História Mais que um sonho - Capítulo 9


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Categorias X-Men Evolution
Personagens Anna Marie (Vampira), Rémy LeBeau (Gambit)
Tags Gambit, Romy, Vampira, X-men
Visualizações 41
Palavras 5.150
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 9 - Tentando não olhar para trás


xXxXx

Vampira chegou à cozinha, apressada. Perdera a hora. Desligara o despertador com um tapa, esperando que Kitty fosse acordá-la como tantas outras vezes, mas a garota levantou mais cedo naquela manhã.  

Ela fez uma careta ao perceber que estava quase meia hora atrasada. Vestiu a primeira roupa que encontrou no armário – jeans e uma blusinha de cor clara de manga curta com leve decote em V –, revirando a gaveta rapidamente, encontrou um par de luvas longas que passavam dos cotovelos, assim apenas um pequeno pedaço do seu braço ficaria exposto, e, por fim, jogou em volta do pescoço uma echarpe de cor escura como a das luvas. 

Correu para o banheiro e não levou mais que cinco minutos para o básico. Também não teria tempo para toda a maquiagem habitual, então se contentou em contornar rapidamente os olhos de preto com um bastão grosso. Apanhou a mochila e saiu, terminando de calçar os tênis no corredor aos pulos. 

Decidiu dar uma passada rápida na cozinha para apanhar algo para ir comendo no caminho quando sentiu o estômago roncar ruidosamente. Parou de um ímpeto ao dar pela presença de Wolverine, sentado sozinho à mesa. Ele lia o jornal e havia uma xícara grande ao alcance de sua mão direita. 

“Está atrasada, guria” ele disse, assim que a viu chegar; ou neste caso, sentiu o seu cheiro, pois nem ergueu os olhos até ela. 

“Bom dia, Logan” ela respondeu com um pouco de ironia. Quase conseguiu esconder, mas, bem ao fundo de sua voz, ainda era possível notar resquícios de mágoa. A verdade era que Vampira ainda não se sentia totalmente preparada para encarar Wolverine. Ela não estava fugindo dele ou de uma conversa, que tinha certeza que ia acontecer; mas também não ansiava por um momento a sós com ele, ainda mais de surpresa.

Há semanas ela percebera como Wolverine a vinha tratando com frieza. Nem conseguia se lembrar da última vez que eles ficaram sozinhos ou que conversaram para valer. Sabia que era parcialmente culpada pela distância que agora existia entre eles, porém nunca quis que algo assim acontecesse. 

Tudo que Vampira pedira era um tempo sozinha, para poder colocar a cabeça no lugar. Todas as psiques que dividiam espaço dentro de sua cabeça já eram companhias suficientes; infelizmente, não do tipo agradável ou bem-vinda, mas que, ainda assim, a mantinham bastante ocupada. 

Vampira realmente achou que a solidão a ajudaria. Isolava-se por fora e aos poucos ia se fechando e se perdendo dentro de si mesma. Foi afastando todos a sua volta. Sem que se desse conta abandonou todas as suas atividades, os treinamentos, as sessões com Xavier, restando apenas o colégio. Passava praticamente o dia todo sozinha.

Depois da sua perda de controle, meses atrás, ela sentia que todos se afastaram dela, ainda mais do que antes. Então parou de treinar com a equipe. Simples assim. Apenas Kurt e Kitty eram teimosos o bastante para insistir em permanecer do lado dela. E Vampira tentou de tudo para mantê-los longe. Xavier e Tempestade vinham conversar com ela às vezes, mas no fundo Vampira sentia que eles faziam isso por obrigação, por pura compaixão, por terem percebido que os outros tinham medo dela e de que ela tinha consciência disso. Apenas Wolverine não lhe fazia companhia por obrigação.

Ainda assim, Vampira escolheu ficar sozinha. Wolverine entendeu o recado. Passou a respeitar sua vontade por isolamento. No começo, Vampira agradeceu por isso, achava que ele era o único que entendia. Agora, quase se arrependia. Parecia haver um abismo crescente os separando. Ela sentia que ele a abandonara e era difícil contar a ele como se sentia.

Agora, mais uma vez, com o silêncio cortante os separando, Vampira fazia de tudo para não olhá-lo nos olhos. Apanhou uma maçã e a abocanhou. E não havia mais motivos para permanecer ali.

Wolverine dobrou o jornal e o deitou sobre a mesa. Seus olhos tão duros quanto ela se lembrava. Abriu a boca para dizer algo quando Gambit chegou à cozinha. Seus olhos seguiram o cajun lentamente como se espreitassem uma presa. 

Percebendo que os olhos de Wolverine flamejaram repentinamente, Vampira olhou por cima dos ombros na direção do olhar de Logan, e então se voltou para a frente rapidamente. Ela tentou disfarçar, mas não conseguiu esconder o sorriso de puro contentamento. Corou levemente.

Bonjour” ele disse para os dois presentes. Apenas Vampira respondeu timidamente. 

“Bem...” ela disse, quase hesitante. Lembrou que estava atrasada. “Eu vou indo. Estou atrasada para o colégio” olhou para Logan, que a observava, mas não dizia nada; apenas a expressão de desagrado permanecia.

“Se você quiser eu te dou uma carona” ofereceu Gambit, em um tom completamente neutro. Olhou pela cozinha, mas não sentia fome, pelo menos não por nada que estivesse ali. “Eu estava indo naquela direção mesmo.”

Vampira sorriu. “Eu aceito.”

“Eu só preciso subir antes. Vai levar um minuto” Gambit acrescentou ao retirar-se. 

Vampira permaneceu ali por mais alguns instantes desconfortáveis. Nunca houve um silêncio tão terrível quanto aquele. Ela pendeu a cabeça para baixo como se tivesse perdido a coragem. 

“Até mais, Logan” disse apenas depois de já ter lhe dando as costas. Acelerou o passo e se retirou com medo que Logan não lhe respondesse. 

***

Vampira chegou à garagem, olhou ao redor, mesmo achando que Gambit ainda não estaria lá. Permaneceu imóvel por alguns instantes, com a cabeça longe. Seu coração quase saiu pela boa quando Remy chegou por trás e a agarrou pela cintura, tirando vantagem da sua evidente distração. 

Mesmo com o susto e efêmera paralisia, ela gargalhou. 

“Você tem cócegas” ele murmurejou ao ouvido dela. 

O hálito quente dele na sua nuca lhe causou um arrepio, que ela tentou ignorar em vão. “Não tenho, não” ela teimou, assim que conseguiu recuperar o fôlego. 

Cedo demais, ele a soltou e seguiu em direção da sua moto. Vampira notou que agora Gambit vestia seu casaco longo; por baixo dele, roupas casuais: camiseta, jeans e tênis. 

“Acho que você estava atrasada. Vamos?” ele disse se sentando na moto e colocando o capacete. 

Vampira se sentou na garupa, mais afastada dele do que deveria. Suas mãos penderam por alguns instantes; não sabia onde colocá-las. “Você estava mesmo indo para lá?”

“Agora estou” ele disse, de bom humor. Colocou o motor para funcionar e acelerou. “Segura firme.”

Ela vestiu o capacete e hesitou por tempo o suficiente para ele perceber. Então deitou vagamente as mãos dos lados dele, na altura da cintura. 

Gambit riu.  “Eu disse firme, Vampira” disse ao mesmo tempo em que segurava os pulsos dela e a fazia envolver os braços firmemente em torno do seu tronco.

***

Eles chegaram ao Colégio Bayville apenas a tempo de ouvir o último sinal soar.

Vampira desceu da garupa da moto e retirou o capacete.“Valeu pela carona” disse, com um sorriso estranho, desajeitado. Olhou para trás, para o colégio. Quando se voltou para Gambit, respirou fundo, desanimada. Devolveu-lhe o capacete.  Hesitou por mais um instante até finalmente se virar, dando alguns passos lentos em direção à entrada do colégio. Girou nos calcanhares quase que desesperadamente ao ouvir Gambit chamá-la.

“Vamos dar o fora daqui.”

Ela sorriu e pulou na garupa. 

***

Vampira se jogou de costas na grama do parque deserto onde eles haviam parado. Apoiou a cabeça nos braços cruzados e sorriu de leve. Gambit deitou ao seu lado, em posição semelhante.

“Parece que o clima está do nosso lado, chère” ele comentou, olhando para o céu límpido. Gostava do sol, do calor.

Vampira apenas abanou a cabeça lentamente em resposta. Um sorrisinho inocente sobre os lábios naturalmente rosados enquanto a mão direita erguida se movimentava lentamente, como se contornando os desenhos que seus olhos encontravam nas nuvens. Estes acompanhavam os movimentos dos seus dedos, hipnotizados. 

Ela virou o rosto na direção de Gambit e o sorriso dobrou de tamanho, tal qual o dele.

“Gostei do seu visual de hoje” ele disse num murmúrio como se a voz estivesse afetada pelo sono. 

Os contornos escuros nos olhos dela não os ofuscavam; desta vez, apenas realçavam a cor deles, que a claridade da manhã só servia para tornar ainda mais lindos. Com seus rostos próximos, Remy pôde notar algumas poucas sardas sobre seu nariz e bochechas; tornavam-na mais feminina e frágil.  

Vampira sorriu abertamente, apenas assim, sem motivos. Apenas por estar feliz de estar ali. Gambit fez o mesmo. Estava aprendendo a amar aquele sorriso cada vez mais enquanto os lábios que ela umedecia e mordiscava por hábito estavam se tornando cada vez mais irresistíveis. 

Gambit sabia até onde podia ir, o que não significava que conseguia – ou queria – controlar o crescente desejo por ela.A cada minuto juntos, a atração ficava mais forte, mais perigosa e arrebatadora. Isso o assustava como nunca antes.Não era apenas carnal como com todas as outras; era algo totalmente novo, que não se assemelhava nem mesmo ao que sentia por Bella Donna, que tinha sido a única mulher por quem sentira algo novo e forte e imprevisível. Mas o que estava sentindo por Vampira não chegava nem perto do que sentia por Bella. E cada vez ele se importava menos em pensar em Bella Donna conjugado no passado; cada vez menos ela tomava seus pensamentos, como se as semanas que os separaram tivessem se tornado anos. 

Gambit estava começando a desistir de compreender o que estava sentindo quando achou ter descoberto o motivo: foi a maneira como eles foram colocados juntos. Devia ser isso. Tinha de ser isso. As circunstâncias daquela noite criaram um vínculo tão inesperado quanto forte e inquebrável. 

Gambit sentia que pela primeira vez em toda a sua vida estava no lugar certo e poderia fazer algo de bom para compensar tantos erros passados.Era esse sentimento que o mantinha ali, que ia crescendo e se tornando... se tornando o quê?

Ele jurara a si mesmo que não ia sair do lado de Vampira até que a fizesse sorrir. E após tão poucos dias, ele conseguira e já não parecia o suficiente, precisava ir além. 

Se tudo isso não bastasse, ainda havia o medo de magoá-la, de decepcioná-la. De onde vinha esse medo? Ele não queria partir o coração dela, simplesmente não seria capaz.

Vampira percebeu que os olhos de Gambit estavam longe dali. Ele a fitava, mas era como se seus olhos passassem através dos seus. O sorriso dela foi murchando até quase desaparecer. Confusa, retornou os olhos para o céu azul. Logo, eles se fecharam. Ela simplesmente não queria sofrer tentando decifrar o que Gambit pensava. Apenas a presença dele já era o suficiente para deixá-la mais em paz.

O ritmo da respiração dela foi diminuindo. Sentia os poucos sons que ouvia ficarem cada vez mais distantes, como se estivesse adormecendo. 

Como que acordando lentamente de um sonho (ou entrando em um), Vampira sentiu o calor de outro corpo. Abriu os olhos para encontrar Gambit inclinado sobre ela. Ele não a estava tocando, se sustentava sobre ela em um dos braços, mas seu rosto estava perto o suficiente para deixá-la inquieta. Gambit aproximou o rosto um pouco mais. Tão perto que alguns fios de cabelos seus caíram sobre os olhos dela. 

“Remy...” ela sussurrou fracamente. Por um momento, achou que ele fosse beijá-la e o medo que a dominou não foi aquele de machucá-lo, mas do seu querer aquele beijo. 

A mão livre dele se aproximou do rosto dela e Vampira fechou os olhos apertados, petrificada. Ouviu Gambit rir nervosamente, como nunca achou que ouviria.

“Tinha... tinha uma folha seca no seu cabelo” ele disse, mostrando a prova. Afastou-se um pouco, sentando-se de baixo da sombra de uma árvore. Olhou para um lado qualquer, fugindo dos olhos dela, se culpando por quase ter... 

“Ainda não consegue relaxar comigo, hein?” ele disse, olhando para ela com os olhos inacreditavelmente neutros. 

Vampira também se sentou, aproximando-se um pouco, o suficiente para também ficar debaixo da mesma sombra. “Não é muito agradável saber que você está sempre a centímetros de colocar alguém em coma” ela se forçou a dizer, olhando para um ponto qualquer. Mas não para ele.

“Isso já aconteceu antes?” Gambit perguntou. Novamente sua voz não mostrava afetação nenhuma, apenas genuíno interesse.

Vampira meneou a cabeça afirmativamente. Fungou. Gambit viu que os olhos dela brilharam. Ela se lembrou da primeira vez que seus poderes se manifestaram. Do desespero de não saber quem era, nem para onde ir. Toda vez que tocava alguém era a mesma sensação esmagadora. Toda vez se sentia perdida, roubando uma vida que não lhe pertencia.

Eles evitaram os olhos um do outro por um longo tempo. Tentaram conversar sobre o tempo, sobre o colégio, mas não durou mais que alguns minutos.   

Gambit achou que era hora de mudar de assunto. “Há quanto tempo está em Bayville, Vampira?” 

Ela deu de ombros. Olhou para ele por um instante apenas. “Há quase dois anos” respondeu, sem se sentir à vontade o suficiente para revelar que era X-Man há menos tempo. 

Gostaria de poder esquecer aquelas primeiras semanas que passara com a Irmandade. Sempre sentira que estava no lugar errado, como uma intrusa. O mesmo aconteceu no Instituto, principalmente nos primeiros dias. Ela não achava que essa sensação desapareceria por completo, mas ainda assim ia ficando menor com o passar do tempo. Vampira desconfiava que Gambit se sentia da mesma forma, mesmo ele nunca tendo deixado isso claro.

“Pretende voltar um dia?” ele insistiu. “Às raízes?”

“Talvez” ela respondeu vagamente. Não fazia planos em longo prazo. “E você?” perguntou, finalmente se voltando para ele. 

“Eu não consigo me imaginar muito tempo em um único lugar que não seja ma belle Nouvelle-Orléans.”

Vampira sorriu. “Se eu pudesse escolher apenas um lugar no mundo inteiro para passar o resto da minha vida, seria lá” notou que Remy também tinha um leve sorriso sobre os lábios. “Eu costumava ir à Nova Orleans todo ano quando criança. Na época do Mardi Gras, é claro. Era o lugar que me fazia sentir melhor” pendeu a cabeça de leve, mas ainda sorrindo. “Há anos não volto lá.”

“Eu te levo lá um dia”Gambit afirmou com convicção. Vampira voltou o rosto para ele. “Vou te mostrar os melhores lugares... aqueles que poucos conhecem” acrescentou com um sorriso ao ver que os olhos dela brilharam. 

“Quando?” ela indagou, timidamente. 

“Um dia” ele respondeu, afastando os olhos novamente. Ele daria tudo para saber, daria tudo para poder voltar. “Um dia não tão distante.”

“Por que está aqui se Nova Orleans é tão importante para você?” ela perguntou repentinamente. Já não se importava se ele não fosse responder, ao menos tentou perguntar.

“É uma longa história.”

“Não tenho pressa” ela respondeu, fingindo não notar a tristeza que de repente tomou a voz e os olhos dele.

“Não, Vampira” ele disse, voltando o rosto na direção d ela. Não havia raiva ou impaciência na sua voz, nada além de pesar. “Agora não é hora.”

“Tudo bem” ela disse ao fugir dos olhos dele. Tentou dizer da maneira mais natural possível, mas ainda assim doeu. “É que... eu queria saber um pouco mais de você. Você é sempre tão vago... nunca fala de si mesmo... da sua família.”

“É tudo muito complicado” disse, então fez uma pausa. “Sabe quando você acha que estando longe vai conseguir deixar certas coisas para trás?”

Ela meneou a cabeça em completa compreensão. “Não dá certo.”

Non” ele tentou se aproximar dela, forçando-a a lhe olhar nos olhos. “Eu quero que você entenda que eu não posso te contar por que vim aqui”ainda não. Não era exatamente a verdade, mas ele tentava se convencer disso. “Mas nunca esqueça por que eu fiquei.”  

Desesperadamente, ela sentiu os olhos marejarem e então sorriu com feliz inconformismo. “Eu sei, Remy.”

Gambit cerrou as sobrancelhas de leve. Havia tanta confiança, tanta certeza na voz dela, que por um instante ele paralisou. Ele era o cara que ninguém confiava com facilidade, que inspirava suspeita, receio. E por algum motivo que ele desconhecia, ela confiava nele. Confiava completamente, ele soube disso naquele momento.

***

O sol começando a se pôr era o momento do dia que Tempestade mais apreciava. Da sala de estar da mansão, ela observava essa beleza da natureza através da janela sempre que tinha a oportunidade. Gostava dali porque, além de ser silencioso, havia uma janela grande o suficiente para ver o que se passava lá fora mesmo sentada no sofá, como agora estava. 

Ororo encheu uma xícara de chá e se recostou confortavelmente no sofá cor de creme. Cruzou as longas pernas cobertas com uma saia de cores vivas, que quase chegava às suas sandálias de tiras. 

Wolverine havia se juntado a ela há pouco mais de dez minutos, logo após retornar de um treinamento ao ar livre. Estava parado em frente da janela, com os braços cruzados e expressão de descontentamento sobre o rosto barbado. Mordia uma das extremidades de um palito de dente – sabia que não podia fumar dentro da mansão, então improvisava. Estava mais carrancudo que o normal, Ororo percebeu. 

Acrescentando mais um cubo de açúcar ao chá, ela olhou pela janela para onde Logan olhava com tanta atenção. A vários metros dali, Vampira e Gambit vinham caminhando em direção à porta da frente da mansão. Mesmo ao longe, notava-se que eles estavam rindo, trocando provocações. 

Wolverine soltou um grunhido. Não estava gostando nem um pouco da aproximação dos dois. Não parecia fazer sentido algum eles terem ficado próximos em tão pouco tempo. Simplesmente não fazia sentido. A não ser que houvesse algo mais. Logan farejava esse algo mais. Ainda não sabia o que era, mas percebia os olhares trocados durante o jantar.

“Como foi Gambit no primeiro treinamento?” perguntou Ororo, tentando trazer Wolverine de volta à realidade.

Logan rosnou antes de responder. “Aquele filho da mãe conseguiu explodir a metade do nosso equipamento.”

Ororo riu. Não esperaria nada diferente. “Está com mais raiva por isso ou por que ele foi o primeiro a chegar ao objetivo e a cumprir a tarefa?”

“Ele trapaceou.”

“Como você sabe?”

“Eu sei” respondeu o canadense, com impaciência. Ele não sabia como havia acontecido, mas poderia jurar que Gambit trapaceara. Talvez fosse isso que o frustrava mais. Não saber como. Mas ele não perguntaria. 

Após um breve silêncio, Tempestade voltou a falar. “Você já conversou com a Vampira?”

Logan lançou um olhar negativo. “Ainda não” sabia que prometera essa conversa há vários dias, mas não achava ter tido a oportunidade certa. Para ele não era tão simples assim. Não era uma simples conversa. Havia muito mais em jogo.  

“Está esperando o quê?” Ororo perguntou com tom neutro, mas Wolverine poderia jurar que sentiu fragmentos de acusação. Deixou o assunto de lado. Tempestade não fazia indiretas daquela maneira. Talvez tenha sido apenas sua imaginação, a culpa falando mais alto.

“Eu não sei se ela precisa mais” ele respondeu após uma longa pausa. Seus olhos não mudaram o alvo. Vampira estava metros mais perto da entrada, e dali ele podia ver como ela ria, de uma maneira que Wolverine nunca presenciara. Ele sentiu o sangue ferver; as feições de seu rosto se tornaram mais duras.

Estava claro para quem quisesse ver que Vampira estava melhor. Contudo, Logan queria ter sido a pessoa a ajudá-la; mas no fundo sabia que seu papel na história se resumia a ignorar a garota. 

Foi o que ela pediu, droga!, ele pensou. Ele só fizera o que ela lhe pedira! De repente surge um garoto de boa lábia e Vampira cai aos seus pés como qualquer outra garota faria. Vampira não era ingênua como as outras, por isso Logan não se conformava com aquele relacionamento, fosse ele qual fosse. E, lá no fundo, havia ciúme paternal, mesmo Logan se recusando a admitir o fato.

“Está enganado” Ororo disse. “Ela ainda precisa da sua ajuda” completou depois do olhar interrogativo que Logan lhe lançou. Sua cabeça estava em outro lugar. “O seu apoio é importante para a Vampira. Sempre foi.”

Ororo viu pela janela que os dois jovens se aproximavam e os olhos de Logan flamejarem com algo que nem ele mesmo compreendia.

“Está com ciúmes” ela disse. Não foi uma pergunta.

“Eu não gosto dele, ‘Ro” respondeu Logan. Os dois jovens saíram do seu campo de visão e ele finalmente se voltou para Ororo. “Você viu que horas eles chegaram ontem?”

“Eles são jovens, Logan...”

“Kitty me contou que Vampira não foi à aula ontem.”

Ororo sorriu. “Você obrigou a Kitty a falar.”

Logan lhe olhou confuso, quase assustado. “Não fiz isso.”

“Fez. Mesmo sem perceber” colocando a xícara agora vazia sobre a mesa, Ororo se levantou, aproximou-se de Wolverine. “Ele faz bem a ela. Vampira está mais alegre, mais disposta.”

“É esse o problema, ‘Ro. Por quanto tempo mais?”

O rosto de Tempestade se anuviou levemente. “É isso que preocupa você?”

“O que vai acontecer quando ele magoá-la?”perguntou com a voz presa, olhando novamente pela janela. Agora apenas para o jardim vazio que ia lentamente escurecendo. “Quem vai consertar o coração partido dela quando ele for embora?”

“Fala como se estivesse certo de que isso vai acontecer.”

“Eu sei que vai. Esse garoto é encrenca, ‘Ro”

Tempestade por pouco não o contestou, sabendo que não serviria de nada. Não concordava com Logan. Ela não apenas simpatizava com Gambit, genuinamente gostava dele. Eles já haviam se encontrado há poucos anos quando Gambit não tinha mais que quinze anos e já se mostrava um rapaz de muito caráter. Ela pôde ver que ele se tornaria um homem valoroso, dissera isso ao seu pai à época.

“Dê uma chance a ele, Logan” foi com o que ela se contentou em dizer.

“Não posso.”

“Pela Vampira” ela disse, enfática, mas ainda assim com cadência. “Aliás... essa é a sua chance” ela disse ao ouvir a voz e as gargalhadas da garota se aproximando.

Os dois seguiram para a porta no mesmo instante em que Gambit e Vampira entraram.

Stripes?”

Vampira se voltou surpresa. “Logan?” 

“Nós precisamos conversar” ele disse até então ignorando a presença de Gambit por completo. Então, se voltou para o rapaz com um olhar incisivo. “A sós.”

Gambit estufou o peito, fez que ia responder quando Tempestade colocou a mão sobre seu ombro. 

“Também gostaria de falar com você, Remy.”

Ele retribuiu o sorriso de Tempestade e se retirou com ela. 

Vampira sentiu ficar tensa, seus músculos se contraíram. Não sabia o que esperar e isso sempre a amedrontava quando dizia respeito a Logan.   

Wolverine assistiu por cima dos ombros a Gambit e Tempestade se afastarem para então se voltar para Vampira. “Você vai voltar a treinar”ele disse sem rodeios. Não era do tipo que floreava as palavras.  

Vampira abriu a boca para protestar, mas se conteve. Baixou a cabeça, fugindo dos olhos dele, mesmo sempre se sentindo uma covarde ao fazer isso. “Eu ainda não estou... não sinto que estou preparada para voltar a treinar com a equipe.”

“Como não? Achei que havia voltado às sessões de Xavier.”

A impaciência na voz de Wolverine, ao invés de descoroçoá-la, foi o que ela precisava para erguer a cabeça e peitá-lo a altura. “Foram apenas duas sessões, Logan. Não fizemos muito progresso... ainda.”

“Treinamos apenas nós dois por enquanto.”

Ela não disse palavra, mas pareceu concordar. 

“Amanhã, às três. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Ouviu, guria?”

Ela meneou a cabeça afirmativamente. “Claro, Logan. Às três.”

***

Tempestade guiou Gambit por um corredor que levava até a parte oeste da mansão sob sua estufa. 

“Você e Vampira estão se tornando bons amigos” ela disse, em tom de quem puxa conversa. 

“Acho que sim.”

Gambit não queria entrar no assunto, ela percebeu, tampouco estava em seu melhor estado. Eles já haviam conversado algumas vezes, boas conversas. Em uma das manhãs, Gambit até mesmo se ofereceu para ajudá-la a regar as plantas que ela cuidava com tanto esmero. 

Gambit tinha a cabeça atípica de alguém da sua idade. Ele era divertido a maior parte do tempo, mas se notava que, acima disso, era maduro mesmo negando e dizendo que ele e Ororo apenas teriam a mesma cabeça se ela tivesse treze anos. Mas a verdade era que mesmo com seus quase dez anos de diferença de idade, eles estavam se dando muito bem. Havia um entendimento silencioso entre os dois, uma cumplicidade que surgiu quando eles inesperadamente se encontraram em Nova Orleans anos antes.

Mas, hoje, ele não parecia estar no clima para conversar. Tempestade quase desistiu de tocar no assunto que queria, contudo resolveu falar, achando que o animaria. Se ela soubesse que teria o efeito oposto não o teria feito. 

“Eu falei com o seu pai esta manhã.”

Gambit não esboçou reação alguma, o máximo que Ororo conseguiu notar foi que seus olhos caíram ao chão por um momento, mas logo se recuperaram. 

“Ele queria saber se estou andando na linha?” ele perguntou, amargamente. Não sabia como se sentir e não gostava disso. “Se ainda não dei o fora daqui?”

“Ele queria saber se estava tudo bem com você” ela respondeu sem hesitar. “Como está se adaptando.”

“E você disse o quê?”

“Que está tudo ótimo. Que você está treinando com a equipe... que fez amizades.”

Gambit deu um sorrisinho irônico, mas fê-lo desaparecer quase que imediatamente, pois não queria magoar Ororo com sarcasmo. Ela era a única pessoa – exceto por Vampira, é claro – que ele sabia que se importava e realmente gostava de sua presença. Algumas das outras garotas – Kitty em especial – também pareciam gostar de estar com ele, mas apenas com Ororo ele tinha conversas substanciais, que nunca pareciam intrincadas e desnecessariamente polidas demais. 

“Ele não quis falar comigo?” ele perguntou sem conseguir conter a ironia na voz a tempo.

Ororo hesitou por tempo demais. “Não” murmurou, por fim.

Gambit riu como alguém que sabia que iria se decepcionar. “Não me surpreende. Obrigado por me avisar” ele disse secamente; virou-se no intento de se retirar, mas Tempestade o chamou antes. 

“Ele disse que sente sua falta.”

Gambit tentou sorrir, mas o riso de decepção se repetiu. Ele sentiu os olhos marejarem. Deu as costas para Ororo antes que ela percebesse.“Não disse, não” e se retirou.

***

Vampira o observou de soslaio. Ele nem sequer notou; havia algo o incomodando, ela sabia. Remy nunca ficava tão quieto assim. E se não bastasse, a noite estava estranha. De cima do telhado onde eles estavam fazia mais frio que o normal. Não se via quase nada, como se estivesse tudo completamente nublado. 

Sempre que se sentavam próximos assim, Vampira sentia como se algo a puxasse para mais perto dele. Sem que nem mesmo percebesse, toda vez ela acabava mais perto dele do que havia começado. Esta noite era o oposto; algo a empurrava para mais longe.

Ela tentou falar várias vezes, acovardando-se no último minuto em todas as tentativas. Quis se levantar e se afastar, fugir sem olhar para trás, mas nem isso conseguiu. No fim, tomou coragem para fazer uma única tentativa de se aproximar. Se não desse certo, mais tarde, ela não poderia se culpar por não ter tentado.

Mesmo sendo difícil, ela tentou usar seu tom mais casual. “Que bicho te mordeu?”

Gambit se virou distraído. Fitou-a com as sobrancelhas levemente juntas como se não tivesse percebido a presença dela antes. “O quê? O que você disse, chère?”

“Nada” ela respondeu ao virar o rosto rapidamente. Vacilou antes de continuar: “É que você esteve tão calado pelas últimas horas... não comeu nada no jantar. Aconteceu alguma coisa?”

Non.” 

Permeou-se o silêncio após a resposta curta e seca dele até o momento em que Vampira não conseguiu mais suportar. Fez que ia se levantar.“Eu vou entrar” disse secamente, amarguradamente mesmo sem ter sido a intenção. “Está ficando tarde.”

Inesperadamente, como se fosse a última coisa que ela esperava dele, Gambit a segurou fortemente pela mão. “Non” ele disse com os olhos brilhando. Lágrimas? “Reste encore... juste un peu.”

Qualquer aspereza na voz dele esvanecera. Vampira permaneceu imóvel, fitando os olhos dele sem saber como agir, sem saber o que via. Fugiu dos olhos dele mais uma vez. Não sabia o que havia, mas não suportaria olhar para ele naquele estado. “Está frio aqui.”

“Então vamos entrar.”

Ela o observou com o canto dos olhos, insegura, dividida entre o que queria e o que deveria fazer. Então abanou a cabeça de leve afirmativamente.

Quando chegaram à porta do quarto dela (no fundo, a vontade de fugir ainda permanecia), Gambit segurou sua mão já na maçaneta.

“Vamos para o meu quarto” ele murmurou com uma proximidade que incomodava.

“Não sei se é uma boa ideia, Remy.” 

“Você não quer?”

“Não é isso...” ela disse quase irritada, mais com ela mesma que qualquer outra coisa. “É melhor não.”

“Eu tomo cuidado” ele disse. Quando ela se virou, Gambit literalmente a encurralou contra a parede, deitando as mãos espalmadas contra a superfície fria, na altura do rosto dela, a impedindo de escapar. “Eu só quero ficar com você mais um pouco. Eu preciso.”

A intensidade nas palavras dele a desarmou, machucou. “Está bem” ela sussurrou, sem fôlego devido à aproximação. Sabia que estaria condenada se cedesse toda vez, mas não se importava. 

Gambit se afastou, deixando-a voltar a respirar, mas durante o percurso até o seu quarto, manteve uma certa aproximação, deliberadamente invadindo o espaço dela.

Ele acendeu apenas a luz do abajur. Vampira hesitou antes de se sentar na cama, completamente sem jeito. Ele se sentou ao seu lado, mexeu em alguns fios de cabelo dela, evitando lhe tocar o rosto, mesmo querendo. 

“Qual o problema, fofo?”

Gambit curvou os lábios. Apenas a ouvira falar assim como provocação e não com doçura. Ao mesmo tempo em que aliviou o peso no seu coração, o aumentou.  

“Nada pra se preocupar, Vampira. Eu vou ficar bem... eu sempre fico” ele disse antes de inesperadamente arremessar o corpo na direção dessa e abraçá-la forte. “Eu só quero poder ficar assim.”

Vampira se sobressaltou com o movimento brusco; seus músculos enrijeceram imediatamente e sua garganta secou. Ela sentiu que suava frio enquanto sua respiração se descompassou. Seus olhos arderam quando ela percebeu que nunca havia sido abraçada daquela forma. A veemência do gesto juntamente com o calor aconchegante emanando do corpo dele, inesperadamente, tiveram um efeito calmante sobre ela. Repentinamente, Vampira parou de temer machucá-lo e sentiu os músculos relaxarem. Ele se moveu de leve para uma posição mais confortável, mas se recusou a soltá-la. Quando ela deitou a cabeça no ombro dele, Gambit intensificou o aperto.         

Após o conflito inicial, Vampira tristemente percebeu que, por algum motivo que não conseguia compreender inteiramente, aquele gesto doeu nela. Entretanto, a sensação onírica fê-la pôr de lado qualquer orgulho infundado que sentia no momento e se deixou perder; tornou-se seu catalizador. Apenas no fundo querendo acreditar que ele precisava dela e não de alguém.

xXxXx

Glossário:

Bonjour – Bom dia

Ma belle Nouvelle-Orléans– Minha bela Nova Orleans 

Reste encore... juste un peu –Fica... só mais um pouco



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