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História Luck - Um Puro-Sangue de Corpo e Alma - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Um anjo, dois milagres - Parte 1


Fanfic / Fanfiction Luck - Um Puro-Sangue de Corpo e Alma - Capítulo 6 - Um anjo, dois milagres - Parte 1

O corpo de Luck e seu coração eram ligados pelo par de olhos mais inteligentes e tristes em todo reino dos cães.

Luck só era servo de um déspota em todo o mundo: sua graciosa companheira pastora alemã de pelagem dourada e preta. Lady era nobre e caprichosa, uma verdadeira cadela de raça. Luck e ela eram o oposto que compunham um casal, tanto na aparência quanto no temperamento, como era perceptível para qualquer pessoa que os viessem visitar em sua região distante no norte de Sheffield. À sua casa visitantes chegavam frequentemente; pessoas que, na maioria das vezes, não entendiam os cães e corriam de medo ou ficavam o dia todo tentendo acariciá-los.

Luck odiava receber visitas. Aceitava suas tentativas de aproximação com cortesia, mas, assim que possível, sumia até que elas fossem embora. Conhecia a Lei muito bem para não rosnar ou tentar morder um visitante. Mas a Lei não determinava que deveria conviver com eles.

O carinho descuidado de seu dono ou dona, era o mais perfeito deleite. Luck agia como se ainda fosse um filhote. Mas era apenas para os donos que o cão se rebaixava; para os donos e para Lady, é claro.

Em uma manhã fria de primavera, um visitante apareceu; na verdade, dois. Luck não sabia ao certo quantas pessoas estavam lá. A hóspede que ele podia ver carregava em seus braços um embrulho que poderia ser identificado como qualquer coisa.

Assim como era grande, ele também era leve. Até mesmo pateticamente sem peso. Mas lá estava uma criança de cinco anos de idade, uma menina que deveria pesar uns 18 quilos, mas que na verdade, tinha a metade disso. Sua cara era mirrada e envelhecida e, da cintura para baixo, o corpo lembrava um esqueleto sem força nenhuma.

Seis meses antes, a menina era uma figura alegre e vigorosa como um filhote de pastor alemão. Até que uma doença de proporção epidêmica ( paralisia infantil ) ceifara a vida de centenas de crianças iguais a ela, com a força a qual o inverno acaba com as folhas das árvores e com o mesmo efeito assustador.

A doença não matara a menina que agora os visitava, como fizera com tantos outros. Pelo menos seu cérebro e a parte superior de seu corpo não tinha perecido, mas a mãe fora aconselhada a levar a pequena inválida para apreciar o ambiente do campo. Escrevera, então, para um parente distante, a dona de Luck, perguntando se poderia ficar um mês com eles.

Luck não demonstrou nenhum interesse ou prazer com a chegada da mulher adulta. Ficou deitado em um canto da varanda, enquanto ela descia do carro.

No entanto, quando Júnior pegou o pequeno embrulho nos braços e subiu as escadas, Luck se encheu de curiosidade. Além do dono se mover com cuidado, o odor havia lhe revelado que o que parecia ser um objeto, na verdade, era um ser humano.

Luck nunca tinha visto um humano ser carregado daquela maneira. Aquilo não fazia sentido. E ele se levantou, hesitante, para investigar.

O dono colocou o embrulho sobre a cadeira de balanço na varanda e afrouxou o cobertor que o envolvia. Luck se aproximou e pôde ver o pequeno rosto.

Há muito tempo uma criança pequena não visitava aquela casa. Luck, com certeza, nunca tinha visto uma de perto. Aquela aparição tocou seu coração, o grande coração que sempre defendia os fracos e indefesos, um coração que fazia qualquer filhote ou um cão de menor porte sentir-se tão seguros contra aquelas mandíbulas quanto a própria Lady.

Ele farejou de maneira amigável, e os olhos tristes da menina ganharam um brilho de interesse, a primeira mudança visível em seu rosto por dias. Duas mãos frágeis se esticaram e afundaram na massa de pelos fofa localizada abaixo de suas orelhas.

Luck se arrepiou por inteiro, um reflexo de contentamento pelo toque. Então, abaixou a cabeça e assumiu, de forma positiva, toda a dor que aquele apertão lhe causava.

Em um segundo, Luck havia aumentando seu círculo muito bem definido e pequeno de coisas queridas para incluir o sopro de humanidade que acabara de acontecer.

A mãe da menina subiu correndo os degraus da varanda, acompanhando seu anfitrião. Ao primeiro relance do gigantesco cachorro, ela deu um pulo de alerta.


– Cuidado! — empertigou-se. — Ele pode atacar meu bebê! Por favor, tire esse cachorro daqui!

– Quem? Luck? — indagou a dona. — Como assim? Luck não arrancaria nem um fio de cabelo da cabeça dela, nem que sua própria vida dependesse disso! Veja, sua filha já está apaixonada por ele. Não me lembro de Luck ter aceitado um desconhecido dessa maneira. E ela parece estar feliz e radiante, como há muito não fica. Não a faça chorar o expulsando daqui.

– Mas... — a mulher insistiu. — Cães estão cheios de germes. Eu li isso. Ele pode passar alguma doença terrível...

– Luck é tão limpo e livre de germes quanto eu — declarou sua dona com alguma cordialidade. — Nem por 1 dia ele fica sem nadar ou eu fico sem escová-lo. Ele...

– Mas é um pastor alemão — protestou a visitante, observando, enjoada, enquanto a filha, mais uma vez, apertava o cão. — Sempre escutei que pastores alemães são ariscos. Você não concorda?

– Se concordássemos... — o dono começou, passando a tomar parte na conversa, havia escutado aquela pergunta idiota tantas vezes quanto era insuportável —, se achássemos o pastor alemão um animal arisco, não teríamos um em casa. Essa raça comporta os melhores ou os piores cães do mundo. Luck é o melhor. Não criamos o outro tipo. Vou pedir a ele que saia, uma vez que você se incomoda tanto em tê-lo perto de sua filha. Venha, Luck, vamos.


Relutante, o cão decidiu obedecer à Lei e seguiu o comando do dono. Enquanto partia, olhava para trás, encarando seu novo ídolo.

O rosto da menina de franziu de tristeza. Seus pequenos braços procuravam o pastor alemão no ar. Com uma voz cansada e baixa, ela exigia sua presença;


– Cãozinho! Vem cá! Vem! Eu te amo, cachorrinho!


Luck, todo desejoso, procurou a aprovação do dono para responder ao chamado. O dono, em contrapartida, buscou aprovação no rosto de sua hesitante hóspede. Ele traduziu aquele olhar e, instantâneamente, sentiu um ódio inexplicável daquela mulher.

A hóspede se aproximou da filha enfraquecida, que não parava de gesticular, e explicou:


– Cães não são animais de estimação muito bons para uma garota doente como você, meu amor. Eles são uns brutamontes e mordem. Vou encontrar Dolly, assim que desfizermos as malas.

– Não quero Dolly — lamentou a criança. — Eu quero o cão! Ele não é um monstro. Não vai morder! Cachorrinho, eu te amo! Venha cá!


Luck, desejoso, mais uma vez olhou para o dono, com o rabo balançando, as orelhas esticadas e os olhos inquietos. Uma das mãos do dono apontou para a cadeira de balanço, era um movimento tão imperceptível que somente um cão espero poderia ver.

Luck não esperou por outra confirmação. Quieto, sem fazer estardalhaço, passou às costas da hóspede e parou ao lado de sua musa. A menina deu uma risada em êxtase e levou as pequenas mãos em direção a seu rosto.


– Bom... — rendeu-se a visitante. — Se ela só vai ficar feliz assim, pode deixar. Acho que é seguro se um de vocês me garantem que sim. E é a primeira coisa pela qual ela demonstra algum interesse desde que... Não, querida — acrescentou em um tom mais seco. — Você não deve beijar o cachorro! A brincadeira acaba aqui. Venha cá, deixe mamãe limpar sua boca com o lenço.

– Os cães não foram feitos para receber beijos — explicou o dono, compartilhando o nojo que Luck sentiu ao ter os lábios esfregados em sua cabeça. — Mas ela seria mais prejudicada beijando um humano do que a cabeça do meu cão. Fico feliz em ver que gosta de Luck. E mais ainda por ele gostar dela. Acho que é a primeira vez que vejo meu garoto se aproximar de um estranho por vontade própria.


E foi assim que a idolatria de Luck começou. E foi assim também que uma criança doente e infeliz encontrou um novo interesse em sua vida.

Todos os dias, do amanhecer ao entardecer, Luck ficava com a menina. Abandonado seu posto sob o piano, passava a noite na porta do quarto dela. Ele esquecia até de acompanhar Lady em suas brincadeiras e passeios pela floresta, preferindo ficar ao lado da cadeira de rodas, enquanto a menina passeava ou ficava sentada na varanda.

Esquecendo seu lugar de destaque à mesa de jantar, um lugar que era seu desde sempre, ao lado de seu dono, Luck sentava no espaço atrás do bebê. Tudo isso para o desconforto da empregada, que tinha que pular sobre ele para dar a volta na mesa, e para a irritação assumida da mãe da criança.

A menina, com a passar dos dias, não perdeu nada de seu interesse pelo cão. Para ela, Luck era um conjunto de novidades intermináveis. Adorava torcer e apertar a pelagem abaixo de suas orelhas, brincando com as mesmas, fazê-lo "falar" ou cumprimentar, ou deitar ou se fazer de morto, tudo ao seu comando. Amava brincar de uma coleção de jogos estranhos com ele, jogos que variavam da clássica história A Bela e a Fera até A Princesa das Fadas e o Dragão.

Fosse como Fera ( para sua Bela ), fosse no papel mais complexo e exigente de dragão, Luck se entregava por completo a todas as brincadeiras. Claro, ele nunca sabia brincar e fazia tudo errado. E, é claro, também, a menina perdia a paciência com tanta burrice e o esmurrava, como forma se castigo, com seus pequenos pulsos, uma reprimenda que Luck aceitava com uma expressão de alegria idiota.

Talvez pela grande quantidade de ar puro das montanhas ou pelos passeios ao ar livre com um amigo que despertava seu interesse dormente pela vida, a garota ficava cada dia mais forte e menos parecida com a figura fantasmagórica de antes. E, por notar essa recuperação tão evidente, a mãe continuava a tolerar a presença do cão perto de sua filha, ainda que ela mesma não tivesse perdido o medo do animal.

Duas ou três coisas aconteceram para manter aquele medo vivo. A primeira aconteceu cerca de uma semana depois da chegada dos visitantes.

Lady, gostando tanto de estranhos quanto Luck, deixara a casa e a varanda de lado para ficar em outras partes do terreno. Um dia, quando a menina estava na cadeira de balanço ( tentando, com muito nervosismo, ensinar a Luck o alfabeto ), e sua mãe estava sentada de costas, escrevendo cartas, Lady apareceu sorrateira.

Ao perceber a pequena presença na varanda, ela parou inquisitiva.

A garota viu a criatura bela de pelagem dourada e preta. Deixando Luck de lado, ela chamou:


– Venha cá, cão novo. Lindo cão. Venha!


Lady, tendo sua vaidade posta em jogo, aproximou-se. Quando podia ser tocada, parou outra vez; a menina a pegou com uma das mãozinhas rechonchudas e tentou trazê-la para perto de si.

Esse puxão não era nada para Lady. Mas os dois cachorros eram muito diferentes. A paciência ilimitada e o amor pelos mais fracos não eram virtudes que tinham em comum. Lady não gostava de aproximações, assim como Luck, mas sua maneira de demonstrar isso era muito mais drástica.

Com o primeiro puxão em seu pelo, seus dentes já ficaram à mostra, acompanhados de um rosnado e de um golpe da grande da cadela. Como um lobo ataca um inimigo, Lady tentou abocanhar o braço que a estava puxando.

Luck, quase que no mesmo instante, colocou todo seu corpo entre sua amiga e sua musa. Foi um movimento incrivelmente ágil para um cão tão grande. E surtiu o efeito desejado.

A mordida que teria aberto o braço da garotinha até o osso acabou deixando um machucado no ombro de Luck.

Antes que Lady tentasse atacar mais uma vez, ou tivesse entendido a intervenção de seu companheiro, Luck a estava empurrando para a beirada da escadaria da varanda. Muito gentil, ele não rosnou uma única vez, mas manteve uma atitude firme.

Com uma surpresa irritadiça com o comportamento de seu submisso amigo, Lady rosnou e o mordeu.

Nesse instante, a mãe da garota levantou de sua cadeira, assustada com o tumulto, e saiu ao resgate da filha.


– Ele rosnou para ela! — repetia histericamente, até que o barulho fez com que o dono do cão saísse de seu escritório e viesse até a varanda, correndo. — Ele avançou nela, até que começou a brigar com aquela outra brutamontes e...

– Com licença — o dono pediu, chamando os dois cães para perto de si. Ele sabia que o homem é o único animal que maltrata sua fêmea. Nenhum cão atacaria Lady. Muito menos Luck. — Aqui está! — ele disse em um tom de confirmação. — Olhe para o ombro dele. Essa mordida era para sua filha. Antes de enxotar Luck, deveria agradecer-lhe salvà-la de uma cicatriz bem grande. Lady ficara presa depois de tudo isso.

– Mas...

– Mas, com Luck a seu lado, ela está tão segura quanto se estivesse sendo guardada pelo Exército britânico — interrompeu o dono. — Acredite em mim. Venha, Lady. O canil vai ser seu lar pelas próximas semanas. Luck, quando eu voltar, vamos cuidar desse ombro.


Com um suspiro, Luck se deitou. Desde a chegada da criança, aquela era a primeira vez que se sentia infeliz, muito infeliz. Tivera de brigar e agir defensivamente com Lady, a quem idolatrava. E ele sabia que demoraria muito até que sua amiga temperamental fosse capaz de perdoar ou esquecer tudo aquilo. Para ela, Luck não estava mais por lá.

Tudo aquilo acontecera porque ele havia tentado salvar uma menina que não queria causar dano algum e não podia se defender. A vida, definitivamente, parecia muito complexa para a alma de Luck.

Ele ganiu um pouco, disfarçando sua fraqueza com sua respiração ofegante, e posicionou sua cabeça sob a mão da menina, buscando algum conforto. Mas a criança estava injuriada com a recepção de Lady. Não tinha como punir a cadela, mas o cão estava a seu alcance.

Assim, ela bateu com toda força no focinho de seu carinhoso amigo. Luck não ficou nada feliz em ser castigado. Suspirou, uma segunda vez e se deitou, sentido-se miserável; colocou a cabeça entre as patas dianteiras, e seus olhos grandes e tristes ganharam um pesar desnorteado.

A primavera deu passagem ao verão. E, com o passar dos dias, a menina deixava cada vez mais de se assemelhar a uma múmia atrofiada e começava a lembrar uma magra criança de cinco anos. Ela comia e dormia, como não fazia havia meses.

A parte inferior de seu corpo continuava morta. Mas as bochechas estavam rosadas, e os olhos tinham vida outra vez. As mãos que puxavam Luck, fosse por amizade, fosse por punição, estavam mais fortes também. Cada puxão doía mais do que antes. Mas Luck sempre conseguia encontrar prazer em cada uma delas, um prazer que ajudava seu coração a superar o distanciamento de Lady.

Em uma quente manhã de junho, quando seus donos tinham ído até a cidade buscar a correspondência, a mãe da menina levou a cadeira de rodas da filha para um canto repleto de árvores perto do lago, um lugar que parecia ser mais fresco que a varanda, com muita sombra e grama alta.

Era exatamente o lugar que um visitante cosmopolita procuraria para descansar. E exatamente o lugar no qual nenhum homem do campo arriscaria se aventurar, naquela época, sem botas de cano alto.



CONTINUA...


Notas Finais


Oiiee <3 Como estão? Espero que bem.

Muito bem... Mais um capítulo fresquinho para vocês, meus lindos leitores ( se é que tem alguém lendo isso ).

Eu amei esse capítulo, porque fala bastante sobre esse "preconceito" das pessoas com o pastor alemão. Muitas pessoas falam e até eu já ouvi pessoas falando que o pastor alemão é uma raça muito arrisca. Sendo que é uma das raças mais apropriadas para cuidados com crianças e bebês, sendo chamado até de "cão babá". Eu não entendo muito o por que desses pessoas falarem isso. Mas cada um com sua opinião, não é?

Casos a parte, eu tenho ranço da mãe da garota. Meu Deus, que mulher insuportável, não? Quem está com raiva dela, vai ficar com mais raiva ainda no desfecho. E quem ainda não pegou raiva, com toda certeza, vai pegar no desfecho. Vocês não estão preparados para o desfecho dessa aventura.

Well... Acho que é só isso. Espero que tenham gostado. A parte dois e última parte sai ainda hoje. Provavelmente lá para umas 20:00 ou 22:00. Espero ver vocês lá.

Não se esqueçam de comentar, favoritar, compartilhar, me seguir aqui no Spirit e beber muita água.

Nos vemos daqui a pouco. Beijão.

🖤🧡🖤🐶🧡🖤🧡


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