História Mágissa - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Contos De Fadas, Drama, Magia
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Palavras 3.636
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Magia, Sobrenatural, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Desculpem a demora para lançar o próximo capítulo.
Devido a algumas explicações a quantidade de palavras aumentou um pouco mas espero que a leitura seja boa e clara para vocês.

Capítulo 2 - Reflexos do passado


Fanfic / Fanfiction Mágissa - Capítulo 2 - Reflexos do passado

Uma dor leve trespassava o braço de Mona e a sensação de estar dormindo no chão duro e frio se tornava cada vez mais nítida.

Suas pálpebras se abriram aos poucos e ela percebeu que estava em um lugar quase que completamente escuro, exceto por uma pequena luz mais adiante.

Com um pouco de dificuldade a albina se levantou e massageou o braço dolorido, tentando assimilar como seu quarto e suas coisas haviam desaparecido e o que seria aquele brilho estranho.

Seus pés descalços movimentaram-se por conta própria em direção a luz que ficava cada vez maior.

Ao se aproximar do local de onde emanava o brilho percebeu que aquilo era uma espécie de janela arredondada e ao tocá-la teve a sensação fria de estar tocando em água só que mais espessa do que de costume.

O líquido misterioso girou formando borrões de cores que se fundiram em um rosto gigante de uma jovem de aparência cansada e triste. Seus cabelos estavam presos por um lenço sujo, mas pelas poucas mechas que lhe escapavam percebia-se que eram de um tom louro fraco, seus olhos eram verdes como duas grandes esmeralda e suas bochechas eram muito ossudas.

Aqueles grandes olhos não paravam de encará-la, mas ao tentar responder Mona percebeu que nenhum som saia de sua garganta. Desesperada ela tentou atravessar a superfície, mas sentiu que esta se tornara rígida como um vidro e tudo o que podia fazer era observar aquele rosto gigante encarando-a sem piscar.

De repente uma pequena lágrima se formou nos olhos verdes da mulher através do vidro, a moça passou as costas das mãos no rosto limpando o vestígio de choro e se afasto rapidamente.

Mais borrões de cores, mais imagens se formando.

Desta vez a janela mostrava uma paisagem torta, meio em diagonal, de uma floresta que parecia bastante familiar para Mona.

Era noite e estava chovendo muito. As gotas de chuva no vidro atrapalhavam a visão e o som dos trovões se misturava a gritos agonizantes.

A albina enxergava apenas um vulto usando uma capa vermelha escarlate se aproximando cada vez mais e, mais adiante algo como o corpo de uma mulher.

A imagem se embaralhou novamente revelando a mesma moça de olhos verdes, porém agora estava bem cuidada, de rosto corado e cabelos bem tratados. Usava um pingente de esmeralda tão ofuscante quanto seus olhos.

- Eu sou a rainha. – disse a moça pela primeira vez fazendo sua voz ecoar pela sala – Eu venci enfim.

Os olhos de Mona se arregalaram de surpresa.

Como poderia ter sido tão tonta ao ponto de não perceber desde o início quem aquela jovem era?

De repente uma mão gelada e pegajosa segurou a perna da albina que na tentativa de escapar acabou caindo no chão frio. Com medo, Mona se encolheu recostada no vidro ouvindo o som da própria respiração acelerada.

Um gemido estranho ecoou pelo lugar chegando cada vez mais e mais perto, mas antes que a garota pudesse fechar seus olhos aquela figura grotesca e ensangüentada projetou-se a sua frente e segurou seu rosto.

O pavor se tornou tão intenso que Mona congelou no local e a coisa mais quente que podia sentir eram as lágrimas em seu rosto e a urina desenfreada que ensopava suas pernas.

A voz da albina finalmente saiu e ela gritou o mais alto que pode até finalmente perceber que estava em sua cama no quarto da choupana. Aos poucos o sangue parecia ir voltando a seu corpo até  então dormente e em silêncio deu graças por ter sido apenas um estúpido pesadelo. Infelizmente não podia dizer o mesmo da poça de urina que ensopara suas pernas e o colchão forrado de palha. Teria que por as coisas para fora para que secassem com o calor do sol.

Muito chateada com a situação virou-se de lado e sentiu o metal do espelho tocar suas costelas e rapidamente verificou se o objeto não havia se quebrado.

Virou e revirou o espelho de várias formas e por fim constatou que tudo estava em seu devido lugar. Recostou-se na cama esperando o mal-estar passar. Por sorte não precisaria se levantar de imediato, pois aquele era mais um dia em que ficava sozinha em casa.

A velha Hildegard ia até a feira da cidade uma vez na semana para vender tortas, doces em compota, bolos, bebidas adocicadas e entre outras guloseimas preparadas por ela mesma. Como a choupana era pequena a velha cozinhava e assava tudo em um galpão aos fundos, carinhosamente apelidado por Mona de Casa dos doces.

O cheiro de açúcar e calda de frutas impregnava cada canto do galpão e até a fumaça que escapava pela chaminé parecia ter algo de especial e encantador. Nas paredes havia tachos de cobre dependurados, conchas e colheres de madeira, formas organizadas em prateleiras juntamente com bacias de todos os tamanhos e algumas garrafas que continham bebidas de cheiro acre ou doce.

Alguns potes continham especiarias moídas como canela e noz-moscada e muitas outras, das quais Mona ainda estava aprendendo o nome e para quê serviam.

A velha Hild ainda não deixava coisas grandes a cargo da albina, não que a garota não soubesse cozinhar, mas sim pelo fato das guloseimas receberem um toque especial do qual a menina ainda não dominava totalmente.

Assim como Mona a velha Hild era uma filha da lua, um nome que os antigos deram para aqueles que nasciam com pele e cabelos pálidos. Mas acima disso Hildegard e Mona eram Mágissas.

As mágissas eram mulheres que praticavam magia desde muitas eras atrás. É sabido que esta magia é transmitida de geração para geração e apenas de mulher para mulher, mas às vezes a natureza é caprichosa e faz com que a filha de uma mágissa nasça sem poder algum.

Os dons de uma Mágissa começam a se manifestar entre os sete ou oito anos, mas algumas garotas podem demonstrar poderes tardios, entre doze e treze anos, como foi o caso de Mona. O fato é que a floração da magia pode se apresentar de várias formas seja na cura repentina de uma ferida ou no dom de atrair e hipnotizar animais.

Durante muitos anos estas mulheres eram vistas como sacerdotisas da natureza, pessoas sagradas e dignas de até mesmo certo respeito, mas como tudo aquilo que não pode ser explicado desencadeia o medo com as mágissas não foi diferente.

Com o tempo os homens comuns começaram a temer que tais mulheres eram responsáveis por doenças inexplicáveis tanto em seres humanos quanto no gado e na plantação. A prática de qualquer tipo de magia e curandeirismo, sem autorização do reino, foi considerada proibida sob pena de tortura e morte.

Os filhos da lua foram subjugados e tornaram-se escravos em lavouras, minas e casas de prazeres. Alguns nobres escravizaram mágissas ao ponto de usá-las como ferramenta de guerra ou um trunfo contra inimigos. Aquelas que não apresentavam resistência podiam viver confortavelmente, não se esquecendo de que eram apenas um objeto pertencente ao seu senhor. Mas para as mágissas que eram difíceis de controlar o destino era mais cruel.

Os homens eram usados em trabalhos pesados e desumanos. Famílias eram desmembradas para tornar mais fácil a obediência e dificultar a tentativa de fuga daqueles que não queriam deixar um parente para trás.

Muitos filhos da lua viram no desespero de seus irmãos a oportunidade de crescer. Aqueles que entregavam esconderijos ou traidores eram recompensados com cargos maiores e a oportunidade de dar um conforto a mais para seus familiares. A reprodução entre homens e mulheres descendentes de filhos da lua era apenas para fins lucrativos como vendas de escravos. As crianças que apresentavam o dom da magia eram retiradas de seus pais e enviadas para o Grande Templo da lua, onde eram treinadas para desenvolver seus dons e negociadas com reinos aliados.

As moças do templo eram chamadas de jóias lunares e eram tratadas até certo ponto como especiais, a fim de serem seduzidas pela oportunidade de sair da miséria em troca de lealdade cega.

Algumas dessas jóias lunares eram vendidas como Camafeus reais, como eram chamadas as aias de rainhas e princesas ou protetoras e amantes de reis e príncipes. As jóias de maior poder, as chamadas Adamantinas de Deus e eram enviadas para representantes religiosos para lhes fornecer proteção a fim de alcançar o perdão divino pelos pecados de sua espécie.

A velha Hild contara para Mona que um jovem boticário se interessara por sua mãe e a comprara numa venda de escravos por algumas moedas. O homem já era casado e por medo da reação de sua esposa decidiu construir um casebre um pouco afastado da cidade para se encontrar com sua amante e desses muitos encontros nasceu Hildegard.

A velha contou também que por muitos anos ela e sua mãe tiveram de pintar seus cabelos com plantas pigmentadas para esconder sua origem albina e que elas sobreviviam da venda de bolos simples que faziam.

Ao atingir oito anos Hildegard que já demonstrava certa aptidão para com as plantas descobriu que podia manipulá-las através de poções. Seu pai, astuto e ambicioso, viu nela a oportunidade de ganhar mais dinheiro promovendo encontros secretos entre pessoas que precisavam de ajuda e a garota.

De início sua mãe foi contra, mas não havia muito que pudesse ser feito e com o passar do tempo a notícia das poções e ungüentos milagrosos da menina se espalharam tão rápido que chegaram aos ouvidos dos anciões, os representantes da fé do local.

Como castigo por terem escondido a origem de uma mágissa seu pai e sua mãe foram condenados a fogueira, mas a garota conseguiu escapar usando uma poção que a permitia trocar de identidade com outra menina, a qual foi queimada em seu lugar.

Foram longos meses se escondendo, vivendo na floresta escura e solitária e se alimentando de frutas e raízes. Hildegard Voltou para sua velha casa uma ultima vez descobrindo que essa ficara praticamente em ruínas. O que sobrou havia sido saqueado pelos moradores que estiveram no local. Restou apenas o velho machado, uma esteira onde ela e a mãe se sentavam e uma caneca de madeira rústica.

Hildegard tomou seu rumo novamente em direção a floresta, se afastando cada vez mais de todas aquelas lembranças que marcariam sua vida para sempre.

Mona não quis entrar em detalhes de como a velha conseguira construir a choupana ou o galpão, mas deduzira que Hildegard havia afanado dinheiro antes de sua fuga do destino na fogueira.

Algumas batidas na porta fizeram Mona sair de seus devaneios.

- Mona!- chamou uma voz grave e familiar que vinha do outro lado- Abra pra mim.

A albina levantou-se de um salto e correu para receber o tão esperado visitante. Parou de súbito diante da porta de madeira que os separava e perguntou por fim.

- O que trouxe hoje pra mim?- a voz da garota saiu rouca e arrastada.

- Algo vermelho- prosseguiu o estranho- Sua cor favorita, não?

Ela levantou o tricô da porta e deixou o caçador entrar.

Era um homem não muito alto, porém forte e jovem. Tinha olhos e cabelos castanhos e uma barba por fazer. Usava roupas de camponês e uma capa rústica que protegia do sou seu rosto já muito bronzeado pelo trabalho árduo. Ele carregava em uma das mãos duas lebres abatidas dependuradas pelos pés e na outra mão uma linda rosa de vermelho profundo tão intenso quanto os olhos da garota diante dele.

- Como conseguiu esta rosa?- indagou a albina roubando a flor da mão do homem virando-lhe as costas sem nem lhe dar muita atenção.

- Isso não é tão importante. Você me pediu algo especial e eu trouxe- ele se sentou na cadeira antes de prosseguir a conversa – O perfume dela é delicioso e... - o sujeito deu duas fungadas longas- por falar em perfume o daqui não é dos melhores. Cheira a mijo de cavalo. Ou devo dizer mijo de potra branca?

De repente Mona lembrou-se da camisola ensopada na parte de trás e teve muita vergonha por ter dado as costas ao caçador deixando evidente a marca do que havia feito.

- Não foi potra nenhuma! O cheiro deve ser dessa carne de coelho nojenta que você trouxe- ela correu para dentro do quarto antes de gritar furiosa de vergonha – E eu não gostei dessa sua rosa feia.

O caçador riu alto mostrando assim que não levara nem um pouco a sério as palavras da garota.

Mona arrancou a camisola rapidamente e pegou um pano qualquer no baú grande, molhou na bacia com água e esfregou suas partes para tirar o cheiro da urina. Pegou um vestido velho e enfiou-se nele. Não ia gastar as boas roupas que a rainha e a princesa lhe deram se aprontando para aquele caçador grosseirão.

A albina enrolou o longo cabelo em um coque e prendeu-o com um lenço. Pegou a roupa suja, fez uma pequena trouxa e antes de abrir a porta do quarto para sair lembrou-se que de toda forma teria que levar o colchão para secar. Pensou por alguns instantes e por fim abriu a porta.

O caçador encarou-a com ar de quem estava se divertindo muito com a situação.

- Você vai me ajudar a tirar o colchão ou vai ficar me olhando com cara de bobo?

...

 

A feira estava agitada. Pessoas gritavam em busca de chamar a atenção dos fregueses e o barulho de crianças correndo se misturava com a risada de homens fanfarrões e os sussurros de esposas recatadas.

Era dia de venda de escravos e representantes de outros reinos vieram em busca de bons filhos da lua para trabalhar em seus campos ou servirem em suas casas.

Uma carroça com homens e mulheres acorrentados por grilhões ficava exposta em meio à praça para que os compradores pudessem avaliar a qualidade de cada produto. As crianças não eram vendidas, pois sua estatura pequena e mãos ágeis eram muito bem aproveitadas nas minas pertencentes ao reino. Apenas quando estavam adultas os pequenos mineradores eram enviados para outros serviços.

Toda aquela visão desumana fazia o estômago de Hildegard se embrulhar. Pensar que um dia sua mãe também estivera presa por correntes e que tivera sua vida roubada por tolos e ignorantes a deixava revoltada. Graças a Mãe Lua suas vendas foram prósperas e não precisaria ficar nem mais um segundo olhando pra aquele horror.

Hildegard estava recolhendo seus pertences quando sentiu uma presença e um leve perfume adocicado se aproximando cada vez mais de suas costas.

- Que pena!- disse a voz feminina fazendo a velha Hild se virar- Parece que cheguei um pouco tarde.

A moça era alta e esguia, de pele clara e olhos lilases. O cabelo era de um tom branco amarelado e estava preso por uma trança bem caprichada. Trajava um belo vestido verde musgo de mangas longas e de boca largas revelando os punhos brancos de sua veste interior e no peito carregava um camafeu.

- Não tenho mais bolos, senhorita- Hildegard encarou a mulher com certo desprezo, pois sabia de quem se tratava. Era Augustín, a aia da rainha.

- É realmente uma pena- disse a moça olhando desdenhosa para as cestas vazias na mão da velha- A princesa parece ter certo apreço por esses bolos. Pediu-me que lhe entregasse esse bilhete com encomendas de algumas guloseimas.

Augustín retirou do decote um papel de pergaminho dobrado em um perfeito quadrado e entregou-o para Hildegard que ao ler reconheceu que a letra pertencia à rainha e não a pequena Alva.

Um homem de minha confiança buscará a menina dentro de três dias e a levará em segurança ao Templo da lua. Livre-se de qualquer vestígio na casa que me ligue a você ou a ela e destrua este bilhete quando estiver em um lugar isolado.”

A velha Hild deu um suspiro longo e dobrou o bilhete colocando-o dentro do próprio decote.

- É uma tarefa bem grandiosa essa que me pedem. Este fruto ainda não está maduro o suficiente- disse a velha encarando a aia.

- Ora! Não tem problema, senhora. Tenho certeza que suas mãos experientes darão um jeito nisso- Augustín deu um sorriso de deboche antes de virar as costas para a velha.

A riqueza era realmente uma serpente sedutora. Fazia até com que os iguais se sentissem superiores aos outros.

O que separava Augustín dos demais filhos da lua presos naquela jaula como animais era o fato da Mãe lua tê-la privilegiado com o dom da magia e o luxo que a moça usava a custo do sofrimento de seus irmãos.

À medida que Hildegard foi se afastando da cidade e adentrando o caminho da floresta que a levaria a sua casa foi lembrando-se dos momentos felizes que passara com Mona e que em breve deixariam de existir.

O ar brincalhão e curioso da menina trazia vida para aquela choupana no meio do nada e seu dom para poções era notável, a pesar de ser uma menina preguiçosa e às vezes emburrada.

Já fazia quase um ano, mas a velha se lembrava exatamente do dia em que o dom de Mona se manifestara. Quis a Mãe lua que a natureza dos poderes da garota surgisse juntamente com sua floração feminina.

Era uma noite tempestuosa e o barulho dos trovões parecia querer castigar os ouvidos de todos.

Os gritos de Mona ecoaram por todo o quarto e a velha que estava sentada a beira do fogo se apressou a pegar uma vela e correr parar ver o que havia acontecido.

A albina estava caída no chão e do interior de suas pernas jorrava um líquido espesso e borbulhante. O sangue escorreu rapidamente pelo chão frio formando ondulações sinuosas até se transformar em grotescas serpentes vermelhas.

As cobras se enrolaram umas nas outras e subiam como árvores crescendo em direção ao céu até que uma enorme serpente se formou.

A gigantesca víbora encarou sua criadora com ferocidade no olhar. Tão grande foi o horror da garota ao ver a aberração que desmaiou e no exato momento em que seus olhos se fecharam sua criação se dissolveu em uma simples poça de sangue de mulher.

...

A rainha bordava perto da janela de seu quarto, como de costume. Dali de cima tinha uma visão dos jardins do castelo, o que era maravilhoso, pois as flores estavam esplêndidas naquela manhã.

A rainha parou por um instante lembrando-se de todo o caminho que havia trilhado até chegar ali. Todos os sacrifícios e sacrificados que ousaram ficar no seu caminho e o maravilhoso sabor de ter enfim se tornado alguém cujas pessoas temiam e admiravam, e, ousava dizer, até mesmo invejavam.

Pensou em tudo que poderia perder se desse um passo em falso. Não poderia permitir que tal coisa acontecesse, não agora, depois de tudo enfim ter dado certo em sua vida. Mas não havia escolha. Seria mais fácil ter a garota como aliada do que como uma inimiga.

-Denera, querida- A voz do rei a despertou de seus devaneios- Não me ouviu chamá-la?

- Perdão, meu marido. Distraí-me pensando besteiras.

A verdade é que mesmo depois de todos estes anos a rainha não havia se acostumado com esse nome estúpido. Deveria tomar mais cuidado.

O rei sentou-se na cadeira de frente para a esposa e começou a falar.

- Soube que visitou o Templo da lua mais uma vez. - Sua voz era serena- Entendo que está à procura de um bom Camafeu para nossa filha, mas acho perigoso levá-la com freqüência a um lugar com tantas... Enfim, sabe o que quero dizer.

A rainha sentou-se aos pés do rei como um cãozinho apaixonado e envolveu as mãos dele com as suas.

- Liônidas, meu amado- começou ela- Sabe o quão me apiedo daquelas pobres crianças. Desde o dia em que perdi meu antigo Camafeu penso na dor de todas estas pobres infelizes, trancadas num templo apenas esperando à hora de serem levadas sabe-se lá por qual espécie de rei.

Ela chorou como uma criança. E o rei comovido com o coração gentil da esposa acolheu-a em seu colo como um pai que aninha sua filha pequena.

- Oh, minha querida! Não quero vê-la chorando. Sei que seu coração só deseja fazer o bem, mas tudo o que peço é que tenha mais cuidado.

A rainha levantou-se e limpou as falsas lágrimas com um gesto delicado.

- Encontrarei o mais perfeito Camafeu para nossa doce Alva.

O coração do rei era bondoso e tolo, fácil de manipular com o uso certo de algumas palavras.

Liônidas se direcionou a porta e antes de fechá-la contemplou sua amada por alguns instantes.  

Tão logo o soberano partiu as feições da mulher mudaram da água para o vinho e antes o que era o rosto de uma nobre senhora gentil deu lugar a expressão de alguém que está cansada de usar joguinhos melodramáticos para ter um pouco do que quer.

A rainha andou de um lado para outro do quarto, tentou voltar ao bordado, mas o nervosismo e a apreensão só faziam com que ela errasse os pontos. Era tudo culpa de sua estúpida serva que não deveria demorar tanto para cumprir a tarefa simples de entregar um mero bilhete.

De repente três leves batidos na porta fazem com que a rainha prenda o ar por alguns instantes.

- Entre!- ordenou a rainha.

Augustín abriu a grande porta devagar e antes de voltar a fechá-la observou atentamente os arredores para ter certeza de que ninguém estava por perto.

- Tudo ocorreu de acordo com sua vontade, minha rainha- disse a serva por fim, exibindo um sorriso orgulhoso.

- Excelente!-

A rainha parecia se deleitar com a notícia. E pensar que havia duvidado de suas escolhas. Como algo poderia dar errado depois de todo sacrifício que fez? Os ventos sempre sopraram a seu favor desde aquele dia tempestuoso na floresta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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