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História Maçãs Envenenadas - Capítulo 4


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Capítulo 4 - A triste história da florzinha solitária


─ Então vocês são tipo.. Amigos? ─ pelo seu tom, era como se Caleb tivesse acabado de falar que tinha ido para Marte e feito contato com os nativos de lá.

─ Eu não diria amigos ─ retrucou porque nem ele mesmo sabia como definir. No dia anterior, a brilhante ideia de ir se sentar junto à Guilherme surgiu na sua mente sem nenhuma explicação e já que ele aparentemente não tinha muita ligação entre ação e consequência, assim o fez. Foi melhor do que esperava, mas agora não sabia o que fazer com aquela informação.

─ E o que você diria que é? ─ interrogou, desviando os olhos de seu celular e olhando nos olhos do colega, que estava sentado na cama, ao seu lado, com as pernas cruzadas em forma de borboleta e o notebook em seu colo, escolhendo algum filme. Caleb deu de ombros.

─ Como foi com o tal Nicolas? Ontem ─ desviou de assunto, mantendo os olhos no aparelho a sua frente.

─ Foi legal...

─ "Legal"? Ah tá, fingi que me engana que eu finjo que acredito, é sério, Theo ─ revirou os olhos, a mentira era tão óbvia que sentia que se estendesse a mão poderia tocá-la. Ele hesitou por um momento, mas decidiu tentar.

─ Você promete não ficar jogando isso na minha cara? ─ Caleb se aproximou interessado, ponderando por um instante e decidindo que valia a pena, assentindo com a cabeça. ─ Foi incrível! ─ ele se sentou de um pulo, com um sorriso apaixonado de orelha a orelha ─ Ele é tão... inteligente, maduro, bonito, romântico e... perfeito ─ deu um suspiro, abraçando o travesseiro e com medo do olhar que veria quando olhasse para Caleb. Este soltou uma risada abafada e um pouco triste, com certa descrença, desviando o olhar.

─ Se foi assim tão bom, então o que você tá fazendo aqui comigo? ─ Theo se acalmou um pouco, até um pouco surpreso com a reação alheia, pensando em uma resposta.

─ Porque é melhor você aproveitar enquanto eu ainda tô solteiro ─ retrucou, finalmente o encarando com um sorriso provocativo de canto. Caleb levantou as sobrancelhas sem olhar em seus olhos, como quem dizia "eu já imaginava".

Não é como se planejassem realmente assistir aquele filme mesmo.

Aquilo era tão mais divertido, Caleb pensou, tão mais fácil não estar preso a ninguém. Nem protegido por ninguém.

Não demorou muito para que ficasse sozinho outra vez, pelo que entendeu, Theo tinha algum programa em família entediante e não podia ficar muito mais tempo, mas não fazia diferença, tinha várias outras coisas que poderia fazer, como sair para alguma balada ou algo assim, agora que tinha mesmo dezoito anos e não estamos falando de identidades falsas, mas aquilo era uma atividade que só podia realizar anoite, por isso precisava encontrar alguém para perturbar nesse meio tempo. Não gostava de ficar sozinho, do silêncio presente em cada centímetro daquele apartamento pequeno, o sufocando, quase como uma coisa física. Quando o mundo silenciava, sua mente sempre tinha muita coisa para falar. Decidiu que ia ouvir música e assistir alguma coisa no YouTube e tirar fotos e talvez comer. Tudo ao mesmo tempo. A verdade é que já tinha imagens de cada pedaço de seu apartamento na câmera do celular, de todos os horários e ângulos possíveis e isso incluia todas as vistas da janela, desde o mais majestoso pôr do sol até as mais singelas gotículas de água na parede de seu banheiro. Não garantia que todas as fotografias eram boas, mas estavam ali. Decidiu simplesmente passar pelo feed do Instagram, nesse caso, lendo os comentários e observando seus trabalhos enquanto comia um pouco de miojo. Um lhe chamou a atenção.

"Você tem outro perfil, né? Tô meio surpreso porque realmente é bem difícil acreditar que é a mesma pessoa"

Ele abriu um sorriso, claro, porque alguém não pode querer ser um adolescente narcisista e um fotógrafo anônimo ao mesmo tempo.

"Parabéns pela teoria da conspiração".

É, chega de redes sociais por um tempo, sábados atarde foram feitos para dormir e chorar um pouquinho, se sobrar tempo.

•••

─ Vai comprar cerveja pra mim ─ ele ordenou sem nenhum espaço para argumentação, ao notar que a geladeria estava quase vazia. Talvez devessem gastar a porra do dinheiro em comida, pensou Guilherme para si mesmo, e não naquilo.

─ Eu tô ocupado ─ odiava quando os professores passavam trabalhos na sexta-feira. E nem estava reclamando de precisar estudar nos finais de semana, pelo contrário, preferia àquilo a ficar dormindo até tarde e saindo para fazer sabe-se lá o que, o problema era que era quase impossível se concentrar naquele inferno.

─ Com que porra você tá ocupado?! ─ exclamou, batendo a porta da geladeira com força o suficiente para quebrá-la um pouquinho mais e se virando para o filho com irritação.

─ Dever de casa ─ sua voz saiu vulnerável, assustada, enquanto se encolhia e abaixava a cabeça.

─ Puta que pariu, eu odeio quando você fala assim ─ disse irritado, arrancando o caderno das mãos do mais novo com violência e avaliando o conteúdo por alguns segundos, antes de jogar outra vez na sua direção, com desprezo ─ Isso não vai ajudar em merda nenhuma, vai logo fazer o que eu tô mandando antes que me irrite de vez. Eu não tô num dia bom ─ Guilherme suspirou, cerrando o punho e se esforçando para conter as lágrimas que já faziam seus olhos arderem. Ficou de pé.

─ Ok ─ disse apenas, mantendo os ombros encolhidos e o olhar focado em seus sapatos, esperando por mais instruções.

─ É bom mesmo. Você tem dinheiro? ─ se lembrou do que tinha recebido com o trabalho. Uma pequena parte de si ainda se lembrava de estar grato a Caleb. Mas não, aquilo era seu, sempre tinha algo que sobrava do dinheiro do lanche e era isso que usava naquelas situações, o pai não se importava nem um pouco, contanto que pudesse alimentar seu vício.

─ Um pouco ─ quase disse baixo demais, mas no meio da frase, se lembrou de aumentar o volume para soar mais alto e claro.

─ Caralho, você nunca tem dinheiro, mas com que porra gasta o que te dou todo maldito mês?! ─ gritou, pegando sua carteira desgastada e tirando uma nota de dez reais dali de dentro. ─ Pronto. Agora vai logo antes que eu me irrite de verdade. ─ gritou, praticamente jogando o dinheiro para o filho, que assentiu devagar.

Assim que atravessou a porta de sua casa, chutou uma lixeira transbordante, derrubando todo seu conteúdo no chão enquanto gritava ao mundo os mais terríveis palavrões. Uma menina que parecia ser um pouco mais velha que ele o encarou assustada.

─ O quê? Que porra você tá olhando?! ─ praticamente rosnou em sua direção e ela negou com a cabeça, atravessando para o outro lado da rua, nunca gostava de andar sozinha por ali. Guilherme suspirou, sentindo uma pontada de culpa pela reação que causou, mas como sempre, não grande o suficiente para tomar uma atitude. Caminhou a passos pesados e irritados em direção ao comércio mais próximo e chegando lá, foi rápido em pegar uma grade de cerveja e praticamente jogar no caixa, ao lado do dinheiro que usaria para pagar.

─ Quantos anos você tem? ─ o atendente simplesmente seguiu o protocolo com a voz um pouco trêmula, entre o capuz preto sobre sua cabeça e os olhos repletos de raiva, Guilherme não passava a melhor das imagens.

─ Eu pareço a porra de uma criança pra você, caralho? ─ exclamou sem a menor paciência, não se importando em medir suas palavras e chamando a atenção de várias pessoas ao redor. Elas também estariam mal-humoradas se tivessem que comprar algo sabendo que seria ele mesmo a arcar com as consequências.

─ N-não, é só que...

─ Eu tô pouco me fodendo pra qual que seja a merda dos seus protocolos, acho que qualquer imbecil percebe que eu tenho mais de dezoito, só me passa essa merda ─ falou, tentado controlar a voz, o que soava ainda mais ameaçador, se o atendente fosse ser sincero. Mas este assentiu, passando as compras. Guilherme quase agradeceu a Deus em alto e bom som quando recebeu a sacola, indo embora e voltando para casa.

─ Aqui ─ disse, depositando as garrafinhas sobre a mesa de centro bamba da sala de estar, com um misto de frieza e submissão. Seu pai murmurou um "meu Deus, aleluia" bem baixinho, indo na sua direção.

─ Por que caralhos você demorou tanto? ─ disse mais alto, virando para o filho.

─ Me desculpa ─ não tinha demorado mais que o normal, mas achava melhor não argumentar.

─ Vai fazer alguma coisa pra gente comer ─ disse, abrindo uma cerveja e se sentando no sofá encardido, enquanto ligava a televisão. Era até irônico, por que o pai sempre cozinhou muito melhor que Guilherme e qualquer outra pessoa que conhecia, na verdade, mas ali estavam eles. Tinham muitas coisas perfeitas no passado e quebradas no presente.

─ Não tem quase nada pra fazer ─ tentou argumentar, mas o mais velho não ouviu, ou fingiu não ouvir, fazendo com que ele se arrastasse para a cozinha depois de suspirar pelo que parecia a milionésima vez no dia. Era melhor obedecer, ele ainda ia se foder do mesmo jeito no final, mas podia sempre tentar controlar os danos. Por algum milagre, encontrou dois ovos na geladeira e um pouco de macarrão na despensa, logo preparando a simples refeição, pegando um pouco para si e subindo para o seu quarto. Por sorte, conseguiu desaparecer sem ser notado. Por enquanto. Quando chegou lá, pegou seu celular com o objetivo de ouvir alguma música ao mesmo tempo que lia algo, tinha um livro de suspense para terminar, mas antes resolveu entrar no Whatsapp para ver se tinha alguma atualização do maldito grupo da sala.

"Tem dever pra segunda???"

"Ok, quem se oferece pra fazer pra mim?"

Eram as últimas mensagens enviadas e o fizeram revirar os olhos. Era Caleb quem tinha mandado aquilo. Caleb que por algum motivo que ele nem tentava entender, estava convicto que queria sentar com ele no dia anterior. Caleb que sempre parecia estar escondendo alguma coisa.

─ Mas por que caralhos eu tô pensando nele? ─ resmungou bem baixinho, desligando a tela do celular e o colocando de lado. Ele era uma pessoa marcante, admitia e não estava falando só de aparência, mesmo que o colega também não perdesse pontos por isso, a questão é que não gostava daquele cara. Em teoria. Enfim, livros, livros, se concentre.

•••

─ Eu acho que vou matar aula hoje ─ Caleb anunciou, enquanto caminhava lado a lado de Theo, na direção de suas salas. Este virou para ele com uma sobrancelha levantada.

─ Algum motivo pra isso?

─ Não tô afim de ver o professor falando com aquela voz irritante no meu ouvido "blá blá blá prova blá blá blá Enem", quem se importa? ─ fez uma imitação muito caricaturada de como seu professor teoricamente falava, revirando os olhos com desprezo.

─ Você quer dizer essas coisas importantes pra passar de ano e ser alguém na vida? ─ ali estava Theo, alimentando uma discussão que ele sabia que não levaria a lugar nenhum, por que ainda tentava mesmo?

─ Que seja ─ fez um gesto com a mão para expressar seu pouco caso, passando reto por sua sala e indo na direção da área externa. Lá sentou-se em um banco qualquer, pegando seu celular e fazendo futilidades neste pela próxima uma hora e meia, uma forma muito mais produtiva de gastar seu tempo do que assistindo a aula de biologia, se alguém quisesse sua opinião.

─ Como foi a não aula? ─ Theo perguntou assim que a campa bateu, no intervalo de troca entre um professor e outro. Caleb deu de ombros.

─ Legal. E você? E por isso eu quero dizer você e Nicolas, tô cagando pra a aula ─ foi sincero, ficando de pé e se espreguicando.

─ Foi normal, nós ficamos trocando bilhetes ─ não conseguiu evitar um sorriso.

─ Que coisa mais quinta série.

─ Ai, me deixa, eu tava carente, a Amanda tava cheia de amor e carinho com o Davi e eu só quero um homem na minha vida.

─ O Nicolas não é exatamente um... ─ começou, levantando as sobrancelhas, mas Theo o interrompeu com perigo nos olhos.

─ Você não quer terminar essa frase ─ avisou e ele abaixou a cabeça, admitindo seu erro.

─ Tá, desculpa.

─ E falando nisso, como tá indo com o Guilherme? ─ perguntou como se não fosse nada, fazendo Caleb olhar para ele um pouco desesperado, porque realmente não estava preparado para aquele assunto, assim, do nada.

─ Tem uma diferença enorme entre vocês dois e seus bilhetinhos e nossa relação ─ retrucou na defensiva e naquele momento preferia entrar logo em sua sala e não ter que manter aquela conversa.

─ Então você admite que têm uma relação? ─ sorriu vitorioso, fazendo Caleb ficar sem palavras por um momento, mas logo responder com desprezo.

─ Nem todo mundo tá interessado em um romance barato, Theo ─ e entrou em sua sala, um pouco atrasado, mas quem se importa?

Guilherme estava surpreso que ele tivesse vindo para a aula. Estava surpreso que tivesse notado sua ausência. Quando Caleb se sentou na última fileira, uma parte de si pensou em fazer contato visual, talvez até abrir um pequeno sorriso. Mas apenas se mover doia e ele não estava em um dia no qual deveria dar esperanças de bom-humor. O próprio colega não parecia estar exatamente alegre.

A aula começou e ele deu um pouco menos da atenção de sempre, era difícil se concentrar com machucados por todo corpo e gritos irritantes em seus ouvidos. Ah, como ele tinha vontade de socar seus colegas de classe naquela momento.

Não olha pra ninguém, não fala com ninguém, não arranja briga com ninguém, repetia para si mesmo conforme andava pelo refeitório de cabeça baixa e com as mãos dentro dos bolsos de seu moletom, não estava com fome suficiente para comprar algo nem paciência suficiente para aguentar a fila, então apenas se sentou na mesa de sempre, mais isolada que a maioria e pegou um livro de sua mochila para ler.

Caleb tinha deixado seu olhar desviar para o colega outra vez. Ele parecia bem mais tranquilo quando lia. Como se a calmaria o consolasse da mesma forma que o barulho fazia com o de cabelos loiros.

─ ...O que você acha?

─ O quê? ─ saiu de seu torpor, pegando a pergunta de Theo pela metade e o encarando com uma perfeita interrogação no rosto. O amigo revirou os olhos.

─ Eu compro uma coxinha agora ou guardo pra comprar mais comida amanhã? ─ repetiu impaciente, revirando os olhos.

─ Você não come. Nem hoje nem amanhã. Ai economiza ainda mais e gasta, não sei, em um motel.

─ Eu tenho certeza que não dá pra pagar um motel com seis reais, talvez dê pra comprar aquelas camisinhas com sabor de cereja, sei lá ─ por um segundo, ele pareceu realmente considerar a questão ─ nahn, eu vou comprar a coxinha ─ e se pôs de pé, deixando o talvez futuro namorado e Caleb sozinhos, se encarando como se desafiasse o outro a falar alguma coisa.

─ Então... ─ começou, recostando seu queixo na palma da mão e o cotovelo na mesa, para que pudesse se inclinar na direção do conhecido ─ Vocês já começaram a transar? ─ perguntou com a maior naturalidade possível, fazendo Nicolas arregalar os olhos e se engasgar com a água que bebia.

─ Você não pergunta esse tipo de coisa assim! ─ exclamou, tentando limpar o líquido que tinha derramado na mesa.

─ Deu pra ver que não. Que sem-graça ─ pareceu decepcionado, voltando para a posição de antes.

─ Por que o Theo fala com você? ─ Nicolas resmungou sem saber se queria ser ouvido ou não. Caleb levantou o olhar para encará-lo, não sabia a resposta para aquela interrogação. Realmente era difícil de entender. Então, claro, resolveu mentir.

─ Sabe quando as pessoas andam com pessoas menos bonitas que elas pra parecerem mais bonitas? ─ se virou para encarar o colega a alguns metros de distância, que sorria para o vendedor da cantina, agradecendo pelo salgado que tinha comprado e logo se virava para conversar animadamente com um de seus colegas de classe ─ É só que ele parece uma pessoa melhor quando tá comigo.

─ Ele é melhor que você ─ retrucou, levantando uma sobrancelha.

─ Nem sempre ─ não continuou porque Theo se sentou ao lado deles com um sorriso, oferecendo sua coxinha para Nicolas.

─ Ah, vocês estão virando amiguinhos, que fofo ─ brincou, mas esperava que fosse isso mesmo, aquele inimizade gratuita irritava.

─ Deus que me livre, me dá um pouco? ─ apontou para a coxinha com expectativa e Theo entregou um pouco a contragosto.

─ Eu tava perguntando sobre como tá indo a amizade de vocês.

─ É, era exatamente isso que você tava perguntando ─ revirou os olhos ─ Por que não vai sentar com seu amigo delinquente ou seja lá o que vocês são? Pra mim vocês combinam bastante. ─ continuou irritado, cerrando os punhos sob a mesa, sentindo que ia perder a paciência.

─ Você gosta dele menos do que gosta de mim, né? ─ continuou provocando, sem se deixar abalar.

─ Já falei que não gosto de quem machuca os outros. E sai impune com isso.

─ Como se você nunca tivesse entrado em uma briga ─ revirou os olhos também.

─ Certo, vocês não viraram amiguinhos, bora comer a coxinha ─ interrompeu a briga frustrado, antes que piorasse, esfregando o salgado na cara do namorado, que aceitou a oferta na mais pura e espontânea pressão.

─ Você não acha que tem muito óleo nisso aí? ─ interrompeu Caleb com a expressão preocupada, como se apenas naquele momento tivesse notado o que tinha comido.

─ Não mais que o normal do que a gente tem no lanche de uma escola pública. A gente vai morrer uma hora de qualquer forma ─ deu de ombros.

─ É... Mas acho que eu preciso ir ao banheiro ─ em um movimento rápido de quem já estava preparado para aquilo, Theo segurou seu pulso assim que Caleb ficou de pé, o puxando de volta.

─ Isso não faz diferença nenhuma, não faz isso, Caleb. Para com isso. É sério. ─ falou palavra por palavra com clareza e seriedade, um leve toque de desespero para que ficasse.

─ Deixa de ser idiota, eu só quero ficar com algum garoto ─ e se desvencilhou, revirando os olhos para a atitude supostamente desnecessária e dando as costas.

─ Real, por que eu ainda tento? ─ sussurrou para si mesmo, abaixando a cabeça frustrado.

Não se preocupe Theo, ele não foi para o banheiro, no fim das contas. Caleb já tinha passado da fase de pensar em tudo que comia como sua mãe pensava em seu trabalho. Ou pelo menos achava que tinha. De toda forma, foi para trás da escola, onde ficava o gramado seco que algum dia deveria ter sido verde e algumas árvores juntas o suficiente para serem isoladas, mas separadas demais para servirem como esconderijo para as aventuras dos estudantes. Não que isso impedisse eles. Até gostava dali, fosse para ficar sozinho, fosse para ter companhia, naquele caso era a primeira opção, mesmo que não por muito tempo.

─ Mas que porra você tá fazendo aqui? E por que tá tirando foto da merda de uma flor? ─ alguém deveria estar brincando com sua cara. Caleb virou a cabeça apenas o suficiente para colocá-lo em seu campo de visão.

Porque ela está sozinha. Ela é invisível agora e será invisível para sempre, ela vai morrer invisível quando alguém pisar nela e a partir em mil pedaços. E alguém deveria lembrar dela.

Ele deu de ombros.

─ Porque é bonitinha. E você, o que tá fazendo aqui? Por acaso tava indo transar com alguém? ─ e levantou as sobrancelhas, sorrindo e se virando na grama, ficando deitado de lado na direção do colega.

─ Não! Puta que pariu! ─ gritou, ficando corado, para a surpresa do loiro. ─ Eu só queria ficar sozinho, mas tinha gente na porra do outro lado e... Foda-se, eu vou pra outro lugar.

─ A gente pode ficar juntos ─ ofereceu com esperança demais antes que pudesse se controlar.

─ Não ─ respondeu sem pensar duas vezes. Talvez tivesse um grau de consideração especial por aquele cara, se fosse outra pessoa, provavelmente já teria apanhado. Ou talvez simplesmente não quisesse brigas porque já tinha entrado em problemas demais, sua lista de suspensões era longa e já era o último ano do ensino médio, uma hora tinha que aprender a controlar sua raiva se não quisesse acabar como o pai.

A quem queria enganar, alguém iria sofrer com sua dor, isso era um fato.

─ Por que não? Você deixou eu ficar com você da última vez... ─ Guilherme nem se deu ao trabalho de responder, dando as costas. Caleb suspirou, voltando ao que fazia.

Ele realmente não parecia uma companhia ruim, mas isso não importava muito, principalmente nas segundas-feiras.

•••

Quarta era um dos melhores dias, senão o melhor. As ameaças eram poucas, o silêncio, aconchegante. A esperança quase existia, se ele se concentrasse bastante. Guilherme quase poderia ser definido como "de bom-humor" se a pessoa a falar isso fosse uma alma especialmente indulgente. Por esse exato motivo, foi o dia que algumas coisas mudaram.

Mas demorou um pouco, porque como sempre, Caleb não prestava atenção na aula e aquilo não era novidade. Pensava na coincidência do dia anterior. Isso também não era novidade, já tinha acontecido antes, obviamente, a escola era pequena demais para dois anti-sociais que queriam se isolar, mas na maioria das vezes só davam meia volta sem trocar uma palavra que fosse. É por isso que ele não chorava na escola. Nunca se sabe quando alguém está te ouvindo através das portas do banheiro ou das árvores do quase bosque. Mas haviam conversado daquela vez. Haviam conversado, ponto, e o trabalho já tinha acabado fazia um tempinho. Encarou o lado de trás da cabeça de Guilherme por um tempo, o qual estava muito concentrado na aula, mas em dado momento pareceu notar que estava sendo observado, virando para trás sutilmente. Os dois mudaram a direção de seu olhar no mesmo instante, tentando não deixar tão óbvio que compartilhavam o mesmo interesse. A cada dia a convicção de Guilherme em deixar sua relação, se é que tinham alguma, o mais superficial possível diminuia, conforme pensava sobre como deveria ser ter alguém ao seu lado. Não era exigente, se fosse, consideraria amigos melhores, mas a muito que suas habilidades de interação se foram, nem lembrava como era capaz de fazer tantas amizades na infância. Talvez porque na época ele protegia e não machucava.

Caleb nunca protegeu ninguém além de si mesmo e acredite, ele precisava de proteção. Não entendia exatamente o motivo de sua curiosidade, suspeitava que era porque o colega parecia tão quebrado quando ele e nunca teve algo assim. Alguém que não tinha moral alguma para julgar, alguém diferente de Theo, alguém que não tivesse nenhum interesse nele e no que sua aparência tinha para oferecer, mesmo que fizessem isso porque, repetindo, sua personalidade não era lá das melhores, então era melhor não criar muita expectativa.

A aula felizmente ─ ou infelizmente, depende do ponto de vista ─ acabou e logo os alunos arrumaram suas coisas e saíram para o intervalo, também conhecido como a liberdade, com enorme determinação, com exceção de Guilherme, talvez, aquela era sua hora menos preferida do dia. Mas Caleb definitivamente estava muito animado para ir embora. Um pouco depois de passar pela porta, ouviu uma voz atrás de si.

─ Você quer ser fotógrafo ou algo assim? ─ perguntou com certo temor na voz, um pouco rápido demais, não sabia se tinha sido uma boa escolha começar aquilo. Não sabia se ia conseguir corresponder às expectativas de ser aquele quem começou. Caleb se virou um pouco desnorteado, sendo pego desprevinido.

─ Ahn... Eu só gosto de tirar fotos às vezes ─ falou depois de processar a pergunta. Foi a vez de Guilherme ficar em um silêncio confuso, não sabia o que falar depois. Não usaria palavras bonitas para definir suas habilidades sociais.

─ Você é bom? ─ o colega deu de ombros, ser arrogante era fácil, mas naquele momento não estava com vontade de demonstrar confiança em suas habilidades. ─ Eu não sei fazer porra nenhuma, então acho que já é um avanço, sei lá.

─ Por que você decidiu falar comigo? ─ foi direto ao ponto, olhando para o mais baixo com interesse. Dessa vez foi ele quem deu de ombros. Talvez pelo mesmo motivo que o outro.

─ Mal não vai fazer, né? Eu espero ─ vindo daquele cara, nada o surpreendia mais. Caleb abriu um pequeno sorriso de canto.

─ É, acho que não.

Os dois trocaram um sorriso e quando menos perceberam, já estavam caminhando lado a lado para o refeitório.

Definitivamente uma mudança.


Notas Finais


A cada dia que se passa a terra dá uma volta em torno de si mesma e o Nicolas tem mais vontade de socar o Caleb. Eu não julgo porque faria o mesmo

Eu acabei de decidir que o romance principal dessa história é Theo x coxinha. Quando você olha com atenção, nota que sempre que ele tá comendo uma, alcança a paz de espírito

Mas chega de piadas, vamos direto ao ponto, segurem minha mão. O que vocês acharam do capítulo? Da relação que o Caleb e o Guilherme estão desenvolvendo? Eu quero opiniões, quero comentários, falem bem, falem mal, mas falem de mim


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