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História Mais do que palavras - Capítulo 3


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Notas do Autor


Ahh, desculpem a demora..achei que já tivesse postado essa ultima parte, na verdade, mas só agora vi que não tinha ainda T_T enfim, boa leitura!

Capítulo 3 - Parte Três


Mais do que palavras

Escrito por Amanur

Parte 3

....

 

A verdade é que ainda estávamos aprendendo a viver. E, principalmente, estávamos aprendendo a conviver um com o outro. Por que nenhum de nós tínhamos imaginado que um dia ainda encontraríamos tais pedras em nosso caminho. Nem que ainda teríamos de desviar de muitas outras para chegar até onde queríamos.

 

Eu estava pensando justamente nisso num certo final de tarde. Sabe aquelas tardes monótonas, em que não há nada para fazer? Está um dia ótimo na rua, mas assim mesmo você não sente ânimo para sair, e você acaba se pegando pensando na sua vida? Bem, eu estava assim quando resolvi levar o lixo para fora de casa, cansada de ficar encarando as paredes da casa. E assim, de repente, o encontro na calçada com uma lata de cerveja nas mãos e fumando um cigarro (coisa que nunca tinha o visto fazer).

 

— O que está fazendo aí? — resmunguei.

 

Ele suspirou em resposta. Tranquilamente, bebeu mais um gole da cerveja e tragou o cigarro.

 

— Finalmente fui demitido. — resmungou.

 

Finalmente? Bom, não era de se espantar que isso fosse mesmo acontecer, depois de tudo. Mas a questão é que estávamos ferrados. Quero dizer, eu ainda recebia uma pensão salarial da minha mãe, que a empresa em que ela trabalhava pagava. Mas não era o suficiente.

 

Então, por algum motivo, me sentei ao lado dele na calçada. Talvez ele apenas quisesse ficar sozinho... Mas acontece que eu estava cansada daquele gelo que dava nele, embora o meu orgulho ainda exigisse ouvir de sua boca algum pedido de desculpas pelo que havia feito. Mas eu sabia também que ele já se martirizava com tudo. Ele mesmo se castigava por tudo. Provavelmente, a coisa fosse até pior do que eu imaginava. E eu via tudo o que estava acontecendo com ele pelo modo com que me olhava, pelo modo com que arrastava seus pés pela casa, ou até mesmo pelo modo como suspirava. Sempre cansado, sem energia, sem vida. Sempre morto.

 

Mas talvez, também, ele apenas estivesse esperando uma brecha minha para poder dizer algo. Talvez uma chance fosse tudo o que ele precisasse. Então, ainda tomei sua cerveja de sua mão, e bebi um gole como um simbólico gesto de trégua. Confesso que me sentia adulta por poder me igualar a ele, pelo menos nesse sentido (com relação à bebida), embora, ao mesmo tempo, eu sabia que ele me criticaria. Era um modo de fingir que o compreendia um pouco mais. Mas ele nem me olhou. Seus olhos estavam fixos num ponto do asfalto da rua, mas parecia que olhava para além do horizonte. E aí, de repente, me disse:

 

— Me perdoe por ter sido péssimo com você... Quero dizer, por todas as merdas que fiz e que disse durante todo esse tempo.

— Hum. — lá estava o pedido. Meio acanhando, mas ainda valia para o meu coração. Era o suficiente.

— Eu sei bem que você, na verdade, não vai me perdoar, mas preciso pedir perdão mesmo assim... Nada do que eu disse, nada do que eu fiz, era para ter acontecido, e me sinto péssimo por tudo isso. De tal maneira que você nem faz idéia.

— Eu sou obrigada a olhar essa sua cara de bunda todos os dias, então, eu faço alguma idéia, sim...

 

Ele riu sem humor.

 

— Você entendeu tudo errado. — ainda murmurou, tomando mais um trago do seu cigarro.

— Então me explique.

 

Ele suspirou pesadamente, como se precisasse de coragem para o que estava prestes a me dizer. E confesso que isso me deixou ainda mais apreensiva.

 

— Eu nunca amei a sua mãe.

 

Olhei para ele, de repente, muito surpresa. Incrédula, boquiaberta. Achei que tivesse ouvido mal, porque eu realmente jamais poderia ter esperado aquilo vindo dele.

 

— Como disse?

— Eu nunca amei sua mãe. — deu de ombros — Quando eu a conheci, me encantei por seu jeito delicado, seu jeito dócil... Eu tinha acabado de levar um pé na bunda de uma namorada, quando ela apareceu me oferecendo seu conforto. Acho que eu estava num momento de fragilidade emociona. Então, a aceitei. Eu gostava dela, sim, mas depois que conheci você, Sakura, eu só conseguia pensar em você. Fiquei com a sua mãe, porque eu sabia que ela estava muito doente. Desde o início, ela tinha me alertado que estava com os dias contados. E somente por isso eu me mantive com ela. Para confortá-la, e ficar mais próximo de você ao mesmo tempo. Mas quando ela se foi, eu não consegui mais olhar para você do mesmo jeito, sentindo todo o remorso pelos meus atos. Eu fui um monstro, mesquinho e egoísta! Quero dizer, fiquei com ela apenas para satisfazer as minhas vontades, sem muito me importar com a sua mãe. E tudo isso enquanto sua mãe estava sendo muito boa para mim. Ela não merecia isso! Mas depois que ela se foi, toda vez que eu olhava para você, eu via os meus erros, eu via tudo o que eu havia feito! E acho que não consegui conviver muito bem comigo mesmo por tudo isso. Então, tentei agir mais como um padrasto. Achei que, se conseguisse me relacionar com outra pessoa, quem sabe, eu pudesse me redimir com sua mãe e com você. Por que, pensar em você, estava me deixando doente. Eu tinha que dar um jeito de tirá-la da minha cabeça.

— Mas eu sabotei seus planos... — conclui, me perguntando se ele, afinal de contas, tinha ficado grato ou não pela minha infantilidade.

 

Mas ele me olhou nos olhos com toda seriedade.

 

 — Sua mãe nunca teve a ver com a minha decisão de ficar e tomar conta de você. Você sempre foi a razão, o motivo para me manter aqui. Mas eu fui estúpido demais por não conseguir controlar minhas emoções, e acabei magoando você. Acabei, até mesmo, machucando você. E eu me odeio por isso, Sakura. Eu juro que daria tudo para poder voltar no tempo e fazer as coisas direito, como tinham que ter sido! — ele fez uma pausa para se recompor, porque estava perdendo o fôlego por falar rápido demais — Por isso, se você quiser que eu vá embora, eu vou embora. E não volto mais.

 

E sem mais, sem nem me dar a chance a uma resposta, ele se levantou e entrou na casa. Talvez, ainda não fosse o momento certo para ele ouvir algumas verdades. Talvez fosse seu modo de me pedir um tempo para se preparar para qualquer coisa que eu tivesse a lhe dizer.

 

Então, fiquei por mais um tempo ali, sentada na calçada, deixando a noite me banhar com todas aquelas informações girando na minha cabeça. Eu não sabia nem o que pensar.  Se sentia raiva, se sentia alegria, se sentia pena... Eu só sabia que também não podia tomar uma decisão precipitada. E por isso decidi que deixaria um tempo passar, para que minha cabeça esfriasse e eu pudesse pensar com calma sobre aquilo. Sobre as coisas.

 

Só que, toda vez que cruzávamos pela casa, ambos desviavam o olhar, constrangidos demais para se encarar de frente; constrangidos demais para ouvir nossa própria voz ressoar pela casa com palavras incertas.

 

Cheguei a temer que ele jamais pudesse me olhar novamente. Temi até mesmo que eu não pudesse olhar para ele, sem pensar naquelas frias e duras palavras. Mas, ao mesmo tempo em que pensava nisso tudo, eu imaginava o quanto não tinha sido doloroso para ele ter que conviver comigo, naquela casa, com todos aqueles pensamentos dentro de todas aquelas circunstâncias. Embora que, as coisas também não tinham sido fáceis para uma adolescente perturbada suportar. E só por que ambos eram vítimas das circunstâncias.

 

Daí que mais um tempo se arrastou, e já estávamos no segundo “aniversário da morte” (expressão muito cretina, porque ao mesmo tempo em que se usa aniversários para celebrar o nascimento ou mais um ano de vida, também celebramos mais um passo a frente em direção à morte) da minha mãe. Sasuke já tinha conseguido uma vaga numa faculdade particular como professor de matemática. E eu também havia conseguido uma vaga numa loja de calçados. Para ajudá-lo com as despesas, eu havia desistido do clube de vôlei, e trabalhava em turnos alternados (às vezes, pela manhã, às vezes pela tarde), de modo que passamos a nos ver com menos frequência. Às vezes, quando ele chegava, eu já estava dormindo, porque ele também dava aulas à noite.

 

Assim, num sábado, depois do expediente, fui até o cemitério para levar flores para minha mãe. O céu já estava pintado naquela mistura de tons de roxo e laranja enquanto o vento frio começava a soprar mais forte. Era um belo final de tarde para visitar um parente que já partiu. O cemitério parecia com um desses cenários de filme.

 

E Sasuke estava lá, ajoelhado sob o túmulo, de cabeça baixa e com um buquê de flores na mão, como uma pintura de um quadro romântico. O vento bagunçava o seu cabelo, mas ele estava tão concentrado! Parecia estar orando, ou conversando com a minha mãe, e isso me deixou um tanto surpresa porque não conseguia imaginá-lo como alguém de crenças. De qualquer forma, não quis atrapalhá-lo. Ele provavelmente tinha mais questões a resolver com ela do que eu tinha. Embora eu também devesse a ela desculpas por sentir o que sentia pelo seu namorado, por ter sido a filha ingrata que um dia chegou a invejá-la.

 

Ele ficou um tempão lá, se agarrando com todas as forças aquela esperança de um dia poder se redimir. Mas eu nunca ousei contar a ele que o tinha visto, porque senti que aquele era um momento íntimo demais para ser revelado. Era algo a se manter selado numa caixa de segredos.

 

Sasuke não mais bebia, mas ele se afogava com o trabalho. Acho que ele pensava que quanto mais tarefas tivesse para ocupar sua mente com outras coisas, melhor seria para ele. Mas eu conseguia ver que o efeito era oposto. Por que quanto mais atividades acumulavam em sua mente, mais ele se fechava para o mundo. Mais o mundo o consumia. E mais ele se afastava de mim. E menos eu gostava dele...

                                                                             

Um dia desses, saí com um cara da loja em que trabalhava, sem que ele soubesse, me aproveitando desses desencontros de horários que tínhamos. O cara era gerente da loja, na verdade, mas não era  muito mais velho do que eu, apesar do seu cargo. Naquele dia, eu estava meio deprimida, chateada com o descaso do Sasuke. Descaso para consigo mesmo, sempre sem motivação para nada. E eu não sabia o que fazer para ajudá-lo. Esse cara percebeu que eu estava com problemas, e me convidou para sair. Ele me ofereceu seus ouvidos, seus ombros, seu sorriso. Ofereceu tudo o que eu esperava do Sasuke. Acho que para quem está fragilizado com algo, qualquer conforto que surge é muito bem vindo para lembrá-lo de que ainda está vivo. Ou, pelo menos, era essa a desculpa que eu dava a mim mesma por aquilo. Além disso, eu não sabia quanto tempo eu ainda teria que esperar pelo Sasuke. Sua melancolia parecia não ir embora nunca... Então, me deixei levar por ele. E com isso quero dizer que cometi a estupidez de entregar minha virgindade a um cara que logo me esqueceria por outra. Mas acho que isso era a vida. Sempre nos dando um tapa na cara, para nos acordar e, assim, para que possamos dar a volta por cima.

 

E Sasuke nunca suspeitou.

Ou pelo menos, eu achava que não.

Por que achei que ele tivesse parado de beber. Só que, mais uma vez, ele me surpreendeu numa noite. Depois de muito tempo sem ter voltado para casa tão tarde, ele apareceu às quatro da madrugada. Como na maioria das vezes eu ia dormir antes dele chegar mesmo, não achei que teria mais algum problema com isso. Por que tinha dias em que ele precisava ficar até às onze horas da noite na faculdade, e chegava em casa perto da meia noite. Mas nunca tinha passado muito disso. No entanto, teve essa vez em que acordei com uma batida forte. E então vi que já tinha passado das quatro horas da madrugada. Corri para o quarto dele, mas ao ver que sua cama sequer tinha sido tocada, logo assimilei o que tinha acontecido.

 

Os papéis pareciam estar trocando. De repente, eu virei a adulta, e ele voltou a ser o adolescente.

 

Sasuke tinha batido o carro na frente da nossa casa. O estrago não foi grande, mas o suficiente para chamar atenção dos vizinhos que chegaram a perguntar sobre aquilo no dia seguinte.

 

Ele estava sonolento ao volante, me fazendo perguntar como tinha chegado em casa naquele estado. Mas o cheiro de álcool era insuportável. O ajudei a sair do carro, e o carreguei até sua cama. Ele estava meio consciente, meio inconsciente. Começou a resmungar um monte de coisas sem sentido. Então, lhe dei um tapa na cara para despertá-lo. Mas aquele tapa doeu tanto em mim que acho que chegou a abrir uma ferida na minha alma, porque, mesmo dias depois, eu ainda sentia sua pele na palma da minha mão...

 

— Ou você para de beber agora, ou você vai embora. Não quero um alcoólatra na minha casa! — lhe disse, tentando parecer o mais firme possível que a minha voz trêmula permitia.

 

E ele soltou uma risada meio sarcástica. Só não sei se a risada foi em deboche pela situação, por termos trocado de lugar, ou se era alguma outra coisa que eu não estava enxergando.

 

— É horrível ter que cuidar de alguém, não é?

— Por que diz isso? Era isso o que você achava de mim, quando eu me metia em problemas? Era isso o que você pensava da minha mãe? Nós fomos um fardo para você, é isso mesmo, Sasuke?

 

Ele continuou com aquele sorriso, mas de repente, ele tinha ficado menos sarcástico e mais triste. E não respondeu.

 

Eu não quis pensar no que aquilo poderia significar, com medo de fazer julgamentos precipitados. No fundo, eu sabia que não era isso. E eu também não queria ter que abandoná-lo, mas ao mesmo tempo eu também sabia que se continuássemos com aquilo, se continuássemos a alimentar aquela bola de neve cheia de problemas, nós dois acabaríamos nos afundando em nossos próprios dilemas.

 

No fim das contas, eu também  imaginava que, no fundo, ele também soubesse disso. E pr isso mesmo, eu precisava manter aquele ultimato de pé.

 

— Ou você dá um jeito em si mesmo, ou pegue suas coisas e suma, Sasuke. Por que eu não gosto mais de você, não gosto nem um pouco desse jeito que você está agora.

 

Desta vez, ele parou de beber. Definitivamente parou, mas canalizou todos os seus problemas no cigarro. Começou a fumar feito um louco. Num final de semana, enquanto eu assistia televisão e ele corrigia alguns trabalhos na mesa da cozinha, consegui contar cinco cigarros passando pela sua boca naquele curto período de tempo que foram aquelas duas horas.

 

— A indústria do tabagismo deveria patrociná-lo, por tê-lo como cliente. — comentei, sarcasticamente.

 

E ele apenas ergueu as sobrancelhas como quem diz “e daí?”, e voltou a se concentrar naquela pilha de papéis.

 

Às vezes eu achava que ele tentava me dizer algo, mas não conseguia. Então, ele apenas me observava lavar a louça, ou me encarava quando eu limpava a sala. Talvez houvesse algo que estivesse além das palavras a ser dito. Algo indizível. Algo que fosse intraduzível pela nossa língua. Algo que pudesse ser apenas compreendido pelas trocas de olhares.

 

Como, por exemplo, aquela vez em que eu havia saído do banho. Eu estava vestida, enrolando o cabelo na toalha, quando o encontrei no corredor. Eu estava indo para o meu quarto, e ele para a sala ou cozinha. Demos alguns passos de valsa, para lá e para cá, indecisos, meio constrangidos. E então, paramos um de frente para o outro. Ele me olhou como se quisesse dizer algo, mas quando fui abrir a boca para perguntar, ele abaixou os olhos e passou por mim. Parecia que a cada dia que se passava, mais difícil ficava para ele falar comigo.

 

Numa outra noite, no entanto, ele me surpreendeu. Era uma sexta-feira. Eu estava exausta,  tinha acabado de chegar do trabalho, mas ainda me prestei a arrumar algumas coisas que eu tinha bagunçado no meu armário. Eu estava dobrando algumas roupas quando ele apareceu, de repente, sentando na minha cama.

 

— O que foi?

 

Dava para perceber que ele tinha conseguido juntar um tanto de coragem para estar ali, mas acho que assim que o encarei ela evaporou, porque, de repente, ele estava sem palavras. Ele tentava articular alguma coisa com aqueles seus lábios ressecados, mas não conseguia escolher a palavra certa. Ou talvez as palavras não quisessem sair.

 

Suspirei.

Passei a mão sobre o meu rosto, e me sentei sobre o colchão, ao seu lado. E olhei para ele, com toda seriedade.

 

— Eu não te perdôo, Sasuke. — seus ombros caíram imediatamente.

— Eu sei. — murmurou.

 

Mas eu ainda tinha mais o que lhe dizer, e prossegui.

 

— Não só por ter enganado a minha mãe, em seu leito de morte, como por ter escondido tudo aquilo de mim, por todo esse tempo. Você não confiou em mim. Também não o perdôo por ter me feito me sentir uma idiota, achando que estava amando o namorado da minha mãe, por nada. Por ter me deixado sozinha quando eu mais precisava, apesar de você ter estado ao meu lado o tempo todo! Quero dizer, você estava ao meu lado, mas ao mesmo tempo era como se não estivesse! Como pode isso? Você tem noção do quanto eu precisei do seu abraço, do seu consolo, do seu calor, das suas palavras?

— Você não estava sozinha na solidão, Sakura. Por que eu também sonhava com você. Sonhava em abraçá-la, em tocá-la, em confortá-la. Mas estava tão concentrado nos erros que cometi com sua mãe, que não conseguia olhar direito para você, pensando no quanto ela me odiaria se soubesse o que fiz...

— Acho que você não a conhecia tão bem assim quanto pensa. Ela jamais o odiaria. — fiz uma pausa, pensando nas próximas palavras, mas então me dei conta de que não havia necessidade para mais nada. A verdade sempre esteve na nossa frente, e só ele não percebia — Você só está sendo uma vítima de si mesmo, com todo esse sofrimento. — finalizei.

 

Ele estava cego e mudo.

 

— Eu te amo. É tudo o que tenho a dizer. — mal consegui ouvi-lo, tão rouca e sussurrada sua voz veio.

— Eu não quero ouvir isso. Eu quero sentir isso...

 

Será que era pedir muito por isso? Confesso que eu estava esperando que ele cedesse, e me desse um beijo, porque aquele parecia ser o momento perfeito para isso. Mas acho que nunca irei compreender o que se passa em sua cabeça mesmo. Por que tudo o que Sasuke fez foi menear a cabeça, em concordância, e pronto. Levantou-se e saiu do meu quarto me deixando sozinha.

 

No entanto, pouco a pouco, vi um novo homem renascer. Ou melhor, vi o velho Sasuke que conheci voltar. Pouco a pouco, ele foi recuperando sua vitalidade, sua energia, sua vida.

 

No final do ano, ele estava fazendo algumas contas sobre a mesa da cozinha. Estava concentrado, olhando o extrato da sua conta bancária, e calculava junto com as contas que ainda tínhamos a pagar. Eu estava terminando de lavar a louça da janta quando, de repente, bateu na mesa, animado.

 

— É isso aí, este ano vamos viajar de férias! Consegui juntar algum dinheiro para, pelo menos, podermos passar uma semana fora.

— Preciso ver com a minha empresa se podem me liberar por uma semana.

— Você trabalha mais do que deveria. Se não a liberarem por uma semana, você deveria se demitir.

 

Era bem verdade que a empresa, de uns tempos para cá, estava me explorando com alguns horários extras e ainda não muito bem remunerados. Mas eu não queria desistir de um emprego sem ter outro em vista. Além disso, Sasuke queria que eu voltasse aos estudos e ainda tentasse uma faculdade. Só que eu não sabia o que queria fazer com a minha vida.

 

— E para onde iríamos? — perguntei.

— Não muito longe. Algum hotel fazenda, ou alguma praia...

 

Resolvemos ir para um hotel fazenda, há alguns vários quilometros. Fomos depois dos feriados de Natal e Ano novo. O lugar era ótimo, cheio de árvores espalhadas pelos campos verdes, cavalos, vacas, ovelhas e cachorros. Tinha uma piscina enorme, uma pequena lagoa natural, e cabanas de madeira. No centro da fazenda, ficava um restaurante enorme, com um variado buffê.

 

Andamos a cavalo, ordenhamos vacas, brincamos com os cachorros. Nadamos na piscina, caminhamos pelos campos. Foi um ótimo lugar para relaxar e esquecer o passado. Era um ótimo lugar para recomeçarmos.

 

Na última noite de nossa estadia no hotel, ele apareceu com uma bicicleta emprestada. Tínhamos acabado de jantar, e eu terminava de fazer as malas.

 

— Que tal uma volta de bicicleta pela trilha, no morro? — me perguntou.

— A essa hora?

— Alguma objeção?

 

Suspirei.

Fui na garupa da bicicleta, abraçada a ele.

Eu não sabia muita coisa sobre a infância dele, mas pelo seu porte físico era fácil concluir que ele tivesse praticado algum esporte durante um bom tempo. Mas apesar disso, agora, ele penava muito pedalando morro acima.

 

— Tem certeza de que aguenta?

— Fique quieta, e me observe!

 

Bom, conseguimos, sim, chegar ao topo no morro.

À pé.

Lá, nos jogamos na grama, encarando as estrelas, ouvindo o vento e nossa respiração ofegante. O céu estava claro e mostrava sua imensidão acima de nós. Tivemos sorte por não ter chovido nenhuma vez durante nossa estadia ali.

 

— Eu queria aprender a ver as constelações... — de repente, comentei.

— Eu consigo identificar apenas a Ursa Maior.

— Onde está?

— Ela é assim: tem três pontos na cauda, e a cabeça é um losango deformado. — ele desenhou na palma da mão, e depois apontou para o céu.

 

Eu custei a identificá-lo, mas consegui vê-lo. Extasiada com a minha descoberta, ainda soltei um “ahhh” de felicidade, como se tivesse encontrado um tesouro naquele céu. Mas mais do que um tesouro, descobri que a vida não era feita apenas de grandes lições e castigos. Que, no fim, as coisas também poderiam da certo, para os que tentam. Por que, naquela noite, enquanto eu admirava os brilhos das estrelas, pude também admirar o brilho do olhar dele, enquanto me beija pela primeira vez.

 

E quanto nossos lábios selavam aquele tratado de paz, fechei meus olhos e pedi desculpas, silenciosamente, à minha mãe por estar tomando a felicidade que ela queria para si. Pois debaixo daquela constelação, onde as palavras se faziam desnecessárias, Sasuke me tocou com aqueles velhos gestos  suaves e gentis que conheci, quando tratava dos meus ferimentos. Me tocava daquela mesma forma, como se estivesse tratando dos ferimentos que havia deixado em mim. Entre toques suaves, cuidadosos, como alguém que se importava  e zelava com o que tinha em mãos. E, assim, nunca mais me abandonou.

 

FIM


Notas Finais


Algum comentário? Eu confesso que realmente tinha planejado um hentai entre eles, mas ao chegar a essa conclusão, eu achei o hentai desnecessário. Acho que a historia acabou ficando mais suave, leve... e o hentai poderia acabar estragando o toque deste conto.. T_T mas peço desculpas aos que estavam contando com um hentai. De qualquer forma, espero que tenham gostado. :) Agradeço aos que leram até aqui, e aos que comentaram também. T_T


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