História Maçãs Envenenadas - Capítulo 2


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Notas do Autor


E aí gente? Aqui estou eu com o segundo capítulo, como prometido, espero que gostem^^

Capítulo 2 - Não conecte pend-drives em lugares suspeitos


─ Mas o que diabos você tá fazendo aqui? ─ perguntou, franzindo as sobrancelhas, irritado depois de ter ficado tanto tempo procurando aquele imbecil apenas para ele estar ali, recostado na parede suja da parte trás da escola e tirando fotos. Seu colega levantou o olhar para ele, ajeitando a postura e arrumando algumas mechas loiras que caiam por seu rosto, guardando seu celular o mais rápido possível, para finalmente responder:

─ Atualizando meu Instagram ─ falou, dando de ombros e olhando para o chão como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

─ Tá... ─ concordou meio desconfiado, mas não se importava o suficiente para continuar naquele assunto. ─ Só vim avisar que eu aceito fazer sua parte do trabalho. ─ ao som dessas palavras, Caleb deu um pulo animado, se colocando de pé.

─ Sério?! O que aconteceu com seu olho? ─ toda sua empolgação se foi quando viu o que o capuz preto do colega escondia, mais visível devido à proximidade. Guilherme desviou o olhar e abaixou a cabeça, se escondendo mais sobre o tecido que criava uma sombra em seu rosto, tornando menos óbvio o hematoma arroxeado em seu olho esquerdo.

─ Cuida da porra da sua vida ─ rosnou de volta, dando as costas.

─ Só tô ofendido que eu gastei meu dinheiro precioso com aquele kit de primeiros socorros e você nem usou. Na verdade, não me lembro de você agradecendo, agora que parei pra pensar ─ provocou em um tom afetado.

─ Eu não pedi pra você comprar aquilo pra mim, nem pra se meter na minha vida! ─ retrucou, já irritado com a insistência daquele cara em se intrometer.

─ Ok, que seja. Só faz o trabalho e me avisa qual minha parte na hora de se apresentar. ─ o dispensou com desprezo, revirando os olhos como se fosse melhor que tudo aquilo e indo embora.

─ Olha aqui, se você acha que pode me tratar assim sem terem consequências... ─ ameaçou e Caleb se virou para encará-lo uma última vez a uma distância segura, colocando as mãos na cintura.

─ Vai fazer o quê? Me bater? Na semana do nosso trabalhinho em dupla? Então não tem trato ─ desafiou de forma condescente, levantando uma sobrancelha como se dissesse "venha, estou esperando"

─ Eu tenho nojo de você. ─ sibilou com um olhar de mais puro desprezo nos olhos. Não fazia diferença, Caleb já estava mais do que acostumado com aquilo.

─ Ah, obrigada ─ abriu um sorriso, acenando para se despedir. Em algum lugar bem no fundo de sua mente, questionava o que tinha de errado com Guilherme e por que tinha tanto problema para falar sobre sua vida pessoal. Não que tivesse moral para tal, sabia que algumas coisas era melhor guardar para si mesmo. E, sinceramente, Caleb era muito melhor nisso que o colega.

─ Eu já tô surpreso que você conseguiu manter um diálogo civilizado com Ele ─ se para o próprio Theo era difícil não dar um tapa na cara do colega, às vezes, imagina para alguém que pelo jeito nunca foi ensinado a resolver nada de outra forma que não com seus punhos.

─ Eu sou perfeito demais pra alguém querer bater em mim ─ sorriu com presunção, jogando algumas mechas de cabelo para trás.

─ Você tá brincando ou realmente acredita nisso? Às vezes é difícil de saber ─ ele deu de ombros, e sem perceber, seu olhar se desviou para a mesa onde Guilherme comia sozinho, lendo um livro. Agora que parava para pensar, nunca o tinha visto conversar com ninguém, nem mesmo em uma conversa casual, será que ele era capaz de sorrir?

─ Como você acha que é ficar sozinho assim o dia todo? ─ era uma pergunta retórica, claro. Ele sabia muito bem como era a sensação. Theo seguiu seu olhar, franzindo as sobrancelhas. Antes que pudesse responder, sua melhor amiga se sentou ao seu lado, com uma expressão de nervosismo no rosto.

─ Aconteceu alguma coisa? ─ perguntou Theo no mesmo instante, franzindo as sobrancelhas e colocando uma mão no ombro dela em um sinal de preocupação.

─ Nada, é só... Nada importante. ─ murmurou, evitando olhar em seus olhos. Aquilo era comum, principalmente na escola, mesmo andando de cabeça baixa e não falando com quase ninguém, sempre haviam problemas para Amanda e tudo que ele podia fazer como seu melhor amigo era estar ali.

─ Se não é importante então porque você tá interrompendo a gente? ─ ele não se deu ao trabalho de olhar para a dupla, não tirando os olhos de seu celular, mas quando os dois se viraram em sua direção, Theo exigindo uma explicação, continuou, revirando os olhos ─ Nenhum problema é importante o suficiente pra incomodar as pessoas por isso. Se for pra se fazer de coitadinha, pode fazer isso sozinha.

─ Claro, só não os seus problemas, né? ─ o colega retrucou com sarcasmo e impaciência ─ Meu deus, o Caleb quebrou uma unha, para o mundo inteiro! ─ ah não, seus problemas principalmente, na verdade.

─ Isso é porque eu sou especial, querida ─ e sorriu de forma presunçosa, se virando para a menina que se escondia por trás dos cachos de cabelo escuro de seu cabelo que caiam por seu rosto, parecendo tentar reprimir uma reação ─ Diz pra mim, o que aconteceu com o bebezinho? Qual o drama da vez? Sua caneta em forma de coração quebrou? Ah, coitadinha ─ debochou, com um sorriso de quem estava se divertindo muito com tudo aquilo.

─ Caleb, para com isso ─ alertou Theo, se inclinando na direção dele.

─ Tá, que seja, credo, eu só tava brincando ─ revirou os olhos como se quem tivesse sido ofendido fosse ele, voltando ao celular.

─ Pode me contar o que aconteceu, meu amor ─ incentivou com carinho, se virando outra vez para a amiga.

─ É só a escola... Ele tá certo, não é um problema de verdade... Você quer ir lá em casa pra me ajudar a estudar? É que eu não tô entendendo o assunto e como você já estudou isso... ─ mudou de assunto imediatamente, olhando para ele com um sorriso tímido no rosto.

─ Claro! Qual matéria você tá com problema? ─ seguiram com a conversa e logo Caleb não estava mais prestando atenção, observando as fotos que tinha tirado antes e pensando em quais iria postar, quando, quase sem querer, seu olhar se desviou outra vez para um mesa distante, onde uma certa pessoa comia solitário. Talvez fosse uma escolha, pensou, para não machucar ninguém. Queria ser capaz de algo assim, mas era egoísta demais.

•••

Bem, ele acabou usando o kit de primeiros socorros, se esse era o grande problema. Era apenas que tudo aconteceu muito rápido e ele odiava quando Guilherme "ficava choramingando por aí como se a merda de um soco fosse o fim do mundo", em suas palavras, então o único momento que tinha como cuidar de seus hematomas era aquelas poucas horas, que a cada dia pareciam passar mais depressa.

Tentava avaliar o estrago feito em seu rosto se olhando em um pequeno espelho rachado, o único existente na casa e usado exclusivamente para aquela situação. Merda, pensava, não estava preparado para aquilo. Na maioria das vezes os machucados sempre eram onde podiam ser muito bem cobertos por moletons escuros e largos, mas daquela vez nem teve tempo para desviar, devia ter previsto algo assim, conseguir escapar quase ileso na sexta e no sábado nunca era um bom sinal, só mostrava que as coisa iam ficar feias no último dia, dito e feito. Tinha sorte por sua reputação ser uma boa justificava, nem precisava ser convincente em sua mentira, era mais fácil para todo mundo acreditar nela do que se importar. Bem, ia sobreviver, tinha que sobreviver, já passou por coisas piores. Se pôs de pé com um pouco de esforço, fazendo uma careta de dor para todos os machucados espalhados por seu corpo. Conferiu o horário no relógio em forma de um gato amarelo na parede empoeirada. Era uma das poucas coisas que ainda tinham de sua antiga vida, e como um pedaço desta, era totalmente distante de todo o ambiente a sua volta, como se tivesse sido recortado e colado ali. Ainda nem eram treze horas, tinha muito tempo para fazer o que precisava. Pegou seu pendrive e alguns trocados, indo para uma lan-house ali perto que era uma grande merda, mas tinha computadores que funcionavam, ─ na maioria das vezes ─ o que já era mais do que podia dizer sobre sua própria casa. Conseguia chegar lá no automático, então deixou seus pensamentos vagarem, parando justamente no motivo para ter o dobro de trabalho. Guilherme era indiferente à grande maioria das pessoas que cruzavam seu caminho, podia não parecer, mas ele não odiava de verdade nenhum dos alunos da escola, brigava porque era fácil. Não lembrava a última vez que perdeu uma briga de um contra um, então era uma ótima forma de descontar sua raiva, mas com aquele cara, Caleb, se lembrava bem, era diferente. Ao mesmo tempo que odiava sua personalidade, sua arrogância e sua futilidade com todas as forças, tinha uma leve curiosidade por ele. Era como se estivesse escondendo alguma coisa a todo momento, a todo segundo. Era estranho porque não tinha nenhum motivo concreto para aquilo. A não ser o fato dele aparentemente não sentir nenhum medo de apanhar, mas aquilo era comum, já conhecia, se chama falta de noção mesmo. De toda forma, não fazia nenhuma diferença, iriam entregar aquela merda de trabalho e voltariam a não precisar trocar mais que duas palavras entre si. Finalmente chegou em seu destino e a parte boa era que já tinha feito sua metade do trabalho, então talvez conseguisse voltar para casa antes mesmo que o pai notasse que tinha saído. Isso seria ótimo.

Ele corria o mais rápido que podia, quase batendo de cara na porta quando tentou diminuir a velocidade subitamente, parando para respirar por alguns segundos agora que já estava a salvo, tinham se passado alguns minutos depois das três, mas valeu a pena, meu deus, trinta reais, será que ele daria em trocados ou em notas altas? Não seria incrível ter um valor tão alto em sua posse? Enfim, ele parou de sonhar acordado, abrindo a porta e, ao ver que estava vazio, subiu para seu quarto, jogando o pendrive em sua mão para o alto apenas para o pegar de volta, com um sorriso satisfeito. O qual logo morreu, porque segundos antes de entrar no seu quarto, ouviu passos na grama seca da área em frente de sua casa que uma alma generosa poderia chamar de varanda e a porta sendo aberta outra vez. Guilherme suspirou.

─ Oi, pai ─ cumprimentou, sem conseguir evitar soar cansado, torcendo para não precisar descer as escadas. Este levantou o olhar para Guilherme um pouco devagar, os olhos opacos, mesmo que estivesse quase totalmente sóbrio.

─ Seu olho tá doendo muito? ─ claro que a porra do meu olho está doendo, foi a resposta que ele engoliu, permanecendo em silêncio até falar, relutante.

─ Tava pior ontem ─ disse, tentando não soar tão frio. Odiava aquilo quase tanto odiava os finais de semana. Na verdade, odiava cada maldita faceta daquele homem. Mesmo que nem sempre tenha sido assim. Ele não se importava de verdade, então não tinha por que sentir peninha.

─ Ok ─ e subiu as escadas em direção do próprio quarto, fazendo Guilherme sair do seu caminho antes mesmo que a possibilidade de se esbarrarem naquele corredor estreito existisse. Ele não gostava de ser tocado por pessoas em geral, mas seu pai estava no topo da lista. Os dois se recolheram aos seus próprios quartos, seus próprios mundos, suas próprias prisões. Sentia falta de quando era diferente, de verdade, mas não ganharia nada se perdendo no passado, então preferia se perder nos livros da escola e trabalhos, aquilo o levaria a algum lugar, diferente de lamúrias sem sentido.

No dia seguinte a última coisa que queria fazer era encontrar seu colega, mesmo que seu principal objetivo fosse aquele, mas pelo menos seria pago e finalmente estaria livre de tudo aquilo. Era muito raro sentarem próximos na sala, ele na maioria das vezes ficava na frente e no centro, onde podia ver o professor e o quadro com mais facilidade, além de evitar ser distraído por conversas paralelas, Caleb sentava na última fileira mais no canto, um pouco escura até, onde podia mexer no celular e dormir sem ser incomodado. Tudo sobre eles era tão oposto que nem parecia possível que coexistissem no mesmo universo. Entretanto, pela primeria vez Guilherme se permitiu olhar para o garoto de cabelos loiros, aparência perfeita e sorriso fácil com mais atenção. Ele raramente levantava os olhos para o resto da turma, não sabia se por não se importar ou por outro motivo. Também parecia estar sempre tentando se distrair com alguma coisa, ─ fazia tudo menos prestar atenção na aula, era quase um dom ─ fosse girar um lápis entre seus dedos, conferir o celular ou rabiscar em seu caderno. Às vezes também observava Guilherme e uma ou duas vezes seus olhares chegaram a se encontrar, sendo desviados no mesmo instante. Por algum motivo se sentia estranho por ter curiosidade por aquele tipo de pessoa, então disse para si mesmo que deveria focar e voltou a prestar atenção apenas na aula.

─ Então... Você já terminou? ─ perguntou assim que suas aulas acabaram, impedindo Guilherme de sair com um enorme sorriso de expectativa no rosto.

─ Caralho, você não tem nenhuma ideia do tempo que uma pessoa demora pra fazer um trabalho assim, né? ─ mal havia se passado um dia desde que ele aceitou, meu deus ─ Mas sim, eu já terminei.

─ Ótimo! Eu quero ver ─ exclamou e fez um gesto com a mão como se ordenando que o colega lhe passasse o pendrive.

─ Eu não confio em você, vamos em alguma biblioteca ou lan house e nós vemos juntos.

─ Eu não quero ser visto em nenhum lugar com você ─ respondeu, torcendo o nariz para a aparência desleixada de Guilherme com olhar de desprezo.

─ Então o que você sugere, seu filho da puta? ─ finalmente se irritou, gritando sem a menor paciência para aquela palhaçada.

─ Podemos ver aqui na escola.

─ Isso aqui é uma escola pública, onde você vai conectar, no seu cu?! ─ gritou, jogando os braços para o alto e Caleb teve que reprimir uma risada, certo, talvez a pergunta não tivesse sido tão inteligente assim.

─ Tava pensando no meu celular, mas ok. Eu tenho um notebook, já que isso é tão importante pra você, a gente pode ir em alguma lan-house ou algo assim ─ deu de ombros, os ânimos estavam muito alterados, considerando a personalidade do outro, o melhor que podia fazer era concordar.

─ Ótimo. Que horas você tá livre? ─ completou com um suspiro, aliviado que finalmente estavam chegando a algum lugar.

─ Lá pelas treze, antes de ir pro trabalho ─ "ele trabalha?" foi a pergunta que surgiu na mente de Guilherme, o fazendo ter que conter o impulso de levantar uma sobrancelha, não conseguia imaginar aquele tipo de pessoa se esforçando para conquistar qualquer coisa que fosse.

─ Você trabalha na empresa do seus pais ou algo assim? ─ interrogou antes que pudesse se segurar e Caleb se esforçou muito para não abrir um sorriso debochado. Sua mãe teria preferido a morte a lhe dar algo de mão beijada daquela forma.

─ Nahn, eu fui demitido de lá ─ brincou, o que não era bem mentira, ele realmente já tinha sido demitido várias vezes antes de aprender a carregar uma bandeja cheia de comida sem derrubar nada. ─ Mas por que você não cuida da porra da sua vida? ─ imitou as palavras ditas pelo colega a algum tempo atrás, com ironia.

─ Uma da tarde. Ótimo ─ Guilherme confirmou, dando as costas com impaciência e revirando os olhos, não tinha tempo para aquilo. Caleb sorriu por conseguir a reação mal-humorada que buscava, merecia pelo menos aquilo, depois de ser forçado a se encontrar com outra pessoa contra sua vontade. Foi embora na direção contrária, com o objetivo de encontrar Theo, contar tudo o que tinha acontecido e se acalmar ao estar na presença de uma pessoa com quem se sentia mais à vontade.

─ Ah, oi, eu tava procurando por você ─ sorriu o colega, chamando Caleb para se sentar com um gesto que normalmente usamos para atrair cachorros ou gatos. Mas ele logo entrou na defensiva ao notar uma pessoa que nunca tinha visto ao lado do amigo.

─ Quem é ela? ─ perguntou, avaliando a pessoa desconhecida da cabeça aos pés, desde os cabelos curtos até os tênis pretos desgastados. Seu tom sugeria que Theo tivesse trazido algum animal novo para sua casa sem o informar sobre isso.

─ Esse é o Nicolas ─ apresentou Theo, dando ênfase nos pronomes masculinos ─ Ele entrou esse semestre na minha sala e como uma boa pessoa, eu estava fazendo amizade ─ Caleb questionou se as intenções do amigo se resumiam a amizade, mas manteve a boca fechada. Na verdade, ele não estava muito inclinado a falar qualquer coisa naquele momento.

─ Oi ─ o garoto novo estendeu a mão, com uma expressão serena e educada. Caleb ignorou o gesto, levantando uma sobrancelha e não movendo um dedo, até que o tal Nicolas lentamente recolheu o braço, também levantando as sobrancelhas, não sabia se gostava daquele cara.

─ Esqueci de dizer que o Caleb não gosta desse tipo de contato físico, não liga pra ele ─ consolou Theo, indicando que todos se sentassem. ─ Como foi com o Guilherme?

─ Melhor do que eu esperava. Deve ser difícil se mudar no meio do semestre ─ falou aquilo olhando para seu amigo, ainda ignorando totalmente o desconhecido.

─ Eu me mudo bastante por causa do trabalho do meu pai, já me acostumei ─ respondeu sem se deixar abalar, dando de ombros.

─ Tá, que seja ─ pegou seu celular, não voltando a olhar nos olhos de nenhum dos dois. Precisava se acalmar. Ainda por cima teria que ficar sozinho com Guilherme dali a poucas horas. Ótimo.

─ Você tem algum irmão ou irmã? ─ Theo iniciou o primeiro assunto que lhe veio na cabeça, com o cotovelo apoiado na mesa e o rosto apoiado na palma de sua mão, encarando o menor com interesse.

─ Não, mas eu gosto bastante de crianças. Você tem? ─ Caleb se perguntava como alguém em plena consciência podia Gostar de crianças. Ele não gostava delas nem quando era uma.

─ Ah sim, eu tenho cinco irmãos mais novos, eles são incríveis, mesmo que muito bagunceiros, mas ainda sim adoráveis ─ o que ele estava falando, meu Deus?

─ Isso é ótimo ─ concordou com um sorriso e a conversa entre eles morreu, sendo preenchida por um silêncio desesperado por mais informações do outro. Caleb se segurou para não revirar os olhos, aquilo estava sendo ridículo. Respirou fundo antes de falar alguma coisa, ainda não fazendo contato visual:

─ Você quer ir lá em casa anoite, meu amor? ─ sugeriu para Theo, apenas porque aquele romance barato o estava irritando. Não precisava da única pessoa decente que conhecia começando com aquela idiotice sentimental e o deixando de lado. Este hesitou, o censurando em silêncio com olhos arregalados. Na verdade, ele queria, mas não pretendia ficar casualmente para sempre, sabe?

─ Você namoram? ─ perguntou Nicolas, quase decepcionado, tinha certeza que seu amigo poderia ter pessoas muito melhores. Não que aquele cara fosse feio, muito pelo contrário, mas não parecia ter a melhor personalidade do mundo.

─ Não! Somos só amigos! ─ negou no mesmo instante, balançando as mãos em negativa.

─ Amigos não é bem a palavra, Theo ─ retrucou, levantando uma sobrancelha com um sorriso malicioso no rosto.

─ Colegas que transam uma vez ou outra. ─ esclareceu, decidindo que não se importava, era a verdade, afinal. ─ Ninguém aguentaria um dia namorando você ─ concluiu, frio.

─ É, eu sei, por isso poupo as pessoas dessa terrível tortura ─ era sua forma de se referir aos garotos que acreditam que poderiam ter algo mais e ele não se deu ao trabalho de esclarecer as coisas até que o sentimento alheio se tornasse inconveniente. Havia um motivo para os boatos se referissem a ele como "vadia de uma noite só". Até gostava do apelido, era criativo e sincero. ─ Namoros são uma perda de tempo criada por imbecis carentes pra se sentirem melhor consigo mesmos.

─ Mas você gosta de foder com minha felicidade, viu? ─ reclamou, irritado com aquele jeito cínico e amargo de Caleb de ver o mundo.

─ Gosto de foder com outras coisas ─ sorriu com falsa inocência e Theo revirou o olhar, escolhendo voltar a ignorá-lo.

─ Tá, por que você não vai comprar alguma coisa pra gente comer? Aqui, toma o dinheiro ─ e tirou algumas moedas do bolso de valores diferentes, concluindo que tinha pouco menos de três reais e dando na mão de Caleb sem muita atenção. Era claramente uma forma óbvia e nada sutil de se livrar dele, mas foi mesmo assim porque era melhor do que ver aqueles dois. Odiava que Theo fosse tão sociável, como a merda de uma criança em um parquinho fazendo amizades a torto e a direito. Aquilo era ridículo, simplesmente falar com qualquer um como se fosse tão fácil, qual era o problema dele?

Ele respirou fundo porque precisava mesmo ficar mais calmo, mas Theo dificultava, não era possível criar laços tão rápido, pelo amor de deus! Não era possível confiar assim tão rápido.

•••

─ Que tipo de lugar é esse? ─ resmungou para si mesmo ao chegar no endereço que o colega tinha lhe passado, olhando em volta para os computadores que pareciam da época de seus avós de tão antigos, a expressão entediada do recepcionista e aquele verde Ridículo da parede com a pintura descascando. Não ficaria surpreso se tivesse ratos ali.

─ Você chegou antes do que eu esperava ─ e por falar em animais irritantes... Caleb olhou na direção do colega, onde ele lia um livro, logo revirando os olhos e voltando a desviar o olhar. Já deveria ter se preparado para aquilo, era só ficar calmo e tudo ia correr bem, dizia para si mesmo.

─ Eu cheguei no horário, que horas você achou que eu ia chegar? ─ perguntou por fim, tentando não soar tão ofendido, controlando a vontade de esfregar seu celular na cara do outro para que visse as horas.

─ Considerando seu histórico, tô surpreso que você veio ─ não se deixou abalar, colocando de lado seu livro e marcando em que página estava.

─ É impressão minha ou você tá quase bem-humorado? ─ comentou, jogando seu corpo na cadeira suja e empoeirada ao lado do colega, franzindo o nariz para o tecido rasgado do estofamento, observando a velha mesa de madeira envernizada. Por um momento, Guilherme chegou muito perto de sorrir.

─ Eu tava até você chegar, bora terminar logo essa merda ─ e cruzou os braços, fazendo um gesto na direção do computador, que já estava ligado e entregando seu pendrive para que Caleb o inserisse.

─ Não tem problema colocar seu pendrive em um desses computadores? Pode ter vírus ou algo assim ─ disse como quem não quer nada, apenas para puxar conversa, buscando a entrada USB.

─ Eu tenho certeza que esses computadores têm vírus, mas não esquenta, eu tenho um pendrive reserva caso alguma coisa aconteça.

─ Querido, eu tenho certeza que já te falei que eu Tenho um notebook ─ falou como se conversasse com uma criança, levantando uma sobrancelha.

─ Seu notebook deve ter ainda mais vírus que esses computadores ─ retrucou, abrindo os slides para não ter que olhar nos olhos do colega enquanto este entendia o comentário.

─ Por que o meu notebook... Eu não assisto essas coisas! ─ exclamou na defensiva, assim que a ficha caiu. ─ Posso ter ao vivo e em cores ─ concluiu por fim, com um sorriso de malícia e vitória.

─ Puta que pariu, só faz o trabalho ─ aquilo era demais para ele, precisava acabar aquilo o mais rápido possível e fingir que aquelas conversas nunca aconteceram.

─ Ok, ok ─ foi então que ele virou para o slide. O que viu fez seu sorriso desaparecer, sendo substituído por uma expressão de puro choque, a qual permaneceu por vários segundos, até que conseguiu sussurrar ─ Qual seu nome mesmo? Henrique?

─ Guilherme. ─ falou bem devagar, sem poder acreditar naquela pergunta, respirando fundo para se acalmar ─ Nós estudamos juntos por três anos.

─ Isso. Guilherme, que porra é essa?! ─ gritou indignado, apontando para o slide como se este fosse uma afronta pessoal.

─ De que porra você tá falando?

─ Essa porra ─ apontou com mais veemência, até que o menor olhou para o slide simples e minimalista. ─ Você não pode só tacar um monte de conhecimento inútil em uma folha em branco e dizer que é um trabalho.

─ Esse é literalmente o conceito de trabalho ─ explicou calmamente, talvez o colega tivesse algum problema de aprendizado.

─ Ninguém vai nem Olhar pro nosso trabalho se for algo assim! Você precisa colocar cores, efeitos e enfeites.

─ Eu entendo a parte de deixar mais dinâmico, mas isso é um trabalho, não a porra de uma árvore de natal.

─ Não importa, o trabalho é nosso e eu vou colocar cores nisso! Vou colocar algo mais vivo porque esse assunto é chato e as pessoas não podem dormir ─ e começou imediatamente a trabalhar, mesmo que a contragosto de Guilherme.

─ Esse assunto é legal pra caralho, qual seu problema? ─ exclamou indignado, todos os assuntos de história eram incríveis.

─ Qual é o assunto mesmo? ─ ele voltou para o primeiro slide ─ Chato. Olha, só cala a boquinha e me deixa trabalhar, ok? Grata ─ disse por fim, em tom conclusivo e Guilherme entendeu que não importava o que fizesse, estaria apenas perdendo seu tempo e seu fôlego. E não poderia ser tão ruim assim deixar seu trabalho mais elaborado. O silêncio finalmente se instalou entre eles por longos minutos, o único som sendo os cliques do mouse e o "tic-tac" do relógio empoeirado e caindo aos pedaços que ficava na parede. Ele se inclinou um pouco para ver o progresso do colega sobre seu ombro, aproximando sua cadeira e seu corpo. Próximo demais. Próximo o suficiente para suas respirações se misturarem. Caleb não gostava daquilo, quando a outra pessoa se aproximava, quando estava no controle. Ainda mais alguém que sabia não ter nenhum interesse sexual nele, alguém contra quem sua única arma era sua personalidade e era uma péssima arma.

─ Você cheira melhor do que eu esperava ─ não era uma mentira, o colega emanava um agradável cheiro de quem tinha acabado de sair do banho, mas seu intuito com aquelas palavras não era elogiar. Dito e feito, Guilherme se afastou no mesmo instante, dando um pulo para o lado.

─ Você já terminou? ─ decidiu que o melhor a se fazer era simplesmente ignorar o comentário.

─ Quase lá, só falta uns últimos ajustes ─ disse, sem virar para encará-lo e Guilherme concordou, murmurando um "ok" e voltando ao livro que lia antes. O silêncio voltou, dessa vez ainda mais pesado, até que Caleb anunciou ─ acabei. Pode dizer, eu sou fabulosa ─ se gabou com um sorriso presunçoso, mostrando seu trabalho.

─ Tá, ficou legal, agora me passa meu dinheiro e a gente se vê amanhã. Infelizmente. ─ disse impaciente, dando uma rápida olhada nas mudanças.

─ Ai, não faz isso, admite que foi divertido. ─ pediu com um sorriso sedutor. Tinha sido para ele, pelo menos. Mesmo que em nenhum momento tivesse relaxado totalmente, tinha esquecido como era conversar com alguém sem nenhuma segunda intenção por trás. Guilherme se permitiu dedicar um segundo para a questão. Sendo sincero, não foi de todo mal poder dialogar com alguém sem precisar se preocupar em falar a coisa errada e acabar sendo punido, ou na qual a pessoa não estivese claramente medindo cada palavra e aterrorizada por sua presença. Sabia que sempre afastava as pessoas porque era mais fácil, e de toda forma, poucos que eram sem-noção o suficiente para simplesmente não se importar em irritá-lo. Poderia até dizer que foi divertido sim, mas nunca admitiria aquilo em voz alta.

─ Você deveria ficar feliz por eu não ter socado a sua cara. ─ retrucou em tom conclusivo, pegando suas coisas e se levantando ─ É melhor você estudar ou vai se ver comigo.

─ Eu tô morrendo de medo... ─ ironizou, também arrumando suas coisas. Quando acabou, Guilherme já tinha saído para a tarde ensolarada do lado de fora, o deixando sozinho com seus pensamentos.

Nenhum dos dois diria isso em voz alta, mas talvez conhecer um pouco mais sobre o outro não tivesse sido de todo mal.


Notas Finais


Sei lá, o jeito como o Caleb é insuportável é diferente, uma verdadeira gay Regina George, socorro

Olha o Nicolas que fofo, será que ele e o Theo vão virar namoradinhos? Sim ou com certeza?

Pesquisa importantíssima: o que é melhor? Slide simples e direto ou colorido e dinâmico, eis a questão? (Admito que eu sou TeamCaleb nessa)

O que vocês estão achando até agora? Estão gostando? Odiando? Achando que eu sou a pior escritora do mundo e deveria desaparecer no ostracismo? Compartilhem suas opiniões comigo, todas são bem-vindas^^

Você tem curiosidade de saber se o Guilherme vai matar o Caleb antes ou depois deles entregarem o trabalho? Se sim, continuem acompanhando e vão descobrir!


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