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História Maçãs Envenenadas - Capítulo 28


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Notas do Autor


Oi gente, postando o cap um pouquinho atrasado porque... não tem explicação, eu literalmente esqueci

Capítulo 28 - Comer vai resolver meus problemas


Depois do que pareceram anos e milésimos de segundos ao mesmo tempo, eles finalmente se separaram.

— Meu deus esse deve ter sido o abraço mais longo da minha vida inteira — Caleb resmungou porque não sabia lidar com todas aquelas emoções e uau, subitamente suas mãos pareciam tão interessantes.

— Eu já vi que se um abraço durar mais que vinte segundos ele pode ter efeitos positivos físicos no nosso corpo porque... — Gui murmurou pelo mesmo motivo. Como sempre, conhecimento era sua forma de fugir da confusão em sua mente.

— Você é tão nerd que chega dói — Ele interrompeu, com um sorriso de canto quase tímido.

— Vai se foder — retrucou, mas também estava sorrindo. Então os dois ficaram em um silêncio preenchido pela pergunta que não queria calar: e agora? — Ahn... Você quer ir pra algum lugar? Tipo sua casa, sei lá...

— No momento um dos últimos lugares que eu quero estar é a minha casa. Ela ainda deve tá lá... fazendo as malas agora que terminou o que veio fazer... — conseguiu dizer, aquela sombra voltando para seu olhar conforme sua voz tremeluzia.

— Ah é, tem isso. A gente pode ir pra uma lanchonete, nesse caso. Se você tiver dinheiro, porque eu tô totalmente liso.

— Jesus cristo, como você consegue ser tão anti-climático? De todos aqueles livros que tu lê, nenhum é de romance, não? — Guilherme gostaria de poder reclamar, mas Caleb estava certo. Ele não conseguia ser romântico nem mesmo para salvar a própria vida.

— Pra ser honesto... não — Eu já esperava, o mais alto pensou, revirando os olhos.

— Mas bem, a gente sempre pode roubar alguma coisa. Lembra daquela vez que eu te peguei tentando roubar um kit de primeiros socorros? — comentou, sem conseguir evitar um sorriso, que Gui devolveu.

— Meu deus, isso foi a tanto tempo. Eu ainda te odiava na época. Mas não vamos roubar nenhuma comida, ok? Só... não sei, se acalmar um pouco enquanto a gente decide o que fazer... conversar...

— Conversa... — Caleb gemeu baixinho de forma cansada, como se apenas por ouvir aquela palavra já ficasse sem energia.

— ...Ou talvez não essa última. Pelo menos não agora. Mas...você sabe que a gente precisa conversar — disse, hesitante. Entendia que aquilo não seria nada fácil para nenhum dos dois, mas era necessário.

— Precisamos? — Guilherme cruzou os braços e lançou um olhar para o amigo que já era resposta mais do que suficiente. — Ok, ok... Bora logo pra essa bendita lanchonete então, e depois a gente decide essas coisas — e começou a caminhar para onde sabia estar a lanchonete mais próxima da escola, porque já tinha ido ali milhares de vezes.

Menos de cinco minutos depois já estavam passando pela porta de vidro sujo do pequeno estabelecimento, encontrado uma mesa meio bamba nos fundos e se estabelecido ali.

— Pois é... — Caleb começou e não terminou porque só tinha notado agora que fazia alguns dias que não se falavam e sua capacidade comunicativa era algo que tinha que ser exercitada todo dia, ou enferrujava rápido — Eu acho que... — sua barriga roncou. Ele sentiu seu rosto ficando quente — ...Eu acho que a gente devia tentar pedir fiado porque eu não tomei café da manhã. E também porque quando eu tô nervoso eu fico com fome.

— Cara, eu nunca vou entender a tua relação com comida. Eles aceitam fiado aqui?

— Eu já pedi algumas vezes. E a gente tá usando o uniforme da escola, ele sabe que os alunos sempre vêm aqui, então... ainda há esperança.

— Ok — Ele fez um gesto para chamar a atenção da garçonete que vagava pelas mesas, a qual logo veio na sua direção — A gente pode comprar fiado? — Ela os avaliou com os olhos de quem estava morta por dentro, ou pelo menos mal-humorada por ter que trabalhar tão cedo.

— Sim, contanto que não demorem pra pagar. O que vai ser?

— Eu vou querer duas fatias de pizza, uma empada e um suco de laranja porque eu tô de dieta — Ela anotou e se virou para Guilherme, aguardando.

— Ahn... Um pastel e uma coca-cola mesmo.

— Coca-cola — Caleb murmurou conforme ela de afastava — Que desgosto. Como espera que eu corresponda seu amor dessa forma? — Gui sorriu, mas seu rosto tinha ficado um pouco vermelho.

— O que você tem contra a pobrezinha?

— Nada, é só que é, tipo, o pior refrigerante. Tem muito gás.

— Bem, esse é meio que o conceito de refrigerante.

— Eu não vou ter essa discussão com você. O que a gente vai fazer depois daqui?

— A gente podia ligar pro Theo e pedir pra você ficar na casa dele, se quiser. Já que ainda não se sente confortável pra ir para casa e tal — sugeriu com a maior naturalidade do mundo. Caleb semicerrou os olhos.

— E desde quando tu e o Theo se conhecem pra tu ficar sugerindo ir na casa dele? — Ah é, Gui pensou, com tudo o que aconteceu, eu tinha esquecido como nosso clubinho de proteção ao Caleb pode soar surreal.

— Longa história, te conto depois com mais calma.

— Ok... — silêncio mais desconfortável do que pretendiam. Aquilo pedia por medidas drásticas — Então, refresque minha memória, como você descobriu que estava perdidamente apaixonado por mim? — Era oficial, não só o rosto de Guilherme estava vermelho, mas também suas orelhas e até um pouco do seu pescoço. Ele se encolheu, como se pudesse desaparecer no moletom. Meu deus, como ele podia ser tão fofo?!

— Sinceramente? Faz uns quinze minutos — admitiu.

— Ah bem, era inevitável, ninguém consegue resistir aos meus encantos — disse com arrogância, em uma encenação que durou aproximadamente dois segundos, até que deixasse os ombros caírem e abrisse um sorriso triste — Ok, eu tô brincando, óbvio. Você é o primeiro. 

— Eu tenho certeza que não, se olha no espelho, caralho! — resmungou.

— Ah, eu tenho certeza que tem muita gente por aí que me acha gostoso. Mas... você é o primeiro a conhecer essa desgraça que eu sou e... ficar.

— Cuidado Caleb, tu não vai querer ser a porra da metade melosa — Seu rosto estava literalmente ardendo. Não é possível, tava quente, mas aquilo já era demais.

— Bem, Alguém precisa assumir essa função, né?! — exclamou. O menor estava pronto para responder, mas sua comida chegou naquele momento e aquilo era mais importante — Meu deus, finalmente! — Quase gritou, louvando aos céus pela comida ter chegado e pegando quase mais de um terço da sua empada com uma mordida.

Ótimo, pensou Gui, uma oportunidade de ficar em silêncio e deixar menos óbvio que claramente estamos enrolando para adiar a conversa inadiável.

E foi exatamente issos que eles fizeram, por cerca de três minutos, mas aí sua comida acabou.

— Posso pegar um pedaço da sua pizza? Tá com uma cara melhor do que eu esperava — perguntou, recebendo um olhar parecido demais do amigo que um gato faria se você se aproximasse da sua vasilha de ração, por isso achou melhor desistir — Mas e aí, sério, o que a gente faz depois daqui? Eu não acho que o Theo vai deixar a gente ir pra lá.

— Uai, por que não deixaria? — Caleb questionou, cobrindo sua boca para poder falar enquanto mastigava.

— Porque ele tá na escola?

— Ele vai é ficar feliz em saber que tem uma desculpa pra faltar aula. Peraí, vou ligar pra ele — Disse, limpando as mãos na calça e pegando seu celular, o qual, depois de tocar umas cinco vezes, foi atendido.

— CALEB! — O amigo gritou tão alto que Guilherme conseguiu ouvir, mesmo que a chamada não estivesse no viva-voz — Meu deus, o que aconteceu?! Tu tá bem?! Tá vivo?! O Gui tá aí contigo?! — Sua preocupação era tão óbvia que o de cabelos loiros não pode evitar certa felicidade de se espalhar por seu peito, mas logo tentou abafar aquela emoção toda levantando uma sobrancelha.

— Sim, o Gui tá aqui comigo — disse, dando ênfase no apelido enquanto olhava bem fundo nos olhos do adolescente à sua frente, como quem dizia "vocês vão me explicar essa história direitinho". Ele revirou os olhos em resposta — Ei, a gente queria saber se pode ir pra tua casa. É que a minha tá meio... congestionada e a dele... Não é uma opção.

— Ahn... — Ele pareceu menear suas opções por alguns instantes — Beleza, mas me espera, quinze minutinhos pra eu ver se o Nicolas vai querer ir. Onde vocês estão?

— Naquela lanchonete perto da escola que a gente sempre ia — Os dois trocaram mais algumas palavras e encerraram a chamada.

— E aí? — Gui perguntou, recebendo um balançar positivo de cabeça como resposta.

— Ele chega em quinze minutos. E você pode pegar o segundo pedaço da minha pizza, se quiser — Guilherme sorriu como uma criança para quem o natal tinha chegado mais cedo e basicamente atacou a fatia de pizza.

Caleb apoiou os cotovelos na mesa e o rosto em suas mãos com uma expressão quase fascinada.

— Posso dizer algo meio... estranho?

— Mesmo se eu negar, não muda porra nenhuma, então vai em frente.

— Eu gosto de ver você comendo — Guilherme se engasgou.

— Ahn... Ok... Não esperava isso.

— Eu avisei que era estranho.

— Bem, eu disse que gosto do seu sorriso, então acho que a gente fica quite.

— Mas o que tem demais em gostar do sorriso de alguém?

— Bem... acho que não é exatamente do sorriso. É... meio que dá tua gargalhada. Tipo... quando é de verdade.

— Se você acha isso estranho, então tu é ainda mais vanilla do que eu pensava.

— Mais o quê? Que porra é essa?

— Nada! — Exclamou, deixando o menor ainda mais desconfiado — Enfim, come, pode comer, eu estarei aqui encarando a paisagem melancolicamente.

Depois que terminaram de comer e decidiram toda a questão de "estamos pagando fiado", a dupla finalmente saiu daquele ambiente abafado que de alguma forma parecia mais quente, mesmo tendo ventiladores, para a liberdade da parte de fora, onde seria mais fácil ver o Theo quando este chegasse.

Em um pacto mútuo de "eu sinto que se eu calar a boca por tempo suficiente para ouvir meus pensamentos eu vou surtar", os dois seguiram conversando suas trivialidades nada triviais, temperadas com algumas desviadas de olhar envergonhadas e rostos vermelhos ocasionais, até que, por fim, viram ao longe a silhueta de um adolescente de cabelos castanho escuro encaracolados arrastando com si o namorado.

— Oi, amiguinhos e companheiros, desculpa a demora, foi difícil arrastar o Nicolas.

— Quando você disse que ia ver se o Nicolas ia, achei que tava indo perguntar pra ele... — Gui começou.

— Você claramente não conhece meu namorado. Isso aí é código pra "você será arrastado e não tem escolha. Não, eu não me importo que a gente tá perdendo aula".

— Existem coisas mais importantes que a aula — Theo argumentou, cruzando os braços.

— É... poucas, mas existem — Guilherme concordou, e com aquilo lançou o olhar mais sutilmente nem um pouco sutil na direção do adolescente de cabelos loiros ao seu lado.

— Você tá dizendo que eu sou mais importante que a aula?! Você realmente me ama! — Caleb exclamou, colocando a mão no peito dramaticamente e fingindo choque. O que foi até fácil, porque ainda era bastante difícil para ele acreditar naquilo tudo.

— Eu achei que tinha deixado isso bem claro — resmungou de volta.

— Uau, quanta viadagem — Nicolas comentou, como se tivesse alguma moral para reclamar.

— Ah, vai dar meia hora de cu, vai — Guilherme devolveu, entrando no modo mal-humorado, mas também incrivelmente envergonhado. Theo e Caleb abriram um sorriso quase idêntico vendo aquela cena. Era bonitinho ver seus gays adotivos interagindo.

— Ok, ok, gente, foco. Caleb, tu já tá bem melhor, pelo que eu vi, ótimo. Quais exatamente são as intenções de vocês para com a minha casa?

— Bem... conversar, se possível — Disse, baixando o olhar e deixando aquela onda de preocupação e ansiedade afogar o divertimento de segundos atrás.

— Quase meia hora fora e vocês ainda não conversaram? — Nicolas interrompeu, levantando uma sobrancelha.

— Conversar a gente conversou. Mas tipo... a gente não conversou, conversou, sabe? — Gui tentou explicar.

— É, a gente até conversou, mas a gente ainda tem que conversar sobre o que a gente conversou, entende?

— Não.

— A gente explica quando chegarmos lá. É muito longe?

— Um pouquinho. A gente pode pegar um uber, vocês tem dinheiro? — Theo sugeriu, olhando em volta.

— A gente acabou de lanchar pedindo fiado.

— Eu tenho uns dez reais do lanche, serve? — Nicolas ofereceu.

— Acho que sim. Não sei bem. Depende. Caleb, tu entende melhor disso do que eu.

— Deve dar sim e se não der a gente segue o resto do caminho a pé — explicou, já que era o que andava de uber com mais frequência no quarteto.

— Ótimo! Eu só vou pedir aqui e a a gente vai pra minha casa e passa as próximas quatro horas conversando sobre sentimentos e tendo crises existenciais. Será que ainda tem pipoca? — Theo disse mais para si mesmo, claramente bem mais animado que o resto do grupo, indo todo sorridente para um canto chamar seu transporte.

Caleb não conseguiu evitar lançar um olhar levemente desesperado para Gui. Aquilo tudo o assustava mais do que gostaria de admitir.

•••

Enquanto isso, muito longe dali, Isabel tentava colocar um fim naquela longa e cansativa rede de intrigas que só tinha machucado todos os envolvidos. Ou seja, agora que já tinha se livrado da responsabilidade de lidar com seu filho, estava tentando fazer o mesmo com os outros aspectos da sua vida para poder tirar aquele peso dos seus ombros e desaparecer sem ter que arcar com as consequências de suas ações.

Ou pelo menos não com a maioria delas.

— Como assim você não vai mais casar com ele?! — A voz de seu pai ecoava, indignada, do outro lado da linha, preenchendo o automóvel. Eles mal deixaram ela terminar de explicar os acontecimentos recentes e já estavam surtando. Clássico.

— Exatamente o que vocês ouviram. Eu desisto. Não tem mais trato — O silêncio se instalou enquanto seus pais pareciam processar a informação, mas então sua mãe explodiu:

— Isabel, pelo amor de Deus! Você vai ficar com todo esse drama porque... o quê? Não consegue satisfazer os desejos dele? Minha filha, quando se é uma mulher você precisa...— tentou argumentar, exasperada, mas foi interrompida quase no mesmo instante.

— Talvez quando eu tinha dezenove anos. As coisas mudaram, não sei se você notou — cortou, ríspida. A adrenalina ainda corria em suas veias e lhe dava mais coragem para dizer as coisas que estavam presas em sua garganta fazia tanto tempo.

— Olha aqui, sua... — seu progenitor começou e ela quase podia ver seu dedo indicador apontado em riste para o rosto da filha e os olhos duros com uma sombra de raiva que já estava se expandindo.

— Querido, não — Isabel ouviu abafado do outro lado da linha, e sua mãe assumiu as rédeas, o que já era surpreende por si só. Mas também perigoso. Ela sempre foi melhor em "trazer a filha de volta para a razão" — Meu amor. Eu sei que você deve estar se sentindo confusa, mas... por favor, esqueça essa maluquice, é só se desculpar e juro que estaremos dispostos a esquecer esse seu... show. Você errou, e muito, é verdade, mas ainda dá tempo de voltar para nós, seus pais — Ah sim, aquela manipulação barata outra vez. Mas Isabel não cairia naquilo de novo.

— Não. É oficial. E mesmo se não fosse, eu já me livrei do meu filho, não tem volta — Retrucou, antes que perdesse a coragem.

— Ah bem, isso não é um problema, se você for rápida, tenho certeza que ainda consegue ter outro herd...

— Eu literalmente prefiro morrer a ter que olhar na cara do Louis outra vez, quem dirá... — Cortou ríspida, quase cuspindo as palavras, tamanho era seu nojo.

— Pelo amor de deus, já chega dessa palhaçada, Isabel! — seu pai gritou, aparentemente já perdendo a paciência e assumindo o telefone — Você não é nada sem esse casamento! Sem nós! — Talvez fosse verdade, uma voz dentro de si sussurrou. Mas não valia a pena, e agora ela entendia isso. O que só tornava aquelas palavras ainda mais irritantes.

— Realmente não sou porque vocês destruiram a porra da minha vida! — eu também sei gritar, papai. — E eu pretendo ao menos tentar consertar isso. Muito longe de vocês! Passar bem. — E desligou no mesmo momento que ele começou a tentar falar algo. Ela soltou a respiração com mais violência e irritação do que planejava, mas também com alívio. Sentia como se um enorme peso estivesse sendo tirado de seus ombros. Finalmente. Finalmente sentia que tinha se livrado de todas as pessoas que ficavam em seu caminho, e agora...

E agora?

Ela tinha passado tanto tempo vivendo à base de rancor e frustração e arrependimento que nem sabia o que iria fazer sem aquilo. O que faria sem as famílias que nunca escolheu ou amou. Ou melhor, devia ter amado seus pais em algum passado distante, mas foi a tempo demais, o sentimento era antigo demais, como um túmulo. Morto. E um que ela não pretendia visitar.

Isabel acendeu um cigarro, esperando que a nicotina e o clássico passeio sem rumo em seu carro ajudassem a processar pelo menos uma parte daqueles sentimentos. Ela não sentia arrependimento pelo filho. Nem um pouquinho, notou. Também não sentia tanta raiva. Era simples, suas vidas não voltariam a se cruzar, daquela vez de forma definitiva. Era libertador.

Sobre seu noivo, as coisas eram ainda mais claras: já vai tarde, era uma ótima forma de resumir como ela se sentia.

O maior problema era seus pais. Agora que a fumaça preenchia seu carro, seguida de uma calmaria racional, o medo abria passagem. Não achava que teria outra chance depois daquela. Tinha se tornado tudo que lhe disseram para evitar. Era insuficiente. Estava sozinha. Tinha falhado. Dessa vez de forma definitiva.

E meu deus, como a sensação era boa.

Era como nascer de novo. Pronta para uma nova vida, com menos correntes. Claro, elas ainda estariam ali, sempre estariam, assombrando, puxando, limitando. Mas agora sentia que podia lutar contra elas, ou ao menos que tinha permissão para tal.

Ela não era uma boa pessoa, sabia disso. Sabia que tinha arruinado a vida de pelo menos umas cinco pessoas, entre elas seu próprio filho. Sabia que tinha se sentido muito bem ao fazer isso. Não era boa. E nem se sentia capaz de ser. Mesmo nascendo de novo, algumas coisas não podem mudar. Mas ela poderia ser uma má pessoa em outro lugar. Em outra vida. De outra forma.

Não tinha a menor ideia de por onde começar, mas justamente por isso sabia para onde deveria ir naquele momento.

Ela parou na frente do seu destino, esperando o último cigarro de seu maço acabar.

Parecia que não importava o que acontecia, sempre voltava para aquela casa acolhedora sem personalidade nenhuma. Sempre voltava para sua única amiga.

Queria poder ficar. Não por mais algumas horas ou dias, queria ficar para sempre. Queria ter a capacidade de sentir para sempre. Sentir mais do que aquela faísca indefinida, tudo o que restava de qualquer chama. Não queria sentir um fantasma de amor, queria amar e ser amada e queria ser capaz de fazê-lo em toda sua totalidade. Queria poder se sentir segura todas as manhãs e todas as noites. Queria poder segurar a mão da única pessoa que genuinamente amou e queria se deixar aquecer pela sua pele morna. Queria se perder na constelação de seus olhos e ser o motivo de seus sorrisos. Queria poder entender qual a graça que as pessoas viam em passar o resto da sua vida acordando do lado da mesma pessoa.

Da mesma mulher.

Queria saber como era estar viva. Queria saber que tinha chance. Mas aquilo só seria mais uma de suas mentiras.

Madoka morreria pela sua filha, Hitoka. Ela daria tudo apenas para vê-la feliz e realizada. Seria capaz de fazer todos os sacrifícios e todo o esforço e mesmo quando sentisse que estava sozinha, ia continuar persistindo para salvar quem mais amava naquele mundo. Para salvar a única família que lhe restava.

Isabel já tinha estragado sua própria família. Não tinha o direito de querer se juntar a outra.

Ela suspirou, jogou fora o que restava do cigarro e estava pronta para ligar o carro quando a porta se abriu.


Notas Finais


Enton, sobre essa conclusão da Isabel... eu tava tendo muita dificuldade pra determinar o que ia acontecer com ela depois disso, mas aí eu percebi: não importa. O Caleb não se importa. Ela é rica demais e branca demais pra ser genuinamente punida (ser presa, por exemplo) e traumatizada demais pra ter um final totalmente feliz e bonitinho (com a Madoka), além do mais, eu não queria dar um final totalmente horrível pra ela, como morrer, mas também não queria fazer um final feliz, porque eu não sinto que ela merece nenhum dos dois. Então preferi deixar em aberto. Como uma porta que se abre (aka a última frase do capítulo) e pela qual eu não sei se ela vai entrar ou não. Mas contanto que faça isso bem longe do Caleb e nunca mais machuque ele, eu e o Caleb concordamos que não é assim tão importante.


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