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História Mais do que eu deveria - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Parece que vai chover.


Fanfic / Fanfiction Mais do que eu deveria - Capítulo 6 - Parece que vai chover.

A redação estava mais agitada que o normal. Pessoas corriam de uma lado para o outro e falavam mais alto que de costume, Hadassa parou em frente a sua mesa e observou o movimento.
— Ei, Hadassa. - chamou William no meio da confusão — Vá para minha sala! - dizia ele tentando passar pelas pessoas que trombavam umas nas outras.
A equipe de William estava toda reunida em sua sala, inclusive Renata que conversava com Sadi. Hadassa entrou na sala em silêncio, dizendo um "bom dia" tímido que foi ouvido somente por algumas pessoas, mas não se incomodou porque queria passar despercebida por Renata, pelo menos por enquanto.
— Bom dia, pessoal. - falou William entrando na sala em tom mais animado que o normal. Bateu palmas como de costume para chamar atenção.
— Vamos nos dividir em trio para executar as tarefas, hoje a gente não pode errar. - Hadassa encontrou o olhar de Renata, sentiu seu estômago afundar.
Foi chamada para compor o trio de William.
— William, calma aí! Deixa a Hadassa comigo e com a Renata que a gente vai precisar muito mais. - disse Sadi sorrindo para a menina.
— Se ela quiser, tudo bem. - respondeu o jornalista.
— Ah, eu vou ficar na equipe do William. - disse corando levemente.
— Essa é minha, Andréia, arrume outra estagiária para você. - disse William rindo com o rosto de satisfação.
Renata a encarou com uma expressão vazia, Hadassa sentiu seu coração acelerar. Algo estava acontecendo, a menina só não sabia identificar se era bom ou ruim.

Passava das 15h e Hadassa já tinha ativado o modo piloto automático pra executar suas tarefas. Desde que chegou na sala de William, pela manhã, só levantou para ir ao banheiro. Tirou do bolso uma cartela de dipirona e engoliu o remédio sem tomar água.
— É mais um de seus talentos, Hadassa? - perguntou William.
— Sabe o que a Sadi diz sobre quem toma comprimido sem água? - falou sorrindo
— Que a pessoa já desistiu da vida faz tempo. - respondeu William dando uma pequena gargalhada.
— Amo as reflexões de vida dela. - falou Hadassa enquanto massageava sua testa.
— Você fica muito na frente do computador talvez precise de um óculos. - aconselhou William.
— Eu preciso de tanta coisa... - murmurou Hadassa, que nesse momento esfregou os olhos.

Resolveu sair da sala e andar um pouco para esticar as pernas, subiu até a cobertura do prédio. O Dia estava totalmente dublado, as nuvens quase negras carregadas de água se espalhavam por todo o céu, fechou os olhos de satisfação ao sentir o vento gelado. Naquela hora do dia, o STF já havia tirado o sigilo da denúncia feita sobre o seu pai. Resolveu pela primeira vez em dias atualizar o feed do seu Twitter. Por um momento percebeu que só tinha comentários e notícias sobre seu pai, sendo o assunto mais comentado dos topics era a hashtag #PrisãoParaAbraham com mais de 300 mil twittes. Permaneceu boquiaberta por alguns segundos até tomar coragem e entrar na tag. Sabia o que ia encontrar ali e não deu outra: inúmeras pessoas do brasil inteiro criticando seu pai, e claro, com razão, no entanto, notou uma minoria, um tanto que duvidosa, defendendo-o com unhas e dentes.

"O ministro do caos." dizia uma manchete do O antagonista.
"O ministro da saúde deveria proteger a população nessa pandemia e não roubá-la, CANALHA!" tuitava um @
"Fachin abre inquérito contra Abraham Werneck por suspeita de corrupção no ministério da saúde." O Globo noticiava.
"Isso é um absurdo! Quem frauda licitações é o Dória e ninguém faz nada! STF vergonha nacional!" comentou um @ com icon de presidente.
"Você é burro? Lê a matéria, ô animal, o cara fraudou e está mais que explícito." respondeu outro @ com um meme do presidente tocando um berrante, se fosse em outra ocasião ela teria achado muito engraçado.

Faltou força nas suas pernas. Devagar foi agachando no chão até se encontrar de joelhos. Sentia suas lágrimas inundando seus olhos azuis que escorreram em seu rosto de forma que ela já não podia controlar, sentiu sua boca tremer, numa tentativa de conter o seu pranto tapou a boca com a mão com toda força como se quisesse engolir o choro, fracassou.
— Pai, por quê? - murmurou entre prantos.
Hadassa lembrou se quando seu pai fez uma supresa no dia de seu aniversário de 21 anos.
— Abra, filha, você vai amar! - disse Abraham animado.
Hadassa com os olhos brilhando começou a rasgar o embrulho do presente.
— Ela é perfeita. - disse olhando para a camiseta do Flamengo que acabava de ganhar.

Os campeonatos de futebol em Israel nunca foram muito bons, o país não tem tradição nesse esporte, o que fez Abraham se apaixonar pelo flamengo assim que pisou os pés no Rio de Janeiro. Tentou passar o máximo possível dessa paixão para Hadassa e até que conseguiu. Ao levantar a peça de roupa na altura dos olhos para admirá-la melhor, deixou cair dois papeis que estávamos escondidos entre as dobras da blusa, eram ingressos para assistir ao jogo do Flamengo no Maracanã naquela tarde de domingo.
— VOCÊ É O MELHOR PAI DO MUNDOOOO!!!! - gritou Hadassa e pulou no colo de seu pai.

Chorou alto sem se importar que alguém pudesse ouvi-la. Olhou para o céu como se pedisse ajuda a alguém lá de cima. Na tentativa de espantar essas lembranças, contou até 3 e começou a respirar fundo até sentir o pranto cessar. Ficou de joelhos ali encarando o chão por mais tempo que conseguiu contar, talvez achasse que as coisas se resolveriam sozinhas. Depois de um tempo quando suas pernas começaram a doer Hadassa se levantou, pegou seu celular que estava jogado no chão, e pela tela viu que estava com uma cara horrível, os olhos totalmente vermelhos e inchados. — Olha, mas que ótimo. - disse com a voz embargada. Tirou do bolso sua máscara branca e colocou no rosto para voltar a redação, queria colocar um óculos, mas achou que seria muito estranho ela transitar pela redação de óculos de sol.
Quando voltou a sala de William encontrou Renata sentada a mesa junto ao jornalista.
— Se perdeu na redação? - perguntou William, de forma mais séria do que de costume ao vê-la chegar.
— Não, senhor, me desculpe! - respondeu Hadassa abaixando a cabeça. 
— Está tudo bem? - perguntou William, olhando Hadassa por cima de seus óculos.
— Eu passei um pouco mal, tive uma crise alérgica de renite. - mentiu.
Renata cruzou os braços e encarou Hadassa como se quisesse dizer algo.
— Me desculpe, Hadassa, não quis ser grosso, poxa! Nem imaginava que você tinha passado mal. - falou William.
— Não precisa se desculpar. - respondeu ela incomodada com os olhares que Renata lançava.
— Hadassa, vá a minha sala hoje depois que a edição do jornal terminar, gostaria de conversar com você. - disse Renata.
Hadassa sentiu seu estômago embrulhar de tanto nervoso.
— Uhum...  - foi a única coisa que saiu de sua boca.
— Vão ficar de segredinhos as duas agora? - brincou Bonner digitando freneticamente em seu computador.
— Jamais! Segredo é algo que eu não gosto. - sorriu Renata.
Hadassa sentiu suas pernas amolecerem, deu graças a Deus que estava sentada. Precisava se recompor. Pegou a jarra de vidro cheia de água no centro da mesa e com as mãos tremendo, encheu um copo com água e bebeu. Começou a sentir melhor, voltou ao trabalho até ser interrompida por William.
— Mas esse cara só pode estar de brincadeira – falou num tom mais alto que de costume. — Escutem isso. - e começou a ler na tela de seu computador:

"Não fraudei esses documentos, não tem a minha assinatura. A rede globo e o STF tentam me desmoralizar inventando mentiras a meu respeito. Eu sou um homem de bem, trabalhador e pai de familia."

Na sala ouve um murmúrio de reprovação a fala de seu pai.

— Esse cara tem que ser preso! Cara de pau! Sem caráter. - disse Renata em tom de repúdio, e encarou Hadassa como se quisesse provocá-la.
Hadassa sustentou o olhar, as duas ficaram por alguns segundos se encarando. Até serem interrompidas por Sadi que veio chamar Renata. Hadassa sentiu vontade de pegar Renata pelo colarinho de sua camisa e a jogá-la na parede com toda força que tinha nos braços, e pedir para ela repetir as palavras. Logo depois se arrependeu de seu pensamento e pediu desculpas como se alguém tivesse lido sua mente. Sabia que agora tinha que ser mais lúcida do que jamais foi em sua vida, precisava separar o trabalho da vida pessoal. Com a consciência ainda meio pesada por quase agredir Renata em sua imaginação, pensou jamais faria uma coisa dessas, não era de sua natureza.

Resolveu mandar uma mensagem a sua mãe:

"Mãe não saia de casa, e nem fique muito na internet, eu amo você." - escreveu.
Depois de alguns minutos, sua mãe lhe respondeu:
"Estou tão aflita. Pensei em te ligar hoje mais cedo, mas imaginei que você já soubesse, Hadassa, não fique contra seu pai, ele é um bom homem, você sabe."
Leu a mensagem de sua mãe, e resolveu não responder, queria falar muitas coisas à ela a respeito de seu pai, mas aquele ainda não parecia ser o momento mais adequado.
 

Já eram quase 19h quando Hadassa terminou todo os seus deveres. Já se sentia mais calma, e sabia que tinha feito um bom trabalho hoje, apesar de tudo. Observou, através dos janelões da sala de William, os relâmpagos que apareciam lá fora. Sentiu seu estômago reclamar de fome, precisava comer, mas estava com preguiça de descer para a cantina. "Esse foi um dos piores dias da minha vida", pensou.
— Quem pensa demais não casa. – disse William numa tentativa de fazer uma piada ao ver a menina olhando fixamente para o nada.
— Ainda bem que você decidiu ser jornalista ao invés de humorista. - riu Hadassa.
— Hoje você está dispensada da função de postar as matérias do JN no Twitter, pode ir para casa descansar. - disse ele dando uma piscadela.
— Obrigada - disse ela sorrindo. Logo o sorriso sumiu do rosto por lembrar que não poderia ir embora porque tinha um encontro com Renata depois do jornal.

Resolveu ir comer, ligou para Sadi que ainda estava na redação e combinaram de se encontrar no estacionamento. Sadi lhe esperava mexendo no celular escorada num carro. Ao se acomodarem na cantina depois de terem feito os pedidos, Hadassa observou uma mulher muito elegante, sentada a algumas mesas da sua. Ela era deslumbrante. Seus cabelos eram ruivos e ela sorria para tela do celular. Hadassa ficou imaginando que a pessoa que lhe tinha tirado aquele sorriso era um cara de muita sorte. De repente, percebeu que ultimamente várias mulheres lhe chamavam atenção, pensou que talvez esse sentimento sempre tenha estado dentro dela, mas sua rotina monótona e vazia não tinha deixado isso aflorar. Continuou observando-a, parecia que a conhecia de algum lugar.
— Quem é ela? - perguntou a Sadi, discretamente apontando para a mulher.
Andréia se virou para olhar e respondeu — É a Poliana do fantástico, por quê?
— Por nada, sabia que conhecia ela de algum lugar. - disse.
— Hein, ganhei 3 dias de folga, estava combinando com as meninas de ir comer sushi, vamos? - convidou Sadi.
— Não gosto de sushi. - falou Hadassa, ainda com os olhos focados em Poliana.
— Você quer que eu vá pedir um autógrafo para você, amada? -disse Sadi sarcástica.
— Se liga! Eu só fiquei curiosa. - riu Hadassa.
Hadassa sentiu mais uma vez o seu sorriso desaparecer ao lembrar de tudo que aconteceu no seu dia, e que ainda essa noite poderia até ser demitida.
— Eu amei trabalhar com você, você é incrível, espero que tenha gostado de mim também. - disse Hadassa agora bebendo um pouco do seu suco de laranja.
— Aí meu Deus, pegou covid? – perguntou Sadi fazendo Hadassa rir e quase se engasgar com o suco.
— Tonta! - disse a menina.
— Um discurso de despedida desses eu já fico preocupada. - riu Sadi.
— Ei, você sabe o que a Renata queria comigo ontem? - perguntou Hadassa tentando parecer despreocupada.
— Ela te procurou pela redação toda, eu falei que você passou mal e já tinha ido embora - comentou Andréia.
— Hum! - respondeu Hadassa
— Você aprontou algo, amada? - quis saber Andréia.
— Minha consciência diz que não. - respondeu a garota.
— Iiiiiih, já vai se preparando para trabalhar no programa do ratinho. - disse Sadi tirando sarro.
Hadassa deu uma gargalhada — Aí desisto de tentar conversar sério com você.
Hadassa se despediu de Sadi no estacionamento. Voltou para a redação. O Jornal já tinha acabado. Ouviu algumas pessoas do G1 comentarem que a audiência bateu 30 pontos.
— Sabe onde a Renata está? - perguntou a jornalista que trabalhava do lado de sua mesa.
— Na sala dela provavelmente. - disse a mulher.
Hadassa tomou coragem e foi em direção à sala 4, pensou que independente do que acontecesse, ela fez um ótimo trabalho nesses pouco mais de 27 dias que trabalhou ali, sempre foi muito elogiada e acima de tudo teve ética profissional, pois em momento algum contou o que se passou antes da denúncia de seu pai virar notícia. De qualquer forma, o coração já batia acelerado.

Respirou fundo e bateu na porta da sala de Renata.
— Entre. - falou Renata.
Hadassa abriu a porta e permaneceu com o corpo meio dentro e meio fora da sala. Entrou.
— Ah, é você. Tranque a porta por favor. - pediu Renata.
Hadassa sentiu sua mão suar ao rodar a chave no trinco. O coração parecia que ia explodir.



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