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História Lullaby - Capítulo 1


Escrita por: goldenvantae e YeolsByun

Notas do Autor


Meu deus, mal acredito que realmente estou no projeto. Esse plot foi amor a primeira vista quando eu vi, coloquei muito carinho nele e espero que vocês gostem do desenvolvimento. Muito obrigada a @Suximy pela betagem incrível da história e pelos seus conselhos e dicas de onde devo prestar atenção. Obrigada a @Pyeonji pela capa LINDA. Gente olha essa capa e me diz se não tá apaixonante? Morri com a pelúcia do Stitch ao lado do JK aí ai. Muito obrigada pelo seu trabalho. Obrigada a Dari e Jai também, pois me ajudaram quando achei que a fic tava ruim.
Terminado os agradecimentos ^^ espero que aproveitem a leitura.

Capítulo 1 - Entre músicas e ursinhos de pelúcia


Fanfic / Fanfiction Lullaby - Capítulo 1 - Entre músicas e ursinhos de pelúcia

 

Kim Taehyung sempre foi uma pessoa peculiar, considerada assim desde que era criança devido a certos vícios que tinha e seu jeito de ver o mundo. Tinha certo jeito de agir que assustava algumas pessoas, como, por exemplo, a linguagem alienígena que havia criado quando mais novo para se comunicar com as pessoas que viviam fora da Terra. Afinal, não queria que eles se sentissem excluídos quando viessem ao seu mundo. Começaram a entender um pouco do por que ele era considerado estranho? O que as crianças que se recusaram a ser amiguinhos dele não sabiam era que aquilo era apenas a mente criativa de uma criança sendo posta em prática após assistir Lilo&Stitch, querendo ajudar o alien caso ele quisesse lhe visitar.

Veja, desde sempre Taehyung foi viciado nos filmes e desenhos da Disney, achava incrível cada história e acreditava em cada uma quando pequeno. Sonhava em ser como as princesas que via, tendo coragem, força e garra para lutar pelo que acreditavam e amavam. Meu Deus, a primeira coisa que pensou quando assistiu Pocahontas foi que queria ser igual a ela para proteger a família. Era, definitivamente, uma criança especial, exatamente o que seus pais faziam questão de deixar claro quando chegava da escolinha perguntando por que seus colegas não queriam brincar consigo.

Eles diziam que dentro da sua cabeça existia um universo imenso, cheio de possibilidades e que tudo dependia de como Taehyung queria enxergar as coisas, mas que, infelizmente, nem todos conseguiam ver da mesma forma que si e, por isso, agiam daquela forma. Falaram que ele jamais deveria ligar para o que falassem e que continuasse daquela forma que era: extraordinariamente extraordinário; que não se preocupasse e que, um dia, conheceria pessoas que iriam apreciar seu jeitinho da mesma maneira que eles apreciavam. E eles estavam certos, pois a vida lhe trouxe Park Jimin, o garoto da casa ao lado e, futuramente, seu melhor amigo para a vida toda.

Compartilhando o mesmo amor pelos desenhos, se tornaram amigos desde que Taehyung, brincando no quintal, escutou alguém cantando a música da Cinderela; quando viu o garoto de cabelos pretos lhe encarar quando completou a letra, sabia que uma amizade estava para nascer. E realmente nasceu, cultivada com muito amor ao longo dos anos e perdurando até já poderem ser considerados adultos, donos de si mesmo. O amor pelas artes sendo um fator em comum entre eles, Jimin pela dança e Taehyung pelas telas, não para atuar, mas para criar os roteiros das histórias. Quando perguntavam por que não estreava nas telinhas, já que, devido a sua beleza, podia muito bem ter sucesso nelas; respondia que, quando pequeno, era fascinado pela forma como cada história era contada nos filmes e que seu desejo se tratava de conseguir passar o mesmo sentimento que sentia com ela as pessoas.

Graças a isso, foram para a mesma faculdade e, com ela, o resto do grupo apareceu. Jimin trouxe Hoseok, o garoto que dançava com tudo que tinha e parecia ser o verdadeiro sol em pessoa de tão alegre. Taehyung trouxe Seokjin, o veterano do curso, que sonhava em ser ator um dia e parecia ser a mãe de todos ali pela forma carinhosa como trazia todos para seu abraço. E cada um deles o aceitava do jeitinho peculiar que possuía, aceitando até mesmo realizar festas do pijama, na qual eles maratonavam os filmes da Disney. Amizade verdadeira. De tal forma que viraram mais que isso: eram família. Tanto que, mesmo após se formarem, ainda mantinham contato e realizavam encontros semanais entre si. Ligados pela loucura que fizeram no dia da formatura pela tatuagem favorita que Taehyung carregava com gosto um pouco abaixo na curvatura do braço.

A palavra Ohana. Que significa família.

Nada melhor para homenagear aqueles que ele ama, do que com uma das melhores falas do personagem de seu desenho favorito. Ninguém entendia sua preferência, justamente, por aquele desenho, mas o amava simplesmente pelo ensinamento que estava intrínseco nele. Que não importa as pessoas serem diferentes uma das outras, sempre vai ter alguém que te aceita e te entende. Que família é família, e não se abandona a família.

E esse foi um grande ensinamento para si quando era criança, já que muitos o achavam estranho. Carregou a moral aprendida até seus dias adultos, pois ela o incentivava a continuar sendo quem era, sendo verdadeiro. Por isso, nutria um amor gigantesco pelo Stitch; era seu personagem favorito. Tanto que, quando finalmente conseguiu combinar uma viagem a Disney com seus amigos, comprou tudo que tinha direito remetendo ao alienígena azul que amava.

Possuía seu kit matinal dele, coisa que tratava como tesouro. Cada parte combinando entre si, num tom azul com a imagem do Stitch neles, desde o copo até os talheres. Estes que estavam sendo bem utilizados naquela manhã em que Taehyung estava focando no celular conversando com Jimin, enquanto tomava seu suco de laranja em seu copo personalizado, terminando sua panqueca de Blueberry no prato com o rostinho sorridente do alienígena.

—  Um furão. É isso que você é, Jiminnie —  resmungou, contrariado.

—  A culpa lá é minha se Hoseok decidiu me convidar pra ir no cinema e só tem horário pro filme no mesmo que iamos sair?

—  Sim, porque quem tá furando comigo é tu. E é por causa de macho —  falou com um bico inconformado nos lábios.

Jimin havia ouvido falar sobre a abertura de uma nova loja perto de onde ele trabalhava, que seria direcionada à brinquedos e teriam várias edições inspiradas nos sucessos da Disney, então não teve como impedir do nome do melhor amigo vir à tona quando soube disso. Afinal, ele era o maior admirador deles que conhecia, acabando por mencionar a novidade ao outro durante uma das ligações noturnas, que eram rotina deles desde quando crianças. Não deu outra, a animação do Kim excedeu todos os limites possíveis só de imaginar o que poderia comprar de novo para sua coleção. Marcaram naquela mesma ligação que iriam juntos, no dia seguinte, à inauguração para que pudessem conhecer.

E aquele dia havia finalmente chegado, deixando Taehyung animado demais para finalmente conhecer a tal loja, quando recebe uma mensagem de Jimin pedindo para que ele não ficasse bravo. Ligou para ele de imediato, perguntando o que tinha acontecido quando ele começou a enrolar sem querer dizer logo o que era, mas assim que ouviu o nome de Jung Hoseok saindo da boca do amigo, soube do que se tratava na hora.

Vejam bem, sabe aqueles amigos que todos da rodinha de amizade já notaram que são apaixonados, mas que parece que os únicos que não notam são os dois amigos? Essa era a definição para a situação de gato e rato que eles viviam. Taehyung acompanhava há anos a repercussão daquela relação, sendo em seu ombro e ouvido que Jimin despejava todas suas inseguranças, vontades e sentimentos em relação ao amigo dançarino. E todos estavam esperando o dia em que finalmente eles admitiriam o que sentiam.

Por isso, que quando Jimin falou que Hoseok havia o chamado para ir no cinema com ele assistir um filme que não se recordava o nome e não poderia mais o acompanhar até a loja, não ficou bravo, mas sim esperançoso. Dava para notar na voz do amigo o quão feliz com o convite ele havia ficado, então nem tinha como o Kim ficar qualquer coisa além de alegre junto a ele. Mas, obviamente, não deixaria de fazer um pequeno drama.

—  Vai ser só vocês dois? —  perguntou, a fala saindo distorcida devido ao último pedaço de panqueca que havia colocado na boca.

—  Espero que sim, estou com as esperanças altas. Mas sabemos como o Hobi pode ser lerdo nessas coisas. —  E nem tinha como negar isso, pois o tanto de dicas que Jimin dava de seus sentimentos nem conseguiam ser contadas com todos seus dedos.

Taehyung lembrava bem do dia em que o amigo havia sido chamado para ir ao karaokê com o outro e ele jurava que iriam apenas os dois, mas quando chegou lá, encontrou Hoseok junto com toda a turma. Conseguia se lembrar perfeitamente do olhar meio tristonho de Jimin quando reparou que foi o único criando expectativas. Ai, esses dois ainda irão o deixar de cabelo branco.

— Não recebi nenhum convite ainda, então provavelmente está tranquilo.

Riu junto ao amigo enquanto colocava os utensílios usados na pia para lavar mais tarde.

—  Ele vai acabar me deixando de cabelos brancos mais cedo se continuar nisso. —  Soltou uma risada alta com a fala de Jimin, já que havia pensado isso deles minutos antes.

—  Ah, então foi por isso que você ficou loiro? —  brincou aproveitando que o amigo não poderia lhe acertar um de seus famosos tapas. —  Sabia que tinha um motivo.

— Tu que escolheu a cor do meu cabelo, seu idiota. —  resmungou, lembrando do dia que havia apostado com Taehyung sobre ele saber todas as datas de lançamento dos desenhos da Disney.

Bem, podemos dizer que Jimin subestimou o nível de vício do amigo e, como havia dito que caso ele vencesse, poderia escolher sua próxima cor de cabelo, acabou loiro. Mas não podia dizer que não gostou do resultado, afinal, como dizia o amigo dos dois, Kim Seokjin, ele era lindo de qualquer jeito.

— Preciso ir me arrumar. Certeza que não quer ir outro dia? Vai sozinho mesmo? —  perguntou, se sentindo meio culpado por desmarcar com o amigo.

—  Tá tranquilo, Minnie. Única coisa ruim é que não terei meu fiscal de carteira para me impedir de gastar.

—  Fui reduzido a isso, que amizade incrível.

—  Sabe que te amo.

—  Também te amo. Somos soulmates afinal —  falou, fazendo um sorriso largo surgir no rosto de Taehyung.

Era um costume que haviam adquirido desde que eram crianças e passaram a viver praticamente colados um no outro, chamarem um ao outro de soulmate, porque acreditavam fielmente que estavam destinados a serem melhores amigos. De início, as pessoas, ao escutarem isso, achavam que era porque se gostavam romanticamente, o que virou piada para eles porque não se viam mais que irmãos. Pessoas comumente confundem o conceito de alma gêmea.

Soulmate era nada mais, nada menos, que a pessoa com que você partilha uma amizade forte, próxima e um profundo entendimento pessoal. E era isso que possuía com Jimin, ele era sua outra metade.

— Vai se arrumar, senão irá se atrasar —  avisou, após olhar o relógio que possuía pregado na parede da cozinha, escutando perfeitamente o palavrão que o loiro soltou do outro lado da linha, juntamente ao barulho de algo caindo. — Me liga mais tarde?

—  Te ligo mais tarde.

Após desligar a ligação que fazia com o amigo, Taehyung olhou em volta, pensando no que fazia primeiro. Até que seu olhar parou na pia, onde seu copo do Stitch lhe encarou de volta junto ao resto da louça. Fazendo um rápido cálculo mental, organizou o tempo que precisaria para conseguir arrumar a casa rapidamente e conseguir a tempo de pegar a loja aberta já que, como era sábado, ela fecharia mais cedo. Depois de ter certeza que daria tempo de sobra, ergueu as mangas do blusão de pijama que usava e pôs a mão na massa.

Meia hora depois, não restava mais nada na pia e tudo já estava em seu devido lugar. Rumou então para o quarto, tirando a roupa enquanto caminhava para o banheiro, jogando as mesmas no cesto antes de ligar o chuveiro, esperando a água ficar na temperatura ideal para poder entrar. Tomou um banho rápido, vestindo uma calça de lavagem clara com rasgos no joelho e uma blusa com a estampa do Mufasa do Rei Leão preta.

Como ainda não tinha carro, caminhou até o ponto de ônibus perto de sua casa, esperando o certo chegar, enquanto mandava mensagem para Jimin perguntando o endereço do local. Pois, apesar de saber que era perto do serviço do loiro, Taehyung conseguia ser bem perdido e já havia ouvido o amigo falar que precisaria andar um pouco para chegar lá, tendo como ponto de partida o trabalho do Park.

Colocou seus fones de ouvido e se permitiu curtir as músicas que seu aleatório tocava durante o trajeto que teria pela frente. Desceu no ponto que ficava em frente ao trabalho de Jimin, se guiando pelo GPS do celular após ter colocado a localização que recebeu, não demorando mais que dez minutos de caminhada para achar a loja. A parte de fora não era muito chamativa, mas o logo era bonito e os brinquedos na vitrine foram bem escolhidos, combinando com o tom da fachada. Feita em tons de rosa claro e escuro, chamava a atenção para o nome dela: Magic shop. Era um bom nome, pensou antes de entrar e ficar parado em choque pela organização dentro dela.

Se sentiu entrando na Loja Mágica, igual a do filme A Loja Mágica de Brinquedos, pois era exatamente assim que ela parecia. As paredes eram inteiramente pintadas de um vermelho que, para Taehyung, parecia fosco, preenchidas com quadros de desenhos variados e imensos stands com cada local focado em um único universo. Era lindo. Perto do teto, preso entre os dois lados das escadas para o segundo andar, havia uma pista de trem, este que andava por todo local, já que o brinquedo se estendia como se fosse uma montanha russa, dando voltas e voltas.

Era realmente fascinante. Taehyung se sentia como se estivesse entrado em outra dimensão, realmente parecia que havia entrado em um lugar de pura magia. Não teve como negar que o nome fazia juz ao local. Mesmo com as músicas famosas dos desenhos, que sabia que tocava devido a ter abaixado o volume da sua para responder um funcionário que foi lhe perguntar se precisava de ajuda, preferiu manter seus fones no ouvido, enquanto explorava o local, como havia respondido ao atendente que faria.

Estava quase considerando pegar uma daquelas cestas de compras que viu perto da entrada, porque sentia que iria enlouquecer pelo tanto de coisa que queria comprar. Já havia visitado a seção de Frozen, de Mulan, já olhou até mesmo a seção de Shrek que tinha ali e, com certeza, ia voltar nela para comprar seu boneco do Senhor Gingerbread; ele era tão fofo. Mas, mesmo sofrendo com todas aquelas, nada lhe preparava para a seção que achou mais ao fundo da loja. Era definitivamente a mais vazia, coisa que havia reparado das outras, mas deveria ser por causa da inauguração no dia anterior que fez sucesso, pelo que ouviu dizer.

Aquela seção inteiramente em azul e tema praiano, sim, achou a sessão de Lilo&Stitch. Parado no meio dela, só conseguia pensar que havia achado seu paraíso na terra, um pouco vazio demais, mas ainda sim perfeito para si. Começou a explorar, porém infelizmente não tinha muita coisa para ver, já que pareciam ter feito a limpa ali. Se xingou baixinho por não ter tido coragem de comparecer durante o dia de abertura. Sua felicidade surgiu novamente quando seus olhos pousaram nele, uma pelúcia do Stitch enorme. Tão fofinho e parecia ser tão bom de abraçar, que Taehyung não resistiu em correr para ele e o tomar nos braços, tendo a confirmação do quão maravilhoso era aquela pelúcia.

Mas, quando olhou o preço, seu coração pulou uma batida. Se comprasse ele, definitivamente não poderia comprar mais nenhum porque era simplesmente demais para sua conta bancária. Se Jimin estivesse ali, iria desejar arrancar sua cabeça, devido sua vontade de levar algo num preço tão exorbitante; mas era o Stitch! Ele tinha que entender que precisava levá-lo, não iria se aguentar sem ter ele em sua cama para dormir abraçadinho. Era realmente gostoso de abraçar. Decidido a levar a pelúcia embora e somente ela, já iria se virar para tentar encontrar onde ficavam os caixas, mas uma mão em seu ombro lhe fez parar se virando na direção dela.

Encontrou um homem de mesma altura que a sua, mas com um visual totalmente destoante da loja ao qual estavam. Os piercings nas orelhas e as tatuagens no braço a mostra, devido a blusa sem manga, lhe deixando um pouco surpreso. Mas, a face dele parecia de um anjo, a pele branquinha, os cabelos morenos meio grandes prendidos em um pequeno rabo de cavalo, que Taehyung pessoalmente achou adorável, e os olhos cor de jabuticaba, que não haviam saído de cima de si, ainda contradiziam o visual rebelde.

Mas, só quando seus olhos desceram para os lábios vermelhinhos do desconhecido, que notou que ele estava falando alguma coisa.

—  Perdão, o que disse? —  falou, retirando um dos fones e pedindo para que ele repetisse novamente.

—  Eu havia perguntado se teria como você me passar essa pelúcia.

Por um instante a voz suave do outro havia tirado Taehyung de órbita, não esperava esse timbre do cara a sua frente, que mais parecia um motoqueiro que alguém amante de desenhos e pelúcias.

Pera, esse cara quer a minha pelúcia?

—  Como? —  Sua pergunta parecia ter estressado o desconhecido, pois o viu soltar o ar pela boca antes de repetir sua fala.

—  A pelúcia, pode dar para mim, por favor?

—  Não! Procure a sua, oras —  negou, apertando ela em seus braços. Havia toda uma seção ali, não entendia porque ele iria querer logo a que já tinha pegado.

—  Não sei se notou, mas quase todos os produtos já estão esgotados e esse ai —  Apontou para o urso nas mãos do castanho. —  é o último que tem desse desenho.

—  Lamento ouvir isso, porém eu o peguei primeiro —  falou como se fosse óbvio.

Era uma regra simples no varejo. Pegou primeiro, tinha direito sobre ele. Afinal, compras são uma competição, não tinha culpa de ter pego o último, apenas foi mais rápido que ele em encontrar.

—  Não acha que está muito velho pra ficar querendo brinquedos? —  O deboche na voz do moreno fez uma careta surgir em sua face. Ficou bravo de tê-lo achado bonito antes, ele era um idiota.

—  Que eu sabia, vivo em um país livre e posso fazer o que eu quiser com minha vida —  retrucou com um sorriso cheio de deboche igual o tom que o outro usou, começando a andar para longe enquanto ainda o respondia. —  e não é da sua conta se vejo desenho ou não.

—  Ei, espera, por favor.

Pediu, parando no meio do corredor junto a Taehyung, que parou de andar apenas por causa do tom meio desesperado que escutou na voz do moreno idiota. Esperou ele falar, mas parecia que ele simplesmente não sabia como colocar o que queria para fora, mas quando finalmente saiu, o Kim ficou meio surpreso com o que escutou.

—  Que? —  Devia parecer um idiota para o moreno, pedindo para ele repetir as coisas.

—  Eu preciso da pelúcia porque meu filho não consegue dormir sem ela —  explicou de novo. —  Fui em várias lojas essa semana atrás de um urso como esse porque precisava de um novo, já que perdi ele no caminho de volta da lavanderia, mas não consegui achar em lugar nenhum além daqui. E ele não dorme, consequentemente, não me deixa dormir também. Então, por favor, me deixe levar a pelucia.

A súplica do outro lhe deixou sem jeito e chocado, os principais motivos sendo o fato de que aquele moreno a sua frente, que não parecia ter mais que vinte anos, já era pai e pelo fato do filho dele ter a coragem de pedir algo assim para um estranho. Sua mente, sem querer, começou a pensar que ele mentia, afinal, ele não tinha cara de pai. Tudo bem que julgar daquela forma era bem errado de sua parte, mas realmente queria ficar com seu ursinho, então meio que deixou aquela desconfiança adentrar sua cabeça.

—  Você já não tentou outra coisa para ele dormir?

—  Eu tentei de tudo, mas nada tem efeito como o urso —  falou, parecendo realmente cansado e meio bravo. —  Agora, será que você poderia, por favor, me dar a merda do bicho de pelúcia?

—  Primeiro, meça seu tom ao falar. E segundo não vou dar o Stitch para alguém que o chama de merda. —  Havia ficado irritado pela forma como ele falava e agia, não daria mesmo seu bebê para ele.

—  Meu filho precisa dormir! —  Praticamente rosnou para Taehyung, que levantou a cabeça confiante antes de soltar a frase que pareceu desmontar o moreno.

—  Eu posso fazê-lo dormir.

E nisso, o moreno só conseguiu ficar encarando Taehyung, piscando como se estivesse tentando processar o que ouviu. O silêncio não durou nem dois minutos, antes dele olhar para Taehyung como se duvidasse de sua veracidade naquilo.

—  Ah, é? —  Desconfiado era pouco para o que estampava a cara do desconhecido.

—  Sim. —  Sua afirmação saiu mais confiante do que realmente se sentia.

—  Então sinta-se livre para tentar —  falou, chamando pela mão enquanto voltava o caminho de antes, parando em frente a um carrinho de bebê, que Taehyung não havia notado antes.

Quando se aproximaram mais, Taehyung pode ter a visão de um menininho, que não parecia ter nem um ano ainda, este que segurava um lençolzinho em mãos enquanto choramingava baixinho. Olhando do bebê para o moreno ao lado podia ver a semelhança, ele era a cara do pai.

—  Ele é todo seu.

E foi ali que Taehyung ficou perdido, não sabia o que faria para colocar aquela criança para dormir. Ao olhar para ela novamente, sentiu o coração apertar pela forma como os olhinhos pequenos estavam vermelhos e pelo choro baixinho que ainda podia escutar dela.

—  Qual o nome dele? —  Sendo bem sincero, Taehyung já havia esquecido de toda a situação que trouxe ele ali. O olhar que recebia do garotinho tendo derretido seu coração.

—  Jeon Hyunjae.

Dessa vez, Taehyung conseguiu notar um tom mais suave na voz do moreno, o filho dele parecia ser seu ponto fraco. Achou adorável a forma como ele olhava para o garoto, como se fosse seu ser mais precioso.

—  Oi, pequeno Jae — cumprimentou, segurando na mãozinha pequena. —  Está com sono, né?

A resposta era óbvia pela maneira como os olhos pequenos piscavam lentamente, como se quisessem se fechar, mas não conseguissem. Começou a pensar em como poderia fazê-lo dormir, a mente trabalhando a todo vapor para conseguir encontrar uma solução, mas nada que pensava parecia bom o suficiente para tentar. Até que ao prestar atenção na música que ainda saia de um de seus fones, pertencente a uma de suas cantoras favoritas, Billie Eilish. A ideia perfeita pareceu piscar em sua cabeça.

Olhou do moreno ainda parado de braços cruzados lhe encarando até o bebê que havia segurado seu dedo e agora o mantinha perto do peito. Sorriu pequeno para ele antes de começar baixinho a sussurrar a letra que chegava em seus ouvidos.

 

"(Acordados a noite toda)

(Em outro voo noturno)

(Gostaríamos de nunca termos aprendido a voar alto)

(Talvez devêssemos apenas tentar)

(Contar uma boa mentira para nós mesmos)

(Eu não queria fazer você chorar, eu)"

 

Seu tom era baixo, sua voz de início não passando de um simples sibilar, tão baixo que pensou que não estava sendo ouvido, mas conseguia notar Hyunjae atento a si, assim como o pai. Por isso, sem parar de acariciar a mãozinha pequena do garoto, continuou a cantar a música, tentando levar o ritmo calmo dela para embalar o sono do pequeno.

 

 

"(Eu não posso evitar, eu te amo)

(Eu não quero)

(Mas eu te amo, uh)

Ooh, ooh

Uuh, uuh"

 

Entoou baixinho os últimos versos, não deixando de sorrir pequeno ao notar os olhinhos fechados de Jae, a respiração calma e ritmada deixando claro que ele havia finalmente caído no sono. Soltou devagar seu dedo da mão dele, tomando todo cuidado para não o acordar, antes de ficar em pé novamente.

—  Bons sonhos, Jae.

Estava sorrindo consigo mesmo pelo sucesso que sua tentativa teve, comprovando o que seus amigos sempre falavam sobre sua voz ser calmante, quando escutou o moreno falar tão desacreditado que Taehyung quase riu da cara dele.

—  Não acredito. Ele dormiu. —  Se aproximou do carrinho olhando para o filho. —  Ele realmente dormiu.

O rosto chocado do outro fez com que a risada que Taehyung prendia saísse baixinha, sendo abafada pela sua mão antes que ficasse mais alta. Gostou de ver o choque alheio, mas gostou mais ainda da forma fofa que ele sorriu quando viu o filho ressoando calmo no carrinho. Lembrou o Kim de um coelhinho, devido aos dentes um pouco avantajados na frente que o outro possuía.

—  Eu falei que conseguiria. —  Se vangloriou baixinho.

Sentindo que havia cumprido com seu dever e provado para Jungkook que o bichinho de pelúcia não era necessário para fazer seu filho dormir, deu às costas para os dois, indo em direção ao caixa —  que descobriu ser no segundo andar quando perguntou a direção para o mesmo atendente de quando entrou —, pagando o preço que ainda achava um pouco demais para um brinquedo, mas saindo da fila feliz pela nova compra.

Já estava preparado para sair da loja para almoçar por qualquer lugar pelo centro antes de ir para casa, a mão na maçaneta pronta para soltar e deixar a porta se fechar atrás de si, quando sentiu ela ser puxada para longe, aberta novamente e um peso novo em seu ombro o fez virar para trás, encontrando o moreno de antes ali. O homem ofegava, provavelmente teve que dar uma corrida para conseguir o achar ante de que fosse embora, mas Taehyung não conseguia entender o que ele queria consigo agora.

“Será que ele ainda quer a pelúcia?”, pensou.

—  Eu posso ajudar?

—  Sim. Por favor, me ajude com meu filho.

Ok. Definitivamente não era isso que estava esperando ouvir.

—  Como assim? —  Sendo sincero, Taehyung já possuía uma teoria do que ia ouvir, mas precisava ter a confirmação vindo do outro.

—  Já sei que você não vai me dar esse bichinho e, pelo que eu pude entender com o vendedor, novas unidades só chegam daqui um mês, então, por favor, enquanto o novo não chega, me ajude com meu filho. A colocar ele para dormir.

Taehyung se encontrava preparado para negar, afinal, com toda a certeza, aquele era um pedido absurdo de se fazer para alguém que conhecia há menos de minutos. Caramba, nem quarenta minutos haviam se passado desde que foi abordado por ele na seção de Lilo&Stich. Como ele confiava em um estranho para algo tão importante quanto o filho? Mas, foi olhando o rosto do moreno com atenção que Taehyung achou a resposta. Ele estava desesperado. Seus olhos pousaram logo abaixo dos olhos escuros que lhe fitavam pedintes, encontrando bolsas escuras que indicavam a falta de sono que ele deveria estar tendo.

E, se ele não dormia, pelo que pode ver, havia uma única razão: o filho também não estava dormindo. Era por isso que ele confiava num estranho. Porque estava pensando no bem do filho.

Sua única resposta para ele foi pedir que ele passasse o celular para si, gravando seu número nele antes de devolvê-lo. E isso foi resposta mais que suficiente para o outro entender qual foi sua decisão sobre o pedido que recebeu. Virou para ir embora, parando quando foi chamado novamente.

—  Qual seu nome? —  Foi só quando escutou aquela pergunta que reparou não terem se apresentado antes. Então sorriu pequeno antes de responder.

—  Kim Taehyung e você?

—  Prazer em conhecê-lo, Taehyung. Sou Jeon Jungkook.

 

(...)

 

Quando Taehyung chegou em casa naquela tarde, sua mente não conseguia desligar das duas pessoas que havia conhecido. Ainda estava em choque por tudo que aconteceu a uma simples ida numa loja de brinquedos, mas agradeceu por ter decidido ir nela, mesmo sem a presença de Jimin, já que conseguiu colocar o pequeno Jae para dormir. Seu coração apertava sempre que pensava em quanto tempo ele deveria ter ficado acordado antes que conseguisse esse feito; não conseguia evitar, amava crianças e Hyunjae era tão fofinho que não resistia a deixar uma preocupação surgir no fundo de sua cabeça.

Pelo menos, foi essa explicação que deu para Jimin durante a noite, enquanto faziam a ligação prometida na parte da manhã, o loiro ficando mais do que surpreso pelo que ouviu que esqueceu até da animação que estava para contar como havia sido seu dia com Hoseok e focando no desconhecido que havia pedido ajuda ao seu melhor amigo. De primeira, só ganhou um sermão por ter dado seu número para um estranho, mas, no final, ao explicar sua visão, até mesmo Jimin concordou que acabaria cedendo se olhasse dentro dos olhinhos de uma criança.

Mas, acabou fazendo Taehyung prometer que, caso se encontrasse de novo com o tal Jungkook, iria sempre avisá-lo antes para que pudesse ficar de olho onde ele estaria. Depois de prometer que avisaria ele, entraram totalmente nos detalhes do encontro do loiro, esquecendo completamente do ocorrido do dia. E até mesmo o Kim deixou de pensar um pouco nos dois e curtiu o dia seguinte, tranquilo, aproveitando o dia de descanso que tinha, já que havia entrado de férias de seu trabalho temporário como editor de textos.

Contudo, nada o preparava para, na tarde seguinte, receber uma mensagem de um número desconhecido, alegando que precisava de si. Quando se encontrava prestes a perguntar quem era, se surpreendeu quando uma nova mensagem chegou, pedindo perdão por não ter se identificado, falando seu nome em seguida.

Jungkook precisava da sua ajuda.

De forma estranha, simplesmente respondeu com um “conte comigo”, recebendo um endereço como resposta e um pedido para ir até esse endereço. Desconsiderando qualquer senso que acreditava ter, foi se trocar, chamando um carro por aplicativo para levá-lo até o local pedido. Não sabia bem o porquê de não estar tendo segundos pensamentos sobre o que fazia, não era normal alguém ficar tão tranquilo enquanto ia em um endereço dado por uma pessoa que não conhecia bem e nem mesmo piscava antes de entrar no banco de trás do carro, rumo à algo desconhecido.

“Talvez eu esteja ficando louco”, pensou, fitando o prédio à sua frente. Achou que precisaria enviar uma mensagem pedindo para Jungkook liberar sua entrada, mas quando se aproximou, o porteiro lhe informou, após se identificar, que sua passagem já havia sido liberada e que ele deveria ir para o sexto andar apartamento de número meia sete. Teve a sorte do elevador já estar no térreo, a subida não demorou muito e logo no final do corredor que enxergou, com o abrir das portas, encontrou o que procurava.  

Bateu na porta, enquanto cantarolava a música do elevador que ficou presa em sua cabeça, mas o barulho que começou a escutar, cada vez com mais clareza, fez com que sua atenção mudasse para frente, onde a porta foi aberta, revelando um moreno desesperado segurando o filho que berrava alto no colo. Os cabelos, que antes havia visto presos, se encontravam soltos e bagunçados; fios apontando para todo lugar. Seus olhos se arregalaram visivelmente, devido a visão inesperada que tinha, coisa que Jungkook reparou, lançando um olhar de desculpas antes de abrir espaço para Taehyung passar, o chamando com um aceno de cabeça para dentro.

Mal esperou que o Jeon fechasse a porta para estender os braços na direção dele, em um pedido mudo para que o deixasse pegar Hyunjae em seu colo, coisa que o moreno entendeu segundos depois, retirando a cara confusa que fez para o gesto, ajudando Taehyung a pegar o filho e, assim que teve certeza que ele estava seguro no abraço do outro, começou a guiá-lo para o quarto do Jeon menor.

Era um quarto de tamanho médio, as paredes eram pintadas de um azul claro com pequenos desenhos que Taehyung reconhecia serem feitos a mão, imitando o mar e vários pequenos barcos aportados num cais. Todos os móveis eram de madeira, o que dava um contraste bonito com todas as cores que o quarto possuía, devido aos brinquedos jogados pelo chão e os quadros pregados na parede, tanto com imagens aleatórias quanto com fotos pessoais. Mas, antes que o Kim pudesse deixar sua mente viajar pela mulher grávida que sorria abraçada a Jungkook na foto ao lado do berço, começou a balançar Jae junto a seu corpo.

O choro do pequeno Jeon já diminuindo, enquanto Taehyung murmurava baixinho um ritmo criado por si, tentando lembrar de alguma música que pudesse cantar para ele quando a perfeita pareceu lhe vir à mente: Lullaby do Nickelback nunca havia sido tão perfeita para o momento quanto agora.

 

"(então dê só mais uma chance)

(como uma canção de dormir)

(e aumente o rádio)

(se você pode me ouvir agora)

(eu estou chegando)

(pra que você saiba que não está sozinho)"

 

Manteve o tom baixo e calmo, conforme foi cantando a letra que ia relembrando conforme seguia, não deixando de balançar o corpo, embalando a criança num doce ninar. O choro antes estridente, agora era apenas um resmungo, enquanto a cabeça descansava no ombro do maior, que acariciava as costas de Jae com os dedos como para dizer que estava tudo bem.

 

"(e você não pode dizer)

(que está muito assustado)

(porque eu não estou conseguindo falar com você pelo telefone)

(só feche os seus olhos)"

 

Conseguiu perceber que Jae não chorava mais, os olhinhos fofamente piscavam cada vez mais lentamente até que se fecharam por completo. A respiração ficando regular e calma, acalmando o coração de Taehyung que doeu quando chegou e viu o estado que o coitado estava graças ao sono. Talvez deveria mesmo ter dado a pelúcia para Jungkook, mas não imaginava que era assim tão difícil colocar a criança para dormir. Se arrependia de não ter ajudado logo quando ouviu o moreno dizer que o brinquedo era para seu filho.

—  Oh, meu bem, aqui vai uma canção de ninar. Sua própria canção de ninar. —  Quando os últimos versos saíram de sua boca, se permitiu sorrir pequeno vendo que mais uma vez havia conseguido colocar o pequeno Jae para dormir. 

Se aproximou do berço, tentando ter todo o cuidado para conseguir colocá-lo deitado nele sem cair ou o deixar em uma posição desconfortável. Cobriu ele com o pequeno lençol que estava ali, deixando um carinho na bochecha gordinha antes de se virar para a porta e dar de cara com Jungkook lhe encarando sorrindo com um brilho no olhar. Esse que não teve tempo de desvendar o que significava, pois assim que retribuiu minimamente o sorriso que recebia, foi escoltado para fora do quarto pelo moreno, depois dele ter ligado a babá eletrônica.

—  Você tem um dom, Taehyung. —  Essa foi a primeira fala que trocaram quando voltaram para a entrada, mantendo a voz baixa de forma automática para não acordar o garoto. —  É incrível como ele dorme quando te escuta. Até agora só o bichinho de pelúcia dele tinha um efeito assim.

—  Sendo sincero, nem eu sabia que podia ter esse efeito. Fui na sorte na loja porque queria provar que conseguia colocar ele pra dormir —  confessou. De certa forma tímido em falar que só queria vencer o desafio que ele havia lançado para si. —  Sou meio competitivo.

—  Eu percebi. —  O moreno riu da cara confusa que ganhou com o que falou, complementando o que queria dizer, tendo que abafar a risada alta que queria sair de sua boca com a visão das bochechas vermelhas de vergonha do Kim. —  A sua cara pra mim quando conseguiu deu a dica, parecia me falar: chupa, otário!

Se Taehyung fosse um desenho animado naquele momento, ele seria aqueles que ficam tão vermelhos que fumaças saiam de suas orelhas. Bem que Jimin falou que sua competitividade trairia ele uma hora. Ficaria mais tempo remoendo sua vergonha se não fosse a voz do Jeon lhe perguntando se poderia o oferecer algo para beber, falando que poderia sentar a mesa enquanto pegava a bebida —  havia aceitado uma água, já que sentia a garganta meio seca após ter cantado — , e pedindo para que não ligasse para a bagunça.

Foi só quando se acomodou que Taehyung começou a notar seus arredores; a casa era simples, a mobília variava entre tons neutros, sendo em grande parte branco e preto, as únicas cores visíveis sendo de roupinhas de criança para dobrar em cima do sofá, além de brinquedos pequenos no chão da sala. A mesa era, na verdade, onde a maior bagunça se encontrava; haviam livros para lá e para cá, canetas e lápis espalhados, cadernos abertos e o notebook do outro também se encontrava aberto, com alguma espécie de arte em desenvolvimento.

— Perdão pela bagunça, eu estava tentando colocar as atividades em dia. —  O copo sendo colocado na frente do Kim o fez dar um pulo de susto, concentrado em tentar decifrar qual era o desenho na folha.

—  Minha casa é pior e eu não tenho um filho para cuidar. —  Tomou um gole da água antes de deixar sua curiosidade tomar conta. —  Você faz faculdade?

—  Sim, de Artes. Estou no último ano e estou quase perdendo a cabeça —  brincou, rindo um pouco com Taehyung, que estava gostando do jeito leve que o outro estava naquele momento. Bem diferente da pessoa ranzinza que havia lhe pedido sua pelúcia.

—  Então eu estava certo quando achei que você era mais novo. Quantos anos você tem?

—  Tenho vinte e dois.

—  Eu tenho vinte e cinco, sou seu hyung. —  Segurou um sorriso com os olhos arregalados em sua direção.

—  Você parece mais novo.

— Meus pais fizeram um bom trabalho —  falou, fingindo bater cabelo. Ambos rindo da brincadeira de Taehyung, gostando da forma leve que estavam levando a conversa.

Bom, pelo menos até que sua curiosidade foi longe demais.

—  Deve ser difícil conciliar os dois. —  Retomou o assunto fazendo a pergunta que trouxe o silêncio entre eles. —  Cadê a mãe dele? Vocês não revezam a hora para cuidar dele?

Foi quando o sorriso morreu no rosto de Jungkook e a tristeza tomou conta dele, que notou ter entrado em um assunto complicado, se arrependendo imediatamente por ter deixado sua boca falar mais rápido que sua mente, não tendo analisado melhor a situação. Estava prestes a pedir desculpas e tentar mudar de assunto quando o moreno lhe interrompeu começando a falar.

—  A mãe do Jae… Ela morreu no parto.

— Meu Deus, Jungkook. Eu sinto muito. —  Esticou o braço, segurando a mão do outro com a sua. —  Não precisa falar.

— Está tudo bem, você está me ajudando com o Jae, merece saber. —  Suspirou, apertando ainda mais a mão de Taehyung, antes de soltar a bomba. —  Hyunjae não é meu filho de sangue.

E foi a partir daquela confissão que Taehyung descobriu o porquê do desespero de Jungkook a respeito do filho. Jeon Sunmi, esse era o nome da mãe de Hyunjae, mais conhecida também como a irmã mais nova de Jungkook. Ela havia ficado grávida após uma festa em que participou e acabou não usando proteção, resultando em Jae. Não sabiam quem era o pai, pois ela não conhecia o cara e não sabia como o achar. Foi chorando que ela chegou em Jungkook desesperada, dizendo que não estava preparada para ser mãe, mas encorajada pelo irmão resolveu ter o bebê.

Só que, infelizmente, ela não foi forte o suficiente para sobreviver ao parto.

Quando a criança nasceu, Jungkook passou a ser o guardião legal, pois era quem tinha mais condições de cuidar dele. Já que o Senhor Jeon possuía Alzheimer e morava junto com a esposa, sob os cuidados dela e de uma enfermeira; era impossível eles ficarem com uma criança, além de já possuírem uma idade avançada. Então, restou a Jungkook cuidar daquele que era o legado de sua falecida irmã.

—  Sua irmã estaria orgulhosa de você, Jungkook —  afirmou, quando terminou de escutar a história por trás da vida do moreno.

—  Ela não estaria —  discordou, soltando uma risada bufada. —  Ela não se orgulharia de alguém que quase abriu mão do filho dela.

—  Como assim?

Tal assunto parecia ser uma imensa ferida aberta em Jungkook e talvez estivesse errado em continuar perguntando as coisas, mas sentia seu âmago, que tudo que o outro precisava agora era de alguém para ouvi-lo; colocar seus demônios para fora. Vendo como ele parecia segurar as lágrimas, Taehyung apertou ainda mais o aperto na mão do Jeon, como uma forma muda de dizer que estava tudo bem, que ele não estava sozinho.

— Quando eu soube que ela não havia sobrevivido, foi como se um pedaço do meu mundo simplesmente caísse aos pedaços. Sunmi era meu porto seguro desde quando éramos pequenos, saber que ela havia ido foi… demais para mim e a notícia de que agora o filho dela ficaria na minha guarda apenas piorou tudo. — A voz dele saía arranhada, como se ele estivesse se esforçando para elas saírem. —  Eu não estava pronto para ser pai, então eu pretendia pôr o Jae para adoção.

Taehyung prendeu a respiração com aquilo. Nem conseguia imaginar a dor que o Jeon deveria ter passado e, principalmente, nunca imaginaria que, a pessoa que sorria tão fofamente para a criança que dormia tranquila no quarto ao final do corredor, teria tido tais pensamentos.

—  E por que mudou de ideia? —  perguntou, baixo.

—  Eu fui visitá-lo um dia, na ala do hospital. Ele deveria ter uns cinco dias de vida e ele era tão pequeno Taehyung, deitado naquela caminha de bebês, tão indefeso. E ele parecia tanto ela que doía, mas quando os olhos dele se abriram e me olharam, perdi a coragem. Eu caí de amores por ele naquele momento. —  Secou uma lágrima que descia pela sua bochecha. —  E prometi que cuidaria dele para sempre, a partir daquele momento. Até hoje me pergunto o que ela pensaria de mim se soubesse que eu pretendia dar para alguém o bem mais precioso da vida dela.

O mais velho não conseguiu evitar a vontade que estava de abraçar o garoto, então ficou em pé ao lado dele, puxando-o com calma para que se encostasse em si, abraçando ele daquela forma. Os dedos se infiltrando em meio aos fios negros, num carinho gasto e com o único objetivo de acalmar o outro.

— Eu tenho certeza que lá de cima, em meio às nuvens branquinhas, sua irmã está te olhando agradecida e orgulhosa da pessoa que você se tornou. Do bom pai que você está sendo para o Jae —  recitou, sem parar o cafuné que realizava, mas sentindo a cabeça de Jungkook se levantar minimamente, como em um sinal de que estava prestando atenção. —  Até trouxe um desconhecido pra ajudar ele a dormir —  brincou, ganhando uma risadinha em troca. —  Não tem como ela não se sentir tranquila com a certeza  que ele está em boas mãos.

—  Obrigado. De verdade.

—  Não tem de quê, Jungkookie.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, o tempo necessário para que Jungkook pudesse se recompor depois da tempestade de emoções que foi contar tudo aquilo para o mais velho. O moreno, se afastou de Taehyung quando sentiu que já estava bem o suficiente; um pequeno sorriso de agradecimento estampado em sua face quando ganhou uma pergunta muda do Kim sobre seu estado.

Naquele dia, o Kim acabou ficando mais algumas horas na companhia de Jungkook, conversando sobre a vida deles e se permitindo conhecer ainda mais um do outro. Afinal, ainda se veriam por um bom tempo se aquela relação de ajuda fosse continuar. Quando foi embora, o sol já estava querendo se pôr e Jae havia acordado a tempo para lhe dar tchau, pela primeira vez sorrindo ao invés de chorar.

Partiu para pegar o táxi que havia chamado, com o combinado de aparecer lá novamente no dia seguinte. Ele só não esperava que fosse continuar aparecendo por todos os próximos.

 

(...)

 

—  Você vai pra lá de novo?

Jimin já nem podia dizer que estava chocado pela notícia de que o amigo iria mais uma vez passar a tarde na casa dos Jeon’s, já que parecia que tais visitas viraram rotina na vida dele desde o primeiro dia que havia sido chamado para o apartamento deles. E o Park sabia que, por mais que Taehyung dissesse que apenas queria ajudar e que ele e o tal Jungkook eram só amigos, ele sabia que tinha mais por trás. O amigo simplesmente não sabia ainda.

—  Sim, combinamos de ir assistir One Piece durante a tarde enquanto não dá a hora do Jae dormir. —  A fala de Taehyung soava baixa e distante, então o loiro concluiu que ele estava no viva voz.

—  Dois otakus vendo animes juntos, que maravilha.

—  Nem vem que bem sabemos que você andou assistindo Toradora, senhor sou bom demais para animes. —  Retrucou o deboche do amigo.

Revirou os olhos mesmo sabendo que o outro não poderia ver. Jimin se jogou em sua cama, colocando o amigo no viva voz também antes de se defender.

—  Toradora é exceção, desenho fofo.

—  Me engana que eu gosto Jimin. Eu vi na sua lista de assistidos que tava vendo a quarta temporada de Bleach —  acusou, a voz ficando mais alta; provavelmente havia pegado o celular em mãos. —  Tenho que ir, meu Uber chegou. Tchau.

—  Tchau e fica longe da minha Netflix —  respondeu, antes do barulho de fim de chamada soar.

Bloqueou o celular, se permitindo fechar os olhos e tentar cochilar mais um pouco, já que ainda eram onze da manhã. Era o exemplo de amigo, por ter atendido Taehyung numa ligação aquela hora da madrugada, interrompendo seu sono da beleza, não que precisasse é claro. Mas entendia o amigo, sempre ficava eufórico e animado quando Hoseok estava envolvido, a única diferença era que sabia o que sentia.

Porém, o amigo ainda não havia aberto os olhos para notar o que estava bem em frente ao nariz dele: ele não ia mais na casa do Jeon pelo desejo de ajudar, mas ia simplesmente por causa de Jungkook. Só esperava que o melhor amigo não tivesse o coração quebrado, contudo, algo em seu âmago dizia que aquele moreno de sorriso de coelho nunca faria nada para que Taehyung perdesse o sorriso, então estava tudo bem.

Estava prestes a conseguir entrar novamente no mundo dos sonhos quando escutou o barulho alto e odioso da sua campainha soar por toda casa, o fazendo levantar de cara amarrada para ir abrir a porta. Esta que desapareceu completamente, dando lugar a confusão ao visualizar Hoseok parado lhe sorrindo dela enquanto segurava uma caixa de pizza.

—  Bom dia, Minnie.

—  Er… Bom dia, Hobi —  cumprimentou de volta, não resistindo a sorrir com o sorriso largo do outro para si. Tão brilhante quanto o próprio sol. —  O que faz aqui?

—  Eu acordei e resolvi vir fazer uma surpresa, trouxe pizza para o almoço —  falou como se não fosse nada demais, como se não tivesse acabado de fazer o coração bater mais rápido que batuque de escola de samba.

Sorrindo o mais largo que podia, abriu espaço para o Jung passar, fechando a porta após vê-lo caminhar para a cozinha sem timidez nenhuma, afinal, já era de casa. Eles se conheciam há tantos anos que nem se importavam em contar mais, a presença de ambos sendo tão íntegra na vida de cada um que já não viam ela sem um ao outro. E podiam jurar com toda a certeza que todos do grupo se sentiam assim respectivamente um com o outro, a tatuagem que marcava a pele de cada um sendo prova do amor que sentiam pela família que haviam formado.

Levando isso em conta, Jimin nem se lembrava mais de quando começou a se sentir diferente em relação ao amigo, apenas um dia olhou para Hoseok rindo e sendo a pessoa animada que era, e pensou que ele era a pessoa mais linda que já havia conhecido. Não só por fora, mas por dentro. Não conseguia lembrar de um dia que não estivesse para baixo ou precisando de ajuda, que o outro não tivesse a sua frente lhe estendendo a mão ou o oferecendo um ombro amigo para chorar. Talvez fosse por isso que um dia, quando foi questionado por Taehyung se amava Hoseok, não titubeou ao dizer que sim.

Só se dando conta que já não era mais o mesmo amor de amigos quando Taehyung complementou sua pergunta com uma pequena frase: em que sentido você o ama?

E isso apenas o levou a vários dias pensativo, sentimentos confusos e ao início de uma tempestade emocional dentro de si, até que finalmente chegou numa resolução que era mais do que clara para todos que convivia e que passou a ser para si.

Amava Hoseok como a pessoa que queria para ser seu complemento. Como a pessoa que desejava poder acordar todo dia do lado até que dessem seus último suspiros. Só lhe doía pensar que era o único a desejar isso entre os dois. 

Suspirou, balançando a cabeça para deixar tais pensamentos saírem de sua cabeça, quando enfim se moveu para alcançar a cozinha, onde Hoseok lhe esperava; mas, por mais que estivesse avoado, não pode deixar de notar a forma como o outro parecia estar nervoso com algo. Não no sentido de raiva, mas como se estivesse ansioso com algo. Só que quando perguntou o que era, não ganhou nada além de um dar de ombros. Então, ignorou e foi em busca dos pratos e talheres, enquanto o Jung arrumava a mesa para poderem, enfim comer, porém, assim que sentou junto a ele na mesa, não aguentou mais.

— Hobi, certeza que está tudo bem?

—  Sim, absoluta.

Ah, ele coçou a nuca. Definitivamente tem algo com ele. Pensou, mas se ele não quer me dizer agora, só lhe restava esperar.

Foi então direto para a caixa de pizza que ainda estava fechada, tirando a tampa, louco para comer logo, porém o que pode ver lhe deixou estagnado. Sinceramente, Jimin esperava encontrar apenas uma típica pizza de frango e catupiry que o outro sabia ser o seu sabor favorito, mas o que não esperava era ver uma frase escrita com Ketchup por cima dela e muito menos esperava ler o que ela dizia.

Por isso estava em choque, afinal, não é todo dia que se lê “quer namorar comigo?” escrito em molho. Ficou encarando aquilo pelo que pareceu um bom tempo antes de levantar o rosto para Hoseok, que o encarava com ainda mais nervosismo e expectativa pelo que parecia. Levou seus olhos dele para a pizza várias vezes até que sua mente raciocinou e conseguiu falar algo, mesmo tendo sido apenas murmúrios.

—  Isso… isso é sério? Você não está brincando comigo está? —  perguntou inseguro, seu coração não iria aguentar se aquilo fosse uma brincadeira.

Teve sua mão segurada por Hoseok que nunca lhe encarou tão sério quanto fazia naquele instante, entrelaçando seus dedos antes de começar a falar.

—  Jimin, eu não sei mensurar o quanto eu te amo. Provavelmente não inventaram ainda um meio de contabilizar o quanto você é importante pra mim e eu simplesmente não consigo ficar com isso só para mim, porque dói aqui dentro. —  Apontou para o próprio coração. —  Cada dia que passo com você longe, com você sem saber que cada pequena partícula do meu ser grita para tê-lo ao meu lado.

—  Por que nunca me falou isso antes?

—  Porque… somos amigos há tanto tempo, Minnie, que eu tinha medo da mudança que eu falar o que sentia podia trazer, mas digamos que uma pessoa amante de desenhos me falou que não devemos temer a mudança, mas a estagnação. Então resolvi arriscar.

Jimin não sabia se xingava Taehyun ou o abraça forte, mas naquele momento não queria pensar nisso. Porque a pergunta feita em seguida pelo outro era mais importante:

—  Então, aceita?

 

(...)

 

Taehyung só conseguia se segurar para não morrer de fofura enquanto assistia Jungkook dar mama para Hyunjae, enquanto estavam sentados juntos no sofá. O moreno estando apoiado em seu ombro direito enquanto seu braço passava por trás dele. Pareciam muito um casal que estavam anos juntos enquanto assistiam o filho se alimentar, mas, por mais que o Kim tivesse sentimentos confusos dentro de si para com o Jeon, ainda não havia chegado a colocar eles na mesa. Principalmente porque pensava que era o único nutrindo algo.

Provavelmente, Jungkook ainda o via, simplesmente, como o desconhecido que havia chamado para lhe ajudar e que criou uma amizade; a famosa friendzone nunca pareceu tão real quanto agora. Mas olhando a forma fofa como ele segurava Hyunjae no colo, o brilho no olhar dele ao olhar para a criança, fazia a vontade de Taehyung de fazer parte daquela família aumentar.

Já haviam se passado alguns meses desde que tiveram seu primeiro "encontro" completamente fora do normal na loja de brinquedos, o dia que sentaram e conversaram pela primeira então, parecia ter acontecido séculos atrás. Mas, foi graças a ela que Taehyung se sentiu confortável a chamar Jungkook para conversar pelo celular, em virtude de se conhecerem mais. Acabaram por descobrir vários gostos em comum, como, por exemplo, o gosto por livros, artes e animes; desenhos japoneses.

E Taehyung era fã de todos os tipos de desenho, então ficou muito feliz de achar alguém que gostava também, as conversas rasas do aplicativo passando de “tudo bem?” e “como está?”, para altas teorias e opiniões sobre seus animes favoritos. Acabaram descobrindo também que, apesar de terem gostos parecidos, possuíam opiniões bem distintas sobre as coisas, o que rendiam boas argumentações. Bem idiotas se fossem vistas de fora, por pessoas que não entendiam o contexto, afinal, quem discutia sobre quem era mais inteligente: O Light ou o L?

Até mesmo seus gostos por músicas antigas eram compartilhadas e já haviam dançado na sala ao som de Summer of 69 e das risadas de Hyunjae que parecia adorar quando tinham esses momentos, ele sendo outro a quem o Kim se apegou totalmente. Aquela criança simplesmente conquistou seu coração de tal forma que nem mesmo quando estava no sossego de sua casa conseguia parar de pensar nela; se ele estava bem, se estava com sono, se precisava de alguma coisa ou se precisava de companhia para brincar enquanto o pai se dedicava ao trabalho —  que era primordialmente home office —  ou com trabalhos da faculdade.

Queria proteger ele de todo mal, estava verdadeiramente apegado. Tanto ao Jeon mais novo quanto ao mais velho. Oras, não era cego. A beleza de Jungkook lhe nocauteou desde a primeira vez que seus olhos pousaram nele, desde os cabelos negros que pareciam macios, os braços tatuados que podia ver, o estilo mais solto que ele vestia, até os olhos que pareciam duas pedras Onix. Tão brilhantes que o fazia sentir observar o mais vasto dos universos quando o encarava diretamente, se perdia sempre que tinha os olhos do Jeon sobre si.

Todo aquele jeito marrento que viu pela primeira vez o deixava curioso e quando conversaram realmente pela primeira vez, a confidência de Jungkook com ele deixou claro que havia mais a ser visto do que o mostrado a primeira vista. Podia dizer que, conforme os dias foram passando, as conversas se aprofundando, a companhia um do outro virando rotina, acabou por descobrir várias facetas do Jeon que lhe cativaram ainda mais. Mas não foi de uma só vez, foi com calma, com o passar do tempo, da mesma forma que se cativa uma bela flor, Jungkook lhe cativou.

Gostava da forma como, às vezes, ia cedo no dia e podia ver os olhos bonitos se fechando sozinhos pelo sono que sentia, as bochechas vermelhas e amassadas ainda do travesseiro. De como ele ficava bonito andando pela casa com suas calças de moletom e regatas que deixavam seus braços a mostra e os pés descalços, arrumando o lugar com sua ajuda. Ou a forma como ele parecia conhecer cada cantinho da cozinha, se movendo de forma profissional quando resolvia cozinhar para todos, até para Jae que começava a poder comer papinhas.

Ah, amava o jeito em que ele não importava se estava sendo bobo ou idiota apenas para fazer o filho sorrir. Ele era um pai maravilhoso apesar de não ver isso ele próprio, então Taehyung tentava dizer sempre que podia o quão incrível ele era para Hyunjae. Amava também o jeito que ele não tinha medo de pedir ajuda quando precisava, de não ter vergonha de pedir um abraço amigo quando precisava. Afinal, ninguém é forte o tempo todo. E essa era uma das coisas que achava mais cativante nele. Ele não tinha medo de ser vulnerável, não tinha medo de ser ele. Cem por cento humano, a todo momento, simplesmente Jeon Jungkook.

—  Parece que hoje você não vai precisar cantar. —  A voz de Jungkook o despertou dos pensamentos, seguindo o olhar dele até encontrar Jae de olhos fechados; a mamadeira já vazia.

—  Ele brincou bastante hoje, é normal estar mais cansado — falou, assistindo o moreno se levantar.

— Também, você brincou com ele a tarde toda. Conseguia escutar a risada de vocês da sala. —  Relembrou da tarde em que acabou ficando estudando na mesa enquanto o mais velho cuidava de Jae no quarto.

—  Acho que me diverti mais que ele. Sempre que cuidava dos meus sobrinhos, me falavam que eu parecia mais criança que eles. —  Jungkook riu baixo do outro, conseguia visualizar perfeitamente a imagem dele brincalhão no meio das crianças, mais animado que elas.

—  Vou colocar o Jae na cama e podemos maratonar One piece, que tal? —  propôs, já caminhando para o quarto.

—  Perfeito — sussurrou, vendo as costas do moreno sumir pelo corredor, recostando a cabeça no sofá e sorrindo.

Aqueles momentos caseiros sempre pareciam fazer seu coração pular uma batida. Talvez fosse pouco tempo para que se sentisse assim, mas se Jungkook lhe permitisse, queria que tivessem esse tempo para poderem deixar esse novo sentimento prosperar em algo se tiver que ser ou se manter no sentido de amizade caso fosse o que o destino quisesse.

Tirou o celular do bolso, aproveitando que estava sozinho para conferir suas mensagens e redes sociais, já que quando estavam com os Jeon´s dava total atenção a eles, considerava que quando estava com outras pessoas era para passar tempo com elas, por isso se desligava completamente dos eletrônicos. Um pensamento levemente antigo dele nesse novo mundo, mas que ele gostava de manter.

E foi bem quando entrou nas notificações de mensagens, entrando na aba de conversa de Jimin que abriu o maior sorriso possível, vendo a foto que ele havia mandado horas atrás. Era uma foto de Jimin e Hoseok sorrindo para a câmera com a pizza do lado, o pedido ainda intacto nela, com uma mensagem de obrigada do amigo logo embaixo. Finalmente, foi o que pensou e enviou para o loiro. Esperava a nós pelo dia que esses dois iam ficar juntos há anos e ficava verdadeiramente feliz por conseguir ver que o dia tão aguardado estava ali.

— E esse sorrisão aí? Algo bom aconteceu? —  Jungkook perguntou voltando o sofá, se acomodando nos braços de Taehyung, que havia aberto eles para receber o moreno.

— Muito boa. Lembra daqueles meus dois amigos que eu tinha comentado com você?

— Sim, os que se gostavam, mas não abriam logo o jogo —  relembrou, virando a cabeça para ele. —  O que tem eles?

—  Olha aqui.

Entregou o celular nas mãos do Jeon com a conversa ainda aberta, deixando ele ver a foto e entender a situação, vendo um sorriso nascer os lábios rosados quando compreendeu o que havia acontecido. Retribuindo ele quando o moreno se virou suficiente para lhe encarar, batendo palminhas animado igual uma criança.

—  Finalmente eles se resolveram.

—  Sim, estou muito feliz por eles. Assisti eles se amando em segredo com medo por muito tempo, é tranquilizador pro meu coração ver que estão juntos finalmente depois de muita luta. —  O tom de orgulho que Taehyung trazia na voz fazia Jungkook lembrar de si mesmo com Jae. Era como um pai orgulhoso do feito dos filhos.

— Que bom que deu tudo certo no final —  soltou, pegando o controle para colocar o anime na televisão. —  Arco do Ace?

—  Arco do Ace.

Concordou, se ajeitando no sofá junto a Jungkook, relaxando conforme a entrada do anime começava, cantando tudo errado junto ao outro, ambos se divertindo com a forma do outro de cantar em japonês. Era uma forma de passar o tempo que gostavam de fazer quando estavam juntos, se divertiam assistindo e sofrendo junto dos personagens, criticando ou apoiando as decisões que eles tomavam. As mãos se apertando uma na outra em cenas tensas —  essas que nem perceberam quando acabaram por entrelaçar —, os corpos ainda mais próximos, procurando o conforto do calor um do outro.

E horas se passaram com eles assim, concentrados na telinha que viam, levantando apenas quando ficaram com fome e fizeram pipoca para comer enquanto continuavam assistindo. Revezavam para ir ver Jae quando escutavam algo na babá eletrônica, tendo certeza que ele estava dormindo tranquilo. Os dois gostavam desses momentos de paz que tinham, Jungkook por não ter muitos deles antes, com a rotina doida que estava vivendo desde que Jae entrou em sua vida, e Taehyung por conseguir aproveitar com outras pessoas em suas férias do trabalho, que tirava muito de suas horas de lazer.

Ambos gostavam desses momentos por motivos diferentes, mas sabiam que eram ainda mais preciosos para eles porque podiam partilhá-los um com o outro.

—  Tae, você acabou de ver o mesmo que eu? —  Os olhos escuros arregalados igualmente aos do Kim que encarava a tela totalmente chocado.

—  O Ace…

—  O Luffy…

E se olharam com lágrimas nos olhos, sem conseguir acreditar no que tinham acabado de ver, totalmente em choque. O problema é que Jungkook ainda estava com a cabeça deitada no ombro de Taehyung, então ao ambos de virarem para se olhar acabaram ficando mais perto do que haviam calculado, os narizes se encostando. Podiam sentir a respiração alheia batendo contra seus rostos, não ousavam quebrar o contato visual, várias coisas passando pela cabeça de ambos e podendo ser vistas em seus olhos.

Jungkook fechando os olhos ao sentir os dedos de Taehyung em sua bochecha, acariciando-a com carinho e cuidado, como se o outro fosse uma pedra preciosa que precisava ser manuseada com cuidado. O Kim podia jurar que seu coração nunca havia batido tão forte e tão rápido quanto acontecia naquele instante, por isso que decidiu arriscar.

Como dizia Jimin, o não ele já possuía, era hora de correr atrás do sim. 

E foi pensando nisso que acabou com toda a pouca distância, colando os lábios. Estava oficialmente beijando Jungkook e ele estava correspondendo, o contato não passando de um leve colar de bocas, pois antes que pudessem o aprofundar um barulho que conheciam bem os fez se separar na hora. O choro de Jae era alto na babá eletrônica, podendo ser escutado com facilidade na sala. Os dois se levantaram no mesmo segundo que assimilaram o que acontecia correndo para o quarto de Hyunjae.

Jungkook sendo o mais rápido a chegar, já pegando ele no colo para o acalmar, o choro estridente se acalmando e ficando apenas um choramingo que deixava claro que ele ainda estava com sono, já que deitava a cabeça no peito do pai. Imediatamente o moreno olhou para Taehyung, lançando um olhar de desculpas ao mesmo tempo que pedia ajuda, o mais velho não tardando a se aproximar e pegar Jae em seus braços, já pensando na música que cantaria dessa vez.

E assim que olhou para Jungkook, sentado no pequeno banquinho que havia ali, a perfeita lhe veio a cabeça.

 

“(Eu acho que estou apaixonado)

(O tempo está passando, corações acelerados)

(Acho que o cupido está tramando algo)

 

Amava as músicas da Kat Dahlia e aquela parecia descrever perfeitamente o que pensava e sentia em relação a Jungkook, fez questão de cantar os primeiros versos olhando para ele. Ela estava sendo como sua mensagem secreta, levando para ele os sentimentos que não conseguia colocar para fora.

 

“(Você me perguntou como eu me sinto, eu não disse nada)

(Mas ultimamente as cores parecem tão brilhantes)

(Meus pés estão tão leves)

(Eu estou ignorando os sinais)

 

Poderia dizer que desde que conheceu Jungkook e Jae, sua vida estava ainda mais colorida. Sempre foi uma pessoa animada, seu mundo sempre foi colorido, porém os Jeon’s trouxeram novos tons que desconhecia no seu dia a dia. Eles, sem que percebessem, se tornaram parte de sua família, mesmo que nunca tenham dito isso em voz alta; sabia que Jungkook tinha conhecimento disso. E, cada vez que ele deixava Taehyung entrar, descobria ainda mais coisas que amava neles e que lhe dava vontade de nunca ir embora.

— Eu estou apaixonado.

Sorriu ao terminar a música e notar Jae adormecido em seus braços, ainda ficava chocado quando via ele dormir ao som de sua voz porque não esperava nunca ter tal reação, e sempre que via ele dormindo pacificamente, sabendo que foi ele que trouxe essa paz de espírito para ele, seu coração se aquecia. Colocou ele para deitar no berço, tendo o cuidado de sempre ao cobri-lo com o pequeno lençol. Deu um beijo de boa noite em sua testa antes de se virar para encontrar Jungkook.

Taehyung só não esperava encontrar o moreno de olhos fechados, recostado da forma que conseguia no pequeno sofá, a respiração calma dando a entender que dormia. A mão sendo a única coisa que mantinha a cabeça apoiada, espremendo sua bochecha e deixando-o ainda mais fofo na concepção do Kim. Só conseguia imaginar o quão cansado ele estava de ter estudado e trabalhado o dia inteiro, mesmo quando terminou as tarefas que precisava, ainda brincou com Jae e fez a comida para os três.

Ficou feliz em conseguir ver ele descansando, então com todo o cuidado para não o acordar, sentou ao lado dele indo com toda a delicadeza apoiar a cabeça dele em seu ombro para que ele pudesse ficar em uma pose confortável. Tinha medo da mão dele escorregar e ele acabar se machucando. Ao ter certeza que ele estava bem apoiado, relaxou no sofá, fechando os olhos para descansar também. O dia havia sido cheio e sua cabeça ainda fazia questão de relembrá-lo do que havia acontecido minutos atrás na sala, do que finalmente havia tido coragem de fazer.

Meu deus, eu beijei Jungkook.

Já estava pronto para começar a pensar em estratégias para como iria encarar o moreno no dia seguinte quando sentiu uma mão segurar a sua, entrelaçando os dedos com os seus.

—  Jungkookie? —  chamou baixinho, tanto para não acordar Jae quanto por não ter total certeza se ele estava acordado.

— Eu acho que estou apaixonado também.

Essa foi a única resposta que ganhou, mas foi a única que realmente precisou porque foi aí que aquela pequena frase, cantada no mesmo ritmo da música que cantou antes, mostrava que Jungkook havia entendido sua mensagem. Que havia entendido o que havia cantado, olhando em seus olhos e o que não tinha conseguido pôr em palavras antes; ele estava respondendo. Ele sentia também. Apertou a mão dele, não podendo estar mais feliz.

Ter decidido ir naquela loja de brinquedos foi a melhor coisa que poderia ter feito, pois aquela última pelúcia do Stitch trouxe bem mais para sua vida do que apenas mais um objeto para sua coleção, ele lhe trouxe duas pessoas pelas quais se importava e lhe mostrou mais uma vez o significado da palavra Ohana. Eles eram sua família agora também, assim como ele era a sua.

—  Então vamos ir atrás da certeza juntos —  falou, sorrindo e mesmo sem ver, sabia que o outro espelhava o sorriso.

E pensar que tudo começou com uma canção de ninar. 


Notas Finais


Espero que tenham gostado da leitura anjos, dêem amor ao projeto e aos integrantes dele. Todos são uns amores ^^


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