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História Mais do que eu deveria - Capítulo 66


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Capítulo 66 - Nas ondas do mar.


Fanfic / Fanfiction Mais do que eu deveria - Capítulo 66 - Nas ondas do mar.

Lá fora o breu da noite já estava caindo sobre o Leblon, no horizonte do mar, o sol ia se pondo aos poucos, o vento soprava fraco, porém gelado, talvez alguma frente fria estivesse prestes a chegar na cidade. Hadassa estava deitada no sofá encarando o teto, não foi trabalhar pois estava com fortes enjoos, naquele dia em especial se sentia irritada, frustrada e triste, e nem ao menos sabia o porquê dos sentimentos, nem mesmo o bom humor e a fofura de nina foram capazes de fazê-la sorrir. Ainda faltavam 2h para Renata chegar em casa, começou a pensar que odiava o trabalho da noiva, pois quase sempre ela estava ocupada, pensou como seria quando os bebês nascessem, provavelmente ela passaria o dia sozinha enquanto Renata estava na redação. Cruzou os braços com raiva, como uma criança birrenta, um rancor tomou conta de seus pensamentos, uma vontade de chorar fez seus lábios tremerem, ela não sabia porque estava passando por aquilo, mas de uma coisa ela tinha certeza, estava com raiva de Renata, sem motivo aparente, é claro. Hadassa não tinha notado, mas o motivo da sua revolta era devido a montanha russa de sentimentos que uma gravidez de gêmeos proporcionava, hora queria chorar, hora queria matar Renata, hora queria gritar, e ter ficado trancada o dia todo só piorou tudo.

Devagar foi se sentando no sofá, sentiu a cabeça rodar, parou por alguns segundos, recuperando os sentidos, resolveu dar uma volta na orla da praia para tentar espairecer um pouco a mente. Ela acabara de fechar o 3 mês de gestação, e em 5 dias completaria 25 anos, Hadassa era uma mulher de agosto, uma leonina nata regida pelo elemento fogo, carregava a maioria das características do signo, uma de suas maiores qualidades era a lealdade e a nobreza de caráter, também era muito afetuosa em suas relações pessoais, mas como uma boa leonina Hadassa tinha defeitos marcantes, ela era extremamente autoritária e possuía dificuldades em aceitar opiniões alheias, tudo tinha que ser do seu jeito.

O apartamento de Renata não ficava na frente da orla, mas mesmo assim encontrava-se muito perto dela, Hadassa teve que andar apenas alguns metros e o barulho do mar já começava a se fazer presente, se não tinha soltado nenhum sorriso durante todo o dia agora ele marcava seu rosto de forma expressiva. Seus pés andavam mais rápido, eles tinham pressa em tocar a areia gelada, abriu os braços e fechou os olhos, sentiu a brisa do mar soprar em sua face, seus cabelos se agitavam, jogou o chinelo em qualquer canto do calçadão e caminhou em direção àquela imensidão de água, o mar parecia conversar com ela, talvez tivesse lhe perguntando o porquê da sua ausência. Hadassa apenas sorria, se não estivesse grávida, com toda certeza já teria tirado a roupa e se jogado dentro dele.

Depois de caminhar algum tempo, algo lhe chamou atenção, na beira do mar havia um senhor vestindo roupas brancas, carregava alguns colares no pescoço, ele segurava uma vela e jogava pétalas de rosas no mar, Hadassa lhe observou por alguns segundos, não se conteve de curiosidade e se aproximou dele

— Oi. -Estava parada a poucos metros dele.

O homem levou um pequeno susto e se virou para encarar Hadassa.

— Olá. -Respondeu gentilmente.

— Por que o senhor está jogando rosas no mar? -Colocou as mãos na cintura, ainda encarava ele com curiosidade.

— Estou fazendo uma oferenda à rainha do mar. -Disse ele pacientemente.

Hadassa se recordou vagamente que alguém já havia lhe dito que o mar tinha uma rainha, mas ela não lembrava muito bem.

— E o mar tem uma rainha? -Sorriu.

— Tem sim, seu nome é Iemanjá.

— Isso é uma religião? Não me leve a mal, só fiquei curiosa.

— Sim, ela é uma das divindades mais queridas e cultuadas da religião umbanda e candomblé. -O homem tinha o tom de voz suave e calmo, enquanto falava com Hadassa não parava de jogar pétalas de rosas no mar.

Hadassa olhou em direção a imensidão no mar por alguns segundos, estava um pouco confusa.

— E qual é a sua religião? -Voltou os olhos para o homem.

— Umbanda e a sua?

— Sou judia, mas não sou praticante.

— Você é brasileira?

— Sou sim, nasci em Israel, mas fui criada aqui no Rio.

— E ainda não teve contato com a região que surgiu aqui nessa cidade? -O simpático senhor agora encarava Hadassa.

— Não, eu parei de seguir o judaísmo faz pouco tempo. -Ela agora estava um pouco sem jeito.

— E o que te trás aqui no mar esse horário?

— Eu gosto do mar, ele me faz bem, eu vim para me sentir feliz, desde criança eu tenho um apego a ele.

— E qual o seu nome? -Tinha um largo sorriso no rosto.

— Hadassa.

— Escuta, pequena Hadassa, assim como você, eu também entrego meus problemas nas ondas do mar, aprendi a confiar que nada dura para sempre e que semear a paz é necessário. Nesse horizonte infinito, Iemanjá me acolheu e me deu um mundo mais bonito, eu abri meu coração e ela me estendeu a mão. Minha força vem do mar e me parece que a sua também, você ainda não sabe, mas também é filha dela, e como uma boa mãe e deusa da fertilidade, ela ouviu as suas preces e lhe presenteou em dose dupla. -Apontou para o abdômen dela.


Hadassa fechou o sorriso e encarou o homem com um olhar extremamente surpreso, sentiu seu coração disparar no peito, ela nunca o tinha visto na vida, queria muito lhe responder, mas não tinha palavras. O momento foi interrompido pelo barulho de uma multidão que tomava conta das ruas do Leblon, eles gritavam palavras de ordem e carregavam bandeiras do Brasil, Hadassa sentiu seu celular vibrar no bolso de seus shorts, Renata estava ligando.

— Oi. -Falou alto e tampou a outra orelha com o dedo.

— Onde você está? -Renata também falava alto.

—No mar. -Gritou.

—Vem embora, Hadassa, tem um protesto violento na rua. -Mesmo Renata quase gritando, Hadassa não entendeu o que ela falava.

Nesses segundos em que estava tentando falar com Renata, tirou os olhos do homem, quando voltou a procura-lo, ele já não estava mais lá. Hadassa desligou a chamada de imediato, olhou ao redor a sua procura, mas não o encontrou, algumas das pétalas que ele jogou ainda estavam a água, ela se abaixou e pegou algumas, estava tão confusa, será que estava delirando? Colocou as pétalas no bolso da roupa e caminhou em direção a orla, a cada segundo que passava ela olhava em direção ao mar, ainda o procurando.

Quando chegou na orla notou que a manifestação era de extrema direita, de imediato franziu a testa e revirou os olhos. Começou a andar o mais rápido que pôde, eles estavam enfurecidos, alguns homens soltavam fogos na janela dos prédios para chamar atenção dos moradores, alguns seguravam tochas de fogo. Se aproximando do prédio viu Renata correndo ao seu encontro, a mulher não falou nada para ela, apenas pegou em seu braço e saiu puxando o mais rápido que pode, mas algo despertou sua fúria como um vulcão em erupção, fazendo ela parar de súbito.

Um homem que estava parado próximo à entrada do prédio, tinha a mão direita estendida para a frente, numa saudação nazista.

— O que é isso? Você está maluco? - Hadassa parou na frente dele, apontando o dedo em direção ao seu rosto.

O Homem seguiu em silêncio, com a mão estendida para frente e ignorando Hadassa.

— Você faz ideia do quão errado e ridículo isso é? - Gritou.

— Hadassa, vamos embora. -Renata tentava puxa-la pelo braço.

Hadassa tirou a mão de Renata de seu braço, fechou o punho com toda força que tinha, seu coração parecia que tinha parado de bater naquele momento, tamanha era sua raiva, acertou um soco em cheio no nariz do homem, Renata deu um gritinho de susto.

— Ai meu Deus, Hadassa! -Renata grudou em seu braço com toda a força e saiu a arrastando.

O homem se apoiou na grade de ferro, parecia ter ficado um pouco tonto, mas logo se recuperou, tentou revidar e foi interrompido pelo porteiro do prédio, que veio correndo da portaria quando viu a confusão.

— Nojento. -Hadassa cuspiu em direção a ele.

— Vamos, Hadassa. -O medo na voz de Renata era nítido.

Hadassa parecia um pitbull indomável, tinha a respiração ofegante, seu rosto estava vermelho, seus olhos azuis faiscavam perigosamente. Sua vontade era de voltar lá e chuta-lo até cansar a perna, com muito custo Renata consegui colocá-la no elevador.

— Você ficou maluca? -Renata estava tão nervosa que tinha uma veia saltada na testa.

— Você viu o que ele fez? -Hadassa não percebia, mas estava quase berrando com Renata.

— Eu vi, Hadassa, mas você não sabe o quanto essa gente é perigosa, eles são violentos, se não fosse o porteiro ele poderia ter batido em você.

— Você não sabe o que significa essa saudação. -Falava de forma tão indignada que perdia o fôlego.

— Eu sei sim, Hadassa, eu estudei. Você foi inconsequente, esqueceu que está grávida? -Renata lhe fuzilou com o olhar, e mesmo irritada ao extremo, a mulher não alterou o tom de sua voz.

— Você estudou, Renata, mas você não viveu, não foi o seu bisavô que morreu num campo de concentração nazista, não foi a sua bisavó que morreu trabalhando como uma escrava, e até o hoje ninguém da família sabe onde estão os corpos. -Hadassa  quando terminou de falar estava com a respiração descompassada.

Renata lhe encarou em silêncio, não sabia o que responder e mesmo que soubesse, não iria fazer.

— Me admira muito uma pessoa que vai se casar comigo me pedir para que eu ignore uma coisa dessas, sabendo da onde eu vim. -As últimas palavras saíram quase em um sussurro, Hadassa deu as costas para Renata.

Assim que a porta do elevador se abriu, Hadassa foi a primeira a sair, deixando Renata para trás. Entrou no apartamento e bateu a porta com força, foi direto para o quarto, não demorou muito e a mulher veio atrás.

— Hadassa, por favor se acalma. -Renata pediu baixinho.

Hadassa sentia um misto de raiva, revolta e tristeza, que ruminavam em seu coração, não queria mais falar, muito menos ouvir e até mesmo pensar.

— Estou falando com você. - Renata usou um tom mais firme.

— Eu estou ouvindo.

— Então me responde, caramba. -Renata parecia chateada com situação.

— Renata, não é uma boa hora. -Suspirou fundo e se virou para encara-la.

— O que foi que eu te fiz? Eu só estava tentando te proteger.

— Eu só estou irritada e chateada, eu passei o dia todo trancada aqui sozinha, e quando fui tentar espairecer aconteceu isso...

— Está querendo me dizer que ficou brava por ter ficado em casa hoje? -Franziu a testa.

— Eu só queria passar mais tempo com você.

— Hadassa, você dorme comigo, acorda comigo, passava a manhã toda ao meu lado, e a tarde sabe muito bem onde me encontrar. Não tem fundamento essa sua reclamação, apesar de eu te amar muito, eu tenho uma vida, você me conheceu assim. Eu larguei tudo aqui para ir atrás de você do outro lado do mundo, as vezes te falta reconhecer que nem tudo aqui é sobre você, e nunca será. Mas calma, sua hora de entender está chegando, você vai ser mãe, em breve esse seu egocentrismo vai se dizimar, e eu vou te falar, agradeço muito, pois esse teu defeito acaba com tudo que há de bom na sua personalidade. -Enquanto falava, Renata encarava Hadassa profundamente, sua voz era firme e sutil.

Hadassa engoliu em seco, nunca viu a mulher falar daquela maneira e muito menos esperava ouvir aquilo, se já estava se sentindo frustrada, agora estava dez vezes pior. Assentiu que sim com a cabeça e se virou de costas, indo em direção ao banheiro, tomou um banho demorado como sempre, depois que toda a raiva se dissipou de dentro de si, uma imensa vontade de chorar tomou conta, mas ela segurou. Quando voltou para o quarto, Renata tinha os olhos fixos para o celular, parecia estar tentando falar com alguém, só esperou Hadassa se deitar, apagou o abajur e se virou para o lado oposto, ficando de costas para ela, a menina sabia que estava recebendo uma punição, afinal ambas só dormiam grudadas.

 

*** POV Lanza ***

Em Copacabana, Lanza andava de um lado para o outro no quarto, seu celular vibrava sem parar em cima da mesa de canto, Renata ligava sem parar desde o dia anterior, ela lutava uma guerra dentro de si, estava indecisa entre falar a verdade ou omiti-la. Naquele dia mal tinha conseguido se concentrar no trabalho, quase dois dias haviam se passado desde o ocorrido no apartamento de Andréia, e não houve um segundo sequer que ela não tenha lembrado da mulher. Suspirava fundo e fechava os olhos, repassando tudo que sua memória tinha gravado, e todas as vezes pedia para Deus lhe ajudar, pois na sua concepção aquilo errado demais, Laerte lhe esperava na sala para conversar, já não dava mais parar fugir dele.

Depois de pensar muito, foi até a sala, onde o marido assistia um debate da Globonews, sentou-se no sofá e esperou que ele tomasse a atitude, afinal era ele quem queria falar.

— Lanza, não precisava ter dormido fora de casa. -O marido lhe encarava, sentado no sofá da frente.

— Precisava sim, você estava me sufocando.

— Tem muitas coisas que me incomodam em você já faz um tempo.

— Eu espero que seja algo bem mais marcante do que o fato de eu não cozinhar. -Suspirou fundo, já com impaciência.

— Lanza, eu faço tudo por você e pelo nosso casamento, mas você parece não reconhecer o valor disso. -Alterou um pouco voz.

— Você está sempre falando que faz tudo por mim, mas na verdade você não faz, porque não consegue respeitar uma simples escolha minha.

— Quantas vezes minha mãe nos convidou para ir almoçar ou jantar com ela e você, por uma simples birra adolescente, nunca aceitou? Você acha que isso não me chateia? Sempre que a sua mãe nos convida eu vou, só para te agradar, e você nunca conseguiu fazer o mesmo esforço por mim.

Lanza sabia que nessa parte o marido tinha razão, mas estava de saco cheio e com a mente focada em uma pessoa que não estava naquela sala, e sim lá no estúdio da Globonews. Ela nem se importou em responder o questionamento do marido.

— Laerte, para de me sufocar, eu estou implorando, dê tempo para as coisas fluírem. Você me chamou para conversar, mas me parece que nada vai ser resolvido outra vez, porque esse assunto já é antigo. Respeita a minha opinião, respeita o meu espaço, o nosso casamento já está desgastado demais, por favor, vamos encerrar esses assuntos...

Enquanto Lanza falava, algo tirou sua concentração, o som de uma voz grave sendo emitida pela TV lhe fez parar de súbito, seu coração acelerou tanto quando viu Andréia que parecia que ia sair pela boca.

— Eu só quero dar certo com você, Lanza. -O marido se levantou do outro sofá e se sentou juntou a ela.

Lanza não prestou atenção na aproximação de Laerte, seguia focada na televisão, onde Andréia, como sempre, dava um show de inteligência. Passou os olhos pelos detalhes da mulher, sentiu sua garganta secar ao perceber que logo acima de sua clavícula algumas marcas roxas eram visíveis. Sentiu sua respiração acelerar, lembrou-se do motivo daquelas marcas estarem lá.

— Lanza? – Laerte chamou sua atenção.

— Tudo bem. -Se levantou, deixando o marido confuso lhe encarando, saiu da sala quase correndo e foi para o quarto.

Se jogou na cama e apertou a mão contra o peito, não estava acreditando no que estava acontecendo, ela precisava esquecer aquilo o mais rápido possível, o problema era que seu coração não estava obedecendo sua mente. Só naquela tarde ela olhou as notificações do celular muito mais de 15 vezes, esperando que Andréia lhe dissesse algo, nem que fosse sobre o carro. Seu corpo pedia por mais, queria sentir aquele calor de novo, aquela voz grave falando em seu ouvido, queria marcar com as unhas aquela pele. Aquilo não tinha cabimento algum, ao mesmo tempo que desejava, também se repreendia. Se revirou na cama de um lado para o outro durante algum tempo, tentado dormir, não queria tomar remédio, mas hoje sua mente não estava lhe dando opção. Abriu a gaveta da mesa de canto e pegou os comprimidos, quando foi colocá-los na boca, ouviu seu celular vibrar, quando desbloqueou a tela, suas mãos tremeram, sua boca ficou seca, Andréia havia lhe mandando uma mensagem.


Notas Finais


Hadassa estava com saudades de fazer vocês passarem raivah 🤡🤡🤡


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