História Lullabies - Capítulo 1


Escrita por: e tteokie

Postado
Categorias X1
Personagens Lee Hangyul
Tags Creepypasta, Halloween, Hangyul, Hyeongjun, Hyeongyul, X-one
Visualizações 63
Palavras 12.933
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Fantasia, Ficção, Mistério, Shonen-Ai, Sobrenatural, Terror e Horror, Violência
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Tortura
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá olá! Primeiramente eu gostaria de desejar FELIZ HALLOWEEN *beeeeeemm* ATRASADO!!
É minha primeira estória para o projeto e tenho um carinho enorme por ela, então aproveitem a leitura e espero que gostem! ;)))

Capítulo 1 - Little children, please don't squirm


Os solados grossos dos sapatos encontravam-se com as pequenas poças de água do chão com rapidez enquanto os olhos focaram nas ruas pouco movimentadas do fim da tarde sob o chapéu. Mantinha a mão esquerda no bolso do sobretudo escuro enquanto a direita segurava com força o guarda-chuva sobre sua cabeça, impedindo as gotas finas e numerosas de o molhar por completo. Havia sido um dia frio demais, até mesmo para o auge do outono em Londres. O ludismo havia deixado rastros na economia europeia, mas a Revolta dos operários na Revolução Industrial também havia levado muitos dos cidadãos a refletir sobre as palavras ditas pelos homens, passando assim a confiar ainda menos em pessoas e a acreditar ainda mais em objetos inanimados. Bem, aquele pensamento não chegou apenas a cabeça dos operários, mas também dos espectadores alheios a tudo aquilo.

 

Lee Hangyul não era dali, mas era onde deveria estar. Descendente dos Homens de Letras Britânicos, sentia que, mesmo sem interesse algum em juntar-se a ordem dos preceptores e espectadores e cronistas do sobrenatural, tinha o dever de ajudar pessoas e, bem, era esse o motivo de ele estar maltratando os blocos de concreto e pedra da estrada molhada. Eram vésperas da data do festival celta da colheita, conhecido como Halloween e que inspirou Charles Dickens a escrever Um Conto de Natal em sua volta da América, e já era notável o toque sombrio nas ruas.

 

Os europeus deleitavam-se com contos de terror e festividades que remetem a esse tema, portanto levavam a sério a data. Fantasiavam suas crianças, enfeitavam suas casas e as ruas ficavam ainda mais sinistras. Incrivelmente, era como se o inverno novamente cobrisse com seu manto toda a extensão territorial, fazendo com que o frio intenso se alojasse ali. Hangyul findou os passos largos e rápidos quando viu-se no seu destino. Levantou a cabeça e contemplou a grande casa a sua frente. Não era luxuosa, pelo contrário, parecia desgastada, mesmo com a arquitetura padrão das casas burguesas da época. A tinta esbranquiçada aparentava sujeira, era possível vislumbrar até mesmo o tijolo sob o que um dia fora o reboco, as janelas grandes e as luzes fortes das velas davam um ar de poder, o que contrastava com a parte externa. 

 

Lee sentiu um breve arrepio ao dar o primeiro passo em direção a porta da residência, era como uma tensão palpável que faria qualquer um hesitar, mas ele não era qualquer um. Não era caçador, eles eram vorazes e bárbaros demais, e entre atirar e depois perguntar ou o contrário, ele preferia ouvir; e era exatamente isso que ele iria fazer e não seria impedido, por isso, deu algumas batidas na madeira da porta com a mão livre e enluvada, esperando apenas alguns segundos para que vislumbrasse a face de uma senhora. Corrigiu a postura e, ainda com o rosto sério, forçou um mínimo sorriso simpático. 

 

— O que desejas, rapaz?

 

Ouviu a voz rouca da senhora que casava perfeitamente com seu semblante sério e o clima colaborava para que a tensão ali fosse ainda maior. A apreensão no peito o fazia querer sair dali o mais rápido possível, mas não o faria. Estava certo de seu objetivo, e sairia dali apenas com a missão cumprida, e era isso que ele repetia para si mesmo em todos esses anos, impedindo que os fantasmas abstratos e medos banais o fizessem regredir e o impedir de fazer aquilo que era necessário para o bem maior.

 

— Aqui é a Residência dos Nam, estou correto? Fui solicitado à tarde e espero lhes ser útil. Não sou um deles, então gostaria de não ter esta estaca em meu peito ou minhas vestes molhadas por água benta, seria um desperdício, com todo o respeito.

 

Manteve sua postura ao ver o rosto da velha se suavizar e ela abrir a porta por completo, tornando possível o vislumbre da estaca de madeira em sua mão esquerda. Ela tocou seu pingente que continha um crucifixo e uma quantidade pequena de água benta em uma pequena garrafinha de vidro, ainda se mantendo séria. 

 

— O senhor é esperado. Sra. Nam o aguarda nos aposentos do pequeno. Eu lhe guiarei.

 

Com um aceno de cabeça, Hangyul fechou o guarda-chuva e o pôs no cantinho da porta, tirando os sapatos e acompanhando a senhora para o interior daquela enorme e esquisita casa. Haviam alguns crucifixos nas paredes e até mesmo um pequeno e adornado altar para algum santo católico que ele não se interessou em descobrir a quem se referia. Era, de longe, uma casa normal de uma família extremamente religiosa, o que levou uma questão a cabeça do visitante: “Por que chamaram um estudioso em averiguações sobrenaturais se poderiam ter recorrido a um padre qualquer?”

 

Não que ele acreditasse que a Igreja tivesse algum tipo de controle a esse tipo de assunto, pelo contrário, eram excessivamente dogmáticos e apenas atraíram ainda mais a interferência do maligno, como sempre ocorria, mas seria o lógico que alguém religioso buscasse seu líder religioso para o ajudar em questões como essa. Contudo, ele estava ali, e não era de importância alguma os motivos de ter sido solicitado, apenas lhe importava realizar o que estava ali para fazer.

 

Possessão demoníaca foi imediatamente descartada no momento em que os olhos de Hangyul pousaram no pequeno garoto. Nam Dohyun, de doze anos, estava sofrendo com pesadelos frequentes e insônia; dizia ouvir vozes, passos e canções de ninar; mas o que mais o assustava era o seu suposto amigo imaginário. Possessão desgastava a pessoa tanto psicológica quanto fisicamente, e a criança estava em perfeitas condições físicas. Demônios deixavam seu rastro por onde passavam, mas Lee não havia encontrado enxofre e nem ocorridos nas redondezas relacionados a isto. Então o que atormentava o pequeno Nam não era um demônio, mas sim outra entidade.

 

O quarto era bem iluminado, possuía uma janela grande com uma cortina clara, o papel de parede era em um azul claro mais opaco pelo tempo, era bem organizado e limpo, mas a atenção da visita era o garoto que estava sentado na cama com sua mãe ao seu lado. Ele possuía o olhar focado em algum lugar vazio enquanto balançava as perninhas que não alcançavam o chão e a mulher parecia preocupada. 

 

— Ele sempre fica assim... todos os dias, por volta desse horário, Dohyun fica indecifrável, imóvel e quase anestesiado para logo depois voltar ao seu estado normal e contar como seu amiguinho é espoleta. 

 

A sra. Nam dizia enquanto fazia carinho nos fios escuros do garotinho, seu tom denunciava preocupação e medo. Hangyul estreitou os olhos. O que eles tanto temem? Mas antes que ele pudesse tirar alguma conclusão ou completar sua pergunta interna, viu os olhos pequenos do menino focarem em seu rosto.

 

— Olá, quem é você?

 

A voz infantil foi ouvida e o homem sorriu para o Nam, aproximando-se e ficando de joelhos na frente de Dohyun.

 

— Sou Lee Hangyul, um amigo que veio ajudar você. — sorriu de forma simpática, recebendo um olhar confuso do menor.

 

— Me chamo Nam Dohyun... mas o senhor veio me ajudar com o quê? 

 

— Você vê e ouve coisas estranhas, estou certo? — viu o menino confirmar com a cabeça — Pois bem, vim te ajudar com isso. Primeiramente, quero que me conte exatamente o que acontece.

 

Viu os ombros de Dohyun se encolherem e imediatamente seus olhos focaram na mulher. Claro que o garoto não diria na frente de sua mãe, filhos não se sentem confortáveis em falar certas coisas frente aos progenitores e Hangyul entendia perfeitamente, por isso, com o olhar, pediu para a matriarca os deixar a sós no quarto, e agradeceu mentalmente por ela ter entendido e realizado o pedido.

 

— Muito bem, agora pode me contar.

 

— É que... — o menino olhou para a janela, tendo em sua vista as gotículas que escorriam pelo vidro — a noite, quando estou dormindo, ou ouço vozes... é como um homem com uma voz grossa que canta uma canção. 

 

— E como é a canção que ele canta? Você pode me dizer?

 

Dohyun ficou um pouco pensativo, mas logo balançou a cabeça positivamente. 

 

— “Venham criancinhas, venham comigo. Seguras e felizes, vocês serão. Longe de suas casas, agora vamos correr. Com Hypno, vocês vão se divertir muito... — Lee franziu as sobrancelhas quando o filho dos Nam recitou o primeiro verso da canção de ninar que sempre ouvia nas noites — ...oh, criancinhas, por favor, não chorem, Hypno não faria mal a uma mosca. Sejam livres pra se divertirem, sejam livres para brincar. Venham comigo para ficar na minha caverna... — naquele ponto, os olhos do garotinho já lacrimejavam e sua voz falhava, então o mais velho segurou em sua mão pequena, o encarando de forma reconfortante, então ele continuou — ...oh, criancinhas, por favor, não se contorçam. As cordas, eu sei, vão te segurar firme. Agora olhe para mim, o pendente chama. Para trás e para frente, suas pálpebras caem. Oh, criancinhas, vocês não podem sair. Por vocês, suas famílias sofrerão. A mente deles irá desvendar as costuras, permitindo-me assombrar os sonhos deles... — o rosto pálido da criança já se banhava em lágrimas e a voz estava falha, então os olhos se fecharam com força e ele respirou fundo antes de finalmente finalizar — ...Não chorem, não esperneiem. É hora de vocês irem dormir. Oh, criancinhas, vocês não foram espertas. Agora vocês ficarão comigo para sempre”.

 

Após encerrar a cantiga, a criança olhou para um ponto específico do quarto, que era o encontro entre as duas paredes ao lado as janela, e seu coração acelerou ao ver ali o seu amigo imaginário em pé, os olhos grandes e fundos o mirando com desaprovação e a cabeça balançando em negação, os cachos bagunçados lhe caíam sobre a testa e as vestes rasgadas junto a palidez descomunal o deixavam ainda mais assustador. Os olhos do pequeno Dohyun arregalaram-se de imediato e Hangyul acompanhou o olhar do mais novo, não encontrando nada ali.

 

— O que você está vendo, Dohyun?

 

A entidade levou o dedo indicador aos lábios, mandando o menino não falar sobre ele, e a criança estava beirando um ataque de pânico. A verdade era que o sentimento do Nam para com o ser não era amizade, era quase pavor. Desviou o seu olhar do ser e apertou a mão do maior, o puxando para mais perto de si de súbito e sussurrando em seu ouvido:

 

— Socorro.

 

▪︎

 

Os dedos batucavam sem parar na madeira da escrivaninha, os olhos sob as lentes dos óculos arredondados mantinham-se atentos aos papéis sobre a mesa e a mente encontrava-se como um rolo de linha, daqueles que gatinhos tentam desenrolar, e Hangyul gostava dessa comparação pois, naquele momento, ele não conseguia entender muito do que estava acontecendo, e não saber era sua maior agonia. Detestava o fato de que sempre existirão coisas que ele não saberá e, para si, a pior parte de desvendar mistérios é a inicial, pois nela você nunca sabe de nada.

 

A conversa com o filho dos Nam havia o deixado pensativo pelo decorrer daquela e mais duas noites, mas o que continuou em sua cabeça foi aquela canção. A canção de ninar que era ouvida por Dohyun através de uma voz grossa e rouca de forma sombria havia tirado o seu sono pelo simples motivo de ser algo novo para si. Lee não era velho, pelo contrário, em seus vinte anos de idade nos quais onze foram dedicando-se ao estudo das coisas que vivem no escuro — talvez nem tanto, já que muitos se escondem melhor nas luzes que nas sombras — já havia visto de tudo um pouco. Não era uma ambição sua continuar com a linhagem dos Homens de Letras Britânicos, não pelo que dependesse de si. Não concordava com muitos pensamentos e atitudes dos membros da organização, mesmo que admirasse outras. 

 

Sua melhor decisão, pensava consigo mesmo, havia sido sua renúncia. Era algo recente, não fazia mais de dois anos, mas a sensação boa de liberdade nunca o deixara se arrepender de sua escolha, mas usaria seus aprendizados e conhecimentos para ajudar os outros, de acordo com seus próprios princípios. Por isso estava ali, mais uma vez, com os neurônios explodindo e os olhos já cansados e lacrimejantes pelo sono. 

 

A lua estava quase no horizonte, faltava pouco para o sol nascer, mas ele ainda não havia fechado os olhos por mais que cinco minutos. Repetia em sua cabeça diversas vezes a  fala do menino Dohyun e a canção de ninar ecoava em seus ouvidos como se fosse levada pelo vento; Hangyul não saberia explicar, mas sentia que aquele não era qualquer caso, havia algo diferente. Suspirou pesado, soltando o lápis que segurava sobre a escrivaninha e tirando os óculos de descanso ao passo que deixava seu corpo pender para trás na cadeira. 

 

— Socorro…

 

Repetiu baixinho a última fala da criança e repôs sua postura, sentindo todo o cansaço do sono se esvair completamente, o deixando atento como se houvessem litros de cafeína circulando em suas veias. Levantou-se, ficando com sua fronte para a parede cheia de pinos que ligavam fios vermelhos sobre pedaços de jornais e localizações, também cheia de anotações feitas com tinta de caneta de diferentes cores; e observando todo aquele material que havia reunido para aquele caso, como histórico de moradores daquela casa e o que lhes levou a saírem dali, pequenos relatos que recolheu e matérias nos jornais sobre acontecidos na cidade semelhantes ao que estava ocorrendo com Dohyun e sua família. 

 

Os olhos encurtaram quando pousaram em uma imagem em específico em um jornal qualquer. A qualidade da imagem era ruim pela pouca tecnologia da época e desgastada pelo tempo, mas alguns pontos eram claros de serem observados, como a família formada por apenas um casal e seus dois filhos. A notícia era de que, misteriosamente, a casa da família Han havia sido engolida pelas chamas após o patriarca, Han Soohyuk, entrar em combustão espontânea sem causas aparentes, deixando apenas um único sobrevivente, Han Seungwoo, de cinco anos, e a menina, de apenas dois, nunca foi encontrada. Haviam se passado dezenove anos após o misterioso acidente — que havia sido adicionado ao arquivo morto da polícia por não existirem provas criminalísticas — e nenhuma outra família havia durado mais que dois meses na residência. 

 

Algumas famílias ficavam apenas por dias, outras semanas, algumas chegaram a não passar um dia completo ali. Espíritos vingativos? Talvez. Mas antes dos Han a casa era simplesmente mais uma construção abandonada. A imagem dos Han na fotografia em preto e branco era de uma família tradicional coreana que mantinha os padrões asiáticos mesmo com a cultura extremamente distinta da Europa pré-industrial. Pareciam ter boas condições financeiras e a casa também estava em seu período glorioso, visto que a pintura não estava tão desgastada e as condições físicas estavam em bom estado, porém não era esse o ponto. 

 

Aproximou-se da folha envelhecida do jornal e focou sua vista em uma das grandes janelas, e visualizou o que havia deixado passar. Era um garoto de aparência jovial e delicada, cabelos ondulados e olhos abertos que transmitiam medo e desespero. Era como um borrão acinzentado, mas as feições do rapaz eram visíveis aos seus olhos se ele prestasse muita atenção, e havia algo mais atrás, e aquilo o fez dar um passo para trás, tropeçando no cesto de lixo e deixando os papéis amassados espalharem-se no chão. 

 

Como uma sombra, na janela superior da casa havia um ser de aparência curiosa aos olhos do Lee e talvez assustadora para qualquer um. O ser que, por causa da imagem, ainda era apenas uma sombra possuía orelhas grandes e pontudas sobre a cabeça, era baixo e havia algo como um colar peludo ao redor de seu pescoço, como uma barba que necessitava ser aparada, em sua mão direita ele levantava um objeto de geometria circular com um círculo menor em seu centro e que era suportado por um fio segurado pela mão aparentemente grande do ser. Era difícil de visualizar pela pouca qualidade da fotografia, mas era suficiente para levar a curiosidade e o interesse ao âmago do rapaz.

 

— O nome dele é Hypno. Não se tem uma definição exata de sua raça ou espécie, nem mesmo sabe-se o que ele realmente é, apenas é de conhecimento seu histórico, o que nos dá uma ideia da dimensão de seus dons. Ele possui aparência perturbadora, ele parece ser humano, mas um pouco deformado. Suas orelhas pontiagudas, nariz enorme e pele de coloração amarela o dão uma aparência animalesca. Reza a lenda que ele hipnotiza crianças com esse pêndulo que ele carrega na mão direita e as leva para sua caverna para, segundo alguns, as devorar. Essa última parte é incerta.

 

Hangyul assustou-se e virou em direção a voz conhecida, logo reconhecendo Cho Seungyoun, o único no qual ele realmente conseguia chamar de melhor amigo. Conheciam-se a anos e partilhavam o segredo das investigações e casos sobrenaturais. Seungyoun sempre estava na estrada, viajando por aí apenas por diversão e apreço a novos lugares e culturas, também entrando em um ou dois casos pelo caminho; o que deixava o Lee confuso e curioso era o fato de o amigo estar ali naquele horário, naquele lugar e ainda saber do que se tratava o que quer que fosse o tal Hypno.

 

— E eu poderia saber como você sabe de tudo isso e como está aqui?

 

Foi o que a voz rouca e grave perguntou enquanto um sorriso se formava no rosto. Seu tom era descontraído, o que fez com que Cho também sorrisse.

 

— Quer dizer que não pode um amigo visitar o outro? — jogou-se no sofá de estofado escuro, com o sorriso brincalhão característico se si no rosto.

 

— Claro que pode, você entendeu o que eu quis dizer. São quase quatro da manhã e você aparece de repente e ainda sabe mais do que eu sobre o caso que estou cuidando. — pressionou os olhos. — O que você está aprontando, Cho Seungyoun?

 

O coreano mais velho deixou o queixo cair, colocando as mãos sobre o peito em um ato dramático.

 

— Por que achas que eu aprontaria algo, Lee Hangyul? — após se entreolharem, ambos caíram na risada. — Poxa, você me conhece bem demais. Eu tenho medo de você, Hangyul-ssi.

 

Lee revirou os olhos e sentou-se ao lado do recém chegado.

 

— Você ainda não me respondeu, hyung. Aconteceu algo?

 

Por breves segundos, pôde perceber o olhar do amigo vacilar, mas apenas percebeu pois conheciam-se tão bem que nem mesmo o mínimo gesto passaria despercebido. 

 

— Nossa, Hangyul! Você está acabado! Você não dormiu, não é? Sei que você não fecha os olhos por muito tempo quando está em um caso, e já disse-lhe para que parasse com essas atitudes ou então…

 

— Seungyoun. — interrompeu. Sabia exatamente o que ele queria fazer, mas ele não fugiria do assunto.

 

O rosto do mais velho assumiu uma expressão séria. Hangyul havia obtido mérito e ele finalmente havia desistido. Estava ali, afinal. Não teria justificativa alguma para fugir de um assunto que havia ele próprio dado a brecha para que se iniciasse se não fosse, claro, pelo seu enorme receio que o fizera arrepender-se no momento em que o amigo virou-se para si a minutos atrás. Contudo, os dois sempre tiveram o discernimento para separar os lados de suas vidas — pessoal, profissional e sobrenatural —, o que, em momentos como aqueles, era um ponto somado para a duração e o poder da amizade que ambos cultivavam.

 

— Em minhas viagens pela América do Sul, mais especificamente no Chile, eu encontrei-me com um rapaz bem bonito. Tipo, bem bonito mesmo. Ele trabalhava na lavoura de café da sua família, na área administrativa da coisa, pois ele é claro demais para qualquer um pensar que passa horas no sol sul-americano. Encontrei-me com ele em um bar qualquer, ele estava no quarto copo da cerveja e tinha o chapéu um pouco torto na cabeça enquanto mantinha-se apenas com a parte interna do paletó…

 

— Hyung, eu não preciso saber das características desse homem. Céus, eu não preciso mesmo saber com quem você tem seus... encontros. — Hangyul o interrompeu, com uma careta no rosto.

 

— Enfim, a gente conversou e como a conversa estava boa demais, ele me chamou para ir até sua casa. Mas apenas para conversar mesmo, já que estávamos cansados e nossa conversa era mais sobre coisas bobas do dia, para passar o tempo. Contudo, enquanto ele foi em busca de um pouco de água, eu vi algo um tanto interessante sobre a mesa. — fez uma pausa, apenas por drama. — Era uma foto emoldurada em um porta-retratos, e nela continha uma família em frente a uma casa grande. Eu sabia que já a havia visto em algum lugar, por isso perguntei sobre de forma natural, e ele me disse que aquela era uma das poucas coisas que ele possuía que o permitia lembrar de sua falecida família. Havia sido uma fatalidade sem explicações para muitos, e que a sua palavra seria apenas a palavra de uma criança de cinco anos com a imaginação aflorada. 

 

Os pontos já começavam a ficar ligados na mente do Lee, que via o propósito de todo aquele drama de Seungyoun claro como a neve. Ao trocarem olhares, foi como decodificar o Código Da Vinci. 

 

— Sim, o nome dele é Han Seungwoo.

 

▪︎

 

O corpo pequeno e magro encontrava-se banhado em suor enquanto movia-se na cama choramingando baixinho. Os olhos de Nam Dohyun mantinham-se fechados à medida que revirava-se na cama, levando seus lençóis e travesseiros ao chão. Pressionava os olhos pequenos e tinha os cabelos molhados pela transpiração nervosa e a respiração pesada. Estava sufocando, mas precisava correr. 

 

Mais uma vez, em mais uma noite, a criança estava sendo atormentada pelos terríveis pesadelos que o acompanhavam e torturavam. Nele, encontrava-se em uma floresta escura e, ao longe, havia um único ponto de luz. Ele precisava correr, as folhas em sua proximidade já moviam-se com rapidez, era sinal de perigo. Correu o mais rápido que pôde, chegando a entrada de uma gruta iluminada por uma única tocha. Ao virar-se, vislumbrou o rosto amarelado e macabro, que possuía um olhar maléfico e cruel, e sentiu o estômago revirar e a garganta fechar.

 

— Você não foi esperto…

 

Ouviu a voz rouca e grossa pronunciar e um frio atravessar seu corpo, levando seus olhos a ficarem ainda maiores. Não conseguia se mover nem gritar, apenas sentia o desespero dominar seu corpo e seus sentidos.

 

— ...agora  você ficará comigo para sempre.

 

E, ao encarar o pêndulo arredondado, sentou-se na cama e gritou. Foi um grito tão desesperado que deixou sua garganta dolorida, mas ele estava com medo e, ao ouvir a melodia da canção de ninar soar,  sentiu o peito apertar e sua única vontade era de chorar. Ouviu passos aproximando-se de seu quarto e seu corpo todo já tremia. Ele queria sua mãe, queria abraçá-la e a ouvir afagar seus cabelos e dizer que havia sido apenas mais um pesadelo, afinal ele era uma criança. Apenas uma criança.

 

Prendeu a respiração ao sentir uma mão fria sobre a sua e pensou ter sentido o seu coração ter parado de bater por um segundo. Virou-se quase que imediatamente, seu medo era quase palpável, mas o desespero o estava fazendo agir por impulsividade e encarar os olhos grandes e profundos de seu amigo imaginário que possuíam quase o mesmo desespero que os seus, Dohyun sentiu que aquilo era bem pior que entregar sua prova de matemática para sua mãe. 

 

— Acorde.

 

Foi o que os lábios extremamente pálidos e ressecados pronunciaram, e tudo ao seu redor se desfez, apenas sendo ouvido ao longe uma voz talvez pouco conhecida, mas ele não poderia dizer que se importava. Ali, ao olhar para os olhos semelhantes aos seus e, atrás de si, uma sombra causada pela luz de um lampião mostrava que o ser se aproximava, Nam percebeu que sua infância já não existia a partir do momento em que ouviu a primeira nota de ninar.

 

— Dohyun! Dohyun! Dohyun!

 

Após piscar algumas vezes, o pequeno abriu os olhos e puxou o ar com força. Sentiu os ombros serem segurados e chacoalhados por mãos grandes e masculinas, mas não era capaz de reconhecer nem mesmo sua própria casa naquele momento. Seu coração estava esmurrando sua caixa torácica e o corpo banhado em suor, mas ele estava inerte. Ouviu o seu nome ser chamado pelo homem algumas vezes, e apenas depois disso que seus olhos foram capazes de focar na imagem a sua frente.

 

— H-Hyung…

 

Dohyun não hesitou em abraçar Lee Hangyul, que o retribuiu de imediato. Naquele abraço, a criança pôde chorar com a força que seu pânico achou necessária e apertou o mais velho com todo o terror que estava sentindo, mas, mesmo com os olhos fechados, ele podia sentir uma presença a mais no quarto. Os dois sentiam, e aquilo estava longe de ser algo bom. Aquela bola de neve havia se tornado o que Hangyul mais temia: uma imensa avalanche.

 

— Shh, está tudo bem... —  O Lee tentou acalmar o menino após perceber que seus soluços haviam diminuído. — Foi um pesadelo.

 

O mais novo notou a diferença na forma como a última frase foi dita pelo rapaz a sua frente. Era diferente de quando sua mãe o dizia pois ela falava como se aquilo fosse apenas imaginação, algo produzido pela sua cabeça criativa e por algo ruim, e logo após o mandaria rezar o resto da noite com a fronte para a representação de Nossa Senhora no pequeno altar de sua sala de estar. Mas a forma como o preceptor o dizia era como se aquilo fosse um pesadelo, mas não apenas isso. Havia algo a mais, e ele mesmo sendo uma criança fora capaz de entender; porque Nam Dohyun nunca mais seria uma criança normal.

 

— Você acha que pode me contar com o quê você sonhou?

 

O menino Nam apenas ficou parado e sem reação alguma, da mesma forma que Hangyul o havia encontrado em sua primeira visita àquela casa, há três dias. Seu olhar novamente estava direcionado ao cantinho da parede, mas dessa vez não tinha terror em seu olhar.

 

— Ele não está aqui.

 

A voz rouca pelo choro recente do pequeno disse em tom baixo, e o mais velho franziu as sobrancelhas. 

 

— Ele quem, Dohyun?

 

Nam apenas desviou o olhar da parede e o levou até a porta, que se encontrava aberta. Seu hyung talvez houvesse pedido que sua mãe não estivesse ali, e o menino o agradecia por isso. Não saberia como contar para ela, ela apenas o mandaria ir rezar e choraria o restante da noite em seu quarto enquanto ele ainda conseguia ouvir os sussurros da canção.

 

— Eu não sei dizer... eu não sei quem eles são... — olhou para Hangyul. — Hyung, o que ele quer fazer comigo?

 

— Eu não sei, pequeno. Mas irei descobrir, apenas preciso que você me ajude.

 

Os olhos de Dohyun vagaram por todo o quarto, pensativos e temerosos. 

 

— Você vai me mandar ir rezar? Gosto de fazer isso, minha mamãe me manda fazê-lo sempre que tenho sonhos ruins, mas eles nunca se vão. Eu não quero rezar, hyung!

 

A voz do garoto estava novamente embargada, então o mais velho afagou seus cabelos, tentando o reconfortar, mesmo não sendo bom com aquilo.

 

— Sua mãe quer apenas o seu bem, e não são eles que dizem que se deve esperar o milagre? — tentou sorrir pequeno, vendo que o menino havia se acalmado novamente. — Me diga, Dohyun. Como eles são?

 

Após alguns minutos em silêncio, ponderando se era certo ou não falar sobre aquilo, o Nam decidiu que seu hyung realmente pudesse o ajudar.

 

— Ele me disse para chamá-lo de Junnie, não sei seu nome completo. Ele nunca me causou mal, mas eu tenho medo dele. Ele parece um fantasma. — Sussurrou a última parte como um segredo. — O que canta... eu não sei quem ele é. Eu sonho com ele, os pesadelos... 

 

Parou ao sentir os olhos marejarem novamente e aquele pânico voltar, mas logo engoliu em seco. Ele iria contar, porque uma vez a governanta lhe disse que bons garotos ajudam os outros, e ele iria ajudar a si mesmo e a sua família. Aquilo era bom, não?

 

— Ele é amarelo, tem os olhos pequenos e bem escuros e é assustador. Ele é um pouco menor que eu e parece uma pessoa, mas o rosto dele... não parece. Ele tem o nariz grande e o rosto cheio de rugas, mas não como as da sra. Bradbury, ele parece um monstro do filme que Ann, uma coleguinha da escola, me mostrou uma vez. Ele tem algo na mão... eu não sei o que é, mas sempre que ele se aproxima de mim, o Junnie me acorda e depois passa dias sem aparecer.

 

— Hum... e o Junnie nunca fez nada de mal com você?

 

— Acho que não... mas eu tenho muito medo dele, porque ele é assustador, mesmo nunca tendo me feito mal.

 

Há um tempo atrás, Hangyul discordaria da opinião do garoto sobre o tal “Junnie" não ser do mal, já que Homens de Letras não acreditavam no perdão para criaturas malditas, mas com sua experiência, ele poderia sim considerar aquilo, mesmo que a opinião de uma criança não fosse uma das mais válidas nesses assuntos, afinal elas carregavam a inocência e a pureza nos corações e mentes.

 

— Entendo. E como ele é, digo, fisicamente? Você poderia o descrever?

 

— Sim... ele é bem maior que eu, mas é menor que você. Ele não parece ser um adulto, mas não é criança. Ele tem os cabelos enroladinhos e bagunçados, além dos olhos grandes e com olheiras escuras. Ele é bem magro e pálido também, a mão dele é gelada…

 

— Você o sentiu?

 

— Sim, no sonho. Quando ele me acordou, ele segurou minha mão. Normalmente, ele não se aproxima; fica sempre ali. — apontou para o encontro das duas paredes, que formava uma pequena sombra, pois a luz da vela não alcançava o local. — Eu nunca o ouvi falar nada, apenas “acorde" e “feche os ouvidos". 

 

— Por que ele te pediu para fechar os ouvidos?

 

— Por causa da canção de ninar. Ele não me deixa ouvi-la, sempre manda eu tapar os ouvidos e, como ele me dá medo, eu faço isso. Eu apenas a aprendi pois juntei os versos, como um quebra cabeças.

 

Lee prestava atenção em cada palavra dita pelo menino, porém não se assustou ao ouvir batidinhas fracas na porta de madeira.

 

— Ele precisa rezar.

 

Ao ouvir a mulher ditar as palavras, Dohyun voltou a ficar nervoso. Ele não queria rezar, sentia-se vulnerável perto do altar de Nossa Senhora, porque ele sempre estava ali perto e, percebendo as reações do menino, Hangyul voltou seu olhar para a matriarca.

 

— A senhora não acha que o melhor a se fazer é deixá-lo descansar? Foi uma noite conturbada, ele precisa fazê-lo. 

 

— Mas ele precisa rezar, sr. Lee. 

 

— Não me interprete mal, sra. Nam, mas nesse momento quem sabe o que é melhor para seu filho e o que ele precisa fazer sou eu. Tu me chamastes aqui, então acredito que tenhas confiança em mim, então acredite, Dohyun não rezará esta noite.

 

A senhora Nam limpou a garganta, mostrando que não concordava com aquilo, mas se retirou, dando a entender que sabia que, apenas de tudo, o Lee estava correto. Ela era apenas uma religiosa dogmática que estava começando a se arrepender de ter ido contra sua fé contratando alguém como aquele homem. 

 

— Obrigado... 

 

— Por que você não gosta de rezar?

 

Hangyul foi direto na pergunta, fazendo o menino se encolher um pouco.

 

— Ele fica me observando. A criatura amarela. Ele me encara como se estivesse com raiva de mim, é horrível!

 

Ao lembrar daquilo, Dohyun já pôde sentir seu corpo tremer. Os olhos pequenos que o encaravam com fúria daquele ser com aura demoníaca e macabra o faziam quase ter uma crise de pânico. 

 

— Ei, está tudo bem, sim? Ele não vai voltar por hora. E no que depender de mim, ele nunca mais voltará, apenas tenha paciência e seja forte. Você é ou não é um guerreiro?

 

Sorriu para o menino, que não pôde evitar retribuir o sorriso, destruindo assim aquela tensão que havia se alojado no quarto.

 

— Sou sim!

 

— Isso, garoto! — fechou a mão em punho, esperando o mais novo fazer o mesmo e darem um leve soco um na mão do outro. — Agora durma, grandes homens precisam descansar.

 

O mais novo dos Nam deitou-se na cama e Hangyul o embrulhou com o lençol, logo se dirigindo até a porta do quarto do garoto.

 

— Obrigado, hyung.

 

Ouviu a voz sonolenta do menino e sorriu para o mesmo.

 

— Não há o que agradecer, pequeno. As vezes é preciso salvar heróis. 

 

Sorriram novamente antes de o Lee abrir a porta e fechá-la atrás de si, rumando para a saída da residência, porém não sem antes parar em frente ao luxuoso altar de Nossa Senhora e o encarar com os olhos curiosos e minuciosos. A santa tinha uma aparência pacífica, o que contrastava com a aura ao seu redor, que era escura e pesada. 

 

— O céu está caindo lá fora. 

 

Ouviu a voz conhecida da sra. Nam e virou-se, vislumbrando a mulher o encarando enquanto tinha os braços cruzados, abraçando o próprio corpo, e foi apenas quando pousou os olhos em uma das janelas que viu as gotas de chuva escorrerem pelo vidro.

 

— Você pode ficar, se quiser. — ela continuou. — Temos quartos vagos, você pode descansar esta noite.

 

— Obrigado, sra. Nam, entretanto não irei aceitar. Preciso organizar algumas coisas em meu alojamento, mas muito obrigado pelo convite.

 

— Você irá nesta chuva? Seja sensato, você poderá colher frutos não muito agradáveis com algumas decisões.

 

O homem encurtou os olhos, percebendo a ambiguidade das palavras da mulher, mas manteve sua postura, segurando seu guarda-chuva e sorrindo de lado.

 

— Gosto de surpresas. — acenou com a cabeça, colocando o chapéu sobre a cabeça e abrindo a porta. — Tenha uma boa noite, senhora. A propósito, coloque mais velas no quarto de Dohyun, ele não gosta do que vê no escuro.

 

Fechou a porta atrás de si e abriu o guarda-chuva, tendo a vista da cidade úmida e as gotas de chuva que caíam sem parar na cidade noturna, avançando pelas ruas em que o único barulho a ser ouvido era o chiado causado pelo temporal. Mantinha a mão esquerda no bolso do sobretudo, buscando assim aquecer o próprio corpo e, quando pisou em mais uma poça, sentiu algo que o deixou novamente atento.

 

Uma bola de bilhar vermelha havia colidido em seu pé direito. Olhou ao redor, não vendo nada mais que gotas grossas de chuva, casas e ruas molhadas e nenhuma outra pessoa ali. Quem, em sã consciência, estaria na rua naquela hora da madrugada enquanto o céu caía em forma de água nas vésperas da data sombria? Aquele era um problema a menos, já que nem havia passado pela cabeça de Hangyul que fosse realmente uma pessoa. Bem, pelo menos não uma pessoa viva.

 

E, ao ver uma silhueta de estatura mediana em um beco estreito, ficou ainda mais confuso. A pessoa o encarava com o olhar misterioso. A troca de olhares não durou muito tempo, pois a pessoa sumiu entre as sombras antes do Lee sequer ponderar sua natureza. Mas não era uma fuga, ele queria ser seguido; e, claro, sua vontade seria acatada.

 

Os solados grossos novamente se puseram a pisar com rapidez no chão molhado, seguindo o que parecia ser um garoto. Entrava em becos e vielas e, após três quarteirões inteiros, ao virar na última esquina, viu ali, parado, um rapaz com os cabelos ondulados molhados caindo-lhe a testa e os olhos bem abertos. Parou, um pouco ofegante e também parcialmente molhado, e o encarou; porém antes que pudesse falar algo, ele foi mais rápido. 

 

— Socorro.

 

E, inesperadamente, o rapaz caiu. Hangyul, mesmo confuso, correu até ele e reparou em suas expressões. Ele estava inconsciente, tinha traços delicados e o corpo magro e pequeno, e estava extremamente pálido; parecia que ele não se alimentava há dias, mas o que deixou o Lee intrigado foram as manchas avermelhadas na camisa branca que ele trajava e os cortes pequenos em seu rosto. Ele estava bastante machucado e fraco, o que deixava aquela situação ainda mais estranha.

 

Deixando para trás o seu guarda-chuva, segurou o rapaz em seus braços e o levou até o seu alojamento — que não se encontrava mais tão distante. A chuva havia se intensificado e agora os dois corpos se encontravam encharcados, mas aquilo não incomodou o investigador sobrenatural, nem mesmo o peso do que se encontrava desacordado em seus braços, pois era como carregar plumas. Sua mente estava uma bagunça, os dias sem dormir estavam surtindo efeitos e a pouca cafeína em seu organismo o estava deixando em uma dramática crise de abstinência, no entanto ele tinha responsabilidades maiores que o próprio bem estar.

 

Ao chegar em seu quarto que alugou por alguns dias em uma pensão local, viu Seungyoun se assustar com sua entrada inesperada e apressada, arregalando os olhos ao ver que ele não estava sozinho, mas Hangyul o disse com o olhar para que não fizesse perguntas, apenas o ajudasse, e foi o que o mais velho fez. Levou toalhas para o rapaz que estava inconsciente, ajudando o outro a deitá-lo na cama.

 

— Vá se banhar, eu cuido dele.

 

— Eu tenho anticorpos fortes, mas ele pelo visto não está em boas condições. Não acha melhor banha-lo primeiro?

 

Após um breve suspiro, Cho concordou e os dois mergulharam o rapaz na banheira com água morna, vendo este se debater quase em uma convulsão febril, e o Lee olhou assustado para o mais velho, que apenas retribuiu o olhar e, após um tempo, finalizaram o banho. Naquele momento, encontravam-se velando o sono do desconhecido, ambos com confusões distintas e semelhantes.

 

— Muito bem, farei a primeira pergunta. — ditou, recebendo apenas um acenar de cabeça do amigo. — Quem ou o que ele é?

 

— Ótima pergunta.

 

De primeira, Seungyoun achou que Hangyul estava fazendo algum tipo de brincadeira, mas ao analisar seu tom de voz, percebeu que aquilo era realmente algo sério, então apenas limpou a garganta.

 

— Por que ele está aqui?

 

— Bem, ele queria que eu o seguisse, e depois ele pediu socorro e desmaiou.

 

— E você fala isso com naturalidade?

 

Lee apenas deu de ombros, ao passo que seu amigo negou com a cabeça, resolvendo não insistir em discussões inúteis e infantis.

 

— O que me intriga é: de quem, ou de que, ele estava fugindo? 

 

— É uma boa pergunta…

 

O recinto deitou-se em um silêncio momentâneo no qual o barulho das engrenagens trabalhando nas mentes dos amigos era quase audível, porém foi quebrado por uma tosse acompanhada de pequenos choramingos, o que assustou os dois rapazes.

 

— Ele está acordando... 

 

E, ao abrir os olhos — que se irritaram com a luz das velas —, a pergunta que rondava o ar era: quem, pelos céus, era aquele garoto? Mas tempo nenhum tiveram antes que o rapaz levantasse em um pulo da cama e corresse até a porta do quarto, sendo impedido pelos braços fortes de Hangyul.

 

— Ei, calma. Nós não vamos te fazer mal.

 

O mais baixo mantinha os olhos arregalados e a respiração ofegante, como se estivesse com medo de algo. Não falou nada, apenas tentou se acalmar enquanto sentia o aperto do desconhecido afrouxar-se. 

— Muito bem, está melhor?

 

O outro balançou a cabeça levemente e foi solto dos braços do maior. Os dois amigos se entreolharam ao observar o olhar assustado do que estava desacordado a minutos atrás. Ele olhava para todos os lados, sua respiração estava mais compassada, mas ainda transparecia nervosismo.

 

— Onde eu estou?

 

— Em Kensington, para ser exato. 

 

A expressão do que parecia ser o mais novo dali intrigou o Lee, que, após o analisar, discordou da resposta do Cho.

 

— Não é isso que ele quer saber. Estou certo?

 

Ao conseguir o olhar do rapaz misterioso sobre si, Hangyul soube estar certo sem mesmo ter uma resposta. Seungyoun ficou confuso, e sua dúvida não foi sanada, como esperava, ao ouvir o mais novo completar sua sentença:

 

— Você não quer saber um distrito, então, o que você quer saber?

 

O ainda não nomeado apenas olhou para baixo antes de voltar seu olhar para as paredes cheias de fios vermelhos e pedaços de jornais e depois para a notícia em destaque no meio de todo aquele material.

 

— Han... 

 

As lágrimas que apareceram em seus olhos surpreenderam os dois que apenas o observavam com a mesma dúvida no olhar. 

 

— Como sabe? 

 

Foi Seungyoun que perguntou, já não aguentando sua curiosidade faminta por respostas.

 

— Eu sei de muitas coisas, Cho Seungyoun. — respondeu, olhando fixamente para o mais velho, que ficou boquiaberto.

 

— Uh, então você o conhece? — questionou Hangyul, voltando a aproximar-se, o analisando minuciosamente. — Fale mais sobre isso.

 

Sua resposta foi apenas um riso cheio de sarcasmo, que logo se transformou em um sorriso doce. Lee pensou que ele seria de aparência adorável se naquele momento não estivesse agindo de maneira tão misteriosa, o fazendo novamente odiar a situação em que se encontrava.

 

— Eu conheço muitas pessoas, mesmo não muitas me conhecendo. — parou, de repente, e voltou a puxar o ar com força. — Não há tempo. Por favor, o ajudem. Quando ele chegar e eu não estiver mais aqui, o Big Bang soará treze badaladas.

 

Assustaram-se quando uma rajada de vento trouxe o que pareciam milhares de asas de pássaros a bater em uma velocidade assustadora e, ao virarem-se, não encontraram mais ali o rapaz.

 

— Tudo bem... o que foi isso?

 

Seungyoun, que não havia movido um músculo desde o despertar daquele que era um mistério, pronunciou após um momento de silêncio para absorver tudo aquilo que havia acontecido em menos de uma hora e meia.

 

— Buda sabe que eu gostaria muito de te dar uma resposta. Aigoo, odeio quando isso acontece! — mergulhou os dedos nos próprios fios de cabelo, nervoso.

 

— Você não é budista, e sei que deve estar com muita raiva por este ser mais um caso no qual tem algo que você não sabe, eu te conheço, e por isso digo que você não deve tratar com condescendência nada que acontece enquanto você estiver ajudando o menino Dohyun.

 

— Sei disso, hyung. Eu irei descobrir e salvar Dohyun. 

 

— Acredito em você. — sorriu de forma reconfortante para o outro. — Agora vá dormir, ainda temos algumas horas até o nascer do sol.

 

Assentiu e se direcionou até o pequeno colchão que se encontrava no chão, mas logo foi parado por um grito da voz aguda de Youn.

 

— Yah! Você vai dormir na cama! Fazem quantos dias que você não tem um sono decente? Sei que com os ocorridos não é algo muito possível, mas você precisa de pelo menos cinco horas de sono. Digo, o correto são oito, porém eu sou a lei e sei que você não vai ser um cidadão lícito e cumpridor da Constituição se eu determinar desta forma.

 

— Primeiramente, não grite, não estamos sozinhos, as pessoas que não lidam com coisas sobrenaturais todos os dias ainda dormem. — riu levemente. — E não é como se eu não dormisse... — a sobrancelha levantada do mais alto o fez suspirar, derrotado. — Tudo bem, tudo bem. Sai.

 

Seungyoun sorriu abertamente ao levantar-se da cama e se jogar no colchão, reclamando de dores logo em seguida, mas ainda sorrindo. 

 

— Não entendo o por quê de você ainda querer discutir comigo, Gyul. Eu sempre ganho.

 

Hangyul limitou-se a apenas revirar os olhos e sorrir pequeno enquanto sentia o corpo relaxar sob as cobertas. Seus músculos precisavam disso, sua mente precisava disso. E, após o “boa noite" desejado por ambos, o dia se encerrou com planos já traçados para os dias seguintes, tendo como o primeiro da lista um nome: Han Seungwoo.

 

▪︎

 

O sol estava alto no céu enquanto aquecia levemente a tarde fria, deixando o clima em Hyde Park ainda mais agradável. Lee Hangyul encontrava-se sentado em um dos bancos em frente ao lago no mesmo tempo visualizava alguns senhores jogando migalhas de pão aos patos, tal como senhoritas bem acompanhadas nos arredores do parque. Estava novamente com seu inseparável sobretudo e chapéu, esperando aquele que Seungyoun dissera ter contatado na tarde anterior.

 

Levantou-se, tirando o chapéu para cumprimentar o recém chegado que vinha ainda a alguns centímetros de distância de si, este que sorriu pequeno, retribuindo o cumprimento e mostrando sua confusão. 

 

— Desculpe a falta de educação, mas onde está Seungyoun? Achei que ele fosse estar presente.

 

— Seungyoun teve imprevistos e não pôde vir, e pediu desculpas por isso. — viu o outro assentir. — Oh, perdoe minha indelicadeza. Sou Lee Hangyul. — estendeu sua mão, que logo foi apertada.

 

— Han Seungwoo. 

 

Sorriram de forma simpática um para o outro e sentaram-se lado a lado no banco. Enquanto Hangyul passava a observar novamente a paisagem ao seu redor, Seungwoo permanecia confuso. Seungyoun não havia sido objetivo ao informar-lhe sobre o encontro requerido com um completo desconhecido, e ele sabia que sua atitude de comparecer poderia ser um tiro no escuro — afinal não era como se fosse amigo próximo do Cho a anos e depositasse em si toda a sua confiança —, mas decidiu arriscar.

 

— E então, o que desejas?

 

O Lee repassou todas as palavras que deveriam ser ditas da melhor forma em sua cabeça e virou-se para o outro, o encarando nos olhos escuros.

 

— Acredito que Seungyoun deva ter lhe dado uma breve prévia sobre o assunto que preciso conversar com você, correto?

 

— Na verdade, ele foi bastante superficial. Mas sim, ele disse algo sobre isso, e eu não entendo qual seria a necessidade de trazer a tona algo que já foi enterrado.

 

— Este é exatamente o ponto. Foi enterrado, mas não foi encerrado. Eu preciso que você me diga exatamente o que aconteceu naquele dia, Han. Vidas estão em risco.

 

Seungwoo ficou pensativo por um momento. Aquele era um assunto delicado para si, e tinha ciência que  o Lee sabia daquilo, por isso estava tentando ser o mais delicado possível. Bem, não havia motivos para desconfiar, afinal já havia contado para Seungyoun, que diferença faria contar para seu amigo? E, se estivesse entregando aquilo em mãos erradas, nenhuma vírgula fica corretamente posicionada quando posta depois de um ponto final, e, para si, o seu passado já havia recebido um fim.

 

— Eu tinha cinco anos e uma imaginação fértil, mas acredito que essa parte você já conheça. Nós éramos felizes na Coreia do Sul, meu pai tinha um negócio de especiarias que rendia muito, contudo com a industrialização, a máquina a vapor e agregados, nosso negócio passou a não render tanto, então nos mudamos para cá. Londres é pioneira na revolução das indústrias, então foi um prato cheio para minha família, e com poucos anos nós já tínhamos lotes com plantações de café e alguns maquinários e funcionários. Éramos prósperos, bem, meus pais. Eu era apenas uma criança quando vim para cá, uns três anos, mas as coisas complicaram quando nos mudamos para aquela casa.

 

Seungwoo tinha os olhos perdidos enquanto mirava algo qualquer no parque, mas Hangyul permanecia o encarando, com atenção em suas palavras, então, o Han continuou:

 

— Era uma das mais caras, papai tinha sede de grandeza e disse que se nos mudássemos para ela, seríamos respeitados. Então, como uma família patriarcal e conservadora, nós o obedecemos. Nos primeiros dias, foi agradável. Ela era espaçosa, grande e luxuosa, tinha muitas velas e uma lareira realmente maravilhosa, além de um jardim que eu amava brincar, mas eu não gostava dele.

 

Frisou a palavra, fazendo com o Lee franzir o cenho.

 

— Ele quem?

 

O Han comprimiu os lábios, ponderando se deveria ou não revelar aquilo, porém novamente chegando a conclusão de que guardar para si mesmo não iria servir para nada além de ser seu mártir eterno.

 

— Demorei um pouco para descobrir seu nome, mas eu o chamava de Junnie. — revelou, e Hangyul não se surpreendeu ao ouvir o apelido conhecido. — Ele ficava sempre nos cantinhos das paredes ou em qualquer outra sombra, ele não vinha para a luz. A imagem que eu tinha de seu rosto era a vista no escuro, nunca o vi claramente, e isso me fazia ter medo dele, além do fato de ele ser macabro e sombrio.

 

— Mas como aquilo que não quer te fazer mal pode ser macabro e sombrio?

 

— Não faço ideia. Ele apenas parecia inofensivo algumas vezes, mas extremamente perigoso em outras. E eu era uma criança que via um rapaz com feições de um morto, o mínimo que eu sentia era pavor. Mas eu o vi poucas vezes... eu não era o seu alvo, mas sim Miyeon, minha irmã.

 

Lee baixou o olhar ao ver o tom de voz do outro vacilar minimamente. Tinha ciência de que aquele era um assunto delicado, mas era necessário que soubesse, e Seungwoo estava disposto a colaborar, então continuou:

 

— Ela dizia que o via em sonhos e que ele a salvava do “homem amarelo", mas outras vezes eu a encontrava chorando, pois o tal Junnie a havia machucado ou feito algo de ruim consigo, como a  assustar ou quebrar suas bonecas, ou até mesmo a empurrar da escada, como aconteceram duas vezes. — relatou, encarando as orbes do outro, como se vislumbrasse nas íris escuras as imagens das cenas descrevidas. — Ela apenas chorava enquanto dizia que ele a beliscava. Eu, como um bom irmão mais velho, tentava a proteger, mas eu tinha mais medo dele que ela própria. 

 

Um pato se aproximou dos dois, e, sorrindo fraco, o convidado jogou-lhe um pouco de pão ao mesmo tempo que percebia que aquele que o convocara fazia anotações em um pequeno caderno.

 

— Foi quando as coisas pioraram. Miyeon tinha crises de choro e passou a adoecer com facilidade. Ela falava que o “homem amarelo" estava chegando e iria a levar, também falava que Junnie estava com raiva e falava algo sobre treze badaladas. Eu não entendia, até aquele dia. — fez uma breve pausa, mas logo prosseguiu . — Ela gritava que o homem amarelo estava ali, que ele a iria levar para sua caverna, e ela não queria ir. Ele cantava uma canção de ninar enquanto ela corria pela casa. Ela tinha dois anos e estava enlouquecendo, precisava ser tratada, era o que nossos pais diziam, mas ela estava sendo assombrada.

 

Suspirou, voltando a olhar para o horizonte e depois para as próprias mãos cruzadas sobre o colo. Os olhos estavam lacrimejantes, mas ele não iria chorar.

 

— E, na minha frente, ela repetiu a última coisa que eu ouvi sendo pronunciada por si: “Hypno vai brincar comigo, oppa. Ele me disse que ele não é malvado, ele só quer brincar comigo. Eu tenho um novo amiguinho, oppa! Hypno vai me levar para brincar!”. Eu, claro, não entendi, mas apenas concordei com a cabeça e a abracei forte, deixando então ela correr de forma animada para o jardim. Ela nunca mais voltou para casa, meus pais nunca mais saíram dali e eu, bem, eu apenas lembro.

 

— Minhas sinceras condolências e muito obrigado por ter compartilhado essa história comigo, você ajudou muito. De verdade, muito obrigado, e sinto muito, mais uma vez. Mas, você disse que havia descoberto o nome do Junnie, e qual seria?

 

Um riso seco foi o que recebeu e um olhar quase consolador estava no olhar direcionado a si.

 

— É perigoso. — declarou, e levantou-se do banco. — Não saberei o motivo deste encontro, mas confio que você usará o que lhe disse para ajudar alguém, como você intensificou em sua fala, então sou grato por isso. Hasta la vista, señor.

 

E, com isso, colocou as mãos nos bolsos da calça e saiu dali a passos lentos. Hangyul sabia que não o veria novamente assim como sabia que aquilo não era algo ruim. Ao se por de pé, observou o horizonte do Hyde Park e, com a cabeça baixa, deixou o local, assim como aquele que contatou havia feito a segundos atrás.

 

Com os pensamentos voltados aos acontecimentos da última semana, juntamente da data festiva — na qual, percebera a pouco, completar-se-iam vinte anos do acontecido com os Han —, Lee Hangyul sentou-se frente à sua escrivaninha e coçou as têmporas. 

 

— Você está disposto a me contar o que você é ou vai fugir novamente?

 

O de corpo esbelto e aparência jovial assustou-se ao ser notado pelo descendente dos Homens de Letras Britânicos, mas apenas o encarou.

 

— Não é seguro, mas, se for de ajuda, apenas lhe digo que quero ajudar Nam Dohyun, nada mais que isso.

 

Hangyul virou-se para o rapaz ainda desconhecido, o encarando com os olhos afiados.

 

— E como diabos você sabe quem é e o que está acontecendo com Nam Dohyun?

 

— Nossa, realmente acreditei que você fosse mais delicado, Lee. Dizer blasfêmias não é elegante.

 

O maior revirou os olhos.

 

— Apenas diga enquanto lhe dou a oportunidade de fazê-lo.

 

— Tudo bem. Talvez eu seja apenas alguém que também conhece e convive com o sobrenatural, assim como você. Você não precisa saber meu nome, me chame apenas de Song. Se você aceitar, tenho conhecimentos sobre Hypno, acredito que eu seria de grande auxílio, estou certo?

 

Os lábios de Hangyul franziram, descontente. Não gostava de trabalhar com alguém que não fosse Seungyoun, mas pelo que parecia, não havia outra escolha.

 

— Então conte-me o que sabe, Song.

 

O de cabelos ondulados sorriu abertamente, sentando-se próximo ao que era aparentemente mais velho que si e logo recobrando a seriedade.

 

— Hypno é uma entidade psíquica. Com o pêndulo, ele hipnotiza e persuade crianças, as assustando de início, mas logo tornando-se amigo delas, para depois as levar para sua caverna. O que acontece lá é de causar pânico, é podre, escuro e ecos de gritos e choros de crianças são ouvidos; dizem que são as almas daquelas que ele sequestra. Hypno tem apreço pela data nomeada por estadunidenses de Halloween, o evento da colheita celta, a época mais sombria do ano, por isso, ele faz suas vítimas no dia 31 de outubro, e elas são as jóias da sua coleção de almas inocentes e sôfregas.

 

— Como você sabe de tudo isso?

 

— Bem, eu apenas sei. Tenho consciência que você não tem motivos para confiar em mim, mas eu sou sua única esperança para ajudar Dohyun.

 

Lee suspirou, derrotado. O plano inicial era, realmente, trabalhar sozinho naquele caso, mas até mesmo ele já sabia que não seria possível. Uma série de acontecimentos apontavam para aquele momento, era como se ele devesse aceitar a ajuda de Song, algo lhe dizia aquilo, mas ele também achava que seria o seu maior erro.

 

— Muito bem. Mas nós não seremos amigos. 

 

A seriedade com que disse aquela palavra não foi firme o suficiente, era mais como birra de criança mimada, então Song resolveu apenas sorrir e concordar.

 

— Como quiser.

 

O menor deitou-se na cama, com folga e ousadia, e Hangyul ficou embasbacado com a audácia do rapaz.

 

— O que você pensa que está fazendo?

 

— Não é óbvio? Vou tirar um cochilo. — sorriu, sapeca. — Ou você vai me expulsar? Eu não tenho para onde ir, quer que eu vá para a rua? Os operários são asquerosos, os que não estão extremamente cansados querem descontar sua canseira. Não me deixe nas ruas, hyung!

 

Mesmo sabendo que ali havia uma quantidade enorme de drama, a forma e as feições do que agora havia dado certeza de ser mais novo que si o fizeram querer soltar suas armas aos ares. Ele era gracioso, não poderia negar. Muito bonito também, apesar da pele pálida e nem um pouco rosada, o que o deixava com uma pulga atrás da orelha.

 

— Maldição! — praguejou baixinho, logo virando-se para o outro. — Você fica no colchão. 

 

— Mas hyung…

 

— Mas nada. — cortou a fala do rapaz, que franziu os lábios. — Quantos anos você tem, afinal de contas?

 

— Dezessete.

 

— Apenas isso? Não que eu achasse que você fosse mais velho, mas é que você é uma criança. 

 

— Yah! Eu não sou uma criança! Temos apenas três anos de diferença de idade, não se autodenomine ancião.

 

— Como você sabe minha idade?

 

— Como você ainda pergunta como eu sei das coisas já sabendo a resposta? Não posso revelar mais do que já revelei, sinto muito. 

 

O suspiro de Hangyul foi auditivo o suficiente para que Song o ouvisse com nitidez, mas este apenas fechou os olhos e, com leve pesar, ouviu a porta ser fechada. Song não era audacioso, ele apenas queria se aproximar. Ele não era mau, ele só queria chorar, e Lee Hangyul o fazia se sentir diferente. Ele o fazia sentir-se vivo.

 

Após um suspiro, correu pelo percurso que sabia que o mais velho havia feito, o alcançando perto da residência dos Nam, onde saberia exatamente que ele iria. Lee não se surpreendeu, mas não pôde disfarçar o desconforto que sentiu no momento em que viu o de cabelos claros que formavam cachos um pouco perdido nas ruas, enquanto tentava se aproximar de si; mas mesmo com o desconforto, permitiu-se sorrir pequeno.

 

— Você é persistente, mas previsível demais.

 

— O que quer dizer com isso?

 

— Nada. Vamos.

 

Mas, ao contrário do que Song pensou, eles não foram até os Nam, mas sim ao centro de Londres. Caminharam por entre ruas quase intransitáveis por conta dos automóveis e vendedores que aproveitavam para vender decorações rústicas e distintas para a noite fria do dia 31 e pararam em frente a uma porta de ferro, que ficava nos fundos de um beco estreito e quase deserto, no qual Hangyul colocou sua mão em uma fenda e, com os dedos pressionando duas elevações na porta, uma estrela de aquário brilhou, e o mais baixo acompanhou o Lee para dentro daquele lugar.

 

Os olhos grandinhos do mais pálido brilharam ao vislumbrar o bunker, era composto por várias e várias estantes com livros incontáveis, um mapa no centro de uma mesa principal e objetos que o rapaz nunca havia visto na vida, além de runas tão desconhecidas quanto tudo a sua volta. Parecia ser gigantesco e esplendoroso, o que realmente era, e Song não tinha dúvidas sobre isso.

 

— Esse é o bunker dos Homens de Letras Britânicos. Não é usado há décadas e consegui acesso a ele, foi a melhor coisa que fiz desde que me rebelei. Se vamos investigar o tal Hypno, que seja da maneira correta.

 

Sorriu ao ver as expressões admiradas do mais baixo, o achando adorável. Balançou a cabeça, não havia tempo nem disposição para achar alguém que havia conhecido há dois dias.

 

— Eu posso entrar?

 

— E você não já está dentro? — riu, balançando a cabeça ao ver o beicinho nos lábios do mais novo. — Vá em frente.

 

E foi isso que ele fez. Entrou com euforia e curiosidade e foi observado pelo Lee de forma minuciosa e cuidadosa. Ele era um mistério, não tinha nem mesmo um nome completo, e aquilo o martelava de uma forma diferente. De alguma forma, Song não despertava raiva em si por o fazer sentir-se inferior intelectualmente, atingindo assim o seu ego, mas ele o fazia sentir-se interessado. Hangyul tinha interesse em saber quem era Song, porque Hangyul tinha interesse em pôr um ponto final em toda aquela história e descansar em Mayfair ao som das sinfonias de Beethoven e Mozart.

 

— Por que você se rebelou?

 

A pergunta havia sido inesperada, o que deixou o mais velho em silêncio por uns minutos. Não gostava de falar sobre aquilo, mas não seria deselegante.

 

— Aquele era o meu lugar.

 

Respondeu de forma simplista, mas Song não estava satisfeito. 

 

— Isso não foi muito explicativo…

 

— Sabe o que também não foi muito explicativo? Tudo o que você disse.

 

Um suspiro foi ouvido na sala em que apenas os dois se encontravam.

 

— Você não entende…

 

— Então explique. Não tenho nenhum tipo de sentimento por você e nos conhecemos antes de ontem, não vou te julgar. Não é de meu feitio.

 

— Ah, você vai sim. Eu não sou digamos que admirável e certo. 

 

— Ah, nem eu. Que coisa, não? — debochou, mas logo desistiu daquela discussão. — Enfim, não importa. Vamos trabalhar. 

 

E assim foi a semana seguinte, até o calendário marcar 31 de outubro. Song e Hangyul aproximaram-se de forma que até mesmo ambos ficavam confusos sobre como criaram um vínculo antes inexistente em uma semana. Song fazia piadas e tentava animar o ambiente — já que Hangyul era extremamente sério e focado demais para desviar sua atenção do trabalho por nem que seja dois minutos. Mas o que o encaracolado não sabia era que o mais velho passou a reparar nos seus sorrisos tímidos quando se sentia observado, nas mãos que iam até as bochechas quando estava envergonhado, na forma como seus lábios se comprimiam quando estava intrigado ou chateado e nas meias-luas que seus olhos formavam quando sorria.

 

Nem mesmo o Lee sabia o motivo de ter começado a reparar tanto naquele rapaz. Talvez tenha sido falta do que fazer, talvez cansaço, talvez a curiosidade, mas com certeza era doença. Seungyoun havia chamado de carência para logo depois chamar de medo de assumir os próprios sentimentos. Mas, pelos diabos, não haviam sentimentos. Eles conheciam-se a apenas uma semana! 

 

— Uma semana em que vocês não desgrudam por nada. Céus, Hangyul! Você costumava ser mais inteligente que isso. Falta apenas uma única peça para seu quebra-cabeça findar e a família Nam ser salva, e você está com dificuldades em admitir que está apaixonado pelo menino Song.

 

— Mas eu não estou... ah, deixe para lá. Tenho preocupações maiores. Tenha um bom dia, hyung.

 

E, com um aceno de cabeça, deixou o quarto onde Youn estava hospedado, ouvindo as risadas do amigo e revirando os olhos. Se apaixonar por Song seria algo precipitado demais, e ele não gostava de precipitações. Por Deus, não sabia nem mesmo quem ele era! Seria tolice amar aquele que não conhece, por isso, a consciência de Hangyul mantinha-se leve como uma pluma, porém depende.

 

— Você está tão pensativo... 

 

Assustou-se ao ver o mais novo ao seu lado. 

 

— Caramba, Song! Não apareça assim, do nada! 

 

— Você lida com todos os tipos de monstros e ainda se assusta com facilidade?

 

O tom se Song era brincalhão, o que limitou Hangyul a apenas revirar os olhos.

 

— O que você está fazendo aqui?

 

— Eu não poderia estar aqui?

 

— Hm, não? 

 

— Ah, desculpe. Eu vou embora.

 

Lee revirou os olhos mais uma vez, agora rindo, e segurou o braço alheio.

 

— Não vai. Me diga, você quer falar algo? Você está mais estranho que o normal, criança. 

 

— Eu já disse que não sou uma criança! E... bem, quero.

 

— Sou todo ouvidos.

 

Sentaram-se em um banco em uma praça pública e o Lee encarou Song, que parecia nervoso.

 

— Hyung... você me odiaria?

 

— Depende.

 

— De que?

 

— Bem, não sei. É algo relativo, mas não acho que eu o faça. Por que a pergunta?

 

— É que você vai me odiar, mas antes disso, tem algo que eu quero que saiba... — respirou fundo algumas vezes e olhou nos olhos do Lee. — Hangyul, eu…

 

Fechou os olhos com força ao ouvir o grito de Seungyoun. Não saberia se agradecia o outro por tê-lo impedido ou se ficava com raiva pelo mesmo motivo.

 

— Realmente sinto muito em interromper, mas Nam Dohyun desapareceu.

 

Os olhos dos dois triplicaram de tamanho e o coração de Song apertou em seu peito. O que mais temia havia acontecido por um deslize seu. Os três correram até a residência, sendo perseguidos pelos últimos raios do sol poente. O frio já era assolador, as ruas estavam desertas e as decorações aterrorizantes ganharam vida. Era chegado o Halloween, a noite em que o tecido da realidade era apenas uma fina película, e era chegado o dia da sentença dos Nam.

 

Ao chegarem na casa, Song parou. De seus olhos, escorreram lágrimas vermelhas como sangue, e suas expressões eram de dor. Não apenas física, mas psicológica. O corpo pequeno se encolheu em frente ao portão da casa, e os dois amigos correram para lhe ajudar, porém foram impedidos.

 

— Não se aproximem. E-Eu... — gaguejou, antes de sombras emergiram de seus pés, o cobrindo, deixando a mostra apenas seus olhos avermelhadas. — Sinto muito.

 

E ele foi engolido por completo por aquelas trevas, levando lágrimas aos olhos de Hangyul, que, mesmo com uma dor estranha no peito — a dor da traição —, sabia que não podia se dar o luxo de sentir algo no momento, uma família estava em suas mãos, e apenas ele poderia salvá-los, portanto, adentrou a residência, vendo a sra. Nam aos prantos junto da governanta. Pensou em se aproximar, mas ao dar o primeiro passo, um raio cortou o céu, acompanhado por uma chuva intensa, e clareou todo o cômodo, desenhando a silhueta de um ser pequeno, barbudo e de orelhas altas e pontudas que portava um pêndulo na mão direita.

 

Sem esperar duas vezes, Hangyul correu. Via-se em vinte anos atrás, no corpo de Han Seungwoo, mas faria de tudo para que aquela história não acabasse daquela forma. Ela não podia acabar daquela forma. Correu pelos cômodos, parando apenas ao ouvir uma canção de ninar conhecida.

 

— Venham, criancinhas. Venham comigo. Seguras e felizes vocês serão…

 

A voz macabra cantarolava enquanto aproximava-se do menino Dohyun, que estava encolhido no cantinho da parede, com os olhos fechados e chorando. O pêndulo balançava, mas o menino se recusava a olhar, o que estava visivelmente deixando o ser sobrenatural zangado.

 

Sem pensar duas vezes, Lee chamou a  atenção de Hypno ao levar ao chão um dos vasos que estavam sobre a estante e pôde ver o quão medonha era a face da criatura, até mais do que imaginou pelas descrições de Seungyoun, Seungwoo e Song, mas o que capturou sua atenção foi o sorriso malicioso lançado a si pelo amarelado.

 

— Olhe só o que temos aqui. Lee Hangyul, eu estava ansioso para conhecê-lo. 

 

Hangyul sentiu seu corpo ser arremessado com força na parede e fez uma expressão de dor, ao passo que Hypno apenas ria.

 

— Você realmente achou que iria conseguir me capturar. Pobre tolo. E, confiar em Song? Você é melhor que isso.

 

— Estamos realmente medindo níveis de intelectualidade? Você é mais avulso do que muitos dos que já enfrentei. E sobre Song, ele era apenas mais um mistério que eu precisava desvendar, mas já que não foi tempo suficiente, me resta aceitar a perda de um tesouro.

 

Ele mentia, Hypno sabia disso, mas havia alguém que não. Havia alguém com sentimentos puros e cultivados o suficiente para sofrer com aquelas palavras falaciosas, e Hypno era sagaz. 

 

— Hum, agora iremos saber o que nosso Song tem a dizer sobre isso.

 

E, das sombras, preso a um tronco de carvalho, estava ele. Song, com os cabelos enrolados bagunçados, o suor molhando seu rosto e ainda mais pálido que o rotineiro. Seus olhos estavam fundos, as roupas rasgadas ele ainda chorava. Chorava sangue, chorava vidro, chorava poeira, chorava dor.

 

— Eu não esperava que você fosse me entender. Não esperava compreensão nem menos que o ódio, mas eu não esperava que, esse tempo todo, eu fosse apenas uma cobaia.

 

— Song…

 

— Não. Irei responder suas perguntas. Meu nome é Song Hyeongjun, morri aos dezessete anos em uma caverna úmida, enquanto tentava salvar minha irmã das mãos de um monstro. Meus pais morreram em combustão espontânea, mas eu tinha um propósito. Eu queria justiça, e não iria embora sem tê-la. Então, eu me tornei o amigo imaginário das vítimas de Hypno, em busca de as salvar dele, mas eu não obtinha sucesso. Dohyun seria o último, o último que eu protegeria antes de partir deste plano. Eu não tinha mais nada que me segurasse aqui, mas eu conheci você. 

 

Os olhos do Lee estavam marejados, assim como os de Hyeongjun. Song sorriu, triste, antes de continuar:

 

— Eu te observava. Quando você vinha visitar Dohyun, eu via o quão bom você era. Você poderia salvar o menino, você foi a minha última esperança de partir com a missão cumprida, por isso te fiz me seguir, mas fui pego. — olhou para Hypno, que sorriu de forma macabra. — O que eu senti é história para outro dia, considerando que não irei sobreviver. Afinal, eu sou um objeto de estudo, certo? 

 

Olhou para Dohyun, que ainda estava encolhido, e sorriu.

 

— Eu não queria o seu mal, mesmo às vezes fazendo parecer o contrário. As vezes eu machucava vocês, mas eu era obrigado. Bem, não sou mais, já que a décima terceira badalada soará. 

 

— Não! Você não pode…

 

— Hangyul, chega. Não tenho sentimentos ruins por você, mas, por favor, não piore. Eu ficarei bem.

 

— Fim do diálogo. — falou Hypno, e a boca de Hyeongjun foi costurada. — Nosso Junnie se apaixonou, quem diria, não é mesmo? Uma pena.

 

— Solte-o e eu pensarei em uma maneira menos dolorosa de te matar.

 

— Me matar? Você não está em condições favoráveis para fazê-lo, não vê? — aproximou-se de Hangyul, com o brilho maléfico nos olhos. — Eu, pelo contrário, mal vejo a hora de matá-los.

 

O sorriso que a criatura abriu fez o estômago do Lee embrulhar. A chuva aumentava e os trovões e raios estremeciam e rasgavam o céu, nenhum inglês um dia vira uma tempestade como aquela, mas o quarto não estava frio, estava abafado.

 

— Primeiro, matarei o menino. Aquele que você tanto tentou salvar, aquele que você tanto se dedicou para livrar de minhas mãos, morrerá pelas mesmas. Depois, será seu amigo, Seungyoun, o verme — disse em condescendência, e logo a porta se pôs em estilhaços e o corpo de Seungyoun — que estava esperando o momento certo, como um belo plano B — chocou-se contra a parede. — E, logo após, finalizarei com aquele que você ama. Song Hyeongjun irá agonizar e será mandado para o lugar onde deveria estar a muito tempo, o inferno. E tudo isso na sua frente.

 

O rosto de Hangyul refletia toda a raiva que estava em seu interior. Se pudesse se soltar, seria capaz de quebrar todos os ossos daquela criatura asquerosa com suas próprias mãos, mas ele estava certo. Suas condições não eram favoráveis, porém ele não poderia deixar terminar assim. Eram suas responsabilidades, seus amores, sua vida, e nunca mais deixaria ninguém as controlar.

 

— Ouça o que lhe direi, Hypno. Você morrerá pelas minhas mãos e todas as almas das crianças que você leva para sua caverna serão libertas. Você queimará. 

 

— Assim como seu amigo?

 

Os gritos de dor de Seungyoun foram ouvidos e Dohyun chorou ainda mais. A pele do Cho queimava lentamente, em uma tortura.

 

— Pare com isso, seu maldito! 

 

— Como quiser.

 

E o corpo de Youn caiu no chão, desacordado mas ainda vivo. Os olhos de Hyeongjun estavam encharcados enquanto emitia sons chorosos e filetes de sangue escorriam de seus lábios costurados. O peso da culpa estava sobre si, mesmo sabendo que aquilo não era culpa sua, mas uma luz pareceu acender em sua mente. Em um dos dias estudando com Hangyul no bunker, em busca de algo que os ajudassem a salvar Dohyun, ele havia encontrado um feitiço. Era simples, mas precisava de algo que no momento em que o viu, não estava disposto a entregar, entretanto agora estava.

 

Aproveitou que estava perto de Dohyun para arrancar-lhe um fio de cabelo, o que foi um pouco difícil já que suas mãos estavam presas no carvalho, mas com ajuda do próprio menino, conseguiu o primeiro ingrediente. Se beneficiou do momento de distração do monstro e se aproximou sorrateiramente de Seungyoun, retirando de seus olhos uma gota de lágrima e pediu para que Dohyun pegasse algo em seu bolso de forma discreta, e o menino tirou um fio e o entregou. Song então amassou os elementos em suas mãos e fechou os olhos, colocando em suas mãos o último ingrediente que faltava e ditando o encantamento.

 

Os olhos que antes escorriam maldade e felicidade com a dor que estava causando, agora estavam arregalados enquanto via as faíscas queimarem seu corpo amarelado. A ira tomou a criatura, que levou as mãos grandes e pressionou as garras no pescoço de Hangyul, que suportou a dor e, mesmo sem entender o que acontecia, o encarou como se estivesse tudo de acordo com o plano.

 

— O que você fez, criatura desprezível?

 

— Ele, nada. Mas você fará algo. — declarou a voz conhecida e Hypno virou-se, encontrando Hyeongjun já liberto e com uma estaca com sua ponta banhada no líquido do feitiço em mãos. — Você, Hypno, morrerá.

 

E em um só movimento, Song cravou a estaca no interior do monstro, que apenas continuou a queimar. Um grito agudo foi ouvido, e Seungyoun — já acordado e com algumas queimaduras — tampou os ouvidos de Dohyun.

 

— Precisamos sair daqui!

 

Cho gritou e correu com a criança, sendo acompanhado pelos outros dois, que levaram os moradores da casa consigo para fora da construção. Um grande estrondo foi ouvido ao verem-se distantes o suficiente, eram chamas altas que engoliam e levavam a casa ao chão. 

 

— Acabou.

 

Foi o que Hangyul disse ao ver Dohyun correr e abraçar sua mãe, mas logo sua atenção foi voltada para um certo garoto de cabelos ondulados. 

 

— Desculpe ter mentido para você…

 

— Ei, não se desculpe. Você apenas queria protegê-lo. Tínhamos o mesmo objetivo. Eu sou quem deve pedir desculpas. Você não foi uma cobaia, Hyeongjun. Bem, no começo sim, mas não depois. Eu reparava em todos os seus detalhes, eu reparava demais em você, e demorei muito para aceitar que eu estou apaixonado pelo rapaz que conheci há apenas uma semana atrás de uma forma tão misteriosa e inesperada quanto esse sentimento.

 

Song sentiu que seus olhos marejaram e o coração doeu. Havia feito uma escolha e ela agora queimava. 

 

— Eu... — antes de completar sua fala, o vento suave transformava-o em dentes-de-leão lentamente. Já não chovia mais, mas seu coração estava molhado. — Eu amo você, me desculpe.

 

E uma última lágrima, cristalina e pesada, desceu pelos seus olhos, antes de tornar-se por completo em dentes-de-leão, sendo levado pela brisa do fim daquela madrugada do dia que já não era mais 31 de outubro. O Halloween havia acabado com as treze badaladas do Big Bang e, com ele, levara um generoso pedaço do coração de Hangyul, que chorou.

 

— Um fio de cabelo de criança, uma lágrima da lealdade, o fio do pêndulo de Hypno e a alma do morto pelo que morre. Ele se sacrificou e assim cumpriu com sua missão. 

 

Nem mesmo a voz de Seungyoun foi capaz de acalmar Hangyul. Ele não tinha esse direito. Hyeongjun não poderia ter levado o amor ao seu coração e, simplesmente, ir. Ele não poderia dizer-lhe que o amava, o fazer ver que ele ainda era capaz de amar, e depois partir. Por isso, Hangyul chorou. E Seungyoun o consolou por todo aquele amanhecer. Dohyun estava a salvo, sua família estava a salvo, mas seu coração estava em apuros. Era dramático demais para quem era fechado para sentimentos, porém era inevitável. 

 

O dia havia passado de forma lenta. Hangyul havia levado suas coisas para o bunker e ficou lá. Não estava bem, mas tinha a habilidade do disfarce. Comeu, leu um livro qualquer escrito por qualquer inglês orgulhoso e acabou por apenas rodar o globo terrestre que havia sobre a mesa central, assustando-se ao ouvir a porta abrindo atrás de si.

 

— Não acredito que você foi capaz de adicionar uma letra a mais na senha. Só descobri porque Seungyoun hyung me contou. Ai, hyung, você não muda mesmo.

 

Os olhos arregalados do Lee estavam marejados e ele não perdeu tempo para abraçar com toda a saudade e o amor que tinha o ser magro e pequeno, de cabelos ondulados e olhos grandes que estava, como em um sonho, em sua frente.

 

— Ai, Gyul! Acabei de reviver e você já quer me matar?

 

O sorriso no rosto de Song Hyeongjun era brilhante e emocionado enquanto ele correspondeu ao abraço. Hangyul afastou-se apenas para encarar os olhos do menor.

 

— Você... como...?

 

— Todas as crianças que foram mortas por Hypno na caverna tiveram suas almas libertas, mas como não era a hora de nenhuma delas de partir, receberam uma segunda chance. Eu não sou criança, mas fui morto lá, acho que seja lá qual for o ser divino acreditou que seria justo me dar essa segunda chance, já que eu matei o Hypno.

 

Eles se olharam por um tempo que nenhum dos dois foi capaz de contar. Analisavam o rosto alheio com cuidado e carinho. Todos os detalhes de ambos os rostos estavam gravados nas mentes e nos corações. Hangyul aproximou o seu rosto, tocando os narizes e levando um sorriso pequeno aos lábios de ambos e Song fechou os olhos. Lee observou os lábios cheios e bem desenhados do outro, estavam pela primeira vez rosados, mas não era a primeira vez que ele sentia vontade de tocá-los.

 

— Então eu posso fazer algo que eu já estou a um tempo desejando com todas as minhas forças?

 

Um riso baixo foi ouvido e Song balançou a cabeça positivamente antes de sentir, finalmente, a pressão dos lábios alheios sobre os seus. Sentiam seus corações saltitando enquanto moviam os lábios com lentidão, aproveitando cada momento. As más línguas diriam que não se ama alguém em tão pouco tempo em uma intensidade tão absurda, mas as línguas dos que se amavam preocupavam-se apenas em amar. 

 

— Promete que nunca mais me abandonar? Sou um homem forte, mas não gostei da forma que encontrei o meu ponto fraco.

 

— Prometo. — mostrou o dedo mindinho, que foi entrelaçado com o do maior. — Prontinho. 

 

— Eu te amo, Hyeongjun. 

 

O preceptor sussurrou enquanto mergulhava o nariz no aroma doce dos fios do mais baixo, que sorriu de forma fofa e apaixonada.

 

— Eu também te amo, Hangyul-ssi.

 

Os sonhos de Dohyun o fizeram temer Hyeongjun, mas a realidade fez com que Hyeongjun amasse Hangyul. Seungyoun diria “eu disse" em alto e bom tom, mas naquele momento, eles queriam apenas aproveitar o momento que estavam juntos. Canções de ninar e sonhos ruins precisavam ser queimados, e foi o que fizeram no dia mais sombrio do ano. Porque em meio às trevas, uma luz sempre estará brilhando. Você apenas não pode dormir.

 


Notas Finais


Hmm então foi isso kk. Espero realmente que tenham gostado e muuuito obrigada por terem lido, vocês são tops. Deem muito amor a esse projeto lindo e cheiroso e cheio de gente mais linda e cheirosa ainda e leiam as outras fanfics, é muito talento ;))
Obrigada a @jeonxie por ter feito a capa maravilhosa e por ter tido toda a paciência do mundo comigo, ela é realmente um anjo, a @pcysweetuke pela betagem igualmente maravilhosa e as adms, muito obrigada, vocês são incríveis 💗
E, bem, nos vemos em uma próxima? Beijooos de luz e se hidratem ✨


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