coisas que tem em comum, eu no entanto percebo que está paz não parece certa, não se levar em conta com o que estou acostumada.

Falta algo... falta Silver.

- Onde está a Silver?

A conversa morre no meio de risos, olho para Julian, mas ele só parece encabulado, como se tivesse percebido só agora que a amiga não está aqui, diferente de Erin, que caí num silencio tão vazio quanto á morte.

- Ah, sim, pois é, ela acordou se sentindo doente está manhã, a mãe dela ligou para a escola e pediu dispensa por alguns dias.

Nunca pensei que sentiria o cheiro de mentira em Julian, sinto uma pontada de irritação ao perceber que nem toda a alegria que há nele pode o excluir dessa humanidade comum. Não quero ver isso então escolho olhar para Erin que está completamente muda, seu olhar perdido no vazio, fingindo não escutar nada, mas claramente incomodada com a menção a Silver.

Não conversamos depois disso, Erin fica calada enquanto Julian tenta nos animar contando sobre os preparativos para sua próxima competição, depois de algum tempo ele só para e comemos em silêncio até a próxima aula.

Tenho mais uma aula com Erin, descobrimos que a professora faltou e temos um horário vago.

- Você quer ir para a biblioteca?

Pergunto apenas para escutar sua voz, é estranho ficar tanto tempo ao seu lado sem escutar um de seus monólogos, Erin está estranhamente obtusa hoje. Ela levanta o rosto surpresa pela minha sugestão e sorrio quando me lembro de quando ela fez o mesmo convite quando nos conhecemos, seu cenho franze quando encara meu sorriso, acanhada eu paro de sorrir e coloco o cabelo atrás das orelhas só para ter o que fazer com as mãos.

- Tá... pode ser.

Consigo adiantar meu dever de casa, o silencio ajuda, quando sua amiga falante decidi parar de falar de repente há muito para se fazer, além do mais, é uma coisa boa ter toda sua lição de casa feita antes do prazo, Carlisle ficaria orgulhoso com meu comprometimento involuntário.

Com o silencio vem à ansiedade, aos poucos ela traz pensamentos sobre a noite passada, flashes do lobo me olhando no meio da escuridão, bem como a sensação, deslizando pela minha pele como gotas de chuva, me lembrando de como é bom estar com ele, de como eu quero estar perto dele o mais breve possível.

Fecho os meus olhos e me transporto mais uma vez para o momento, sentindo a maciez do seu pelo grosso sob a minha mão, o calor irradiando desenfreado aquecendo a minha pele fria, sua presença devolvendo o meu ar, me prendendo a terra novamente, juntando dois pedaços de mim.

Seth...

- Ok, eu não sou tão boa assim com o tratamento do silêncio.

A voz afobada de Erin quebra meu momento e me faz abrir os olhos, tudo em relação á Seth volta para o seu lugar, o lugar onde eu mantenho toda minha angústia quando ele está distante.

- Tudo bem?

- Não, tenho certeza que não tem como ficar tudo bem depois da vergonha que passei na frente de todo mundo ontem, é meu dever como adolescente em progresso me rebelar contra as circunstâncias da minha realidade, isso quer dizer: ficar com muita raiva da minha mãe masoquista.

Bom, é um começo, ela já está refletindo no meio das frases novamente.

- Enfim, não é como se eu pudesse reclamar agora, visto que esse comportamento já está acontecendo há muito tempo, só não esperava uma explosão tão repentina, foi meio como ter um dejavu, só que mais humilhante, pra mim, é claro.

Ela não ia falar, por que se falasse o nome de Silver então iria mostrar quão chateada estava, era bem clara a forma como ela estava se esquivando de menciona-la.

- Você não precisa se sentir dessa forma.

- Eu sei, é tão injusto que ela ainda tenha tanto controle sobre mim!

Sua indignação saiu mais alto que o normal, chamando a atenção da bibliotecária que aparece por trás de uma das estantes e nos reprende com um olhar adulto e responsável, Erin encolhe os ombros e pede desculpas apenas mexendo os lábios.

- Deus... eu estou tão pilhada, que vergonha.

- Se você deixar que isso te incomode então vai dar poder a ela.

Como se eu fosse perita para lhe dar este tipo de conselho, eu era a pessoa mais fraca quando se tratava de deixar as pessoas terem poder sobre os meus sentimentos.

Minhas palavras não tinham força para mim. Mas, pareciam funcionar para Erin.

Respirando fundo ela endireitou seus ombros e me deu um olhar determinado.

- Você tem razão, não vou deixar ela me atingir, sou melhor que isso, e vou provar comendo um grandessíssimo e açucarado pedaço de bolo, dane-se não comer sobremesa antes do jantar!

Mais uma vez esperei a bibliotecária aparecer, mas dessa vez usei minha influência, lhe dando um sorriso angelical que a fez piscar confusa e então sorrir de volta antes de ir embora.

- Uau, você é mesmo boa com adultos.

- É um dom.

Literalmente, ela nem imaginava.

- Bom, depois que vocês foram embora nada muito emocionante aconteceu, eu não tinha forças para protestar e meu pai não parava de vir me ver durante o resto da noite, é bem difícil convencer um adulto de que você não está entrando em depressão no meio de uma crise existencial quando sua mãe parece estar soltando malditos rojões para que isso aconteça.

Ela abriu um pequeno pote e me ofereceu uma colher de plástico rosa, então pegando um grande pedaço com a própria mão ela o mordeu, cobertura se espalhando em cima do seu lábio superior.

- Você tinha que ver a cara de pau dela hoje no café da manhã, nos ignorando como se fossemos invisíveis... Deus do céu, aquela mulher é tão infantil às vezes, por favor! – ela fala de boca cheia, só mordendo mais pedaços, seus dedos lambuzados de rosa – Eu sou a criança e sequer consigo me sentir digna agindo de forma tão baixa, por que, bem, meu pai não merece esse drama depois de se dedicar tanto para fazer o aniversario mais perfeito do mundo!

- Você gostou?

Ela engole com dificuldade, um sorriso rachando em seu rosto, seus olhos se iluminam.

- Você tá brincando?! Superou todas as minhas expectativas, foi incrível, não consigo nem explicar, faz muito tempo que não fico feliz em comemorar meu aniversario, e olha que eu estive refletindo por muito tempo sobre a possibilidade de ainda estar viva até os dezesseis.

Eu também costumava pensar que não conseguiria chegar a essa idade, antes, mas não fazia sentindo me sentir segura, tecnicamente eu tinha seis anos de idade, de acordo com o calendário de crescimento humano.

- Fico feliz que você teve um bom momento.

Como um pedaço de bolo e observo seu rosto à procura de algum sinal de que ela ainda tem pensamentos tão sombrios sobre vida e morte, mas só encontro sua alegria, talvez eu esteja paranoica, mas não custa nada ficar de olho.

- Oh, agradeça a sua mãe depois pelo presente, foi o melhor de todos, não consigo parar de toca-lo, na verdade dormi abraçada a câmera.

Ela cora profundamente e eu sorriu divertida, ela ri baixinho com sua boba confissão.

- Ela vai gostar de ouvir isso.

Ela aperta os lábios e para de comer, seus olhos me analisando, uma centelha brilhando mais intensa em suas íris violeta.

- Você parece realmente bem hoje.

Como mais um pedaço do bolo e então abro minha bolsa procurando um lenço, entrego para ela e sorrio.

- É o açúcar.

- Ah claro, as maravilhas do açúcar!

Ela ergue o lenço como se fizesse um brinde e depois começa a se limpar.

- Na verdade, estou me sentindo bem, ontem foi maravilhoso.

E foi, comemorar com Erin, Silver e Julian foi incrível, não achei que poderia me sentir dessa forma, compartilhar algo tão bom, sem sofrer nada antes disso.

-Será que Silver está realmente doente?

Ela se questiona em voz alta, como se seus pensamentos criassem voz própria, preocupação afogando suas palavras, comprimo os lábios e espero que ela continue, mas ela percebe seu devaneio e fica agitada.

Lá está o silencio novamente, e com ele a minha ansiedade volta.

Ficamos o resto do tempo caladas, e quando é hora de ir embora me sinto aliviada, me despeço dela rapidamente e fico mais agitada com a forma que ela apenas assente e faz um sinal de “até mais”.

Corro pro meu carro e não me dou o trabalho de me preocupar quando faço uma manobra rápida e ágil ao sair de ré, os pneus cantam, mas antes que isso se torne uma situação eu já estou indo embora.

No meio do caminho escuto o som de notificação no meu celular e vou para o acostamento para estacionar, ligo a seta e vasculho minha bolsa atrás do aparelho, na tela há uma mensagem de um número desconhecido, fico tensa imediatamente, assim que abro a mensagem me sinto boba pela reação exagerada.

É Emily, ela diz que pegou o número com Sam, o que não é tão surpreendente, deixo minha desconfiança de lado e analiso o convite na mensagem, ela quer que eu vá jantar com eles, e isso é simpático, não é essa parte que me faz ficar tensa novamente.

Seth vai estar lá também.

Bem, talvez ele não fosse tão paciente quanto eu esperei que fosse, mas não podia culpa-lo, se ele estava tão inquieto quanto eu pela distância não seria eu quem o julgaria, sem contar que o convite de Emily já tinha sido feito há algum tempo, ela só aproveitou uma brecha, aparentemente.

Fecho os olhos e encosto minha cabeça no banco tentando controlar o arrepio de antecipação que sobe por meus braços, meus dedos trêmulos se apertam ao redor do volante.

Seth... Seth... Seth... Seth...

Ofego com a onda violenta de necessidade que sinto, meus ossos estalam, e é como se eu não tivesse controle sobre meu próprio corpo, a transformação nadando nas beiradas, tentando achar uma brecha para romper.

Saio do carro de forma desajeitada e caminho depressa para a as arvores, caio de joelhos assim que estou no meio da vegetação, arfando e me contorcendo em contrações involuntárias, quando acho que vou me romper na minha pele de lobo um jato cor de rosa rompe por minha boca.

O quê.... ?

Vomito mais três vezes, lágrimas enchendo meus olhos, encaro o liquido cor de rosa com descrença enquanto a ânsia faz meu corpo se curvar mais algumas vezes. Limpo minha boca com as costas da mão e me sento sobre meus joelhos, trêmula reflito sobre o que acabou de acontecer.

Bem, eu acabei de ter uma crise de ansiedade.

Fico surpresa, faz muito tempo que não acontece, me levanto fraca e respiro algumas vezes, meu estômago parece mais aliviado, vazio e limpo, olho ao redor e respiro fundo em busca da terra, olho novamente para o vômito cor de rosa e torço o nariz.

-Ah sim, as maravilhas do açúcar!

Uma gargalhada descontrolada rompe através dos meus lábios e me curvo me apoiando nos joelhos, estou tendo mais uma crise, só que de riso, a estranheza da situação só me faz rir mais, lagrimas se acumulando nos cantos dos meus olhos.

Eu acabei de fazer uma piada de humor negro.

Que dia estranho...

Prendo a respiração cessando o riso, tonta de euforia. Erin estava certa sobre os efeitos do açúcar, mas eles podiam ser de mão dupla.

Espano a terra dos meus joelhos e começo a caminhar de volta para a estrada, meu corpo parece flutuar até o carro, me sinto muito leve. Assim que me sento no banco do motorista pego o celular e aviso Emily que estou a caminho, depois ligo para casa.

- Olá querida, está tudo bem?

- Oh sim, estupendamente.

A linha fica muda por um segundo.

- Tudo bem mesmo?

- Sim, só queria avisar que Emily me convidou para jantar, então não vou estar em casa até mais tarde, tudo bem?

- É claro, tudo bem.

Mordo meu sorriso idiota que teima em permanecer e olho para a estrada.

- Vou ver Seth.

- Oh.

Sim... Oh...

- Bem, isso explica.

Sua voz tem um pouco de preocupação.

- Você teve uma visão?

Sinto um calafrio ao imaginar a cena, Alice e Edward compartilhando o meu momento de descontrole humilhante.

- Estava um pouco borrado e... confuso, o usual.

Ao menos uma vez me senti agradecida em repelir os poderes dela com os meus.

- Eu estou bem, de verdade, só tive uma resposta biológica usual... ainda sou metade humana.

Do outro lado da linha, Alice segura o riso, sorrio divertida com seu autocontrole fraco, minhas bochechas pinicando.

- Tem certeza que está tudo bem? Não quer que um de nós vá com você?

- Não se incomode, mas obrigada.

- Tenha um bom momento, querida Ayira, vai ficar tudo bem.

Desligo o telefone e seguro o volante com força.

- Não seja covarde...

Respirando fundo, puxo o freio de mão e engato na primeira, meu pé se solta da embreagem e aperto o acelerador rápido, saio cantando pneus, rápido o suficiente para deixar minha covardia para trás.

Chego lá antes do que esperava.

É como visitar o passado, como se este lugar estivesse impregnado na minha alma muito antes de eu conhece-lo de verdade, respiro fundo e olho ao redor, absorvo as árvores, a terra, o mar... tudo tão perto, tão cru. A vontade de me transformar comicha debaixo da minha pele e estala em meus ossos, um tremor bem vindo e prazeroso da transformação.

Sinto-me tão à vontade com o lobo quando estou aqui...

Fico hesitante dentro do carro depois que o desligo e penso no mínimo duas vezes antes de descer, pois a única vontade que tenho é a de virar as costas e correr por todo o caminho até em casa.

Covarde

Emily é quem decide por mim. Ela desce os degraus de seu deck e vem em minha direção, seu sorriso é uma onda de alivio que aparta a transformação do meu corpo, desço e fecho a porta, caminhando de encontro ao seu abraço, ela ri de regozijo e aperta os braços ao meu redor.

- É tão bom ver você Ayira, como está?

O abraço se desfaz e ainda assim ela mantém um braço ao redor dos meus ombros, é como um porto seguro, me mantenho envolta em sua estabilidade e respiro fundo buscando forças.

- Estou bem obrigado, e você?

Ela sorri e isso faz meus ombros se encolherem ainda mais no seu pequeno abraço protetor, ainda é aterrador se sentir amada e acarinhada, ainda é doloroso ter a realização de que as pessoas se importam comigo.

- Senti saudades, achei que você estava me evitando.

A ultima parte é uma pequena e muito armada alfinetada, e mesmo sabendo que ela está brincando não posso deixar de me sentir culpada por manter tantos obstáculos entre minha covardia e sua hospitalidade.

- Me desculpe se passei essa impressão, precisei de um tempo para resolver algumas coisas.

- Não se preocupe com isso, estou feliz por finalmente te ver.

- Também estou feliz por vê-la.

Ela aperta o braço ao eu redor me trazendo par ao peito e me deixo ir com alivio, minha cabeça se deitando em seu ombro. Ela beija minha tez, é tão materno que me faz fechar os olhos com força, seu suspiro feliz me traz de volta e me afasto para encontrar seu sorriso.

- Venha, me ajude a terminar de preparar a mesa.

- Ok.

Sam está na varanda esperando, é como se estivesse o vendo pela primeira vez, a expressão fechada e desconfiada mantendo meu coração acelerado e meu cérebro nervoso.

Vou em sua direção acompanhada por sua esposa e abaixo meu olhar assim que paro na sua frente, ele ainda é o alfa, e ainda me sinto constrangida, incondicionalmente arrependida pela forma que ocorreu nosso último encontro.

- Oi, Sam.

Ele não facilita, continua parado em seu lugar apenas observando, o peso de seu olhar exigindo que eu o olhe, levanto meu rosto relutante e espero pelo pior, mas encontro nada do que esperava, pois ele está levantando uma sobrancelha com curiosidade divertida, e isso faz meu rosto corar em confusão.

Sam limpa a garganta rudemente antes de dar a ordem num tom de voz rabugento.

- Venha aqui lobinha.

Desarmada pelo afeto em sua voz eu suspiro trôpega e me deixo ser engolida pelo seu abraço, me sinto uma criança pequena e fraca envolta por seus braços e mãos de adulto e por isso fecho meus olhos com força e deixo seu cheiro me envolver. Sam deita sua cabeça sobre a minha e resmunga.

- Você é teimosa demais para o próprio bem.

- Me desculpe.

- Sua teimosia só faz você se parecer ainda mais conosco, não se desculpe.

Me afasto e procuro por seu rosto, um sorriso se abre em meio a carranca e isso faz meu coração se aquecer, a emoção ardendo em meus olhos quando sorrio de volta.

- Senti falta dos nossos treinos.

Sam revira os olhos, prendo minha respiração, estou surpresa com sua reação descontraída e nada comum.

- Também senti sua falta Ayira, é bom vê-la.

Sorrio mais uma vez, mas dessa vez é de alivio.

- Ora, ora, veja isso... algumas semanas longe e ela está tão indisciplinada que agora sorri o tempo todo!

Aperto meus lábios e me deixo sentir a sensação de pinicadas nas bochechas, ele está zombando, mas seu sorriso mostra quão feliz ele parece com minha nova libertação.

- Sinceramente, eu esperava um show de lágrimas, você não imagina quão resmungão esse lobo velho esteve nos últimos dias Ayira.

Nós dois olhamos para Emily, ela tem em seu rosto um sorriso sarcástico todo armado para nos tirar do nosso momento, a expressão armada se quebra quando Sam corre para ela e a pega pela cintura, girando em vários círculos no ar, as risadas e gritos de protesto reverberam através do meu coração.

- Não me provoque mulher.

- Ah sim, que medo do grande lobo mal!

Ele rosna de brincadeira.

- Vamos, me coloque no chão, para dentro, já, vou pegar refrescos.

Me sento a mesa com eles e tomo um grande copo de suco de laranja, Emily faz uma pequena piada quando percebe quão sedenta eu sou ao comparar meu copo com o de Sam, fico encabulada ao perceber que bebemos quase todo o copo só no primeiro gole, e Sam diz que é comum para nós comermos o dobro de nosso peso, a forma lupina requere uma dieta mais fortificada, e eu sendo metade lobo não sou diferente, pegando a deixa conto a eles sobre as milhares de receitas que Esme tem testado nos últimos meses para suprimir minha dieta alimentar.

Quando falo dos Cullen eles são gentis, mandando lembranças e perguntando como tem sido a convivência, conto a Sam que estive treinando sem parar com Jasper, e que bloqueei o lobo desde que interrompemos nossos encontros, deixando apenas minha parte vampira se fortalecer, ele me dá um de seus sermões, mas parece estranhamente satisfeito que eu na tenha treinado como loba com ninguém além dele, me sinto satisfeita com seu orgulho. Depois de muita conversa fiada e vários copos de suco eu me ofereço para arrumar a mesa e Emily fica feliz com a ajuda, Sam também não fica de fora, a sensação de pertencer parece cada vez mais familiar.

Estamos distraídos numa conversa fiada sobre comida quando escuto.

É como ter um déjà vu.

O som da moto se aproximando, fazendo cada pelo do meu corpo arrepiar enquanto a sensação de sua aproximação se torna cada vez mais crescente, paro no meio da ação de colocar o copo de volta a mesa e espero, meus sentidos se preparam, como se estivessem voltando ao normal depois de passar quase uma eternidade em uma zona silenciosa.

Escuto Sam murmurar rapidamente antes de sair para receber o último convidado, ao meu lado Emily coloca sua mão sobre meu ombro para chamar a minha atenção, tenho dificuldade em sair da letargia.

- Está tudo bem?

Só consigo assentir, minha atenção está lá fora, focada em cada ação, analisando cada pequeno e detalhado som produzido por ele.

O suspiro do motor sendo desligado.

O peso dos seus primeiros passos sobre a terra.

O bufo irônico de Sam.

Uma risada breve e cheia de euforia.

O atrito de um abraço rápido e másculo.

- Vamos lá moleque.

Ele está aqui...

O tempo parece mudar de frequência, deixando apenas minha respiração em foco, eu posso ver e escutar cada movimento em câmera lenta, os seus passos ecoando as batidas do meu coração.

E então a brisa invadindo a casa, soprando meu cabelo no exato momento em que vejo de esguelha os dois homens entrando na casa.

Sinto meu corpo girar em sua direção instintivamente, fico totalmente imóvel, apenas o vento me atingi, mais uma vez respiro fundo, seu cheiro me atingindo com toda força, fazendo meus olhos se fecharem por um milésimo de segundo, sinto tudo, sinto ele... e então meus olhos se abrem e lá está, o que eu mais temia.

Se eu achava que sua forma lupina me intimidava em sua grandeza, não podia estar mais surpresa em como sua forma humana refletia isso.

Ele é tão alto...

Mordo a parte interna da minha bochecha quando preciso levantar os olhos para a montanha a minha frente, meus dedos apertando o material de fábrica do meu jeans, as palmas tão suadas quanto a minha nuca onde o cabelo começava a grudar pela umidade.

Ele é tão alto...

Eu queria estar intimidada por sua altura, ou seu porte, ou pela sua aparência estrangeira e ao mesmo tempo tão familiar, mas nada disso subjugaria a forma e tamanho do que havia entre nós... esse laço invisível que eu não poderia explicar com palavra alguma, esse laço que no exato momento parecia dar um puxão em meu umbigo, como um cordão umbilical, me puxando para a terra, me atraindo em sua direção.

Engulo em seco e paro de tentar desviar os olhos, bem como solto meu jeans e me controlo para não dar um passo á frente, pois não sei se vou correr para ele ou para longe dele.

Eu sei tão pouco sobre o amor, tão pouco sobre relacionamentos, é impossível ter uma perspectiva como um espectador, não é o mesmo que viver ele, e pensar que toda essa pessoa a minha frente está destinada a ser meu companheiro devido a uma força desconhecida do universo.

Como eu posso entender tudo isso sem sequer ter amado alguém de verdade?

Como eu posso ver ele, como eu posso olhar seu rosto exótico de cor castanha avermelhada, como posso ver a força dos ossos saltados do seu rosto, os lábios cheios, o cabelo longo e preto como carvão caindo sobre seus ombros e costas.

Como posso olhar em seus olhos gentis e castanhos e entender como se amar?

Todas essas dúvidas reviram meu estômago me fazendo querer fugir, mas ainda continuo parada a sua frente, esperando, por que esse vínculo, essa força desconhecida, ela é o que me segura no lugar por tempo o suficiente para ter a realização de que há apenas algo em que eu acredito incondicionalmente desde que o vi pela primeira vez: eu acredito nesse vínculo, acredito nessa força.

É incrível como você pode ver toda a pessoa apenas por seus olhos, por um momento é como se estivéssemos na floresta novamente, posso ver seu lobo na minha frente e não apenas o homem, mas é difícil manter um olhar quando há tanta honestidade nos olhos de alguém, e Seth tem muito em seus olhos, a forma como ele me olha faz meu rosto esquentar descontroladamente, sinto o calor se espalhar pelo meu pescoço e ombros e desconcertada desvio o olhar.

Finjo uma das ações mais humanas possíveis, finjo estar analisando sua forma de vestir para não ter que olhar em seus olhos tão cedo.

Ele é todos os tons quentes terrosos e frios invernais, camisa verde, jaqueta de motoqueiro marrom escuro, calças jeans batidas e coturnos pesados e desgastados, ele provavelmente é o Quileute mais vestido que vi até agora, e mais uma vez coro, mas dessa vez é por constrangimento, pois acho que acabei de fazer uma piada em meus próprios pensamentos, e achar isso engraçado agora não parece conveniente.

Será que ele pode ler meus pensamentos?

Olho rápido para o rosto de Seth e espero ser reprendida, mas o pego me analisando da mesma forma que fiz com ele, pisco aliviada e tento pensar sobre como ele me vê.

O que ele consegue ver quando vê jeans pretos, botas de cano alto, camisa branca e jaqueta? Estou tão acostumada em não me importar com o que visto, sempre preferindo ao simples e evitando as cores vibrantes apenas para não chamar atenção... eu não sou tão confiante como Silver, ou despojada como Erin, ainda tenho problemas com a forma que as pessoas me olham, sempre atraídas para minha pele, meus olhos e cabelo... atraídos pela camuflagem do monstro.

Será que Seth vê apenas a minha máscara?

Procuro seus olhos, uma necessidade de confirmação queimando em minha garganta, mas não o vejo procurando pelo que as outras pessoas procuram, ele está apenas olhando para mim.

Nos meus olhos, dentro de mim.

Uma onda de calor abraça meu coração, fazendo-o acelerado e vibrante, quando respiro novamente solto tudo e tremo de alívio quando a palavra desliza pelos meus lábios como uma prece.

- Oi.

Assisto sua expressão neutra explodir num sorriso, as bochechas subindo, os olhos se fechando levemente nos cantos, os dentes brancos se destacando na pele morena, sua alegria genuína sendo expelida de cada poro, me deixando desestabilizada, surpresa e sem fôlego, é como uma onda de brisa fresca forte o suficiente para fazer seu corpo balançar.

A alegria de Seth é uma força da natureza.

Está toda contida em seu corpo, vibrando em cada membro, brilhando em seus olhos e lábios, batendo com força em seu coração acelerado que ecoa pela casa, suspiro estarrecida e percebo que meu coração bate na mesma frequência, ecoando tão alto quanto o dele.

- Oi.

Sua voz. A voz de Seth. Sua voz.

Seth... Seth... Seth... Seth...

É como se a terra acabasse de alcançar a lua.

Está tudo certo agora, está tudo se encaixando.

- Você está aqui.

Prendo a respiração para não choramingar, é tão bom escutar sua voz que dói, controlo minha reação involuntária e sussurro de volta sem pensar duas vezes.

- Eu estou.

Desossada.

Meus ossos derreteram e toda a minha estrutura muscular está sem apoio, instável, uma bagunça fraca e incapaz.

Todo o nervosismo, a neura, a ansiedade, o temor de antes... tão em vão, não faz sentido sofrer antecipadamente... isso... o que está acontecendo agora, é tão simples, instintivo, como se fosse ser fácil desde o começo.

Ouvir sua respiração, ver seus cílios negros tocarem o alto das maçãs do rosto quando pisca, roubar os tremores atrevidos que seus lábios dão a cada sorriso que tenta reprimir em sua ânsia de dar vida a sua alegria, não tem preço, não há nada no mundo que possa me preparar para a naturalidade de apenas estar na presença de Seth Clearwater, da pequena e perfeita bolha crescente ao nosso redor, reforçada pela ligação inexplicável e maravilhosa que se encaixa assim que estamos perto um do outro.

Eu poderia olha-lo para sempre Seth Clearwater...

O som brusco de Sam limpando a garganta me faz dar um pequeno pulo nervoso e desvio meu olhar do de Seth.

- Bom, imagino que todos estejam com fome.

O desconforto e mau humor em sua voz são palpáveis, sua intenção é clara, como qualquer coisa que Sam faz quando ele se sente incomodado.

- Sam.

Olho para o casal e fico enervada ao ver a expressão austera de Emily, é a primeira vez que vejo algo mais duro em sua expressão, o que me faz chegar a conclusão de que seu rosto não foi feito para sentimentos negativos, ela definitivamente brilha mais em positividade.

- O quê?

- Não seja grosseiro, apresente-os.

- Mas eles... Jesus Cristo, essas crianças são...

- Sam!

Ele levanta as mãos em rendição e rosna contrariado, apenas um pouco.

-Ok, ok... Seth, essa é Ayira Hale.

Sua relutância me deixa envergonhada, então olho de volta para Seth e me arrependo assim que vejo seu sorriso tomando todo o espaço do rosto.

- Oi.

- Humpf... Ayira, este é Seth Clearwater.

- Olá.

Não posso sorrir, não quero e não vou ser capaz, as coisas estão começando a ficar tensas dentro de mim. E mesmo assim não consigo para de olhar para ele, ainda estou processando e catalogando cada nuance do seu rosto, cada movimento, contração, e linha do seu rosto que mais parece uma paisagem em movimento. Nem sequer me importo em ser alvo da sua total atenção, a sensação de alívio é tão boa que adormece meus sentidos de uma forma que não me incomoda, é apenas certo.

Respirar de novo é bom demais, e se para isso eu tenha que estar assim com ele, eu não me importo de fazer isso para sempre.

Sempre...

- Vocês são tão...

Um arrepio de medo do desconhecido me sacode de volta ao momento, sem contar Sam que tem essa expressão incrédula.

- Não seja malvado.

O som do tapa que ela dá na nuca dele deixa a situação descontraída, surpresa vejo Emily olhar de cara feia para um Sam muito encabulado, ele coça  atrás da cabeça e indica entre eu e Seth como uma acusação.

- Eles estão parados, se encarando...

- Ignorem.

- Achei que eu fosse o engraçadinho.

Continue falando... apenas fale mais um pouco... sua voz é tão vibrante...

- Humpf...você ainda é o palhaço do bando, não se preocupe rainha do drama, sua coroa não foi usurpada.

- Acho que não somos os únicos nervosos.

Dessa vez eu sei que ele se dirige a mim. Fico parada e olho para o chão sem saber onde colocar as minhas mãos, os passos de Emily me dão algo para me concentrar.

- Sam, me ajude aqui, agora.

É uma ordem, de uma mulher pequena e mandona, Sam obedece com prazer.

Seth poderia chegar mais perto, mas não vai, e ter a certeza disso me deixa comovida, ele está se esforçando.

- Você está bem?

- Não.

Digo isso e fico imediatamente preocupada em como ele vai interpretar, ver sua expressão diminuir em algo menor que a alegria, ver a preocupação se acumulando no meio de suas sobrancelhas, dói um pouquinho, a emoção de saber que ele se importa tanto com minha opinião e com meu bem estar.

- O que foi?

Eu me sinto segura, me sinto a salvo, me sinto como se nada pudesse me ferir...

- Não sei descrever o que estou sentindo, nunca senti nada como isso.

Me sinto... me sinto... me sinto...

- É ruim?

Sinto você... em... toda... parte... só sinto...

- Não... é assustadoramente bom.

No final da frase ergo o olhar e encontro o seu, uma onda me atingindo, fazendo todos os meus pelos se arrepiarem, pois o sorriso de Seth tem vida própria, é como seu próprio vento. Ele sorri mais ainda quando tem minha atenção, não sei como é possível alguém que já estava sorrindo conseguir sorrir ainda mais.

- Você está bem?... seu rosto parece que vai se partir.

E quando eu pensava que nada mais sobre ele poderia me surpreender ele faz novamente e me destrói mais um pouquinho.

Ele ri... sua risada vibrando na minha pele...reverberando em meu coração e alma... dói.... mas, é uma dor tão boa.

- Sim, eu estou bem, como nunca estive antes.

As lembranças da noite na floresta voltam, o momento em que me perdi em sua segurança e me deixei levar pela emoção, tudo se repete, o momento em que o toquei pela primeira vez, a primeira vez que toquei seu lobo.

Olho em seus olhos e sinto o impacto, é como se ele estivesse pensando o mesmo que eu, revivendo o momento, a intensidade, ele para de sorrir, sua expressão aguda e concentrada, completamente perdido na emoção, me sinto me perder, por isso, fraca, eu sussurro em abandono.

- Você está aqui.

Ele sorri, mas dessa vez é calmo, aliviado, sem pressa, como se tivesse corrido por tempo demais e agora pudesse parar.

- Sim, finalmente, estou aqui.

- O jantar está na mesa, venham vocês dois.

Emily coloca as mãos em meu ombro e os aperta com carinho, deixo o olhar de Seth e vou com ela, a sensação dele logo atrás nos acompanhando me deixa muito consciente, e assim que nos sentamos percebo que não encara-lo por todo o tempo vai ser mais difícil com ele sentado na minha frente na mesa de jantar, seus olhos me acompanhando o tempo todo.

A comida está deliciosa, aprecio cada sabor, cada textura, fazendo do ato de me alimentar um grande show, como se toda minha atenção estivesse concentrada em levantar o garfo até minha boca, uma encenação necessária, pois tudo que escuto são os sons de Seth mastigando, Seth suspirando em contentamento, Seth elogiando as habilidades de Emily com sons prazerosos e cômicos.

Ele ergue a mão para pegar o copo e sinto o ímpeto tão forte que não percebo que estou copiando sua ação até limpar a garganta rudemente e nos abranger com seu olhar mal humorado.

- Vou perder o apetite se continuarem com isso.

Recolho a mão e prendo a respiração quando vejo Seth zombar do seu alpha com um revirar de olhos, minha cautela me faz encolher quando vejo Sam o olhar de forma mais aguda, mas graças a forças do matrimônio Emily salva o momento quando estala a língua e reprende o marido.

- Você é tão teimoso homem.

- Eu gosto de apreciar a comida da minha mulher em paz, sem duas crianças agindo de forma bizarra.

Seth suspira, mas sua expressão não diminui no brilho, ele está sempre se divertindo.

- Você não me via reclamando de você e Emily quando...

- É diferente.

Um silencio quieto e dolorido se instala entre todos, como uma intrusa eu assisto Sam evitar olhar em direção de qualquer um, seu olhar perdido em um ponto qualquer, como se ele estivesse preso em uma lembrança antiga.

Emily vê seu marido e pousa os talheres na borda do prato, ela olha para o meu lado e dá um sorriso de desculpa antes de respirar fundo e tomar uma decisão.

- Não é tão diferente assim querido, talvez seja melhor trazer isso a tona, pode ajudar.

A princípio não entendo sobre o que eles estão falando, por isso finjo estar muito concentrada em cortar um pedaço de carne. Olho em direção de Seth e o pego me encarando, um sorriso satisfeito em seu rosto, mas não desvio meus olhos, pois vejo algo dentro deles que me deixa intrigada.

O entendimento brilha em seus olhos, como se ele fosse capaz de sentir a minha confusão.

- Por causa da ligação da alcateia, todos podemos escutar os pensamentos uns dos outros, isso inclui a experiência de imprinting, pois o lobo que possui o vinculo não consegue refrear seus pensamentos e sentimentos sobre a pessoa alvo do imprinting.

E ai estava, a questão que eu gostaria de não ter que discutir tão cedo, mesmo que eu estivesse curiosa sobre o que isso tinha haver com Sam e Emily. Paro com meu fingimento e tento controlar minha ansiedade, quando olho novamente para Seth percebo que ele está esperando que eu diga algo.

Engulo em seco e vou em frente com cautela.

- Oh... a forma como você falou fez parecer que no caso de Sam foi pior do que com os outros.

Sam arruma os ombros, Leah lhe dá um olhar calmo, Seth olha de esguelha para o amigo e devagar levanta a sobrancelha esquerda, seus olhos fazendo uma pergunta importante.

- Ahn... é que...

Sam suspira cansado e balança a cabeça.

- Eu namorava a irmã de Seth quando tive o imprinting com Emily, elas são primas.

Ah sim, a mulher carrancuda. Era surpreendente como eu ainda podia ficar surpresa em perceber que a maioria do bando não gostava de mim. Só que saber que a pessoa por quem eu tinha tido um imprinting era diretamente relacionada com uma dessas pessoas, não era tão agradável.

- Sua irmã... Leah, certo?

Seth sorri com satisfação quando eu me lembro do nome de sua irmã, seus olhos brilham.

- Sim, Leah é minha irmã mais velha.

- Ela não gosta de mim.

Não sai da forma que eu planejava, meu nervosismo sobre os sentimentos de sua irmã para comigo se sobrepõem, não posso mentir sobre algo que me incomoda, não quando isso vai afetar ele.

A risada divertida de Seth me deixa ainda mais desconfortável, pois não tenho controle algum sobre a situação, nunca tive. Observo seus olhos se fecharem com prazer, suas mãos afastando o cabelo para trás das orelhas.

- Oh, não é pessoal, Leah não gosta de ninguém pra falar a verdade.

O olho com descrença e comprimo os lábios em dúvida.

- Nem de você?

Ele para e olha para cima em contemplação, percebo que ele está armando uma cena e mordo o lábio inferior tentando controlar minha língua afiada recém-descoberta, não é hora de ser irônica.

- Bem, eu sou o irmão dela, acho que isso me torna uma exceção.

Quando olho para Sam ele tem uma expressão quieta, remorso em suas sobrancelhas franzidas, Emily segura a mão do marido através da mesa, ele sorri para tranquiliza-la.

Limpando a garganta ele me olha com paciência.

- Quando o imprinting acontece o vinculo é instantâneo, a pessoa se torna o centro do seu universo, tudo que você é e que você faz está ligado a ela. No meu caso as coisas foram mais complicadas, pois eu já tinha um relacionamento com Leah, então quando terminei com ela e comecei a me aproximar de Emily, foi doloroso para todos, mas mais para ela... eu sei agora como ela se sentiu, pois assim que ela se transformou eu fui capaz de estar em sua cabeça, e pude sentir o seu sofrimento.

Eu podia não saber como relacionamentos amorosos funcionavam, ao menos não por experiência própria, mas como disse antes, eu sou uma espectadora, eu assisto tudo de perto e ao meu redor há muito amor, de todos os tipos, mas principalmente o amor paixão, e é difícil evita-lo quando todos os membros da minha nova família são todos casais. Eu ainda não vi nenhum coração ser partido, nenhuma decepção, não sabia descrever esse tipo de dor, mas me pegava pensando as vezes, que se podia haver tanta felicidade entre duas pessoas, então qual seria o tamanho da infelicidade que poderia existir entre elas?

Bom, Sam acabou por responder a minha questão.

- Leah não é uma pessoa ruim, ela só não podia segurar tudo tendo que assistir tão de perto você ser feliz.

Ele também é leal, fico impressionada com a forma que ele defende a dor da irmã, sem medo de desrespeitar seu alfa, olho para Sam a espera de um sermão, mas tudo que encontro é resiliência.

- Eu sei, mas ela não jogou isso apenas em cima de mim. Ela afetou o resto do bando com seus estigmas sobre o imprinting, o que ela me mostrou me fez crescer, me amadureceu sobre seu lado, mas nada disso tira a responsabilidade dela de como isso afetou as futuras relações por imprinting para o resto do bando.

Seth franze o cenho, como se lembrasse de algo relacionado ao que seu alfa diz, ele assente para si mesmo e espeta a comida com o garfo de forma distraída.

- Você não está errado sobre a última parte.

Todos eles parecem refletir no silencio que se instala, me sentindo na obrigação de restabelecer a conversação eu pego um pedaço de carne e como, deixando que o sabor deslize pelas minhas papilas, envergonhada eu tento copiar um dos sons de satisfação que Seth fez antes mas soa tão estranho que simplesmente sussurro desculpas e franzo o cenho.

Quando a primeira risada surge sinto uma vontade descontrolada de sair correndo, meu rosto parece pegar fogo, olho para cima e todos estão rindo, a diversão deles me faz encolher os ombros.

Eu não sei o que fazer, não posse simplesmente ir embora só porque não sei lidar com situações esquisitas e rotineiras entre conhecidos.

Quem eu estou tentando enganar? Meu humor é péssimo, eles só estão rindo por que eu fiz algo embaraçoso e estranho.

Um buraco negro podia muito bem se manifestar e me engolir para sempre.

- Eu não sei descontrair, desculpe.

- Oh, Ayira, eu não diria isso.

Emily cobre a boca e suspira de alívio quando as risadas cessam.

- Concordo com Emily, você é totalmente capaz de ser engraçada, mais que eu até.

Seu elogio me faz relaxar imediatamente, mas não consigo manter seu olhar, é muito intenso.

- Me desculpem por tocar nesse assunto, não sabia que era delicado.

- Não se desculpe, no momento eu sou sua melhor fonte de conhecimento, como seu mentor é meu dever te orientar.

Sam parece feliz com o clima ameno de volta e entrar no modo mentor é seu território, ele tem controle sobre essa parte, diferente do assunto de antes.

- Eu tenho tantas dúvidas... ainda não consigo entender o que sou e...

Olho para Seth e me sinto acanhada por me expor dessa forma.

- Eu também estou aqui, você poder me perguntar o que quiser, quando quiser.

Eu não poderia, mas não digo isso a ele, apenas assinto sutilmente, voltamos a comer o restante da comida. Assim que todos terminam Emily dá um olhar mandão para Seth, ele finge suspirar em sofrimento de forma brincalhona e começa a recolher os pratos imediatamente, Sam o ajuda, mas assim que deixa os pratos na pia ele sai pela tangente, deixando Seth resmungando com a espuma e água corrente.

Quando Emily começa a fazer café percebo que a situação é armada, essa distância criada entre Seth e eu, é apenas para construir confiança, não é atoa que Sam está sentado todo duro do meu lado na mesa.

- Então, você já é a aluna de ouro da escola?

Finjo não ter percebido a extrema sutileza do assunto trazido à tona e o olho de forma sincera quando respondo.

- Não, eu prefiro me manter no anonimato, Carlisle disse que eu não posso mostrar quão á frente estou... não há forma justa de comparar meu intelecto com o deles, manter minhas notas regulares e responder de forma incorreta evitam que eu chame atenção.

- Ah querida, não se desmereça.

Ela volta para a mesa trazendo duas canecas de café quando fala comigo, aceito a minha com um sorriso e finjo que não ouvi o coração de Seth começar a bater mais rápido, ou a forma como ele começou a secar os pratos rápido demais, fazendo um show de barulhos que fazem Emily franzir o cenho e Sam soltar de forma irritada o ar pelo nariz.

Me ajeito na cadeira e bloqueio os sons.

- Meus professores dizem que minha curiosidade é a minha maior qualidade.

- Eu nunca fui muito de escola, mas eu te conheço, e se você for tão focada e inteligente com os estudos quanto é quando luta... então você merece uma medalha de honra.

- Você soa como um pai orgulhoso Sam.

Seth caminha não tão descontraído até a bancada, segurando uma caneca ele dá um sorriso pícaro que faz seu alfa erguer os ombros e bufar.

- Mas é claro, vocês pirralhos todos me decepcionaram no quesito QI.

- Eu estou na faculdade!

Ele não está protestando, suas frase soa mais como uma comemoração, por que mais ele estaria sorrindo?!

- E o que isso fez de bom até agora?!

Ele tinha razão, Sam estava sendo muito paterno, mas não só sobre mim.

- Seth tem seu mérito querido, para de pegar no pé dele. Então Ayira, como vão as amizades?

De escanteio vejo Seth arrumar sua postura descolada e erguer os ombros.

- Eu não achei que fosse me aproximar de alguém, na verdade, evitei as outras crianças, acho que me equivoquei, visto que não os impediu de se aproximar de mim.

- Você não deveria estar tão surpresa, é uma garota linda, educada, interessante, quem não ia querer te conhecer?

Você sempre estará sozinha... aberrações sempre ficam sozinhas....

Sinto a tensão endurecer os músculos dos meus ombros, prendo a respiração e finjo não ter lembrando, afrouxo meu aperto na caneca antes que a quebre e dou um longo gole, café quente queimando seu caminho até meu estômago.

- É... ainda não sei lidar com a atenção, mas gosto da presença deles, acho que três amigos é o suficiente.

- Você está sendo modesta, muitos passaram pela escola sem nenhum amigo.

Sam dá um longo gole em seu café e manda um olhar zombeteiro em direção a Seth, que ignora totalmente, sua atenção toda em mim.

- Os seus amigos, como eles são?

Seth parece realmente animado ao perguntar como eles são, a distração é bem vinda, pois sinto uma onda de afeição quando vejo os rostos sorridentes dos três em minha cabeça, brincando e se implicando durante o almoço.

A vontade de sorrir é tão grande que quase não consigo morder o sorriso de volta, espremo os lábios e controlo a vontade de contar tudo sobre eles.

- A única palavra que posso usar para definir todos eles é: peculiar.

Ele está prestes a sair pulando pelo ambiente, sua animação vai explodi-lo a qualquer momento.

- Mesmo?

- Sim, Erin e Silver são o completo oposto uma da outra, na maioria das vezes elas só brigam, mas assim que estou perto elas se unem e se tornam mais, não sei explicar, apesar da relutância das duas de se tornarem amigas, ainda conseguem ser maduras o suficiente para se unir e estarmos todos juntos.

Ele parece orgulhoso, como se minhas conquistas também fossem dele, minhas bochechas ardem com o pensamento.

- Parece que você é o ponto de equilíbrio entre elas.

- É, acho que sim.

Seguro a xícara com as duas mãos e tomo um longo gole da bebida quente, Emily sorri quando me vê fechando os olhos de contentamento.

- Silver, esse nome é tão bonito, como ela é?

- Oh, ela é tão elegante e perfeccionista... ela me lembra Rosalie na maior parte do tempo, as duas se importam tanto com suas aparências, não apenas sobre a importância da beleza, é mais uma questão de poder. Ela tem atitude, e corre atrás do que quer sem medo, é a pessoa mais corajosa que já conheci.

- Ah, ela é uma daquelas patricinhas então?

Emily dá um olhar feio para o marido antes de se virar e sorrir.

- O que meu marido quis perguntar é se ela é popular.

- Não foi...

- Quieto.

Nem todos tem a mesma visão de Rosalie, não que Silver se encaixe em todos os padrões estabelecidos por ela, na verdade ela consegue superar eles, transformando a “popularidade” em algo mais digno do que o pensamento generalizado pela sociedade.

- Sim, ela é popular.

- Viu, eu disse, ela já está andando até com os populares.

O ímpeto de defender meus amigos da crítica velada de Sam é tão grande que me faz erguer os ombros.

- Bem, não são todos populares, Erin é como eu, ela prefere o anonimato, ela é a garota mais inteligente da escola.

- Ela parece ser uma garota especial.

Me lembro da primeira vez que nos vimos, quando ela derrubou todos aqueles livros em seu jeito desengonçado de ser, a forma como falou comigo sem se sentir intimidada ou ameaçada, apenas sendo ela mesma desde o começo, como se não pudesse ver a escuridão que há em mim.

- Ela foi a primeira pessoa que falou comigo.

- Eu já gosto da Erin.

Seth está com os cotovelos apoiados no balcão, o rosto apoiado pelas mãos, seu sorriso é enorme, como o de um menino brincalhão, ele parece tão confortável, como se fossem seus amigos que estivessem sendo descrevidos, e não os meus.

- Você me lembra Julian.

Vejo a mudança instantaneamente, é como se algo tivesse crescido ao redor de seu corpo, ele fica muito quieto, mais atento, ver seu sorriso diminuir e ficando sem graça, não combina com ele.

- Julian? Oh sim, você disse que tinha feito três amigos, então Julian é o terceiro.

Seu tom é gentil, mas eu não posso deixar de perceber que algo o incomoda, fico imediatamente na defensiva, sem saber o que falei de errado, por isso minhas respostas começam a sair curtas e frias.

- Sim, ele é.

- Então, eu lembro ele?

- Sim.

De repente não sinto mais tanta vontade de falar sobre Julian, e sem me importar me calo, todas as minhas barreiras começam a se reerguer, me sinto ficar fria e pesada.

- Ele deve ser um boboca ambulante como você, é por isso que a faz lembrar dele.

O comentário zombeteiro de Sam distrai todo mundo da minha mudança drástica, sei que ao menos Sam e Seth perceberam, eu não estou alheia aos meus sentidos, percebi quando suas narinas se expandiram ao sentir meu cheiro, lobo nenhum consegue ignorar o cheiro de um vampiro.

Seth é o único que fingi que não percebeu, enquanto o olhar de Sam parece estar fazendo um buraco no meu rosto, confusão nublando seus olhos quando ele faz a pergunta em silencio.

- Ou por que eu sou encantador, confiante e engraçado?

Ele caminha confiante para perto da mesa, fico imóvel, tento pensar em tudo menos sua aproximação repentina.

- O que essa faculdade tem te ensinado?

 - Tudo que eu preciso para construir o mundo sem afetar a natureza.

- Seth está na faculdade de engenharia.

- É, é, nos conte todos os detalhes entediantes da sua vida na cidade grande.

- Minha vida não é entediante, mas também não é perfeita, mas meu curso me dá muita motivação de um futuro construtivo.

- Pelo amor, não quero morrer de tédio dentro da minha própria casa.

Sam arrasta a cadeira para trás, o som nos faz encolher, espero que ele saia, mas ele para ao meu lado e coloca uma mão cautelosa em meu ombro, apesar da ação cuidadosa posso sentir no aperto de sua mão que ele está mais preocupado que irritado. Olho para cima e encontro seus olhos, ele faz menção para que eu acompanhe e eu me levanto, sinto uma necessidade de me esconder as suas costas, a atenção de Seth parece querer me cercar, percebo o erro assim que fico de costas para ele.

- Vamos sentar lá fora, preciso de um ar fresco.

Colocando o braço ao redor dos meus ombros ele me leva até a varanda onde puxa duas cadeiras de plástico, faço que não com a cabeça e me escoro em uma viga, ele dá de ombro com uma expressão entediada e se senta.

O mundo se torna mais sépia que cinza, faixas de luz se infiltram entre as árvores, cruzo os braços e me concentro na escuridão que adentra a floresta, minha visão se torna aguçada, posso ver pequenos flocos de poeira flutuando em meio a luz dos últimos raios de sol.

Aproveito essa paz passageira e dou uma respiração longa e egoísta, deixando que a tensão toda se despeje, deixando que a frieza vá embora para que assim eu desfrute dos meus últimos momentos de paz. Assim que eu partir tudo voltará ao normal, eu estarei respirando sozinha novamente, e tudo e todas as coisas se tornarão menos, menos intensas, menos coloridas, menos alegres... menos Seth.

O que está acontecendo comigo?

Olho para o céu em busca de respostas, busca por soluções nas primeiras estrelas que brilham na luz crepuscular que se desvanece gradativamente, deixando tons azuis e escuros tomarem conta. Eu não quero lutar tanto contra isso, não quando me faz tão bem... mas é tão difícil, eu não posso querer apenas a presença dele sem ter que conhece-lo, não posso ignorar que ele é uma pessoa, e que quer entrar na minha vida de todas as formas.

Descruzo meus braços e encaro a floresta mais uma vez, mas dessa vez eu respiro para sentir ele.

Terra molhada

Chuva

Fogo

Vento

É como se eu pudesse ser sugada para dentro dele... e assustador.

Abro os olhos e afasto seu cheiro.

Não posso me entregar... não posso.

- Como... como você?

Eu não consigo dar som as palavras, não posso deixar que ele ouça, seria covardia, por isso espero que Sam possa entender.

Me viro e encontro sua expressão longe, reflexiva. Os sussurros de Emily e Seth conversando e arrumando a cozinha me distraem por um instante, saber que ele está logo ali, escutando tudo, mesmo que disfarçando sua própria curiosidade entre risadas e brincadeiras.

Fecho os olhos com força e deixo minha cabeça cair contra a viga.

Eu estou fazendo de novo, estou o afastando... eu estou machucando Seth.

- Foi difícil no começo... minha relação com Leah já não era a mesma, eu tinha acabado de me transformar, era o único até o momento, não tinha para quem recorrer. Esconder a verdade dela e me afastar foi injusto, fez mais difícil do que deveria ser, mas era a única forma, eu tinha um segredo que não era meu, não podia contar para ninguém, mesmo para ela. E então... aconteceu, lá estava Emily, foi como levar uma surro do destino, mais segredos, mas foi pior, porque era uma coisa maravilhosa.... visceral, eu não me sentia culpado pelo que sentia, me sentia culpado por não sentir culpa.

Eu nunca tinha escutado esse tipo de franqueza na voz de Sam, ela não era esse homem vulnerável a minha frente, ele não podia ser, pois era o alfa de uma alcateia, a sua força era à força dos outros, ele precisava viver com controle de ferro sobre si mesmo.

Eu não tinha essa obrigação, mas mesmo assim tinha colocado um obstáculo a minha frente: eu mesma.

- Foi difícil, se aproximar dela?

- Ah sim, foi difícil como o Diabo!

Quase ofego com a veemência de suas palavras, ele vê minha expressão desconcertada e bufa no meio de uma risada.

- Me desculpe pelo palavrão, esqueço que você é uma criança.

- Não se preocupe, já escutei pior... só... estou surpresa em escutar de você.

- Não sou um mau exemplo, não vai se repetir.

Dou de ombros, pois essa é ultima das minhas preocupações, particularmente não sou a favor de nenhum tipo de palavra ofensiva. Ele observa minha ação infantil e sorri divertido, olho para meus pés e encontro uma mancha negra solitária na madeira da varanda.

- Eu preciso ser guiada Sam, não consigo encontrar o caminho sozinha.

Dessa vez quando levanto meu rosto encontro ele me encarando de forma séria e compreensiva, um pequeno puxão coça no canto dos meus lábios, a ideia de pedir conselhos do coração para Sam me deixa estranhamente acanhada, então torço meus lábios e deixo minhas bochechas queimarem, ele faz uma cara engraçada ao ver minha reação e desvia os olhos enquanto balança a cabeça de um lado para o outro.

- Não achei que passaria por isso tão cedo... droga, o moleque tem razão, eu pareço uma maldita bagunça paterna.

- Precisamos arrumar um jarro da disciplina para você, não pode ter esse linguajar perto de uma adolescente, principalmente uma dama.

Emily sai de casa com duas tigelas de algo doce, ela oferece uma mas eu recuso com uma careta de pânico, ela sorri divertida e vai em direção ao marido, quando ela se senta no colo dele eu desvio meus olhos imediatamente, encontrando Seth.

- Alguém me chamou?!

- Você deu sorte Seth, pode ficar com o pedaço de Ayira.

- O quê? Você não quer? Está um delicia.

Ele parece encabulado, mas está falando de boca cheia, parece totalmente proposital, me sentindo culpada por ter recusado tão rápido lanço um olhar de suplicas para Emily que serve uma colherada direto na boca do marido, meu rosto cora com força.

- Me desculpe, tenho certeza que está delicioso, é que eu tive um problema com açúcar mais cedo, não acho que consigo aguentar nada doce no meu estômago, não hoje.

- Não estou ofendida querida, fique tranquila.

- Oh, ok então, passe para cá prima!

Ele se acomoda na cadeira ao lado dos amigos e coloca o pedaço na própria tigela, observo quão a vontade ele se sente logo ao lado do embraço amoroso de Sam e Emily e me pergunto quanto disso ele teve que ver até que sentisse confortável o suficiente.

Seth tem 24 anos...

Bem... isso não tinha me ocorrido, afinal, idade é uma idade é algo complicado quando se é um hibrido que amadurece de forma totalmente distorcida do que o normal.

Ele provavelmente não tinha problema algum com demostrações de afeto, ele é um adulto, já viveu o suficiente para...

Não pense nisso... ano pense nisso...

Talvez todo o rubor transformasse meu corpo em uma tocha, desvio meu olhar dele e finjo estar distraída com um fiado da minha jaqueta.

- Como Edward e Bella estão? Não vejo a hora de ver eles.

A felicidade com que ele fala sobre eles me faz interessada novamente, e deixo de lado meu desconforto, ver ele sorrindo tão grandemente assim, não é uma coisa que você consegue ignorar, não quando tudo que quer fazer é olhar.

Não consigo desviar meus olhos de seu sorriso... quero rouba-lo para mim...

- Eles estão bem, sei que vão adorar recebe-lo.

- É um convite?

- Uhn, sim, eu suponho.

- Para de ser enxerido moleque.

- Ah cara, sinto falta do Edward... melhor cozinheiro de todos, sem ofensas prima!

- Não estou ofendida.

- Oh, Esme também faz sanduiches incríveis.

Finjo não ver a cara de nojo que Sam faz: coisa de lobo.

É tão fácil deixar ele entrar em minha vida, ele já estava nela antes de eu chegar, já é um integrante vital dela, só estava a espera, assim como todos os outros.

A noite se torna mais aguda e percebo que talvez seja a hora de ir.

- Está ficando tarde, preciso ir para casa.

Emily está levantando para levar a louça para dentro, seu cenho franze em decepção.

- Oh não, tão cedo querida?

Afirmo com um aceno sutil e afundo minhas mãos nos bolsos da jaqueta.

- Prometi a Alice que chegaria mais cedo.

Ela abre um sorriso e concorda com um sinal de entendimento.

- Tudo bem, é melhor você ir, não é seguro dirigir á noite por essas estradas.

Estou vendo Emily entrar em casa quando Sam me pega desprevenida, estanco no lugar quando entendo suas palavras e lhe dou um olhar de descrença, não posso acreditar no que acabei de ouvir.

- O quê?

Ele questiona de forma defensiva.

- Você não precisa temer.

É quase como se ele não pudesse lembrar da cominha capacidade de me proteger, como se eu não pudesse levantar um carro, ou quebrar o pescoço de um servo apenas com os dentes...

Oh não, Seth está completamente certo.

- Eu disse, ele está sendo todo paternal... ouch!

Talvez eu deva perguntar a ele sobre a coisa de ler mentes.

Sam dá um soco na lateral de Seth que o faz se dobrar, fogo queima no meu estomago e um rosnado sob rápido de mais e só tenho tempo de afoga-lo numa exclamação quando me balanço na direção de Sam.

Uma expressão encabulada se abre em seu rosto, ele me olha dos pés a cabeça duas vezes, e então se vira para Seth que está segurando seu estômago, seu rosto torcido numa careta, que não tem nada a ver com dor, por que ele está rindo sem parar.

- Você acabou de rosnar pra mim?

- Eu...

- Sim, você rosnou.

- Me descu...

Ele levanta uma mão e eu paro.

- Não. – seu tom é rígido, os olhos se revezando entre Seth e eu – estejam na clareira, antes do alvorecer, os dois.

- Ah cara!

Não faço ideia do que está acontecendo, mas aprendi desde cedo que quando Sam manda, só devo obedecer e não fazer perguntas.

- Perdi alguma coisa?

Emily para encarando nosso semicírculo bizarro, coro e finjo que nada aconteceu, vou na direção dela e dou um abraço rápido, assim que me afasto ela sorri surpresa.

- Obrigada mais uma vez por me receber Emily, o jantar estava maravilhoso.

- Ah Ayira, você é bem-vinda a qualquer hora na minha casa, espero que venha mais vezes.

- Eu virei.

- Certo, fique bem, não deixe esse lobo velho te tirar do sério.

Olho rapidamente para Sam e finjo não perceber que ele está me analisando de uma forma engraçada, dou alguns passos para trás e estou prestes a dizer boa noite quando Seth dá um passo á frente. Sua aproximação me deixa alerta, mas não tanto quanto o calor borbulhante crescendo no meu estômago.

Não se transforme ainda, não se transforme ainda...

- Posso te acompanhar até o carro?

- Sim.

- Tenham uma boa noite.

- Boa noite querida.

- Até o alvorecer lobinha.

Com relutância caminho até o carro, não olho para ver se ele está vindo, posso sentir ele, abro a porta rápido para manter algo entre nós, ele para como se pudesse escutar os alarmes em minha cabeça, sorrindo sem graça ele coloca as mãos no bolso e sorri se balançando para frente e para trás.

- Tudo bem para você eu estar lá amanhã?

Não, não está, eu não vou ser capaz de me transformar se ele estiver perto, ainda não estou preparada para compartilhar meus pensamentos com a alcateia, mas principalmente não com ele. Sem contar que seria uma distração. Me seguro na porta e o olho quando omito todas as preocupações.

- Sim, tudo bem.

Ele franze o cenho, como se pudesse sentir minha agitação interna. Seus olhos se desviam para o carro e ele dá um sorriso sem graça, perdido.

- Carro legal.

Olho para o carro e procuro, ainda não consigo ver o que os outros veem de tão interessante, é apenas uma maquina, uma maquina que se move.

- É o que as pessoas continuam dizendo.

Ele ri, e isso me faz olha-lo imediatamente, não posso desviar meus olhos das marcas de expressão que surgem nos cantos de seus lábios quando ele sorri.

- Isso é tão bom.

Pisco e sai do transe.

- O quê você disse?

Ele me olha de forma carinhosa, sua voz mais gentil, suave, cheia de admiração.

- Você é engraçada, modesta... não se importa com riquezas, e aprecia coisas simples e essenciais que ninguém mais dá valor hoje em dia.

Eu aprecio cada coisa, por que não tive nada, por muito tempo...

- Como o quê?

- Amizade, a forma como você falou dos seus amigos, você os valoriza.

Ele está certo, eu os valorizo, defende-los hoje do que Sam disse foi obvio, mas eu já sentia isso desde o momento que eles se aproximaram, mesmo com todas as minhas defesas, eles ainda assim conseguiram passar por cada uma, e me introduziram em suas vidas sem medo. Eles nunca tiveram medo, mesmo que eu ainda os protegesse de mim mesma. Estou perdida nos meus pensamentos quando Seth se aproxima alguns passos, fico nervosa, não posso lidar com contato físico, ainda é muito cedo, dou um passo para trás e ele para imediatamente, magoa apagando o brilho dos seus olhos.

 Isso quebra totalmente o momento, sinto a pontada de dor ecoar, apesar dos esforços continuo machucando ele, minhas inseguranças sempre voltaram, apesar de tudo eu ainda continuo correndo, tudo que quero é fugir.

- Você tem medo de mim?

- Sim...

- Você não precisa, não faria nada para te ferir, nunca.

- Não é esse tipo de medo.

- Não entendo.

- Eu tenho medo de você... do que você provoca em mim.

Seu olhar de repente fica profundo, intenso e pesado, minhas mãos tremem, minha pele se arrepia, prendo minha respiração e espero.

Mas ele só olha daquela forma, para o meu rosto e nos meus olhos.

- Boa noite, Ayira.

- Boa noite, Seth.

Tremendo eu entro no carro, assim que fecho a porta e começo a sair ele se afasta, mas ainda assim eu posso vê-lo, no retrovisor eu vejo sua imagem, o seu olhar me segue por todo caminho, o frio na minha barriga acalma a febre da transformação, mas eu não consigo fazer a sensação de asas na minha barriga ir embora.

O que está acontecendo?


Notas Finais


EU SENTI MUITA FALTA DE VOCÊS!!!
Não fazem ideia de como senti, amo ver os comentários, ou quando favoritam, ou mesmo só quando visualizam, vocês são o alimento da minha alma de escritora.
Agradeço de coração o apoio, vocês são incríveis, obrigada por tudo.
Nos vemos no próximo capitulo.
Beijos L.


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