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História Mais do que palavras - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Diga NÃO ao plágio! Acredite, saberei se você plagiar de mim, e pode apostar que vou atrás de você feito cão raivoso por isso! >:D Mas se quiser trocar algumas idéias, é só enviar uma mp, que responderei com prazer! ;)
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As imagens são meramente ilustrativas. Servem somente como mera representação física (realista) dos personagens. Nenhuma destas pessoas possui vínculo algum com o texto.
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A fic será SasuxSaku.
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A fic está sendo publicada no Anime Spirit, em meu perfil.
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Esta é a segunda fic que escrevo baseado (acho que ele ultrapassa o limite da inspiração, sim) em outro mangá: Yajirobee, de Yamakawa Aiji. No original, que ainda não foi concluído, mostra apenas um padastro tomando conta de sua "afilhada" que perdeu a mãe. Fora isso, e o fato de que a família dele era contra aquela união, todo o enredo, diálogos e trama da fic é original. Mas fiquei tão encantada com esse tema, que tive que escrever algo! *_* Mas, de qualquer forma, dedico à autora, por que ela merece mesmo. :)
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Esta fic foi postada no meu perfil do Nyahfanfiction.
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Divirtam-se.

Capítulo 1 - Parte um


Mais do que palavras

Escrito por Amanur

Parte 1

....

 

 

Eu costumava gostar daquelas músicas depressivas que falam de incompreensões, corações partidos, desentendimentos e solidão porque pareciam falar diretamente comigo. Eram quase como se tivessem sido escritas para mim. Ou por mim. E eu costumava, de fato, a fechar os olhos e fazer de conta que realmente tinham sido. Elas me entendiam tão bem! Eram como a trilha sonora da minha vida.

 

Mas depois daquele dia ensolarado, em que o gramado verde do cemitério contrastava tão bem com as flores coloridas sobre as outras sepulturas, me dei conta da minha mediocridade. Me dei conta da minha insignificância, da minha pequinês diante daquele mundo cruel que parecia zombar daquela adolescente que se sentia triste só por que tinha uma espinha na testa, ou porque não conseguia fazer amigos por ser tímida demais. E percebi que o mundo era grande demais, e eu era pequena demais para compreendê-lo.

 

A perda da minha mãe veio como um soco no meu estômago. Tudo aconteceu tão rápido. Foi um chamado de alerta para o mundo real que sempre esteve diante dos meus olhos, e eu não o enxergava.

 

E o mais triste disso tudo é que eu nem me lembro exatamente quando a minha mãe começou a mudar... Só me lembro que um dia cheguei em casa, depois da aula, e ela estava lá, cantarolando e dançando no meio da sala, rodopiando pelo chão como a bailarina que já sonhara ser, com um espanador de pó nas mãos. Se eu soubesse, se alguém tivesse me dito que aquele era o inicio do fim... Me pergunto se realmente teria feito algo diferente...

 

Depois disso, só me lembro de que ela era toda sorrisos. Fazia bolos de chocolate quase toda semana, e passou a se maquiar na frente do espelho com mais frequência. De repente, ela estava cheia de vida, cheia de cores, cheia de presença.

 

— Até parece que está apaixonada! — um dia, resmunguei, estranhando aquele comportamento.

 

Ela riu.

 

— Estou apaixonada, sim, querida, mas é pela vida! — me disse.

— Aconteceu alguma coisa? Alguma promoção, ou perdeu alguns quilos que não notei?

— Aconteceu que você já tem dezesseis anos, e que o tempo passou rápido demais para mim. Só isso.

 

Só isso, é?

 

A sua felicidade parecia irradiar infinitamente. Às vezes, eu a pegava cantando e dançando sozinha no quarto ou na cozinha, ou até mesmo enquanto estendia a roupa no varal.

 

Admito que aquilo me incomodou no início. Eu não entendia como ela podia ficar daquele jeito, como se todos os seus problemas tivessem desaparecido. Quero dizer, afinal, ela era maltratada no atual emprego por seu chefe que era um animal estúpido e arrogante. Sem falar no trabalhão que era ter que cuidar de uma adolescente sozinha, porque tinha engravidado de um babaca covarde que fugiu quando soube que seria pai. Fora todas as despesas que tinha que arcar sozinha, porque ninguém da família quis lhe apoiar.

 

Mas depois de um tempo, me acostumei, e até mesmo me deixava levar pelo seu alto astral, e cantava com ela algumas músicas por que tínhamos mais ou menos o mesmo gosto musical.

 

No entanto, um dia, o verdadeiro motivo para aquilo tudo apareceu, assim, de repente.

 

Foi numa sexta-feira. Eu voltava da aula de vôlei da escola e, ao chegar em casa, me deparei com um rapaz na cozinha preparando o almoço. Eu nunca tinha visto aquele cara na minha vida, mas lá estava ele, invadindo o nosso lar, mexendo uma panela com uma colher de pau como se fosse da família. E ele nem era tão mais velho do que eu.

 

— Quem é você? — indaguei.

 

A princípio, até achei que fosse algum parente distante porque, apesar de tudo, minha mãe sempre foi ligada à sua família. Quero dizer, ela nunca os esquecera. Vivia me dizendo o quanto tinha vontade de me apresentar ao restante dos seus parentes distantes, e lamentava sobre como não tinha tempo para uma viagem do tipo, porque estava sempre trabalhando. Mas, pensando bem, talvez isso tudo não passasse de desculpas esfarrapadas, porque a verdade é que ela não queria se constranger na frente de sua filha única, diante do bando de parentes que lhe deu as costas quando ela mais precisava.

 

Mas o rapaz não tinha nada a ver com a família.

Até então, isto é.

 

Ele não tinha me visto entrar em casa, e se assustou com a minha voz. Mas logo se recompôs, largou a colher, abaixou o fogo, e se aproximou para me cumprimentar depois de limpar as mãos no avental da minha mãe, que vestia no corpo.

 

— Você deve ser a Sakura, né? — num tom mais cordial do que eu gostaria que tivesse sido.

— Né. E você?

 

Foi aí que a minha mãe entrou em cena com seus cabelos molhados, enrolada numa toalha de banho. Estava à vontade demais para o meu gosto.

 

— Ah, Sakura, que bom que você chegou! Eu quero que você conheça o Sasuke... Bem, a partir de agora, ele nos visitará com mais frequência, seja boazinha com ele, ok?

 

Olhei para ela esperando por uma explicação mais sensata para aquilo, mas ela parecia também esperar uma reação minha. Só que eu eu não reagi. Pelo menos, não do jeito que ela queria.  Bom, com isso, quero dizer que eu tinha dezesseis anos, mas não era burra. Eu sabia fazer inferências muito bem. Afinal, não era todo dia que ela levava para casa alguém do sexo oposto, e ainda aparecia na frente dele só de toalha e cabelos molhados.

 

Então, apenas resmunguei um “hn” e dei as costas para eles. Tranquei-me no meu quarto, e fiquei olhando para o meu espelho como uma idiota, por que me sentia estranha com aquele caso.

 

Eu sabia que a minha mãe não era uma mulher velha, “de se jogar fora”, graças por ter me tido jovem demais, exatamente quando tinha a minha idade. Mas isso não tornava aquilo menos esquisito. Principalmente quando você não está acostumada a ver a sua mãe com homens, e ainda pensar que ela andava transando com caras que poderia ser o seu namorado — porque depois descobri que ele tinha apenas vinte anos.

 

Eu levei um bom tempo para me acostumar a vê-los juntos. Por que, como prometido, de fato, Sasuke passou a nos visitar com relevante frequência. Fazia almoço, janta, e até nos ajudava a limpar a casa. No início, ele dormia uma vez por semana com a minha mãe, mas quando me dei conta, ele já havia se mudado para cá com mala e cuia.

 

Ele era um cara legal, realmente. Ele também gostava das mesmas bandas que eu, e lia os mesmo livros que eu, e via os mesmos filmes que eu. Ele era professor de matemática de cursinho pré-vestibular, e até me ajudava a resolver algumas questões da escola. Mas eu não gostava quando ele ia me buscar na escola, quando a minha mãe deixava o carro na garagem e ia de taxi para o trabalho, por que minhas colegas ficavam dando em cima dele.

 

Na verdade, quando me dei conta, percebi que tinha medo de que minha mãe perdesse ele, e voltasse a ficar depressiva.

 

Ironias que a vida nos prega.

Pois quem saiu perdendo fomos nós.

 

Eu sempre me perguntava por que o Sasuke não parecia tão feliz quanto a minha mãe. Ela parecia mais feliz a cada dia que passava, enquanto ele era o oposto. Ele se esforçava para sorrir e parecer feliz com tudo, realmente, mas quando estava sozinho na sala, corrigindo testes e exercícios dos seus alunos, às vezes eu notava como ele se perdia da sua concentração, e seus olhos vagavam tristemente pelas paredes.

 

— Você não é feliz? — um dia perguntei, meio que de supetão mesmo.

— Eu sou. Sou tão feliz que essa felicidade chega a pesar. Mas é um peso tão grande, que às vezes não consigo suportar... — e forçou um sorriso seco.

 

Eu não entendi o que ele quis dizer naquele dia, mas dei o assunto por encerrado.  Mas agora, olhando para o rosto dele, vendo o quão vazio seus olhos estavam (como naquela sala estiveram) enquanto viam jogar a areia sobre o caixão da minha mãe, percebi o que ele quis dizer. Ele amava a minha mãe, mas saber o que acontecia com ela tornava a transparência de sua felicidade uma carga pesada. E eu só podia imaginar o que ele sentia por ter escondido aquela dor o tempo todo, sem poder desabafar com ninguém.

 

Cheguei a me frustrar também, por nunca terem me contado que ela estava tão doente assim. E cheguei a odiá-lo por não tê-la obrigado a seguir um tratamento. Um dia, quando ele chegou em casa, fui logo lhe atacando com acusações atrás de acusações e culpas. E, então, Sasuke me deu o primeiro tapa na cara. Digo, o primeiro de tantos outros que ainda viriam pela frente.

 

— VOCÊ ACHA MESMO QUE EU NÃO TENTEI CONVENCÊ-LA? VOCÊ CONHECE MESMO A SUA MÃE? VOCÊ NÃO FAZ IDEIA DO QUANTO NÓS BRIGAMOS POR ISSO, SAKURA. ENTÃO, NÃO ME VENHA DIZER ESSAS MERDAS!

 

Eu fiquei chocada. Sasuke nunca tinha perdido a paciência na minha frente. E, realmente, eu não fazia idéia de nada.

 

Mas quando o último grão de areia foi jogado, Sasuke pegou na minha mão e foi me arrastando até o carro, e voltamos para casa. Ele cuidou bem de mim, apesar de muitos altos e baixos. Os primeiros dias sem a minha mãe foram bem difíceis para nós. Principalmente depois que descobri que a família dele guardava rancores da minha mãe, por tê-lo deixado com sua filha para tomar conta, já que eu não tinha mais familiar algum a quem incumbir a tarefa de cuidar de uma adolescente. E como se não bastasse o peso, eu era uma adolescente problemática, dessas que vivia se metendo em encrencas.

 

Uma semana depois do enterro, a mãe dele apareceu em casa para conversar com ele. Sasuke não tinha visto que eu tinha chegado em casa mais cedo e que eu estava no meu quarto fazendo os deveres de casa, quando eles começaram a discutir.

 

— Você vai arruinar a sua vida por causa de uma menina que não tem nada a ver com você, Sasuke? Como pode ser tão cego? Você ainda é jovem, meu filho, não cometa esse grande erro em sua vida. Você não tem a obrigação de cuidar dessa menina!

— Exatamente, mãe, a vida é minha e eu faço dela o que eu quiser! Se a senhora não está disposta a me apoiar em minhas decisões, então lhe peço para que saia daqui e não apareça mais.

 

Houve alguns segundos de silêncio, e então, a ouvi se afastar até bater a porta.

 

Eu nunca pedi a ele para que ficasse, e, sinceramente, eu não entendia por que ele tinha ficado. Mas eu agradecia todas as noites por te ficado. Mesmo eu sendo a garota problemática que estava me tornando. Talvez, principalmente por isso.

 

Um dia, ouvi a pedagoga da escola dizer que eu estava externalizando minhas frustrações com as minha agressões. Que era a minha maneira de desabafar. Mas ela não sabia de nada. Ela não sabia quem eu era, não sabia o que eu queria, não sabia de nada. Ela não sabia sobre a vida que eu tive com a minha mãe, não sabia das dificuldades pelas quais duas mulheres sozinhas no mundo poderiam ter passado, por que ela sempre tivera tudo. E eu sabia também que não podia nem culpa-la por isso. A culpa não era de ninguém.

 

Outro dia, no intervalo da escola, ouvi umas meninas cochicharem umas coisas maldosas sobre a minha mãe.

 

— Ouvi dizer que ela estava pagando aquele rapaz para ter sexo. Mas ele teve a infelicidade de se apaixonar por aquela velha, e agora tem que aturar o fardo de cuidar daquela burra estupida da Sakura.

 

Ah, sim, porque minhas notas iam de mal a pior.

Mas a escola não era nada para mim. Eu continuava a frequentar aquela porcaria somente porque era obrigada. Por isso, não me importei de sair correndo atrás delas, e enchê-las de porradas como um menino. Quebrei o nariz de uma, e cortei o lábio da outra. Fora os inúmeros pontapés e arranhões que deixei marcado em cada uma delas.

 

E o prazer de ver a cara delas inchadas e ensanguentadas compensava um milhão de vezes o sermão que tive que ouvir da diretora da escola, junto com a pedagoga.

 

— O que você pretende alcançar com isso, Sakura? Você sabe que nada do que fizer irá mudar a sua situação? Se tiver algum problema, apenas venha falar conosco. Nós estamos aqui para te ajudar. Mas não podemos admitir que os alunos briguem dentro da escola! E blablablablablablablabla.  — não prestei atenção a mais nada do que me disseram.

 

O que não suportei, no entanto, foi ouvir o silêncio que o Sasuke fez, quando chegamos em casa — por que a pedagoga descola havia ligado para ele, pedindo para me buscar. Ele não disse nada. Em momento algum, aquele cara se manifestou. Nem mesmo quando passava um curativo na minha testa, nem a pomada no meu rosto para desinfetar os poucos ferimentos que elas haviam deixado em mim.

 

Mas eu tive que contar a ele, mesmo assim.

 

—Elas estavam zombando da minha mãe. — murmurei.

 

Ele continuou em seu silêncio, mas percebi que mudou de expressão. No fundo, acho que ele só não sabia muito bem o que me dizer. Se me apoiava, ou não. Se podia agir como um pai protetor ou não. E, sinceramente, nem eu sabia se queria ouvir alguma coisa dele, ou não.

 

Mas as coisas começaram a piorar com o tempo. Não só para o lado dele, quanto para o meu. Por que Sasuke começou a beber mais do que o considerado “socialmente”. Acho que, no fundo, eu ainda não o conhecia. No fundo, eu ainda não fazia idéia do que ele era capaz, nem idéia do que ele suportava.

 

Uma vez, ele chegou tão bêbado, que mal conseguia colocar a chave na fechadura da porta para entrar. Eu estava na sala assistindo televisão quando ouvi o barulho e o atendi.

 

— Essa merda de chave deve estar estragada! — ele resmungou, cambaleando para dentro de casa.

 

Ele ainda tropeçou no tapete grande e caiu de boca no chão, abrindo-lhe um belo corte no lábio inferior. E, então, Sasuke começou a chorar feito um bebê. Eu fiquei tão assustada com aquilo. Era o sangue escorrendo pelo pescoço manchando seus dentes, era o alcoolismo que exalava de sua pele pálida, era aquela sua expressão de desespero incontido, era o meu peito se fechando em agonia diante daquela cena. Era muita coisa para uma garota só.

 

E ele ainda se encolheu sobre o chão como um feto. Retrocedendo em sua forma. Abraçou suas pernas, e ficou encolhido, chorando até não conseguir mais, colocando para fora tudo o que havia aguentado até então.

 

Talvez por nunca ter tido uma figura masculina na minha vida, eu achava que homens não choravam. Não daquele jeito. E por isso, talvez, meu peito se encolheu como uma flor que murcha de repente, morrendo aos poucos, sem saber o que mais fazer para se salvar. Então, tudo o que me restou foi ficar ao seu lado, com lágrimas escorrendo pelo rosto, em silêncio.

 

Quando se acalmou, o ajudei a levantar e o carreguei até o banheiro porque, além do sangue, ele fedia a álcool e vômito. E aquela foi a primeira vez que o vi sem camisa, e ainda o vi de cuecas. Não vi mais do que isso, porque ele me expulsou do banheiro dizendo que não precisava mais de mim. Como se eu não servisse para mais nada.

 

E no dia seguinte, ninguém comentou sobre o ocorrido.

 

Outro dia, quando cheguei da aula de vôlei, o encontrei com metade do corpo caído para fora do sofá, com uma garrafa de vinho vazia na mão, e vômito sobre o seu corpo. Ele não tinha ido trabalhar, embora desse aula todos os dias para turmas diferentes.

 

Eu queria xingar ele, porque ia sobrar para eu limpar sua sujeira, mas não tive coragem. Além disso, ele já era adulto, e deveria saber o que estava fazendo. Acredito que o remorso, ou seja lá o que fosse que sentisse, já deveria ser o suficiente para maltratar o seu espirito inconsolado. Mas foi a partir daquele dia que comecei a chorar às escondidas no meu quarto, à noite, sentindo pena de mim mesma, sentindo falta da minha mãe, sentindo falta de algo que eu não conseguia distinguir. E essa coisa era o que mais me faltava. Era algo que eu não conseguia colocar em palavras, não conseguia descrever. Talvez, fosse algo que sequer existisse.

 

Então, as meninas da escola continuaram a me incomodar. Aquelas mesmas, que haviam apanhado de mim, desta vez, queriam uma revanche. Se juntaram com mais algumas outras grandalhonas na saída da escola e me cercaram num beco.

 

A idiota que havia falado aquelas coisas sobre a minha mãe ainda estava com o nariz enfaixado. A outra, não estava mais com os beiços inchados, mas ainda permanecia com dois pontos costurados.

 

— Meu nariz ainda dói. — ela me disse.

— É só tomar um anestésico. — respondi.

— Ou então, eu quebro o seu nariz para você sentir o que eu sinto. — disse, cheia de convicção.

 

Resolvi seguir sua lógica.

 

— É mesmo? Então, será que eu devo matar a sua mãe, para você sentir o que eu sinto? — eu sabia que estava exagerando, levando aquela briga para um outro nível, mas não pude evitar.

 

Não sei o que elas pensaram. A outra garota abaixou os olhos, mas eu não estava ali para receber pena de ninguém. Na verdade, eu estava lá para apanhar mesmo. Afinal, eu sabia que, desta vez, eu não escaparia. Três delas tiveram que me segurar, enquanto as duas me enchiam de socos e pontapés, e puxões de cabelo, e arranhões que encheram minha pele de vergões.

 

Cheguei a perder a consciência. Acordei naquele chão frio e úmido com a pedagoga da escola, que de certo estava passando por ali indo para casa, me chacoalhando. Mas afastei sua mão de mim com um tapa.

 

— O que aconteceu, Sakura? — ela quis saber.

— Não se preocupe, dona pedagoga. Estamos bem longe das mediações da escola. Não há nada com o que se preocupar. Nada que a senhora possa fazer mesmo. — me levantei, como pude, e fui embora ignorando seus chamados.

 

Quando cheguei em casa, Sasuke me olhou espantado. Eu só podia imaginar o estrago que elas haviam feito em mim. Mas de todos os socos, pontapés e o escambal, o que mais doeu foi aquele outro tapa na cara que ele me deu.

 

— Quando é que vai ser o suficiente para você, hein? Até quando pretende se comportar dessa forma?

 

Ele estava bêbado. Eu podia sentir seu hálito a quilômetros. Mas eu não disse nada, apenas desviei o olhar. Então, furioso, ele me deu outro tapa na cara.

 

— Olhe para mim enquanto estou falando com você! Até quando você pretende me dar trabalho? Até quando pretende me envergonhar na frente dos outros com essas suas atitudes infantis?

— Então eu tenho que me embebedar e vomitar pela casa para ser adulta? — respondi.

 

Outro tapa na cara. Mas não sei por que recebi aquele. Acho que foi por despeito, porque em seguida ele virou as costas e foi para o seu quarto sem dizer mais nada.

 

Mais tarde, depois de um banho, enquanto eu tentava fazer os curativos no meu próprio rosto (eu estava com os dois lábios cortados, a sobrancelha também, e escorrimento de sangue no nariz super inchado) ele apareceu.

 

— Vou te levar ao hospital, para verem se está com algum osso quebrado.

— Estou bem.

— Vai precisar de pontos na testa. — ele disse, se referindo ao corte na sobrancelha — E precisam dar uma olhada nesse nariz.

 

Realmente, meu nariz latejava.

Depois de alguns raios-x, o médico disse que o osso do nariz atravessou uma veia, e era o que causava o sangramento. Precisei fazer uma pequena intervenção cirúrgica para corrigir o problema, mas fiquei apenas três dias internada no hospital.

 

Sasuke não me deixou mais voltar para aquela escola. Ele disse que ele mesmo me daria aulas particulares em casa. Mas eu cheguei até a me questionar sobre isso. Será que era isso mesmo o que minha mãe iria querer para mim? De qualquer forma, não o contestei, apesar de tudo. Apesar de, inclusive, eu já não saber mais o que era bom ou ruim para mim. Porque ficar presa entre aquelas paredes também me sufocava. Na verdade, aquela casa sufocava a nós dois com as lembranças da minha mãe dançando pelos cômodos. Às vezes, eu tinha até a impressão de que ela continuava a caminhar por ali, durante as noites em que Sasuke saía para beber e me deixava sozinha. Talvez, ela estivesse cuidando de mim em sua ausência.

 

Então, no final do ano, acordei no meio da madrugada com um estrondo. Fui correndo até a cozinha com uma faca na mão (porque desde que ele começou com esse habito de sair para voltar tarde, eu dormia com uma faca embaixo do travesseiro, com medo de ficar sozinha. Mas eu nunca contei isso a ele).

 

Sasuke havia derrubado a mesa de jantar por ter se desequilibrado, e estava no chão aos prantos. Quando me aproximei (escondendo a faca atrás de mim) ele me olhou com aqueles olhos escuros cheio de dor. Mas, aos poucos, foi parando de chorar, se acalmando.

 

Agachei-me diante dele, e ele pegou em minha mão. E sorriu de uma forma que nunca tinha visto, cheio de alivio.

 

— Você é tão linda. Tão linda, Mebuki.

 

Fiquei horrorizada.

 

— Eu não sou minha mãe. — murmurei. Mas ele não me ouviu, porque me puxou com força para aquele abraço que se estendeu — Senti tanto a sua falta! — ainda disse.

 

Mas eu não podia suportar que ele me confundisse com a minha falecida mãe.

Então, eu lhe dei um tapa na cara. Ele me olhou atordoado, mas logo caiu na real e me afastou. Todo sem jeito, se levantou, e foi se arrastando até seu quarto.

 

Eu não consegui dormir aquela noite.

 

Ou em várias outras noites. Certa madrugada, quando eu estava começando a cair no sono, acordei com um berro seu. Assustada, fui correndo até o seu quarto; ele raramente se trancava lá dentro. E encontrei um Sasuke suado, ofegante, se movendo inquieto sobre o colchão. Mas ele ainda estava adormecido.

 

— Mebu... Mebuki. — murmurava — Eu sinto muito...

 

Era muito angustiante vê-lo daquele jeito, e me sentei ao seu lado rezando para que minha mãe deixasse-o em paz em seu sonho. Mas ele continuava a resmungar coisas, com aquela expressão contraída em dor. Seu peito arfava muito. Me perguntei sobre o quê, exatamente, ele estava sonhando. Me perguntei que culpa era aquela que ele sentia e carregava sozinho? Me perguntei também sobre o quê ele tinha visto na minha mãe; o que o fez se apaixonar por alguém tão mais velha do que ele. E quando me dei conta, eu já havia me deitado ao seu lado e o acomodado sobre um braço meu, o abraçando. Sentindo seu perfume, seu calor. Por que, apesar de tudo, de todos os nossos desentendimentos, nós dois sofríamos do mesmo mal. E eu sabia que ele era o único que poderia me compreender, assim como eu era a única que poderia entendê-lo.

 

Quando acordei, ele não estava mais em casa. E também não se pronunciou sobre o que tinha acontecido, quando voltou, como em muitas outras ocasiões.

 

E assim o tempo foi passando. Eu já estava com dezessete anos, quase dezoito, quando levei um cara para casa. Era um rapaz que havia conhecido pela internet e nos falávamos há mais de dois anos, e finalmente tínhamos decidido nos encontrar ao vivo. Depois de uma volta no shopping, resolvi levá-lo para casa. Eu sabia que não teria ninguém em casa porque o Sasuke estava dando aula.

 

Foi estranho para mim também, porque Sasuke nunca tinha levado outra mulher para baixo daquele teto, e eu sequer sabia se ele estava saindo com outro, apesar de desconfiar fortemente de que não. Ele era um cara bonito, apesar de tudo, e podia facilmente arrumar outra mulher para ele. Mas acho que havia alguma espécie de pacto silencioso, feito com aquela casa, ou talvez com a minha mãe, de que ele jamais iria se relacionar com outra.

Então, sim, eu me senti muito estranha por estar levando outra pessoa para dentro daquela casa.

 

Mas eu era jovem. Um tanto inconsequente. Eu só queria me distrair, me sentir normal outra vez, como uma adolescente. E esse meu “amigo” também era bonito. Alto, loiro, de olhos azuis. Era um ano mais velho do que eu.

 

Era para ter sido apenas um inocente encontro entre amigos, mas acabamos nos rendendo aos beijos. E quando percebi, ele já estava com a mão embaixo da minha blusa. Deitamo-nos no meu colchão, tirei sua camisa e ele a minha. Depois, eu tirei sua calça com as mãos meio trêmulas, apesar de estar relativamente calma, pois eu ainda era uma virgem. Então, de repente, ele estava só de cuecas e eu de calcinha e sutiã, me sentando em seu colo. Ele beijava meu pescoço e tentava tirar meu sutiã quando Sasuke apareceu na minha porta, de repente.

 

Foi tudo muito rápido. Ele me empurrou para o lado, me fazendo cair no chão, e agarrou meu amigo pelo pescoço, o jogando do outro lado do quarto contra a parede. Em seguida, saiu dando chutes e socos nele com toda sua fúria e falta de autocontrole.

 

— QUE MERDA VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO COM ESSA CRIANÇA, HEIN, SEU FILHO DA PUTA? VOCÊ QUER SER PRESO? OU PREFERE CONTINUAR APANHANDO DE MIM? — ele estava completamente fora de si, deferindo socos para todos os lados.

 

Meu amigo choramingava sem conseguir dizer muita coisa, mas conseguindo se defender. E eu fiquei simplesmente ali, parada, observando aquela cena sem dizer nada.

 

Depois, Sasuke deixou o cara apanhar suas coisas, e o chutou para fora de casa. Em seguida, voltou ao meu quarto, furioso. Agarrou-me pelos braços e me arrastou até o banheiro, e ainda me jogou embaixo do chuveiro de água gelada.

 

Só então resolvi protestar, me debatendo contra ele.

 

— ME SOLTA, SEU LOUCO! O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO COMIGO? ME LARGA!

 

Sem dizer nada, ele pegou o sabonete, e foi esfregando-o no meu corpo com bastante força, deixando a minha pele avermelhada.

 

— Para tirar qualquer merda que aquele imbecil deixou na sua pele! — resmungou entre os dentes. Ele estava me machucando — E que nunca mais deixe canalhas como aquele tocar em você, está me ouvindo?

— Me solta!

— ESTÁ ME OUVINDO? — de repente, ele agarrou meu rosto com suas mãos, me fazendo encará-lo.

— Por quê? Você quer que seja você a me tocar primeiro?

 

Ele me soltou, e me deu outro tapa na cara. E fiquei ali, recebendo aquela água gelada cair sobre a minha cabeça, esfriando o calor da sua palmada no meu rosto. Sem dizer nada, ele jogou o sabonete no chão e saiu do banheiro. Eu não percebi, ou talvez não queria admitir que eu estivesse na verdade apaixonada pelo Sasuke. Em respeito a minha mãe, provavelmente. Ou com medo do que ele pudesse fazer. Mas a verdade é que eu comecei a sonhar e desejar ele com a mesma intensidade em que o odiava nos dias em que chegava em casa bêbado. E, no entanto, eu ainda desconfiava também de que me sentisse daquela forma só porque não tinha mais contato com nenhuma outra pessoa do sexo oposto.

 


Notas Finais


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