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História Lunar - Capítulo 2


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Notas do Autor


EU VOLTEI
meu deus eu realmente voltei
O importante é manter a fé no coração e não matar a autora devido aos furos obvios de roteiro (vamos combinar eu sou basicamente a pessoa mais surpresa aqui de isso ter realmente sido lançado)
SEM MAIS DELONGAS IRRA VAMO

Capítulo 2 - Interlúdio - Três semanas


O “não se preocupe com nada” de Zewu-jun no final acabou se tornando sua própria preocupação. Quer dizer, mesmo que ele ainda não acreditasse cem porcento o que haviam lhe contado ― por favor, parecia um absurdo ― ele tinha aquela coisa no pulso.

Seus dedos escorregaram pelo relevo da tatuagem. Quando era mais jovem, ele se pegava pensando quando ele conseguiu aquilo e como. Bom, agora ele sabia.

Mesmo que isso não o acalmasse e dificilmente o fizesse se sentir mais tranquilo.

Normalmente ele tentava não pensar nos treze anos desaparecidos de sua memória, mas ali, no recesso das nuvens onde ele tinha uma cama macia e enorme apenas para ele... tudo parecia real demais para que ele não pensasse sobre. Pela primeira vez ele se sentiu roubado.

E também havia aquela coisa de que ele não estava nem um pouco acostumado a mordomia. Claro que era legal, mas ele não conseguia se acostumar.

A cama era espaçosa demais. Normalmente ele dormia ou no chão ou em uma cama de solteiro com um de seus irmãos quando eles encontravam alguma estalagem barata. Quando não conseguiam, procuravam por celeiros e dormiam sobre a palha seca ― ou simplesmente dormiam na grama úmida e fresca cheia de orvalho enquanto viam as estrelas. Podia soar glorioso e poético pensando assim, mas era realmente uma merda e mesmo assim ele mal conseguia pegar no sono em sua nova cama.

Estava acostumado a caçar sua própria comida também, a cozinhar com o básico, a trabalhar pesado para poder comprar doces para A-Yang ou materiais de pintura para A-Yu. Pensando bem, dessa parte ele não reclamaria. Não com seus irmãos recebendo tudo o que queriam.

Mas ele ainda estava acostumado a viajar, nunca permanecer em um só lugar. Sempre criando novas bugigangas ou talismãs. Brincando com seus irmãos, invadindo rios apenas para poder nadar um pouco, colhendo flores para fazer tinta para A-Yu e ― muito raramente ― algumas essências que ele vendia como perfume.

Para ele, foi uma tortura quase sem fim não fazer nada.

Então, para a sua completa alegria e paz mental, foi Madame Lan ― bendita fosse ― quem arrastou seu marido e filho mais velho pela orelha e os fizeram encontrar algo no qual Wuxian pudesse ajudar. Ele quase chorou de felicidade e a agradeceu de joelhos, mas ele tinha a leve impressão de que ela também o puxaria pela orelha se ele fizesse aquilo.

Com o passar dos dias, cada um dos membros da família Lan se tornou estranhamente... nostálgico para ele. Claro, ele os conhecia ― mas saber sobre isso e de fato sentir eram coisas completamente diferentes.

Madame Lan foi com quem ele mais conviveu, já havia o arranjado um trabalho com o pessoal dos refeitórios Lan, além de “convencer” outras pessoas a deixa-lo ser um dos instrutores de esgrima ― foi um desastre absoluto. Ele não estava a fim de repetir a dose.

Mas voltando à cozinha, parecia que sempre faziam pratos separados para Lan Linyi, já que ela tinha um paladar... picante demais para os moradores de Gusu. Um sorriso manchou seu rosto quando ele se lembrou de como acabou indo parar na cozinha.

Ele seguiu a mulher até as cozinhas, onde ela literalmente o despejou lá e disse que de acordo com o irmão dele: “Seu irmão iria morrer se ficasse mais cinco minutos trancado dentro do quarto e ele ainda precisava forçar Wei Wuxian a o ensinar sobre alguns talismãs”.

Ele pediu desculpas pela língua grande de Xue Yang mesmo quando ambos sabiam que ele não se sentia nem um pouco mal por aquilo. Seus irmão eram espíritos livres, duas bolas de energia caótica o suficiente para levar Gusu à loucura em pouco tempo. Madame Lan dispensou suas desculpas com um pequeno tapa em sua nuca, dizendo que era bom ter um pouco de movimento ali para variar.

Mas ele não chamaria Mo Xuanyu e Xue Yang de um pouco de movimento. Ele chamaria de catástrofe iminente ou bomba relógio. Wei Wuxian nem mesmo sabia o que havia acontecido para eles não terem arranjado confusão em tanto tempo.

Claro, ele não era um anjo também e muito provavelmente era exatamente o oposto a aquilo. Mas estava realmente se esforçando para não criar muito caos. Ele não tinha culpa alguma que a cada vez que ele aprontava algo Lan Qiren fizesse a expressão mais engraçada do mundo!  Era como se o mundo quisesse de alguma maneira impulsiona-lo a―

― Wei Wuxian, eu espero que você não esteja abusando das pimentas mais uma vez.

Ele recebeu um tapa na parte de trás da cabeça e teve o grande frasco de pimentas arrancado de suas mãos.

Nuo Liu o encarava com o rosto vermelho por conta do calor do forno onde ele trabalhava antes ― uma mão segurando o frasco de pimentas vermelhas, enormes e gordas e totalmente apetitosas perto da cintura enquanto a outra apontava para ele com uma concha de metal suja com creme de cogumelos que pingava no chão.

― Eu não exagerei tanto da ultima vez! ― Tentou reclamar mesmo sabendo da culpa que carregava. Em sua defesa, aquele prato era para ele. Que culpa tinha que acidentalmente o caldo de broto de bambu cozido apimentado que ele preparou para si mesmo acabou sendo enviado para Lan Qiren? Ele era absolutamente inocente!

O homem o encarou com as sobrancelhas erguidas, balançou a cabeça e gargalhou. Ele tinha o cabelo escuro e curto, liso e desfiado de uma maneira que apenas uns poucos fios caiam do pequeno rabo de galo que ele os prendia. Os olhos castanhos cor-de-terra e a pele escura com uma cor forte de mel de eucalipto. O queixo quadrado e a barba também castanha fina mal feita.

Nuo Liu foi uma das únicas pessoas que o aceitaram ali sem o menor desconforto por ele ser o Wei Ying do passado. A maioria ali já havia o visto quando ele era criança e haviam adquirido o habito de trata-lo como se ele fosse parte do principal ramo do clã Lan. Como se ele fosse uma das jades, o que ele absurdamente repudiava ― alguns até o chamavam de “joia perdida do cultivo” o que o deixava a beira de pular de um precipício.

Mas não seu amigo ali, que o enchia de tapas se ele não fizesse algo certo e gargalhava das piadas ridículas que ele fazia sobre si mesmo o tempo todo. Ele devia ter adivinhado, mas ainda assim ficou bastante chocado ao descobrir que Nuo Liu não era um dos afiliados da Seita Lan, ele era simplesmente um amigo da Madame Lan que decidiu morar por ali para cuidar da cozinha e de sua amiga de longa data.

O alivio que ele sentiu ao provar da comida do homem não podia ser descrito em palavras. Antes, quando ele era servido no quarto ― e ele ainda se esforçava minimamente para parecer educado o suficiente para ao menos tentar não fazer alguma besteira o que provavelmente foram apenas os dois primeiros dias ― tudo o que recebia eram caldos ralos e amargos. Legumes cozidos e salteados. Repolhos agridoces que pendiam demais para o doce para ser realmente considerado um prato salgado.

Mas então, sua deusa salvadora ― bendita fosse Lan Linyi novamente ― o levou um prato de arroz perfumado, com lentilhas e castanhas para provar quando ele suplicou por algo que não fosse sopa medicinal. Ele comeu como se não visse um prato de alimento a dias e, quando singelamente ― quase chorando ― perguntou quem era a alma caridosa que havia feito algo tão delicioso em um lugar como aquele... Nuo Liu lhe foi apresentado.

E bom, ele era o responsável por Wei Wuxian na cozinha desde então.

Claro, ele não estava gastando seu tempo apenas ali. Por incrível que pareça, Zewu-Jun permitiu a ele e seus irmãos ― Mo Xuanyu riu da sua cara quando ele ofereceu ― participassem das aulas de cultivo além da ajuda com as aulas de esgrima.

E o melhor de tudo era que ele não tinha que seguir as regras da seita, como Qingheng-Jun deixou bastante claro após o chilique do irmão quando Wuxian fugiu após o toque de recolher.

― Temos que fazer os pratos de A-Yi mais suaves hoje, Wuxian. Então faça o favor de não escorregar.

― Mais suaves? ― Ele franziu a testa. Madame Lan normalmente gostava da comida carregada em especiarias. Nuo Liu ergueu as sobrancelhas mais uma vez.

― Por que você acha que eu mandei você dar o fora daqui mais cedo? ― Wuxian inclinou a cabeça, confuso. Ele mandou? Lendo sua expressão, o homem suspirou. ― Hanguang-Jun e a Líder de seita Wen chegarão hoje para o jantar. E talvez o rei de Qishan também os acompanhe.

― Ah... por quê ele viria? ― Os olhos de Nuo Liu viraram para ele com um divertimento quase sádico.

― Porque vocês eram todos amigos quando crianças. Os lideres insistiam para que os herdeiros dos cinco reinos convivessem na infância.

― E por que eu estava entre eles? ― Resmungou, mesmo já sabendo a resposta.

― Porque você, jovem mestre Wei, era a cola irritante que unia todos os jovens pirralhos reais. ― Falou suavemente enquanto mexia a grande panela de creme salgado. ― Mas imaginei que você já soubesse, todos estão falando sobre isso desde que você voltou.

Ó como ele odiava sua própria sorte e falta de memória. Não era o suficiente ele ser amigo de infância de Lan Wangji e Lan Xichen? E aparentemente ter algum vínculo com Yunmeng que o incomodava demais para perguntar? Ele tinha que conhecer os cinco herdeiros?

Wuxian pensou no rosto sorridente e diabólico de Xuanyu quando ele avisou que estava vindo para a cozinha e no riso ridiculamente alto de Xue Yang durante o treino de espadas quando viu seu rosto sujo de farinha de dumplings. Eles sabiam.

Seus irmãos haviam sido comprados pelos Lan? Haviam sido coagidos a não dizer nada a ele?

...ou eles simplesmente queriam vê-lo com cara de imbecil?

Suspirando ele decidiu pelo último. Ele os conhecia o suficiente para saber que uma oportunidade de testar sua falta de vergonha nunca seria deixada passar, mas ainda assim...

Talvez ele pudesse fugir? Fingir que não sabia com seu envolvimento com as famílias reais? Fingir que suas memórias roubadas não o incomodavam e que estava tudo bem em simplesmente seguir em frente?

Sim, esse parecia um bom plano.

 

~*~*~

 

Era um plano terrível. Desastroso, incrivelmente estúpido e ridículo. Mas, bem, ele gostaria de ao menos de poder tentar. O que ― com um pirralho sujo de tinta por todo o cabelo e rosto segurando suas pernas e outro pingando suor, fedendo como se não visse banho a semanas o agarrando pelos braços alegremente ― se tornou incrivelmente complicado de fazer.

― Você está sendo completamente infantil em tentar fugir daqui irmão. ― Pontuou Xuanyu enquanto ele e Xue Yang o arrastavam para o quarto. Wuxian já havia parado de se debater àquela altura, mas ainda era engraçado ver a expressão de pânico dos discípulos Lan tentando decidir se o ajudavam ou mandavam os três para receber uma punição. ― Além disso, estou tendo aulas de pinturas com um jovem mestre muito talentoso. ― Ele tentou não revirar os olhos com isso.

― Vou fingir que você não quer que A-Yang e eu fiquemos aqui só porque você achou o seu professor gostoso.

― É uma razão bastante justa, para mim. ― Um sorriso inocente se abriu em seu rosto sujo de azul e ele só conseguia pensar em como ele não queria saber o porquê de Xuanyu estar tão sujo de tinta. ― E ele não é meu professor. Ele é um amigo, um que sabe apreciar arte e me ensina conceitos que eu não entendia antes. Ele é só...

― Se você começar a suspirar eu juro que vou vomitar. ― Xue Yang murmurou. ― E ele não é o único que quer ficar aqui, sabe? Eu recebo doces todos os dias e posso lutar até cair morto de exaustão! ― Ele falou rindo, deixando Wei Wuxian levemente temeroso pelos outros discípulos, principalmente depois do incidente.

― Cero, a lista é: Primeiro, arranjar um namorado para o A-Yu. ― Um xingo violento o fez rir. ― E segundo: Diminuir a quantidade de açúcar de A-Yang. Talvez te amarrar em uma cadeira e esquecer você lá também seja bastante promissor.

Os dois continuaram o xingando enquanto ele ria. Se eles estavam felizes ali, era o que importava.

Wei Wuxian tinha o receio de que talvez ele estivesse mantendo os irmãos presos ali e isso fazia com que ele quisesse sair correndo. Bem, isso e o fato de que do dia para a noite sua vida deu um giro de 180° graus.

Num minuto ele era um rato de rua que por acaso havia corrido na direção certa e salvo tanto o príncipe quanto o rei de Gusu.

No outro, ele era a criança perdida da irmã jurada da Madame da Seita Lan e aparentemente o amigo de infância de Zewu-Jun e Hanguang-Jun.

E duas horas atrás descobriu que conhecia ― não apenas isso, mas como também era amigo dos líderes de todos os cinco grandes reinos.

Reis, rainhas, líderes de seitas, príncipes e... ele. Era demais para qualquer um, ao menos era o que ele achava.

Ele não tinha certeza se queria recuperar suas memórias, ele já tinha uma vida construída na estrada com os dois patetas ― talvez querer algo mais, algo que já foi dele e que agora estava perdido pudesse fazer com que ele acabasse com absolutamente nada.

E era pensando nisso que ele se lembrava de como Madame Lan se esforçava para que ele se sentisse querido e bem acolhido, como Zewu-Jun e Qingheng-Jun pareciam querer falar com ele como eles deviam falar antigamente e agora pisavam em ovos para não deixa-lo desconfortável, em como Lan Zhan estava fora desde o dia seguinte que haviam se reencontrado porque foi servir de escolta pessoal para que o melhor médico pudesse vir examina-lo ― leia-se a própria líder da Seita Wen.

Todos estavam sendo nada mais que gentis com ele, sentir que devia esquece-los de vez o fazia sentir como se algo estivesse esmagando seu peito. Mas ele era humano no final, ele estava com medo e nunca negaria caso alguém perguntasse.

Quando eles finalmente chegaram ao quarto nenhum dos dois que tão covardemente o haviam carregado até ali teve o menor cuidado ao jogá-lo no chão e já começarem a falar:

―  Você está fazendo aquela cara de novo. ― Xuanyu disse, Wuxian o enviou um olhar debochado enquanto se esticava no chão.

― Posso saber que cara, Xiao-Shidi [1]? ― As bochechas azuis ficaram quase roxas com o rubor que se espalhou pela pele clara demais do garoto. Wei Wuxian sabia de que “cara” ele estava falando, então era melhor deixa-lo constrangido e desviar o assunto.

― A cara de quem está pensando em merda Da-Shixiong [2]. ― Bem, para sua infelicidade Xue Yang costumava ser tão sem vergonha quanto ele. E tão ruim de despistar quanto a própria peste. ― Não, espera. Você tem cara de merda o tempo todo.

― Gostava mais de você quando você me idolatrava e me seguia como um gatinho, sabe?

― Oh, por que não um cachorro? ― Um sorriso cruel se formou nos lábios do garoto, os caninos pontudos saltando dos lábios. Criança cruel e infernal! Wei Wuxian reprimiu um arrepio gelado que se instalou na base de sua coluna.

― Por favor, não fale sobre essas bestas sanguinárias.

― Por causa desse seu medo ridículo de cães eu nunca pude pegar um filhote. ― Xue Yang não fez nenhuma questão antes de saltar-lhe para cima e enfiar os cotovelos ossudos em suas costelas. Wuxian já havia desistido de tentar fazer com que ele desistisse de sua “cama”. Xuanyu, muito mais levemente que o irmão deles, se deitou e apoiou a cabeça em seu estômago.

― Sobre o que você está pensando?

Ele olhou para os dois. Tanto Xue Yang quanto Mo Xuanyu pareciam sérios demais, preocupados demais. Ele nunca gostou de deixar nenhum deles com aquela expressão, mas eles sempre se preocupavam no final.

― Que nossas vidas mudaram por minha culpa e eu não sei se isso é bom ou ruim. ― A-Yu franziu as sobrancelhas, porém A-Yang assentiu com entendimento. ― A qualquer minuto vão aparecer aqui e falar que a líder da Seita Wen e talvez até mesmo o rei de Qishan venha para me ver. Isso é só... ― Ele suspirou. ― Acho que um pouco demais?

― Um pouco? ― Zombou o garoto com os cotovelos em suas costelas. ― Você foi jogado de cabeça em um balde de merda, irmão. Mas não se preocupe, provavelmente vai pio- Ai! Xuanyu que porra você- SOLTA MINHA ORELHA! ― Ele gritou quando A-Yu puxou a orelha com força o suficiente para que Wuxian visse a pele levantar. Ele gargalhou, tentando não se mexer muito para não tirar os dois de cima dele.

― Você é um imbecil Xue Yang, que os antigos tenham pena de quem casar com você um dia.

― Quem disse que quero me casar?

― Quem disse que alguém vai querer se casar com você?

― Eu sou lindo, seria um ótimo partido. Além disso, ao menos eu sou um cultivador.

― E ao menos não parece que eu não tomo banho a uma semana! ― A-Yu gritou e Wuxian não pode evitar rolar de rir. Os dois saíram de cima dele com facilidade e continuaram discutindo.

Foi fácil assim para que a nuvem pessimista que ele carregava a horas se dissipar sobre sua cabeça. Com os dois ali não poderia ser tão difícil, certo?

Quem ligava para o quanto ele estava nervoso ou assustado? No fim ele até queria saber mais sobre sua mãe, sobre Lan Zhan, sobre Madame Lan... ele queria saber mais sobre ele mesmo também. A razão do porquê ele não se lembrar de nada, o que havia acontecido com ele.

Wei Wuxian era até uma pessoa que bastante curiosa, quase curiosa demais para o próprio bem. Mas como Madame Lan havia apontado antes, ele era um idiota que se importava demais com as vontades das outras pessoas.

Ele riu se lembrando da tarde em que eles foram tomar chá em um jardim de peônias brancas e Madame Lan praticamente o forçou a se abrir. Não que para ele falar fosse realmente muito difícil. Na verdade, uma vez que ele começava o difícil era fazê-lo parar.

― A-Xian?

Quando ela o chamou ele quase prensou os lábios com a sensação estranha dançando nele. Era tão diferente ter alguém além de Mo Xuanyu e Xue Yang o tratando de maneira gentil sem esperar nada em troca...

― Desculpe. Apenas pensando.

Ele havia respondido, Madame Lan sorriu para ele.

― Muita coisa para digerir, não é? Não faça essa cara de assustado, eu sei que é. ― O sorriso gentil dela virando pura provocação. ― A três semanas você era só um garoto que estava viajando por aí com seus dois irmãos sem preocupações e, de repente, descobre que existem pessoas procurando por você por todo mundo do cultivo.

― Acho que o mais chocante foram quantas coisas sobre mim mesmo eu acabei deixando passar porque tinha coisas mais importantes para pensar no momento. ― Havia respondido meio no automático, ficando surpreendido por estar tão ansioso para falar sobre aquilo. ― Sempre estava trabalhando com alguma coisa, tentando conseguir comida para nós ou um lugar para dormir. Quando meus irmãos e eu nos conhecemos eles eram muito jovens ainda. Tínhamos a ferida na mão do Xue Yang para tratar porque estava quase sempre reabrindo quando começava a cicatrizar. Xuanyu também tinha a saúde delicada por ser jovem demais e sobreviver com o que encontrávamos nas ruas. Eles tinham nove e dez anos e ainda cuidavam de mim. Treze anos da minha memória faltando não pareciam tão importantes naqueles momentos.

Foi então que ele percebeu que não havia falado sobre isso com ninguém, nunca. Nem do quanto ele acabou crescendo rápido e abrindo mão de si mesmo para cuidar de A-Yu e A-Yang ou então sobre o quanto aquelas três semanas haviam sido... exaustivas.

Madame Lan parecia pronta para ouvi-lo, no entanto. E se ela permitisse, ele falaria.

― Você é exatamente como sua mãe, sabia? Ela também tinha costume de esquecer de lidar consigo mesma para ajudar a irmã. ― Ele ouvia cada palavra com gosto. Se havia algo que ele queria de volta, eram as memórias a respeito daquela mulher. Os flashs de sorrisos carinhosos para ele eram algo que sempre o mantiveram quente em noites frias, ou corajoso quando ele saia para caçar sozinho. ― Alguém já contou a você quem nos treinou? ― Ele negou. ― Baoshan Sanren, a cultivadora que vive isolada em uma montanha. Sua mãe e eu crescemos lá. Sua mãe era a favorita da nossa mestra, mas estava sempre olhando para onde nós nunca poderíamos ir. Ela queria desesperadamente partir, mas não sairia. Ela sempre pensava demais nas outras pessoas para pensar um pouco em si mesma.

― Como... ― Ele engoliu em seco. Sua mãe, ele estava recebendo informações sobre sua mãe. Seu peito afundou. ― Como vocês saíram?

― Pedi a ela para que viesse comigo. Nunca havia visto uma pessoa tão selvagem e de força brutal como sua mãe. Ela era como fogo, que queimava tudo pelo caminho. Às vezes sua própria intensidade junto à sua natureza gentil a queimava. Era difícil não se atrair por ela, pelo brilho dela.

― Eu... ― Wei Wuxian sentiu desejo de chorar naquele momento. Cangse Sanren parecia ser uma pessoa tão... incrível. E todos tinham uma parte dela com eles, menos ele. Porque ele havia perdido. ― Ela parecia ser incrível.

Os olhos de Madame Lan ficaram sombrios e tristes por um momento, mas então ela sacudiu a cabeça e sorriu novamente.

― Ela era. ― Nostalgia se apossou de sua face. ― Ela e eu irritávamos você e A-Zhan sempre que podíamos. Não sei como meu pequeno cresceu tão fechado. Talvez por conta de sua timidez, ou de Qiren sempre o forçando a se reprimir. Ou quando nós perdemos a... ― Ela balançou a cabeça. ― O que importa é que você estava lá por ele, sempre aprontando para deixá-lo um pouco mais feliz. ― Veneno escorreu de seus lábios quando ela o lançou um olhar que quase fez com que Wuxian corasse dos pés a cabeça. ― Eu tinha esperanças que meus dois coelhinhos se casassem um dia, sabe? ― E suspirou.

Wei Wuxian se lembrava de ter gritado o nome da mulher, mas depois rolou na grama segurando a barriga rindo alto enquanto ela o acompanhava com gargalhadas tão escandalosas quanto as dele. Minutos depois Lan Qiren apareceu dizendo que eles deviam fazer silêncio, Lan Linyi apenas mandou o velho voltar para sua meditação amarga e retornou aos risos.

Ela sempre falava sobre ele e Lan Zhan. E, depois dela... era de fato a ele que Wei Wuxian havia se apegado mais. A mão de Lan Zhan na sua naquele momento na enfermaria foi o que o manteve firme sobre o olhar de repudio completo que Lan Qiren havia o enviado.

Foi Lan Zhan quem o abraçou antes de partir dizendo que iria buscar ajuda para ele.

― Você está fazendo a outra cara. ― Dessa vez foi Xue Yang que o trouxe de volta. Ele estava com a testa franzida e expressão clara de desagrado. Mo Xuanyu sorria e tinha olhos brilhantes, o que foi um sinal de que ele provavelmente havia feito algo muito errado.

― ...eu quero saber?

― Cara de quem está caidinho e de quatro por alguém! ― Um gritinho animado demais para o seu gosto deixou seu irmão mais novo. Quase que ao mesmo tempo, A-Yang e ele reviraram os olhos. ― Fala, é o segunda Jade, não é? Eu vi como você estava olhando para ele quando ele saiu em direção a Qishan!

― Ele estava olhando para a bunda do segundo jade, Xuanyu. Não confunda. ― Wuxian deu um tapa na cabeça dos dois.

― Eu não estava olhando para ele e muito menos para a bunda dele. ― Ambos o encararam com olhares céticos. ― Ok, não inteiramente. Ele é lindo, tudo bem? Ele e o irmão dele. ― Ele franziu a testa. ― Na verdade, todos da seita Lan são extremamente atraentes. Será que eles têm algum tipo de seleção para conseguir se filiar?

― Bom, sim. Você tem um ponto. Todos são lindos, as garotas parecem anjos esculpidos e é isso que eu achei mais estranho. ― Os olhos brilhantes de A-Yu o causaram calafrios. ― Você fala sobre Lan Wangji desde que viemos. E o chama de Lan Zhan. Pode admitir irmão, sabemos reconhecer alguém com uma queda quando vemos.

― Até porque convivendo com você que se apaixona por absolutamente todo ser vivente, é um pouco difícil não reconhecer. ― Xue Yang provocou. O rosto de Xuanyu ficou vermelho furioso.

― Eu admiro a arte que existe na beleza de cada um. Eu não me apaixono.

― Certo, e é por isso que mês passado você estava planejando seu casamento com o dono da estalagem que nos acolheu. ― Um travesseiro voou atingindo A-Yang bem no nariz no instante em que ele parou de falar. A-Yu o encarava ainda na mesma posição que estava quando jogou. Os olhos de A-Yang se semicerram. ― Seu pequeno...

E a briga começou novamente.

Wuxian ria e rolava enquanto seus irmãos se socavam no chão e riu ainda mais quando eles resolveram arrasta-lo para a bagunça mordendo sua perna. Ele gritou e socou as costelas de um dos dois ― não fazia ideia de quem.

Os três se enrolaram em uma bola barulhenta de violência e xingamentos, risadas e brincadeiras. Eles sempre acabavam daquela maneira, rindo como idiotas sem preocupações que queriam apenas se divertir um pouco.

E quando Xue Yang estava prestes a socar seu rosto de um jeito que ele sabia que faria uma marca, três batidas na porta os fizeram se separar e arrumar suas roupas da melhor maneira que puderam ― ele e Xuanyu, no caso. Xue Yang não parecia se importar.

Ainda meio amassado e com olhos lacrimosos, ele murmurou um “entre” para a pessoa.

Zewu-Jun emergiu da porta, belo como sempre. Sorrindo para eles, os olhos enrugados de diversão sugeriam que ele provavelmente havia escutado toda a briga.

― Zewu-Jun. ― Ele disse, fazendo o que foi possivelmente a reverencia mais bagunçada de toda a história do cultivo. O homem levantou a mão e dispensou a saudação.

― O rei de Qishan e a líder da Seita Wen estão aqui para vê-lo. Wen Qing e Wen Ning vão examina-lo.

 


Notas Finais


Xiao-Shidi [1]: O mais jovem dos irmãos aprendizes.

Da-Shixiong [2]: O irmão aprendiz mais velho.

ESPERO Q TENHAM GOSTADO pq eu achei meio ruim
Mas paciência, o começo é ruim mesmo


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