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História Magia do Sangue - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá pessoal, essa história me veio a cabeça por esses dias e está em construção. Como não sei muito bem o desenrolar dela, a sinopse está péssima (vou melhorar, prometo). Mas leiam, vocês não vão se arrepender!

Capítulo 1 - Prólogo


Prólogo

Acordo com um incômodo barulho de batidas, que mais pareciam lamúrias e uma rajada de vento de arrepiar. Me erguendo da minha cama quente, afasto o dossel que tapa minha vista. Está uma tempestade lá fora e um dos galhos do enorme carvalho do nosso quintal quebrou o vidro da minha janela, projetando-se como um macabro braço retorcido dentro do meu quarto. Respiro fundo. Um cheiro de canela impregna o ar noturno, e sinto que essa não é uma tempestade normal. Franzo a testa e, me envolvendo no meu xale, saio do meu quarto, percorrendo a casa devagar, pulando as tábuas da escada que rangem e estremecendo perante o frio do piso.

Esfrego meu polegar com meu indicador sussurrando -lux- e seguro minha bola de luz para não tropeçar em nada. Era de se esperar que uma bruxa tivesse uma melhor coordenação, mas não... suspeito que seja algo fisiológico minha inabilidade de evitar acidentes. Espirro com o odor forte de canela que só aumenta enquanto percorro a casa e empurro com meu ombro as portas duplas de madeira pesada da nossa casa. Não, eu não estava delirando ao sentir cheiro de especiarias. A coisa é que cada bruxa da família, além de ter um elemento específico, possui também uma essência mágica diferente, de onde parte seu característico odor ao utilizá-la. A magia da minha mãe recende a canela, a minha, a pimenta. Ando alguns passos na grama e a cena que me aguarda arranca um gemido de frustração dos meus lábios.

- Você só pode estar brincando comigo mãe.

Minha mãe estava em pé no meio de seu círculo mágico projetado debaixo do grande carvalho, e a borda dele emanava uma forte luz prateada. Ela parecia etérea, milenar com sua túnica prata e seus longos cabelos loiros que desciam por suas costas, movendo-se como se tivessem vida própria. Ela nem abre seus olhos, continua movendo seus lábios rapidamente e apoiando com força suas duas mãos na grande árvore, como se tentasse empurrá-la. A imagem era, de certa forma, cômica: uma pequena mulher tentando mover um milenar carvalho de raízes e galhos que ultrapassavam a largura de um carro. Nem parecia que o mundo desabava ao seu redor, ela permanecia inabalável na sua pequena bolha dentro do círculo.

Parei a alguns centímetros do círculo mágico, sem ousar dar mais um passo. Não estava com vontade de ser jogada a metros de distância, obrigada. Com a força da magia da minha mãe e a julgar pela tempestade que ela tinha criado como válvula de escape, eu só conseguiria romper o círculo se ela quisesse. Ao nosso redor o vento rugia sacodindo as folhas da árvore central e a relva que se estendia no nosso terreno parecia querer sair da terra.

Olhei com mais atenção o que ela fazia e suprimi uma maldição. Eu devia saber que não era apenas um mau humor comum ou tédio o que minha mãe aparentava nas últimas semanas. Ela não estava tentando empurrar a grande árvore, é claro, ela estava tentando extrair poder dela para uso próprio!

- Mas que merda? - Olho para a janela do segundo andar de nossa casa e Vince, meu irmão mais novo, está olhando chocado para nossa mãe e o crescente brilho do seu círculo mágico. Faço sinal para ele descer e tento pensar numa forma de romper esse ritual antes que as coisas saiam do controle.

Qualquer ritual feito utilizando a grande árvore como fonte de poder deve ser informado a todo o clã. Não era permitido um bruxo sozinho lidar com ela. Precisa-se de um círculo inteiro para as coisas não saírem de controle! E aqui estava minha mãe, sozinha e no dia mais forte da lua crescente!

Bem, merda. Claramente esse ritual não estava dando certo, e graças à Deusa por isso. Não gostaria nem de pensar nas consequências se desse. Antes de tentar chamar atenção da minha mãe, entretanto, um grande galho do carvalho a chicoteia no estômago e ela cai de costas no centro do círculo. Corro em sua direção, hesitando ao entrar no círculo, mas vejo que as quatro velas marcando os pontos cardeais se apagam, e a luz que antes emanava também.

A seguro pelos ombros e ela apoia sua mão na minha camisola branca, que logo mancha de vermelho do sangue vindo de sua palma a mão. Ao seu lado, o pequeno altar tinha tombado na relva e seu athame (punhal mágico) resplandecia com o brilho da lua crescente, o sangue brilhando preto na escuridão.

- Filha...

- Não mãe, não tente falar. Pelos Deuses Vince, desça aqui agora! - Grito com minha voz amplificada.

A ventania deu trégua e olho ao redor, horrorizada com o que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado antes. Meu irmão aparece do meu lado num segundo, adentrando o círculo afobadamente, se ajoelhando no nosso lado e apertando com força sua mão na minha. Me concentrando, apoio minha palma da mão direita na testa da minha mãe e, com fazendo todo esforço possível, empurro parte de minha centelha de poder para ela, sentindo logo após a magia do meu irmão se juntando a minha. Meu primeiro impulso é rebater a magia dele, o gosto de gengibre me subindo pela boca e irritando meu nariz, mas aguento forte e me permito ser o condutor para minha mãe, que logo recupera a cor no rosto e estremece.

- Mãe, eu pensei que você fosse mais inteligente que isso- Vince diz, puxando abruptamente sua mão da minha e se levantando. Engulo com força. Nunca é fácil para quem transfere o seu poder, mesmo que seja pouco. É como se uma parte de sua essência se fosse. Normalmente não faríamos isso para ninguém, deixaríamos que a pessoa sofresse com sua própria tolice, mas ao ver nossa mãe desfalecida, eu e Vince nem hesitamos.

Minha mãe dá um sorrisinho de lado, seu típico, com os olhos verdes semicerrados.

- Ora, você sabe, às vezes sou cruel comigo mesma. – Murmura fracamente enquanto se afasta do meu colo e aperta sua túnica ao redor de seu magro corpo, o choque do frio da noite e o calor do nosso poder doado a percorrendo.

Não digo nada para em resposta, afinal, eu não podia concordar mais com sua declaração. Os três nos encaramos por um segundo, sentindo a energia no ar aos poucos diminuir. Vince encara a casa, preocupado que algumas das crianças tivessem acordado.

- Eu vou abrir o vinho mãe e você- diz apontando para mim e olhando de relance para nossa mãe, um misto de preocupação e frustração passando pelo seu rosto- lide com ela, eu não aguento.

A sala já se encontrava aquecida e iluminada pela grande lareira quando arrasto minha mãe para fora do círculo e, ao tempo que atravessamos o hall de entrada, minha mãe já se mostrava totalmente recomposta, o queixo para cima, e um olhar cuidadosamente construído de despreocupação no rosto. Apenas quem a conhecesse bem notaria o leve tremor na sua mão esquerda, que tentava à custo ocultar. Seu olhar varreu a casa, procurando algum aluno fora da cama que pudesse ter testemunhado a pequena cena.

Meu irmão, que estava agachado ao lado da lareira esquentado a garrafa de vinho, levanta e me puxa pelo cotovelo, sem nem olhar para nossa mãe, que se senta confortavelmente no sofá de camurça vermelha.

- Anna, ela deve te exaurido cada gota da força dela nesse ‘pequeno’ ritual. Cacete! Tudo isso para manter o glamour? Isso está indo longe demais- Vince sussurra apressado, enquanto abre o vinho.

Com um pequeno gesto das minhas mãos, as taças de cristal voam e param enfileiradas no aparador de madeira à nossa frente e o ajudo a servir o vinho. Dando-me um olhar especulativo, Vince levanta a sobrancelha ao me ver pegar meu punhal entre minhas vestes e furar meu dedo indicador, deixando cair algumas gotas de sangue em uma das taças.

-Você devia deixar que eu fizesse isso, irmã.

- Poupe-me de seu sermão Vince, que eu saiba ainda sou a mais velha, portanto, a mais forte. Agora, guarde sua raiva e vamos tentar colocar juízo na cabeça da nossa mãe. Você sabe que a enfrentar só vai piorar. – Lambo meu dedo para estancar o sangue e entrego a taça para ele- Temos que trata-la como um grande felino perigoso, você sabe, mas nunca esquecendo que na verdade ela é sensível como um filhote de gato desnutrido.

Vince relaxa diante de meu comentário e seus lábios, antes apertados em uma permanente carranca, relaxam num sorriso irônico. Pegando a taça da minha mão vai ao encontro de nossa mãe.

-Mãe querida, que tal um vinho para aquecer seu coração gelado? - Vince fala numa voz fingidamente bajuladora e eu reprimo um feitiço no meio de suas bolas.

Minha mãe arqueia sua sobrancelha bem-feita e encara meu irmão com desgosto.

-Vince, um dia eu não irei mais tolerar suas gracinhas. Agora me entregue essa taça e traga a garrafa junto.

Me afundo no sofá à sua frente, agora com minhas mãos tremendo e me sentindo exausta. Nala, a gata familiar da minha mãe, que antes encarava a todos, em cima da lareira de pedra com seu olhar superior, pula graciosamente no colo da minha mãe e mia maldosamente para Vince.

Dando um longo gole do vinho, minha mãe levanta os olhos por cima da taça e me encara surpresa, certamente notando o incremento que pus no seu vinho, mas logo desvia o olhar, suspirando.

- Crianças, olhem, não vamos fazer disso uma grande coisa. Foi um momento de desespero e fraqueza. – Ela fala com sua voz mansa, mas imbuída de autoridade, numa mistura de autocomiseração e poder. Caramba, ainda me impressiono com essa capacidade dela.

- Não vamos fazer disso uma grande coisa? Mãe, você foi longe demais! Como ousou fazer isso? Você sabe o que aconteceria se o conselho apenas suspeitasse que você está tentando usar o poder dessa árvore?

Vince argumenta, tentando manter a calma. Aperto seu joelho, o lembrando do que conversamos. Minha mãe arregala inocentemente seus olhos e coça a cabeça de Nala.

- Não é para tanto... eu só queria parecer descansada para mais tarde! Além do mais, Máximo não deixaria aquelas velhas carcomidas do conselho fazerem nada comigo- Ela completa, enquanto afasta o assunto com a mão, como se fosse um mosquito irritante.

Vince joga as mãos para o alto, em claro sinal de rendição e eu aperto com força meus dentes, me sentindo prestes a ir a batalha. É assim que me sinto toda vez que preciso ir contra minha mãe, a Grande sacerdotisa do nosso ciclo.

- Mãe, até que ponto você acha que a influência de Máximo consegue proteger você? Há certos limites que não se deve ultrapassar. Eu sei disso, Vince sabe, você sabe disso! Pela Deusa, até Magno sabe disso! - Afirmo, quando meu grande cachorro pula ao meu lado, bocejando tranquilamente.

Minha mãe para o carinho que fazia em Nala e me fita por alguns segundos, como se fosse dizer algo, mas desiste, movendo displicentemente os ombros.

- Eu preciso descansar, amanhã é um dia muito importante, como vocês sabem! Depois vocês terminam esse showzinho- Tomando o resto do vinho de uma golada só, ela se levanta do sofá e segue reto para fora da sala.

Vince me encara, derrotado, e eu não digo nada. O que mais eu poderia fazer? Estou exausta e, francamente, para lidar com minha mãe preciso pelo menos ter dormido oito horas antes e ter comida no estômago. Escuto a tábua da escada ranger e a porta do quarto da minha mãe bater e me deito no sofá, afundado a cabeça na barriga de Magno. Instantaneamente relaxo. Sua barriga era tão quentinha e seu cheiro característico sempre me acalma. Talvez eu deva ficar aqui um pouquinho antes de subir as escadas para meu quarto. Só um pouquinho.



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